quarta-feira, 7 de janeiro de 2015

FCT - A MANCHA E A SAÍDA DESONROSA

Informação recebida do SNESUP:

"A apresentação dos resultados da avaliação das Unidades de I&D pela Fundação para a Ciência e Tecnologia (FCT) em vésperas de Natal demonstra que nada há de respeitável, ou honroso neste triste acontecimento. Abalado pelas inúmeras irregularidades, que motivou mesmo a nossa participação ao Ministério Público, cercado por várias denúncias públicas que incluíam falhas nos textos de avaliação, "avaliadores" sem currículo no campo que avaliam, quotas pré-estabelecidas, que motivaram a apresentação de reclamação por mais de uma centena de unidades, críticas por parte de investigares seniores, bem como CRUP, o que resta é uma posição politizada e extremada, de quem crê que a força tudo pode, sem perceber que esse é o gesto da inscrição da sua própria impotência. A própria European Science Foundation (ESF) parece agora mais longínqua na sua associação a este processo. A conferência de imprensa final mostrou o isolamento da Secretária de Estado da Ciência e do Presidente da FCT. Há quem pense que o processo está concluído, e que o sistema foi finalmente podado. Poucos são os que se sentem confortáveis em associar-se despudoradamente a este processo poluto. Apesar de alguns ajustes que parecem ter sido feitos para calar alguns, este processo continuar a ser uma mancha para o sistema científico nacional."

Maior do que o qual nada pode ser pensado

Muitos viajantes se cruzaram certamente com ele, sem fazer ideia da importância que viria a ter na filosofia europeia. Nascido em 1033, abandonou a casa do pai, com quem nunca se deu bem, depois da morte da mãe. E foi assim que em 1056, com apenas vinte e três anos, Anselmo — mais tarde Bispo da Cantuária, canonizado em 1163 — se entregou a uma viagem de mais de setecentos quilómetros, de Aosta, na sua Itália natal, em direcção à actual França.

O seu objectivo era algo indefinido, o que não é invulgar quando se tem a sua idade: oscilava entre a atracção que sentia pela vida monástica e por uma carreira intelectual. Mas as duas opções não eram incompatíveis: no seu tempo, uma parte importante da vida intelectual ocorria sob a protecção dos muros dos mosteiros, com as suas ricas bibliotecas. E era no mosteiro beneditino de Bec, na Normandia, que estava o italiano Lanfranc (1005-1089), famoso pela sua sapiência e ensino, de quem Anselmo pretendia receber instrução. Pôs, por isso, pés a caminho em direcção a Bec e a Lanfranc.

Idade das trevas?

O mundo em que Anselmo vivia era tumultuoso. Sob a aparente complacência dos ritmos feudais escondia-se um conturbado reajuste político entre reis, imperadores e poderes eclesiásticos. Dois anos antes de Anselmo pôr pés a caminho, o papa católico Leão IX e o patriarca de Constantinopla, Miguel Cerulário, tinham-se excomungado entre si, marcando assim o grande cisma cristão, que dura até hoje, entre a igreja católica e a ortodoxa.

Além disso, há muito que tinham desaparecido os centros de investigação da Antiguidade grega e romana. As escolas de filosofia gregas tinham sido extintas há cerca de quinhentos anos; a Biblioteca de Alexandria, que era igualmente um centro de estudos, e não apenas um repositório de livros, fora destruída há trezentos anos.

Das cinzas da civilização clássica europeia, começavam a despontar os grandes centros de estudo da Europa medieval. A primeira universidade propriamente dita, com diferentes áreas de estudo, foi fundada na Itália, em Bolonha, em 1088, quando Anselmo tinha cinquenta e cinco anos. Seguiu-se-lhe a Universidade de Paris, fundada primeiramente em 1150, e a Universidade de Oxford, pouco depois.

Porque se aceita acriticamente a rejeição da cultura medieval promovida pelos modernos, a investigação filosófica e científica ocorrida desde o tempo de Anselmo até ao despontar do mundo moderno, por volta do séc. XVII, é muitas vezes negligenciada. Em 1328, por exemplo, o Doctor Profundus, Thomas Bradwardine (1290-1349), apresentou o primeiro tratamento matemático do movimento, no Tratado das Proporções ou sobre as Proporções das Velocidades no Movimento; e João Buridano (1300-1358) desenvolveu a teoria do ímpeto, crucial para o desenvolvimento da física. O primeiro modelo heliocêntrico do universo, por outro lado, não é um produto da cultura moderna: foi proposto por Nicolau Oresme (1320-1382). E as cartas de navegação, que teriam sido muitíssimo úteis aos gregos e romanos da antiguidade, surgiram igualmente em plena idade média, em 1270.

Anselmo em busca da compreensão

Anselmo teve um papel crucial no desenvolvimento da filosofia medieval, sendo considerado o primeiro escolástico — termo que ainda hoje, nas zonas mais débeis da cultura, é entendido pejorativamente, por influência dos modernos. Insistindo na importância da expressão clara e do rigor, Anselmo afastou-se definitivamente do misticismo neoplatónico, na altura dominante, com origem em Plotino (205-270).

Chegado a Bec, em 1059, Anselmo fez os seus votos monásticos e foi como monge que escreveu as obras que viriam a torná-lo influente e famoso durante séculos: Monologion (monólogo) e Proslogion (termo inventado por Anselmo, que afirma significar “discurso apresentado a outrem”).

O estilo das duas obras é bastante diferente, apesar de em ambos os casos se tratar de descobrir as razões a favor da crença em Deus. Porém, enquanto a primeira é uma argumentação directa, sem adornos, a segunda é como que uma oração, uma súplica a Deus para que este permita ao crente compreender a sua fé. Os títulos alternativos das duas obras são reveladores: à primeira deu Anselmo o título “Cânone para meditar sobre as razões da fé”; e à segunda “A fé em busca da compreensão”, uma expressão que colheu de Agostinho.

O argumento ontológico

Os medievais conheciam o argumento a favor da existência de Deus que Anselmo apresentou na segunda das obras mencionadas simplesmente como argumentum Anselmi: o argumento de Anselmo. Mas Kant chamou-lhe argumento ontológico, designação que se tornou comum.

