terça-feira, 9 de dezembro de 2008

A mãe de todas as demonstrações

Em 1945, um estudante de engenharia electrotécnica que a II Guerra Mundial transformara temporariamente em técnico de radar leu no número de Julho da revista The Atlantic Monthly o artigo As We May Think de Vannevar Bush. No artigo, uma versão mais elaborada de outro texto de 1939 intitulado Mechanization and the Record, Bush descreve o Memex, um conceito revolucionário que impressionou imenso o jovem Douglas Engelbart:

«A mente opera por associação o que torna ineficiente indexar a informação de forma alfabética ou numérica. O pensamento é mantido numa teia de conhecimento no cérebro; seria ideal encontrar uma forma de se fazer algo análogo de forma automatizada.

O artigo sugere um aparelho chamado Memex, que armazena publicações, livros e anotação, conjuntamente com fotos, como um suplemento à memória humana com claridade e permanência melhor

Com o final da guerra, Engelbart voltou para a Universidade, licenciou-se (em 1948) e foi trabalhar para o NACA Ames Laboratory - o precursor da NASA. Por volta de 1950, Engelbart recordou o artigo de Bush e começou a «envision people sitting in front of displays, 'flying around' in an information space where they could formulate and organize their ideas with incredible speed and flexibility

Engelbart deixou o Ames Lab e foi para Berkeley onde se doutorou em engenharia electrotécnica em 1955. O seu sonho de desenvolver uma forma de usar computadores para aumentar o intelecto levou-o para Stanford onde conseguiu financiamento para levar para a frente as suas ideias, em especial após o lançamento do Sputnik, em 1957. De facto, outro efeito colateral da guerra fria foi a criação pelo governo dos EUA da ARPA (Advanced Research Projects Agency), uma agência que financiava projectos arrojados que devolvessem aos Estados Unidos a supremacia tecnológica que o país queria manter.

Assim, em 1963, a ARPA financiou o laboratório que permitiu a Engelbart concretizar o sonho aceso nas Filipinas pelo artigo de Bush e apresentado nesse mesmo ano num artigo intitulado A Conceptual Framewok for an Argumentation of Man's Intellect. No Augmentation Research Center Engelbart desenvolveu, em conjunto com William English e John Rulifson, o On-Line System (NLS) o primeiro ambiente integrado para processamento de dados. O NLS foi pioneiro em muitas das características que hoje integram os modernos sistemas multimedia online: rato, ambiente de janelas múltiplas, e-mail, teleconferência, sistemas de ajuda online (via rádio ou vídeo), processador de texto e hipertexto.

Em 9 de Dezembro de 1968, faz hoje exactamente 40 anos, Engelbart e os seus 17 colaboradores demonstraram o NLS na Fall Joint Computer Conference, em São Francisco. Durante 90 minutos, uma audiência de cerca de 1000 engenheiros electrotécnicos viu pela primeira vez acessórios hoje corriqueiros como um teclado, um rato, e um microfone colocado na cabeça. O vídeo original deste evento histórico pode ser apreciado neste site da universidade de Stanford.

Numa entrevista recente à Folha Online, Engelbart descreve o processo de invenção do rato, uma caixa de madeira com algumas rodas pela qual não ganhou um cêntimo.

Mas se as suas ideias para aumentar o intelecto humano não lhe renderam dinheiro, renderam certamente o reconhecimento dos pares que se reunem hoje para celebrar os 40 anos do acontecimento na sessão Engelbart and the Dawn of Interactive Computing que termina a conferência Program for the Future. Como refere a Wired:

Forty years ago tomorrow, a Silicon Valley engineer named Douglas Engelbart made a presentation so influential that computer scientists now call it "the mother of all demos." More than a mere product demo, it was a down payment on an ambitious idea: That networked computers could help groups of people work together more effectively, raising the collective intelligence of the human race and making it possible to solve some of our most pressing problems, including pollution, famine, disease, and war.

Today, more than 100 hopeful believers in Engelbart's vision are gathering at San Jose's Tech Museum of Innovation, in the heart of Silicon Valley, to talk about the ways that they can help foster greater collective intelligence.

segunda-feira, 8 de dezembro de 2008

Uma história de evolução. O roquinho dos Açores. Parte II



Há dias publiquei um post sobre a história do Roquinho e das investigações, iniciadas pelo biólogo Luis Monteiro, que conduziram à recente proposta de uma nova espécie, Oceanodroma monteiroi, constituida pela população que nidifica no período quente (Abril-Outubro), em alguns ilhéus junto da Graciosa, no arquipélago dos Açores. Adiantando-me, utilizarei as designações de Roquinho e de Roquinho-de-monteiro, para designar a espécie original e a nova espécie, que são também as populações reprodutoras fria e quente.

O processo de especiação, embora extremamente importante, na medida em que constitiui a base da diversidade das formas de vida, já que se não houvesse barreiras reprodutivas seria impossível uma diferenciação tão vasta como a que conhecemos, não é fácil de estudar, por razões óbvias. São necessárias milhares de gerações para que um processo de especiação se complete, pelo que dificilmente podemos observar um inteiro, no curto período de tempo das nossas vidas, ou da nossa ciência.

Darwin sugeriu a possibilidade da formação de novas espécies no mesmo local, ou especiação simpátrica. Mas, tal ocorrência foi refutada por Ernst Mayr, um dos maiores evolucionistas do Séc. XX, que sistematizou e teorizou o processo de especiação, a partir da genética de populações. Segundo Mayr, seria sempre necessária alguma forma de isolamento geográfico (alopatria) para que a divergência genética entre duas populações se fosse acumulando até ao ponto em que os genomas se tornassem incompatíveis e deixasse de ser possível o entrecruzamento entre elas. Esta forma de especiação designa-se por especiação alopátrica, literalmente ‘em locais distintos’. Os casos de espécies muito parecidas ocorrendo nos mesmos locais seriam, assim, explicados por uma convergência secundária das duas espécies num mesmo local, depois de se terem especiado em zonas geograficamente isoladas entre si. Um exemplo clássico é o das espécies em anel, como a gaivota-argentea que têm populações espalhadas pelo globo, formando uma banda à mesma latitude, cada uma um pouco diferente da vizinha, até que se encontram, depois de um arco de mais de 30 mil Km. E, nesses locais (Europa ocidental), as populações já são duas espécies bem distintas que não se cruzam. É como se tivéssemos representado no espaço o tempo de especiação.

A refutação de Mayr não foi, contudo, convincente na medida em que, embora se aceite que a forma de especiação por ele defendida será a mais fácil e frequente, não deixa de ser admissível a especiação simpátrica. O difícil é encontrar exemplos.

Ora o exemplo do Roquinho e do Roquinho-de-monteiro ilustra um verdadeiro caso de especiação simpátrica em vertebrados terrestres. Os dados moleculares revelam que a população fria dos Açores (roquinho) está geneticamente mais próxima das populações da Madeira, das Berlengas ou das Canárias do que da população quente dos Açores, ou Roquinho-de-monteiro. A medição do tempo de divergência evolutiva entre as duas populações é de 75 mil a 180 mil anos. Como a população quente dos Açores só ocorre naquele arquipélago, é pouco provável que a formação da nova espécie se tenha dado em locais separados. Aliás, dada a extrema mobilidade das aves destas espécies – são frequentemente capturados no golfo do México, indivíduos anilhados nos Açores –, não se pode falar de isolamento geográfico nas ilhas atlânticas.

Curiosamente, também nas Galápagos e em Cabo Verde ocorrem duas populações nidificantes em período quente e frio. Também aqui parece haver uma certa segregação entre as populações. Mas, ao contrário do que sucede nos Açores, ocorre fluxo genético entre as populações quente e fria. Isto é, podemos estar a assistir a um processo incipiente de especiação, que poderá vir a evoluir no mesmo sentido do que se verificou nos Açores.

Mas, como podem evoluir espécies num mesmo local?

Um elemento fundamental deste isolamento simpátrico é o das barreiras comportamentais entre populações. Se os membros de uma população só acasalarem entre si e segregarem os da outra, através de formas de reconhecimento intrapopulacional, escolha do par, ou outra forma de segregação entre indivíduos pertencentes às duas populações, cria-se uma barreira ao fluxo genético. Neste contexto, a descoberta de que as vocalizações das duas espécies nos Açores são bem distinguíveis e que os indivíduos de cada população só respondem às vocalizações da sua população e não às da outra é muito elucidativa.

A formação da nova espécie de roquinho (Oceanodroma monteiroi) nos Açores é um caso excepcional de história evolutiva, mas também de história humana, pela forma como nasceu e se desenvolveu a investigação sobre estas duas populações. A riqueza da natureza está nos detalhes. É preciso saber olhar para eles, como o Luis Monteiro soube olhar.

A METAFÍSICA DE VERNEY

Informação recebida da Imprensa da Universidade de Coimbra:

O Reitor da Universidade de Coimbra, o Director da Imprensa da Universidade de Coimbra e o Presidente da Associação Portuguesa de Estudos Neolatinos convidam para o lançamento do livro Metafísica, com introdução e tradução de Amândio Coxito e fixação do texto latino de Sebastião Tavares de Pinho e Ândrea Patrícia Seiça, que terá lugar no dia 9 de Dezembro, pelas 18h00, na Sala do Senado da Universidade de Coimbra. A apresentação da obra será feita pelo Senhor Doutor Amândio Coxito.

