quinta-feira, 8 de dezembro de 2011

TEMPO PARA OS ALUNOS


Um grupo de alunos do secundário fez-me algumas perguntas sobre o tempo para prepararem melhor um trabalho sobre esse assunto. Partilho aqui as respostas que lhes dei:

P- Como se explica a unidireccionalidade do tempo? Existem várias teorias?

R- A chamada "seta do tempo" é um dos grandes mistérios da Física. A Segunda Lei da Termodinâmica diz que distinguimos futuro do passado porque num sistema isolado a entropia cresce espontaneamente com o tempo em todos os processos (reais (processos ditos irreversíveis). Mas o problema é que não é fácil fundamentar essa lei de uma teoria macroscópica a partir de leis de teorias microscópicas (mecânica newtoniana ou relativista, mecânica quântica) que não distinguem passado de futuro. Parece que a seta do tempo aparece quando se caminha do microscópico para o macroscópico, do pequeno para o grande, do simples para o complexo. Sim, há várias teorias que tentam explicar a seta do tempo. O Prémio Nobel da Química Ilya Prigogine trabalhou muito nesse problema e tem um excelente livro de divulgação sobre o assunto ("A Nova Aliança", Gradiva, com Isabel Stengers).

P- A noção que o ser humano tem do tempo corresponde realmente ao tempo como é visto na Física? Ou, pelo contrário, a noção de tempo (no senso comum) encontra-se desfasada da realidade?

R- O tempo dos físicos tem de ser definido com mais precisão do que o tempo do quotidiano, o tempo do senso comum. O tempo é medido com relógios e Einstein foi o primeiro a reconhecer que, ao contrário do que Newton supunha, não há um relógio universal: o ritmo do relógio depende do estado do movimento e depende da proximidade a corpos com massas. O tempo está ligado ao espaço e o espaço-tempo é deformado pela matéria-energia. Logo aí houve um abalo do sendo comum. O filósofo francês Henri Bergson, por exsmplo, não aceitou as ideias de Einstein com base no senso comum. De modo que podemos dizer que a noção de tempo nos seres humanos se encontra um pouco desfasada da realidade física. Por outro lado, há a questão, que já mencionei, de explicar com base em teorias físicas microscópicas a diferença entre passado e futuro que todos vemos. Einstein declarou um dia que essa diferença era uma "ilusão" uma vez que, nas equações fundamentais da física, ela não é evidente.

P- Cientistas afirmam que o tempo poderá algum dia acabar. Esta afirmação tem alguma credibilidade? Porquê?

R- Segundo a teoria da relatividade de Einstein o tempo está ligado ao espaço: há uma entidade a quatro dimensões chamada "espaço-tempo". Hoje sabemos que o espaço-tempo começou há cerca de 14 000 milhões de anos. com o momento inicial do Big Bang. Não havia tempo antes do Big Bang, pelo que, em Física, não se pode falar de antes do instante zero. Tanto quanto sabemos hoje, o Universo vai continuar em expansão. Não haverá, portanto, fim do espaço-tempo. O Universo é semi-eterno: não é eterno para trás, mas é eterno para a frente. As afirmações sobre o "fim do tempo", no estado actual da Astrofísica, não têm credibilidade.

P- Quais foram os físicos que mais contribuíram para o conhecimento actual que temos do tempo?

R- Já falei de Newton e de Einstein, na Mecânica. Na Termodinâmica os grandes autores da famosa Segunda Lei foram o alemão Rudolf Clausius e o britânico Lord Kelvin. Entre os que identificaram o problema da justificação microscópica da irreversibilidade do tempo estão o austríaco Ludwig Boltzmann, que associou entropia e probabilidade, e o britânico James Clerk Maxwell. Entre os estudiosos mais recentes da questão do tempo, está o referido Prigogine, embora deva nota que as teorias dele são controversas.

P- Quais as diferenças da concepção do tempo entre a Física Quântica e a Relatividade Geral de Einstein?

R- Na Física Quântica o tempo é um parâmetro ou variável independente tal como na Física Clássica. Nas duas teorias há reversibilidade temporal: as equações não mudam se se mudar o sentido do tempo. Na teoria da relatividade restrita o tempo passa a ser tratado como as variáveis que descrevem o espaço. Na teoria da relatividade geral o espaço-tempo é associado à matéria-energia, sendo o tempo ainda um parâmetro.associado aos parâmetros de espaço. Essa teoria consegue descrever buracos negros (o fim do espaço-tempo) e buracos brancos (o Big Bang é, afinal, um grande "buraco branco": o início do espaço-tempo). No século XX, após a Teoria da Relatividade e a Teoria Quântica terem aparecido, desenvolveu-se a Física Quântica Relativista, que junta a teoria da relatividade com a teoria quântica. No entanto, ainda não existe uma teoria da gravitação quântica aceite por todos, isto é, uma teoria que junte a teoria da relatividade geral e a teoria quântica de um modo incontroverso.

P- Os físicos estão a tentar elaborar uma teoria do tudo, em que unificam todas as interacções fundamentais. Em que grau de desenvolvimento se encontra esta teoria?

R- A chamada "teoria de tudo" pretende ser uma teoria unificadora das forças. Já foram unificadas três das quatro forças fuindamentais da Natureza, no quadro da teoria quântica relativista (teoria de campos). Está ainda a faltar a unificação final com a força da gravidade, precisamente por não existir uma teoria quântica da gravitação. Uma "teoria de tudo" deverá conter uma teoria quântica da gravitação. A proposta mais defendida tem sido a teoria das cordas. Não há, porém, nenhuma evidência experimental ou observacional para essa teoria que deverá descrever unificação de forças a energias extremamente elevadas. Para alguns a teoria das cordas é, por isso, uma teoria mais metafísica do que física. Mesmo que se viesse a validar uma "teoria de tudo", ela de facto não seria uma teoria de tudo. Por exemplo, o mistério da irreversibilidade do tempo em sistemas grandes (sistemas complexos) permaneceria...

quarta-feira, 7 de dezembro de 2011

Lóbis Sindicais e Exame de Entrada na Carreira Docente


“O princípio da igualdade, que está na Constituição, significa que o que é igual deve ser tratado igualmente e o que é desigual deve ser tratado desigualmente" (Rui de Alarcão, ex-reitor da Universidade de Coimbra).

"A única salvação do que é diferente é ser diferente até ao fim, com todo o valor, todo o vigor e toda a rija impassibilidade” (Agostinho da Silva, 1906-1996).

Com a credencial de ter defendido, vezes sem conta, em posts por mim aqui publicados, a necessidade de um exame de acesso à carreira docente (o primeiro deles em idos de 2008) não podia deixar de me congratular com a notícia do passado dia 29 de Novembro, publicada no Correio da Manhã, a dar conta de que este exame arranca em 2012. Aliás, embora não regulamentada, esta prova de acesso à docência está legislada desde 2008.

Sem surpresa de maior (como diz o povo, “pelo andar da carruagem se vê quem vai lá dentro”!), logo acorreu belicosa a criticar esta medida, por parte doe Nuno Crato, actual Ministro da Educação, a guarda pretoriana sindicalista encarregada de proteger fortes lóbis ao serviço de interesses bastardos dos seus associados, conseguidos em sequelas de décadas de desvario revolucionário, nas quais foi criado um Estatuto de Carreira Docente que não têm paralelo noutros países. Em nome de um pretenso processo democrático, que anulou toda e qualquer diferença e postergou todo e qualquer valor, procedeu-se à igualização de indivíduos totalmente diferentes na sua formação académica maltratando as elites que, no dizer de António José Saraiva, “assustam muitos democratas por julgarem que as sociedades são superfícies rasas”. Assim (reportando-me à notícia do Correio da Manhã supracitada), João Dias da Silva, da FNE, logo apoiado por Mário Nogueira, da FENPROF, se fizeram seus opositores ferozes com o argumento, havido de peso e tido como incontroverso, do dispêndio de cem mil euros (em moeda antiga, vinte mil contos) que este exame iria acarretar ao erário público como se, como decretou Eça, para ensinar não houvesse uma formalidadezinha a cumprir – saber. E este facto é tanto mais insólito por não ter havido, por parte dos corifeus dessas mesmas federações sindicais, a mínima preocupação (bem pelo contrário!) com a enorme hemorragia de dinheiros públicos trazida com o já referido Estatuto da Carreira Docente acordado, corria o ano de 1986, entre o Ministério da Educação, representado pelo ministro Roberto Carneiro, e trinta sindicatos e organizações afins, numa mesa de negociações em clima tumultuoso nada condizente com uma tomada de decisões de cabeça fria por, parafraseando Fernando Pessoa, se ter violentado todo o sentimento de igualdade que, sob o aspecto de justiça ideal, é a maior das injustiças e a pior das tiranias.

E assim foi, por exemplo, aos professores do ensino primário atribuída a reforma, quase diria na força de todas as suas capacidades físicas e mentais, aos 32 anos de serviço e 52 de idade, enquanto para outros, os professores dos então ensinos preparatório e secundário, se aplicou o Estatuto de Aposentação dos Funcionários e Agentes da Administração Pública: 36 anos de serviço.

Para situações destas, o nosso povo tem uma expressão bem a propósito quando critica a poupança no farelo para gastar na farinha. Ou seja, preocupam-se esse dirigentes sindicais com os cem mil euros a dispender com a prova de acesso à docência quando, por outro lado, defenderam, "à outrance", uma verba abissalmente maior em reformas de docentes do ensino primário, em alguns casos, com a duração de maior número de anos de aposentadoria do que de vida activa, fazendo com que a que a actual geração de jovens, nossos filhos e /ou nossos netos, corram o risco de verem as suas reformas reduzidas a pouco, a quase nada ou mesmo a nada. E, como se isto fosse ainda pouco, alguns desses professores e outros de trabalhos manuais que descontaram, para efeitos de reforma, incomparavelmente menos do que os professores licenciados dos então ensinos preparatório e secundário, pouco tempo antes da idade de reforma, através da obtenção de complemento de habilitações obtido, por vezes, em escolas privadas em escassa meia dúzia de meses, vieram a usufruir de reformas correspondentes à dos professores que mais investiram na respectiva formação e que mais descontaram para ela.

