quinta-feira, 10 de abril de 2008

Para quê o Acordo Ortográfico?

O aspecto mais misterioso do Acordo Ortográfico revela-se nesta pergunta simples que nunca é respondida cabalmente: para que serve o acordo ortográfico? A resposta a que se alude é que serve para unificar as variantes da língua portuguesa. Mas isto é falso por três razões.

Em primeiro lugar, porque não há qualquer necessidade de unificação. Os britânicos escrevem “analyse”, os norte-americanos “analyze” (ver aqui algumas das diferenças ortográficas entre o inglês norte-americano e o britânico). A nenhum americano, inglês ou australiano ocorre unificar ortograficamente a língua inglesa, e ainda menos fazê-lo por via legislativa à Salazar, precisamente porque são gentes que prezam a liberdade e odeiam a interferência arbitrária da legislação na vida das pessoas.

Em segundo lugar, uma língua é muito mais do que a ortografia. É o léxico, a gramática, a fonética, entre outras coisas. Ora, este acordo evidentemente não unifica tal coisa. No Brasil, um fato é o que para nós é um facto, e um fato é no Brasil um terno, que para nós é uma pessoa ternurenta. No Brasil o pequeno-almoço chama-se “café da manhã” e os comboios chamam-se "trens". As diferenças são mais que muitas, e muitas mais haverá em Angola, Moçambique, Cabo-Verde, Guiné-Bissau, etc. O acordo ortográfico não unifica a língua.

Em terceiro lugar, o acordo ortográfico não unifica sequer a ortografia. Continuar-se-á a escrever “fato” no Brasil e “facto” em Portugal; “género”, “António” e “génio” em Portugal e “gênero”, “Antônio” e “gênio” no Brasil.

Poderá acontecer que um alemão ao aprender português pela variante portuguesa tenha dificuldade em compreender um texto brasileiro? Ou vice-versa? Claro que não. Poderá uma besta qualquer das Nações Unidas ficar confundida porque tanto se pode escrever em português “facto” como “fato”? Talvez, dado o tipo de gente que anda nesse tipo de instituições. Só que, coitados, continuarão muito confundidos porque continuará a haver muitas palavras com dupla ortografia.

Então para que serve realmente tal coisa? Queremos aproximar os povos e as nossas variantes da língua comum? Publique-se livros no Brasil com a ortografia portuguesa, e vice-versa. Façam-se dicionários comuns, como o excelente Aurélio, que tem todas as variantes da língua (ou que pelo menos se esforça para as ter). Publiquem-se gramáticas que contenham todas as variações da língua. O mais absurdo da posição dos defensores da legislação ortográfica é que se em vez de andarem a tentar obrigar os outros as escrever como eles querem tivessem escrito dicionários, gramáticas, livros, propondo alterações ortográficas, estas poderiam ser naturalmente adoptadas sem necessidade alguma de legislação. Então para quê a legislação?

Além da idiotice de se pensar salazaristicamente que sem legislação sobre a ortografia cada qual escreve como lhe dá na gana, não vejo qualquer boa razão para esta insistência na legislação ortográfica. E vejo muitas desvantagens.

Além de tornar as pessoas bovinas — agora de repente temos de reaprender a escrever palavras porque uns iluminados que nada têm publicado que seja influente usam o poder político para ter a influência que naturalmente não têm a capacidade intelectual para ter — este acordo tem muitas desvantagens para quem conhece as realidades africanas e brasileiras. Nestes países, uma parte importante das bibliotecas e do ensino baseia-se em livros portugueses com 30 anos ou mais. Quanto mais se muda a ortografia, mais difícil será para essas crianças dominar a ortografia precisamente porque aprendem quase exclusivamente por livros que passam a estar errados -- crianças que não têm dinheiro para ir a correr comprar as últimas novidades com a nova ortografia, não lêem jornais e mal dominam a língua portuguesa.

Quanto mais se mexe artificialmente na ortografia da língua, mais difícil é o domínio da ortografia para as pessoas mais carenciadas. Basta ler os comentários de publicações inglesas ou americanas online para ver que quase não há erros ortográficos, ao passo que nos jornais portugueses de referência, como o Expresso ou o Público, as caixas de comentários estão pejadas de erros ortográficos. Sem dúvida que não são apenas as constantes mudanças legislativas de ortografia que provocam tal atraso, mas sem dúvida também que tais mudanças têm um papel importante a desempenhar aqui. As pessoas aprendem ortografia em grande parte pelo que lêem; se o que lêem for uma selva ortográfica que resulta de inúmeras legislações sucessivas, é natural que tenham mais dificuldades com a ortografia.

O acordo ortográfico não tem qualquer vantagem para os brasileiros, os angolanos, os moçambicanos, os cabo-verdianos, os guineenses ou os portugueses. E tem desvantagens óbvias. Quem ganha com o acordo e o que se ganha com ele? Esta é a questão importante. E só vejo duas respostas.

Primeiro, ganham os intelectuais que fizeram o acordo, que ficam assim na história. Triste maneira de ficar na história, diga-se de passagem: como autores de listas de palavras. Enfim.

Segundo, ganha talvez o Brasil, porque usa o acordo como uma maneira de tentar cativar os mercados africanos, para se abrirem mais às exportações do Brasil e menos às da China. Contudo, não é o acordo em si que facilita tais exportações: é apenas um sinal de aproximação do governo brasileiro que poderá fazer os governos africanos abrir-lhes mais as fronteiras. Não haverá uma maneira mais simples de conseguir esse objectivo? Penso que sim. Acordos comerciais bem pensados e economicamente vantajosos para todos os países que falam português não serão difíceis de conceber e efectivar. Bom, excepto para quem pensa que mudar a ortografia de dois por cento do léxico é um passe de mágica para a afirmação do português no mundo.

O segredo de novo - I

Quando abri o mail há uns minutos descobri uma mensagem que me convidava a assistir à (mega)palestra no Pavilhão Atlântico do «filósofo» Bob Proctor, um dos charlatães por trás do Segredo de Rhonda Byrne, já abundantemente desmistificado no De Rerum Natura (e em livro). Os mais incautos são convidados a desembolsar as módicas quantias de 30, 40 ou 60 euros - que são «magicamente» atraídos para os bolsos deste vendedores de banha da cobra, que se limitaram a coligir banhas da cobra de sucesso comprovado. Na realidade, o livro não passa de uma reedição de tretas New Thought com uns pós de tretas New Age rearranjadas num «arrozoado infeliz de termos científicos misturados pelo DJ Vibe».