O termo “ontologia” deriva dos termos gregos to on e ontos que significam aproximadamente “o que algo é” ou “o ser de algo”. O adjectivo “ontológico” é usado em filosofia para falar da natureza última das coisas, e o substantivo designa uma subdisciplina filosófica que trata de estabelecer as categorias mais gerais da realidade.
O argumento ontológico tem esta designação porque parte de uma reflexão sobre a natureza última desse ser hipotético a que chamamos Deus, e conclui, nessa base apenas, e sem apelar para quaisquer outros factos sobre a realidade, que esse ser existe. Este argumento contrasta assim com dois outros grupos de argumentos tradicionais a favor da existência de Deus, denominados “argumentos do desígnio” e “argumentos cosmológicos”.

O termo “cosmologia” poderá ser surpreendente neste contexto, se pensarmos apenas na cosmologia científica do séc. XX. Mas a cosmologia, enquanto teoria sobre a estrutura geral do cosmos, existia muito antes da recente cosmologia científica. Os argumentos cosmológicos a favor da existência de Deus pretendem concluir que Deus existe com base em certos aspectos da estrutura geral do cosmos.

Tanto os argumentos do desígnio como os cosmológicos partem de alguns factos sobre a realidade espácio-temporal e concluem que sem a hipótese de Deus não se consegue explicá-los adequadamente. Precisamente porque estes argumentos incluem informações empíricas, são denominados argumentos a posteriori. Isto contrasta com os argumentos ontológicos, cujas premissas podem ser conhecidas exclusivamente com base no pensa-mento, recebendo por isso a designação de argumentos a priori.

Redução ao absurdo

Há diferentes versões de argumentos ontológicos a favor da existência de Deus. A versão de Anselmo é um tipo de raciocínio já conhecido na Antiguidade grega a que se chama redução ao absurdo, ou reductio ad absurdum, em latim. Raciocinar ou argumentar por redução ao absurdo é partir do oposto do que queremos estabelecer e mostrar que dessa hipótese se conclui correctamente uma contradição: um absurdo. O que fizemos foi mostrar que aceitar tal hipótese obrigaria a aceitar uma contradição. Se agora quisermos rejeitar a contradição, teremos de rejeitar a hipótese de partida.

O cogito de Descartes pode ser apresentado como uma redução ao absurdo. Aceite-se a hipótese de que todas as minhas crenças são falsas: há um génio maligno que me engana constantemente. Daqui conclui-se correcta-mente que é falsa a minha crença de que existo. Mas para o génio maligno me poder enganar, para que eu tenha crenças falsas, é preciso que eu exista. Logo, é verdadeira a minha crença de que existo. Eis a contradição: fomos levados a concluir que uma mesma crença (“eu existo”) é verdadeira e falsa. Se agora quisermos rejeitar esta contradição, teremos de rejeitar a hipótese de partida: a hipótese de que todas as minhas crenças são falsas, sendo produzidas por um génio maligno que me engana constantemente.

Eis outro exemplo deste género de raciocínio. Imagine o leitor que o seu amigo crê que não há verdades: tudo é ilusão. Perplexo com tal posição, o leitor começa por aceitá-la, procurando mostrar que dela se conclui correctamente uma contradição, para então a negar. E isso não é difícil fazer, pois se não há verdades, é verdade que não há verdades. Eis a contradição: por um lado não há verdades, mas por outro é verdade que não há verdades. Para rejeitar esta contradição, o leitor nega a hipótese de partida, a crença do seu amigo de que não há verdades, e conclui que há verdades.

Refutar o insensato

Anselmo procura mostrar que o insensato bíblico, que diz no seu coração que Deus não existe (Salmos 14 e 53), também se contradiz, como o amigo do leitor. A natureza de Deus é tal que a hipótese da sua inexistência é contraditória. E que natureza é essa? Deus, considera Anselmo, é um ser de tal modo grandioso que não conseguimos conceber outro que seja ainda mais grandioso.

Anselmo formula esta ideia usando uma expressão que ficou famosa: Deus é o ser maior do que o qual nada pode ser pensado. Contudo, Anselmo não tem em mente a grandeza física, mas antes a grandiosidade, excelência ou esplendor. A ideia é que Deus é o mais excelente dos seres, ou o mais grandioso; tão grandioso, que a hipótese da sua inexistência implica uma contradição:
“Assim, mesmo o insensato tem de admitir que algo maior do que o qual nada pode ser pensado existe pelo menos no seu entendimento, dado que ele o entende quando o ouve, e o que é entendido existe no entendimento. E certamente que aquilo maior do que o qual nada pode ser pensado não pode existir apenas no entendimento. Pois se existisse apenas no entendimento, poder-se-ia pensar que existia na realidade também, o que seria ainda maior. Logo, se aquilo maior do que o qual nada pode ser pensado existe apenas no entendimento, então a própria coisa maior do que a qual nada pode ser pensado é algo maior do que o qual algo pode ser pensado. Mas isto é claramente impossível. Logo, não há dúvida de que o maior do que o qual nada pode ser pensado tanto existe no entendimento como na realidade”. (Proslogion, Cap. 2, p. 82)
O texto de Anselmo é maravilhosamente claro, preciso e directo, mas sofisticado. Acompanhemos o seu pensamento, passo a passo, com a mesma solicitude com que Anselmo percorreu mais de setecentos quilómetros em busca da compreensão.

O insensato admite que as pessoas pensam em Deus, ainda que este não exista realmente. Isto significa que Deus existe no pensamento ou entendimento, ainda que não exista na realidade. O mesmo se pode dizer de qualquer ficção: é algo que existe no pensamento ou entendimento do seu criador — um romancista, por exemplo — mas não existe na realidade. E é isto que o insensato pensa que é Deus: uma mera ficção.

Contudo, Deus é por definição aquele ser, seja ele qual for, exista ou não, que é tão grandioso que é impossível conceber outro que seja ainda mais grandioso. E o insensato aceita também esta ideia — apenas continua a insistir que esse ser é uma fantasia, não existindo na realidade.

Ora, é aqui que Anselmo desfere o seu golpe mortal. Se Deus existisse apenas no entendimento, poderia haver outro ser, exactamente como ele, mas que existisse também na realidade. Este ser seria certamente mais grandioso do que Deus, pois teria existência real, o que é certamente uma excelência.

Se virmos bem, chegámos a uma contradição. Isto porque admitimos que Deus é por definição o ser mais grandioso do que o qual nenhum pode ser pensado, e depois pensámos num ser mais grandioso do que Deus. Para negar esta contradição, rejeitamos a hipótese de partida: a ideia do insensato de que Deus, o ser mais grandioso do que o qual nada pode ser pensado, não existe. Logo, Deus existe.

