sexta-feira, 8 de janeiro de 2010

Sobre o ensino da Matemática


Jaime Carvalho Silva (na foto), professor do Departamento de Matemática da Faculdade de Ciências e Tecnologia da Universidade de Coimbra, acaba de assumir as funções de Secretário-Geral da ICMI - Comissão Internacional para a Instrução da Matemática, a maior associação mundial dedicada ao ensino dessa disciplina. O De Rerum Natura fez-lhe três perguntas, às quais ele respondeu prontamente:

DRN- Há povos com mais aptidão para aprender matemática do que outros?

JCS- A História da Matemática prova que não, a realidade actual prova que não. Portugal já foi um grande centro científico e matemático no tempo dos Descobrimentos, já teve um dos melhores matemáticos da sua época (Pedro Nunes) que escreveu um dos melhores livros de Álgebra para o ensino. No tempo dos descobrimentos Portugal conseguiu formar pilotos, cartógrafos, etc. de forma eficaz de modo a fazer as inéditas (e frutuosas) viagens de forma minimamente sustentada (os nossos navegantes "não iam a acertar", diz Pedro Nunes, "mas partiam os seus mareantes mui ensinados e providos de instrumentos e regras de Astrologia e Geometria"). Em todos os países encontramos escolas que são bem cotadas, alunos brilhantes (que, por exemplo, ganham Olimpíadas científicas) mas também encontramos casos desesperados, escolas que não funcionam, são fechadas, são totalmente modificadas. Não há desculpa genética, social ou cultural para impedir progressos no ensino ou aprendizagem da Matemática.

DRN- São semelhantes os problemas do ensino da Matemática em Portugal e noutros países?

JCS- Muitos problemas são semelhantes. Há uma grande semelhança com os países latinos, por exemplo, mas há problemas que são mais ou menos universais: o problema da formação inicial e contínua de professores, o recrutamento de professores, a falta de professores qualificados (sempre houve em Portugal e a situação vai-se agravar nos próximos anos por deficiente planeamento), a integração das tecnologias na escola, o ensino da Geometria no equilíbrio entre a dedução e a experiência, o aparecimento em força no ensino de áreas antes praticamente ausentes como as Probabilidades e a Estatística, a avaliação dos conhecimentos e capacidades em Matemática, a dualidade teoria/aplicações na sala de aula, etc.

DRN- Qual é o maior problema em Portugal? Se só pudesse fazer uma coisa para melhorar o nosso ensino o que faria?

JCS- O maior problema é não encararmos a nossa realidade de forma integrada e sem esquecer nenhum elemento relevante do sistema educativo, desde o ensino pré-escolar à formação inicial e contínua de professores. Se só pudesse fazer uma coisa não fazia nada; uma medida que não seja acompanhada de outras que a complementem e viabilizem não pode ser eficaz e, pelo contrário, vai causar perturbações no sistema educativo que ainda o colocam num patamar pior do que estava anteriormente. O sistema não melhora com medidas singulares supostamente milagrosas.

quinta-feira, 7 de janeiro de 2010

O uso que Galileu deu ao telescópio

Jim Bennett, historiador da Ciência, numa comunicação intitulada O estatuto dos instrumentos científicos, apresentada no ciclo de Conferências A ciência tal qual se faz, que teve lugar entre Outubro de 1996 e Janeiro 1998, na Fundação Calouste Gulbenkian, referiu-se da seguinte maneira ao telescópio que Galileu usou de forma inovadora.

"Inicialmente, o telescópio não foi relevante para a astronomia. Sabemos que pessoas que não eram astrónomas também se interessavam pelos céus. O telescópio não fazia medições - uma condição necessária para um instrumento de astronomia. O telescópio começou por ser um instrumento de guerra, e foi pela primeira vez apresentado por Galileu ao Senado veneziano nesse contexto - um invento óptico que daria ao seu utilizador uma vantagem sobre o inimigo. Mesmo quando Galileu dirigiu o instrumento para os céus, não estava a fazer astronomia no sentido tradicional.

No entanto, isto constitui um desafio - ou, pelo menos Galileu fez com que assim se tornasse, pretendendo que as observações feitas com a luneta (canocchiale) eram uma prova contra a ideia de uma terra central estacionária e a favor da consideração de terra como um planeta. Neste ponto, e apesar da integridade da disciplina, a astronomia geométrica viu-se obrigada a prestar atenção, já que a suposição de uma terra estacionária era fundamental para o seu trabalho. O telescópio pretendia revelar verdades novas e nunca vistas sobre os céus; desafiava a competência da astronomia e, para além disso, tornava instável a distinção, cada vez mais difícil de manter, entre a astronomia geométrica e o estudo físico dos céus."


Referência: Bennett, J. (1999). O estatuto dos instrumentos científicos. F. Gil (Coordenação e apresentação). A ciência tal qual se faz. Lisboa: Edições Sá da Costa, páginas 203-213.

Teoria e Crença

Texto na sequência de outro intitulado A construção das ciências.

Percebi, ao longo do ano Darwin, que muitos estudantes universitários diziam nunca terem estudado a teoria da evolução, e que aqueles que diziam tê-la estudado punham-na em pé de igualdade epistemológica com a explicação criacionista.

Partindo do princípio que tais respostas não decorrem do acaso, procurei saber o que se passa no nosso sistema educativo que condiciona esta última circunstância depois de alertada por um estudante para que essa paridade entre uma teoria com provas dadas e uma mera crença se deveria ao facto de, em manuais escolares de Biologia do Ensino Secundário, ambas serem apresentadas como teorias e com igual destaque.

Num primeiro momento, falei com Palmira Silva (que, neste blogue, tem feito a clara e oportuna denúncia da infiltração do criacionismo nos currículos escolares) que me indicou um de livro a que deu destaque no De Rerum Natura: Evolução e Criacionismo: uma relação impossível da autoria de A. Gaspar, de T. Avelar e de O. Mateus (mais propriamente, o Capítulo 6 - Criacionismo e Sociedade no Século XX -, sobretudo as páginas 158-159). Falei também com professores de Biologia. De seguida, analisei o programa e alguns manuais (de estudo e de preparação para exames).

Em resultado desta averiguação, penso ter compreendido a referida “concepção alternativa” dos estudantes (eufemismo para designar concepções erradas de fenómenos e da sua explicação que têm uma elucidação aceite pela comunidade científica).

1. Começo pelo Programa de Biologia e Geologia para os 11.º ou 12.º anos dos Cursos Científico-Humanísticos de Ciências e Tecnologias (2003). A unidade 7 é dedicada à Evolução Biológica. O tópico 2 refere-se aos Mecanismos de Evolução, incluindo dois sub-tópicos: Evolucionismo vs Fixismo e Selecção natural, selecção artificial e variabilidade.

Suponho que para orientar os professores, encontra-se, na página 11, um quadro cujo título é: Como é que a Ciência e a Sociedade têm interpretado a grande diversidade dos seres vivos?

Trata-se de um título que, como se sabe, ganha sentido no âmbito da Perspectiva CTS (Ciência-Tecnologia-Sociedade) e CTSA (Ciência-Tecnologia-Sociedade-Ambiente), mas que, apesar de se ter imposto ao nível do curricular, não deixa de ser questionável.

É evidente que a ciência, neste caso a Biologia, não se pode desligar da sociedade em que emergiu e se tem desenvolvido, mas esta é uma reflexão de carácter epistemológico, e o que se deve destacar quando se ensina e se aprende ciência são os conhecimentos científicos e as capacidades que a abordagem científica permite desenvolver.

Assim, em Biologia, não pode ser dado destaque semelhante à perspectiva sociológica e científica, como sugere o referido título, sob pena de se retirar especificidade a esta última, no contexto disciplinar em que inequivocamente o devia ter.

Tal não impede, obviamente, a contextualização das teorias científicas que se pretende que os alunos aprendam, bem pelo contrário as suas vantagens afiguram-se óbvias. No caso da teoria da evolução, será de todo o interesse que conheçam a sociedade onde o trabalho de Charles Darwin teve lugar, o acolhimento que recebeu na altura, posteriormente e no presente, etc. Mas tudo isso são aspectos que concorrem para que os alunos compreendam melhor a teoria e a sua importância no seio da ciência e do saber que, como seres humanos, conseguimos conquistar.

2. Nesse mesmo quadro (aspecto 2, à direita) está escrito algo muito inquietante: “Não há consenso sobre as causas da diversidade dos seres vivos. As teorias evolutivas explicam essa diversidade pela selecção dos organismos mais adaptados, razão pela qual as populações se vão modificando.”

No livro em referência assinala-se que a "expressão não há consenso, apesar de se reportar a mecanismos evolutivos, pode transmitir a ideia, sobretudo nas mãos de professores menos bem preparados, de que a falta de consenso se aplica à evolução propriamente dita" (página 158).