Isto é, os seus autores usam um jargão nonsense supostamente assente em ciência como argumento de autoridade quando não há um pingo de ciência nas inanidades que debitam! Dizer estultícias como as que estão, apenas como exemplo, inscritas na página 160 do livro - «Todas as coisas que deseja são feitas de energia, e estão também a vibrar»-, nem sequer chega a estar errado, não faz qualquer sentido. Mas toda a prosa deste manifesto New Thought é de uma ponta à outra uma colecção de afirmações sem sentido, quiçá o melhor exemplo de necedade (ou estupidez crassa) que já tive o desprazer de ler!

A lei da Atracção subjacente ao livro (que a apresenta como supostamente científica o que é completamente falso) está associada aos movimentos New Thought e New Age e não tem rigorosamente nada a ver com ciência. É basicamente uma amálgama de ingredientes mágicos sortidos que incluem misticismo hindu e hermetismo (de Hermes Trimegisto, associado a vários deuses em mitologias sortidas da grega à egipcia e que supostamente era o «Grande Mestre» de três civilizações - duas delas imaginárias- , a Lemuriana, a Atlante e a Ariana).

Aliás, a dita lei da atracção assenta no que foi a base de vários esoterismos, «Os 7 princípios herméticos», especialmente no segundo princípio, o Princípio da Correspondência, no terceiro Princípio - o da Vibração, que garante que a saúde, a doença, o sucesso e tudo e mais umas botas são vibrações - e no sexto Princípio, o da Causa e Efeito, que diz que nada acontece por acaso. Todas as coisas acontecem de acordo com a lei (no caso do segredo, a lei da atracção).

Entre muitas outras barbaridades, Rhonda e os seus auto-denominados mestres defendem que conseguimos as coisas sem dificuldade nem trabalho e que não é preciso saber o «como» as coisas acontecem. Ora a ciência quer exactamente saber os «comos» das coisas e por isso o Segredo não só não é ciência como é de facto anti-ciência.

Também é anti-ciência esta falsa e inexistente lei da atracção que não pode admitir dúvida nem cepticismo. O livro avisa os leitores de que se começam a duvidar da lei, ou a albergar pensamentos negativos em relação a ela, estarão inexoravelmente no caminho para calamidades sortidas. A (pseudo) Lei da Atracção exige aceitação acrítica ou crença ilimitada numa doutrina que foi revelada por pretensas (e muitas delas lendárias) autoridades, e é apenas mais uma forma de pensamento mágico que procura argumentos de autoridade para se afirmar. Os seus autores simplesmente querem o prestígio da ciência para vender o seu produto obscurantista e tentam passar como científico aquilo que manifestamente o não é.

Não há rigorosamente nada de científico no Segredo que não passa de uma reedição de um livro com quase 900 anos intitulado Secretum secretorum (O Segredo dos Segredos), a que voltarei mais tarde, a enciclopédia medieval do oculto ou Ars Magica.

O problema do Segredo, para além de pretender uma total falsidade, que a ciência corrobora o que é anti-ciência pura e dura, reside nas ideias perigosas que propaga, nomeadamente que o sucesso pode ser atingido apenas por artes mágicas sem trabalho nem esforço. Por exemplo, e completamente sem qualquer sustentação em factos, pretendem que, entre outros, Thomas Alva Edison era um dos génios detentores deste «segredo». Ora, Edison era um workaholic, que para encontrar o melhor filamento para a lâmpada eléctrica que associamos ao seu nome testou cerca de 3 000 materiais diferentes. O segredo do seu sucesso reside no seu génio e em trabalho árduo (e no facto de se manter a par das descobertas científicas da época) e não em qualquer imbecil lei da atracção!

Depois, o livro sugere que as pessoas mais ricas são as que sabem e dominam o «segredo», ou seja associa uma certa superioridade à quantidade de dinheiro que cada um tem. Isto é, o livro apela à ganância, ao egoismo, em suma às piores características do ser humano e é, para mim, claramente imoral diria mesmo obsceno.

Talvez um episódio de Maio do Saturday Night Live seja a melhor explicação do que quero dizer com obsceno. Nesse episódio foi parodiado o Segredo e uma das cenas incluía a admoestação a um habitante de Darfur que pelos seus péssimos pensamentos merecia tudo o que lhe estava a acontecer. De facto, segundo o Segredo, todas as coisas acontecem de acordo com a lei da atracção. Não existe acaso nem coincidência pelo que todas as calamidades são devidas a maus pensamentos. Pelo menos é o que se deduz ao ler:

«Frequentemente, quando as pessoas ouvem pela primeira vez essa parte do Segredo, elas se lembram de acontecimentos históricos marcados por mortes massivas, e acham incompreensível que tantas pessoas pudessem ter-se atraído para o acontecimento. Pela lei da atracção, elas tinham de estar na mesma frequência do acontecimento».

De acordo com esta «lei», por exemplo, os culpados do recente tornado em Santarém ou do acidente nas cheias teriam sido as próprias vítimas. De acordo com o livro, são eles os culpados das tragédias, assim como os reais culpados pelo Holocausto são os judeus ou foi por culpa dos respectivos habitantes que Hiroshima e Nagasaqui atraíram a bomba atómica.

Há uns meses, David Colquhoun, catedrático de Farmacologia na Universidade de Londres, escreveu um artigo no Guardian sobre a nova onda de obscurantismo, uma verdadeira epidemia de pensamento irracional e supersticioso que varre o mundo ocidental.

Esta epidemia de irracionalidade, consubstanciada em tretas sortidas, dos bruxos a astrólogos, passando por homeopatetas, curadores «quânticos e afins, «são a manifestação de uma cultura em que o 'wishful thinking' é mais importante que a verdade, uma sociedade em que tudo o que se diga três vezes é verdade e não se olha para os factos».

O Segredo literariamente é um monte de lixo em que, para (con)vencer os mais crédulos, se repete não três mas ad nauseam o mesmo disparate. O livro tenta igualmente (com sucesso em demasiados casos, diria) imunizar o leitor contra o cepticismo e os pensamentos racional e científico assegurando que estes são receita certa para calamidades sortidas.

