"A apresentação dos resultados da avaliação das Unidades de I&D pela
Fundação para a Ciência e Tecnologia (FCT) em vésperas de Natal demonstra que
nada há de respeitável, ou honroso neste triste acontecimento. Abalado pelas
inúmeras irregularidades, que motivou mesmo a nossa participação ao Ministério
Público, cercado por várias denúncias públicas que incluíam falhas nos textos de
avaliação, "avaliadores" sem currículo no campo que avaliam, quotas
pré-estabelecidas, que motivaram a apresentação de reclamação por mais de uma
centena de unidades, críticas por parte de investigares seniores, bem como CRUP,
o que resta é uma posição politizada e extremada, de quem crê que a força tudo
pode, sem perceber que esse é o gesto da inscrição da sua própria impotência. A
própria European Science Foundation (ESF) parece agora mais longínqua na sua
associação a este processo. A conferência de imprensa final mostrou o isolamento
da Secretária de Estado da Ciência e do Presidente da FCT. Há quem pense que o
processo está concluído, e que o sistema foi finalmente podado. Poucos são os
que se sentem confortáveis em associar-se despudoradamente a este processo
poluto. Apesar de alguns ajustes que parecem ter sido feitos para calar alguns,
este processo continuar a ser uma mancha para o sistema científico
nacional."
quarta-feira, 7 de janeiro de 2015
Maior do que o qual nada pode ser pensado
Muitos viajantes se cruzaram certamente com ele, sem fazer ideia da importância que viria a ter na filosofia europeia. Nascido em 1033, abandonou a casa do pai, com quem nunca se deu bem, depois da morte da mãe. E foi assim que em 1056, com apenas vinte e três anos, Anselmo — mais tarde Bispo da Cantuária, canonizado em 1163 — se entregou a uma viagem de mais de setecentos quilómetros, de Aosta, na sua Itália natal, em direcção à actual França.
O seu objectivo era algo indefinido, o que não é invulgar quando se tem a sua idade: oscilava entre a atracção que sentia pela vida monástica e por uma carreira intelectual. Mas as duas opções não eram incompatíveis: no seu tempo, uma parte importante da vida intelectual ocorria sob a protecção dos muros dos mosteiros, com as suas ricas bibliotecas. E era no mosteiro beneditino de Bec, na Normandia, que estava o italiano Lanfranc (1005-1089), famoso pela sua sapiência e ensino, de quem Anselmo pretendia receber instrução. Pôs, por isso, pés a caminho em direcção a Bec e a Lanfranc.
Idade das trevas?
O mundo em que Anselmo vivia era tumultuoso. Sob a aparente complacência dos ritmos feudais escondia-se um conturbado reajuste político entre reis, imperadores e poderes eclesiásticos. Dois anos antes de Anselmo pôr pés a caminho, o papa católico Leão IX e o patriarca de Constantinopla, Miguel Cerulário, tinham-se excomungado entre si, marcando assim o grande cisma cristão, que dura até hoje, entre a igreja católica e a ortodoxa.
Além disso, há muito que tinham desaparecido os centros de investigação da Antiguidade grega e romana. As escolas de filosofia gregas tinham sido extintas há cerca de quinhentos anos; a Biblioteca de Alexandria, que era igualmente um centro de estudos, e não apenas um repositório de livros, fora destruída há trezentos anos.
Das cinzas da civilização clássica europeia, começavam a despontar os grandes centros de estudo da Europa medieval. A primeira universidade propriamente dita, com diferentes áreas de estudo, foi fundada na Itália, em Bolonha, em 1088, quando Anselmo tinha cinquenta e cinco anos. Seguiu-se-lhe a Universidade de Paris, fundada primeiramente em 1150, e a Universidade de Oxford, pouco depois.
Porque se aceita acriticamente a rejeição da cultura medieval promovida pelos modernos, a investigação filosófica e científica ocorrida desde o tempo de Anselmo até ao despontar do mundo moderno, por volta do séc. XVII, é muitas vezes negligenciada. Em 1328, por exemplo, o Doctor Profundus, Thomas Bradwardine (1290-1349), apresentou o primeiro tratamento matemático do movimento, no Tratado das Proporções ou sobre as Proporções das Velocidades no Movimento; e João Buridano (1300-1358) desenvolveu a teoria do ímpeto, crucial para o desenvolvimento da física. O primeiro modelo heliocêntrico do universo, por outro lado, não é um produto da cultura moderna: foi proposto por Nicolau Oresme (1320-1382). E as cartas de navegação, que teriam sido muitíssimo úteis aos gregos e romanos da antiguidade, surgiram igualmente em plena idade média, em 1270.
Anselmo em busca da compreensão
Anselmo teve um papel crucial no desenvolvimento da filosofia medieval, sendo considerado o primeiro escolástico — termo que ainda hoje, nas zonas mais débeis da cultura, é entendido pejorativamente, por influência dos modernos. Insistindo na importância da expressão clara e do rigor, Anselmo afastou-se definitivamente do misticismo neoplatónico, na altura dominante, com origem em Plotino (205-270).
Chegado a Bec, em 1059, Anselmo fez os seus votos monásticos e foi como monge que escreveu as obras que viriam a torná-lo influente e famoso durante séculos: Monologion (monólogo) e Proslogion (termo inventado por Anselmo, que afirma significar “discurso apresentado a outrem”).
O estilo das duas obras é bastante diferente, apesar de em ambos os casos se tratar de descobrir as razões a favor da crença em Deus. Porém, enquanto a primeira é uma argumentação directa, sem adornos, a segunda é como que uma oração, uma súplica a Deus para que este permita ao crente compreender a sua fé. Os títulos alternativos das duas obras são reveladores: à primeira deu Anselmo o título “Cânone para meditar sobre as razões da fé”; e à segunda “A fé em busca da compreensão”, uma expressão que colheu de Agostinho.
O argumento ontológico
Os medievais conheciam o argumento a favor da existência de Deus que Anselmo apresentou na segunda das obras mencionadas simplesmente como argumentum Anselmi: o argumento de Anselmo. Mas Kant chamou-lhe argumento ontológico, designação que se tornou comum.
O termo “ontologia” deriva dos termos gregos to on e ontos que significam aproximadamente “o que algo é” ou “o ser de algo”. O adjectivo “ontológico” é usado em filosofia para falar da natureza última das coisas, e o substantivo designa uma subdisciplina filosófica que trata de estabelecer as categorias mais gerais da realidade.
O argumento ontológico tem esta designação porque parte de uma reflexão sobre a natureza última desse ser hipotético a que chamamos Deus, e conclui, nessa base apenas, e sem apelar para quaisquer outros factos sobre a realidade, que esse ser existe. Este argumento contrasta assim com dois outros grupos de argumentos tradicionais a favor da existência de Deus, denominados “argumentos do desígnio” e “argumentos cosmológicos”.
O termo “cosmologia” poderá ser surpreendente neste contexto, se pensarmos apenas na cosmologia científica do séc. XX. Mas a cosmologia, enquanto teoria sobre a estrutura geral do cosmos, existia muito antes da recente cosmologia científica. Os argumentos cosmológicos a favor da existência de Deus pretendem concluir que Deus existe com base em certos aspectos da estrutura geral do cosmos.
Tanto os argumentos do desígnio como os cosmológicos partem de alguns factos sobre a realidade espácio-temporal e concluem que sem a hipótese de Deus não se consegue explicá-los adequadamente. Precisamente porque estes argumentos incluem informações empíricas, são denominados argumentos a posteriori. Isto contrasta com os argumentos ontológicos, cujas premissas podem ser conhecidas exclusivamente com base no pensa-mento, recebendo por isso a designação de argumentos a priori.
Redução ao absurdo
Há diferentes versões de argumentos ontológicos a favor da existência de Deus. A versão de Anselmo é um tipo de raciocínio já conhecido na Antiguidade grega a que se chama redução ao absurdo, ou reductio ad absurdum, em latim. Raciocinar ou argumentar por redução ao absurdo é partir do oposto do que queremos estabelecer e mostrar que dessa hipótese se conclui correctamente uma contradição: um absurdo. O que fizemos foi mostrar que aceitar tal hipótese obrigaria a aceitar uma contradição. Se agora quisermos rejeitar a contradição, teremos de rejeitar a hipótese de partida.