Excerto do meu livro Sete Ideias Filosóficas que Toda a Gente Deveria Conhecer (Bizâncio, 2011): versão tradicional e versão Kindle.



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terça-feira, 6 de janeiro de 2015

Infelizmente, não estamos sós

Não somos apenas nós, portugueses, que nos preocupamos com as escolhas curriculares e com o que elas deixam de fora ou contemplam pela rama.

Ainda em relação à Cultura e Línguas da Antiguidade tive conhecimento de uma carta que, recentemente, em Novembro passado, a Coordenação Nacional das Associações Regionais de Ensino das Línguas Antigas (CNARELA) enviou à Ministra da Éducation Nationale de l’Enseignement Supérieur et de la Recherche de França, na qual se reitera um antigo apelo à tutela: que dê atenção à situação muitíssimo difícil em que se encontra a aprendizagem, o ensino e a formação de professores desta área.

Srečko Kosovel (18 Março 1904 – 26 Maio 1926)

 
S. Kosovel nasceu em Sežana, cidade eslovena nos arredores de Trieste. Influenciado pelo expressionismo germânico e pelo construtivismo russo, Kosovel faz parte de um grupo restrito de poetas (com G. Apollinaire, Jacques Vaché…) que pintou fidedignamente a sociedade europeia da primeira grande guerra.
 
 



 
CONS:CONS:CONS
O luar é sobremesa fria.
Inane como as canções dos trovadores.
É prazenteiro para se sentar à sombra da noite.
Latrina, Mictório. Aqui.
O homem atrás da porta, o que é que ele procura?
Ele permanece como uma sombra
atrás da porta translúcida
do luar.
O luar sobre os campos
é como a tristeza petrificada...
Seu corpo cintila
à luz do luar.
Cons: XY
Através do meu coração chora um grande elefante.

Circo Kludsky; 3 dinares para ver.
De cima dos telhados não grites a sua tristeza.
Ela está sorrindo: hi hi hi.
Os corações humanos são pequenos e as prisões enormes,
Pelos corações humanos eu gostaria de navegar.
Tu pertences a esta ou aquela ideia?
Mil dinares ou 7 dias na prisão.
As flores no meu coração não choram mais.
Quem quer ser jovem e sem ânimo.
Como se um polícia voltasse através da porta.
Golpe-de-misericórdia, para ti há o internamento.
Flores permanecem a sós nessas horas más.
Polícia, seus olhos são como farpas,
néscio e mediano. (fechem os olhos, flores!)
Gandhi foi preso por seis extensos anos.
 
Cons: Z
O acordeão melancólico.
Tempo de nadar.
Relâmpagos azuis.
Sapatos, tamanho 40.
Ístria está a morrer.
O mar.
A Europa está a morrer.
Desportos, a economia, política.
Japão versus Rússia.
NOVA CULTURA.
Nova cultura: humanitarismo.
Novas políticas: humanitarismo.
Nova arte: para homem.
Está próxima a hora da morte da Europa.
Benze-a com Ha2 SO4.
A hora do sofrimento.
Uma cortina abriu um novo mundo.
 
Nota:H2SO4
Cons: 5
Trampa é ouro
e ouro é trampa.
Ambos = 0
0 = ∞
∞ = 0
AB <
1, 2, 3.
Quem não possui alma
não necessita de ouro.
Quem possui alma
não precisa de trampa.
I,A



segunda-feira, 5 de janeiro de 2015

TOP 100 DE AUTORES PORTUGUESES NA BIBLIOTECA PÚBLICA MUNICIPAL DO PORTO

A Biblioteca Pública Municipal do Porto é uma das maiores bibliotecas portuguesas (tem depósito legal). Apresento top 100 dos autores portugueses do seu catálogo, preparada pelo bibliotecário Adriano Simões da Silva. Não há exemplares repetidos, embora possa haver várias edições do mesmo livro (os 3 primeiros lugares e a alguns outros são específicos daquela biblioteca por ela conter espólios, com manuscritos, daqueles autores). Confesso que fiquei surpreendido por estar no lugar 74 e muito mais acima se considerarmos só os autores vivos.

Os Autores são ordenados de acordo com o nº de registos (livros, manuscritos, etc.) no catálogo online da Biblioteca Pública Municipal do Porto (disponível em http://bibliotecas.cm-porto.pt/), pelo que não é um TOP da BPMP (mas apenas do que está informatizado). Devem falhar Autores porque este TOP foi feito à mão… e não ex machina...