Até porque, e isto também se salienta no livro, na coluna relativa aos Conteúdos atitudinais, evidencia-se a necessidade de "reconhecimento de que o avanço científico tecnológico é condicionado por contextos (ex. sócio-económicos, religiosos, políticos...), geradores de controvérsias, que podem dificultar o estabelecimento de posições consensuais."

Entendo, pois, que o comentário dos autores tem a maior pertinência, porquanto tal expressão, tão cara ao pensamento pós-moderno que nos envolve, constitui uma fonte de equívocos epistemológicos. Efectivamente, muitos são os que consideram que o consenso científico não decorre só nem principalmente de evidências empíricas, de factos objectivos, mas de uma espécie de acordo mais ou menos retórico entre os cientistas quando é preciso decidir o que é a verdade. Acordo esse que, nesta medida, se encontrará marcado pelas mais variadas dinâmicas e interesses sociais.

3. A mistura das perspectivas sociológica e científica acentua-se quando, no referido programa, se recomenda a "construção de opiniões fundamentadas sobre diferentes perspectivas científicas e sociais (filosóficas, religiosas...) relativas à evolução dos seres vivos”.

Pergunta-se no livro: "o que quererá dizer isto? Que o professor deverá ensinar a perspectiva da religião ou da filosofica sobre a evolução numa aula de ciência? (página 158).

A interpretação que faço da frase, coincide com a dos autores: é que se deve ensinar a teoria da evolução bem como explicações de outro teor epistemológico, pois só assim os alunos ficarão aptos a construírem “opiniões fundamentadas sobre diferentes perspectivas científicas e sociais (filosóficas, religiosas...) relativas à evolução dos seres vivos”. Sublinho que a minha interpretação decorre do uso das palavras opinião e fundamentada que me parecem cruciais… Na verdade, não há opiniões fundamentadas sem um conhecimento profundo do objecto ou objectos em relação aos quais se pede aos sujeitos que se pronunciem, requerendo-se, neste caso, um conhecimento aprofundado e equilibrado de teorias e de crenças.

4. Ainda no mesmo quadro 7 verifico uma curiosa coluna que foi designada por “Evitar”, na qual se pode ler: (evitar) “O estudo pormenorizado das teorias evolucionistas e “A abordagem exaustiva dos argumentos que fundamentam a teoria evolucionista”.

Mais uma vez recorro a comentário patento no livro: "parece uma opção inquietante que pode comprometer a solidez dos alicerces do conhecimento das ciências naturais" (página 159).

Sim, parece, de facto, uma opção inquietante, até porque, se dúvidas ainda restassem quanto ao destaque a dar à teoria da evolução face a interpretações religiosas ou outras, elas ficariam aqui esclarecidas: é de evitar, no ensino secundário, pormenorizar, fazer uma abordagem exaustiva do evolucionismo na disciplina de… Biologia.

5. A análise que fiz de manuais, que não representam a totalidade dos que existem, confirmou esta enigmática orientação programática? Devo dizer que os que consultei vão nesse sentido.

Naqueles em que me detive aborda-se o criacionismo e outras explicações não científicas, abordam-se também teorias científicas que precederam a de Darwin (como é o caso da de Lamarck). O problema é o destaque: enquanto uns (os de estudo) tendem a referir estas explicações e teorias para fazer um enquadramento do evolucionismo; outros (os de revisão e preparação para exames) destinam semelhante número de caracteres a todas as abordagens, científicas ou não.

6. O mais grave que vi em ambos os tipos de manuais foi, no entanto, a utilização da designação teoria reportada ao criacionismo e ao evolucionismo. Além de, mais uma vez, se assemelhar ciência e crença, o que sob o ponto de vista epistemológico é um erro lamentável, tal decisão acarreta consequências óbvias: induzem-se os alunos na confusão que detectei e que motivou este texto.

Referência completa do texto citado: Gaspar, A., Avelar, T. & Mateus, O. (2007). Criacionismo e Sociedade no Séc. XX. In Evolução e Criacionismo: Uma Relação Impossível. Lisboa: Quasi, páginas 133-160.

HUMOR - GALILEU

VER O INVISÍVEL


Hoje passam 400 anos da descoberta, por Galileu, dos primeiros satélites de Júpiter . Depoimento que sobre o assunto prestei ao "Jornal de Notícias":

A 7 de Janeiro de 1610, Galileu viu, com o seu telescópio, algo que até aí tinha permanecido invisível: os quatro satélites mais próximos de Júpiter. Os pequenos pontos luminosos moviam-se claramente em torno do planeta, mostrando que a Terra não era, nos céus, um centro único. Copérnico começava a ganhar a Ptolomeu e a nossa visão do mundo nunca mais voltou a ser a mesma. O instrumento novo proporcionava conhecimento novo...

Muitas descobertas se têm feito à imagem e semelhança da de Galileu: os instrumentos da ciência ampliam tanto a nossa vista como a nossa mente. Ontem como hoje, a nossa curiosidade leva-nos a ver mais do que vemos e, portanto, a saber mais do que sabemos. Quatro séculos depois de Galileu, os mais modernos observatórios e laboratórios permitem-nos continuar a ver o invisível. E há mais invisível para ver...

quarta-feira, 6 de janeiro de 2010

Ciência para Meninos em Poemas Pequeninos


Três poemas do livro "Ciência para Meninos em Poemas Pequeninos", de Regina Gouveia (com ilustrações de Nuno Gouveia), que acaba de sair na editora Ana Paula Faria (colecção "Ciência e Poesia de Mãos Dadas"):

SOL DE INVERNO

O sol estava tão cansado
e viu mesmo ali ao lado,
uma nuvem tão branquinha.

Como foi que apareceu
esta almofada tão fofinha?
Vou dormir uma soneca.

Um pastor olhou para o céu.
Onde é que o sol se meteu?
Preciso do calor seu,
já não me basta a jaleca.

ARCO-ÍRIS

Era uma vez um dia de Abril,
um dia de chuva, com o sol a espreitar
e no céu, a brilhar, um arco de cores.
Uma era vermelha, outra alaranjada,
havia uma verde, uma amarelada,
uma violeta, uma era azulada
e uma outra anil.
Que arco tão lindo brilhava no céu!
O nome arco-íris não sei quem lho deu.

AVESTRUZ

A avestruz tentou voar mas,
catrapuz, caiu no chão.
Deu um grande trambolhão.

Pôs-se logo a cogitar:
Não nasci para voar.
E foi então, ligeirinha,
dar mais uma corridinha.

O blogue da autora é aqui.

Sobre a divulgação científica

Mais um excerto - o último - da entrevista que dei ao estudante Fábio Rodrigues, este sobre a divulgação da ciência:

FR- Sente que a palavra “cientista” tem hoje relevo em termos mediáticos?

CF- Acho que, nos média portugueses, há uma consciência cada vez maior da relevância da ciência. Os cientistas têm um protagonismo público que não tinham há umas décadas atrás. E, ao contrário do que se possa pensar, o público deposita uma grande confiança na profissão de investigador: só para dar um exemplo, as pessoas confiam mais nos cientistas do que nos políticos. A profissão científica é hoje não só respeitável como respeitada, quando ontem era pura e simplesmente ignorada. Não apareciam tantas notícias ou artigos de divulgação científica como hoje em dia; isso acontece não porque os cientistas sejam pessoas bonitas, mas porque se percebe que a ciência, em geral escondida na tecnologia, está à nossa disposição e nos torna a vida mais fácil. Percebe-se que a ciência é a base do desenvolvimento, que o conhecimento científico é a chave da inovação e da geração de riqueza.

FR- Os média dão o espaço necessário à divulgação científica?

CF- Se formos ver ao longo dos anos, verificamos que tem havido um progresso notável. Houve, contudo, picos no passado que não estamos a ver no presente. Lembro-me dos anos 80, com os programas de Carl Sagan na televisão e com vários livros e revistas de divulgação científica. Agora, talvez por razões sócio-políticas que levaria tempo a dissecar, estamos numa fase que não é muito fácil para a divulgação científica, nem em Portugal nem no mundo. Mas haja esperança e aproveite-se a crise da divulgação científica para explorar novos caminhos. Como o homem desenvolve outras actividades para além da ciência (a arte, a religião, etc.), como há outras direcções para onde as pessoas se dirigem, o encontro da ciência com outras manifestações humanas revela-se cada vez mais necessário. A ciência deve evitar a todo o custo o isolamento, procurando ligar-se a outros domínios, designadamente apresentando as suas respostas a questões que são comuns e transversais, ou a questões que, embora não o sendo, têm respostas no âmbito da ciência que podem ser comunicadas.

FR- Essa possibilidade da ciência se unir a outras áreas, explica por exemplo a forma como o seu trabalho na Biblioteca Geral da Universidade está ligado à ciência e, ao mesmo tempo, às letras?