Triste argumento este de uma preocupação com cem mil euros que concorrem para que o acesso à carreira docente não esteja unicamente dependente da classificação do diploma, seja este obtido numa universidade de prestígio ou numa universidade de vão de escada, numa escola superior de educação estatal ou numa escola privada de província, quer se destine a ensinar unicamente Ciências da Natureza ou Matemática ou, passe o plebeísmo, seja pau para toda a obra, dando acesso simultâneo ao magistério de Ciências da Natureza e Matemática no ensino básico, sem causar problemas de consciência a quem permitiu que o ensino possa ser exercido por quem, como escreveu o incontornável Eça, seja “em ciência um diletante de coxia”.

Consequentemente, não descortino razão para que a verba de cem mil euros justifique o facto destas duas federações sindicais estarem contra o exame de entrada na carreira docente como se o futuro do país e uma formação sólida da sua juventude se pudessem continuar a compaginar com “três décadas de facilidade e demagogia” (António Barreto) que permitiram que cábulas optassem pelo caminho escandalosamente facilitado das Novas Oportunidades ou do Exame de Acesso ao Ensino Superior para maiores de 23 anos lotando o ensino superior, muitas das vezes, de indivíduos que mal sabem ler e/ou escrever. Aliás, um ensino superior desacreditado por ministrar, sem qualquer pejo, uma espécie do ensino liceal de outrora ou secundário dos nossos dias, de muito reduzida exigência. Ou, por vezes, nem isso!

No caminho do çuçeço: 2.º episódio — os responsáveis


Segundo episódio de «No caminho do çuçeço» de António Mouzinho:

Na senda de um 1.º episódio de «No caminho do çuçeço» dedicado aos exames, segue outro dedicado aos responsáveis pelo sucesso:

Temos uma legislação retorcida.

Já uma vez comparei a nossa legislação do ensino a um carro «kitado», que sai caro, é ineficaz e tem mau aspeto.

Desde 1990, quando foi aprovado um estatuto para a função docente, que os professores foram assistindo à atividade de oficina de bairro do ministério da Educação: o estatuto, de sua graça Decreto-Lei 139-A/90, visava a «revisão e substituição da legislação em vigor, dispersa por inúmeros diplomas».

Em cheio! Neste momento, quem queira perceber quem é o último responsável pela quantidade e qualidade do ensino na sala de aula de uma escola pública, tem pela frente o seguinte pedaço de leitura: primeiro, a versão mais recente do dito estatuto (foi modificado em 97, 98, 2003, 2005, 2006 e 2007 — duas vezes, neste ano...), crismada Decreto-Lei 270/2009, que diz isto: tem o professor o «[...] direito à autonomia técnica e científica e à liberdade de escolha dos métodos de ensino, das tecnologias e técnicas de educação e dos tipos de meios auxiliares de ensino mais adequados, no respeito pelo currículo nacional, pelos programas e pelas orientações programáticas curriculares ou pedagógicas em vigor; [...]» — art.º 5.º, 2 c).

De seguida, o Decreto-Lei 50/2011, que estatui sobre a organização e gestão curricular do ensino secundário (e é uma transformação de diplomas semelhantes de 2004, 2006 e 2008), e remete para «diploma próprio»: trata-se da Portaria 244/2011 (anteriores versões em 2004, 2006, 2007 e 2010).

Refira-se que a portaria n.º 244 se segue abruptamente, na página do Diário da República, a uma magnífica portaria, a n.º 243/2011, que elege qualidades, quantidades ou porções e pesos da fruta escolar e produtos hortícolas elegíveis para aquisição e distribuição às crianças. É saudável, generosa, adequada.

Après la 243, le déluge...:

Reza a 244 que intervêm no processo de avaliação dos alunos, na qualidade de responsáveis, o professor, o próprio aluno, o conselho de turma, os órgãos de gestão da escola, o encarregado de educação, os serviços com competência em matéria de apoio socioeducativo e a administração educativa.

Acrescenta a portaria que «compete ao conselho pedagógico [...], de acordo com as orientações do currículo nacional, definir, no início do ano lectivo, os critérios de avaliação para cada ano de escolaridade, disciplina e Formação Cívica, sob proposta dos departamentos curriculares, contemplando obrigatoriamente critérios de avaliação da componente prática e ou experimental, de acordo com a natureza das disciplinas e da Formação Cívica.»

E mais diz que «Os critérios de avaliação mencionados no número anterior constituem referenciais comuns no interior de cada escola, sendo operacionalizados pelo conselho de turma».

Querem, agora, saber como se articulam os vários órgãos dentro da escola? Há o Decreto-Lei n.º 75/2008 da administração e gestão escolar que define pelouros (o anterior é o 115-A/89, acrescentado do Decreto Regulamentar n.º 10/99, sobre as estruturas de orientação educativa).

O que será que isto dá na prática?

Dá uma imensa salada! Senão, vejamos: num país que saiba bem o que quer, isto pode significar que o currículo nacional aprovado é aplicado em todas as escolas públicas, encontrando cada escola o processo mais conveniente de o fazer, e entregando a responsabilidade última ao professor encarregado desta ou daquela turma. Os resultados obtidos por esse professor podem ser facilmente aferidos em exames nacionais, e estratégias e desvios explicados por condições e circunstâncias apontadas por esse exato docente em atas de reuniões de grupo e de conselhos de turma.

A corresponsabilidade (quase nacional, caramba!...), sentida e imputada àqueles intervenientes todos que são indicados mais acima, só pode ser tomada com tempero: que diacho, é no professor que residem as decisões fundamentais do ato educativo, é a ele que podemos pedir competência e batatinhas!

Isto, num país que saiba bem o que quer. Ora, isso é coisa que em Portugal não costuma acontecer (apeteceu-me escrever: soer...). Então, como é que se interpreta a legislação?

É simples: a diluição das responsabilidades é profunda, não se sabendo quem intervém na educação e quem na instrução; os conselhos pedagógicos das escolas foram esvaziados de pedagogos (há quatro grandes departamentos, ou seja, quatro grandes domínios de incompetência específica) que, devendo limitar-se a considerações gerais, dão-se frequentes vezes importância de senado e querem intervir na vida dos outros, como instrumento da direção: os grupos disciplinares deixaram de ser representados onde quer que seja, porque, de momento, é o inverso — é a direção das escolas que é representada nos departamentos, pelos designados «coordenadores», que são quem tem assento, e acento, no «Pedagógico». Têm responsabilidades que dizem respeito, entre outras coisas, aos projetos educativos. E os projetos educativos dão o tom relativamente à modernidade da coisa: mais velho construtivismo aqui, mais ciência cognitiva acolá, ao sabor do improviso local, com apoio numa legislação vaga, febril, desnorteada.

Então, a quem imputar responsabilidades no que quer que seja?

Ao Fado. Não foi justamente promovido a património imaterial da humanidade?

(Não perca o próximo episódio do folhetim «No caminho do çuçeço», sobre projectos educativos)

António Mouzinho

BREVE HISTÓRIA DA QUÍMICA


Minha apresentação em vídeo do livro "Breve História da Química" (teatro infantil em poesia), de Regina Gouveia, saída na editora 7 dias, 6 noites: aqui.

No caminho do çuçeço: 1.º episódio — os izames


Post convidado de António Mouzinho, professor do ensino secundário:

Num programa muito engraçado da TV-Globo que se chamava «Sai de baixo» a atriz Marisa Orth disse um dia uma frase que me ficou na memória: «Cê cêdilha u, cê cêdilha é, cê cêdilha ô: çu—çé—çô!». Penso que podemos aplicar ao ensino público nacional este tipo de meditação. Comecemos pelos exames:

A maior parte das críticas levantadas aos exames diz algo de parecido com: «os exames só avaliam um tipo de coisa; um aluno é mais do que isso» (com variantes: «o ensino não é só isso»; ou: «pretende-se formar cidadãos, e não máquinas de fazer exames»; ou...; ou...).

Bem, de facto, os exames têm limitações: são constituídos, tradicionalmente, por provas escritas programadas com muita antecedência, de âmbito frequentemente nacional, e de «lápis e papel». A imagem mais divulgada é que os alunos são sujeitos a um conjunto de perguntas impertinentes, de dificuldade variável de ano para ano, erros difíceis de prever e esquivar, arbitrariedades, pequenas traições, intervenções em graus imprevisíveis do fado, da sorte... dos «nervos».

O País espera, salivando, o jornal do dia seguinte, para poder aprovar ou desaprovar o teste... julgando-o com um sorriso sabedor.

Fala-se de exames como da pêra Rocha: bons e maus anos, boas e más colheitas.

Muitas das tendências dos últimos tempos vão no sentido de pensar que as escolas têm mais, é que fintar os efeitos dos exames através de certas práticas possíveis: criticá-los, oralmente e por escrito, junto da opinião pública, diminuindo o seu prestígio como ferramenta de avaliação; desvalorizar-lhes o impacto no confronto com as classificações internas da frequência (30% para os exames, 70% para a frequência); reduzir-lhes o âmbito pela diminuição das matérias que são objecto de avaliação (predominância do último ano de estudo); minar a importância dos chamados «rankings» das escolas, isto é, dos termos de comparação entre diferentes práticas de ensino em meios dissemelhantes.