BRUNO, Sampaio, pseud.                                  4688 livros possuídos 
(em 2015 são as comemorações do Centenário do antigo Dir. da BPMP)
SERPA, Alberto de, 1906-1992                          3423 manuscritos e livros 
FIGUEIREDO, Antero de, 1866-1953               2218 manuscritos =
(catalogados pela Drª Adelaide Meireles, dos Reservados, a partir de 1988) 
4º QUEIRÓS, Eça de, 1845-1900                       866 
(é o 1º autor sem incluir os autores representados nos Legados da BPMP)
PASSOS, Carlos de, 1890-1958                          763 manuscritos 
SANCEAU, Eliane, 1876-1978                           749 manuscritos
7º CASTELO BRANCO, Camilo, 1825-1890   714 
8º PESSOA, Fernando, 1888-1935                      710 
SIMÕES, João Gaspar, 1903-1987                  635  manuscritos
10º NOBRE, António, 1867-1900                           506  manuscritos e livros
(manuscritos catalogados pela Drª Adelaide Meireles, dos Reservados em 1997 e 1998)
11º MENÉRES, Maria Alberta, 1930-                481 
12º LETRIA, José Jorge, 1951-                           477 
13º GARRETT, Almeida, 1799-1854                 442 
14º SARAMAGO, José, 1922-2010                    419 
15º ANDRESEN, Sofia de Melo Breyner, 1919-2004      386  livros e manuscritos
16º CAMÕES, Luís de, 1524?-1580                   380 
17º CARNEIRO, Cláudio, 1895-1963                    369 manuscritos =
(catalogados pela Drª Adelaide Meireles, dos Reservados, em 1995 e 1996)
18º TORRADO, António, 1939-                       345 
19º FERREIRA, Pedro Augusto, 1833-1913         323  manuscritos, etc.
20º DINIS, Júlio, pseud.                                     322 
21º RODRIGUES, Urbano Tavares, 1923-2013     319 
22º NEMÉSIO, Vitorino, 1901-1978                      318  livros e manuscritos
23º SENA, Jorge de, 1919-1978                             318 
24º  LUÍS, Agustina Bessa, 1922-                      317 
25º FERREIRA, Vergílio, 1916-1996                    304 
26º VICENTE, Gil, 1465?-1537                             303 
27º MONTEIRO, Adolfo Casais, 1908-1972         293  manuscritos
28º RÉGIO, José, pseud.                                          292 
29º VIEIRA, Alice, 1943-                                        279 
30º RIBEIRO, Aquilino, 1885-1963                       270 
31º ANDRADE, Eugénio de, pseud.                       261 
32º NAMORA, Fernando, 1919-1989                     257 
33º MOURA, Vasco Graça, 1942-2014                   247 
34º REIS, António do Carmo, 1942-                        247 
35º FRANÇA, José Augusto, 1922-                        243 
36º OLIVEIRA, Marques de, 1853-1927                      243 manuscritos, etc. 
37º FERREIRA, David Mourão, 1927-1996          236 
38º MOREIRA, Adriano, 1922-                             223 
39º BOTO, António, 1897-1959                              219 
40º TELES, Basílio, 1856-1923                                     219  manuscritos
41º BRANDÃO, Raul,                                             218 manuscritos
(Vasco Rosa desafiou a C.M.P. a divulgar o seu espólio pelo Centenário)
42º PASCOAIS, Teixeira de, pseud.                       215  man. disponíveis online
43º TORGA, Miguel, pseud.                                    211 
44º ANTUNES, António Lobo, 1942-                    207 
45.º FEIJÓ, Álvaro, 1916-1941                             207  manuscritos
46º OGANDO, Alice, 1900-1981                            204 
47º SERRÃO, Joaquim Veríssimo, 1925-                203 
48º ROSA, António Ramos, 1924-2013                  201 
49.º COUTINHO, Gago, 1869-1959                      201  manuscritos
50º GRAVE, João, 1872-1934                                 200  manuscritos, livros, etc.
(escritor e 11º Diretor da BPMP de 1915 a 1934)
51.º MATOSO, José, 1933-                                    200 
52º SANTOS, José Rodrigues dos, 1964-                199 
53º HERCULANO, Alexandre, 1810-1877            191  manuscritos
(foi o primeiro 2º Bibliotecário da BPMP, de 17 jul.1833 a 22 out.1836)
54º LEITÃO, Helder Martins                                  183 
55º MIGUÉIS, José Rodrigues, 1901-1980             181 
56º VIANA, António Manuel Couto, 1923-2010      181 
57º CORREIA, Clara Pinto, 1960-                          179
58º SOARES, Mário, 1924-                                     174 
59º JÚDICE, Nuno, 1949-                                       172 
60º BARROS, João de, 1881-1960                          171  manuscritos
61º ALEGRE, Manuel, 1936-                                  170 
62º CARNEIRO, António, 1872-1930                   168  manuscritos
63.º SAMPAIO, Daniel, 1946-                                168 
64º TAVARES, Miguel Sousa, 1952-                     163 
65º PIRES, José Cardoso, 1925-1998                      161 
66º PINTO, Margarida Rebelo, 1956-                     158 
67º VIEIRA, António, 1608-1697                           155 
68º SOUSA, Marcelo Rebelo de, 1948-                   154 
69º BARRENTO, João, 1940-                                154 
70º FERREIRA, Leyguarda, 1897-1965?               154 
71º CLÁUDIO, Mário, pseud.                                 153 (
72º PENHA, João, 1839-1919                                 151 
73º SÉRGIO, António, 1883-1969                           148 
74º FIOLHAIS, Carlos, 1956-                                 146 
75º LIMA, Fernando de Castro Pires de, 1908-1973  144 
76º CASTRO, Ferreira de, 1898-1974                     143 
77º CIDADE, Hernâni, 1887-1975                            141
78º CARNEIRO, Mário de , 1890-1916             140 
79º QUADROS, António, 1923-1993                     136 
80º MARTINS, Oliveira, 1845-1894                      136 
81º GONÇALVES, Egito, 1920-2001                     136 
82º CORTESÃO, Jaime, 1884-1960                       132
83º SERRÃO, Joel, 1919-2008                                130 
84º BAPTISTA, António Alçada, 1927-2008         129 
85º SILVA, Agostinho da, 1906-1994                     129 
86º ESPANCA, Florbela, 1894-1930                      126 
87º REDOL, Alves, 1911-1969                               123 
88º CRUZ, António, 1911-1989                               123
(historiador e Diretor da BPMP de 1947 a 1975)
89º JUNQUEIRO, Guerra, 1850-1923                    122 
90.º FERNANDES, Abílio, 1906-1994                    122
91º PINHARANDA, João, 1957-                            119
92º MALPIQUE, Cruz, 1902-1992                         118  artigos
93.º REBELO, Luís Francisco, 1924-2011              118 
94º COELHO, Eduardo Prado, 1944-2007             116 
95.º RIPADO, Mário F. Bento                                116
96º BASTOS, Batista, 1934-                                    115
97.º GUIMARÃES, Fernando, 1928-                      115 
98º PEDROSA, Inês, 1962-                                     114 
99º JORGE, Lídia, 1946-                                         113 
100.º CORREIA, Alberto, 1882-1949                      113 
(manuscritos catalogados pela Drª Adelaide Meireles, dos Reservados, em 1998)

domingo, 4 de janeiro de 2015

O problema da escolha curricular

Em comentário ao texto Levar o latim às escolas, o leitor Carlos Pires faz notar que não é apenas a área disciplinar da Cultura e Línguas Clássicas que corre o risco de ser afastada ou desvirtuada nos sistemas de ensino, a História e a Filosofia correm igual risco. Acrescento, todas as Artes. E, acrescento, também, as vertentes das Ciências para as quais não se vislumbre (um certo tipo de) funcionalidade.

Entendo que o problema da escolha curricular não está tanto numa preferência pelas Ciências em detrimento das Humanidades e das Artes, mas no "valor do conhecimento" que guia.

Efectivamente, a análise curricular deixa perceber a falta a referência ao seu "valor intrínseco". Saber por saber, porque o saber existe, é uma ideia ausente das directrizes e orientações para os vários patamares e vertentes de escolaridade. Sobressai o seu "valor instrumental" ou, melhor, uma vertente deste: a que remete para a resolução de situações familiares, do dia-a-dia, muitas delas ligadas ao mundo laboral (em detrimento da que remete para o desenvolvimento de capacidades de pensamento, traduzidas, naturalmente, em acção).