CF- Sim, explica de certo modo. A ciência não é uma ilha onde vivam os cientistas sozinhos. Os cientistas estão espalhados por terras habitadas por muita, variada e boa gente. Por exemplo, os praticantes das letras são, em geral, pessoas muito interessantes, com quem se aprende muito. É certo que a ciência não é literatura, mas parece-me uma evidência que as duas podem comunicar com vantagens mútuas. Ficaremos todos melhor se evitarmos a "guerra de culturas", o antagonismo estéril entre ciências e letras, se compreendermos que a cultura, embora tenha várias facetas, é afinal uma só.

terça-feira, 5 de janeiro de 2010

Investigação em Medicina Translacional

Nova crónica do bioquímico António Piedade, publicada antes em "O Despertar" (legenda do cartoon: "Sim, nós fabricamos medicamentos exclusivos, orientados individualmente, mas não para a indigestão.":

Após um ano de translação à volta do Sol, o nosso planeta Terra está de novo na mesma posição relativa ao astro-rei e, por estes dias, mais precisamente a 3 de Janeiro, o mais próximo dele (o periélio terrestre).

Também por estes dias, faz agora um ano terrestre, emergiu do prelo uma nova publicação científica, periódica, dedicada à divulgação do desenvolvimento em Investigação Translacional. A revista tem por nome “American Journal of Translational Research” e o seu primeiro número saiu em Janeiro de 2009 (aqui).

Se saliento este acontecimento editorial no ano que agora findou, é porque esta nova metodologia de investigação clínica, designada por “translacional”, vem dar corpo a uma nova visão para as ciências médicas e da vida no século XXI: a de que a investigação bioquímica sobre a natureza molecular das doenças e sobre as estratégias terapêuticas que resultam desse conhecimento deve “saltar” da bancada do laboratório para o indivíduo doente e vice-versa. Por outras palavras, pretende-se com esta disciplina emergente, optimizar a comunicação entre a ciência básica, fundamental, e a clínica médica, necessária.

De facto, estamos a assistir á “molecularização” das doenças. Um bom exemplo e bem actual desta actividade, é o da produção da vacina contra o vírus H1N1: a rapidez com que foi desenvolvida causou estranheza até aos mais avisados, exactamente porque, na generalidade, não estamos familiarizados com os actuais métodos de desenvolvimento e produção de medicamento, que se “vulgarizaram” nos laboratórios nas últimas e recentes translações terrestres. Saltando por cima da impossibilidade de se efectuarem, em tão pouco tempo, estudos epidemiológicos (que normalmente demoram anos) sobre a nova gripe, a vacina surge, aparentemente, quase que a pedido de quem dela necessita (não me estou a referir ao acesso à vacina, bem entendido).

O entendimento bioquímico da expressão da biodiversidade da vida, na unicidade que cada um de nós é, está a lavrar o terreno das ciências da vida para o desenvolvimento de terapias dedicadas à arquitectura anatómica e fisiológica específica a cada indivíduo. Esta seta (que é também a do tempo) do desenvolvimento está a propulsionar as ciências da vida para uma translação, em intervalos de tempo cada vez menores, de conhecimentos em aplicações úteis para as dores que nos afligem.

Reflexo desta agitação foi também o lançamento, em Outubro último, de uma outra revista científica, de periodicidade semanal, sobre Medicina Translacional, publicada pelo grupo editorial da afamada revista Science, com o título Science Translational Medicine. A propósito deste acontecimento, pode ser visto e ouvido o seguinte vídeo promocional no YouTube: aqui.

Quero referir que estas não são as únicas publicações que hoje existem sobre investigação e medicina translacional (ver aqui).

Voltarei a este assunto, não só pela importância desta nova disciplina para a saúde pública, mas principalmente pela ruptura paradigmática e metodológica que ela significa para a milenária Medicina.

Uma imagem da Nebulosa de Orion

Informação recebida pelo De Rerum Natura:

PORTUGUÊS VENCE CONCURSO MUNDIAL COM FOTOGRAFIA DE UM BERÇO DE ESTRELAS

Uma imagem da Nebulosa de Orion (ao lado), que está entre 1300 a 1500 anos-luz da Terra e é conhecida por ser uma zona próspera na criação de estrelas, valeu ao engenheiro electrotécnico Luís Miguel Santo, de 34 anos, o primeiro prémio do concurso mundial de astrofotografia das Galilean Nights, um dos projectos-chave do Ano Internacional da Astronomia.

A fotografia, captada em finais de Outubro na Atalaia (Montijo), venceu a competição Beyond Earth (Para além da Terra), que reuniu imagens do Universo captadas por todo o globo. Os participantes foram desafiados a obter imagens dos objectos astronómicos estudados por Galileu Galilei, o cientista que há 400 anos protagonizou as primeiras observações do céu realizadas através de um telescópio.

"O objecto que Galileu observou e que escolhi foi a nebulosa de Orion, também conhecida como o objecto de Messier 42 (M42) e que está enquadrada com outra nebulosa (NGC1977), denominada na gíria Running Man (olhando na zona azul, e com alguma imaginação, vemos um indivíduo a correr, tal como o nome em inglês sugere). Existe ainda uma zona de concentração de estrelas denominada trapézio, pela sua disposição, que foi objecto de estudo de Galileu", explica Luís Miguel Santo.

"A Nebulosa de Orion (zona avermelhada em baixo na fotografia), pertence à constelação de Orion, e é denominada uma nebulosa de emissão (nuvem de gás ionizado que emite luz de várias cores) dada a presença, entre outros, de enormes quantidades de hidrogénio, a principal matéria-prima das estrelas. É uma zona conhecida como profícua na criação de estrelas. A nebulosa NGC1977 é uma nebulosa de reflexão; nuvens de poeira que simplesmente reflectem a luz de uma ou mais estrelas vizinhas, e como tal apresenta uma coloração azulada", revela o astrónomo amador.

Luís Miguel Santo foi um dos numerosos entusiastas que participaram em Portugal nas Noites de Galileu, entre 22 a 24 de Outubro de 2009. No total, 18 cidades desenvolveram perto de 50 actividades muito espaciais, transformando, uma vez mais, o país num dos mais dinâmicos.

Para o engenheiro electrotécnico, o prémio foi uma cereja no topo do bolo uma vez que captar uma fotografia dos astros para além da Terra não é fácil requerendo uma árdua aprendizagem. "O ritual de preparação e obtenção de uma astrofotografia tem algo que se lhe diga. Começa por preparar de antemão os objectos a fotografar, bem como definir os principais parâmetros de exposição, enquadramento, e montar o equipamento... Uma sessão normal inicia-se pelas 22h e pode terminar quando a estrela mais perto da terra dá a volta", frisa.

Ao contrário da fotografia tradicional, cada imagem em astrofotografia é composta por vários fotogramas (podendo durar tipicamente até 15 minutos por fotograma), incluindo a cor que tipicamente é obtida através de filtros distintos para o vermelho, o verde e o azul. Posteriormente, toda a informação contida nos diferentes fotogramas (luz e cor) é alinhada e calibrada de forma a obter apenas uma imagem a cores de maior detalhe, explica Luís Miguel Santo.

"A Astronomia é para mim um desafio que reúne duas paixões: fotografia e ciência. A Astronomia... tem um pouco de filosofia e é um exemplo importante na eterna procura do conhecimento, em especial o de olhar o Universo, cada vez mais longe, para perceber algo bem próximo... a própria Humanidade e a sua história", sublinha.

A imagem está aqui.

Lhasa de Sela

Lhasa de Sela, a jovem cantora que usava várias línguas e de quem se disse "não estar interessada no estrelato, na fama ou no dinheiro", "parcendo que cantava apenas por imperativo de consciência", morreu.



Sobre ela escreveu João Bonifácio:

"Desde a primeira vez que a sua voz se ouviu em disco que Lhasa surgiu aos melómanos como um ser vindo de outro mundo. Do seu álbum de estreia, La Llorona, composto a meias com o magnífico músico Yves Desroisiers, constavam apenas baladas cambaleantes, que versavam mitos pagãos mexicanos, amores de faca e alguidar, o sangue, a morte e as cartas que trazem a fortuna e a desgraça e nos traçam o destino (...)

Filha de pai mexicano e mãe americana-judia-libanesa, Lhasa não cresceu como a maior parte das raparigas. Os seus pais eram nómadas, e ela passou os primeiros anos de vida com eles e os irmãos on the road entre os Estados Unidos e o México. Todas as noites, em vez de ver televisão, os irmãos faziam um teatrinho ou cantavam. Isto marcou-a ao ponto de após a digressão de La Llorona se ter juntado a um circo em França.

A sua história de vida valeu-lhe o epíteto cantora nómada, mas quem teve oportunidade de privar com ela tem a impressão de o nomadismo não se dever a uma qualquer mania aventureira, antes a uma irrequietude natural e à incapacidade de conviver com a indústria musical".

Deixamos o leitor com Com toda palabra de Lhasa.

Investigação Científica



As PME (Pequenas e Médias Empresas), que representam 90% do nosso tecido industrial e sensivelmente a mesma percentagem do emprego, não têm capacidade financeira, nem de recursos humanos, para fazer investimento de longo prazo em I&D e muito menos de suportar I&D de risco. Na verdade, o I&D de risco é muito importante porque permite avanços significativos, em caso de sucesso na investigação, e produtos que podem ser diferenciadores no mercado. O problema é que empresas pequenas, sem cultura de investimento em I&D, não o podem fazer.