O cogito de Descartes pode ser apresentado como uma redução ao absurdo. Aceite-se a hipótese de que todas as minhas crenças são falsas: há um génio maligno que me engana constantemente. Daqui conclui-se correcta-mente que é falsa a minha crença de que existo. Mas para o génio maligno me poder enganar, para que eu tenha crenças falsas, é preciso que eu exista. Logo, é verdadeira a minha crença de que existo. Eis a contradição: fomos levados a concluir que uma mesma crença (“eu existo”) é verdadeira e falsa. Se agora quisermos rejeitar esta contradição, teremos de rejeitar a hipótese de partida: a hipótese de que todas as minhas crenças são falsas, sendo produzidas por um génio maligno que me engana constantemente.
Eis outro exemplo deste género de raciocínio. Imagine o leitor que o seu amigo crê que não há verdades: tudo é ilusão. Perplexo com tal posição, o leitor começa por aceitá-la, procurando mostrar que dela se conclui correctamente uma contradição, para então a negar. E isso não é difícil fazer, pois se não há verdades, é verdade que não há verdades. Eis a contradição: por um lado não há verdades, mas por outro é verdade que não há verdades. Para rejeitar esta contradição, o leitor nega a hipótese de partida, a crença do seu amigo de que não há verdades, e conclui que há verdades.
Refutar o insensato
Anselmo procura mostrar que o insensato bíblico, que diz no seu coração que Deus não existe (Salmos 14 e 53), também se contradiz, como o amigo do leitor. A natureza de Deus é tal que a hipótese da sua inexistência é contraditória. E que natureza é essa? Deus, considera Anselmo, é um ser de tal modo grandioso que não conseguimos conceber outro que seja ainda mais grandioso.
Anselmo formula esta ideia usando uma expressão que ficou famosa: Deus é o ser maior do que o qual nada pode ser pensado. Contudo, Anselmo não tem em mente a grandeza física, mas antes a grandiosidade, excelência ou esplendor. A ideia é que Deus é o mais excelente dos seres, ou o mais grandioso; tão grandioso, que a hipótese da sua inexistência implica uma contradição:
O insensato admite que as pessoas pensam em Deus, ainda que este não exista realmente. Isto significa que Deus existe no pensamento ou entendimento, ainda que não exista na realidade. O mesmo se pode dizer de qualquer ficção: é algo que existe no pensamento ou entendimento do seu criador — um romancista, por exemplo — mas não existe na realidade. E é isto que o insensato pensa que é Deus: uma mera ficção.
Contudo, Deus é por definição aquele ser, seja ele qual for, exista ou não, que é tão grandioso que é impossível conceber outro que seja ainda mais grandioso. E o insensato aceita também esta ideia — apenas continua a insistir que esse ser é uma fantasia, não existindo na realidade.
Ora, é aqui que Anselmo desfere o seu golpe mortal. Se Deus existisse apenas no entendimento, poderia haver outro ser, exactamente como ele, mas que existisse também na realidade. Este ser seria certamente mais grandioso do que Deus, pois teria existência real, o que é certamente uma excelência.
Se virmos bem, chegámos a uma contradição. Isto porque admitimos que Deus é por definição o ser mais grandioso do que o qual nenhum pode ser pensado, e depois pensámos num ser mais grandioso do que Deus. Para negar esta contradição, rejeitamos a hipótese de partida: a ideia do insensato de que Deus, o ser mais grandioso do que o qual nada pode ser pensado, não existe. Logo, Deus existe.
Excerto do meu livro Sete Ideias Filosóficas que Toda a Gente Deveria Conhecer (Bizâncio, 2011): versão tradicional e versão Kindle.
O seu objectivo era algo indefinido, o que não é invulgar quando se tem a sua idade: oscilava entre a atracção que sentia pela vida monástica e por uma carreira intelectual. Mas as duas opções não eram incompatíveis: no seu tempo, uma parte importante da vida intelectual ocorria sob a protecção dos muros dos mosteiros, com as suas ricas bibliotecas. E era no mosteiro beneditino de Bec, na Normandia, que estava o italiano Lanfranc (1005-1089), famoso pela sua sapiência e ensino, de quem Anselmo pretendia receber instrução. Pôs, por isso, pés a caminho em direcção a Bec e a Lanfranc.
Idade das trevas?
O mundo em que Anselmo vivia era tumultuoso. Sob a aparente complacência dos ritmos feudais escondia-se um conturbado reajuste político entre reis, imperadores e poderes eclesiásticos. Dois anos antes de Anselmo pôr pés a caminho, o papa católico Leão IX e o patriarca de Constantinopla, Miguel Cerulário, tinham-se excomungado entre si, marcando assim o grande cisma cristão, que dura até hoje, entre a igreja católica e a ortodoxa.
Além disso, há muito que tinham desaparecido os centros de investigação da Antiguidade grega e romana. As escolas de filosofia gregas tinham sido extintas há cerca de quinhentos anos; a Biblioteca de Alexandria, que era igualmente um centro de estudos, e não apenas um repositório de livros, fora destruída há trezentos anos.
Das cinzas da civilização clássica europeia, começavam a despontar os grandes centros de estudo da Europa medieval. A primeira universidade propriamente dita, com diferentes áreas de estudo, foi fundada na Itália, em Bolonha, em 1088, quando Anselmo tinha cinquenta e cinco anos. Seguiu-se-lhe a Universidade de Paris, fundada primeiramente em 1150, e a Universidade de Oxford, pouco depois.
Porque se aceita acriticamente a rejeição da cultura medieval promovida pelos modernos, a investigação filosófica e científica ocorrida desde o tempo de Anselmo até ao despontar do mundo moderno, por volta do séc. XVII, é muitas vezes negligenciada. Em 1328, por exemplo, o Doctor Profundus, Thomas Bradwardine (1290-1349), apresentou o primeiro tratamento matemático do movimento, no Tratado das Proporções ou sobre as Proporções das Velocidades no Movimento; e João Buridano (1300-1358) desenvolveu a teoria do ímpeto, crucial para o desenvolvimento da física. O primeiro modelo heliocêntrico do universo, por outro lado, não é um produto da cultura moderna: foi proposto por Nicolau Oresme (1320-1382). E as cartas de navegação, que teriam sido muitíssimo úteis aos gregos e romanos da antiguidade, surgiram igualmente em plena idade média, em 1270.
Anselmo em busca da compreensão
Anselmo teve um papel crucial no desenvolvimento da filosofia medieval, sendo considerado o primeiro escolástico — termo que ainda hoje, nas zonas mais débeis da cultura, é entendido pejorativamente, por influência dos modernos. Insistindo na importância da expressão clara e do rigor, Anselmo afastou-se definitivamente do misticismo neoplatónico, na altura dominante, com origem em Plotino (205-270).
Chegado a Bec, em 1059, Anselmo fez os seus votos monásticos e foi como monge que escreveu as obras que viriam a torná-lo influente e famoso durante séculos: Monologion (monólogo) e Proslogion (termo inventado por Anselmo, que afirma significar “discurso apresentado a outrem”).
O estilo das duas obras é bastante diferente, apesar de em ambos os casos se tratar de descobrir as razões a favor da crença em Deus. Porém, enquanto a primeira é uma argumentação directa, sem adornos, a segunda é como que uma oração, uma súplica a Deus para que este permita ao crente compreender a sua fé. Os títulos alternativos das duas obras são reveladores: à primeira deu Anselmo o título “Cânone para meditar sobre as razões da fé”; e à segunda “A fé em busca da compreensão”, uma expressão que colheu de Agostinho.
O argumento ontológico
Os medievais conheciam o argumento a favor da existência de Deus que Anselmo apresentou na segunda das obras mencionadas simplesmente como argumentum Anselmi: o argumento de Anselmo. Mas Kant chamou-lhe argumento ontológico, designação que se tornou comum.
O termo “ontologia” deriva dos termos gregos to on e ontos que significam aproximadamente “o que algo é” ou “o ser de algo”. O adjectivo “ontológico” é usado em filosofia para falar da natureza última das coisas, e o substantivo designa uma subdisciplina filosófica que trata de estabelecer as categorias mais gerais da realidade.
O argumento ontológico tem esta designação porque parte de uma reflexão sobre a natureza última desse ser hipotético a que chamamos Deus, e conclui, nessa base apenas, e sem apelar para quaisquer outros factos sobre a realidade, que esse ser existe. Este argumento contrasta assim com dois outros grupos de argumentos tradicionais a favor da existência de Deus, denominados “argumentos do desígnio” e “argumentos cosmológicos”.
O termo “cosmologia” poderá ser surpreendente neste contexto, se pensarmos apenas na cosmologia científica do séc. XX. Mas a cosmologia, enquanto teoria sobre a estrutura geral do cosmos, existia muito antes da recente cosmologia científica. Os argumentos cosmológicos a favor da existência de Deus pretendem concluir que Deus existe com base em certos aspectos da estrutura geral do cosmos.