A relação entre estes dois tipos de valor não tem ser de ordem antinómica: o conhecimento a que se imputa "valor em si" não exclui o conhecimento a que se imputa "valor instrumental" e vice-versa. Porém, não é isso que tem acontecido. Como consequência de uma "batalha" sem sentido, em que muitos ficam a perder, o valor instrumental (sobretudo de carácter social e pessoal) tem sido imposto. Imposição que, verdade seja dita, tem tido um acolhimento muito confortável por parte da comunidade em geral e dos educadores em particular. Sinais dos tempos, sem dúvida.

Nesta linha, tem-se entendido que são as Ciências que melhor cumprem tal desígnio e daí a sua sobreposição relativamente às Humanidades e às Artes, mas, aprofundando, vemos que elas têm sido depuradas em função desse tipo de valor. Mais: se dermos a mesma atenção às duas outras áreas vemos que a sua legitimação passa igualmente pela função social e pessoal que possam ter. Parafraseando Manuel Rocha, as Humanidades e as Artes servem para tudo menos para aprender Humanidades e Artes.

Esta nota a propósito da reintrodução do Latim em diversos sistemas de ensino. Estou de acordo com isso, claro; neste blogue há muito que manifesto preocupação pelo seu afastamento do currículo. Mas a razão que vejo invocada é sobretudo a da "serventia": o Latim ajuda a escrever melhor e a estruturar o pensamento e isso permite aos países e às escolas obterem melhor posição nas avaliações externas e internas. É uma razão muito redutora e, confesso que não me agrada que apareça sozinha.

Mas não são apenas os responsáveis por políticas e medidas educativas que despertam para os milagres que esta língua possa fazer, os pedagogos, os psicólogos e os neurocientistas acompanha-nos e passam a reconhecer-lhe facetas terapêuticas e de desenvolvimento da inteligência (um artigo interessante sobre esta tendência pode ser lido aqui). Ainda que somando esta razão àquela, continuo a considerar que falta reconhecer uma vertente valorativa fundamental ao conhecimento clássico.

E a todo o outro conhecimento, bem entendido...


Recordando os Clássicos

Ainda a tempo de aniversário

A 3 de Janeiro do ano 106 a.C. nascia, em Arpino, o grande orador, o mestre da língua latina, Marco Túlio Cícero.
A ele pertencem duas frases muito citadas, ambas dos discursos proferidos no Senado contra Catilina, acusando-o de conspiração:
Quousque tandem abutere, Catilina, patientia nostra? — Finalmente, até quando, Catilina, abusarás da nossa paciência? 
O tempora, o mores! — Ó tempos, ó costumes!
Daqui nos vem igualmente o termo "catilinária" quando queremos classificar um ataque verbal, violento e feroz, contra alguém: "foi uma verdadeira catilinária".

É também Cícero que afirma, no seu tratado Sobre a Amizade:
"É que a amizade outra coisa não é, com efeito, senão uma mesma maneira de sentir sobre todas as coisas divinas e humanas, acompanhada de um sentimento de estima e de afecto; e de facto não sei se alguma coisa melhor do que ela, com excepção da sabedoria, terá sido concedida ao homem pelos deuses imortais." (trad. de Sebastião Tavares de Pinho, INIC, 1993)

sábado, 3 de janeiro de 2015

Levar o Latim às escolas

CATCHING ON: Jennifer Hilder from Glasgow University with pupils from
Sacred Heart Primary School in Bridgeton, Glasgow. Picture: Martin Shields
Imagem encontrada aqui
Diversos países começam a reconhecer um problema que percebem ser muito grave: as dificuldades de escrita dos alunos.

Este é um sinal bem evidente de que a escolaridade elementar ou básica não está a cumprir uma das suas funções mais importantes e estruturantes - a alfabetização -, com inevitáveis consequências na escolaridade secundária e superior.

Muitos têm considerado que a principal causa desta situação é o abandono do estudo do Latim, a matemática da língua. De facto, a partir de finais da década de sessenta do século XX, as disciplinas de Latim e de Grego foram associadas a uma educação elitista, tradicional, antiga, a uma educação contemplativa que apenas servia para maçar os aprendizes. Era preciso renovar o currículo com disciplinas que preparassem para a vida, que permitissem compreender o mundo circundante e que correspondessem às necessidades e interesses das comunidades.

Essa mudança feita com muito entusiasmo e pouco conhecimento pedagógico - o que, tendo em conta, a época se percebe perfeitamente - desencadeou diversos erros e um deles é certamente o abandono das línguas ditas mortas.

Para remediar a situação, alguns sistemas educativos estão a reintroduzi-las no currículo escolar e diversas entidades autónomas arregaçam as mangas e fazem o que podem.

Um exemplo: Professores e estudantes de pós-graduação da Universidade de Glasgow criaram um programa de ensino do Latim que levam a cada vez mais escolas de zonas carenciadas, primeiro primárias e agora também secundárias. Esse programa contempla mitologia e literatura da Antiguidade, história e consciência da língua, gramática e vocabulário... E, sim, parece que os miúdos a quem o programa se destina gostam e aprendem.

Maria Helena Damião e Isaltina Martins

A LUZ DE SOPHIA

Poemas sobre a Luz de Sophia de Mello Andresen (do agradecimentos à Constança Providência pela lembrança):

Do Livro Sexto:

Algarve

1
A luz mais que pura
Sobre a terra seca


2
Eu quero o canto o ar a anémona a medusa
O recorte das pedras sobre o mar

3
Um homem sobe o monte desenhando
A tarde transparente das aranhas

4
A luz mais que pura
Quebra a sua lança
Cigarras
Como o fogo do céu a calma cai
No muro branco as sombras são direitas
A luz persegue cada coisa até
Ao extremo limite do visível
Ouvem-se mais as cigarras que o mar
Reino
Reino de medusas e água lisa
Reino de silêncio luz e pedra
Habitação das formas espantosas
Coluna de sal e círculo de luz
Medida da Balança misteriosa


Labirinto

Sozinha caminhei no labirinto
Aproximei o meu rosto do silêncio e da treva
Para buscar a luz de um dia limpo
Exílio

Quando a pátria que temos não a temos
Perdida por silêncio e por renúncia
Até a voz do mar se torna exílio
E a luz que nos rodeia é como grades



De Coral

E só então

E só então saí das minhas trevas:
Abri as minhas mãos como folhagens,
Intacta a luz brotava das paisagens,
Mas na doçura fantástica das coisas
As minhas mãos queimavam-se e morriam.