É aqui que entra o Estado e a política de I&D nacional. Um governo tem de ter uma acção concertada no apoio às empresas (o que significa apoio às PME porque, de facto, elas são a economia) e no apoio ao seu desenvolvimento. Eis algumas coisas aparentemente simples, mas que se tornam complicadas em Portugal. O Estado tem de:

1. Pagar a tempo e horas.

2. Incentivar a exportação, reduzindo impostos de forma significativa a empresas exportadoras. Isto tem de ser um imperativo nacional.

3. Incentivar a contratação efectiva de pessoas com formação superior, reduzindo os impostos às empresas que o fazem. Isto é apostar no futuro.

E, em termos de I&D, tem de:

4. Fomentar o aparecimento de novas empresas que resultem da I&D efectuado em Universidades e Centros de Investigação: incubação de ideias e empresas, apoio no desenvolvimento de projectos, aceleração de empresas e apoio a parques de ciência e tecnologia.

5. Incentivar a relação entre empresas e as instituições de I&D portuguesas, apoiando de forma efectiva projectos de I&D em consórcio que tenham em mente resultados de médio e longo prazo: apoiar significa investir, colocar dinheiro em projectos em consórcio cujo valor científico tenha avaliação internacional. Só as Universidades e Centros de I&D podem apoiar o I&D de risco, tendo por base fórmulas de financiamento que incluem uma parte pública nacional (via FCT), uma parte pública internacional (via União Europeia) e uma parte privada (das empresas).

6. Definir com clareza as áreas prioritárias para o país, canalizando para essas áreas o investimento público em I&D. Não é possível que um país tão pequeno como Portugal disperse o pouco dinheiro que tem por todas as áreas científicas. Não pode, não faz sentido. Tem de ter a coragem e a clarividência de definir prioridades, concentrando uma percentagem significativa do seu investimento nessas áreas. Ou seja, o investimento tem de ser estratificado por prioridades. É uma questão de gestão de recursos. Aliás, a União Europeia (UE) faz isso mesmo com os seus programas-quadro. Define uma agenda de I&D e abre concursos somente nas áreas que definiu.

7. Apoiar efectivamente a presença dos grupos de I&D portugueses nos programas-quadro da UE, complementando assim o financiamento nacional e equilibrando o investimento nas áreas não prioritárias que não obtiveram financiamento nacional. Verifica-se um menor sucesso nacional em projectos europeus. Isso significa que Portugal tem de ter uma presença efectiva nos centros de decisão, nas várias unidades de I&D da UE, com capacidade de influência e de apoio na elaboração e acompanhamento de candidaturas. A noção que tenho, depois de vários projectos europeus que tive aprovados, é que o apoio nacional é muito incipiente.

Em vez de gastar rios de dinheiro em obras públicas (estilo TGV), que beneficiam essencialmente empresas de fora do país (fornecedoras de tecnologia), dão emprego a pessoas pouco qualificadas e essencialmente constituídas por emigrantes (nada contra, mas não é, penso eu, prioridade do país dar emprego a emigrantes), e são investimentos sem retorno, faria todo o sentido investir na "alta velocidade" que é criar condições para tirar partido dos Portugueses: das suas instituições de I&D (muito boas e preparadas), dos projectos em consórcio (como forma de fazer avançar as empresas com I&D de risco) e do investimento nas pessoas com formação superior (a melhor forma de transferência de conhecimento entre as Universidades e a sociedade). Isso significa perceber que temos de contar connosco próprios e com aquilo que formos capazes de aprender e construir.

Mas isso coloca o foco na necessidade de planear e definir objectivos nacionais, uma coisa complicada num país que não gosta de planear e muito menos de avaliar.

My two cents...

SOBRE A INVESTIGAÇÃO CIENTÍFICA

Outro excerto da entrevista que dei a Fábio Rodrigues, aluno de Comunicação Social da Universidade de Coimbra:

FR- O que é que o preenche mais: passar o seu saber a novos alunos ou desbravar novo conhecimento?

CF- A nível do ensino superior, não se pode simplesmente ser professor sem se ser também investigador porque estamos a tentar passar conhecimento ao mais alto nível. Para fazer isso temos de estar não só actualizados, mas também familiarizados com o método científico, com a maneira de chegar ao conhecimento. Não podemos servir aos alunos coisas feitas e acabadas, dizendo “isto é assim e acabou-se”, mas temos antes de dizer “isto é assim e vocês, pelo menos alguns de vocês, têm a possibilidade de fazer mais”. Isto não pode ser dito por alguém que não tenha capacidade para fazer mais, de acrescentar ele próprio pedras ao edifício científico. Para mim perguntarem-me se gosto mais do ensino ou da investigação é como perguntarem-me se gosto mais do pai ou da mãe... Tive uma altura que me dediquei com maior intensidade à investigação do que hoje, mas é sempre uma actividade apaixonante. Quando dou aulas, o que também é apaixonante, sirvo-me dos conhecimentos mas também das capacidades que adquiri e adquiro na investigação. Na relação professor-aluno deve passar uma outra coisa muito importante, a atitude de prevenção perante o erro. O cepticismo é uma das atitudes fundamentais que temos de transmitir na ciência, temos de ensinar a não acreditar naquilo que outros ou mesmo o próprio acreditam, porque, muitas vezes, o segredo da ciência está em descobrir erros em pequenas coisas. No fundo, ensinar só aquilo que se sabe sem ensinar como se pode saber mais é ensinar muito pouco.

FR- Falando de investigação científica, já afirmou publicamente que, em Portugal, este sector estava ainda pouco desenvolvido...

CF- Estava e, se compararmos o nosso país com outros mais desenvolvidos, ainda está. Tem havido progresso, havendo cada vez mais pessoas a fazer ciência, mas a situação era tão má há umas dezenas de anos atrás, que pior era difícil. Quando dizemos que não somos um país avançado, devíamos dizer, para sermos mais rigorosos, que não somos um país tão avançado como podíamos ser. Não se trata aqui de uma mera competição, não se trata de ganhar uma medalha como nos Jogos Olímpicos. De facto, não é coincidência que os países mais avançados na ciência sejam também os países mais ricos, é algo que faz sentido. Não será uma relação directa e imediata, mas os países que geram mais riqueza são também os detentores de maior conhecimento. Se quisermos tomar o caminho adequado para nos tornamos mais ricos temos, necessariamente, de tomar o caminho para nos tornarmos mais sábios.

FR- Devido a esse baixo nível de desenvolvimento comparado, há cientistas que se auto-limitam por escolherem trabalhar em Portugal?

CF- A questão de trabalhar em Portugal é uma falsa questão porque em ciência não há fronteiras. Por exemplo, na física o objecto de estudo é todo o Universo, e este é único, habitado por todos, pelo que a física é a mesma para um chinês ou para um americano ou para um português. A ciência é um trabalho internacional: não há ciência portuguesa, mas sim ciência feita por portugueses ou ciência feita em Portugal. Como é evidente, sendo a ciência feita em conjunto em todo o mundo, uma das molas da investigação é a circulação de pessoas. As pessoas têm de circular. A forma que temos para evitar erros é haver uma comunicação permanente de resultados, o que se faz melhor em directo e ao vivo. Sendo assim, há pessoas que saem e que entram do país. Contudo tenho a impressão que esse saldo nos tem sido positivo nos últimos tempos. Houve um tempo que para fazer ciência se tinha de emigrar e ficar lá por fora, mas, hoje em dia, a situação é bem diferente. Há evidentemente uma questão de mercado e alguns dos profissionais com maiores capacidades são naturalmente chamados a trabalhar nos países mais desenvolvidos a nível científico. É importante perceber que a ciência feita aqui nos é mais relevante, porque nos vai chegar mais depressa e se pode tornar mais rapidamente em riqueza. Desse ponto de vista, todo o estímulo que puder ser dado para manter cientistas aqui será uma maneira de permitir uma mais fácil comunicação, também aqui, entre criação científica e bem-estar material.

FR- Falando de mercado, qual pensa ser o papel dos privados na investigação científica?