A Metafísica de Verney propõe-se sobretudo analisar, numa perspectiva empirista, certos conceitos da metafísica tradicional (ente e não-ente, essência, substância, modos, relação, existência, subsistência, finito e infinito, necessário e contingente, causa e efeito, e ainda outros). Aquela perspectiva está presente, por exemplo, na concepção da essência real: esta não é o conjunto de notas fixas manifestadas pela definição (como supunha a concepção aristotélico-escolástica), mas o conjunto de todos os atributos concretos dos entes, pelo que a essência real nos é desconhecida; apenas podemos ter conhecimento da essência nominal ou metafísica, ou da que percebemos pela palavra com que significamos uma coisa. Mas as palavras possuem para nós uma significação que é dependente das nossas possibilidades de conhecer. Deste modo, a essência nominal inclui apenas um conjunto de ideias mais conhecidas que supomos constituírem a essência real, conjunto esse que as palavras nos dão a conhecer em função da nossa experiência; mas, sendo esta experiência variável, o conjunto de ideias que ela nos possibilita pode “diminuir ou aumentar”, podendo, por isso, variar a essência metafísica. Esta doutrina de cariz empirista de Verney aparece associada na sua obra a uma crítica contundente da metafísica escolástica e, por outro lado, a uma exaltação das propostas filosóficas dos “modernos”, em particular no domínio da filosofia natural. E isso é realizado através de uma expressão latina muitas vezes elegante, o que significa que o nosso autor se propôs imitar os bons modelos da Antiguidade.

IMPRENSA DA UNIVERSIDADE DE COIMBRA . Rua da Ilha . 3000-214 Coimbra . Telefone: 239 410 098 . Fax: 239 410 043 . Email: imprensauc@ci.uc.pt

LIVRARIA DA IMPRENSA . Rua Oliveira Matos, 29 . 3000-305 Coimbra . Telefone/Fax.: 239 832 982/3 . Email: livrariaiuc@ci.uc.pt

QUATRO LIVROS DE CIÊNCIA DO ANO SEGUNDO O NYT

Eis os quatro livros de ciências incluídas na lista de 100 livros do ano do "New York Times". Só o livro de Friedman está traduzido em Portugal:

DESCARTES’ BONES: A Skeletal History of the Conflict Between Faith and Reason.
By Russell Shorto. (Doubleday, $26.) Shorto’s smart, elegant study turns the early separation of Descartes’s skull from the rest of his remains into an irresistible metaphor.

THE DRUNKARD’S WALK: How Randomness Rules Our Lives. By Leonard Mlodinow. (Pantheon, $24.95.) This breezy crash course intersperses probabilistic mind-benders with profiles of theorists.

HOT, FLAT, AND CROWDED: Why We Need a Green Revolution — and How It Can Renew America. By Thomas L. Friedman. (Farrar, Straus & Giroux, $27.95.) The Times columnist turns his attention to possible business-friendly solutions to global warming.

THE SUPERORGANISM: The Beauty, Elegance, and Strangeness of Insect Societies. By Bert Hölldobler and Edward O. Wilson. (Norton, $55.) The central conceit of this astonishing study is that an insect colony is a single animal raised to a higher level.

DESCOBRE A VIDA

Informação recebida da Bizâncio (clicar na figura para ver conteúdo).

domingo, 7 de dezembro de 2008

CONSENSO EM CIÊNCIA

Com a devida vénia, publicamos o texto de João Miranda que saiu no "Diário de Notícias" de sábado passado:

O aquecimento global tornou-se numa questão política incontornável. Os ambientalistas alegam que existe um consenso científico sobre o assunto. No entanto, "consenso" não é um critério científico mas sim um critério político. O método científico não é um processo democrático em que a voz da maioria conta mais que a voz da minoria. O processo científico é um processo adversarial de descoberta da verdade em que o que conta é a qualidade dos argumentos e dos resultados experimentais.

David Hume mostrou que não é possível provar teorias gerais sobre a realidade por métodos empíricos. Esta ideia de Hume limita aquilo que o método científico pode fazer. O método científico não permite confirmar as teorias que são verdadeiras. Permite apenas rejeitar as teorias que são falsas. Como Karl Popper explicou, o método científico é uma sucessão de conjecturas e refutações. A fiabilidade de uma teoria é tanto maior quanto maior for o esforço para a refutar.

A fiabilidade do processo científico depende da integridade dos processos sociais que produzem ciência. Estes processos sociais são frequentemente deturpados pelas preferências políticas das agências de financiamento e dos próprios cientistas. Os ambientalistas tentam condicionar o processo científico através da alegação de que existe um consenso científico sobre aquecimento global. Na realidade, esta alegação pode ser um indício de que o processo científico está bloqueado. Quando existe consenso, ninguém está a participar no processo de refutação. O processo científico está morto.

Nos últimos anos, os ambientalistas mais radicais têm centrado a sua atenção nos cientistas que contestam as ideias dominantes sobre o aquecimento global. Chamam-lhes "negacionistas", por analogia com os neonazis que negam o Holocausto. Trata-se de um termo ofensivo que visa denegrir o cepticismo. Os cépticos são os heróis do processo científico. Apesar dos custos pessoais e profissionais, asseguram o processo de refutação sem o qual não existe actividade científica.

João Miranda

JOÃO DE LOUREIRO, UM PORTUGUÊS ESQUECIDO


Esperando abrir o apetite para a obra, publicamos uma ficha do "O Grande Livro dos Portugueses Esquecidos", de Joaquim Fernandes, publicado pela Temas e Debates / Círculo de Leitores, e, na sexta-feira passada, lançado no Porto (na imagem, desenho de uma orquídea asiática que tem o nome de Loureiro):

Loureiro, João de (n. Lisboa, 1710 – m. Lisboa, 1791)

Estudou no Colégio de Santo Antão e vestiu o hábito de jesuíta em 1732. Depois de Goa e de Macau, onde residiu quatro anos, em 1742 foi enviado em missão especial para a Cochinchina, região que corresponde à parte mais meridional do Vietname, a leste do Camboja, ali vivendo durante 36 anos. Como o país era hostil aos europeus e à evangelização, João de Loureiro entrou como matemático e naturalista na corte do rei da Cochinchina.

Para obter licença de residência, o jesuíta fingiu-se médico e, deste modo, pôde exercer a sua acção clandestina junto das comunidades locais. Quando os medicamentos que levara consigo se esgotaram, embrenhou-se no estudo da Botânica, apenas com as informações recolhidas junto das populações, tomando conhecimento de plantas medicinais e testando a sua aplicação em doentes. Obteve com isso as boas graças dos poderes locais, sendo nomeado pelo rei director de estudos físicos e matemáticos da Corte, embora proibindo-o de missionar mas tolerando a propagação do Evangelho fora de lugares públicos.

Conseguiu obter de um capitão de navio inglês, Thomas Riddel, alguns livros de Botânica e, sobretudo, de Lineu, que muito o ajudaram a reconhecer e classificar as espécies florais, procurando seguir a sistemática criada por aquele naturalista. Da sua colectânea, João de Loureiro enviou cerca de 60 amostras de espécies inéditas para a Inglaterra e Suécia, a que seguiu uma nova colecção de 230 plantas.

Em 1779, o naturalista-jesuíta passou da Cochinchina para Cantão, onde permaneceu três anos, regressando a Lisboa com o seu precioso tratado – Flora Cochinchinense - que lhe daria reputação internacional. Antes, fez uma escala de três meses em Moçambique, onde se aplicou ao estudo comparado da flora que coligira durante a longa estadia asiática. O compêndio, publicado em 1790 pela Academia das Ciências de Lisboa, acaba por integrar também espécies oriundas da China, Índia e África Oriental. Nele, João de Loureiro descreve 185 novos géneros e quase 1300 espécies, das quais 564 pertencem ao património natural da China e 697 do Vietname e Sudoeste asiático, sendo outras nativas de países como Zanzibar, Filipinas, Samatra, Madagáscar e da África tropical.

O monumental trabalho de Loureiro provocou reacções nos meios botânicos europeus e os comentários de apreço não se fizeram esperar. Três anos após a edição de Lisboa, o botânico alemão Karl Ludwig Willdenow, um dos primeiros fito-geógrafos, professor na Universidade de Berlim onde teve Humboldt como discípulo, fez publicar uma segunda edição da obra de Loureiro com pequenas alterações e anotações. Também o botânico francês Antoine Laurent de Jussieu testemunhou o seu respeito pela obra do padre João de Loureiro num trabalho publicado nos Anais do Museu de História Natural de Paris, louvando o zelo com que o nosso compatriota empreendeu os seus estudos.

Em 4 de Abril de 1781, a Academia das Ciências de Lisboa elegeu-o sócio e a Royal Society de Londres, de que também era membro, aproveitou alguns trabalhos deste botânico português, alguns deles publicados nos seus clássicos Proceedings. O presidente da Sociedade, Joseph Banks, igualmente botânico e com quem Loureiro se correspondeu, assinalou nas suas cartas a consideração que votava ao amigo a quem instava para se deslocar a Londres. Do mesmo modo, o naturalista o sueco Daniel Solander, companheiro do capitão Cook nas suas viagens, manteve contactos epistolares com o cientista português.