Vejamos, então:

A crítica aos exames apoia-se em argumentos variados: a rematar um percurso escolar em que os alunos tomam contacto com uma grande variedade de matérias e situações, de fontes de conhecimento e de práticas de atuação, de geometrias de aprendizagem e de avaliação, o exame escrito, atuando sobre um aluno isolado — e quase só dependente da memória —, é insuficiente para poder julgar competências de forma equânime. A incidência em «conteúdos», após ciclos de trabalho centrados nas «competências», dá uma ideia falsa do estado real da evolução dos alunos. A situação excecional é, por si só, provocadora de tensões que podem anular o resultado do trabalho de vários anos em examinandos mais sensíveis. O ato único e decisivo é o contrário de uma vida escolar — mais tarde, também profissional — de experimentação, de tentativa e erro.

Soit... mas é igualmente verdade que um exame escrito nacional permite colocar milhares de pessoas em igualdade de circunstâncias. Depois, também é verdade que o esquema de pergunta-resposta permite aferir, indiferentemente das circunstâncias locais, se determinada mensagem passou — para, então, inquirir por que motivos isso aconteceu... ou não. Abre uma porta, portanto, para ajuizar, e comparar. As competências devem emergir de conhecimentos (a expressão inglesa, sistematicamente deformada em Português, é knowledge and skills); ou seja: o bom ensino não presume criar competências abstractas, pela simples razão de que isso não existe. Por outro lado, tensões não surgem, normalmente, em cabeças sabedoras, habituadas ao escrutínio. Os «nervos» são, na realidade, habituais companheiros da ignorância e da surpresa... coisas que o sistema tem a obrigação de obviar, prevenindo, preparando. Os atletas, os músicos, os médicos, os aviadores — muitos profissionais, ao fim e ao cabo — enfrentam pela vida fora atos únicos. Ninguém trepa a um andaime munido de uma profunda tolerância para com os rapazes da construção civil que montaram a jigajoga («se eles se enganaram, paciência... coitados, da próxima vez farão melhor...»). A vida não é assim.

A aritmética de que as notas de exame são já objecto (30% do valor da classificação final de um curso secundário) não necessita de mais desvalorizações. Todos os anos vemos alunos, em determinadas disciplinas, com 16 valores na classificação interna da escola, acabarem por sair aprovados com uma nota de 6 no exame: a «média» final dá 13. As escolas têm, de facto, toda a liberdade para fazer este tipo de contas, embora os alunos não possam usar a nota desta disciplina como específica no acesso a uma faculdade. Mas de facto, afinal, parece que os exames nem sequer são um teste de efeitos muito agressivos...

Depois, uma disposição com alguns anos empurra para a prateleira parte das matérias lecionadas. Alguns exames (os de disciplinas trianuais) apenas incidem sobre o último ano da matéria. Por exemplo, um aluno de História A (dos cursos científico-humanísticos de Línguas e Humanidades) pode ir a exame descansado, ignorante de tudo o que alguma vez soube sobre civilização greco-romana, ou sobre a génese da arquitetura gótica, ou as consequências do Século das Luzes. Essa matéria não vem para exame.

Por fim, quanto aos denominados «rankings» das escolas: admito que muito boa gente não sabe lidar com eles; admito que os critérios jornalísticos que os rodeiam nem sempre são muito esclarecidos — e, por consequência, esclarecedores. Os professores, no entanto, sabem bem o que fazer para os lerem sem equívocos, e só isso já é uma vantagem.

Ora se nos entretivermos a ler projetos educativos das escolas públicas colocadas, digamos, nos 50 ou 60 primeiros lugares, vamos contemplar um panorama comum a muitos deles: a tónica do ensino nessas escolas é posta na promoção do sucesso educativo, na valorização do saber, na cultura do esforço. Isto é dito sem rebuços em documentos pouco extensos, e claros.

Façamos as contas: se não restarem os exames nacionais, o que é que nos garante que alguma destas coisas é levada a sério?

(Não perca o próximo episódio do folhetim «No caminho do çuçeço», sobre responsabilidade pedagógica).

António Mouzinho

terça-feira, 6 de dezembro de 2011

Por uma reforma urgente no Ensino Superior Politécnico


Post convidado de Armando Vieira, físico que já tem colaborado neste blogue:

A mediocridade é como uma doença contagiosa, uma vez infectados nunca mais nos vemos livres dela. É uma máxima que se aplica a pessoas e a instituições. Em Portugal convivemos e toleramos demasiado a mediocridade. O resultado é visível em quase todas as áreas, sobretudo as áreas ligadas às estruturas do Estado.

No sector do Ensino Superior esta conivência com a mediocridade é notória. Todos os anos são formados alunos, investigadores e cientistas de excelente qualidade. Estamos na média da percentagem do PIB em investimento na educação e investigação científica. Poderíamos, por isso, ter um ensino superior de excelente qualidade que reflectisse o esforço feito na qualificação dos recursos técnicos e humanos.

Mas a verdade é que não temos. As nossas universidades estão bem longe dos lugares cimeiros nos rankings internacionais. Temos uma produção científica por doutorado abaixo da média e, do ponto de vistas de patentes, estamos também muito abaixo da média. Ainda que existam excelentes cursos onde os alunos saem bem preparados para o mercado de trabalho, a maioria falha nessa missão, como mostra a elevadíssima taxa de desemprego dos recém-licenciados.

Mas se nas Universidades o problema é sério, nos Institutos Politécnicos a situação é desastrosa. Fui docente durante 10 anos no ISEP - Instituto Superior de Engenharia do Porto, por muitos considerado um dos melhores politécnicos do país. É o maior em número de alunos inscritos e é dos poucos que desenvolve alguma investigação científica, tendo alguns grupos bastante activos.

No entanto, o que vi e assisti ao longo desses 10 anos talvez ajude a explicar algumas razões da mediocridade que grassa impune no ensino superior politécnico. Um dos grandes males, senão o mal maior, é o nepotismo. No primeiro júri para Professor Adjunto de que fiz parte deparei-me com uma grelha de avaliação irreal. O CV dos candidatos era avaliado ao metro, sem qualquer critério de qualidade, tanto importava que publicasse num pasquim ou na Nature. Quando chegávamos à parte pedagógica surgia uma outra grelha curiosa. Se o candidato tivesse dado aulas numa universidade tinha um factor multiplicativo de 1, ao passo que se tivesse dado aulas num politécnico o factor seria 2. Se tivesse sido no ISEP então teria um factor 3. Perante 20 candidatos, um deles com excelente curriculum, adivinhem quem ficou em primeiro lugar? Einstein não teria a mínima hipótese neste concurso!

Não se pense que esta é a única escola a ter este tratamento discriminatório e ilegal. Alguns institutos politécnicos chegam ao patético de publicar concursos públicos à medida do candidato que querem colocar para que fique bem claro que os “de fora” não são bem vindos. Neste corporativismo generalizado quem sai penalizado é a qualidade. Não é estranhar que, no meu ex-departamento, o de Física, com um total de cerca de 30 docentes, apenas existam três doutorados na área científica de Física. O pudor impede-me de referir o número de publicações científicas em revistas internacionais que são produzidas anualmente por este departamento.

Não é difícil adivinhar as consequências desta atitude hermética, não promotora da excelência, antes complacente com a mediocridade. A rígida obediência da hierarquia e a antiguidade substitui outros critérios mais compatíveis com o ensino superior, como a capacidade científica, o espírito universalista ou o empreendedorismo. Este não é o ambiente propício ao livre pensamento, ao saudável confronto de ideias, à abertura ao exterior, à inovação pela procura constante de superar os objectivos.

No caso do ISEP vi apoderar-se dos principais órgãos de chefia pessoas que foram impondo um regime de terror, que mais parecia saído de um trama palaciano do final da decadente monarquia francesa. Os alunos têm medo de falar por recearem represálias, os professores têm medo de contestar decisões ad-hoc impostas sem discussão prévia, os colegas espiam-se denunciando pequenas irregularidades, as pressões são constantes para não sair da linha imposta pela direcção. O cúmulo, que para mim foi algo inaudito: as entradas e saídas de docentes e alunos, em todas as salas, eram controladas ao minuto. Nem me arrisco a perguntar se não haveria câmaras de vídeo-vigilância em pontos estratégicos ou microfones nas salas.

Neste regime ditatorial, um regime governado com mão de ferro, é caso para perguntar: não se terá ido longe demais? No início surpreendia-me a baixíssima taxa de participação dos alunos nas aulas. Mais tarde percebi. Ouvi histórias arrepiantes de alguns alunos que foram severamente castigados (na avaliação, claro está) por contestarem alguns professores. No início surpreendia-me existirem disciplinas com altas taxas de reprovação. Mais tarde percebi. A matéria era apresentada para ser decorada, não para ser compreendida. Matéria essa que, por vezes, nada tinha de relevante para o curso em questão.

Escrevo este texto em jeito de desabafo mas também de alerta. O país está a atravessar um período único na sua história. Para conseguirmos sair desta crise ímpar, são necessárias reformas profundas. O ensino superior é dos sectores mais importantes e que consome mais recursos do orçamento. Muito foi feito nos últimos 20 anos, mas é crucial levar a cabo reformas para que o dinheiro dos contribuintes tenha um uso justo e adequado. O Ensino Superior Politécnico tem certamente muitas virtudes, mas é preciso encarar de frente os seus problemas crónicos e aproveitar ao máximo as suas riquezas. É altura de fazer algo a bem da sanidade do ensino superior politécnico e de quem luta para o melhorar substancialmente.

Armando Vieira

Alguns Poemas de Eugénio Lisboa

De Eugénio Lisboa, professor universitário, ensaísta, crítico literário, é com enorme prazer que transcrevo alguns poemas de seu livro "O Ilimitável Oceano":


Anaxágoras ou o Astrónomo

Qual o fim da vida?, foi-lhe alguém perguntar.
E ele: o sol, a lua, os céus investigar.

Demócrito

Prefiro entender o que sei
a poder ser, na Pérsia, rei.

Euclides

Um percurso exacto.
Um discurso claro.
O rigor em acto.
O escuro raro.