CF- Essa é uma questão muito interessante e actual, porque um dos progressos que fizemos nos últimos tempos foi o aumento de empresas privadas a apostar na investigação, mas a percentagem de participação dos privados no investimento em ciência ainda é baixa, quando comparanda com a dos países mais desenvolvidos. Nesses países, uma parte importante desse investimento é pública, mas há uma outra parte ainda mais importante que é privada. Essa parte pode e deve crescer mais entre nós. Um dos meios para o desenvolvimento passa pela percepção das empresas privadas de que apostar na investigação pode ser lucrativo para elas. O problema, desde logo, é que algumas das empresas que trabalham entre nós são multinacionais, o que significa que a gestão e a investigação não residem aqui. Quanto às tão faladas pequenas e médias empresas, muitas delas têm de facto a ver com a ciência e tecnologia, mas a sua preocupação, e isso é muito típico dos empresários portugueses, tem sido mais a procura do lucro imediato. Uma forma para tornar uma empresa sustentável e lucrativa a longo prazo pode ser investir na investigação. Para isso, terá de se abdicar de pequenos lucros rápidos, em favor do futuro, o que, entre nós, é uma questão de mudança de mentalidade. É preciso saber planear e investir, distinguindo o curto e o longo prazo, pois uma solução para o curto prazo pode não ser a melhor opção para o longo prazo. Em geral, não é.

segunda-feira, 4 de janeiro de 2010

Sem Comentários - Fundação para a Ciência e Tecnologia de PORTUGAL




Email recebido por um colega investigador, enviado pela FCT - Fundação para a Ciência e Tecnologia.

*** Início de cópia de email ***

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Referência do projecto: PTDC/EBB-EBI/xxxxxx/xxxx
Título: xxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxx.
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Exmo. Senhor yyyyyyy,

Na sequência da N/ comunicação, em  2009/xx/yy, da proposta de decisão do resultado da avaliação da candidatura mencionada em epígrafe, vimos informar que a mesma passou a decisão final, tendo sido superiormente homologada em  2009/11/30.

Mais informamos que o montante concedido ao projecto, no valor de €0,00, tem enquadramento no âmbito do Projecto 3599 - Promover a Produção Científica, O Desenvolvimento Tecnológico e a Inovação.

Com os melhores cumprimentos,

Pedro Leite
Director do Departamento de Programas e Projectos de ICDT

*** Fim de cópia de email ***

"O valor radical da liberdade"

"O que se pode dizer e mais elogios a respeito da Ilíada é que,
sabendo-se o desfecho do combate, participamos no entanto da angústia dos Aqueus,
em perigo nos seus acampamentos devido à pressão dos Troianos.
(A mesma observação para a Odisseia; sabe-se que Ulisses matará os Pretendentes.)
Quanta emoção deviam sentir os que ouviram pela primeira vez o poema!"
Albert Camus, Primeiros Cadernos, Livros do Brasil, 201.
.
Faz hoje meia década que morreu Albert Camus, o romancista, o filósofo, o ensaísta, o pacifista que, por causa dessa atitude, rompeu com o grande Sartre, a criança dum bairro pobre de Argel a quem o professor do ensino primário e a avó mudaram o destino ao encaminhá-lo para os estudos secundários, o escritor precoce que publicou o primeiro livro aos 24 anos e que aos 44 recebeu o prémio Nobel da Literatura.

O seu inesperado desaparecimento, aos 46 anos, só poderia, portanto, levantar a suspeita de que a obra que tinha deixado prenunciava uma outra, uma obra (ainda) maior.

Em França decorrem, ao longo de 2010, inúmeras homenagens a Camus, algumas delas são organizadas pela esquerda e pelo centro-direita, ambas as tendências reivindicando a pessoa-autor para as suas linhas da frente e, em simultâneo, reclamando a legitimidade de o fazer. Misturam-se nacionalismos e multiculturalismos...

Estranho cenário para a glorificação dum homem cujo empenhamento político foi sempre direccionado para “um valor muito próprio que acentua o valor radical da liberdade" (José Manuel Mendes).

Valor este que, tal como outros, lhe adveio da curiosidade e do estudo atento dos Clássicos, desde os antigos até aos seus contemporâneos. Na verdade, Albert Camus, sendo argelino por nascimento e francês por vivência, não se sentia, propriamente, nem argelino nem francês: era o mundo e o sentido da Humanidade com as suas particularidades que lhe interessava. Escreveu ele na sua biografia:

“Sou suspeito para os nacionalistas dos dois lados. Para uns, o meu erro é não ser suficientemente patriota. Para os outros, sou patriota demais. Não amo a Argélia à maneira de um militar ou de um colono. Mas será que posso amá-la de outro modo que não como francês? O que muitos árabes não compreendem é que a amo como um francês que ama os árabes e deseja que, na Argélia, eles estejam em sua terra sem que por isso ele mesmo se sinta estrangeiro.”

Este sentimento de pertença e de não pertença, terá sido responsável pela ausência de fronteiras que a sua obra denota, o que faz dela "um dos momentos mais cintilantes de toda a literatura universal no século XX” (José Manuel Mendes).

Consultas: ver aqui e aqui.

ANO INTERNACIONAL DA BIODIVERSIDADE



Depois da Astronomia a Biologia e a Ecologia. As Nações Unidas determinaram que 2010 é o Ano Internacional da Biodiversidade. No vídeo, o Secretário Geral das Nações Unidas faz o respectivo anúncio.

OS SEM-ABRIGO ENTRE NÓS

A propósito do Europeu contra a Pobreza e Exclusão Social, que ora se inicia, recebemos de António Mota de Aguiar o seguinte texto:

2010 é o Ano Europeu contra a Pobreza e Exclusão Social. O Instituto Nacional de Estatística revelou a semana passada que, em 2008, 18% dos portugueses, viviam no limiar da pobreza: cerca de dois milhões de pessoas. As estatísticas dizem-nos também que “há mais de 3000 sem-abrigo em Portugal”, com “mais de 2000 em Lisboa e Porto". Os sem-abrigo, apesar de só representarem uma ínfima parte dos pobres, são uma das realidades mais gritantes no contexto da pobreza e exclusão social no nosso país.

Nos últimos tempos tem feito muito frio em Portugal. E os sem-abrigo continuam a dormir ao relento, sobre lajes, normalmente em sítios concavados de prédios, alguns modernos, ou então por baixo de arcadas de edifícios públicos, como o Terreiro de Paço em Lisboa. Basta passarmos por eles para nos darmos conta do que lhes vai na alma... Como será viver nas suas condições, sobre e sob pedaços de cartão, com temperaturas tão baixas como as que têm feito?

Algumas associações de assistência a estas pessoas distribuem pela noite alimentos e, nalguns casos, dão-lhes guarida. Mas essas instituições têm um orçamento escasso e número fixo de camas. Pouco têm podido fazer. Sobre a temática dos sem-abrigo existem muitos estudos, pareceres, definições, cursos, etc., enquanto…o s sem abrigo continuam a dormir ao frio.

Um artigo do Jornal de Notícias de 30.12.09, diz-nos que está:

«Em estado muito adiantado (…) o processo de registo dos sem abrigo (…) Escolhidos estão já 20 destes cidadãos para darem o pontapé de partida no projecto de reinserção social: Casas Primeiro.” (…) ”Queremos evitar as soluções em espaços colectivos de vida”, como albergues onde vivem em grupo. “É preciso fazer um corte e este começa por a pessoa sentir que tem a sua casa, o seu quarto e as suas coisas”, conclui Martinho.”» [Edmundo Martinho, Presidente do Instituto de Segurança Social].

Pretende-se, portanto, dar a cada sem-abrigo uma casa e, nesse sentido, há já 20 registados… Duvido que seja para ser levado a sério!

A questão dos sem-abrigo em Portugal resolver-se-ia rapidamente se os presidentes de câmara, de facto, quisessem. Dou dois exemplos: Em Paris, na década de 60 do século passado, viviam em barracas, chamados bidons-villes” muitos milhares de portugueses em condições miseráveis. O assunto começou a ser falado, criticado, e, ao fim de alguns anos, o governo francês, sob forte pressão, resolveu a situação: os “bidons-villes” acabaram. Veja-se também o drama do milhão de portugueses que, num curto espaço de tempo, deixaram as ex-colónias portuguesas e vieram para Portugal em pontes áreas. Portugal soube dar a estes nacionais o alojamento necessário e na sua maioria as pessoas encontraram um tecto onde ficar.

Pelos sem-abrigo quase ninguém se interessa. Eles não têm nenhuma capacidade de se fazer ouvir a nível político. Quisessem António Costa, Rui Rio, e Carlos Encarnação presidentes, respectivamente, das Câmaras de Lisboa, Porto e Coimbra resolver esta calamidade humana, tinham os meios necessários para isso. Mas falta-lhes, infelizmente, a vontade.

Como resido em Lisboa, refiro esta cidade: existem aqui milhares de edifícios devolutos, abandonados, fechados. Poder-se-ia criar nalguns desses edifícios situações de habitabilidade, satisfazendo as necessidades básicas dos sem-abrigo: refeições, roupa, medicamentos, higiene, além de um atendimento social, psicológico, psiquiátrico e, aos emigrantes, jurídico. A ocupação destes edifícios seria provisória, enquanto o Estado não desse aos seus ocupantes um outro destino. Em caso de falta de meios próprios, os presidentes de câmara têm acesso directo com o governo central. Para este último, seria "miudezas" arranjar meios financeiros para socorrer estas “mais de 3000 pessoas”. As câmaras dispõem de pessoal de assistência social, há o pessoal de instituições de caridade, e encontrar-se-iam decerto jovens desejosos de ajudar. De algumas empresas viriam certamente donativos e bens materiais.