Para além dos estudos impressos restaram diversos manuscritos inéditos, avaliados num estudo de Bernardino António Gomes, traduzidos em 12 grandes volumes escritos em papel da China, contendo informações históricas, dois volumes com desenhos representando minerais, plantas e animais e outros dois com 397 desenhos coloridos de plantas com os seus nomes regionais e científicos, uma “flora iconográfica” da Cochinchina escrita em língua anamita e um dicionário anamita-português.

O padre João Loureiro, um dos mais importantes botânicos europeus do século XVIII, reuniu o consenso internacional como especialista na flora asiática. No entanto, a sua curiosidade alastrou a outras actividades científicas como a matemática, a astronomia e a medicina. Trata-se de uma das figuras de topo da história da ciência feita em português, que exige um estudo bio-bibliográfico minimamente exaustivo que esclareça o destino do seu espólio literário e botânico, integrado por espécies, estampas e manuscritos científicos inéditos. A "Flora Cochinchinensis" do Padre João Loureiro, ainda que datada do ponto de vista científico, pelos seus critérios e classificações, continua a ser admitida como obra de referência na história da etno-botânica e da farmacopeia mundiais. O espírito de observação do jesuíta e cientista reportaram na sua obra maior importantes notícias sobre a cultura e a sociedade que frequentou e conheceu durante mais de três décadas, na segunda metade do século XVIII.

Aguarda-se, assim, que a "Flora Cochinchinensis" seja objecto de um estudo aprofundado e de uma reedição, já que permanece como uma obra raríssima e um dos clássicos portugueses da literatura científica, gerada pelas capacidades de uma das figuras esquecidas no inventário da nossa História das Ciências.

Principais obras:

- Flora Cochinchinensis...., 2 Tomos. Lisboa, Academia Real das Ciências, 1790.

Referências bibliográficas:

- Bernardino António Gomes, “Elogio do Padre João de Loureiro”, in Memórias da Academia das Ciências de Lisboa, nº 4 (1). Lisboa, 1868, pp. 5-6.
- Elmer Drew Merrill, “Comentário”, in Transactions of the American Philosophical Society (1935), series 2, 24(2), pp. 23-28.
- Grande Enciclopédia Portuguesa e Brasileira, Vol. 15.

Joaquim Fernandes

sábado, 6 de dezembro de 2008

VIAGENS NO TEMPO


Já está nas livrarias o livro "A Física do Impossível" do físico Michio Kaku, saído na Bizâncio. Eis o início do Capítulo 12:

No romance Janus Equation, o escritor G. Spruill explorou um dos problemas angustiantes associados às viagens no tempo. Nesta história, um matemático brilhante, cujo objectivo é descobrir o segredo das viagens no tempo, encontra uma mulher tão estranha quanto bela, e inicia com ela uma relação amorosa, embora não saiba nada do seu passado. Ao querer desvendar a sua verdadeira identidade, acaba por saber que ela fizera uma cirurgia plástica para modificar o rosto. E que se submetera a uma operação de mudança de sexo. Finalmente, descobriu que «ela» era na realidade uma viajante no tempo vinda do futuro e, mais ainda, que «ela» é ele próprio, mas vindo do futuro. Isto significa que ele fez amor consigo próprio. E ficamos a pensar o que teria acontecido se tivessem tido uma criança? E se esta criança voltasse ao passado, crescendo até se tornar o matemático do início da história, será possível sermos o nosso próprio pai. Mãe, filho e filha?

O tempo é um dos grandes mistérios do universo. Somos todos arrastados pela corrente do tempo contra a nossa vontade. Por volta de 400 A. D., Santo Agostinho escreveu longamente sobre a natureza paradoxal do tempo: «Como podem ser o passado e o futuro, quando o passado já não é, e o futuro ainda não é? Quanto ao presente, se fosse sempre presente e nunca se deslocasse para se tornar passado, não seria tempo, mas a eternidade.» Se levarmos mais além a lógica de Santo Agostinho, vemos que o tempo não é possível, uma vez que o passado já se foi, o futuro não existe e o presente só existe durante um instante. (Santo Agostinho pôs depois questões teológicas profundas sobre o modo como o tempo deve influenciar Deus, questões que são relevantes ainda hoje. Se Deus é omnipotente e todo-poderoso, escreveu ele, estará sujeito à passagem do tempo? Por outras palavras, Deus, como nós, terá de se apressar porque está atrasado para um encontro? Santo Agostinho acabou por concluir que Deus é omnipotente, pelo que não pode ser limitado pelo tempo e, por conseguinte, tem de existir «fora do tempo». Embora a noção de estar fora do tempo pareça absurda, trata-se de uma ideia recorrente na física moderna, como veremos.)

Tal como Santo Agostinho, todos nós meditámos alguma vez na natureza estranha do tempo e no modo como ele se diferencia do espaço. Se podemos andar para a frente e para trás no espaço, porque não o poderíamos fazer no tempo? Todos nós também já nos inquirimos o que o futuro nos reserva, para além dos anos que aqui passamos. Os humanos têm um tempo de vida finito, mas somos muito curiosos sobre o que acontecerá muito depois de já termos desaparecido.

Embora o nosso desejo de viajar no tempo seja provavelmente tão antigo como a humanidade, aparentemente a primeira história escrita sobre uma viagem no tempo seja a obra de Samuel Madden, Memoirs of the Twentieth Century, de 1733, sobre um anjo vindo de 1997, que viaja 250 anos para o passado a fim de entregar a um embaixador britânico documentos que descrevem o mundo do futuro.

Haveria muitas mais histórias semelhantes. O conto «Missing One’Coach: An Anachronism», escrito em 1838 por um autor anónimo, narra a história de uma pessoa que espera por uma carruagem e que subitamente se encontra mil anos no passado. Encontra um monge de um mosteiro antigo e tenta explicar-lhe como a história irá decorrer nos mil anos seguintes. A seguir, de uma forma igualmente misteriosa, vê-se transportado de novo para o presente, excepto que perdeu a carruagem.

Mesmo o romance de Charles Dickens, O Cântico de Natal, é uma espécie de história de uma viagem no tempo, pois Ebenezer Scrooge é transportado para o passado e para o futuro a fim de ver como era o mundo antes do presente e depois da sua morte.

Na literatura americana, as viagens no tempo aparecem pela primeira vez no romance de Mark Twain, de 1889, Um Americano na Corte do Rei Artur. Um americano do século XIX é atirado para o passado até à corte do rei Artur, no ano 528 da nossa era. É feito prisioneiro e está na iminência de ser queimado na fogueira quando, sabendo que iria haver um eclipse nesse mesmo dia, declara que é capaz de fazer obscurecer o Sol. Quando o astro se esconde, o povo fica aterrorizado e oferece-lhe a liberdade e privilégios em troca do retorno do sol.

Mas a primeira tentativa séria de explorar as viagens no tempo na ficção foi o romance clássico de H. G. Wells, A Máquina do Tempo, em que o herói é enviado para uma época a centenas de milhares de anos no futuro. Nesse futuro distante, a humanidade dividiu-se geneticamente em duas raças, os terríveis Moolocks, que mantêm em funcionamento sinistras máquinas subterrâneas, e os inúteis e infantis Eloi, que dançam à luz do sol no mundo à superfície, nunca se apercebendo do seu destino horrível (serem comidos pelos Moorlocks).

Desde então, as viagens no tempo tornaram-se um ingrediente constante da ficção científica, desde O Caminho das Estrelas até Regresso ao Futuro. Em Super-homem I, quando o super-homem sabe que Lois Lane morreu, decide, em desespero de causa, inverter o tempo , girando como um foguetão em torno da Terra, a uma velocidade superior à da luz, até o tempo andar para trás. O movimento da Terra torna-se mais lento, pára, e o planeta recomeça a girar no sentido oposto, até todos os relógios da Terra passarem a andar para trás. As águas das cheias recuam, as barragens destruídas restabelecem-se milagrosamente, e Lois Lane regressa do mundo dos mortos.

Da perspectiva da ciência, as viagens no tempo eram impossíveis no universo de Newton, onde o tempo era visto como uma flecha. Uma vez disparado, nunca poderia desviar-se da sua trajectória. Um segundo na Terra era um segundo em todo o Universo. Esta concepção foi posta em causa por Einstein, que mostrou que o tempo mais parecia um rio que serpenteava através do Universo, acelerando e abrandando à medida que vagueava por entre estrelas e galáxias. Assim, um segundo na Terra não é absoluto; o tempo varia quando nos deslocamos ao longo do Universo.

Como vimos atrás, de acordo com a teoria da relatividade restrita de Einstein, o tempo vai-se tornando mais lento no interior de um foguetão à medida que a velocidade deste 0aumenta. Os escritores de ficção científica especulam que, se conseguirmos quebrar a barreira da luz, poderemos recuar no tempo. Mas isto não é possível, pois teríamos de ter uma massa infinita para atingir a velocidade da luz. A velocidade da luz é a barreira definitiva para qualquer foguetão. A tripulação da nave Enterprise em O Caminho das Estrelas IV: Regresso à Terra apoderou-se de uma nave Klingon e usou-a para, acelerando em torno do Sol como que lançada por uma funda, quebrar a barreira da luz e aterrar em São Francisco na década de 1960. Mas isto desafia as leis da física.