Há quasi 200 anos, Humboldt considerava que a cidadania plena só seria atingida quando (todas) as pessoas tivessem acesso à melhor educação possível e desenvolvessem de per se pensamento crítico e independente. Nunca é demais repetir que o único antídoto para esta nuvem obscurantista, tal como preconizado mais recentemente por Carl Sagan, continua a ser encorajar as pessoas a pensar critica e cepticamente, construindo e racionalizando argumentos, válidos e inválidos, que precisam ser provados de forma independente, racional e lógica. Esta seria para Sagan a única forma de combater a ignorância e desfazer mitos, fraudes, superstições e crendices. Num mundo cada vez mais assombrado pelos demónios da razão adormecida, de que o «Segredo» é apenas mais um exemplo, urge recordar figuras que marcaram a História, como Humboldt, reacender as velas de Sagan e estimular o pensamento independente e crítico!

quarta-feira, 9 de abril de 2008

Física em acção



Este vídeo é uma excelente explicação visual da segunda lei de Newton, o princípio fundamental da mecânica, especialmente espectacular no que diz respeito à componente angular. Por impacto do trenó nas canelas - muito abaixo do seu centro de massa -, o locutor adquire uma aceleração linear e também uma aceleração angular que o faz dar um espantoso mortal, felizmente sem quaisquer consequências. Podemos apenas imaginar que o 360º se poderia ter transformado num duplo mortal se Rob Leth da Global News se tivesse «encolhido», diminuindo o momento de inércia (que depende da distribuição da massa).

ALGUMAS CURIOSIDADES DA INCICLOPEDIA


Três entradas do livro "Inciclopédia", de Gideon Haigh, Tinta da China, 2006:

Rebuçados peitorais do Dr. Bayard (p. 69):

Feitos com açucar, glucose (numa proporção de 30 por cento), água descalcificada, alteia, mel (da Austrália) e xarope de plantas medicinais, os rebuçados peitorais do Dr. Bayard fazem parte do imaginário português. Fabricados à razão média de 4000 quilos por dia, num ruidoso edifício de 1200 metros quadrados com cave e rés-do-chão, na Rua Gomes Freire, Amadora, estes rebuçados que prometem o alíbio da tosse passam por nove estapas de produção e por seis máquinas diferentes antes de chegarem às mãos dos clientes. Ao todo, são mais de mil rebuçados embrulhados por minuto, 40 quilos de messa cozidos a cada três minutos, 40 toneladas de mel e 600 de açúcar gastas por ano.

A história da fábrica remonta a 1939, quando Álvaro Matias, originário de Vale de Mula (Almeida), trabalhava numa mercearia da capital. Foi aí que conheceu um farmacêutico francês, o Dr. Bayard, que encontrara em Lisboa, como tantos outros cidadãos europeus. Um destino de fuga aos horrores da Segunda Guerra Mundial. Com o tempo, os dois homens desenvolveram uma amizade, iniciada com a venda de um presunto e com aulas particulares de francês, e depois estreitada pela solidariedade do marçano, à medida que a situação financeira do Dr. Bayard se agravava e os bens de primeira necessidade iam escasseando. Terminada a guerra, o farmacêutico voltou para França com a família, deixando a Álvaro Matias, como agradecimento, a receita dos rebuçados, assim como a assinatura e os quatro desenhos que ainda hoje ornamentam a embalagem. Algum tempo depois, Álvaro Matias, actualmente nonagenário, começou uma pequena indústria caseira (a primeira máquina só foi comprada em 1951). O negócio cresceu e é hoje gerido por um filho, José António, e por um neto. O Dr. Bayard não deu mais notícias e o papel com a receita original continua muito bem guardado, em parte incerta.

Idiotas, débeis mentais, imbecis e cretinos (p. 110):

De acordo com o enquadramento legal britânico, um idiota é um indivíduo com um QI inferior a 20, um imbecil tem um QI entre 20 e 49, e um débil mental um QI entre 50 e 69. Os cretinos são, em termos específicos, pessoas com deformidades ou atraso mental causados por deficiências da tiróide; hoje em dia o cretinismo é mais comummente chamado de hipertiroidismo. “Idiota” deriva do grego idios, que tem o sentido de “próprio”, “privado” ou “particular”, como em “idiosincracia”. “Débil” vem do latim debile, que quer dizer “fraco” ou “frágil”. “Imbecil" deriva da construção latina imbecille, que significa “sem bastão”, no sentido de “frágil”, sem sustentação. “Cretino” vem do francês crétin, cuja etimologia não está completamente esclarecida. Uma vez que se supõe que, originalmente, o vocábulo queria dizer “cristão”, no sentido de “pessoa sagrada”, o “cretino” pode ser um “tolo de Deus”, por assim dizer.

Os sete pecados mortais segundo Ghandi (p. 151):

De acordo com a moral judaico-cristã, os sete pecados mortais são: ira, inveja, gula, avareza, luxúria, soberba e preguiça. O líder político e espiritual indiano Mohandas Karamachand Ghandi (1869-1948) elaborou a sua própria lista das características mais perigosas para a humanidade: 1. Riqueza sem Trabalho; 2. Prazer sem consciência; 3. Ciência sem Humanidade; 4. Conhecimento sem Carácter; 5. Política sem Princípios; 6. Comércio sem Moralidade; 7. Culto sem Renúncia.

TUDO O QUE NÃO SABIA QUE QUERIA SABER


Aqui há alguns anos comecei a ver nos balcões de livrarias estrangeiras livros dos chamados “conhecimentos inúteis”, isto é, colecções de curiosidades avulsas, muito variadas, dispostos mais ou menos ao acaso, como num almanaque. Os livros estavam perto da caixa e compravam-se por impulso, porque um neurónio nos dizia “olha, que livrinho tão engraçado”. Depois, em casa, folheávamos esses despretenciosos livros da frente para trás ou de trás para a frente, uma vez que a ordem das curiosiodades era arbitrária. Abria-se uma página qualquer e ficávamos logo a saber qualquer coisa que não sabíamos. E que, afinal, queríamos saber, embora não soubéssemos que queríamos saber.

O dístico “Tudo o que não sabia que queria saber” está na capa de um dos primeiros livros desse tipo que apareceu entre nós: “Inciclopédia”, sendo o seu autor (ou melhor, compilador) o jornalista e escritor inglês radicado na Austrália Gideon Haigh. O título remete para a negação de uma enciclopédia e, de facto, não se trata de uma enciclopédia, embora contenha tal como esta saberes sortidos (na Internet encontra-se uma outra "Inciclopedia", que macaqueia a Wikipedia). O livro já saiu entre nós m 2006, mas só agora, quando já há outros do mesmo tipo, tive o impulso de o comprar, uma vez que reparei que vinha não apenas traduzido para português mas adaptado para a realidade portuguesa. E está bem traduzido e adaptado: o mérito é do jornalista do “Sol” Vladimiro Nunes (autor de notáveis entrevistas feitas pelo “Sol” a escritores como Mário Cesariny e Luís Pacheco, pouco antes dos dois falecerem), que consultou várias e credíveis fontes nacionais.