Tanto os argumentos do desígnio como os cosmológicos partem de alguns factos sobre a realidade espácio-temporal e concluem que sem a hipótese de Deus não se consegue explicá-los adequadamente. Precisamente porque estes argumentos incluem informações empíricas, são denominados argumentos a posteriori. Isto contrasta com os argumentos ontológicos, cujas premissas podem ser conhecidas exclusivamente com base no pensa-mento, recebendo por isso a designação de argumentos a priori.
Redução ao absurdo
Há diferentes versões de argumentos ontológicos a favor da existência de Deus. A versão de Anselmo é um tipo de raciocínio já conhecido na Antiguidade grega a que se chama redução ao absurdo, ou reductio ad absurdum, em latim. Raciocinar ou argumentar por redução ao absurdo é partir do oposto do que queremos estabelecer e mostrar que dessa hipótese se conclui correctamente uma contradição: um absurdo. O que fizemos foi mostrar que aceitar tal hipótese obrigaria a aceitar uma contradição. Se agora quisermos rejeitar a contradição, teremos de rejeitar a hipótese de partida.
O cogito de Descartes pode ser apresentado como uma redução ao absurdo. Aceite-se a hipótese de que todas as minhas crenças são falsas: há um génio maligno que me engana constantemente. Daqui conclui-se correcta-mente que é falsa a minha crença de que existo. Mas para o génio maligno me poder enganar, para que eu tenha crenças falsas, é preciso que eu exista. Logo, é verdadeira a minha crença de que existo. Eis a contradição: fomos levados a concluir que uma mesma crença (“eu existo”) é verdadeira e falsa. Se agora quisermos rejeitar esta contradição, teremos de rejeitar a hipótese de partida: a hipótese de que todas as minhas crenças são falsas, sendo produzidas por um génio maligno que me engana constantemente.
Eis outro exemplo deste género de raciocínio. Imagine o leitor que o seu amigo crê que não há verdades: tudo é ilusão. Perplexo com tal posição, o leitor começa por aceitá-la, procurando mostrar que dela se conclui correctamente uma contradição, para então a negar. E isso não é difícil fazer, pois se não há verdades, é verdade que não há verdades. Eis a contradição: por um lado não há verdades, mas por outro é verdade que não há verdades. Para rejeitar esta contradição, o leitor nega a hipótese de partida, a crença do seu amigo de que não há verdades, e conclui que há verdades.
Refutar o insensato
Anselmo procura mostrar que o insensato bíblico, que diz no seu coração que Deus não existe (Salmos 14 e 53), também se contradiz, como o amigo do leitor. A natureza de Deus é tal que a hipótese da sua inexistência é contraditória. E que natureza é essa? Deus, considera Anselmo, é um ser de tal modo grandioso que não conseguimos conceber outro que seja ainda mais grandioso.
Anselmo formula esta ideia usando uma expressão que ficou famosa: Deus é o ser maior do que o qual nada pode ser pensado. Contudo, Anselmo não tem em mente a grandeza física, mas antes a grandiosidade, excelência ou esplendor. A ideia é que Deus é o mais excelente dos seres, ou o mais grandioso; tão grandioso, que a hipótese da sua inexistência implica uma contradição:
“Assim, mesmo o insensato tem de admitir que algo maior do que o qual nada pode ser pensado existe pelo menos no seu entendimento, dado que ele o entende quando o ouve, e o que é entendido existe no entendimento. E certamente que aquilo maior do que o qual nada pode ser pensado não pode existir apenas no entendimento. Pois se existisse apenas no entendimento, poder-se-ia pensar que existia na realidade também, o que seria ainda maior. Logo, se aquilo maior do que o qual nada pode ser pensado existe apenas no entendimento, então a própria coisa maior do que a qual nada pode ser pensado é algo maior do que o qual algo pode ser pensado. Mas isto é claramente impossível. Logo, não há dúvida de que o maior do que o qual nada pode ser pensado tanto existe no entendimento como na realidade”. (Proslogion, Cap. 2, p. 82)O texto de Anselmo é maravilhosamente claro, preciso e directo, mas sofisticado. Acompanhemos o seu pensamento, passo a passo, com a mesma solicitude com que Anselmo percorreu mais de setecentos quilómetros em busca da compreensão.
O insensato admite que as pessoas pensam em Deus, ainda que este não exista realmente. Isto significa que Deus existe no pensamento ou entendimento, ainda que não exista na realidade. O mesmo se pode dizer de qualquer ficção: é algo que existe no pensamento ou entendimento do seu criador — um romancista, por exemplo — mas não existe na realidade. E é isto que o insensato pensa que é Deus: uma mera ficção.
Contudo, Deus é por definição aquele ser, seja ele qual for, exista ou não, que é tão grandioso que é impossível conceber outro que seja ainda mais grandioso. E o insensato aceita também esta ideia — apenas continua a insistir que esse ser é uma fantasia, não existindo na realidade.
Ora, é aqui que Anselmo desfere o seu golpe mortal. Se Deus existisse apenas no entendimento, poderia haver outro ser, exactamente como ele, mas que existisse também na realidade. Este ser seria certamente mais grandioso do que Deus, pois teria existência real, o que é certamente uma excelência.
Se virmos bem, chegámos a uma contradição. Isto porque admitimos que Deus é por definição o ser mais grandioso do que o qual nenhum pode ser pensado, e depois pensámos num ser mais grandioso do que Deus. Para negar esta contradição, rejeitamos a hipótese de partida: a ideia do insensato de que Deus, o ser mais grandioso do que o qual nada pode ser pensado, não existe. Logo, Deus existe.
Excerto do meu livro Sete Ideias Filosóficas que Toda a Gente Deveria Conhecer (Bizâncio, 2011): versão tradicional e versão Kindle.
Eight New Planets Found in Habitable Zone http://t.co/WxQsy5Sugg
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— Desidério Murcho (@dmurcho) January 7, 2015
terça-feira, 6 de janeiro de 2015
Infelizmente, não estamos sós
Não somos apenas nós, portugueses, que nos preocupamos com as escolhas curriculares e com o que elas deixam de fora ou contemplam pela rama.
Ainda em relação à Cultura e Línguas da Antiguidade tive conhecimento de uma carta que, recentemente, em Novembro passado, a Coordenação Nacional das Associações Regionais de Ensino das Línguas Antigas (CNARELA) enviou à Ministra da Éducation Nationale de l’Enseignement Supérieur et de la Recherche de França, na qual se reitera um antigo apelo à tutela: que dê atenção à situação muitíssimo difícil em que se encontra a aprendizagem, o ensino e a formação de professores desta área.
Ainda em relação à Cultura e Línguas da Antiguidade tive conhecimento de uma carta que, recentemente, em Novembro passado, a Coordenação Nacional das Associações Regionais de Ensino das Línguas Antigas (CNARELA) enviou à Ministra da Éducation Nationale de l’Enseignement Supérieur et de la Recherche de França, na qual se reitera um antigo apelo à tutela: que dê atenção à situação muitíssimo difícil em que se encontra a aprendizagem, o ensino e a formação de professores desta área.
Srečko Kosovel (18 Março 1904 – 26 Maio 1926)
S. Kosovel nasceu em Sežana, cidade eslovena nos
arredores de Trieste. Influenciado pelo expressionismo germânico e pelo
construtivismo russo, Kosovel faz parte de um grupo restrito de poetas (com G. Apollinaire,
Jacques Vaché…) que pintou fidedignamente a sociedade europeia da primeira
grande guerra.
CONS:CONS:CONS
O luar é sobremesa fria.
Inane como as canções dos trovadores.
É prazenteiro para se sentar à sombra
da noite.
Latrina, Mictório. Aqui.
O homem atrás da porta, o que é que
ele procura?
Ele permanece como uma sombra
atrás da porta translúcida
do luar.
O luar sobre os campos
é como a tristeza petrificada...
Seu corpo cintila
à luz do luar.
Cons: XY
Circo Kludsky; 3 dinares para ver.
Ela está sorrindo: hi hi hi.
Os corações humanos são pequenos e as
prisões enormes,
Pelos corações humanos eu gostaria de
navegar.
Tu pertences a esta ou aquela ideia?
Mil dinares ou 7 dias na prisão.
As flores no meu coração não choram
mais.
Quem quer ser jovem e sem ânimo.
Como se um polícia voltasse através
da porta.
Golpe-de-misericórdia, para ti há o
internamento.
Flores permanecem a sós nessas horas
más.
Polícia, seus olhos são como farpas,
néscio e mediano. (fechem os olhos,
flores!)