Arquimedes

Nos líquidos perscrutou
o segredo vertical
de uma força que achou:
descobrir é casual
quando muito se pensou.

Galileu

As leis do movimento perscrutaste,
com paciência e cândido olhar.
Com o mesmo olhar o vasto céu sondaste,
humilde mas altivo no ousar.

Copérnico

O céu que viste era o céu
de Ptolomeu. Mas diferente
foi a forma de o olhar.
No modo de julgar, teu,
a Terra, astro movente,

demitiu-se de pensar
que era o centro do mundo:
assim ver, que abalo fundo!

Eugénio Lisboa

ONDE ESTÁS CURIOSIDADE?


Crónica publicada no Diário de Coimbra:

Onde está a cápsula espacial que transporta o robô “Curiosity– o robô-cientista-, lançada no passado dia 26 de Novembro, do Cabo Canaveral, na Florida (USA), com destino ao planeta Marte?

O seu encontro com a superfície de Marte está previsto para o dia 6 de Agosto de 2012, depois de uma viagem com uma duração de cerca 254 dias.

A sua trajectória, o “caminho” que percorrerá (incluindo o que já percorreu desde o seu lançamento) através do espaço até Marte, foi programada meticulosamente pelos cientistas e engenheiros do Laboratório de Propulsão a Jacto da NASA (Agência Espacial Norte Americana).

Vários aspectos foram considerados neste planeamento. Em primeiro lugar diga-se que o módulo, a nave espacial com o robô, que entrará na atmosfera marciana, terá que estar a 6 de Agosto e à hora certa, no local do espaço em que o planeta Marte vai estar no seu movimento de translação em redor do Sol.


É claro que o leitor não está à espera que Marte pare, interrompa o seu movimento orbital solar, para facilitar os cálculos baseados nas leis do movimento deduzidas por Newton a partir da atracção gravítica entre corpos com massa. Marte vai continuar a mover-se indiferente a este projecto humano com massa, e as influências deste na sua orbita podem considerar-se negligenciáveis tendo em conta a desproporção entre as massas do planeta e as da cápsula Centauro mais o módulo com o robô-cientista que transporta.

Foram previstos seis ajustes ou correcções na trajectória da cápsula Centauro. O primeiro estava previsto para o próximo dia 10 de Dezembro, mas a monitorização continua do seu movimento relativo mostra que Centauro segue sem desvios a rota digitalizada nos vários computadores que a verificam. Assim, o eventual primeiro ajuste foi adiado para finais de Dezembro ou mesmo já no início de Janeiro de 2012.

Uma das missões científicas mais interessantes do Curiosity é o de verificar se detecta, no local, ou melhor, na Cratera Gale na superfície de Marte onde vai “martear”, compostos de carbono característicos da vida tal qual a conhecemos na Terra.



Para eliminar a possibilidade de intrujices, ou seja, de contaminações com moléculas orgânicas transportadas pela cápsula Centauro, e que a ela tenham aderido desde o seu lançamento e ao longo dos poucos minutos que demorou a atravessar a atmosfera terrestre para sair do nosso planeta (há vida na atmosfera!), foi planeada uma rota para a sua trajectória de modo a que a cápsula não se encontre com o planeta Marte. Ou seja, a cápsula que transporta o equipamento científico mais elaborado e caro da história da nossa aventura de descoberta espacial vai falhar de propósito Marte, passando a cerca de 56 000 km ao lado dele.


Mas não se preocupe que o módulo com a nave espacial que encaminhará o robô Curiosity, devidamente esterilizado de vida à base de carbono, será ejectado no momento exacto e na trajectória devida para que poise com a suavidade de uma pena libertadora na superfície marciana da Cratera Gale.

Por estes dias, o engenho humano com mensagens de Obama, que viaja a uma velocidade de cerca de 12 mil km/h em relação à Terra (178 700 km/h em relação ao Sol!) já percorreu cerca de 18 milhões dos 567 milhões km do seu percurso total até encontrar Marte. Saiba mais em http://mars.jpl.nasa.gov/msl/.

António Piedade

“CASAMENTOS E OUTROS DESENCONTROS”

Recensão publicada no Diário de Coimbra:

O divulgador de ciência deve restringir-se à sua área de especialidade, para que a sua comunicação seja eficaz com o grande público. Foi mais ou menos por esta palavras que Jorge Buescu, Professor Associado de Matemática na Faculdade de Ciência da Universidade de Lisboa, abordou o assunto sobre quem e como deve ser efectuada a comunicação de ciência, numa palestra dirigida a jovens muito interessados pela ciência, no último (29.º) Encontro Juvenil da Ciência, no dia 3 de Setembro de 2011, em Castelo Branco.

Jorge Buescu sabe muito bem do que fala e ainda mais sobre o que escreve. Não me refiro só à eloquência com que cativa os seus ouvintes, mas também ao magnetismo com que prende os seus leitores ao caminho feito pela sua escrita enxuta de acessórios, movida pelo passeio seguro por trilhos que conhece como as mãos com que os delineia. Escrita rigorosa na informação que flui sem esforço, talhada pelo trabalho com que semeia o seu talento de cientista, matemático genuíno que, paciente, aguarda a estação da frutificação para oferecer ao leitor o fruto da sua sementeira, descontaminada de enganos.

Jorge Buescu permite-nos compreender, sem abismos, o quanto a matemática está presente nas coisas de que não prescindimos no nosso dia-a-dia.

Depois de prévias sementeiras (“O Mistério do Bilhete de Identidade e Outras Histórias”, 2001; “Da Falsificação dos Euros aos Pequenos Mundos”, 2003; “O Fim do Mundo Está Próximo?”, 2007) que alicerçaram a crescente qualidade da divulgação de ciência em Portugal e em português, Jorge Buescu apresenta-nos neste seu novo livro intitulado “Casamentos e Outros Desencontros”, o melhor da sua lavra. De realçar um denominador comum: a editora Gradiva, que aprendemos a conhecer como sinónimo de qualidade e de excelência na divulgação de conhecimento científico.

De capítulo em capítulo (que se podem ler pela ordem indicada no índice, ou por qualquer uma outra escolhida pela curiosidade ou interesse momentâneo do leitor, sem que este corra o risco de se sentir impreparado), é-nos desvendada a matemática presente em casos, histórias e problemas de sempre e de agora que nos preocupam sem que eventualmente desconfiemos que esteja na matemática a sua possível solução.

Como o Professor Carlos Fiolhais escreve no seu prefácio ao livro, a matemática “tem fama de mulher difícil”, mas “não tem maneira de resistir ao Jorge Buescu”. E é com essa mesma capacidade de sedução que Buescu no-la apresenta de vários ângulos, sem qualquer pudor, e sem recear afastar leitores ao incluir números, matrizes, expressões, equações, figuras geométricas.

Jorge Buescu demonstra, com este seu novo livro, que respeita quem o lê ao apresentar a ciência matemática tal qual ela é. Sem rodeios, escreve logo no início da sua introdução a "Casamentos e Outros Desencontros", que aquilo que mais atormenta e causa frustração a um matemático é o de não lhe fazerem perguntas depois de apresentar os seus resultados, por exemplo, numa reunião científica ou numa aula. Isto porque é até através da acção espoletada pela pergunta que pode surgir, inclusive, a resposta que o matemático não possuía, ou se abrirem outros e novos horizontes de descoberta.

É assim que a ciência avança.

Por fim, e se chegou até aqui, pergunto-lhe: que perguntas fará ao ler “Casamentos e Outros Desencontros”?

António Piedade
Ciência na Imprensa Regional – Ciência Viva

segunda-feira, 5 de dezembro de 2011

Elsa Fornero

Elsa Fornero, professora da Universidade de Turim, a nova ministra italiana do Trabalho e dos Assuntos Sociais, emocionou-se em público e chorou. Ia anunciar uma reforma do sistema de pensões, uma reforma que a sua competência, que se diz ser elevada, permitiu delinear, e chorou.

O que de mais bárbaro tenho visto em políticos quando anunciam a chegada da miséria à vida da maioria das pessoas – sublinho, pessoas –, fazendo tábua rasa de direitos humanos básicos – sublinho, direitos humanos básicos –, é a sua eficácia na aplicação das técnicas-de-bem-convencer, compradas e ensaiadas a peso de ouro.

Pretendem convencer – não sei mesmo se não estarão eles próprios convencidos – de que as medidas que vão impor se traduzem no contrário daquilo que elas realmente são. E isto como se as pessoas fossem menores, estúpidas e não percebesse a falácia, o embuste, a impostura…

É certo que chorar não resolve a desgraça económica e, sobretudo, axiológica, em que poucos fizeram cair muitos – e em que esses muitos, por razões variadas, se deixaram cair –, mas é um indício precioso de que nem toda a gente perdeu o sentido da humanidade, um indício de que há pessoas que se importam com outras pessoas, um indício de que não está tudo perdido.

Rankings, livros e o que não é Divulgação Científica!


A chamada de atenção preciosa e oportuna foi feita pelo portal Astro.PT e, infelizmente, o assunto não é novo ou pontual!

A revista Actual, do Expresso, tornou-se a primeira publicação a trazer à luz dos dias o número de livros vendidos (rankings) fornecido pela consultora Gfk. É uma prática que aplaudo pois, dessa maneira, há uma maior transparência na publicação de tais "famosos e preciosos rankings", não ficando dessa maneira "refém" dos rankings apontados pelas cadeias livreiras. Repito: o ranking é da exclusiva responsabilidade da Gfk e não do Expresso.

Passemos, portanto, à minha admiração: Astrologia e Guia do Amor 2012 – Paulo Cardoso, Pai-Nosso que estais na Terra, Do Eu Solitário ao Nós Solidário ou Dia-a-Dia com os Anjos... para a consultora Gfk estes são alguns exemplos de livros que podem figurar num ranking das obras mais consumidas na área de Ciências! E eu acho que é, no mínimo, humorístico!