No entanto, as viagens no tempo para o futuro são possíveis, tendo sido verificadas experimentalmente milhões de vezes. O percurso do herói de A Máquina do Tempo até ao futuro distante é efectivamente possível do ponto de vista da física. Se um astronauta viajar quase à velocidade da luz, pode atingir as estrelas mais próximas em, digamos, um minuto. Na Terra, teriam passado quatro anos, mas, para ele, apenas teria decorrido um minuto, pois o tempo ter-se-ia tornado mais lento dentro da sua nave. Assim, ele teria viajado quatro anos em direcção ao futuro, medindo o tempo na Terra. (Na realidade, os nossos astronautas fazem uma pequena viagem ao futuro sempre que vão para o espaço. Quando se deslocam a perto de 30.000 quilómetros por hora, os seus relógios andam um pouco mais devagar do que os relógios na Terra. Deste modo, após uma missão de um ano na estação espacial, terão viajado uma fracção de segundo para o futuro quando regressam à Terra. O recorde mundial para as viagens ao futuro é presentemente detido pelo cosmonauta russo Sergei Avdeyev, que orbitou a Terra durante 748 dias e, por conseguinte, avançou 0,02 segundos no futuro.)

Assim, uma máquina do tempo capaz de nos transportar ao futuro é compatível com a teoria da relatividade restrita de Einstein. E o recuo no tempo?

Se pudéssemos viajar para o passado, seria impossível escrever a história. Logo que um historiador registasse a história do passado, alguém poderia recuar no tempo e rescrevê-la. As máquinas do tempo não só deixariam os historiadores sem trabalho, como permitiriam alterar o decurso do tempo à nossa vontade. Por exemplo, se voltássemos à época dos dinossáurios e, por acidente, pisássemos um mamífero que, por acaso, fosse nosso antepassado, arriscar-nos-íamos a eliminar toda a raça humana. A história tornar-se-ia um episódio infindável e maluco dos Monty Python, quando turistas vindos do futuro espezinhassem acontecimentos históricos ao tentar obter o melhor ângulo para as suas filmagens.

sexta-feira, 5 de dezembro de 2008

CÉREBRO, VIDA E CULTURA


Informação recebida do Forum Internacional dos Investigadores Portugueses sobre o encontro que se vai realizar este mês em Lisboa (clicar para ler o conteúdo).

ENGENHO LUSO NO CASINO

Informação recebida da editora Gradiva:

O novo livro da autoria de Carlos Fiolhais, Engenho Luso e Outras Crónicas vai ser lançado no Casino da Figueira da Foz no próximo dia 9 de Dezembro às 18h30m. A obra será apresentada por João Filipe Queiró, Professor de Matemática da Universidade de Coimbra.

Carlos Fiolhais é professor catedrático no Departamento de Física da Universidade de Coimbra, é também director da Biblioteca daquela universidade. Tendo já recebido vários prémios e distinções nacionais, Carlos Fiolhais é autor de mais de uma centena de artigos científicos. Escreve actualmente no jornal Público e Sol, além das regulares intervenções em programas de rádio e de televisão.

Entre os mais de 40 livros publicados, encontra-se agora Engenho Luso e Outras Crónicas que reúne as crónicas do autor publicadas no jornal Público sobre diversos temas da actualidade e da história, em particular sobre a educação e a cultura.

O PENACHO DA CULTURA


Minha habitual crónica quinzenal no jornal "Público" saída hoje (na foto, Eduardo Lourenço na sua aldeia natal de S. Pedro de Rio Seco):

Se a cultura é uma alavanca de mudança, o interior está a mudar graças a iniciativas municipais. Depois de em Junho ter aberto em Bragança o Centro de Arte Contemporânea Graça de Morais, acaba de abrir na Guarda a Biblioteca Eduardo Lourenço.

Que o génio pode brotar dos sítios mais recônditos mostram estes dois exemplos: A pintora Graça Morais nasceu em Vieiro, Vila Flor, distrito de Bragança, e o escritor Eduardo Lourenço nasceu em S. Pedro de Rio Seco, Almeida, distrito da Guarda. Num caso e noutro as memórias da infância ficaram indeléveis. Graça Morais sobre a escola primária de Vieiro: “Tenho ideia de uma grande confusão de coisas, a geografia e a gramática, a tabuada e a história. Eu desenhava. Cerejas, uma chávena e um bule que havia lá em casa.” Eduardo Lourenço sobre a aldeia de S. Pedro, colada a Espanha: Eu só tenho um espaço particular, reservado, que é o da minha aldeia. Da minha aldeia e desses dez anos que aí vivi e foram diferentes de tudo o resto que me aconteceu. Estava no mundo ou o mundo estava em mim. Depois, nunca mais soube, realmente, onde estou e nunca o saberei.” A pintora, depois de ter estudado no Porto, andou pelo mundo mas regressou. O escritor, depois de ter estudado e ensinado em Coimbra, ficou pelo mundo, embora regresse sempre que possa. Mostrando uma generosidade que, por não sere comum entre nós, merece os maiores encómios, ofereceram a primeira um conjunto das suas telas e o segundo um conjunto dos seus livros às cidades em cujos liceus ingressaram, ao deixarem as suas pobres aldeias. A oferta é a todos nós. Os novos Museu e Biblioteca não podiam deixar de ter os seus nomes.

Estive na inauguração da Biblioteca Eduardo Lourenço, um edifício bastante acolhedor contíguo a um velho solar que desde há três anos está ocupado pelo Centro de Estudos Ibéricos, uma iniciativa conjunta da Câmara Municipal da Guarda e das Universidades de Coimbra e Salamanca em resposta a uma sugestão de Eduardo Lourenço. Não foi sem emoção que encontrei os livros do nosso “maître à penser” vindos da sua casa francesa. Deles disse o doador: “Com esta doação e outra futura que se prepara dos meus outros livros, eu estou dizendo adeus a mim mesmo e preparando o mais confortável dos túmulos que é o de saber que assim continuarei entre gente que teve alguma consideração por aquilo que sou e que escrevi”. Os livros ficam infelizes se não forem lidos e os de Lourenço esperam impacientes, na sua nova casa, por novos leitores.

Na cerimónia não foi visto o ministro da Cultura, José António Pinto Ribeiro, que, honra lhe seja feita, tinha há pouco distinguido Eduardo Lourenço na Gulbenkian. Parece que o ministro não se tem dado muito a ver, embora tenha sido visto no Parlamento a lamentar-se da escassez do seu orçamento e nos jornais a queixar-se amargamente da má execução orçamental dos seus antecessores. Confesso que, quando ele tomou posse, fiquei contente, por pressentir que ia parar o extravagante pólo do Hermitage em Lisboa (este é o tema de uma das outras crónicas do meu livro “O Engenho Luso e Outras Crónicas”, Gradiva, 2008). Mas o meu ânimo logo esmoreceu quando o ouvi dizer que queria “fazer mais com menos”. Adivinhei que ia ser vítima das suas próprias palavras. A fatia de 0,4 por cento do Orçamento de Estado para a cultura é pouco, muito pouco, escandalosamente pouco. A anterior ministra terá comentado, irónica: “O ministro das Finanças fez-lhe a vontade”. Receio que o orçamento não dê para fazer crescer e multiplicar museus e bibliotecas tão exemplares como o de Bragança e a da Guarda, que ajudem a mudar o interior desertificado. O dinheiro, que era pouco, será ainda menos. E não deve chegar para pagar projectos tão extravagantes como o agora divulgado Centro de Arte Africana Contemporânea “África.cont”, tal como o do Hermitage na capital (dizem que cont é de contemporâneo, mas pode apenas indicar que falta dinheiro para o resto das letras). A cultura continua a ser um parente pobre do governo. Dá a ideia que é um enfeite, um penacho no chapéu dos governantes. É uma pena!

HISTÓRIAS DA CIÊNCIA E DA VIDA

Informação recebida da Fábrica "Ciência Viva" de Aveiro (clicar sobre a imagem para ler conteúdo).

OS 400 ANOS DE D. FRANCISCO MANUEL DE MELO

Carta de Marta Anacleto ao "Público" sobre a recente passagem dos 400 anos do nascimento de D. Francisco Manuel de Melo, que o "De Rerum Natura" noticiou:
Em artigo saído recentemente no "Público" intitulado «D. Francisco Manuel de Melo esquecido?» refere Guilherme d'Oliveira Martins, Presidente do Centro Nacional de Cultura, que
foi votada ao esquecimento a efeméride evocativa do quarto centenário do nascimento de D. Francisco Manuel de Melo, enunciando, para justificar tal facto (como o faz na página inicial do "site" do Centro Nacional de Cultura), um conjunto de razões que podem levar a essa "marca da ausência". Tal silêncio seria, como o autor afirma, sinal de "falta de memória histórica" e irónico sinal da valorização, no nosso espaço académico e cultural, de invocações de "mil medianias" em detrimento da celebração da obra de um prosador seiscentista que assume estatuto identitário semelhante ao de Vieira (cuja efeméride também se celebra este ano), na nossa literatura e cultura.