Dia perfeito, inteiro e luminoso,
Dia presente como a morte, luz
Trespassando os meus olhos de cegueira.
Cada voz, cada gesto, cada imagem
Na exaltação do sol se consumia.

sexta-feira, 2 de janeiro de 2015

Livre-arbítrio e responsabilidade

Informação recebida do Teatro Nacional D. Maria:

 6 jan às 19h – entrada livre

 Os Encontros Garrett, um espaço onde criadores, cientistas, ensaístas e público comungam na procura de caminhos para o futuro, regressam ao Salão Nobre do TNDM II, em janeiro de 2015.

 Estamos habituados a pensar que somos livres para decidir e escolher os nossos atos. Não passará esta certeza de uma ilusão? Experiências na área das neurociências colocam dúvidas sobre a existência do livre-arbítrio, embora não exista consenso dos cientistas e dos filósofos quanto à interpretação dessas mesmas experiências. A discussão sobre este conceito é, aliás, muito antiga. O mais tardar desde Santo Agostinho que a existência do livre-arbítrio tem sido uma questão central na História da Filosofia e da Teologia e, mais recentemente, na História da Ciência. Ao longo do processo histórico, a relação entre livre-arbítrio e responsabilidade tem passado pela discussão sobre a compatibilidade do determinismo e do indeterminismo com o livre-arbítrio.

Somos simultaneamente livres (subjetivamente, no sentido de que a liberdade seria uma prática exigente, o livre arbítrio uma conquista difícil) e não livres (objetivamente, na medida em que somos uma parte da natureza, regidos pelas suas leis)?

 Que implicações morais e que consequências para a sociedade, nomeadamente no Direito, teria a ausência do livre-arbítrio?

 Ou será o livre-arbítrio parte integrante da natureza humana, seguindo a afirmação de Jean-Paul Sartre "nous ne sommes pas libres de cesser d’être libres”?

Margarida Gouveia Fernandes Programadora dos Encontros Garrett com Carlos Fiolhais (Professor da Universidade de Coimbra) e Guilherme d'Oliveira Martins (Presidente do Centro Nacional de Cultura) moderação Ana Gerschenfeld (Jornalista de Ciência do jornal Público)

A Excelência analisada no "The Guardian"

O que significa excelência científica? Um professor de política científica no University College fop London ensaia uma explicação. Ler aqui.

Um extracto:

"Prioritizing ‘excellent’ research perpetuates the reproduction of scientific elites and the concentration of scientific research in particular disciplines and places. Sociologist Robert Merton called it the Matthew Effect after the Gospel relating Jesus’s parable of the talents: ‘unto every one that hath shall be given… but from him that hath not shall be taken away’."

Congresso de Comunicação de Ciência no Algarve


Informação recebida dos organizadores:

Na sequência das duas edições anteriores, Lisboa 2013 e Porto 2014, o Congresso de Comunicação de Ciência SciCom Pt 2015 em Lagos pretende ser um ponto de encontro de pessoas e projectos que envolvam a Comunicação de Ciência.

Sendo uma organização conjunta dos três Centros de Ciência Viva no Algarve, Lagos, Faro e Tavira, o Congresso decorrerá no Centro Cultural de Lagos e também no Centro Ciência Viva desta cidade.

Os dois primeiros dias do Congresso, 28 e 29 de Maio de 2015, serão dedicados à apresentação e discussão de trabalhos relativos a projectos em Comunicação de Ciência, para além da apresentação de palestras por parte de oradores convidados. O último dia, 30 de Maio, será dedicado a diversas áreas e que permitam aos participantes no Congresso adquirirem ou desenvolverem competências específicas em Comunicação de Ciência, da comunicação oral, a fontes de financiamento, passando pela comunicação e literacia visual.

Adaptando alguns dos elementos que compõem tradicionalmente os textos noticiosos, o SciCom Pt 2015 servir-se-á das habituais perguntas, relativas à Comunicação de Ciência, para servirem de âncoras motivacionais e organizadoras dos temas, projetos e experiências a serem apresentados e debatidos no Congresso.

Para além das dimensões referidas, pretende-se que o SciCom Pt 2015 seja também um espaço de contacto informal entre profissionais e não-profissionais e que de alguma forma estejam interessados e envolvidos na divulgação e envolvimento de todo o tipo de públicos na Ciência e Tecnologia. Assim, existirão momentos de informais de troca de experiências, demonstração de projectos, abordagens e novos caminhos para um cada vez maior envolvimento da Sociedade nos processos de tomada de conhecimento e de decisão que envolvam a Ciência.

Comissão Organizadora
Congresso SciCom Pt 2015

Luís Azevedo Rodrigues | Centro Ciência Viva de Lagos
Rita Borges | Centro Ciência Viva de Tavira
Cristina Veiga Pires | Centro Ciência Viva do Algarve
facebook.com/CongressoSciComPT

ANO INTERNACIONAL DA LUZ NO FACEBOOK


JÁ ESTÁ ON-LINE: AQUI.

quinta-feira, 1 de janeiro de 2015

CEM ANOS DA OBRA-PRIMA DE EINSTEIN

Artigo que escrevi hoje no Observador:


A ONU, ao designar 2015 como o Ano Internacional da Luz, referiu que nesse ano é o centenário da teoria da relatividade geral de Einstein. A teoria da relatividade restrita, cujo centenário foi celebrado em 2005, uniu o espaço ao tempo e a matéria à energia. Pois a teoria da relatividade geral, a obra-prima de Einstein, relaciona o espaço-tempo com a matéria-energia. A força de gravitação universal, que Newton tinha proposto no século XVII para explicar a atração de uma maçã ou da Lua pela Terra, ficou explicada: a matéria-energia de um astro como a Terra encurva o espaço-tempo à volta. Num verdadeiro prodígio do cérebro humano, Einstein juntou, em 1915, o espaço, o tempo, a matéria e a energia uma só equação. E todo o cosmos está ali, desde o Big Bang aos buracos negros.
E o que é que a teoria tem a ver com a luz? Pois Einstein, que para a relatividade restrita tinha partido da invariância da velocidade da luz, para a relatividade geral partiu da hipótese de a luz curvar nas vizinhanças de um astro de grande massa, portanto com muita matéria e energia. Supondo que a luz vai sempre pelo caminho mais curto, se ela encurva é porque o espaço e o tempo são curvos, isto é, porque a matéria e a energia “dobram” o espaço-tempo. Desde há um século que muitas provas se acumularam em favor de Einstein. A primeira foi a observação do eclipse do Sol em 1919 na ilha, então portuguesa, do Príncipe. O Príncipe foi o princípio da fama mundial do sábio. O jornal “O Século” titulou de forma poética: “A luz pesa”.
A física prossegue hoje em dia. Os físicos estão a tentar subir para os ombros de Einstein tal como este subiu para os ombros de Newton para ver mais longe. Não é fácil, mas valerá a pena. O casamento da teoria da relatividade geral, que descreve a estrutura do cosmos, com a teoria quântica, que descreve a luz, é uma tarefa que valerá um Nobel. Um? Devia valer vários!