Gandhi foi preso por seis extensos
anos.
Cons:
Z
O acordeão melancólico.
Tempo de nadar.
Relâmpagos azuis.
Sapatos, tamanho 40.
Ístria está a morrer.
O mar.
A Europa está a morrer.
Desportos, a economia, política.
Japão versus Rússia.
NOVA CULTURA.
Nova cultura: humanitarismo.
Novas políticas: humanitarismo.
Nova arte: para homem.
Está próxima a hora da morte da
Europa.
Benze-a com Ha2 SO4.
A hora do sofrimento.
Uma cortina abriu um novo mundo.
Nota:H2SO4
Cons: 5
Trampa é ouro
e ouro é trampa.
Ambos = 0
0 = ∞
∞ = 0
AB <
1, 2, 3.
Quem não possui alma
não necessita de ouro.
Quem possui alma
não precisa de trampa.
I,A
segunda-feira, 5 de janeiro de 2015
TOP 100 DE AUTORES PORTUGUESES NA BIBLIOTECA PÚBLICA MUNICIPAL DO PORTO
A Biblioteca Pública Municipal do Porto é uma das maiores bibliotecas portuguesas (tem depósito legal). Apresento top 100 dos autores portugueses do seu catálogo, preparada pelo bibliotecário Adriano Simões da Silva. Não há exemplares repetidos, embora possa haver várias edições do mesmo livro (os 3 primeiros lugares e a alguns outros são específicos daquela biblioteca por ela conter espólios, com manuscritos, daqueles autores). Confesso que fiquei surpreendido por estar no lugar 74 e muito mais acima se considerarmos só os autores vivos.
Os Autores são ordenados de acordo com o nº de registos (livros, manuscritos, etc.) no catálogo online da Biblioteca Pública Municipal do Porto (disponível em http://bibliotecas.cm-porto.pt/), pelo que não é um TOP da BPMP (mas apenas do que está informatizado). Devem falhar Autores porque este TOP foi feito à mão… e não ex machina...1º BRUNO, Sampaio, pseud. 4688 livros possuídos(em 2015 são as comemorações do Centenário do antigo Dir. da BPMP)2º SERPA, Alberto de, 1906-1992 3423 manuscritos e livros3º FIGUEIREDO, Antero de, 1866-1953 2218 manuscritos =(catalogados pela Drª Adelaide Meireles, dos Reservados, a partir de 1988)4º QUEIRÓS, Eça de, 1845-1900 866(é o 1º autor sem incluir os autores representados nos Legados da BPMP)5º PASSOS, Carlos de, 1890-1958 763 manuscritos6º SANCEAU, Eliane, 1876-1978 749 manuscritos7º CASTELO BRANCO, Camilo, 1825-1890 7148º PESSOA, Fernando, 1888-1935 7109º SIMÕES, João Gaspar, 1903-1987 635 manuscritos10º NOBRE, António, 1867-1900 506 manuscritos e livros(manuscritos catalogados pela Drª Adelaide Meireles, dos Reservados em 1997 e 1998)11º MENÉRES, Maria Alberta, 1930- 48112º LETRIA, José Jorge, 1951- 47713º GARRETT, Almeida, 1799-1854 44214º SARAMAGO, José, 1922-2010 41915º ANDRESEN, Sofia de Melo Breyner, 1919-2004 386 livros e manuscritos16º CAMÕES, Luís de, 1524?-1580 38017º CARNEIRO, Cláudio, 1895-1963 369 manuscritos =(catalogados pela Drª Adelaide Meireles, dos Reservados, em 1995 e 1996)18º TORRADO, António, 1939- 34519º FERREIRA, Pedro Augusto, 1833-1913 323 manuscritos, etc.20º DINIS, Júlio, pseud. 32221º RODRIGUES, Urbano Tavares, 1923-2013 31922º NEMÉSIO, Vitorino, 1901-1978 318 livros e manuscritos23º SENA, Jorge de, 1919-1978 31824º LUÍS, Agustina Bessa, 1922- 31725º FERREIRA, Vergílio, 1916-1996 30426º VICENTE, Gil, 1465?-1537 30327º MONTEIRO, Adolfo Casais, 1908-1972 293 manuscritos28º RÉGIO, José, pseud. 29229º VIEIRA, Alice, 1943- 27930º RIBEIRO, Aquilino, 1885-1963 27031º ANDRADE, Eugénio de, pseud. 26132º NAMORA, Fernando, 1919-1989 25733º MOURA, Vasco Graça, 1942-2014 24734º REIS, António do Carmo, 1942- 24735º FRANÇA, José Augusto, 1922- 24336º OLIVEIRA, Marques de, 1853-1927 243 manuscritos, etc.37º FERREIRA, David Mourão, 1927-1996 23638º MOREIRA, Adriano, 1922- 22339º BOTO, António, 1897-1959 21940º TELES, Basílio, 1856-1923 219 manuscritos41º BRANDÃO, Raul, 218 manuscritos(Vasco Rosa desafiou a C.M.P. a divulgar o seu espólio pelo Centenário)42º PASCOAIS, Teixeira de, pseud. 215 man. disponíveis online43º TORGA, Miguel, pseud. 21144º ANTUNES, António Lobo, 1942- 20745.º FEIJÓ, Álvaro, 1916-1941 207 manuscritos46º OGANDO, Alice, 1900-1981 20447º SERRÃO, Joaquim Veríssimo, 1925- 20348º ROSA, António Ramos, 1924-2013 20149.º COUTINHO, Gago, 1869-1959 201 manuscritos50º GRAVE, João, 1872-1934 200 manuscritos, livros, etc.(escritor e 11º Diretor da BPMP de 1915 a 1934)51.º MATOSO, José, 1933- 20052º SANTOS, José Rodrigues dos, 1964- 19953º HERCULANO, Alexandre, 1810-1877 191 manuscritos(foi o primeiro 2º Bibliotecário da BPMP, de 17 jul.1833 a 22 out.1836)54º LEITÃO, Helder Martins 18355º MIGUÉIS, José Rodrigues, 1901-1980 18156º VIANA, António Manuel Couto, 1923-2010 18157º CORREIA, Clara Pinto, 1960- 17958º SOARES, Mário, 1924- 17459º JÚDICE, Nuno, 1949- 17260º BARROS, João de, 1881-1960 171 manuscritos61º ALEGRE, Manuel, 1936- 17062º CARNEIRO, António, 1872-1930 168 manuscritos63.º SAMPAIO, Daniel, 1946- 168
64º TAVARES, Miguel Sousa, 1952- 16365º PIRES, José Cardoso, 1925-1998 16166º PINTO, Margarida Rebelo, 1956- 15867º VIEIRA, António, 1608-1697 15568º SOUSA, Marcelo Rebelo de, 1948- 15469º BARRENTO, João, 1940- 15470º FERREIRA, Leyguarda, 1897-1965? 15471º CLÁUDIO, Mário, pseud. 153 (72º PENHA, João, 1839-1919 15173º SÉRGIO, António, 1883-1969 14874º FIOLHAIS, Carlos, 1956- 14675º LIMA, Fernando de Castro Pires de, 1908-1973 14476º CASTRO, Ferreira de, 1898-1974 14377º CIDADE, Hernâni, 1887-1975 14178º CARNEIRO, Mário de Sá, 1890-1916 14079º QUADROS, António, 1923-1993 13680º MARTINS, Oliveira, 1845-1894 13681º GONÇALVES, Egito, 1920-2001 13682º CORTESÃO, Jaime, 1884-1960 13283º SERRÃO, Joel, 1919-2008 13084º BAPTISTA, António Alçada, 1927-2008 12985º SILVA, Agostinho da, 1906-1994 12986º ESPANCA, Florbela, 1894-1930 12687º REDOL, Alves, 1911-1969 12388º CRUZ, António, 1911-1989 123(historiador e Diretor da BPMP de 1947 a 1975)89º JUNQUEIRO, Guerra, 1850-1923 12290.º FERNANDES, Abílio, 1906-1994 12291º PINHARANDA, João, 1957- 11992º MALPIQUE, Cruz, 1902-1992 118 artigos93.º REBELO, Luís Francisco, 1924-2011 11894º COELHO, Eduardo Prado, 1944-2007 11695.º RIPADO, Mário F. Bento 11696º BASTOS, Batista, 1934- 11597.º GUIMARÃES, Fernando, 1928- 11598º PEDROSA, Inês, 1962- 11499º JORGE, Lídia, 1946- 113100.º CORREIA, Alberto, 1882-1949 113(manuscritos catalogados pela Drª Adelaide Meireles, dos Reservados, em 1998)
domingo, 4 de janeiro de 2015
O problema da escolha curricular
Em comentário ao texto Levar o latim às escolas, o leitor Carlos Pires faz notar que não é apenas a área disciplinar da Cultura e Línguas Clássicas que corre o risco de ser afastada ou desvirtuada nos sistemas de ensino, a História e a Filosofia correm igual risco. Acrescento, todas as Artes. E, acrescento, também, as vertentes das Ciências para as quais não se vislumbre (um certo tipo de) funcionalidade.