Deprimente e miserável são outros adjectivos que passam pela minha cabeça!

E depois admiram-se, e depois admiram-se...

domingo, 4 de dezembro de 2011

Mal-estar cósmico e revolução ética

"Fiquei pensando. Dizem que as classes C e D copiam hábitos consumistas das classes abastadas. O exemplo chinês mostra que o mimetismo também poderia valer para o bem. Se os ministros pararem de exigir propina para assinar contratos com as empresas, você acha que isso seria o começo da revolução ética de que o país precisa? E então? O respeito à legalidade iria substituir a cultura do todo mundo faz?" (Trecho do artigo da Eliana Cardoso) Abaixo segue o link do artigo completo que recomendo a todos:

http://www.elianacardoso.com/pdfs/1322828222.pdf
Hélio Dias


Com a virtuosa intenção...

Em complemento ao comentário do leitor José Batista da Ascenção a texto anterior, duas passagens do livro Voltar a ler os Clássicos, de Roger-Pol Droit (Temas e Debates/Círculo de Leitores, ps. 17 e 20), onde se alerta para a dispersão de conteúdos que, nas últimas cinco décadas, a escola ocidental tem acolhido, desviando-se da sua orientação original.

"Após duas ou três gerações, tudo o que foi transmitido, qualquer que fosse o seu valor, durante dois mil e quinhentos anos, encontra-se sem cultivo, abandonado pela escola. Nos anos de 1960, ainda se ensinava o mesmo - claro que sob formas diferentes, mas com um resultado quase igual - que fora ensinado aos jovens gregos da Antiguidade, aos jovens romanos do Império, aos estudantes da Idade Média e aos do Iluminismo.

(...) com a virtuosa intenção de restabelecer o equilíbrio, de acabar com a desvantagem patrimonial das classes desfavorecidas, conseguiu-se privar toda a gente - e, em primeiro lugar, os desfavorecidos! - das indispensáveis riquezas humanas dos Antigos."

Museu da Ciência Universidade de Coimbra: cinco anos a divulgar ciência














O Museu da Ciência da Universidade de Coimbra comemora 5 anos amanhã, dia 5 de Dezembro. Têm sido anos de intensa actividade de divulgação da ciência e de promoção da cultura científica na sociedade.

A todos aqueles que quiserem vir comemorar connosco fica aqui o convite.

Teremos demonstrações de ciência e ainda os 'Cientistas de Pé' que irão apresentar uma stand up comedy. Tudo a partir das 17h.

Paulo Gama Mota
Director

O argumento do botão

Na continuação do texto Ninguém os obriga!

Tenho-me apercebido de outro argumento para justificar programas de televisão em que não encontro qualquer justificação, como sejam os que cabem na categoria de reality shows: “os aparelhos têm botões: quem não os quer ver que use o botão de desligar”.

Ainda que, por suposição, todos ou a maioria dos espectadores usasse esse botão quando percebesse a transposição de certas fronteiras éticas, isto não teria efeitos regressivos: não evitaria, portanto, a transposição de tais fronteiras, apenas evitaria que a transposição fosse vista, integral ou parcialmente.

Logo, em rigor, não poderiam ignorar-se transposições desse teor, dado que, materialmente, elas já aconteceram, e são elas que constituem o primeiro problema. É nele que autores de programas, críticos de televisão, patrões e accionistas, jornalistas e apresentadores, terão, mais dia menos dia, de se centrar: “até onde é legítimo irmos”? Eis o que devem perguntar a si próprios, isto se não se perguntam já.

E que não percam tempo, nem nos iludam, com essa ideia peregrina de que quem tem “o poder do botão” é que deve decidir, porque sabem perfeitamente que a estratégia do quanto-pior-melhor, que ajudaram a criar, funciona entre os espectadores e evolui a cada dia que passa.

Sobretudo não convoquem a escola para ensinar as crianças, os jovens e os adultos a “carregar no botão”, como tenho visto vezes de mais referido.

O nosso homem em estúdio

"(...) Existiram muitos momentos em que nada se disse,
porque os astronautas foram dormir e tive que esperar
que eles acordassem. (...) tinha levado muita literatura,
nomeadamente um artigo fabuloso, do Norman Mailer,
que já falava das perspectivas da chegada do Homem à Lua."
José Mensurado.


De 20 para 21 de Julho de 1969, José Mensurado, o tranquilo jornalista da Rádio e Televisão Portuguesa, que havia acompanhado e noticiado andanças das várias Apollo pelo espaço, foi o nosso homem em estúdio para, via CBS, dar conta da chegada à Lua, da saída de Neil Armstrong da nave e do primeiro passo que deu em solo não terrestre.

Antes de todos os portugueses, foi ele quem, pelos auscultadores, o ouviu dizer, em voz pausada, mas muito segura: “Um pequeno passo para o homem, mas um salto gigantesto para a humanidade”.

Emocionou-se com tudo isso, disse mais tarde, na sua sobriedade. Emocionou-se, sobretudo, quando viu a Terra do espaço. E disse também que “foi uma honra” ter acompanhado tudo isso, e ter “a sensação de que estava a entrar, embora como jornalista, para protagonista da história”.

Dessa emissão em directo, que durou 18 horas, onde a ciência, a tecnologia foi acompanhada de literatura não existe registo em arquivo da Televisão. Resta a memória que José Mensurado nos legou (que se pode ver, por exemplo aqui) e a memória do próprio José Mensurado.

Sítios consultados:
http://www.rtp.pt/web/historiartp/1960/homem_lua.htm
http://www.casadaimprensa.pt/?p=1501#more-1501
http://www.cienciahoje.pt/index.php?oid=33400&op=all

Untraceable

Em comentário a texto anterior, o leitor Fernando Caria enviou-nos um comentário onde destacou o filme Untraceable, do ano de 2008, realizado por Gregory Hoblit.

Assim o resume: "o público de internet acede a um website onde se pode ver a morte atroz de uma pessoa, que morrerá mais depressa, quanto maior fôr o número de acessos ao website. A cada nova vítima, apesar dos apelos da polícia para não se ligarem ao website, o número de acessos salta de dezenas de milhares para milhões."

sexta-feira, 2 de dezembro de 2011

EM BUSCA DE SENTIDO: CIÊNCIA E RELIGIÃO


Acaba de sair na Gráfica de Coimbra um livrinho intitulado "Em busca de um sentido: Ateísmo e crença na construção da pessoa que ama", que resultou de um encontro promovido em 4 de Dezembro de 2010 no Colégio de S. Teotónio pela diocese de Coimbra. Deixo o texto aí publicado da minha intervenção na altura, que retoma na sua maior parte textos meus anteriores:

Não há dúvida de que ciência e religião são actividades diferentes do homem. Elas respondem a necessidades diferentes do homem: A primeira trata do conhecimento do mundo natural (incluindo o próprio homem, que faz evidentemente parte desse mundo), enquanto a segunda trata da relação do homem com o “transcendente”, com o qual ele toma conhecimento através da “revelação” ou “graça”. Deus, o nome que normalmente associamos ao transcendente, tem várias faces conforme as culturas. Na nossa cultura, é o Deus da Igreja Católica.

Mas também não há dúvida de que ciência e religião têm coisas em comum. As pontes entre elas começam logo pelo simples facto de serem ambas actividades humanas, de terem o homem como actor comum. Ciência e religião são actividades desenvolvidas pelo homem e que o têm como destinatário. A ponte entre as duas ficará mais clara se acrescentarmos que, nas duas, há a procura de um sentido. É melhor dizer “de um” sentido, em vez “do” sentido, pois os sentidos que elas buscam são distintos. O sentido do mundo demandado pela ciência – a ordem natural do mundo e a sua explicação pela lógica e pela experiência - não é o mesmo sentido demandado pela religião – a ordem do mundo invocando o transcendente. Não se pode dizer que uma actividade seja superior ou inferior à outra: elas são de uma ordem diferente ao perseguirem objectivos distintos e ao usarem metodologias próprias. Poder-se-á dizer que a busca de sentido pela religião é mais antiga que a busca de sentido pela ciência, mas durante algum tempo a diferença entre essas buscas não foi nítida como é hoje. No início do século XVII, a partir do astrónomo e físico italiano Galileu Galilei, ciência e religião separaram-se para seguirem cada uma o seu caminho. O chamado “caso Galileu” – o julgamento de Galileu por um tribunal da Igreja Católica - foi decerto um momento de rotura que iniciou todo um historial de antagonismo entre as duas actividades. Mas, passados 400 anos, julgo que ciência e religião podem e devem coexistir pacificamente, sendo até possível que as duas lucrem com a respectiva interacção. Ao contrário do que, por vezes, sucedeu no passado, cada uma não tem que procurar excluir ou ignorar a outra, mas antes afirmar-se na sua esfera, no respeito pelas especificidades suas e da outra. E, sempre que possível, devem procurar o enriquecimento através do respectivo contacto. Religião e ciência serão mais completas se estiverem bem informadas acerca uma da outra. De resto, o homem é só um e só se poderá compreender o homem se se olhar para tudo aquilo que ele faz.

Embora tenha havido grandes percursores na Antiguidade como o grego Arquimedes de Siracusa, desde o tempo de Galileu que é possível definir ciência como a descoberta do mundo recorrendo à razão, à observação e à experimentação. É desde essa altura que se sabe que a observação e a experimentação permitem decidir se uma dada hipótese a respeito do mundo está errada. O reconhecimento do erro logo que haja evidência suficiente para ele tem assegurado à ciência uma notável capacidade de progressão ao longo dos tempos, já que vão sobrevivendo, transformando-se em teses, as hipóteses que não são dadas como erradas. A ciência tem um carácter cumulativo que lhe confere estabilidade e continuação. Como o mundo natural é só um, a ciência, em progresso permanente, é só uma. Ao usar uma metodologia universal, a ciência é um empreendimento partilhado por toda a humanidade. Pode haver discussão e polémica quando se está a apurar do erro, mas o resultado que emerge acaba por ser partilhado por todos.