PELA LUZ DOS OLHOS MEUS

  I

Neste Ano Internacional da Luz, inicio aqui uma rubrica dedicada à luz na arte (na poesia, na música, nas artes visuais, etc.) com o poema de Vinicius de Morais "Na luz dos olhos teus", músicado por Tom Jobim, cantado aqui por Miúcha (irmã de Chico Buarque e mãe de Bebel Gilberto) e pelo próprio Tom Jobim:

Quando a luz dos olhos meus
E a luz dos olhos teus
Resolvem se encontrar

 Ai, que bom que isso é, meu Deus
Que frio que me dá
O encontro desse olhar

Mas se a luz dos olhos teus
Resiste aos olhos meus
Só pra me provocar

 Meu amor, juro por Deus
Me sinto incendiar

 Meu amor, juro por Deus
Que a luz dos olhos meus
 Já não pode esperar

Quero a luz dos olhos meus
Na luz dos olhos teus
Sem mais la ra ra ra

 Pela luz dos olhos teus
Eu acho, meu amor, que só se pode achar
Que a luz dos olhos meus precisa se casar

 (La ra ri ra ra ra) (La ra ri ra ra ra)

 Quando a luz dos olhos meus
E a luz dos olhos teus
Resolvem se encontrar

Ai, que bom que isso é, meu Deus
Que frio que me dá
O encontro desse olhar

 Mas se a luz dos olhos teus
Resiste aos olhos meus
Só pra me provocar

 Meu amor, juro por Deus
Me sinto incendiar

 Meu amor, juro por Deus
Que a luz dos olhos meus
Já não pode esperar

 Quero a luz dos olhos meus
Na luz dos olhos teus

Pela luz dos olhos teus
Eu acho, meu amor, e só se pode achar
Que a luz dos olhos meus precisa se casar
Que a luz dos olhos meus precisa se casar
Que a luz dos olhos meus precisa se casar
Precisa se casar, precisa se casar

ANO DA LUZ COMEÇOU COM O NOBEL

Meu artigo na actual Gazeta de Física, órgão da Sociedade Portuguesa de Física, que dedico à memória de Carlos Matos Ferreira (na imagem), ex-Presidente da Sociedade Portuguesa de Física, grande académico, cientista e grande gestor de ciência. A vida é assim: ainda há pouco estivemos juntos no lançamento em Portugal do Ano Internacional da Luz e já não voltaremos a estar.


A Academia de Ciências de Estocolmo atribuiu o Prémio Nobel da Física de 2014 a três cientistas japoneses: Isamu Akasaki e Hiroshi Amano, da Universidade de Nagóia, no Japão, e Shuji Nakamura, da Universidade de Califórnia - Santa Barbara pela “invenção de eficientes díodos emissores de luz azuis, que permitiram a criação de luzes brancas brilhantes e economizadoras de energia.” A merecida recompensa ilustra as aplicações da física na nossa vida. Nem sempre os Nobel da Física estão associados a descobertas ou invenções com impacto no nosso quotidiano, mas neste caso a associação é muito clara. Já existiam há bastante tempo LED vermelhos e verdes, mas faltavam os LED azuis para se obter luz branca a que estamos habituados. No início dos anos 90 fez-se a luz azul. 


Para isso foi necessária uma extraordinária persistência pois os físicos japoneses tiveram de ultrapassar falhanços sucessivos na escolha e manipulação dos materiais semicondutores mais adequados para o fim em vista. Tiveram em vista. Tiveram de fazer fazer "sanduíches" de vários materiais, com base no nitreto de gálio. Experimentaram com grande aplicação, na tradição do inventor norte-americano Thomas Edison, que experimentou numerosas lâmpadas de filamento antes de chegar em 1879 à primeira lâmpada comercializável com um filamento de carbono. Tanto nos ensaios dos novos laureados Nobel como nos de Edison o que parecia impossível acabou, à custa de tanto porfiar, por se tornar realidade. 


Hoje vivemos num mundo cada vez mais iluminado por lâmpadas LED. A principal  vantagem dessas lâmpadas relativamente às lâmpadas tradicionais de incandescência (de que Edison foi pioneiro) e às lâmpadas fluorescentes (criadas pelo inventor norte-americano Peter Hewitt em 1901) é o ganho de eficiência. Como lembra o comunicado da Academia os LED convertem energia eléctrica em luz de uma forma muito mais eficiente do que acontece com as lâmpadas anteriores. Dividindo a luminosidade à saída pela potência à entrada, as lâmpadas LED podem ser vinte vezes mais eficientes do que as lâmpadas de incandescência, ao passo que as lâmpadas fluorescentes, baseadas em descargas eléctricas em gases, só são cinco vezes mais eficientes. A economia e o ambiente agradecem. Como se isso fosse pouco, as lâmpadas LED duram mais, muito mais do que as outras: o seu tempo de vida é cem vezes maior do que o das lâmpadas de incandescência, ao passo que as lâmpadas fluorescentes só duram dez vezes mais. A economia e o ambiente voltam a agradecer. E é por isso que, se dantes  só víamos os LED como umas luzinhas vermelhas em monitores eléctricos, hoje vemos LED por todo o lado: em lojas, em escritórios, nas ruas (os projectos multiplicam-se para substituir toda a iluminação pública de cidades só por LED). Temos lâmpadas LED por exemplo nos nossos telemóveis. Temo-las em nossas casas em ecrãs de computador e de televisão. Há até lasers azuis que permitem discos compactos com mais informação. E já há LED ultavioletas que permitem a purificação de águas. Os LED mostram mais uma vez o enorme poder transformador que a ciência pode exercer nas nossas vidas. 