Fiquei a saber, folheando esse livro, coisas muito interessantes. Por exemplo, a história dos rebuçados do Dr. Bayard, que hoje são comuns em Portugal, mas que resultaram de uma prenda de uma farmacêutico francês refugiado em Lisboa no tempo da Segunda Guerra a um merceeiro português (ver "post" seguinte). Fiquei também a saber a diferença entre um idiota, um débil mental, um imbecil e um cretino, que tem a ver com o QI e que se relaciona com uma interessante etimologia (a propósito: uma palavra de muito apreço para a bela capa do livro, com uma imagem antiga de frenologia, que se deve à artista plástica e autora de banda desenhada Vera Tavares e à composição cuidada, que se deve ao artista gráfico Olímpio Ferreira, um fazedor de livros recentemente falecido). E fiquei ainda a saber que M. Ghandi propôs sete pecados mortais, que me parecem muito mais mortais do que os sete outros da nossa tradição.

Mas o livro tem muito mais: listas curiosas como a lista dos doze homens que andaram na Lua (se o primeiro foi Neil Armstrong em 20 de Julho de 1969 – atenção, a data indicada no livro está errada, o que nos deixa uma pedra no sapato quanto a gralhas - o último foi Eugene Cernan, em, Dezembro de 1972), a lista dos países que fazem fronteira com mais países (a China e a Federação Russa, ambas com 14, ao passo que Portugal está no fundo dessa escala...), a lista dos “Cinco” dos famosos livros juvenis (que só são cinco porque se inclui Tim, o cão), o destino de criminosos famosos (Al Capone foi condenado e preso por evasão fiscal), a lista dos itens do presente do Rei de Inglaterra à coroa portuguesa após o terramoto de 1755 (inclui, além de 300 mil cruzados, 1000 sacas de biscoito), e um etc. longo que não pode aqui ser enumerado. O leitor faça o favor de folhear o livro porque vai encontrar de certeza algo que não sabe. E que talvez queira saber.

Há itens que, parecendo inúteis, podem afinal ser úteis. Nunca se sabe. Como, por exemplo, frases de engate em turco (Posso oferecer-lhe uma bebida?, Size bir iaecek alabirir miyim?) e tampas em japonês (Já não te amo e por isso vou mudar de número de telefone, Mo aishitenai-kara, denwa bango kaeru )...

- Gideon Haigh, “Inciclopedia”, Tinta da China, 2006.

Humboldt e a educação para a cidadania

Os dois irmãos Humboldt, Alexander e Wilhelm, foram figuras que marcaram indelevelmente a história do que hoje é a Alemanha. Testemunhas do colapso das monarquias absolutas na sequência da Revolução Francesa, ambos ajudaram à construção de uma nova Europa, Alexander destacando-se pelo seu trabalho nas ciências naturais e o seu irmão nas ciências sociais e na educação.

Aristocratas educados no espírito de Rousseau e da escola filantrópica, integraram o circulo de Weimar na companhia de figuras como Schiller ou Goethe. Schiller, o grande poeta da liberdade, teve um impacto profundo em Wilhem, que passou pelo menos dois anos em contacto estreito com o poeta. Em meados de 1794, Wilhem von Humboldt mudou-se com a família para Jena para ficar perto de Schiller, que detinha uma cátedra de história na universidade local.

Outro pensador que teve enorme influência em Wilhem foi Gottfried Wilhelm Leibniz. A visão do mundo e a ética de Leibniz permearam o pensamento e a acção de Humboldt, nomeadamente o conceito de que a procura da verdade é o verdadeiro sentido da vida e de que a perfeição individual o nosso objectivo de vida. Este seria o seu fio condutor para a política de educação que implementou, o Allgemeine Bildung, ou o desenvolvimento intelectual do indíviduo que considerava ser o objectivo do ensino.

É interessante observar que a posição do filósofo Humboldt não é muito distante da posição do professor de ciências computacionais da CMU, cuja última aula referi ontem. Ambos consideram que a realização e desenvolvimento pessoais devem ser a prioridade da educação e que a forma como aceitamos as boas e especialmente as más coisas que nos acontecem determinam a forma como vivemos. Humboldt declarou que «Estou cada vez mais convencido que a nossa felicidade ou infelicidade depende mais da forma como encaramos os acasos da vida do que da natureza desses eventos».

Mas seria a revolução francesa, a que assistiu de perto, que alteraria a forma como Humboldt via o mundo e, especialmente, o papel que adscrevia à educação.

Numa carta à sua esposa Karoline, expressa a sua convicção de que «todo o dinamismo, toda a vida, todo o vigor e frescura de uma nação (...) residem apenas no povo». A experiência de Humboldt com a Revolução Francesa e o que bebera no círculo de Weimar amadureceram não só nas ideias revolucionárias que implementou enquanto ministro da educação da Prússia, como no que pensava deveria ser o papel do Estado, abordado noutra carta agora a um amigo, em 1791, a que chamou «Ideas on the Organization of the State Brought about by the New French Constitution». Nessa carta, Humboldt escreveu «a nobreza juntou forças com o Regente para reprimir o povo, este foi o princípio do fim da nobreza» e «A humanidade sofreu devido a um extremo e foi obrigada a procurar salvação no outro extremo».

Humboldt duvidava que a nova constituição francesa fosse duradoura mas acreditava que lançaria «uma nova luz nas ideias, ajudaria a desenvolver todas as virtudes activas e assim espalharia as suas bênçoes para além das fronteiras de França».

Essa luz nova iluminou as suas ideias sobre o papel do Estado, trabalhadas numa publicação a que chamou «Ideas for an endeavour to define the limits of state action» que completou em 1792 mas que apenas foi publicada muito depois da sua morte. Essas ideias levaram Friedrich Hayek a classificar Wilhelm von Humboldt como «o maior filósofo da liberdade», e Lord Acton indicá-lo como «a figura mais importante da Alemanha».A parte do livro que tratava da educação foi publicada em Dezembro de 1792 no Berlinische Monatsschrift como «On public state education».

Humboldt aborda a relação entre a liberdade e o desenvolvimento da personalidade individual e sugere instrumentos para limitar o paternalismo do Estado no desenvolvimento individual do cidadão. O livro «Os limites da acção do Estado» teve uma influência decisiva em Herbert Spencer e em John Stuart Mill, autor de outro ensaio clássico, “Da liberdade”, cuja importância o Desidério já referiu várias vezes. Aliás, para muitos analistas, a enfatização de valores assentes na liberdade e na responsabilidade individual por Humboldt é ainda mais clara e directa que a de Mill.

A cidadania constitui assim o tema central na sua filosofia política. A crítica de Humboldt à acção dos Estados assenta exactamente no facto de considerar que estes impedem o pleno desenvolvimento dos indivíduos, fornecendo-lhes regras «mastigadas» que os cidadãos devem engolir sem pensar muito. O único aspecto onde a acção do Estado se faz necessária, segundo Humboldt, é na garantia das seguranças individuais, não cabendo ao Estado a preocupação com a felicidade e o bem-estar da nação, pois isso poderia resultar nas piores formas de tirania.