O drama dos sem-abrigo impõe, em primeiro lugar, que se lhes dê tanto guarida como a assistência mínima. Só depois, quando estiverem todos alojados, é que se deveriam fazer-se os estudos, pareceres, definições, cursos, etc. O Ano Europeu contra a Pobreza deve servir para nos sobressaltar e fazer agir.

António Mota de Aguiar

domingo, 3 de janeiro de 2010

SOBRE O ENSINO DAS CIÊNCIAS

Extracto de uma entrevista que dei recentemente a Fábio Rodrigues, aluno de Comunicação Social da Universidade de Coimbra:

"FR- Sente que a escola continua sem solução para o problema de tornar a ciência atractiva?

CF- Sim, sinto que a escola não responde às necessidades da educação científica. Esse é um dos problemas do nosso ensino. Num mundo que é sustentado pela ciência e fabricado pela tecnologia, é difícil viver sem se ter uma noção da ciência como poderosa arma para a compreensão e transformação de quase tudo o que nos rodeia. Um grande desafio das sociedades contemporâneas é como fazer com que a ciência chegue melhor a mais gente na escola, sendo esta uma instância fundamental e insubstituível. Se um indivíduo não possuir uma boa formação de base, no sentido de perceber qual é o nosso corpo essencial de conhecimento sobre o mundo, sobre a realidade, estará impotente, desarmado perante o mundo. Não estou, de forma alguma, a falar em formar cientistas, estou a falar em formar cidadãos que tenham o mínimo de cultura científica para estarem prevenidos e serem capazes de tomar as suas opções de vida, opções essas que, em muitos casos, estão ligadas à ciência.

FR- Já escreveu vários manuais escolares, tenta passar uma visão mais atractiva da ciência?

CF- Tento, mas não é fácil, porque há desde logo um grande constrangimento, dado pelos programas escolares e pelas normas, ditas orientadoras, que os enquadram. Quando colaboro em manuais escolares, faço-o na tentativa de intervir no sistema educativo num sentido que eu entendo como positivo, mas o sistema é, usando a linguagem da física, muito inerte, empurramos e ele praticamente não se mexe. Os programas são uma grande limitação para os autores dos manuais e as normas que os formatam são, a meu ver, excessivas. Isto para não falar, mais em geral, do sistema escolar que é demasiado burocrático, deixando pouca liberdade as escolas, para professores e alunos, o que resulta num ensino demasiado dependente do Ministério da Educação e das pessoas que o ocupam. Mesmo o espaço de liberdade que podia ser concedido pelos manuais é bastante reduzido. A máquina do ministério, e chamo-lhe "máquina" para não lhe chamar "monstro", podia fazer mais e melhor, podia fazer com que a ciência aparecesse a mais gente de uma forma mais apetecível. Um dos grandes dramas do nosso sistema educativo é que a ciência aparece demasiado tarde, quando a natural curiosidade dos jovens já está ocupada por outros interesses. O interesse pelas ciências devia ser fomentado em idades baixas, no jardim-escola e 1º ciclo do básico, e é por isso que escrevi, juntamente com outros colegas, uma colecção de livros intitulada “Ciência a Brincar” que mostram que se pode descobrir a ciência nessas idades de uma forma atractiva. A ciência, se aparecer cedo e adequadamente, não é um bicho de sete cabeças, é apenas uma forma de responder a dúvidas e inquietações que qualquer criança pode ter.

FR- Pensa que uma nova abordagem no ensino primário ou básico, mais ligada ao real, seria a possível solução?

CF- Sim, claro, e isso passa muito pela formação dos professores. Os professores têm de tratar a ciência por tu, já que, se a ciência não for familiar para eles, não o será decerto para os seus alunos. E, a nível do ensino básico, essa é certamente uma das maiores dificuldades, nem todos os professores convivem pacificamente com a ciência, pelo contrário, muitos até a receiam, achando que é uma coisa inacessível ou difícil. A verdade é que se podem fazer experiências muito simples com crianças, que lhes permitem ultrapassar intuições erradas, fazendo, observando, verificando."

Notícias da treta


Domingo, 3 de Janeiro, oito da noite, regresso de fim de semana prolongado. Repórteres da TVI espalhados pelas bermas das estradas da nação, posicionados para a habitual reportagem do boneco com o microfone à frente de uma fila de luzes pachorrentas. Pequeno problema: os portugueses desiludiram. Berma após berma o mesmo cenário desolador para a reportagem da TVI: o trânsito flui normalmente, como confirmam na habitual linguagem rebuscada os diligentes militares da GNR (aliás para grande desgosto dos empenhados repórteres, que ainda tentam sugerir expressões mais ambíguas do que "normalidade").

Mas é isto razão para não fazer a abertura do Jornal Nacional com um cardume de repórteres na berma? ... Depois da constatação consternada da "aparente normalidade", seguem-se as especulações sobre as eventuais causas para o bizarro fenómeno ("os portugueses terão repartido a hora de viagem ao longo do dia"), terminando com os insubstituíveis conselhos dos oficiais da GNR para "os condutores que iniciam a viagem agora": precaução, cinto de segurança atrás e à frente, não consumir álcool, evitar a velocidade excessiva. Acrescentaria ainda, se conduzir não veja televisão.

E o Jornal Nacional continua com o "mau tempo", outro tema fascinante que interessa sempre aos portugueses: caiu o tecto de uma casa que tinha o tecto a cair nos Açores, como aliás informam sem surpresa os seus ocupantes.

Para além destes temas prosaicos, há outros um pouco mais complicáveis que também podem servir para fazer "notícias": suplementos alimentares revolucionários, novos tratamentos alternativos ("terapia quântica", "desintoxicação"), benefícios da beterraba na prevenção do cancro do dedo grande do pé, malefícios das radiações da televisão de LCD no crescimento de pêlos na barriga. Tudo baseados em "estudos" que ninguém sabe muito bem quais são nem está interessado em saber, que fazem muito frequentemente excelentes não-notícias. Só que estes casos nem sempre são tão ridiculamente evidentes, porque não se vê a estrada desimpedida com carros a circularem a boa velocidade em fundo. Mas o absurdo é frequentemente comparável, assumindo os jornalistas o papel de amplificadores acríticos das maiores patetices. A este propósito (das patetices e respectiva amplificação) estou a ler a "Ciência da Treta" de Ben Goldacre, mencionado neste blogue, que recomendo vivamente.

Por vezes a vontade do jornalista fazer uma notícia interessante sobrepõe-se ao interesse da notícia. No caso da ciência, muitas vezes significa transformá-la em curiosidades ou truques de algibeira, independentente da qualidade, relevância ou representatividade dos eventuais estudos mencionados. Claro que também há bons jornalistas que fazem um trabalho sério.

CITAÇÕES SOBRE RESOLUÇÕES DE ANO NOVO

"New Year's Day… is the accepted time to make your regular annual good resolutions. Next week you can begin paving hell with them as usual.

Mark Twain

"Good resolutions are simply checks that men draw on a bank where they have no account."

Oscar Wilde

"Unless a man starts afresh about things, he will certainly do nothing effective. Unless a man starts on the strange assumption that he has never existed before, it is quite certain that he will never exist afterwards."

G. K. Chesterton

LIVROS DE CIÊNCIA DO ANO


Três autores do "De Rerum Natura" indicaram ao blogue da Sociedade Portuguesa de Física, no sítio do Expresso, os melhores livros de divulgação científica de 2009 em Portugal e no mundo. Ver aqui.

NOVA BIBLIOTECA DE ALEXANDRIA



Recebemos de Cândido Marciano da Silva estas duas belas fotografias da Nova Biblioteca de Alexandria, que vêm muito a propósito agora que o filme "Agora" passa entre nós.

As primeiras observações meteorológicas em Portugal

Post sobre história da ciência em Portugal recebido de António José Leonardo (na imagem retrato de Marino Miguel Franzini):

Existem referências da existência de observações meteorológicas em Portugal a partir do século XVII. Segundo Filipe Simões, o astrónomo português António de Najera (ou Naxera) compilou ou conjunto de observações meteorológicas em Lisboa no seu livro intitulado Summa astrológica, onde se pode ler na terceira página do prólogo:

“…Y si fuera bien recebido, y agradar ela disposicion d’este asunto, me ofresco en breve com el favor de Dios Salir a luz com una recopilacion de observaciones y experiencias meteorológicas ácerca de los tiempos e mudanças del Aire q tengo observado espacio de tiempo, todos los dias del ano, y cada uno en particular, los que fueron cálidos, los húmidos y secos, los lluviosos, los templados, y serenos, los ventosos, y tempestuosos, y finalmente en los que uvo truenos, relâmpagos etc” (Simões, 1875, 78).