Este Nobel vem em hora oportuna. O ano de 2015, por decisão das Nações Unidas, será em todo o mundo o Ano Internacional da Luz.  A Sociedade Portuguesa de Física e a Ciência Viva estão a congregar esforços com a UNESCO para celebrar a ciência e a engenharia da luz, ciência e tecnologia que são hoje inseparáveis da nossa civilização e cultura. Procurar-se-á fazer luz sobre a luz que está por todo o lado.

A CIÊNCIA EM 2014

Minha crónica no último "As Artes entre as Letras", jornal cultural do Porto (na imagem a missão Rosetta-Philae a um cometa):


O ano de 2014 foi para a ciência em Portugal um ano para esquecer, foi o ano de profunda crise e contestação.  A Fundação para a Ciência e Tecnologia (FCT), com o beneplácito do ministro da Educação Nuno Crato, que há muito deixou de ser ministro da Ciência, decidiu logo no início do ano reduzir de mais de 30% o número de bolsas de doutoramento e de pós-doutoramento que costumava atribuir, contribuindo assim para engrossar a fuga de cérebros. Depois, num exercício a que chamou de “avaliação” (usurpando o nome), decidiu eliminar cerca de 50% das unidades de investigação do país, impondo uma quota, que de início foi secreta, à European Science Foundation, instituição a quem encomendou o trabalho de “desbaste”. Tanto num caso como noutro a indignação foi geral, com os candidatos a bolseiros em manifestação na rua e com os investigadores a multiplicarem-se em abaixo assinados e artigos críticos. O próprio Conselho de Reitores das Universidades Portuguesas – CRUP  tomou uma posição de violenta crítica ao governo. Para os responsáveis maiores da universidade, reflectindo aliás a opinião da esmagadora maioria dos académicos, a dita avaliação foi um “falhanço pleno”. Os reitores, pelo menos até agora, não foram inteiramente coerentes, pois senão teriam recusado a extracção de quaisquer consequências práticas de uma avaliação sem o mínimo de qualidade. O ministro não atendeu aos protestos dos reitores, nem sequer lhes respondendo.

No final do ano surgiu finalmente a lista dos resultados, de onde ressalta a arbitrariedade do exercício avaliativo: praticamente dois terços do financiamento foram atribuídos a um quinto das unidades de investigação, com a agravante de não estar demonstrado que aqueles centros eram as mais merecedoras uma vez  que muitos avaliadores não eram especialistas nas áreas  que estavam a apreciar.  Foram atribuídos financiamentos ditos “estratégicos” de uma forma que parece completamente arbitrária, pois as justificações não foram claramente enunciadas pela FCT. O governo, para justificar o injustificável, tem apregoado a ideia vaga de “excelência”, mas o certo é que o resultado previsível será um afundamento geral do sistema, com muitos centros condenados à extinção e outros, muito poucos, sem saberem o que hão-de fazer ao dinheiro. Por via do obscuro financiamento estratégico, alguns centros acabaram por obter melhor financiamento do que outros com melhor classificação. Mais de 130  reclamações estão pendentes na primeira fase (a fase eliminatória para metade) e muitas outras são previsíveis na segunda fase (a fase de selecção dos poucos  “supermilionários”). As instâncias juridicamente competentes terão muito trabalho pela frente e está instaurada a total desconfiança nos responsáveis pelo sistema científico nacional,  uma confiança que só poderá ser restaurada com outros intervenientes.  É muito fácil destruir, muito mais difícil será reconstruir. O sistema científico português, que é relativamente jovem, estava num caminho de convergência para a Europa e agora, em resultado da política desastrada do actual governo, está em vias de se afastar, voltando aos lugares traseiros onde já esteve.

Na cena internacional, destaco dois acontecimentos científico-tecnológicos, um muito longe e o outro mais perto de nós. O primeiro foi a aproximação da sonda Rosetta da agência espacial europeia a um cometa, com o pouso na superfície do cometa de um robô, o Philae. É um prodígio da ciência e da técnica, que evidencia bem o progresso que o conhecimento permite. Ainda há três séculos não se sabia o que eram cometas (para o Padre António Vieira eram mensageiros do céu, sinais de Deus) e hoje não só sabemos o que são como os conseguimos visitar mecanicamente, realizar análises geológicas e fotografar de perto a sua superfície rugosa. O facto de estar neste momento interrompido o contacto com a Philae não invalida a enorme relevância desta proeza astronómica. Por outro lado, 2014 foi o ano em que uma empresa norte-americana, a Illumina, começou a comercializar uma máquina de sequenciação completa do genoma humano que efectua cada análise por um preço inferior a mil dólares. Esta era uma meta há muito tempo aspirada neste domínio e o seu atingimento permitirá o crescimento maciço dos dados sobre o genoma e, portanto, um melhor conhecimento sobre a saúde a  doença, com a possibilidade de uma indicação atempada de riscos e de uma melhor escolha de terapêuticas. Os exames do genoma tornar-se-ão tão correntes como são hoje as análises clínicas e os raios X. A medicina personalizada irá nos próximos anos tornar-se uma realidade, com os médicos a interrogarem bases de dados genéticas. Claro que, em toda esta transformação, emergem novos desafios, que não são apenas científico-técnicos: são também económicos, sociais e políticos. Questões éticas sobre a propriedade dos genomas e a acessibilidade à informação neles contida tornar-se-ão prementes, tendo a sociedade de lhes responder. A ciência pode e deve dizer aquilo que sabe, mas pouco ou nada pode dizer sobre as questões éticas. Saber sempre foi poder, mas o exercício desse poder sempre transcendeu os limites da ciência.

O Ano de 2015 vai ser o Ano Internacional da Luz, uma iniciativa da ONU para celebrar os avanços científicos e técnicos obtidos sobre a luz. O ano vai abrir oficialmente em Janeiro em Paris, sob os auspícios da UNESCO. Em todo o mundo e também em Portugal vai ser alargada a cultura científica, com o fértil cruzamento de saberes e sensibilidades a respeito da luz. A luz está por todo o lado, está na Natureza e está também na cultura. Em Portugal os tempos não são fáceis, com um governo que despreza a cultura científica, mas faço votos para que o Ano Novo seja de “mais luz”.


Feliz Ano Internacional da Luz!

UM CAMINHO CURRICULAR PARA A FORMAÇÃO HUMANISTA?

Entenda-se este texto não como um elogio acrítico a uma nova escola de iniciativa privada, mas como uma reflexão acerca da estrutura curricu...