Entendo que o problema da escolha curricular não está tanto numa preferência pelas Ciências em detrimento das Humanidades e das Artes, mas no "valor do conhecimento" que guia.
Efectivamente, a análise curricular deixa perceber a falta a referência ao seu "valor intrínseco". Saber por saber, porque o saber existe, é uma ideia ausente das directrizes e orientações para os vários patamares e vertentes de escolaridade. Sobressai o seu "valor instrumental" ou, melhor, uma vertente deste: a que remete para a resolução de situações familiares, do dia-a-dia, muitas delas ligadas ao mundo laboral (em detrimento da que remete para o desenvolvimento de capacidades de pensamento, traduzidas, naturalmente, em acção).
A relação entre estes dois tipos de valor não tem ser de ordem antinómica: o conhecimento a que se imputa "valor em si" não exclui o conhecimento a que se imputa "valor instrumental" e vice-versa. Porém, não é isso que tem acontecido. Como consequência de uma "batalha" sem sentido, em que muitos ficam a perder, o valor instrumental (sobretudo de carácter social e pessoal) tem sido imposto. Imposição que, verdade seja dita, tem tido um acolhimento muito confortável por parte da comunidade em geral e dos educadores em particular. Sinais dos tempos, sem dúvida.
Nesta linha, tem-se entendido que são as Ciências que melhor cumprem tal desígnio e daí a sua sobreposição relativamente às Humanidades e às Artes, mas, aprofundando, vemos que elas têm sido depuradas em função desse tipo de valor. Mais: se dermos a mesma atenção às duas outras áreas vemos que a sua legitimação passa igualmente pela função social e pessoal que possam ter. Parafraseando Manuel Rocha, as Humanidades e as Artes servem para tudo menos para aprender Humanidades e Artes.
Esta nota a propósito da reintrodução do Latim em diversos sistemas de ensino. Estou de acordo com isso, claro; neste blogue há muito que manifesto preocupação pelo seu afastamento do currículo. Mas a razão que vejo invocada é sobretudo a da "serventia": o Latim ajuda a escrever melhor e a estruturar o pensamento e isso permite aos países e às escolas obterem melhor posição nas avaliações externas e internas. É uma razão muito redutora e, confesso que não me agrada que apareça sozinha.
Mas não são apenas os responsáveis por políticas e medidas educativas que despertam para os milagres que esta língua possa fazer, os pedagogos, os psicólogos e os neurocientistas acompanha-nos e passam a reconhecer-lhe facetas terapêuticas e de desenvolvimento da inteligência (um artigo interessante sobre esta tendência pode ser lido aqui). Ainda que somando esta razão àquela, continuo a considerar que falta reconhecer uma vertente valorativa fundamental ao conhecimento clássico.
E a todo o outro conhecimento, bem entendido...
Entendo que o problema da escolha curricular não está tanto numa preferência pelas Ciências em detrimento das Humanidades e das Artes, mas no "valor do conhecimento" que guia.
Efectivamente, a análise curricular deixa perceber a falta a referência ao seu "valor intrínseco". Saber por saber, porque o saber existe, é uma ideia ausente das directrizes e orientações para os vários patamares e vertentes de escolaridade. Sobressai o seu "valor instrumental" ou, melhor, uma vertente deste: a que remete para a resolução de situações familiares, do dia-a-dia, muitas delas ligadas ao mundo laboral (em detrimento da que remete para o desenvolvimento de capacidades de pensamento, traduzidas, naturalmente, em acção).
A relação entre estes dois tipos de valor não tem ser de ordem antinómica: o conhecimento a que se imputa "valor em si" não exclui o conhecimento a que se imputa "valor instrumental" e vice-versa. Porém, não é isso que tem acontecido. Como consequência de uma "batalha" sem sentido, em que muitos ficam a perder, o valor instrumental (sobretudo de carácter social e pessoal) tem sido imposto. Imposição que, verdade seja dita, tem tido um acolhimento muito confortável por parte da comunidade em geral e dos educadores em particular. Sinais dos tempos, sem dúvida.
Nesta linha, tem-se entendido que são as Ciências que melhor cumprem tal desígnio e daí a sua sobreposição relativamente às Humanidades e às Artes, mas, aprofundando, vemos que elas têm sido depuradas em função desse tipo de valor. Mais: se dermos a mesma atenção às duas outras áreas vemos que a sua legitimação passa igualmente pela função social e pessoal que possam ter. Parafraseando Manuel Rocha, as Humanidades e as Artes servem para tudo menos para aprender Humanidades e Artes.
Esta nota a propósito da reintrodução do Latim em diversos sistemas de ensino. Estou de acordo com isso, claro; neste blogue há muito que manifesto preocupação pelo seu afastamento do currículo. Mas a razão que vejo invocada é sobretudo a da "serventia": o Latim ajuda a escrever melhor e a estruturar o pensamento e isso permite aos países e às escolas obterem melhor posição nas avaliações externas e internas. É uma razão muito redutora e, confesso que não me agrada que apareça sozinha.
Mas não são apenas os responsáveis por políticas e medidas educativas que despertam para os milagres que esta língua possa fazer, os pedagogos, os psicólogos e os neurocientistas acompanha-nos e passam a reconhecer-lhe facetas terapêuticas e de desenvolvimento da inteligência (um artigo interessante sobre esta tendência pode ser lido aqui). Ainda que somando esta razão àquela, continuo a considerar que falta reconhecer uma vertente valorativa fundamental ao conhecimento clássico.
E a todo o outro conhecimento, bem entendido...
Recordando os Clássicos
Ainda a tempo de aniversário
A 3 de Janeiro do ano 106 a.C. nascia, em Arpino, o grande orador, o mestre da língua latina, Marco Túlio Cícero.
A ele pertencem duas frases muito citadas, ambas dos discursos proferidos no Senado contra Catilina, acusando-o de conspiração:
— Quousque tandem abutere, Catilina, patientia nostra? — Finalmente, até quando, Catilina, abusarás da nossa paciência?
— O tempora, o mores! — Ó tempos, ó costumes!
Daqui nos vem igualmente o termo "catilinária" quando queremos classificar um ataque verbal, violento e feroz, contra alguém: "foi uma verdadeira catilinária".
É também Cícero que afirma, no seu tratado Sobre a Amizade:
"É que a amizade outra coisa não é, com efeito, senão uma mesma maneira de sentir sobre todas as coisas divinas e humanas, acompanhada de um sentimento de estima e de afecto; e de facto não sei se alguma coisa melhor do que ela, com excepção da sabedoria, terá sido concedida ao homem pelos deuses imortais." (trad. de Sebastião Tavares de Pinho, INIC, 1993)
sábado, 3 de janeiro de 2015
Levar o Latim às escolas
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| CATCHING ON: Jennifer Hilder from Glasgow University with pupils from Sacred Heart Primary School in Bridgeton, Glasgow. Picture: Martin Shields Imagem encontrada aqui |
Este é um sinal bem evidente de que a escolaridade elementar ou básica não está a cumprir uma das suas funções mais importantes e estruturantes - a alfabetização -, com inevitáveis consequências na escolaridade secundária e superior.
Muitos têm considerado que a principal causa desta situação é o abandono do estudo do Latim, a matemática da língua. De facto, a partir de finais da década de sessenta do século XX, as disciplinas de Latim e de Grego foram associadas a uma educação elitista, tradicional, antiga, a uma educação contemplativa que apenas servia para maçar os aprendizes. Era preciso renovar o currículo com disciplinas que preparassem para a vida, que permitissem compreender o mundo circundante e que correspondessem às necessidades e interesses das comunidades.
Essa mudança feita com muito entusiasmo e pouco conhecimento pedagógico - o que, tendo em conta, a época se percebe perfeitamente - desencadeou diversos erros e um deles é certamente o abandono das línguas ditas mortas.
Para remediar a situação, alguns sistemas educativos estão a reintroduzi-las no currículo escolar e diversas entidades autónomas arregaçam as mangas e fazem o que podem.