O médico inglês Thomas Heberder registou o tempo na Madeira no período de 1747-1753, tendo apresentado os resultados à Royal Society de Londres, resultados esses que foram publicados nas Philosophical Transactions (1752-1757). Extractos das observações meteorológicas de Jacob Chrysostomo Pretorius de 1781-1785, membro da Academia de Ciências, foram publicados em quatro volumes no Almanach de Lisboa de 1782 a 1786 (Peixoto & Ferreira, 1986, 262). José Bento Lopes (?-1800), um médico portuense, recolheu ao longo de 1792 dados meteorológicos diários na cidade do Porto (Monteiro, 2001, 167).

No entanto, algumas das primeiras observações meteorológicas realizadas no nosso país de forma sistemática e com um intuito científico terão sido efectuadas a partir de 1816 por Marino Miguel Franzini (1779-1881). Filho do matemático italiano Miguel Franzini (?-1810) que, a convite do Marquês de Pombal, tinha vindo para o nosso país em 1772, por altura da reforma da Universidade de Coimbra e por cá permaneceu até à sua morte (Nunes, 1988). Franzini fez carreira na Marinha, ascendendo ao posto de major do corpo de engenheiros. Demonstrando um interesse invulgar pela meteorologia, montou um pequeno observatório na sua residência onde recolheu dados, diariamente, em dois períodos: de 1816 até a 1826 e de 1835 a 1855. Franzini teve como objectivos, para além do conhecimento dos fenómenos atmosféricos, não só caracterizar o clima de Lisboa, mas também deduzir as leis subjacentes a esses fenómenos. Um objectivo mais prático relacionou-se com a avaliação da quantidade de chuva anual em Lisboa e a sua distribuição ao longo das estações, de forma a melhorar a saúde e higiene públicas através do “abastecimento de água potável e a canalização subterrânea de esgotos.

Em 1843, Guilherme José António Dias Pegado (1803-85) apresentou ao governo um pedido de constituição de um observatório meteorológico em Lisboa, integrado na Escola Politécnica. Esta instituição não seria apenas “um objecto de ensino mas para [nela] se formarem séries seguidas e ininterrompidas das observações [meteorológicas] comparáveis, e as mais completas possível, do modo e em local que fosse o mais próprio para este fim” (Ferreira, 1940, 7).

Guilherme José Dias Pegado formou-se na UC em Matemática e Filosofia, tendo-se doutorado em Matemática em 1826, o que levou à sua nomeação como assistente do observatório astronómico. Devido às suas ideias liberais foi forçado ao exílio em Brest, França. Após o seu regresso em 1834, ocupou o lugar de lente na Faculdade de Matemática na UC, transferindo-se para a Escola Politécnica de Lisboa, aquando da criação desta em 1837. A iniciativa da fundação de um observatório meteorológico, anexo à Escola Politécnica, terá estado relacionada com a Conferência Internacional de Bruxelas de 23 de Agosto de 1853, que juntou representantes dos Estados Unidos da América, da Grã-Bretanha, da Bélgica, da Dinamarca, da França, da Holanda, da Rússia, da Suécia e de Portugal, na pessoa de J. de Matos Carreira.

O Observatório Meteorológico Infante D. Luís iniciou o funcionamento em Outubro de 1854, tendo Dias Pegado assumido as funções de observador e director. Em colaboração com o Observatório de Paris, começaram em 1857 as primeiras tentativas de previsão do tempo, sendo emitidos alertas de tempestade: no caso de “mau tempo” ou “temporal” eram içados sinais nas estações semafóricas costeiras. Só a partir de 1865 se iniciou a publicação de um boletim diário do Diário de Lisboa que continha o tempo provável nesta cidade para o dia seguinte.

Referências:

- Ferreira, H. Amorim (1940). O observatório do Infante D. Luiz: memória apresentada pelo director do Observatório. Congresso de História da Actividade Científica Portuguesa. Lisboa.
- Monteiro, Ana (2001). O reconhecimento oficial da climatologia em Portugal (1850-1900). História – Revista da Faculdade de Letras. Porto, III Série, 2, 167-174.
- Nunes, Maria de Fátima (1988), O universo estatístico de Marino Miguel Franzini (1800-1860). In O Liberalismo Português: Ideários e Ciências, Lisboa, INIC.
- Peixoto, José Pinto & Ferreira, José F. V. G. (1986). As Ciências Geofísicas em Portugal. História e desenvolvimento da ciência em Portugal. Lisboa.
- Simões, A. Filipe (1875). Notícia do posto meteorológico de Évora. O Instituto, 78-83.

António José Leonardo

5.ª de imagens - Cinema e Fotografia

Informação recebida na caixa de correio do De Rerum Natura:

Ao longo de 2010 o THE PORTFOLIO PROJECT e a Casa da Esquina apresentarão, durante 45 semanas, o ciclo de Cinema e Fotografia “5ª de imagens” que abordará as diferentes formas de interacção entre imagem fotográfica e cinematográfica no grande ecrã.

No primeiro trimestre do ano o ciclo revela quatro fotógrafos que também são cineastas – William Klein, Raymond Depardon, Agnès Varda e David LaChapelle – que constituirão o ponto de partida para a reflexão sobre a cumplicidade entre as duas práticas artísticas.

Nos meses seguintes a programação apresentará documentários sobre consagrados fotógrafos internacionais entre os quais Henri-Cartier Bresson, Robert Doisneau, Annie Leibovitz, Leni Riefenstahl, Nobuyoshi Araki e James Nachtwey bem como filmes de ficção em que o papel da fotografia ou do fotógrafo tenha um relevo especial.

O acesso à referida programação será totalmente gratuito para os membros do THE PORTFOLIO PROJECT e todas as projecções serão seguidas de uma conversa informal entre os espectadores.

As sessões terão lugar todas as 5ªs feiras, exceptuando durante o mês de Agosto, às 22h, na Casa da Esquina, em Coimbra.

Janeiro 2010 Ciclo William Klein (em versão original, não legendados)
Filmes (sessões às 22h)
dia 7 de Janeiro, “Le Messie”
dia 14 de Janeiro, “Muhammad Ali the Greatest”
dia 21 de Janeiro, “Grands soirs et petits Matins”
dia 28 de Janeiro, “The French”

Fevereiro 2010 Ciclo Raymond Depardon (em versão original, não legendados)
Filmes (sessões às 22h)
dia 4 de Fevereiro, “La vie moderne”
dia 11 de Fevereiro, “San Clemente”
dia 18 de Fevereiro, “Urgences”
dia 25 Fevereiro, “Reporters”

Março 2010 (sessões às 22h)
Sobre David LaChapelle
Filme (em versão original, não legendado)
dia 4 de Março, “Rize”

Filmes Ciclo Agnès Varda (sessões às 22h)
dia 11 de Março “Os respigadores e a respigadora”
dia 18 de Março, “Varda Tous Courts” (Ydessa, les ours, et etc… Ulysse Salut les Cubains) (filmes em versão original, não legendados)
dia 25 de Março, “Daguerréotypes” (versão original, não legendada)

Mais informações aqui.

Contatos Casa da Esquina Rua Aires de Campos nº 6, 3000-014 Coimbra (ao lado do Convento das Carmelitas) Tel.: 239041397/ Tlm:962732563, Email: geral@casadaesquina.pt

Autocarros
: 103, 04, 06.

A construção das ciências

As incursões que tenho feito por manuais escolares adoptados no nosso sistema educativo levam-me a compará-los com outros que se vão publicando pela Europa e procurar o que se escreve acerca deles.

Adoptando como parâmetros de comparação aspectos de cariz epistemológico, pedagógico e gráfico, tenho encontrado manuais de qualidade, mas a regra está longe de ser essa… Confirmo esta minha conclusão com uma nota de Alan Sokal & Jean Bricmont relativamente à orientação epistemológica de um manual de ciência belga. Pelo extracto que se segue, percebe-se que, numa área curricular onde os alunos deviam ter por segura a noção de facto científico, ela é... transformada numa interpretação!

“Num manual destinado aos professores do liceu belgas [da autoria de Gérard Fourez, filósofo das ciências muito influente, pelo menos na Bélgica, relativamente às questões pedagógicas. A sua obra, La construction des sciences, 1992, está traduzida em diversas línguas], visando explicar «alguns conhecimentos de epistemologia», pode ler-se a seguinte definição:

Facto: Aquilo que geralmente se designa por facto é uma interpretação de uma situação que, pelo menos no momento da sua ocorrência, ninguém põe em causa. Convém recordar que, como se diz na linguagem corrente, um facto estabelece-se, o que mostra bem que se trata de um modelo teórico que pretendemos apropriar.

Exemplo: As afirmações «o computador está em cima da secretária» ou «quando se põe a água a ferver, ela evapora-se» são consideradas proposições factuais no sentido de que ninguém, no momento em que ocorrem, pretende contestá-las. Trata-se de proposições de interpretações teóricas que ninguém põe em causa. Afirmar que uma proposição segue um facto (ou seja, que tem um estatuto de proposição factual ou empírica) é sustentar que não há praticamente contestação a essa interpretação no momento em que se fala. Mas um facto pode ser posto em causa.