Em contraste, a religião não assenta no mesmo tipo de racionalidade, nem na observação e na experimentação, mas sim na fé, a crença que é obtida pela “graça” ou “revelação”. Essa atitude representa um salto: há uma certa descontinuidade do natural para o sobrenatural (outro nome para o transcendente). Baseia-se em dogmas que, em geral, têm uma tradição histórica muito profunda e que não podem ou muito dificilmente podem ser revistos e muito menos descartados. São partilhados por uma comunidade que tem a mesma tradição. Nas chamadas “religiões do livro” (Cristianismo, Judaísmo, Islamismo) esses dogmas estão escritos num livro sagrado (a Bíblia, o Tora, e o Alcorão). Se uma pessoa ou comunidade quiser rever os dogmas da sua religião, a sua atitude não será muito religiosa. Nem há, aliás, mecanismos que permitam efectuar essa revisão. Em religião, a ênfase recai, por isso, mais na verdade, que há que preservar, do que no erro, que há que substituir. Como há diferentes comunidades com diferentes tradições, existem diversas religiões, com diferentes verdades, cuja unificação é na prática impossível.

Galileu, ao defender as ideias do monge polaco Nicolau Copérnico, compreendeu melhor a posição que o homem ocupa no mundo, mais precisamente a posição do nosso planeta no sistema de planetas à volta do Sol. A tensão entre ciência e religião surgiu precisamente quando a astronomia, baseada na observação realizada com esse novo instrumento que era o telescópio, colocou em causa cosmogonias antigas, designadamente o modelo cosmológico de Aristóteles e Ptolomeu, um produto de observações ancestrais que a Igreja Católica tinha conciliado com o texto bíblico ao longo de toda a Idade Média. É bem conhecido o julgamento de Galileu (um homem profundamente crente e até bem relacionado com a hierarquia da Igreja Católica), no Tribunal da Inquisição de Roma, em 1633, em que ele se viu obrigado a abjurar das ideias de Copérnico, por elas contrariarem certos passos bíblicos. Demorou alguns séculos até, quase nos nossos dias, o Papa João Paulo II ter de certo modo revogado a sentença proferida contra Galileu, ao admitir, embora não de uma forma muito explícita, que o procedimento eclesial não tinha sido o mais adequado. O problema ficou assim resolvido e, neste momento, não há sombra do “caso Galileu”: já foi até proposta uma estátua a Galileu nos jardins do Vaticano...

Importa sublinhar que a ciência moderna surgiu no contexto do pensamento cristão e católico. Não se deu no quadro cultural do judaísmo ou do islamismo, nem no quadro de outras religiões, como o budismo oriental, mas sim no quadro do cristianismo, em particular da Igreja Católica, sediada em Roma. As observações astronómicas de Galileu, realizadas em 1609, foram confirmadas por observações efectuadas por vários sábios jesuítas, incluindo um dos maiores jesuítas desse tempo, o astrónomo alemão Cristophorus Clavius. Clavius, que foi estudante no Colégio das Artes em Coimbra e admirador do nosso matemático e astrónomo Pedro Nunes antes de ter se ter tornado astronómo do Colégio Romano, ficou amigo de Galileu quando este, ainda muito jovem, o procurou em Roma. Contudo, nunca chegou a partilhar com ele a defesa do sistema copernicano. Em sua defesa poder-se-á dizer que talvez não houvesse na época evidência suficiente em abono da hipótese heliocêntrica, que a Igreja estava aliás disposta a aceitar na condição de ela ser considerada uma mera hipótese e não uma hipótese transformada em tese por virtude de observações comprovadas.

Galileu soube defender-se bem das acusações que lhe foram feitas. Quando fez notar na sua famosa carta à Grande Duquesa Cristina que "a intenção do Espírito Santo é ensinar-nos como ir para o céu e não como o céu se move", estava a citar, como convinha, um alto dignitário da Igreja, o cardeal Baronius, bibliotecário do Vaticano e grande historiador da Igreja. Tinham já ocorrido antes, em várias ocasiões ao longo da história, contradições flagrantes entre a Bíblia e o conhecimento científico, mas elas tinham sido, em geral, acomodadas pelos religiosos mais esclarecidos. Por exemplo, há vários passos na Bíblia que afirmam ou sugerem que a Terra é plana, o que levou alguns antigos padres da Igreja a rejeitar o conhecimento grego de que a Terra era uma esfera (o grego Eratóstenes chegou a medir com razoável precisão o raio da Terra, por meio de uma experiência terrestre). No entanto, numerosos cristãos cultos aceitaram a forma esférica da Terra muito antes das viagens de circumnavegação, como a do português Fernão de Magalhães, que se efectuarem pouco antes do nascimento da ciência moderna.

O inglês Isaac Newton afirmou no início do século XVIII, citando aliás sem o reconhecer um obscuro monge medieval, que se conseguiu ver mais longe é “porque estava aos ombros de gigantes”. Por cima dos ombros de Galileu (que, por sua vez, já tinha subido, tal como o astrónomo alemão seu contemporâneo Johannes Kepler, aos ombros de Copérnico) elevou-se Newton, que era também profundamente religioso, cristão embora anglicano (o movimento da Reforma tinha obtido um impacte maior nos países da Europa do Norte). Para Newton não havia dúvidas de que o Universo era obra divina, pelo que não se coibiu de repetir várias vezes, na sua obra maior, o nome de Deus. Na acalorada discussão que sustentou depois com o filósofo alemão Gottfried Leibniz, o problema não era tanto a existência de Deus, um dado adquirido para os dois, mas mais o papel de Deus no mundo: para Newton havia um Deus “obreiro” e para Leibniz um Deus “preguiçoso”, que descansava eternamente depois de ter realizado no curto tempo da Criação a Sua obra. Nesse tempo, as discussões eram, como se vê por este exemplo, simultâneamente científicas e teológicas. No entanto, a ideia de um mundo que funciona sozinho, entregue às leis naturais, um mundo que evolui sob a acção de forças conhecidas ou pelo menos passíveis de serem conhecidas, tornou-se muito tentadora após a publicação dos Principia Mathematica de Newton. Ficou famosa a resposta do matemático e astrónomo francês Pierre Laplace, um grande divulgador das ideias de Newton em França e, além disso, um denodado continuador delas, à pergunta do imperador francês Napoleão Bonaparte sobre a posição de Deus no seu sistema do mundo? ”Sir, não tive necessidade dessa hipótese”. Após Galileu, e ainda mais após Newton, passou-se a viver o tempo da separação da ciência e da religião.

O momento mais alto da tensão entre ciência e religião levantou-se em pleno no século XIX. A tensão, que deixou sequelas até aos dias de hoje, já não diz respeito à posição da Terra no mundo, mas sim à posição da vida da espécie humana,q ue povoa a Terra, na longa história da vida: é a questão da evolução das espécies, na qual o homem se integra, que foi pela primeira vez compreendida pelo biólogo inglês Charles Darwin a meio do século XIX. Ao contrário do “caso Galileu”, o “caso Darwin” ainda hoje perdura, como mostra as discussão sobre o criacionismo que têm particular foco nos Estados Unidos da América. Darwin, que estudou Teologia em Cambridge, passou numa fase tardia da vida de anglicano a agnóstico, uma palavra que surgiu nessa época, levado decerto pela sua visão que adquiriu do mundo natural. Na Origem das Espécies e nos seus outros livros, o sábio inglês dispensou a criação especial de cada espécie, uma vez que elas são mutáveis, e evoluem umas das outras, e disse que o homem não tinha um lugar especial fora da grande árvore da vida, sendo antes o resultado de milhões e milhões de anos de evolução. Não é aqui o lugar para aprofundar esta visão, pelo que fica só dito que, tal como no tempo de Galileu, houve no tempo de Darwin um embate entre a palavra da Bíblia, baseada na revelação, e os resultados da ciência, baseados na razão, na observação e na experimentação. Apesar de alguma controvérsia perdurar, a teoria da evolução não tem hoje qualquer rival científico que consiga dar conta da prodigiosa quantidade de dados da biologia.

Há incompatibilidade entre a ciência, física, biológica ou outra, e a religião? Penso que não. Mas, para que não haja, como bem mostram os casos de Galileu e de Darwin, tem de se abandonar a ideia de que a Bíblia é um livro de ciência. Não o é claramente, já que o seu conteúdo não resultou do método científico, tendo antes a ver com a crença no transcendente fundada por uma tradição secular. O Génesis é um livro simbólico e poético, escrito por vários autores ao longo de muitos anos, que deve ser lido no respectivo contexto e não interpretado de forma literal. O criacionismo, a visão da origem do mundo vivo e do homem baseada no primeiro livro da Bíblia, não faz o mínimo sentido do ponto de vista científico.

Em reforço dessa compatibilidade vem o facto de que se pode ser crente e ao mesmo tempo cientista, tal como é patente nos casos dos “gigantes” Galileu e Newton. Muitos exemplos da história da ciência e da ciência contemporânea mostram à saciedade que pode ser pacífica a coexistência de ciência e religião. Não penso que a crença religiosa de um cientista o limite na prática da sua actividade científica, que, por exemplo, lhe retire qualidade na ciência que faz. Um cientista sabe que, quando está num laboratório, não está numa igreja e que, quando está numa igreja, não está num laboratório. Claro que haverá sempre excepções que confirmarão esta regra...

É interessante, a propósito, referir os casos de sacerdotes que são também cientistas. A Igreja Católica possui um Observatório Astronómico, que é dirigido por um padre jesuíta, de certo modo um descendente do Padre Clavius, e no qual se faz trabalho científico moderno, designadamente a observação de asteróides. Por outro lado, o pastor anglicano inglês John Polkhingorne é físico de partículas e um conhecido divulgador da ciência. Um bom exemplo não já de um sacerdote, mas de um cristão fervoroso, que trabalha nas fronteiras da área da biologia, é o norte-americano Francis Collins, um dos cientistas mundialmente mais conceituados no campo da genética, que foi nomeado por Barack Obama Presidente do National Institute of Health, NIH, a maior agência de investigação médica dos Estados Unidos.