Humboldt reformou o sistema escolar prussiano assente nessa filosofia humanista, isto é, estava determinado em formar cidadãos capazes de pensar por si próprios considerando que mesmo «O mais comum trabalhador deve ter a mesma Fundament [educação básica] que a pessoa mais educada». Isto é, considerava que não se deve educar o indivíduo para exercer um ofício ou profissão, mas sim estimular o pensamento independente. A cidadania plena só seria atingida para Humboldt quando (todas) as pessoas tivessem acesso à melhor educação possível - aquela que para o visionário humanista todos tinham direito.

Humboldt, que estava de facto preocupado com o sistema educativo prussiano e não tinha problemas maniqueístas com as torres alheias, disse sobre a reforma escolar que empreendeu:

«Nós devemos construir [o sistema educativo] assente nas fundações que nos foram legadas pelos maiores mercantilistas e políticos dos séculos XVII e XVIII. Mas não bastará imitar simplesmente esses predecessores. Nós devemos alimentar-nos da sua vitalidade de espírito, da sua visão corajosa e de longo prazo e das suas lições de feitos particulares. No entanto, devemos ir mais além, tal como eles se excederiam em relação ao que fizeram no passado se fossem vivos».

terça-feira, 8 de abril de 2008

Escola, igualdade e diferença


Vale a pena ler

Título: Escola, igualdade e diferença
Autor: Joaquim Pires Valentim
Edição: Campo das Letras, 1997 (115 páginas)


Há livros sobre educação que, pela importância das ideias que lhe servem de mote e pelo modo como são debatidas, devem ser lidos e relidos. O livro acima identificado, da autoria de Joaquim Pires Valentim, professor da Universidade de Coimbra, está nesse grupo.

Apesar de ter sido publicado há onze anos, os quatro capítulos que o compõem, mantêm toda a actualidade. São eles: (1) O nascimento da escola obrigatória; ideologias e transformações culturais; (2) Modificações nos discursos científicos dominantes e explosão escolar; (3) Democratização do ensino: processos e representações; (4) A deslocação do tema da igualdade para o da diferença.

A clareza da escrita e a discussão pouco convencional de ideias pedagógicas correntes faz deste pequeno livro um documento de referência para quem se interessa pela identidade e funções da escola.

Da conclusão deixo o seguinte excerto:

“Temos pedido sempre muito à escola: que ajudasse a manter a ordem nas cidades, disciplinando os espíritos e os corpos; que permitisse a todos o ideal democrático da igualdade entre cidadãos; que compensasse as desvantagens sociais ou que corrigisse a lotaria da natureza; e agora, entre muitas outras coisas, que, respeitando as diferenças individuais, promova o mérito e o talento de cada um, o desenvolvimento integral da personalidade dos alunos, valorize as diferenças culturais e combata as pulsões xenófobas. A questão é saber se o pode fazer. E a distância entre o que temos esperado da escola e aquilo que realmente tem sido obtido através dela talvez se possa constituir como um bom guia de trabalho.
É verdade que a escola não é redutível a uma mera agência de promoção social. Aliás, nunca o foi (…). Mas esse foi sempre, e mantém-se ainda, um dos grandes mobilizadores, quer em termos ideológicos, quer em temos das representações dos seus utentes e das suas estratégias de escolarização, mesmo quando as funções que lhe são atribuídas procuram valorizar outros aspectos educativos numa época em que, manifestamente, a escola também já não pode garantir empregos posteriores.
Face à forte valorização ideológica e à demagogia igualitária que a tem acompanhado desde o seu ínicio, sabemos hoje que a escola, de facto, não chega para fazer mudar a sociedade, abolindo as desigualdades sociais. Mas pode mudar bastante a vida das pessoas ao modificar as oportunidades que se lhes abrem ou fecham e aos fornecer-lhes instrumentos cognitivos, ferramentas de entendimento e de participação nas decisões políticas e nas transformações sociais. Fornecendo-nos instrumentos de intervenção no mundo em que vivemos, de entre os quais a compreensão dos processos histórico-sociais pelos quais cada cultura se constrói e se afirma a si própria como única, fazendo desse arbitrário um universal, não será, seguramente, um aspecto menor.
E, por último, convém não o esquecer, a escola é ainda um dos veículos prioritários na abertura de novas possibilidades de mobilidade social, mesmo que de um modo bem mais modesto do que o faziam crer alguns discursos dos finais do [século XIX] e do início [do século XX]”.

A última aula



Randy Pausch é professor de ciências computacionais na Universidade Carnegie Mellon em Pittsburgh. Pausch, uma das autoridades mundiais em realidade virtual, trabalha na área do Entretenimento Digital ou Computing Entertainment, é consultor da Google, da Walt Disney Imagineering e da Xerox Palo Alto Research Center. Foi ainda o criador da plataforma Alice e co-fundador do Entertainment Technology Center (ECT) da CMU. O ECT é actualmente responsável pela plataforma Alice que está prestes a ver a sua versão 3.0 integrada com o artwork de Sims 2 para além de ser responsável da plataforma Panda 3D originalmente criada pelos engenheiros da Disney, os imagineers. Pausch foi ainda o criador da cadeira Building Virtual Worlds da CMU.

Na tarde do dia 18 de Setembro do ano passado Pausch deu uma «Última aula». As últimas aulas, que se tornaram populares nos campiuniversitários norte-americanos, são palestras em que os oradores, escolhidos entre os melhores professores da Universidade, falam como se estivessem a morrer e tivessem uma última oportunidade para transmitir aos seus alunos todas as suas mais importantes e sapientes mensagens. Uma parte da «missão» da última aula foi espantosamente simples para Pausch: ele tem um cancro pancreático terminal e já ultrapassou a esperança máxima de vida da sua patologia.

A grande última aula de Pausch foi isso mesmo: uma grande aula que transformou uma tradição universitária numa lição de vida que, na totalidade ou em excertos, já foi ministrada a mais de cinco milhões de pessoas apenas no YouTube.

Logo no início da palestra, Pausch alivia com humor a tensão visível da plateia, algo recorrente ao longo da mesma com um dos momentos mais hilariantes na altura em que o cientista, que enunciara a religião e a espiritualidade como pontos que não constavam das suas mensagens, anuncia que teve uma conversão no leito da morte: comprara um Macintosh.