Exemplo: Durante séculos considerou-se um facto que todos os dias o Sol girava em volta da Terra. O surgimento de outra teoria, como a da rotação diurna da Terra sobre si mesma, conduziu à substituição desse facto por outro».

Fourez et al., 1977, 76-77 in Sokal, A. & Bricmont, J. (1999). Imposturas intelectuais. Lisboa: Gradiva, 103-104.

sábado, 2 de janeiro de 2010

Memórias Paralelas da Guerra Colonial Guiné 1968-70

Informação recebida na caixa de correio do De Rerum Natura

A Vivacidade - Espaço Criativo inaugurará na próxima segunda-feira (4 de Janeiro) uma exposição intitulada Memórias Paralelas da Guerra Colonial Guiné 1968-70. A exposição ficará patente até 26 de Fevereiro.

As 22 fotografias desta reportagem fotográfica foram obtidas na então província da Guiné, agora Guiné-Bissau, em plena guerra colonial. Foram registadas no interior do território, quase exclusivamente em Bafatá, que era a segunda cidade mais importante da Guiné e estava integrada numa zona de paz.

Cada fotografia tem uma descrição que se encontra junto na exposição. Encontram-se, também, informações sobre a máquina e o material utilizado na reportagem.

Fernando Gouveia é licenciado em arquitectura pela Escola Superior de Belas Artes do Porto. Como arquitecto desempenhou durante longos anos cargos na Direcção de Obras da Câmara Municipal do Porto, e mais recentemente, na divisão do património cultural. É autor das fotografias que ilustram o livro Magnetismo Terrestre, da professora de Ciências Físico-Químicas Regina Gouveia.

A Exposição, na Rua Alves Redol, 364-B, 4050-042 Porto (a entrada faz-se pelas traseiras do edifício), com entrada livre, poderá ser visitada nos dias úteis das 9h às 13h e das 14.30h às 18.30h.

Amor, felicidade e liberdade

Summerhill foi uma obra de Neill, mas também da sua época
Hemmings, 1975, 12.

Em texto antes publicado no De Rerum Natura - A crença no mundo de Peter Pan - Rui Marques Veloso referiu-se ao impacto que as ideias do Movimento da Educação Nova (corporizadas em finais do século XIX, ainda que com raízes mais antigas) tiveram no nosso país depois da Revolução de 1974, por razões que são por demais conhecidas. Não podemos esquecer que também por cá esta década foi especialmente marcada por inúmeras reivindicações de libertação e emancipação, tudo revestido por um apelativo pós-modernismo que se instalava em todos os sectores da sociedade, destacando os mais diversos subjectivismos e relativismos.

Assim, um pouco como por todo o mundo ocidental, rendemo-nos a exemplos de escolas como a de Bonneuil, fundada por J. Lacan em 1969, nos arredores de Paris, ou de Summerhill fundada por A. Neill, em Inglaterra, em que a criatividade da criança se pensava espontânea, assim como a sua orientação para o bem, o belo, a harmonia, a felicidade, a liberdade...

Acerca dos princípios como o destas duas escolas de fundamentação psicanalítica, e de muitas outras, que se apelidaram de Escolas Modernas, podemos dizer que se "tomaram os desejos por realidade". Para se compreender melhor esta ideia, deixo o leitor com o texto de um pedagogo espanhol que se tem destacado, entre outras coisas, pela crítica ao entendimento da escola e da educação influenciado pelo movimento acima referido.

"Summerhill é uma escola nas quais «as emoções antecedem o intelecto», explica um dos seis antigos alunos, a «sua filosofia básica é que, se um jovem se sente amado e animado a fazer o que lhe agrada – desde que não seja perigoso para si nem prejudique os outros –, converter-se-á num adulto mais feliz e amadurecido» (Popenoe, 1973, 43) (…) podemos já fazer uma ideia do como Summerhill se encaixa tão bem com a sensibilidade naturalista da actualidade (…).

Como se sabe, é uma escola inglesa atípica, que acolhe em regime de internato alunos de ambos os sexos, com idades compreendidas entre os seis e os dezasseis anos. Neill (…) partindo do pressuposto de que as neuroses se devem às repressões, propôs-se criar um sistema educativo não repressivo eu garantisse o equilíbrio mental dos indivíduos. O princípio básico de Summerhill é, pois, a liberdade, entendida deste modo bem simples, segundo as palavras do próprio Neill (1985, 27): «A liberdade consiste em fazer o que se deseja sempre que não se ponha em causa a liberdade dos outros». Nessa escola, então, a única condição que os seus membros experimentam é o abster-se do que possa prejudicar os outros. Fora disso (que lhes é recordado pela Assembleia da escola já que esta se governa por autogestão) não se obriga as crianças a nada: nem a assistir às aula, nem a falar bem, nem a trabalhar, nem a estudar por determinados métodos, calculando-se que «a maior parte do trabalho da aula efectuado pelos adolescentes não é senão uma perda de tempo, de energia e de paciência. Retira à juventude o direito de brincar, de continuar a brincar e de brincar logo a seguir; coloca cabeças velhas em cima de ombros jovens» (Neill, 1971, 39).

O lema pedagógico de Summerhill é a «ideia da não-interferência no crescimento da criança e da não-pressão sobre a criança» (p.29); «viver e deixar viver é uma divisa que encontra a sua melhor expressão em crianças que são livres de escolher o que lhes convém» (p. 78). Ora – como será de supor – «conceder autonomia a uma criança implica a fé na bondade da natureza humana» (p. 104) pois «a criança difícil não existe; o que existe são pais difíceis. Talvez melhor seria dizer que o que existe é uma humanidade difícil (p.103). Os comportamentos inadequados das crianças são ocasionados por um ambiente que lhes é hostil e por circunstâncias que as oprimem injustamente: o mau comportamento é apenas – uma reacção de defesa perante uma opressão injusta. De modo que «em Summerhill, onde a criança não é odiada pelos adultos, a agressividade é desnecessária. As crianças agressivas que temos provêm de lares sem amor e sem compreensão» (p. 34); «uma atmosfera de afecto, sem disciplina familiar, fará desaparecer os males da infância» (p. 148).

Os critérios pedagógicos por que se rege Summerhill são «a felicidade, a sinceridade, o equilíbrio e a sociabilidade» (p.88). São três os princípios de que parte: o amor, a felicidade, a liberdade. A finalidade da educação e da vida deve ser trabalhar com alegria e procurar a felicidade.

As ideias pedagógicas de Neill são perfeitamente claras e coerentes. O perigo é que não sejam, também, simplistas, pois baseiam-se em intuições sobre a natureza humana e a personalidade, que não parecem sintonizar-se com a complexidade dos factos. Este autor possui um pensamento estético que o impede de utilizar a ponderação do pensamento lógico; e, paralelamente, os seus escritos possuem uma graça estilística que lhe granjeia a concordância dos leitores pouco reflexivos – e há muitos que o são.

J. M. Quintana Cabanas, 2002, 94-96.

Referências bibliográficas:
- Quintana Cabanas, J. M. (2002). Teoria da educação: concepção antinónica de educação. Lisboa: Edições Asa.
- Popenoe, J. (1973). Summerhill. Una experiencia pedagógica revolucionaria. Barcelona: Laia.
- Hemmings, R. (1975). Cincuenta años de libertad. Las ideas de A S Neill u la escuela de Summerhill: Madrid: Alianza.

sexta-feira, 1 de janeiro de 2010

Ariane

No dia 1 de Janeiro de 1940, há 70 anos, Miguel Torga estava preso na cadeia do Aljube, esse “tombo de agonias”.

Logo após a apreensão, no final de Novembro de 1939, com exemplar eficácia em todas as livrarias do país, de O quarto dia da criação do mundo, veio a ordem de prisão do médico-escritor, onde constava a acusação de, nessa obra, “defender ideias subversivas”. Até ao dia em que saiu, a 2 de Fevereiro de 1940, Torga escreveu vários contos, que deram corpo a Bichos, e poemas: Exortação, Lembrança, Pietá, Canção, Claridade e Ariane, que estão entre as páginas 121 e 128 do Diário I.


Ariane

Ariane é um navio.
Tem mastros, velas e bandeira à proa,
E chegou num dia branco, frio,
A este rio Tejo de Lisboa.

Carregado de Sonho, fundeou
Dentro da claridade destas grades...
Cisne de todos, que se foi, voltou
Só para os olhos de quem tem saudades...

Foram duas fragatas ver quem era
Um tal milagre assim: era um navio
Que se balança ali à minha espera
Entre as gaivotas que se dão no rio.

Mas eu é que não pude ainda por meus passos
Sair desta prisão em corpo inteiro,
E levantar âncora, e cair nos braços
De Ariane, o veleiro

Na imagem: Fotografias de Miguel Torga da ficha da Polícia de Vigilância e Defesa do Estado.

ESCREVER MAL PARA SE MOSTRAR HUMANO?

Deixei de ler praticamente tudo aquilo que tem a ver com a designada inteligência artificial generativa (erradamente assim designada, pelo m...