Assim como Darwin se tornou agnóstico, muitos outros cientistas, a partir do século XIX, declararam-se agnósticos ou mesmo ateus. Há hoje, de facto, muitos cientistas que não são crentes, assumindo alguns deles essa descrença com alguma militância: é o caso do físico norte-americano e Prémio Nobel da Física Steven Weinberg ou do biólogo inglês Richard Dawkins, autor de O Relojoeiro Cego, um livro notável que realça o papel do acaso no processo da evolução, e de A Desilusão de Deus, um livro que alguns consideram uma “cruzada” contra a religião.

A história da ciência mostra que a fé e a falta dela se encontram distribuídas pelos cientistas tal como pelos não cientistas. Assim, a crença em Deus não pode ser encontrada no fundo de um telescópio ou de um microscópio, tendo antes a ver com intrincados factores culturais, sociológicos e psicológicos. Deparei na Internet com uma curiosa estatística sobre a religião de 100 cientistas considerados muito influentes: a conclusão é que existem 16 por cento de judeus (o número grande de cientistas judeus poderá ser explicado pela forte valor atribuído à educação e ao conhecimento no seio das famílias judaicas), 12 por cento de católicos e 11 por cento de ateus, não havendo quase cientistas árabes (o que poderá ser explicado pelo maior dogmatismo dos adeptos desta religião, para quem o livro sagrado não foi inspirado por Deus mas sim ditado directamente por Ele). Sendo os cientistas pessoas e cidadãos antes de serem cientistas, é natural que na comunidade que eles formam se encontrem as mesmas proporções, ou proporções semelhantes, de crença ou descrença que se encontram na sociedade em geral e ainda que se encontrem as mesmas afiliações religiosas patentes na sociedade em que estão inseridos.

O tema das relações entre ciência e religião dá pano para muitas mangas. Tem sido uma discussão continuada sem fim à vista. Quando se quer enfatizar uma eventual oposição entre ciência e religião, encontramos cientistas a usar argumentos não-científicos e não-cientistas a avançarem argumentos científicos. Claro que a autoridade de um cientista na sua ciência não lhe confere particular autoridade num qualquer assunto não-científico. E julgo que o mesmo vale para a teologia. A autoridade de um teólogo na sua área não lhe permitirá ter qualquer poder especial no debate científico.

De entre todos os cientistas o caso do físico suíço e norte-americano de origem alemã Albert Einstein é algo especial dada não só a “aura” que ele ganhou nos média (a revista Time considerou-o a pessoa mais famosa do século XX) como a peculiar visão religiosa que ele advogou: esse “gigante” que subiu para os ombros de Newton substituiu, à maneira do filósofo holandês de origem portuguesa Bento Espinosa, Deus pela “harmonia cósmica”. Os dois podem, por isso, ser considerados judeus heterodoxos (como é sabido, Bento Espinosa foi excomungado por heresia). Vale a pena explicitar o pensamento de Einstein sobre o transcendente. Em 1929, o rabino norte-americano de Nova Iorque colocou a Einstein por via telegráfica uma pergunta que procurava esclarecer a posição anti-relativista do arcebispo católico de Boston segundo o qual a “relatividade era uma especulação confusa, que produz a dúvida universal sobre Deus e a sua criação”. A resposta em menos de 50 palavras (o rabino tinha pré-pago a resposta com esse limite preciso!) ficou famosa:

”Acredito no Deus de Espinosa, que se revela na ordem harmoniosa daquilo que existe e não num Deus que se interesse pelo destino e pelos actos dos seres humanos”.

Já antes Einstein, que, apesar da sua origem judaica e de ter advogado a causa sionista, nunca acreditou num Deus pessoal como o que está omnipresente ao longo do Antigo Testamento, tinha respondido assim a uma pessoa que lhe perguntou se era religioso:

“Sim, sou, pode dizer isso. Tente penetrar, com os seus recursos limitados, nos segredos da Natureza, e o senhor descobrirá que, por detrás de todas as concatenações discerníveis, resta algo de subtil, intangível e inexplicável. A veneração dessa força, que está além de tudo o que podemos compreender, é a minha religião. Nessa medida, sou realmente religioso”.

Einstein estudou a questão não só da estrutura como da história do Universo e é com base na sua teoria da relatividade geral da sua autoria que hoje se defende a teoria do Big Bang, uma teoria de evolução cósmica, que de certo modo prolonga a escalas espacial e temporal muito maiores o fenómeno da auto-organização que está subjacente à teoria da evolução das espécies (nessa mesma linha, o padre jesuíta Teilhard de Chardin partiu dos seus trabalhos de paleontologia humana para se aventurar nos caminhos de uma filosofia da Criação). Pode-se perguntar: Quando se discutem (ou quando se testam, como hoje acontece nos maiores telescópios do mundo ou no maior acelerador de partículas, o Large Hadron Collider, no Laboratório Europeu de Física Nuclear, CERN, em Genebra, na Suíça) os primeiros instantes do Universo, estará o homem a procurar esclarecer como foi a intervenção divina no momento da Criação? Pode Deus ser encontrado no telescópio ou no acelerador?

Não pode, porque, nunca é demais repeti-lo, ciência e religião são actividades distintas, com sentidos distintos. A ideia de que houve um Big Bang, isto é, o início do espaço-tempo, tem hoje uma base científica, tanto lógica como empírica, bem consolidada. Neste momento, não existe uma teoria alternativa à do Big Bang que se revele minimamente consistente, tal como não há uma teoria alternativa à da evolução das espécies desenvolvida por Darwin. Apesar de alguma concordância com o texto do Génesis, que narra a Criação do mundo, a ideia do Big Bang não tem uma base religiosa. O facto de essa ideia moderna coincidir, embora de uma maneira geral e vaga, com a ideia da criação da Igreja Católica (e, aliás, de outras igrejas), é, sem dúvida, curioso, mas não mais do que isso... Coincidência é também o facto de um dos autores da teoria do Big Bang ter sido o astrofísico belga Georges Lemaître, um sacerdote católico. Alguns altos dirigentes católicos congratularam-se com o que chamaram a “base científica” da criação descrita na Bíblia. Mas, mais uma vez, desde Galileu que a Bíblia deixou de poder ser considerado um livro de ciência. Os astrofísicos, de qualquer religião ou sem religião nenhuma (agnósticos ou ateus), não exercem o seu ofício com base na Bíblia nem têm o intuito de confirmarem a palavra da Bíblia. Nem pretendem agradar ao Papa ou a qualquer outro líder religioso. Observam minuciosamente o céu com os telescópios de que dispõem, instrumentos muito superiores aos que Galileu usou há quatrocentos anos, e realizam, na Terra, sofisticadas experiências que recriam, ainda que por breves tempos e em pequenos espaços, condições que muito provavelmente existiram por todo o lado no cosmos primitivo (ao contrário do que por vezes é difundido, o Universo não partiu de um ponto, mas foi sempre infinito desde o seu início, passando de uma situação de grande densidade de energia para outras em que essa densidade é cada vez menor). As suas conclusões, por absoluta falta de informação observacional ou experimental, nada nos dizem sobre o que se terá passado antes do Big Bang. A questão sobre a causa deste evento primordial é perfeitamente legítima, mas não pode ser respondida pela ciência actual e provavelmente nunca poderá vir a ser respondida pela ciência futura. Os astrofísicos não podem - nem aliás querem - provar a existência ou a inexistência de Deus. O astrofísico inglês contemporâneo Stephen Hawking, o autor de Breve História do Tempo, figura mais conhecido no grande público pelas suas limitações físicas do que pelos seus conhecimentos de física, e alguns dos seus colegas falam, de facto, de Deus nos seus escritos ou nas suas palestras, mas trata-se, nesses autores, de uma metáfora, uma imagem que eles sabem ter muita força e que se destina a suscitar as atenções gerais. No entanto, essa imagem pode ser perigosa ao dar a entender que existe uma mistura íntima entre ciência e religião. A mediatização conseguida com a ajuda da palavra “Deus” mostra não tanto que quem a profere é crente mas mais que alguns cientistas são bons comunicadores...

Prefiro não fundir ou confundir ciência e religião, mas procurar pontes entre elas. Por exemplo, a ligação entre as duas actividades humanas pode ser conveniente ou mesmo necessária para assegurar a sobrevivência do homem no seu planeta, prosseguindo a árvore da vida. Essa ideia ficou bem expressa pelo astrofísico norte-americano Carl Sagan, um agnóstico que procurou alianças da ciência com a religião em benefício do homem e da Terra, com o objectivo da sobrevivência de ambos, num tempo em que a espécie humana tem a capacidade de se auto-destruir. Ele achava que a paz era um valor que devia ser perseguido tanto pela ciência como pela religião. E que o amor, um valor defendido pela Igreja Católica assim como pela generalidade das igrejas, era essencial para conseguir a paz. Proferiu, em defesa da paz, uma frase que evoca os grandes vazios siderais: “Se um ser humano não concordar contigo, deixa-o viver em paz. Não vai encontrar outro igual em cem milhões de galáxias”.

O mesmo Sagan, no seu livro As Variedades da Experiência Científica, respondeu aqueles que acusam os cientistas de arrogância, ao mesmo tempo que procurou ligar ciência e religião:

“Será que tentar perceber de alguma maneira o universo revela uma certa falta de humildade? Creio que é verdade que a humildade é a única resposta adequada perante o universo, mas não uma humildade que nos impeça de procurar descobrir a natureza do universo que estamos a admirar. Se procurarmos essa natureza, então o amor pode ser inspirado pela verdade, em vez de se basear na ignorância ou na auto-ilusão. Se existe um Deus criador, será que Ele ou Ela ou Isso ou seja qual for o pronome apropriado preferiria uma espécie de cepo embrutecido que o adorasse sem nada compreender? Ou preferiria que os seus devotos admirassem o universo real em toda a sua complexidade? Quanto a mim, parece-me a ciência é, pelo menos parcialmente, adoração informada.”