Perante esse "vazio" a que o o Presidente do Centro Nacional de Cultura se refere no que respeita à comemoração da efeméride, gostaria de salientar que, de 23 a 25 de Outubro, a Universidade do Porto (Centro Interuniversitário de História da Espiritualidade e Instituto de Estudos Ibéricos da Faculdade de Letras) e a Universidade de Coimbra (Centro de Literatura Portuguesa e Instituto de Língua e Literatura Portuguesas da Faculdade de Letras) organizaram, em conjunto, um Congresso Internacional denominado «D. Francisco Manuel de Melo e o Barroco Peninsular» que teve lugar nas duas Universidades. O evento foi amplamente divulgado, em versão multimédia (páginas das duas Universidades, Centros da FCT associados) e em versão impressa. Fizeram parte da Comissão Científica desse Congresso Internacional especialistas como Aníbal Pinto de Castro, Antonio Bernat Vistarini, Fernando R. de la Flor, José Adriano de Freitas Carvalho, José Pedro Paiva, Maria de Lurdes Correia Fernandes, Maria Lucília Gonçalves Pires e Vítor Manuel de Aguiar e Silva. Pretenderam as Comissões Científica e Organizadora homenagear D. Francisco Manuel de Melo, concebendo um Encontro que, ao contar com um conjunto de especialistas portugueses, espanhóis, italianos, cujo trabalho contínuo tem permitido difundir, de forma consistente, a obra do Autor e do espaço epocal em que se inscreve, não só equacionou o ponto da situação sobre a investigação realizada até hoje, como também acolheu e abriu novas perspectivas de abordagem da relação do polígrafo com o contexto barroco peninsular. Tais reflexões darão lugar a volume extenso, a editar em 2009, visando propor leituras plurais e inovadoras sobre a obra de D. Francisco Manuel e marcar, na actualidade, os Estudos Literários sobre a Época Barroca na Literatura Portuguesa e Peninsular.

Optou-se, assim, por imprimir aos trabalhos uma perspectiva transversal, patente, em primeira instância, nas sessões do dia 23, que decorreram na Universidade de Coimbra: o cruzamento do imaginário barroco peninsular com a escrita do Autor dos «Apólogos Dialogais» foi abordado por Fernando R. de la Flor, Vitor Manuel Aguiar e Silva, Valeria Tocco, Angél Marcos de Dios, Maria do Céu Fraga, Marta Teixeira Anacleto, Paulo da Silva Pereira. Seguiu-se, na Biblioteca Joanina, onde estava patente ao público uma mostra bibliográfica, organizada no âmbito do Congresso, com obras do autor e de escritores portugueses e estrangeiros seus contemporâneos que fazem parte do espólio da Biblioteca Geral da Universidade de Coimbra, uma conferência sobre «Tradições Autóctones e Correntes Cosmopolitas no Barroco Musical ibérico do século XVII» proferida por Rui Vieira Nery e um concerto a cargo do Grupo «Sete Lágrimas» com o título «Pedra Irregular: o nascimento do Barroco em Portugal». O diálogo entre as diversas formas de expressão artística que a própria biografia de D. Francisco Manuel acolhe teve continuidade nos dias 24 e 25, na Universidade do Porto, onde a conferência inaugural de Aníbal Pinto de Castro e a conferência de encerramento de José Adriano de Freitas Carvalho apresentaram sínteses consistentes sobre a obra do polígrafo, analisadas entretanto, em detalhe, e de acordo com as diversas facetas acentuadas na sua escrita (Poeta, Moralista, Historiador), por António Oliveira, António Bernat Vistarini, Idalina Resina Rodrigues, Maria de Lurdes Correia Fernandes, Zulmira Santos, Vanda Anastácio, António Camões Gouveia, Isabel Almeida, Mafalda Ferin Cunha, Luis Fardilha, Ana Martínez. O Congresso terminou, no Salão Nobre da Reitoria da Universidade do Porto, com um Concerto onde, pela primeira vez, foi apresentado um conjunto de poemas musicados de D. Francisco Manuel de Melo.

Parece-me, pois, que o "pesado silêncio" a que aludia Guilherme d'Oliveira Martins pretendeu justamente ser sublimado por um Congresso Internacional devidamente publicitado e no qual participou um público alargado, ao associar duas Universidades em uma organização conjunta que envolveu as Reitorias do Porto e Coimbra, Departamentos, Centros de Literatura e Cultura Portuguesas e Ibéricas, a Biblioteca Geral da Universidade de Coimbra, especialistas nacionais e internacionais da área da Literatura, Cultura, Música, História Social e das Mentalidades, entre outras. Para além disso, e no intuito de ultrapassar "discursos" e "fogos-fátuos" que, como muito bem vê o Presidente do Centro Nacional de Cultura, nunca cumpririam a homenagem devida à figura cosmopolita de D. Francisco Manuel, as Comissões Científica e Organizadora do Colóquio Internacional acentuaram o diálogo entre as diversas formas de expressão artística associadas ao Autor, abrindo as portas da Biblioteca Joanina da Universidade de Coimbra e da Reitoria da Universidade do Porto ao público de ambas as cidades, para que a cultura e os nomes que a fazem não permaneçam vinculados a um espaço estritamente académico (onde a sua investigação ganha a maturidade desejada) e possam ser objecto de um programa mais vasto de Educação. Os múltiplos espaços em que o evento se realizou permitiram, assim, dar voz (e não silenciar) à constante atenção ao Mundo e às Artes que o polígrafo demonstra cultivar na sua vastíssima obra e quando afirma, na «Carta de Guia de Casados»; «Criei-me em Cortes; andei por esse mundo; atentava para as cousas; guardava-as na memória. Vi. Li. Ouvi».

Marta Teixeira Anacleto (Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra / Centro de Literatura Portuguesa da Universidade de Coimbra)

AS CINCO INOVAÇÕES DA IBM


A revista "Visão" pediu-me um comentário às cinco inovações, anunciadas, recentemente, pela IBM (a "Big Blue") para os próximos cinco anos (ver, por exemplo, aqui). São elas:

1- Acessibilidade maior da energia solar
2- Previsões com base no genoma individual
3- Comando de voz da Internet
4- Assistentes digitais para escolha de vestuário
5- Registos completos do quotidiano.

Eis o breve comentário:

"A IBM é uma das mais antigas e das maiores empresas tecnológicas do mundo. Tem apostado forte na investigação e desenvolvimento. Três dos seus cientistas já ganharam o Prémio Nobel (os físicos Rohrer e Binnig são os autores do microscópio de varrimento por efeito túnel que está na base da nanotecnologia moderna) e outros ganharam outros grandes prémios internacionais (por exemplo, o matemático Mandelbrot, o autor da geometria fractal). O futuro continua hoje a ser feito nos laboratórios dessa multinacional, que emprega muitos matemáticos, físicos e engenheiros.

Quanto ao slogan "cinco para cinco" acredito no desenvolvimento da energia solar com novas células fotovoltaicas: a IBM está a trabalhar em filmes fotovoltaicos finos que poderão revestir qualquer superfície e não me admirariam que venham a cobrir muitos telhados do futuro. Um aumento da eficiência das células solares teria um grande impacte na resposta à crescente procura mundial de energia.

Também acredito nas possibilidades da "bola de cristal" biomédica que a moderna genética aliada à biologia e medicina computacional começa a fornecer: aqui o segredo é a descodificação do genoma a cem dólares, que poderá ser atingido em breve, talvez mais por uma pequena empresa do que por uma grande como a IBM; porém, a IBM dispõe dos maiores supercomputadores mundiais que poderão ser aproveitados para fins de diagnóstico, desde que nse desenvolva o software para pesquisa em gigantescas bases de dados.

Ainda acredito numa Web comandada pela voz pois o desenvolvimento da inteligência artificial e o aumento do poder de cálculo, proporcionado pela miniaturização dos transístores, irão permitir que se dê ordens por voz aos computadores. O meu PDA é um pouco estúpido pois não entende o que lhe digo...

Já tenho algumas dúvidas sobre a utilidade de um assistente digital nas cabinas de provas de roupa, pois acho que uma assistência humana dá imenso jeito ("E esta cor fica-me bem"?).

E tenho sérias, muito sérias dúvidas sobre o "Big Brother" que promete acabar com o esquecimento. Esquecer é viver! Esquecer é muitas vezes necessário e um registo excessivo das nossas acções poderá limitar a liberdade a que todos temos direito. "

quinta-feira, 4 de dezembro de 2008

Uma história de evolução. O roquinho dos Açores. Parte I


















O Roquinho (Oceanodroma castro), também conhecido por Angelito ou Painho-da-Madeira, é uma ave marinha, que passa a maior parte da vida no mar. Voa, alimenta-se e descansa nas águas do oceano, vindo a terra para se reproduzir em cavidades e falésias, de ilhas no meio do Atlântico e do Pacífico. É de facto uma espécies com uma distribuição geográfica impressionante: dos Açores e Madeira às Galápagos e ao Japão. Durante a reprodução, as crias, uma por ninho, esperam, num jejum que pode durar dez dias, que um dos progenitores regresse com alimento para elas, revelando uma impressionante resistência física.

Há duas décadas, um biólogo português procurava compreender os efeitos da poluição sobre as espécies de aves marinhas, para a realização da sua tese de doutoramento. Mas, ao trabalhar de perto com as populações do roquinho nas várias ilhas e ilhéus dos Açores, Luis Monteiro apercebeu-se de que a espécie tinha duas populações nidificantes: uma iniciando a reprodução em Maio (população quente) e a outra em Outubro (população fria), e que elas se segregavam, revelando importantes diferenças morfológicas e comportamentais. Isso levou-o a sugerir que poderiam tratar-se de duas espécies diferentes.