Um exemplo: Professores e estudantes de pós-graduação da Universidade de Glasgow criaram um programa de ensino do Latim que levam a cada vez mais escolas de zonas carenciadas, primeiro primárias e agora também secundárias. Esse programa contempla mitologia e literatura da Antiguidade, história e consciência da língua, gramática e vocabulário... E, sim, parece que os miúdos a quem o programa se destina gostam e aprendem.
Maria Helena Damião e Isaltina Martins
A LUZ DE SOPHIA
Poemas sobre a Luz de Sophia de Mello Andresen (do agradecimentos à Constança Providência pela lembrança):
1
A luz mais que pura
Sobre a terra seca
Exílio
Quando a pátria que temos não a temos
Perdida por silêncio e por renúncia
Até a voz do mar se torna exílio
E a luz que nos rodeia é como grades
De Coral
E só então
E só então saí das minhas trevas:
Abri as minhas mãos como folhagens,
Intacta a luz brotava das paisagens,
Mas na doçura fantástica das coisas
As minhas mãos queimavam-se e morriam.
Dia perfeito, inteiro e luminoso,
Dia presente como a morte, luz
Trespassando os meus olhos de cegueira.
Cada voz, cada gesto, cada imagem
Na exaltação do sol se consumia.
Do Livro Sexto:
Algarve
1
A luz mais que pura
Sobre a terra seca
2
Eu quero o canto o ar a anémona a medusa
O recorte das pedras sobre o mar
Eu quero o canto o ar a anémona a medusa
O recorte das pedras sobre o mar
3
Um homem sobe o monte desenhando
A tarde transparente das aranhas
Um homem sobe o monte desenhando
A tarde transparente das aranhas
4
A luz mais que pura
Quebra a sua lança
A luz mais que pura
Quebra a sua lança
Cigarras
Como o fogo do céu a calma cai
No muro branco as sombras são direitas
A luz persegue cada coisa até
Ao extremo limite do visível
Ouvem-se mais as cigarras que o mar
No muro branco as sombras são direitas
A luz persegue cada coisa até
Ao extremo limite do visível
Ouvem-se mais as cigarras que o mar
Reino
Reino
de medusas e água lisa
Reino de silêncio luz e
pedra
Habitação
das formas espantosas
Coluna
de sal e círculo de luz
Medida
da Balança misteriosa
Labirinto
Sozinha caminhei no labirinto
Aproximei o meu rosto do silêncio e da treva
Para buscar a luz de um dia limpo
Sozinha caminhei no labirinto
Aproximei o meu rosto do silêncio e da treva
Para buscar a luz de um dia limpo
Quando a pátria que temos não a temos
Perdida por silêncio e por renúncia
Até a voz do mar se torna exílio
E a luz que nos rodeia é como grades
De Coral
E só então
E só então saí das minhas trevas:
Abri as minhas mãos como folhagens,
Intacta a luz brotava das paisagens,
Mas na doçura fantástica das coisas
As minhas mãos queimavam-se e morriam.
Dia perfeito, inteiro e luminoso,
Dia presente como a morte, luz
Trespassando os meus olhos de cegueira.
Cada voz, cada gesto, cada imagem
Na exaltação do sol se consumia.
sexta-feira, 2 de janeiro de 2015
Livre-arbítrio e responsabilidade
Informação recebida do Teatro Nacional D. Maria:
6 jan às 19h – entrada livre
Os Encontros Garrett, um espaço onde criadores, cientistas, ensaístas e público comungam na procura de caminhos para o futuro, regressam ao Salão Nobre do TNDM II, em janeiro de 2015.
Estamos habituados a pensar que somos livres para decidir e escolher os nossos atos. Não passará esta certeza de uma ilusão? Experiências na área das neurociências colocam dúvidas sobre a existência do livre-arbítrio, embora não exista consenso dos cientistas e dos filósofos quanto à interpretação dessas mesmas experiências. A discussão sobre este conceito é, aliás, muito antiga. O mais tardar desde Santo Agostinho que a existência do livre-arbítrio tem sido uma questão central na História da Filosofia e da Teologia e, mais recentemente, na História da Ciência. Ao longo do processo histórico, a relação entre livre-arbítrio e responsabilidade tem passado pela discussão sobre a compatibilidade do determinismo e do indeterminismo com o livre-arbítrio.
Somos simultaneamente livres (subjetivamente, no sentido de que a liberdade seria uma prática exigente, o livre arbítrio uma conquista difícil) e não livres (objetivamente, na medida em que somos uma parte da natureza, regidos pelas suas leis)?
Que implicações morais e que consequências para a sociedade, nomeadamente no Direito, teria a ausência do livre-arbítrio?
Ou será o livre-arbítrio parte integrante da natureza humana, seguindo a afirmação de Jean-Paul Sartre "nous ne sommes pas libres de cesser d’être libres”?
Margarida Gouveia Fernandes Programadora dos Encontros Garrett com Carlos Fiolhais (Professor da Universidade de Coimbra) e Guilherme d'Oliveira Martins (Presidente do Centro Nacional de Cultura) moderação Ana Gerschenfeld (Jornalista de Ciência do jornal Público)
6 jan às 19h – entrada livre
Os Encontros Garrett, um espaço onde criadores, cientistas, ensaístas e público comungam na procura de caminhos para o futuro, regressam ao Salão Nobre do TNDM II, em janeiro de 2015.
Estamos habituados a pensar que somos livres para decidir e escolher os nossos atos. Não passará esta certeza de uma ilusão? Experiências na área das neurociências colocam dúvidas sobre a existência do livre-arbítrio, embora não exista consenso dos cientistas e dos filósofos quanto à interpretação dessas mesmas experiências. A discussão sobre este conceito é, aliás, muito antiga. O mais tardar desde Santo Agostinho que a existência do livre-arbítrio tem sido uma questão central na História da Filosofia e da Teologia e, mais recentemente, na História da Ciência. Ao longo do processo histórico, a relação entre livre-arbítrio e responsabilidade tem passado pela discussão sobre a compatibilidade do determinismo e do indeterminismo com o livre-arbítrio.
Somos simultaneamente livres (subjetivamente, no sentido de que a liberdade seria uma prática exigente, o livre arbítrio uma conquista difícil) e não livres (objetivamente, na medida em que somos uma parte da natureza, regidos pelas suas leis)?
Que implicações morais e que consequências para a sociedade, nomeadamente no Direito, teria a ausência do livre-arbítrio?
Ou será o livre-arbítrio parte integrante da natureza humana, seguindo a afirmação de Jean-Paul Sartre "nous ne sommes pas libres de cesser d’être libres”?
Margarida Gouveia Fernandes Programadora dos Encontros Garrett com Carlos Fiolhais (Professor da Universidade de Coimbra) e Guilherme d'Oliveira Martins (Presidente do Centro Nacional de Cultura) moderação Ana Gerschenfeld (Jornalista de Ciência do jornal Público)
A Excelência analisada no "The Guardian"
O que significa excelência científica? Um professor de política científica no University College fop London ensaia uma explicação. Ler aqui.
Um extracto:
"Prioritizing ‘excellent’ research perpetuates the reproduction of scientific elites and the concentration of scientific research in particular disciplines and places. Sociologist Robert Merton called it the Matthew Effect after the Gospel relating Jesus’s parable of the talents: ‘unto every one that hath shall be given… but from him that hath not shall be taken away’."
Um extracto:
"Prioritizing ‘excellent’ research perpetuates the reproduction of scientific elites and the concentration of scientific research in particular disciplines and places. Sociologist Robert Merton called it the Matthew Effect after the Gospel relating Jesus’s parable of the talents: ‘unto every one that hath shall be given… but from him that hath not shall be taken away’."
Congresso de Comunicação de Ciência no Algarve
Informação recebida dos organizadores:
Na sequência das duas edições anteriores, Lisboa 2013 e Porto
2014, o Congresso de Comunicação de Ciência SciCom Pt 2015 em Lagos
pretende ser um ponto de encontro de pessoas e projectos que envolvam a Comunicação de Ciência.
Sendo uma organização conjunta dos três Centros de Ciência Viva no Algarve, Lagos, Faro e Tavira, o Congresso decorrerá no Centro Cultural de Lagos e também no Centro Ciência Viva desta cidade.
Os dois primeiros dias do Congresso, 28 e 29 de Maio de 2015,
serão dedicados à apresentação e discussão de trabalhos relativos a
projectos em Comunicação de Ciência, para além da apresentação de
palestras por parte de oradores convidados. O último dia, 30 de Maio,
será dedicado a diversas áreas e que permitam aos participantes no
Congresso adquirirem ou desenvolverem competências específicas em
Comunicação de Ciência, da comunicação oral, a fontes de financiamento,
passando pela comunicação e literacia visual.