Vale a pena ver na íntegra a última aula de um grande professor e de um ainda maior Homem! Como o próprio diz:

«Divirta-se. Eu diverti-me muito, e vou divertir-me todos os dias que me restam. Todos os dias. Não existe outra maneira de viver.»

segunda-feira, 7 de abril de 2008

COIMBRA E OS LIVROS


Divulgo um texto que o grupo de "Amigos da Cultura" me pediu:

Se há uma área em que Coimbra é particularmente forte é a área dos livros e das bibliotecas e arquivos. Basta pensar na Biblioteca Joanina, uma das mais belas do mundo, repleta com quase cem mil livros antigos. Mas pode-se pensar que o total de volumes das cerca de 90 bibliotecas da Universidade de Coimbra é de mais de dois milhões, com cerca de metade localizados na Biblioteca Geral, um vasto e rico património que só é comparável ao da Biblioteca Nacional. Pode-se ainda pensar na Biblioteca Municipal, com os seus cerca seiscentos mil volumes, que oferece serviços especiais, como os de fonoteca, ludoteca, etc. Assim, o total de volumes de uma grande biblioteca virtual da Universidade e da cidade é de cerca de três milhões de volumes. É fácil por um protocolo de colaboração garantir condições de boa colaboração e sinergia sem discutir questões que são aliás indiscutíveis de propriedade, assim como de localização física das bibliotecas especializadas. Alguns dos conteúdos desses fundos são únicos no país e no mundo. Outros são repetidos, o que deveria facilitar a sua circulação. Mas, além das bibliotecas, pode-se ainda pensar, por se tratar de uma mais-valia próxima, nos valiosos Arquivos da Universidade e Municipal. Para não falar também das editoras e imprensas da cidade e região. E das publicações periódicas, com enorme tradição. E das livrarias e antiquários. E das artes gráficas, como a tipografia e o design. E dos cursos em ciências da informação e da documentação, que em Coimbra têm história.

A Biblioteca Joanina da Universidade está construída sobre uma prisão medieval. Esse espaço, que serviu outrora como prisão académica, está hoje aberto ao público. Os livros deixaram, porém, a certa altura de caber na Biblioteca Joanina. Já fez 50 anos o "novo" edifício da Biblioteca Geral, em frente à Faculdade de Letras. Esta Biblioteca foi construída sobre a antiga Faculdade de Letras, que por sua vez se ergueu sobre o Colégio de São Paulo Apóstolo. E ainda bem que é assim: o novo tem sempre de subir para os ombros do velho, como um filho que sobe aos ombros do pai para ver mais longe.

Agora está na hora de o novo subir mais uma vez para os ombros do velho. A Biblioteca Geral, a segunda biblioteca do país, está a rebentar pelas costuras. Não cabe lá praticamente mais nada, repleta como está pelas permanentes entregas do depósito legal e por numerosas incorporações e doações (uma das mais importantes foi a da Biblioteca e Arquivo do Instituto de Coimbra, a academia que existiu em Coimbra). Também a Biblioteca Municipal, que tem desempenhado um notável papel na leitura pública (foi a minha biblioteca na juventude e muito lhe devo!) está hoje limitada num sítio onde, por também receber depósito legal, tem dificuldade em caber: a Casa da Cultura, uma casa datada que tem hoje reduzida funcionalidade.

Para onde ir? Pois o centenário mas elegante edifício da Cadeia Penitenciária de Coimbra, mesmo às portas da Universidade e quase colado à Casa da Cultura entre o Jardim de Santa Cruz e o Jardim Botânico, vai ficar devoluto com a transferência da cadeia para instalações novas nos arredores de Coimbra. Deve ser a Casa do Conhecimento de que Coimbra - a Cidade do Conhecimento - precisa. Esta ideia, que propus publicamente há já alguns anos, foi acarinhada pelo Reitor da Universidade de Coimbra e, de início, pelo Presidente da Câmara Municipal. Num processo de sinergia da Universidade com a Câmara Municipal, a cidade poderá assim vir a ter a maior biblioteca do país, uma biblioteca com dimensão nacional e internacional, num espaço com interior moderno e equipada com as mais modernas tecnologias. Tal como outrora na Biblioteca Joanina, a liberdade poderá crescer onde não existia. Não é razoável que haja em Coimbra, distanciados por escassas centenas de metros, dois sítios onde é recebido e tratado o mesmo depósito legal. De resto, está prevista a redução em breve das entregas desse depósito pela Biblioteca Nacional, passando a ficar apenas num sítio em Coimbra.

O espaço da Penitenciária é muito amplo (e há muito espaço por baixo para guardar originais depois de devidamente tratados e digitalizados). Portanto, a Casa do Conhecimento poderá também ser um espaço para o Arquivo da Universidade (que também é Distrital) e para o Arquivo Municipal, actualmente também sem espaços suficientes e a funcionar em condições abaixo do desejável. E, derrubados os muros da prisão, há espaço para criar uma faixa verde que una os referidos jardins, fazendo com que a cidade seja atravessada, da Praça da República à Quinta das Lágrimas (passando pelo Jardim Botânico e pelo Parque Verde), por um extenso parque que fará as delícias dos locais e dos visitantes.

Muita gente tem acarinhado esta ideia, que reúne duas coisas que têm faltado a Coimbra no domínio cultural - visão e ambição. Algumas vozes, embora reconhecendo a necessidade de espaço para as bibliotecas e da sua frutuosa colaboração, e a necessidade de conservar o espaço histórico do cárcere, defendem que o edifício da prisão deve ter outra finalidade e que a Casa do Conhecimento devia ser instalada noutro lado, como o Quartel de Santana, ou mesmo construída de raiz, quiçá numa zona da periferia que permita "fazer cidade". Pode ser até que tenham razão, mas convém quanto antes discutir este assunto abertamente e realizar os necessários estudos técnicos.

O certo é que a ideia na prática não tem nos últimos tempos avançado, devido em boa parte à situação de paralisia em que se encontra a Câmara Municipal no domínio cultural. Não, não é só nas artes que ela está parada. É também nas letras, no que diz respeito à escrita e à leitura. Chega a ser confrangedor não haver uma única ideia cultural do lado da Câmara que mobilize os cidadãos. E é tambem confrangedor que a Câmara, não tendo ideias próprias, não ouça as ideias alheias. Pela minha parte, da única vez em que a cidade me chamou para discutir a Casa do Conhecimento, fiquei desconsolado com o baixo nível da discussão: nem sequer havia um arquitecto para o projecto (a autarquia só tinha um esboco feito por um seu desenhador!) e nem sequer foram estudados projectos internacionais do mesmo tipo. Esta Câmara, na qual de início depositei esperanças, é surda e muda em tudo o que à cultura diz respeito.