Infelizmente, um fatídico e terrível acidente áereo, ocorrido a 11 de Dezembro de 1999, na crista vulcânica da ilha de S. Jorge, que vitimou todos os ocupantes, impediu Luis Monteiro de continuar o seu estudo sobre as duas populações do roquinho. Mas, a sua grande dedicação à investigação e a forma extremamente empática e generosa com que interagia com todos os que com ele lidavam, deixaram uma marca indelével. A sua perda foi profundamente sentida. O Governo Regional dos Açores instituiu mesmo o Prémio Luis Rocha Monteiro em homenagem à sua memória. Eu tive o privilégio de conhecer o Luis Monteiro e de iniciarmos uma colaboração que não chegou a prosseguir. Mas, vários colegas e colaboradores decidiram dar continuidade às suas investigações sobre as duas populações de Roquinho que nidificam nos ilhéus da praia e da vila (Graciosa).

Há poucos meses surgiu um artigo na revista de ornitologia Ibis, assinado por Mark Bolton, Andrea Smith, Elena Gómez-Dias, Vicki Friesen, Renata Medeiros, Joel, Bried, Jose Roscales, e Robert Furness, apresentando argumentos muito sólidos de que a população quente é uma espécie diferente da população fria. E propõem uma nova espécie: Oceanodroma monteiroi (roquinho-de-monteiro), um bonito gesto que é também justa homenagem ao Luis Monteiro.

O estudo compara as duas populações em termos de morfologia – a população quente, proposta como nova espécie, é mais leve, tem asas maiores, cauda furcada em ‘v’ e bico mais curto -, época de reprodução – quase não há sobreposição entre as duas populações – e comportamentais – as vocalizações das aves das duas populações são claramente distintas -, concluindo por uma clara diferenciação que justifica considerá-las espécies distintas.

Um artigo de 2007, publicado nos Proceedings of the National Academy of Sciences (USA), já havia mostrado, por análise genética, que não há troca de indivíduos entre as duas populações e, que elas terão divergido há mais de 73 000 anos. Ainda um outro estudo de 2007 comparou as vocalizações das populações dos Açores, Cabo Verde e Galápagos, e realizou testes no terreno, mostrado que as aves da população quente só respondiam a vocalizações dessa população e não às das restantes, e vice-versa, mostrando que elas se diferenciam muito claramente. Estes dados indicam existir um isolamento pré-reprodutivo, de natureza comportamental, fundamental para manter as duas populações isoladas reprodutivamente, apesar de ocorrerem no mesmo local.

Estou convencido de que o estatuto de espécie virá a ser reconhecido a esta população, recebendo a bonita designação de Oceanodroma moteiroi. Esta espécie parece apenas reproduzir-se nas ilhas do grupo ocidental dos Açores, não tendo mais do que 250-300 pares, o que faz dela também uma das espécies de aves mais raras do mundo.

A história do roquinho é muito interessante pelo facto de ser muito difícil encontrar exemplos de especiação simpátrica, isto é, da formação de espécies habitando o mesmo local, sem isolamento geográfico que impeça o fluxo de genes entre as populações. Este será o tema do próximo post.

A ASAE e as Universidades

Já não bastava a esquizofrenia, agora também a paranóia burocrática ajuda a pôr «Docentes à beira de um ataque de nervos». Num arroubo de brio, a ASAE resolveu ver se é cumprida à letra, ou antes, ao solvente, uma legislação velha de quase 16 anos, o decreto lei 15/93 de 22 de Janeiro de 1993 ( e as suas dez posteriores alterações) que se destina a evitar o «Tráfico Ilícito de Estupefacientes e de Substâncias Psicotrópicas».

Acho o decreto muito louvável nos propósitos, aliás concordo em pleno ser necessário saber quem manuseia ou possui os compostos constantes nas 4 primeiras tabelas e alguns na quinta (e respectivos aditamentos) que incluem, para além das drogas mais conhecidas, benzodiazepinas, barbitúricos, precursores conhecidos do ecstasy como o safrole ou anfetaminas e muitas feniletilaminas precursoras das anfetaminas.

O problema do dito decreto lei reside nas «medidas adequadas ao controlo e fiscalização dos precursores, produtos químicos e solventes, substâncias utilizáveis no fabrico de estupefacientes e de psicotrópicos». Mais concretamente, reside nos solventes constantes da Tabela VI do mesmo decreto que lista uma série de reagentes triviais como acetona, tolueno, metiletilcetona, ácidos clorídrico e sulfúrico, anidrido acético ou permanganato de potássio. Felizmente que alguém mais iluminado em química reconheceu o rídiculo do que se acrescentava a essa tabela e esclareceu que não era necessária autorização para a posse de sais destas substâncias - caso contrário todos estaríamos em infracção quando comprassemos sal de cozinha sem autorização do Infarmed.

Mas se cloretos e sulfatos foram retirados dos precursores de drogas, os reagentes banais não foram e a ASAE resolveu há dias brindar com a sua presença o Departamento de Química da Universidade Nova. Ninguém sabia que precisava de autorização para ter acetona nos laboratórios (nalguns, algo mais utilizado que a água) e foram informados que tinham 5 dias para repor a legalidade da sua inadmissível situação (vá lá, que não fecharam imediatamente as portas de todos os laboratórios).

A notícia correu rapidamente entre os químicos nacionais mas a maioria não a levou a sério pelas razões óbvias. De facto é anedótica mas verídica e agora, directores de laboratórios de ensino e responsáveis de laboratórios de investigação, andamos entretidos a ler toda a muita legislação necessária para listar reagentes que são anátema para a ASAE.

Fico na dúvida se depois das Universidades a ASAE vai continuar a sua guerra contra a droga visitando todos os cabeleireiros e manicures nacionais - que utilizam em grandes quantidades e sem autorização essa substância perigosissima que é a acetona...

Prémio Descoberta Matemática do Ano


Vai direitinho para a Scientific American, nas pessoas dos autores Christopher Monroe e David Wineland, que no seu artigo "Quantum Computing with Ions" (Sci. Am., Ago. 2008, pg 67) nos esclarecem:

"And as N increases, the value of 2N rises exponentially."

Como é que eles definirão "crescimento exponencial"?

quarta-feira, 3 de dezembro de 2008

Presunção e água benta

Um capelão militar nos Estados Unidos descobriu algo tão «revolucionário» que resolveu transmiti-lo ao vivo e a cores para 1000 soldados numa reunião obrigatória e partilhar a sua descoberta em powerpoint com mais 5000. O capelão Christian Biscotti propõe na sua apresentação uma receita eficaz para baixar as taxas de suicídio entre os soldados, que aparentemente considera não terem nada a ver com os horrores da guerra mas com os horrores da ciência, nomeadamente devem-se a um malfeitor chamado Charles Darwin.

Na sua apresentação, Biscotti diz que a solução para o suicídio nos militares é o criacionismo, isto é, basta convencer os soldados de que a evolução é falsa, uma mentira inventada por mentes preversas como o referido Darwin e ainda Karl Marx, e explicar-lhes que foram criados especialmente por Deus (quiçá de propósito para matar infiéis), para os militares deixarem de contemplar o suicídio.

Acho deveras curiosa a ignorância confrangedora de Biscotti sobre humanismo e evolucionismo embora não me espante a litania «o evolucionismo leva ao comunismo» que me parece sortir mais efeito no público alvo que aqueloutra que equipara o evolucionismo e nazismo. Mas fico espantada ao ver no slide em que compara a América e a União Soviética que o capelão afirma ter sido Darwin um lider na União Soviética, com supremacia (pelo menos na ordem com que os apresenta) sobre Marx, Lenine e Estaline.
Não estava a espera que o capelão reconhecesse que a biologia de Darwin foi um anátema durante o regime estalinista ou que os cientistas que rejeitavam o Lamarckismo em favor da reaccionária selecção natural de Darwin ou da genética - uma pseudo-ciência ao serviço do capitalismo - foram perseguidos ou enviados para gulags sortidos. Mas não é necessário um grande esforço intelectual para descobrir o nome Trofim Denisovich Lysenko ou as suas ideias anti-evolucionistas que apenas começaram a ser rejeitadas na União Soviética em 1964, depois de um discurso de Andrei Sakharov em que este tentava impedir que Nikolai Nuzhdin, um seguidor de Lysenko, fosse eleito membro da Academia Soviética de Ciências :

Together with Academician Lysenko, he is responsible for the shameful backwardness of Soviet biology and of genetics in particular, for the dissemination of pseudo-scientific views, for adventurism, for the degradation of learning , and for the defamation, firing, arrest, even death, of many genuine scientists.

I urge you to vote against Nuzhdin.

Alegrias e alegorias


Agradeço aos leitores os comentários à minha críptica crónica desta semana do Público. Precisamente por ser uma crónica críptica, vale a pena fazer alguns esclarecimentos e dar alguma informação de fundo.