Adaptando
alguns dos elementos que compõem tradicionalmente os textos noticiosos,
o SciCom Pt 2015 servir-se-á das habituais perguntas, relativas à
Comunicação de Ciência, para servirem de âncoras motivacionais e
organizadoras dos temas, projetos e experiências a serem apresentados e
debatidos no Congresso.
Para além das dimensões referidas, pretende-se que o SciCom Pt 2015 seja também um espaço de contacto informal entre profissionais e não-profissionais
e que de alguma forma estejam interessados e envolvidos na divulgação e
envolvimento de todo o tipo de públicos na Ciência e Tecnologia. Assim,
existirão momentos de informais de troca de experiências, demonstração
de projectos, abordagens e novos caminhos para um cada vez maior
envolvimento da Sociedade nos processos de tomada de conhecimento e de
decisão que envolvam a Ciência.
Comissão Organizadora
Congresso SciCom Pt 2015
Congresso SciCom Pt 2015
Luís Azevedo Rodrigues | Centro Ciência Viva de Lagos
Rita Borges | Centro Ciência Viva de Tavira
Cristina Veiga Pires | Centro Ciência Viva do Algarve
facebook.com/CongressoSciComPT
facebook.com/CongressoSciComPT
quinta-feira, 1 de janeiro de 2015
CEM ANOS DA OBRA-PRIMA DE EINSTEIN
Artigo que escrevi hoje no Observador:
A ONU, ao designar 2015 como o Ano Internacional da Luz, referiu que nesse ano é o centenário da teoria da relatividade geral de Einstein. A teoria da relatividade restrita, cujo centenário foi celebrado em 2005, uniu o espaço ao tempo e a matéria à energia. Pois a teoria da relatividade geral, a obra-prima de Einstein, relaciona o espaço-tempo com a matéria-energia. A força de gravitação universal, que Newton tinha proposto no século XVII para explicar a atração de uma maçã ou da Lua pela Terra, ficou explicada: a matéria-energia de um astro como a Terra encurva o espaço-tempo à volta. Num verdadeiro prodígio do cérebro humano, Einstein juntou, em 1915, o espaço, o tempo, a matéria e a energia uma só equação. E todo o cosmos está ali, desde o Big Bang aos buracos negros.
E o que é que a teoria tem a ver com a luz? Pois Einstein, que para a relatividade restrita tinha partido da invariância da velocidade da luz, para a relatividade geral partiu da hipótese de a luz curvar nas vizinhanças de um astro de grande massa, portanto com muita matéria e energia. Supondo que a luz vai sempre pelo caminho mais curto, se ela encurva é porque o espaço e o tempo são curvos, isto é, porque a matéria e a energia “dobram” o espaço-tempo. Desde há um século que muitas provas se acumularam em favor de Einstein. A primeira foi a observação do eclipse do Sol em 1919 na ilha, então portuguesa, do Príncipe. O Príncipe foi o princípio da fama mundial do sábio. O jornal “O Século” titulou de forma poética: “A luz pesa”.
A física prossegue hoje em dia. Os físicos estão a tentar subir para os ombros de Einstein tal como este subiu para os ombros de Newton para ver mais longe. Não é fácil, mas valerá a pena. O casamento da teoria da relatividade geral, que descreve a estrutura do cosmos, com a teoria quântica, que descreve a luz, é uma tarefa que valerá um Nobel. Um? Devia valer vários!
PELA LUZ DOS OLHOS MEUS
I
Neste Ano Internacional da Luz, inicio aqui uma rubrica dedicada à luz na arte (na poesia, na música, nas artes visuais, etc.) com o poema de Vinicius de Morais "Na luz dos olhos teus", músicado por Tom Jobim, cantado aqui por Miúcha (irmã de Chico Buarque e mãe de Bebel Gilberto) e pelo próprio Tom Jobim:
Quando a luz dos olhos meus
E a luz dos olhos teus
Resolvem se encontrar
Ai, que bom que isso é, meu Deus
Que frio que me dá
O encontro desse olhar
Mas se a luz dos olhos teus
Resiste aos olhos meus
Só pra me provocar
Meu amor, juro por Deus
Me sinto incendiar
Meu amor, juro por Deus
Que a luz dos olhos meus
Já não pode esperar
Quero a luz dos olhos meus
Na luz dos olhos teus
Sem mais la ra ra ra
Pela luz dos olhos teus
Eu acho, meu amor, que só se pode achar
Que a luz dos olhos meus precisa se casar
(La ra ri ra ra ra) (La ra ri ra ra ra)
Quando a luz dos olhos meus
E a luz dos olhos teus
Resolvem se encontrar
Ai, que bom que isso é, meu Deus
Que frio que me dá
O encontro desse olhar
Mas se a luz dos olhos teus
Resiste aos olhos meus
Só pra me provocar
Meu amor, juro por Deus
Me sinto incendiar
Meu amor, juro por Deus
Que a luz dos olhos meus
Já não pode esperar
Quero a luz dos olhos meus
Na luz dos olhos teus
Pela luz dos olhos teus
Eu acho, meu amor, e só se pode achar
Que a luz dos olhos meus precisa se casar
Que a luz dos olhos meus precisa se casar
Que a luz dos olhos meus precisa se casar
Precisa se casar, precisa se casar
Neste Ano Internacional da Luz, inicio aqui uma rubrica dedicada à luz na arte (na poesia, na música, nas artes visuais, etc.) com o poema de Vinicius de Morais "Na luz dos olhos teus", músicado por Tom Jobim, cantado aqui por Miúcha (irmã de Chico Buarque e mãe de Bebel Gilberto) e pelo próprio Tom Jobim:
Quando a luz dos olhos meus
E a luz dos olhos teus
Resolvem se encontrar
Ai, que bom que isso é, meu Deus
Que frio que me dá
O encontro desse olhar
Mas se a luz dos olhos teus
Resiste aos olhos meus
Só pra me provocar
Meu amor, juro por Deus
Me sinto incendiar
Meu amor, juro por Deus
Que a luz dos olhos meus
Já não pode esperar
Quero a luz dos olhos meus
Na luz dos olhos teus
Sem mais la ra ra ra
Pela luz dos olhos teus
Eu acho, meu amor, que só se pode achar
Que a luz dos olhos meus precisa se casar
(La ra ri ra ra ra) (La ra ri ra ra ra)
Quando a luz dos olhos meus
E a luz dos olhos teus
Resolvem se encontrar
Ai, que bom que isso é, meu Deus
Que frio que me dá
O encontro desse olhar
Mas se a luz dos olhos teus
Resiste aos olhos meus
Só pra me provocar
Meu amor, juro por Deus
Me sinto incendiar
Meu amor, juro por Deus
Que a luz dos olhos meus
Já não pode esperar
Quero a luz dos olhos meus
Na luz dos olhos teus
Pela luz dos olhos teus
Eu acho, meu amor, e só se pode achar
Que a luz dos olhos meus precisa se casar
Que a luz dos olhos meus precisa se casar
Que a luz dos olhos meus precisa se casar
Precisa se casar, precisa se casar
ANO DA LUZ COMEÇOU COM O NOBEL
Meu artigo na actual Gazeta de Física, órgão da Sociedade Portuguesa de Física, que dedico à memória de Carlos Matos Ferreira (na imagem), ex-Presidente da Sociedade Portuguesa de Física, grande académico, cientista e grande gestor de ciência. A vida é assim: ainda há pouco estivemos juntos no lançamento em Portugal do Ano Internacional da Luz e já não voltaremos a estar.
A Academia de Ciências de Estocolmo atribuiu o Prémio Nobel da Física de 2014 a três cientistas japoneses: Isamu Akasaki e Hiroshi Amano, da Universidade de Nagóia, no Japão, e Shuji Nakamura, da Universidade de Califórnia - Santa Barbara pela “invenção de eficientes díodos emissores de luz azuis, que permitiram a criação de luzes brancas brilhantes e economizadoras de energia.” A merecida recompensa ilustra as aplicações da física na nossa vida. Nem sempre os Nobel da Física estão associados a descobertas ou invenções com impacto no nosso quotidiano, mas neste caso a associação é muito clara. Já existiam há bastante tempo LED vermelhos e verdes, mas faltavam os LED azuis para se obter luz branca a que estamos habituados. No início dos anos 90 fez-se a luz azul.