E porque não me calo? E porque é que, felizmente, outros cidadãos de Coimbra, amigos da cultura, não se calam? Porque Coimbra e o país merecem mais e merecem melhor. A Câmara Municipal tem adoptado, no plano cultural, uma atitude miserabilista, queixando-se dos desfavores do governo quando se deveria queixar em primeiro lugar e sobretudo de si própria. Não tem mostrado nem visão nem ambição! O governo não pode apoiar planos que não existem e o plano da Casa do Conhecimento, na prática, não existe para o governo. Aparentemente não existe sequer para a Câmara, em contradição com as afirmações iniciais do seu responsável. Também não tem, em alternativa, qualquer outro plano coerente. Em contraste, outras cidades têm grandes planos de investimento cultural e obtêm consideráveis apoios para eles. Basta olhar para os exemplos da Biblioteca Municipal de Viana do Castelo, da autoria do arquitecto Siza Vieira, ou da Biblioteca Eduardo Lourenço, na Guarda, esta ainda por inaugurar.

Diz a Câmara que não tem Casa do Conhecimento, mas tem uma ou vai ter uma Casa da Escrita. Gaba-se de pouca coisa e mais valia, neste caso, permanecer calada. A dita Casa da Escrita é uma coisa pequena, quase de vão-de-escada: pouca coisa lá vai caber. Trata-se da casa de João José Cochofel, um escritor que, com todo o respeito que merece, não é um grande nome nacional e muito menos internacional. E a Câmara gaba-se ainda de ter desde há pouco a Casa de Miguel Torga. Esta é a casa onde viveu Miguel Torga, que pelo menos é um escritor conhecido. Mas, no que respeita a Torga, já há em contrução na sua terra natal uma grande casa, com forte apoio do governo, que pretende promover o desenvolvimento regional num sítio que dele mais carece. Qualquer coisa em Coimbra na mesma linha não tem sequer comparação com o projecto transmontano (além da confusão de já haver um outro projecto com o nome de Torga em Coimbra, o Forum Miguel Torga, na Estação Nova, do qual pouco se sabe). De facto, a proliferação de pequenos projectos dedicados à escrita e aos escritores é contraprudecente. Tais projectos não têm capacidade de atrair público em número suficiente. Não têm massa crítica para originar grandes financiamentos. Não têm meios para gerir o seu parco património. O mau exemplo dos pequenos museus municipais de Coimbra devia servir de lição. Querer pequenas coisas avulsas e desligadas, sem dimensão (nem sequer para estacionamento!), apenas revela uma visão e uma ambição pequenas. Porque quererá Coimbra ser uma cidade das coisas pequenas?

Que podiam Coimbra e o país (os dois têm de estar muito mais unidos do que estão!) fazer na sua Casa do Conhecimento? Vejo-a como um grande centro acolhedor da população de Coimbra e de fora, a começar pelos jovens que moram ou vêm à cidade. Vejo-a como um espaço de inclusão social que forneça possibilidades de desenvolvimento pessoal, académico e profissional. Vejo-a como um espaço que nos mostra uma história cultural muito rica, um espaço que preserva a memória dos livros e dos autores (Coimbra tem sido e é o sítio do país com mais livros por habitante, com mais autores por habitante, com mais edições por habitante). Vejo-a como um sítio que sabe juntar o velho (guardando devidamente os tesouros mais preciosos) e o novo (uma biblioteca com o melhor da tecnologia, que possa ser usufruída por todos, em todo o lado, com um simples clique). Vejo-a como um lugar onde se celebra a escrita e os escritores (que leva mais longe e a mais gente a obra dos muitos escritores ligados a Coimbra, cujo inventário está aliás por fazer) por meio de eventos imaginativos. Vejo-a como um sítio de indústria e comércio culturais, com um auditório que permita debates, encontros com escritores e lançamento de livros, e espaços para exposições, lojas, feiras do livro (a que há é muito pobre!) e oficinas especializadas que permitam os muitos restauros que são precisos.

Coimbra precisa urgentemente, como de pão para a boca, de um grande projecto cultural que a vitalize e lhe dê esperança. Hoje em dia é pela cultura que as cidades se regeneram – e Coimbra bem precisa dessa regeneração. Estou-me a lembrar do exemplo de Bilbau, cidade que foi impulsionada com o Museu Guggenheim. Mas lembro-me tambem do exemplo do Porto, onde o Museu de Serralves tem sido um êxito extraordinário. Coimbra já possui, embora possa não ter consciência plena disso, um grande projecto: é a candidatura da Universidade a Património Mundial da Humanidade, um projecto que deveria mobilizar ainda mais a Universidade e a cidade. Está na altura de dar mais consistência a esse projecto. Património é, além dos edifícios históricos, também a bibliografia e a documentação. Os nossos acervos nessa área são de tal modo ricos que merecem figurar em lugar de maior destaque na candidatura. Aliás, a Universidade de Coimbra teve um papel inquestionável na expansão e defesa da língua portuguesa no mundo, a língua que se encontra registada nas nossas bibliotecas e arquivos. Estou convencido que, se não soubermos projectar para o futuro o melhor do nosso passado, assegurando um espaço digno para os espólios que nos estão confiados, essa candidatura não terá o sucesso que deveria ter. Uma universidade e uma cidade renovadas, abertas ao país e ao mundo, precisam de um espaço-âncora na área que mais as distingue do resto do país e do mundo. Esse espaço devia ser, na minha opinião e pelas razões que resumi, a Casa do Conhecimento (chamem-lhe o que quiserem se não gostarem do nome). Claro que um projecto deste tipo só faz sentido se houver uma vontade colectiva que o sustente. Estou certo que a participação dos cidadãos enriquecerá o projecto e dar-lhe-á o melhor futuro.

Invenções antigas - Passatempo com prémio

A PROPÓSITO DO TEMA «velhas invenções», mais uma vez o DE RERUM NATURA e o Sorumbático se associam para um passatempo cuja finalidade consiste em identificar uma invenção, desta vez a que aqui se mostra. (Será um cesto para papéis? Será um fritador de batatas? Será uma máquina de tricotar? Será...?).
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O prémio, a atribuir ao primeiro leitor que, em qualquer dos dois blogues, der a resposta certa, será um livro de ficção científica.
As horas a considerar serão as que o Blogger atribuir mas - atenção! - só serão válidas as respostas que forem dadas a partir das 10h50m de hoje, inclusive. Não deverão ser dadas respostas-múltiplas no mesmo comentário, nem sob a forma de interrogação.
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Actualização: a resposta certa foi dada no Sorumbático, às 11h00m, por Fátima André. Acerca da máquina em causa, inventada pelo engenheiro francês Xavier Progin em 1833, ver mais informação, p. ex., [aqui].

domingo, 6 de abril de 2008

Graus académicos no Portugal de hoje


A habitual crónica semanal de Rui Baptista sobre a educação nacional:

“Tem duas grandes qualidades: tem saúde e não é bacharel”
. Eça de Queiroz (referindo-se a Ramalho Ortigão)

É da mais elementar justiça não atirar para cima das costas do Processo de Bolonha (com a virtude inegável de facilitar a livre circulação entre estudantes e diplomados do ensino superior) toda a pesada herança da verdadeira bagunça que se apoderou do ensino superior em que as reformas, por vezes, têm ocorrido ao sabor de interesses de estratos profissionais.