A Alegoria da Caverna é daqueles conteúdos que são usados mais ou menos inconscientemente no ensino para oprimir socialmente. Não se trata de estudar as ideias de Platão cuidadosamente, ver o que é mais ou menos plausível, nem se trata sequer de compreender a sua teoria do conhecimento, a sua metafísica ou a sua filosofia política: trata-se apenas de usar a Alegoria da Caverna para chamar bestas aos escravos todos que estão acorrentados no fundo da caverna. Mas quem são esses escravos? Pessoas como os taxistas, etc., que refiro no texto. Agora pense-se: que efeito terá isto num estudante? Aprende ele alguma filosofia, fica com mais instrumentos críticos, ganha independência mental e cultural? Não. Ou rejeita toda esta conversa por ser mais uma idiotice escolar — é o que faz a maior parte — ou limitam-se a repetir a cantiga porque têm a sensação vaga de que eles, mas não os outros, não são os escravos da Caverna. Ou seja, porque já desconfiam que pertencem aos eleitos que vão oprimir os outros chamando-lhes analfabetos.

Isto é o cerne da crónica: a prostituição da cultura, neste caso filosófica, para oprimir socialmente.

E de passagem, no início, refiro a estranha doença nacional de considerar que a filosofia é um desporto que só faz quem está morto, e é grego ou alemão, ou diz coisas crípticas. Considero que esta é uma doença aristocrática, pois para o aristocrata a filosofia, como o resto da cultura, serve apenas para duas coisas: amenizar o tédio do fim-de-semana e propiciar novos instrumentos de opressão social, servindo para demarcar cuidadosamente o território dos eleitos.

Finalmente, a crónica é propositadamente críptica e chocante na sua linguagem, exibindo assim na sua própria construção o tipo de criptomania que só é apreciada num contexto de opressão social em que o leitor sente que poder parafrasear umas partes dá prestígio social. Mas como a crónica não se insere nesse contexto, não suscita o interesse hermenêutico que suscitaria se o estivesse. Citar Nietzsche ou Sade serve para oprimir socialmente; e por isso o facto de alguns textos desdes autores serem crípticos ou de mau gosto não é depreciado, ao passo que essas mesmas propriedades são depreciadas num texto que não sirva para oprimir socialmente.

terça-feira, 2 de dezembro de 2008

ANTÓNIO BARRETO E O MAGALHÃES

Excerto da crónica de António Barreto publicada no "Público" de domingo passado:

"O Governo continua a distribuir Magalhães, na convicção, fingida ou não, de que com tal gesto está a estimular a alfabetização, a cultura, a curiosidade intelectual, o espírito profissional, a capacidade científica e a criatividade nacional. Será que nas áreas do Governo e do partido não há ninguém que explique que isso não acontece assim?

Segundo a OCDE, o abandono escolar na União Europeia foi, em 2007, de cerca de 15 por cento. Portugal, com 36,3 por cento, tem a taxa mais alta. Mais de um terço da população entre 18 e 24 anos não completou a escola e não frequenta cursos de formação profissional. Só 13 por cento da população activa adulta completou o ensino secundário e perto de 57 por cento apenas terminaram o primeiro ciclo do básico. Ainda segundo a OCDE e um estudo de Susana Jesus Santos (do banco BPI), a distribuição dos tempos de aulas nas escolas, para alunos de nove a 11 anos, mostra como a juventude portuguesa está orientada. Em Portugal, a leitura (e o Português) ocupa 11 por cento do tempo de aulas. Na União Europeia, 25. Em Portugal, a Matemática ocupa 12 por cento. Na União Europeia, 17.

Que é que o Magalhães tem a ver com isto? Nada. Absolutamente nada!"

António Barreto

Avaliar a Educação - I

O Problema

Maria Regina Rocha opina sobre a avaliação do desempenho dos professores de que se fala, que se tenta implementar, que se altera... e de como ela constitui, no presente, um sério problema do e no sistema educativo.

Parece óbvio que está instalado o caos na Educação: a Ministra da Educação critica duramente e é duramente criticada, mantendo o discurso de que «não cede nos princípios do modelo de avaliação» desenhado no Decreto Regulamentar n.º 2/2008, como se recuar numa medida polémica atendendo ao que a esmagadora maioria dos profissionais da classe diz fosse um sinal de má governação (quando é precisamente sinal de que o governante tem em consideração o que o seu povo lhe diz, como deveria sempre acontecer) ou como se aquele decreto fosse a própria essência da avaliação e não apenas um conjunto de artigos que pode, naturalmente, ser substituído por outro (o normal nas leis é precisamente o serem substituídas por outras consideradas melhores, e os bons governantes são os que as vão melhorando, de modo a que, por elas, melhorem as condições de vida dos cidadãos); os sindicatos assinaram um memorando com o qual afinal não concordam plenamente e tardam em apresentar uma alternativa clara consensual; muitos professores não se sentem representados pelos sindicatos, tanto que criam movimentos independentes e lamentam que a tutela não os ouça, sentindo-se desconsiderados, insultados, desalentados; os alunos estão descontentes; os pais, apreensivos; os partidos políticos em oposição ao Governo tentam tirar dividendos da situação, uma situação da qual nenhum partido deveria tentar tirar dividendos, pois são todos co-responsáveis. Toda a gente fala e ninguém realmente se ouve nem se entende...

Mas, afinal, o que é que está realmente em causa? Porque é que o Ministério da Educação tenta instalar a todo o custo este modelo de avaliação dos professores?

Já todos sabemos porque é que os professores o contestam. Das diversas razões que invocam, salientam-se as seguintes: os professores não querem ser avaliados em função dos resultados dos seus alunos ou do abandono escolar destes, visto haver muitos factores que condicionam esse insucesso, nomeadamente os próprios alunos, com o seu interesse e trabalho; os professores titulares não querem ser avaliados pelos próprios colegas, essencialmente porque essa avaliação será sempre sentida como pouco credível, dadas as relações de convivência que se estabelecem entre profissionais que desempenham as mesmas funções durante anos na mesma escola e, também, porque muitos dos avaliadores têm habilitação inferior ou diferente da do avaliado, a mesma experiência e anos de serviço ou até menos; os professores não querem ser sujeitos a quotas de Excelente e de Muito Bom, pois o mérito absoluto de cada professor deveria ser considerado, independentemente de um número artificial criado pela tutela; os instrumentos de avaliação são diferentes de escola para escola, o que cria injustiças; o processo exige grande dispêndio de tempo de todos os intervenientes de uma classe já exausta por tantas tarefas que lhe são cometidas além das de ensinar.

São objecções razoáveis: porque é que a tutela não as considera?

A recusa em aceitar revogar o decreto da polémica faz com que se pense que o Ministério da Educação tem, com este modelo de avaliação do desempenho docente, três propósitos: (1) conseguir melhores resultados escolares, independentemente da qualidade das aprendizagens dos alunos; (2) avaliar os professores sem custos financeiros, pois os professores avaliadores continuam a leccionar o mesmo número de turmas, a ter todo o trabalho que tinham e ainda por cima o de avaliar os colegas (no período destinado à preparação de aulas e de materiais, elaboração e correcção de testes, reuniões de conselho de turma, de departamento e outras, etc., também fazem essa avaliação); (3) fazer sentir aos professores (e à opinião pública) que, se estes não progridem mais rapidamente na carreira, não é porque o Ministério da Educação não os queira remunerar melhor, mas porque não são professores muito bons, o que significa responsabilizar os professores pelos males da Educação, desresponsabilizando o próprio Ministério.

Este último é um aspecto muito importante, quiçá o mais determinante na tentativa de manutenção do referido decreto: parece saltar à vista que o Ministério da Educação tenta fazer aplicar este modelo de avaliação porque pretende gastar menos no pagamento de salários aos professores que progridam na carreira. Em vez de o admitir, apresenta um modelo de avaliação que retarda a progressão, e lança o labéu da falta de qualidade sobre os professores, como se estes fossem os responsáveis pela alegada falta de sucesso dos alunos, e isto porque não têm sido avaliados.

Mas os professores têm, sim, sido avaliados: o modelo era outro; havia, no entanto, quem não progredisse e quem saísse da profissão na sequência da instauração de processos pela Inspecção-Geral de Educação. Eram poucos casos, dir-se-á, mas, naturalmente, teriam mesmo de ser poucos, pois, para se desempenhar a função de professor, existe logo no início da carreira um estágio (no qual há reprovações), e todo o trabalho do professor é, nas escolas, acompanhado pelos respectivos coordenadores e órgãos de gestão, sendo os professores obrigados a cumprir os programas emanados do ministério, a cumprir todas as directrizes não só do Conselho Pedagógico como dos restantes órgãos, a apresentar aos alunos e pais os critérios de avaliação, a justificar notas, a responder a recursos dos encarregados de educação, a frequentar acções de formação contínua, etc., e a fazer periodicamente um relatório crítico da sua actividade, analisado pelos órgãos de gestão da sua escola: trata-se de uma profissão exposta, existindo diversos mecanismos de regulação directa e indirecta.

Assim, considero que foi um atentado a esta classe profissional e à Educação em geral ter-se feito passar para a opinião pública a ideia de que os professores não têm sido avaliados, que têm, em geral, desempenhado mal as suas funções e que são responsáveis pelo insucesso dos alunos. O motivo final deste modelo de avaliação – fazer com que o percurso dos professores até chegar ao topo da carreira seja mais longo, despendendo-se menos com salários – não justifica destruir-se a imagem de uma classe que a esmagadora maioria dos profissionais abraçou por vocação.

E, chegados aqui, pergunto: é avaliando assim os professores que se altera qualitativamente a Educação e o Ensino em Portugal, como se sugere nos normativos deste modelo de avaliação? É por este meio que os nossos alunos vão passar a ter melhores resultados nos programas e estudos internacionais? É assim que os alunos terão conhecimentos mais profundos, serão mais capazes, adquirirão mais competências? É questionando publicamente um pilar da sociedade, os professores, que se ganhará a Educação em Portugal?