BIRTH CONTROL: IT'S NOW PART OF OUR NATIONAL HEALTH POLICY.


Destaque para a coluna "What's New" (WN) do físico norte-americano Robert Park:

"Earth’s population reached 7 billion this month. As WN pointed out two years ago (WN 19 Jun 09) that's double what it was in 1968, the year Stanford biologist Paul Ehrlich warned of desperate shortages in "The Population Bomb." Julian Simon, a libertarian economist at the University of Maryland, challenged Ehrlich to a public wager on a list of commodity prices. Ehrlich lost on every point, but the real loser was the environment: anthropogenic climate change, vast floating garbage patches in ocean gyres, starvation in parts of the world, the Hubbert peak in oil production, perpetual warfare etc. But there was also good news in 1968; "the Pill," a combined-hormone oral contraceptive, was approved by the FDA. The Pill is arguably the most important technological invention in history, and last week the Obama administration made it clear that health insurance plans are required to cover birth-control expenses without co-pays. The policy follows the recommendation of the Institute of Medicine, but prompted protests from Catholic bishops who will have fewer souls to save. An editorial in the New York Times called the policy a “proud achievement” of the administration."

Robert Park

História da ciência na Universidade de Coimbra


Sandrina Fernandes apresenta na última Newsletter da Universidade de Coimbra um projecto interdisciplinar que coordeno sobre "História da Ciência na Universidade de Coimbra":

"Investigação na UC - UNIdade no conhecimento da História da Ciência da UC

Dar a conhecer a História da Ciência na Universidade de Coimbra e no país cosendo as várias áreas do saber, as várias disciplinas, numa visão global e integradora é o grande objetivo do projeto de investigação coordenado por Carlos Fiolhais.

O físico, docente e investigador da Universidade de Coimbra (UC) afirma que o projeto nasce na crescente consciencialização, por parte da UC, da “necessidade de conhecer melhor a sua história”, através de “estudos que a Universidade faz sobre si própria mas que estão dispersos em vários lados”, uma vez que os investigadores têm-se debruçado sobre a história individual de cada disciplina (da matemática à física) e “muitas vezes não se encontram”. Assim este “projeto verdadeiramente interdisciplinar”, que junta “gente de praticamente todos os lados do espectro universitário”, envolve cerca de 50 investigadores (das mais diversas áreas, das ciências exatas às ciências sociais e humanas da Universidade de Coimbra e de outras universidades) e aproxima “não só investigadores, mas também instituições de apoio à cultura – pilares da cultura da Universidade de Coimbra” (como o Museu da Ciência e a Biblioteca Geral).

Mas como estudar a História da Ciência numa Universidade com mais de sete séculos? Definindo períodos. Carlos Fiolhais explica que foram escolhidas duas datas – 1547 (data da criação do Colégio de Jesus) e 1933 (Estado Novo) e serão estudados os quatro séculos que estas compreendem. A data da edificação do colégio jesuíta foi escolhida como início do período a ser estudado, uma vez que, na opinião do investigador, é a partir deste momento que temos “ciência como a conhecemos hoje, com a introdução do método experimental” e o Estado Novo, como foi um período de “algum apagamento da ciência” pareceu ser a data certa para o fim; no entanto, este trabalho não fica concluído com este projeto, este é um trabalho que deve ser continuado, estando até identificado como “um problema da UC” a não existência de “um 2.º ou 3.º ciclo de estudos nesta área”.

Em relação aos 400 anos que este projeto abarca, o investigador define quatro grandes marcos históricos: dos séculos XVI a XVIII (até 1772), época em que D. João III fixou a Universidade em Coimbra, e “em que o grande sábio Pedro Nunes vem lecionar para Coimbra”, e da criação do Colégio de Jesus; do final do século XVIII (de 1772 a 1837), período que corresponde à Reforma Pombalina, em que o Marquês readaptou o Colégio de Jesus no contexto das Faculdades de Filosofia, Matemática e reformou a Faculdade de Medicina; do século XIX ao XX (de 1837 a 1911), época em que ocorreram (na segunda metade do século XIX) reformas nas Faculdades de Matemática, Filosofia e Medicina, com progressos no ensino das ciências experimentais; e o século XX (posterior a 1911 até 1933), quando foi reorganizado o ensino das ciências na UC, se assistiu ao nascimento das Universidades de Lisboa e do Porto e se deu a fusão das Faculdades de Filosofia e Matemática dando origem à Faculdade de Ciências – mais tarde Faculdade de Ciências e Tecnologia.

Neste projeto estão a decorrer, em simultâneo, as quatro fases previstas para o levar a «bom porto» - Síntese da história da ciência na UC, Digitalização do Fundo Antigo de Ciências e Medicina da UC, Estudo das coleções e alargamento do Museu de Ciência Digital e a Realização de uma conferência internacional.

Com a elaboração da Síntese pretende-se investigar, escrever e compilar “a História da Ciência na UC que já está feita e que está por fazer”, ou seja existem já “muitos documentos e muitos artigos parciais, sobre esta ou aquela figura, esta ou aquela época”, mas não há uma integração na própria Universidade e por isso esta “não consegue transmiti-la [à sua História] de forma coerente”. Esta Síntese estará posteriormente publicada numa página Web associada com o projeto.

A Digitalização do Fundo Antigo de Ciências e Medicina da UC e o Estudo das coleções e alargamento do Museu da Ciência Digital estão intimamente ligados, uma vez que este programa de digitalização de fontes históricas, livros, documentos antigos e objectos estão não só a contribuir para o alargamento das bases de dados digitalis das Bibliotecas e do Museu da Ciência, mas também, através do recurso às novas tecnologias, “a revelá-las a todo o mundo (como se a torre fosse uma antena gigantesca!)." "Ao colocarmos online estes materiais, mostramos a todos o que é a evolução da própria ciência e ao fazê-lo colocamos Coimbra numa posição de nova centralidade, aumentando extraordinariamente a face visível da UC no mundo”.

A Conferência Internacional - Congresso Luso-Brasileiro de História das Ciências, decorreu em Coimbra dos dias 26 a 29 de outubro, e Carlos Fiolhais justifica-o ao afirmar que estudar e “conhecer a História da Ciência na Universidade de Coimbra e de Portugal é também conhecer a História da Ciência do Brasil”, uma vez que estas têm muitos pontos em comum e se interligam. Deste congresso resultou “um documento com cerca de 2 mil páginas sobre a História da Ciência em Portugal e no Brasil, do qual poderá haver uma seleção para ser colocado em papel”.

Para o investigador e docente da Universidade de Coimbra este é um projeto que tem “uma motivação pessoal”, que justifica um pouco o facto de ser ele a coordenar este projeto. A sua “motivação pessoal prende-se com o facto de ter estado sete anos à frente da Biblioteca Geral da Universidade de Coimbra (BGUC) e ter estado muito perto das fontes históricas”. Para o antigo diretor da BGUC “ter encontrado coisas que me tocaram e surpreenderam” é a razão para acreditar que “também deviam tocar e surpreender os outros.”

Por Sandrina Fernandes

Na imagem: documento de Domenico Vandelli existente na Biblioteca Geral da UC sobre a criação de uma indústria de base química em Coimbra.

quinta-feira, 1 de dezembro de 2011

Ninguém os obriga!

Tenho tropeçado muito num certo argumento para justificar a exposição que se faz de pessoas até limites inimagináveis em programas de televisão, reduzindo-os a objectos bizarros, que, nessa medida, prendem a atenção. “Ninguém os obriga! São eles que querem!”, é o argumento.

Se nos situarmos no mundo dos concursos que apelam a “vivências reais” e conversas com “pessoas reais”, o argumento poderá parecer razoável: os concorrentes, os entrevistados sabem ao que vão e recebem contrapartidas. Dão a ver (ou simulam que dão a ver) ao mundo o que lhe é mais íntimo, o seu corpo, os seus pensamentos, os seus afectos, tudo o que se lhes pedir. Por isso são pagos. É um negócio como outro qualquer.

Devo dizer que discordo em absoluto deste argumento.

O conhecimento do passado permite concluir que haverá sempre quem esteja disposto a fazer qualquer coisa, por mais infame que seja, a troco de muito ou de pouco, disto ou daquilo. Imagine-se algo verdadeiramente vil e ter-se-á por certeza que existe quem a execute.

No caso desses programas, o limite a partir do qual não podemos, sob pretexto algum, dispor dos outros, ainda que eles aceitem dispor-se, foi há muito ultrapassado.

A responsabilidade, diz-se, é partilhada e, como tal, de ninguém: patrões, público, clientes, candidatos, profissionais... Os clientes ficam presos ao ecrã, os candidatos não faltam, os patrões vêem oportunidades de negócios, e os profissionais executam.

Nesta cadeia, poderá parecer que estes últimos são os menos comprometidos. Não são. Muitos deles fizeram estudos superiores e, nessa medida, terão consciência que devem pautar o seu desempenho por princípios éticos. São sobretudo eles, e não os candidatos ou o público, quem terá mais consciência informada do que é tolerável e intolerável na relação com o outro.

Mas como uma apresentadora desses programas declarou a uma revista: "quem tem ética passa fome". Talvez.

E SE VOLTÁSSEMOS À DOCIMOLOGIA, OU SEJA, À CIÊNCIA DOS EXAMES?

  Em texto que antes publiquei sobre a infindável tragicomédia em que se tornou a classificação dos exames nacionais, disse que ela não se d...