Para isso foi necessária uma extraordinária persistência pois os físicos japoneses tiveram de ultrapassar falhanços sucessivos na escolha e manipulação dos materiais semicondutores mais adequados para o fim em vista. Tiveram em vista. Tiveram de fazer fazer "sanduíches" de vários materiais, com base no nitreto de gálio. Experimentaram com grande aplicação, na tradição do inventor norte-americano Thomas Edison, que experimentou numerosas lâmpadas de filamento antes de chegar em 1879 à primeira lâmpada comercializável com um filamento de carbono. Tanto nos ensaios dos novos laureados Nobel como nos de Edison o que parecia impossível acabou, à custa de tanto porfiar, por se tornar realidade.
Hoje vivemos num mundo cada vez mais iluminado por lâmpadas LED. A principal vantagem dessas lâmpadas relativamente às lâmpadas tradicionais de incandescência (de que Edison foi pioneiro) e às lâmpadas fluorescentes (criadas pelo inventor norte-americano Peter Hewitt em 1901) é o ganho de eficiência. Como lembra o comunicado da Academia os LED convertem energia eléctrica em luz de uma forma muito mais eficiente do que acontece com as lâmpadas anteriores. Dividindo a luminosidade à saída pela potência à entrada, as lâmpadas LED podem ser vinte vezes mais eficientes do que as lâmpadas de incandescência, ao passo que as lâmpadas fluorescentes, baseadas em descargas eléctricas em gases, só são cinco vezes mais eficientes. A economia e o ambiente agradecem. Como se isso fosse pouco, as lâmpadas LED duram mais, muito mais do que as outras: o seu tempo de vida é cem vezes maior do que o das lâmpadas de incandescência, ao passo que as lâmpadas fluorescentes só duram dez vezes mais. A economia e o ambiente voltam a agradecer. E é por isso que, se dantes só víamos os LED como umas luzinhas vermelhas em monitores eléctricos, hoje vemos LED por todo o lado: em lojas, em escritórios, nas ruas (os projectos multiplicam-se para substituir toda a iluminação pública de cidades só por LED). Temos lâmpadas LED por exemplo nos nossos telemóveis. Temo-las em nossas casas em ecrãs de computador e de televisão. Há até lasers azuis que permitem discos compactos com mais informação. E já há LED ultavioletas que permitem a purificação de águas. Os LED mostram mais uma vez o enorme poder transformador que a ciência pode exercer nas nossas vidas.
Este Nobel vem em hora oportuna. O ano de 2015, por decisão das Nações Unidas, será em todo o mundo o Ano Internacional da Luz. A Sociedade Portuguesa de Física e a Ciência Viva estão a congregar esforços com a UNESCO para celebrar a ciência e a engenharia da luz, ciência e tecnologia que são hoje inseparáveis da nossa civilização e cultura. Procurar-se-á fazer luz sobre a luz que está por todo o lado.
A CIÊNCIA EM 2014
Minha crónica no último "As Artes entre as Letras", jornal cultural do Porto (na imagem a missão Rosetta-Philae a um cometa):
O ano de 2014 foi para a ciência em Portugal um ano para esquecer, foi o ano de profunda crise e contestação. A Fundação para a Ciência e Tecnologia (FCT), com o beneplácito do ministro da Educação Nuno Crato, que há muito deixou de ser ministro da Ciência, decidiu logo no início do ano reduzir de mais de 30% o número de bolsas de doutoramento e de pós-doutoramento que costumava atribuir, contribuindo assim para engrossar a fuga de cérebros. Depois, num exercício a que chamou de “avaliação” (usurpando o nome), decidiu eliminar cerca de 50% das unidades de investigação do país, impondo uma quota, que de início foi secreta, à European Science Foundation, instituição a quem encomendou o trabalho de “desbaste”. Tanto num caso como noutro a indignação foi geral, com os candidatos a bolseiros em manifestação na rua e com os investigadores a multiplicarem-se em abaixo assinados e artigos críticos. O próprio Conselho de Reitores das Universidades Portuguesas – CRUP tomou uma posição de violenta crítica ao governo. Para os responsáveis maiores da universidade, reflectindo aliás a opinião da esmagadora maioria dos académicos, a dita avaliação foi um “falhanço pleno”. Os reitores, pelo menos até agora, não foram inteiramente coerentes, pois senão teriam recusado a extracção de quaisquer consequências práticas de uma avaliação sem o mínimo de qualidade. O ministro não atendeu aos protestos dos reitores, nem sequer lhes respondendo.
No final do ano surgiu finalmente a lista dos resultados, de
onde ressalta a arbitrariedade do exercício avaliativo: praticamente dois
terços do financiamento foram atribuídos a um quinto das unidades de
investigação, com a agravante de não estar demonstrado que aqueles centros eram
as mais merecedoras uma vez que muitos
avaliadores não eram especialistas nas áreas que estavam a apreciar. Foram atribuídos financiamentos ditos
“estratégicos” de uma forma que parece completamente arbitrária, pois as justificações
não foram claramente enunciadas pela FCT. O governo, para justificar o
injustificável, tem apregoado a ideia vaga de “excelência”, mas o certo é que o
resultado previsível será um afundamento geral do sistema, com muitos centros
condenados à extinção e outros, muito poucos, sem saberem o que hão-de fazer ao
dinheiro. Por via do obscuro financiamento estratégico, alguns centros acabaram
por obter melhor financiamento do que outros com melhor classificação. Mais de
130 reclamações estão pendentes na primeira
fase (a fase eliminatória para metade) e muitas outras são previsíveis na
segunda fase (a fase de selecção dos poucos “supermilionários”). As instâncias
juridicamente competentes terão muito trabalho pela frente e está instaurada a total
desconfiança nos responsáveis pelo sistema científico nacional, uma confiança que só poderá ser restaurada
com outros intervenientes. É muito fácil
destruir, muito mais difícil será reconstruir. O sistema científico português,
que é relativamente jovem, estava num caminho de convergência para a Europa e
agora, em resultado da política desastrada do actual governo, está em vias de
se afastar, voltando aos lugares traseiros onde já esteve.
Na cena internacional, destaco dois acontecimentos
científico-tecnológicos, um muito longe e o outro mais perto de nós. O primeiro
foi a aproximação da sonda Rosetta da agência espacial europeia a um cometa,
com o pouso na superfície do cometa de um robô, o Philae. É um prodígio da ciência
e da técnica, que evidencia bem o progresso que o conhecimento permite. Ainda
há três séculos não se sabia o que eram cometas (para o Padre António Vieira
eram mensageiros do céu, sinais de Deus) e hoje não só sabemos o que são como
os conseguimos visitar mecanicamente, realizar análises geológicas e fotografar
de perto a sua superfície rugosa. O facto de estar neste momento interrompido o
contacto com a Philae não invalida a enorme relevância desta proeza astronómica.
Por outro lado, 2014 foi o ano em que uma empresa norte-americana, a Illumina, começou
a comercializar uma máquina de sequenciação completa do genoma humano que
efectua cada análise por um preço inferior a mil dólares. Esta era uma meta há
muito tempo aspirada neste domínio e o seu atingimento permitirá o crescimento
maciço dos dados sobre o genoma e, portanto, um melhor conhecimento sobre a
saúde a doença, com a possibilidade de
uma indicação atempada de riscos e de uma melhor escolha de terapêuticas. Os
exames do genoma tornar-se-ão tão correntes como são hoje as análises clínicas
e os raios X. A medicina personalizada irá nos próximos anos tornar-se uma
realidade, com os médicos a interrogarem bases de dados genéticas. Claro que,
em toda esta transformação, emergem novos desafios, que não são apenas
científico-técnicos: são também económicos, sociais e políticos. Questões
éticas sobre a propriedade dos genomas e a acessibilidade à informação neles
contida tornar-se-ão prementes, tendo a sociedade de lhes responder. A ciência
pode e deve dizer aquilo que sabe, mas pouco ou nada pode dizer sobre as
questões éticas. Saber sempre foi poder, mas o exercício desse poder sempre
transcendeu os limites da ciência.
O Ano de 2015 vai ser o Ano Internacional da Luz, uma iniciativa
da ONU para celebrar os avanços científicos e técnicos obtidos sobre a luz. O ano
vai abrir oficialmente em Janeiro em Paris, sob os auspícios da UNESCO. Em todo
o mundo e também em Portugal vai ser alargada a cultura científica, com o
fértil cruzamento de saberes e sensibilidades a respeito da luz. A luz está por
todo o lado, está na Natureza e está também na cultura. Em Portugal os tempos
não são fáceis, com um governo que despreza a cultura científica, mas faço
votos para que o Ano Novo seja de “mais luz”.
Feliz Ano Internacional da Luz!
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