Usando uma frase de Aquilino (do célebre Malhadinhas), «a prova não é boa de tirar». E fazer crer à opinião pública que os males do ensino decorrem da actuação dos professores e do facto de nunca terem sido avaliados segundo este modelo foi uma atitude que os professores dificilmente perdoarão à tutela, porque o Ministério da Educação sabe que isso não é verdade.

E isto por dois motivos: muitos dos factores que influenciam os resultados dos alunos não são controláveis pela escola (essencialmente aspectos pessoais e sócio-económicos) e, dos factores inerentes ao sistema educativo, os professores não são responsáveis por aqueles que são determinantes, ou seja, os currículos, os programas e o tipo de formação pedagógica e didáctica que lhes é proporcionada: não esqueçamos que os professores cumprem os programas e directrizes da tutela e dos órgãos de gestão (escrupulosamente, senão têm de o justificar).
Assim, com serenidade, não misturemos avaliação dos professores, progressão na carreira e política salarial do Governo com o que está mal na Educação e como resolvê-lo.

Existem problemas na Educação em Portugal? Existem, sim. E qual é, então, a solução? Há solução? Claro que há!

Debate sobre Ciência e Religião


Informação recebida da Associação de Estudantes de Ciências do Porto:

A Associação de Estudantes da Faculdade de Ciências da Universidade do Porto (AEFCUP), vem por este meio convidar-vos para assistir, e se possível divulgar, o Debate: "Ciência e Religião: Uma Relação (Im)possível?".

Este Debate irá decorrer no dia 03 de Dezembro de 2008 pelas 21h nas instalações da Faculdade de Ciências da U.Porto
(Anfiteatro 0.40, Departamento de Biologia).

Será moderado pela Jornalista Sandra Inês Cruz (Apresentadora do Programa do 4 x Ciência - RTP) e irá contar com a presença dos seguintes Oradores:

-
Alexandre Quintanilha
Professor Catedrático no Instituto de Ciências Biomédicas
Abel Salazar
Director do IBMC (Instituto de Biologia Molecular e Celular)


-
Alfredo Dinis
Professor Associado e Director da Faculdade de Filosofia da
U.Católica
Sacerdote Jesuíta


-
António Amorim
Professor Catedrático na Faculdade de Ciências da U.Porto

Vice-Presidente do IPATIMUP (Instituto de Patologia e Imunologia
Molecular da U.Porto)
-
António Sarmento
Professor Associado na Faculdade de Medicina da U.Porto

Vice-Presidente da Associação de Médicos Católicos Portugueses
(Direcção Diocesana do Porto)

Mais Informações em:
http://www.fc.up.pt/fcup/news/?page=0&op=view&id=1907
Como chegar:
http://www.fc.up.pt/fcup/campus/

ENTRADA LIVRE

Livro sobre tempo e poder


Informação recebida da Espiral do Tempo:

A editora Espiral do Tempo acaba de editar a obra Tempo e Poder em
Lisboa – O Relógio do Arco da Rua Augusta
, da autoria do jornalista e
investigador Fernando Correia de Oliveira e do olissipógrafo José
Sarmento de Matos.

A obra trata da relação entre os vários poderes – religioso, político,
económico, científico – e os medidores do tempo na capital, desde a
Reconquista até à actualidade. O livro está disponível ao público em exclusivo nas livrarias Bertrand.

A ministra, a Fenprof e a luta dos professores


O nosso colaborador habitual Rui Baptista dá a sua opinião sobre o estado actual da crise relacionada com a avaliação dos professores:

“Que importa a linha do horizonte?
O que eu vejo é o beco” (
Manuel Bandeira).

Há uma expressão popular que define o impasse que se vive no interminável braço-de-ferro protagonizado pela ministra da Educação e pela Fenprof: “serrar serradura”.

Sem qualquer linha de horizonte à vista, neste autêntico diálogo de surdos, chegou a hora de os professores, directamente implicados numa guerra que está longe de ser de “alecrim e de manjerona”, nela participarem activamente sem terem Mário Nogueira como cabeça de cartaz de uma assumida luta político-partidária que reencontrou nas manifestações de rua a sua encenação e nos professores os seus intérpretes.

Se dúvidas houvesse a este respeito, elas deixaram de ter lugar com as palavras de Jerónimo de Sousa, na abertura do Congresso do PCP, ao confessar a sua conhecida linha marxista-leninista, com exortação à “luta de massas” e ao caminhar “rumo à democracia avançada no limiar do século XXI” (“Sol”, 29/11/2008). O statu quo da actual crise serve indiscutivelmente os desígnios de Mário Nogueira em vir a ser deputado pelo PCP, depois de desaires sucessivos em eleições anteriores. Por outro lado, o vento da oportunidade enfuna-lhe as velas na via sindical com a anunciada resignação do moderado e bem preparado academicamente Carvalho da Silva (“Expresso”, 29/11/2008).

Mas o mais espantoso desta situação tão espantosa foi a criação de uma Plataforma Sindical que congregou em volta da Fenprof, e dela se fez correia de transmissão, organizações sindicais com objectivos programáticos diametralmente opostos e com uma massa associativa que parecia impossível subscrever um pacto que faria corar de vergonha o próprio Fausto.

Se é bem certo que a ministra da Educação se tem mostrado pouco conciliatória em todo este processo, Mário Nogueira não lhe fica atrás. Em falta de coerência vence-a aos pontos ao ter assinado um memorando de entendimento em Abril deste ano para, há poucos dias, ter abandonado a mesa de negociações com o ministério e entrando num beco sem saída depois de ter anunciado uma proposta na comunicação social que deixou ficar na manga.

O estertor desta batalha em nada ajuda a memória do passado recente e pode mesmo levar ao esquecimento de matéria factual da maior importância. Seja como for, a parcela de indiscutível razão que assiste aos professores em todo este processo em momento algum pode ser posta em causa. Mas, por outro lado, ela não os deve conduzir a greves consecutivas que lhes afectam as bolsas e prejudicam ainda mais o clima profissional que se tem deteriorado dia-a-dia. Muito menos este conflito deverá ter como desfecho a cabeça da ministra como uma espécie de troféu de guerra apresentado pelo dirigente máximo da Fenprof por serviços prestados na sua luta partidária.

Dado que a Fenprof jura a pés juntos que não é sua intenção voltar à situação anterior, o ministério fez cedências que, porém, não satisfizeram nem sindicatos nem professores. Em casos como este de insanáveis litígios, é costume recorrer-se a arbitragens. Em ultima ratio, porque não ter o “soberaníssimo bom senso” de recorrer à colaboração de académicos das diversas áreas do conhecimento científico e humanístico, incluindo as ciências da educação, e de docentes do ensino não superior que convivem no seu dia-a-dia com os problemas das escolas para encontrar uma solução para a quadratura do círculo em que se transformou a avaliação dos professores?

O país dificilmente acreditará na loa de que os professores são todos bons por igual. O discutível processo de nomeação dos professores titulares veio mostrar que os próprios docentes deixaram de acreditar na clonagem da classe defendida por medíocres que dessa clonagem queriam retirar dividendos. E em que o verdadeiro mérito não ocupa o lugar que lhe compete de jure e de facto.

segunda-feira, 1 de dezembro de 2008

Certeza e verdade


Li uns posts há uns dias no blog do Ludwig sobre certezas absolutas e talvez valha a pena esclarecer algumas coisas. O conceito de certeza diz respeito apenas ao grau de convicção que um agente tem perante uma crença ou proposição qualquer. Na melhor das hipóteses, a certeza que damos a uma dada crença ou proposição estará correlacionada com a verdade se, e só se, o agente for epistemicamente virtuoso. Mas mesmo assim, será apenas uma correlação.

Trocando por miúdos: por mais que um agente tenha a certeza em algo, isso na melhor das hipóteses é provavelmente verdade, se ele estudou as coisas cuidadosamente e de modo não tendencioso. Ditto para a certeza absoluta: o “absoluto” nesta expressão marca apenas a casmurrice do agente, nada mais. A certeza, absoluta ou não, nada diz de definido sobre a verdade do que o agente acredita porque infelizmente os agentes podem acreditar nas mais estafadas tolices, e têm até tendência para acreditar nelas com tanta mais força quanto mais tolas são.

O que as pessoas intuitivamente querem dizer quando pergunta se há certezas de algo é o seguinte: haverá algumas crenças tão cuidadosamente fundamentadas que a mais casmurra das dúvidas seja incapaz de pôr em causa?

E a resposta talvez surpreendente a esta pergunta é que não há tal coisa. É possível duvidar seja do que for porque é possível duvidar até da coerência, da lógica, da matemática, dos dados dos sentidos e da minha própria existência de há cinco minutos (a memória que me diz que eu realmente já existia nessa altura pode ser ilusória). Uma posição mais elaborada sobre este tema encontra-se no livro de Russell, Os Problemas da Filosofia, e na minha introdução, que publiquei há pouco em Portugal.

CONTINUE-SE COM A PLATAFORMIZAÇÃO DOS EXAMES NACIONAIS

Foi publicado o Relatório da Inspecção-Geral da Educação e Ciência, com o extenso título Averiguações às irregularidades dos Exames Nacionai...