Em meados da década de 70, os antigos agentes técnicos de engenharia, habilitados com um curso médio, obtiveram uma certificação académica de bacharelato e um título profissional de engenheiro técnico. Quer isto dizer que os engenheiros licenciados por universidades com o titulo profissional de engenheiro “tout court”, não são técnicos… Serão, assim, uma espécie de curiosos que se entretêm em fazer cálculos de engenharia nas horas de ócio! Mas o grau académico de bacharel ainda não era suficiente para os institutos superiores de engenharia do ensino politécnico. Para a obtenção do grau de licenciado universitário em engenharia foram criadas universidades privadas mesmo sem os seus diplomas serem reconhecidos pela Ordem dos Engenheiros.

Mas nada como um breve historial do ensino politécnico para se ficar a conhecer a génese das coisas. Com origem na proposta de um ensino superior curto (com a duração de dois anos), em substituição de escolas e institutos médios, deu-se o salto para um ensino superior politécnico a ser implantado em cidades sem ensino universitário (repito, sem ensino universitário) e autorizado para outorgar o grau de bacharel, apenas. Pouco depois, com a complacência dos poderes públicos, logo se instalaram de armas e bagagem, em urbes de longa tradição universitária, como Coimbra, Lisboa e Porto.

Desta forma, a formação dos professores passou a ter também as portas abertas do facilitismo. As escolas do magistério primário (com tantas e boas provas dadas na formação dos professores do ensino primário) foram transformadas em escolas superiores de educação com a função de formar professores do 1.º ciclo do ensino básico e depois de docentes do 2.º ciclo. Em ideia peregrina saída dos gabinetes da 5 de Outubro, este grau de ensino (chamado anteriormente ciclo preparatório) passou a albergar nas suas fileiras docentes indivíduos com diploma universitário e diplomados pelas escolas superiores de educação.

Neste meio tempo, surgiram, igualmente, em recônditos lugares do país, escolas superiores (?) privadas que em meia dúzia de meses venderam, a diplomados pelas antigas escolas do magistério primário, licenciaturas que em escasso tempo se transformaram em “doutoramentos” obtidos em universidades estrangeiras de duvidosa qualidade. Sem ter em atenção a sua pouca ou nenhuma qualidade, estes doutoramentos estão certamente incluídos na percentagem de doutoramentos que tanto orgulho parece causar à nossa vaidade nacional!

Desta forma desregrada e nesta 3.ª República, distribuem-se a granel títulos académicos, a exemplo de títulos de nobreza que mereceram no século XIX a crítica impiedosa de Almeida Garrett: “Foge, cão, que te fazem barão! Para onde, se me fazem visconde?” “Mutatis mutandi”, em tempos escrevi: “Foge, gato, que de tão o bacharelato! Para que lado, se me fazem licenciado?” (“Diário de Coimbra”, 26. Julho.2001). Hoje em dia, desajustado me não parece acrescentar: Bate as asas canário / não se trata de imaginário /Para além da dádiva do mestrado / Com pouco mais sairás doutorado!...

Mudam-se os tempos e os regimes políticos, nem sempre se mudam as vontades!

iParque: um exemplo de parque industrial, de ciência e tecnologia.

O nosso colaborador habitual Norberto Pires, engenheiro físico e professor de Engenharia Mecânica, explica o que é o Coimbra Inovação Parque e porque aceitou dirigi-lo:

Se Portugal quer acelerar a recuperação do atraso que tem relativamente aos melhores países europeus, precisa de mais crescimento económico, mais novas empresas, mais empreendedores dispostos a lançar-se em projectos inovadores e mais PME de crescimento rápido.

A inovação não é bem servida por agentes “utilizadores”. Precisa de agentes “motores” de elevada qualidade e eficiência. Isto significa um novo paradigma de ensino. A qualidade da informação tem de ser acompanhada pela qualidade da formação em empreededorismo e risco. E isso é uma NOVA AVENTURA.

Um empreendedor é um revolucionário. Detesta a palavra “não”. Não a aceita. Quando a encontra, olha em volta e procura uma forma de ultrapassar a dificudade inerente. Não desiste, nunca. Tem a vertigem do risco. De certa forma deseja-o, pois sabe que as oportunidades resultam de uma boa gestão do risco. Vive como pensa, sem pensar como viverá.

Consciente disso, aceitei pessoalmente o desafio de liderar o Coimbra iParque. Um projecto ambicioso que pretende instalar em Coimbra um parque industrial onde as empresas encontrem o local ideal para a sua actividade, oferecendo as condições necessárias para o desenvolvimento de investigação em consórcio. É ambicioso, eu sei. É arriscado, eu sei.

Coimbra tem um conjunto de valências interessantes. Uma excelente universidade (a Universidade de Coimbra), virada para o futuro. Um instituto politécnico reconhecido e várias outras iniciativas universitárias privadas. Boas iniciativas de incubação de empresas e ideias: as de maior sucesso em Portugal. Excelentes grupos e centros de I&D. Empresas de sucesso e inovadoras, líderes nacionais e internacionais.

O Coimbra iParque pretende trabalhar em rede com as boas iniciativas que existem em Coimbra e nas outras cidades e regiões. O estabelecimento de redes de cooperação cria sinergias, mais valias e vantagens competitivas. É isso que as empresas precisam. É nesse sentido que aponta o futuro, o tal que começa sempre HOJE.

O vídeos abaixo mostram o iParque (a 5 de Abril de 2008) numa viagem aérea curta feita a bordo de um Cessna do aeródromo de Coimbra. O parque está situado praticamente dentro da cidade de Coimbra, ao lado da A1, com acesso ao IC2 e à N1 (nacional 1): o iParque situa-se na freguesia de Antanhol, tendo uma parte (SUL) na freguesia de São Martinho do Bispo, e uma pequena parte (NORTE) na freguesia de Santa Clara. O iParque é uma iniciativa que pretende contribuir de forma decisiva para o incremento da actividade económica e de inovação na Cidade de Coimbra e na Região Centro.

Muito bem localizado relativamente a Coimbra (ver vídeo abaixo), à autoestrada A1 e com um aeródromo (quase dentro do parque) que queremos reactivar para transporte de pessoas. Chegar a Coimbra é fácil, o iParque aproveita essa centralidade e mobilidade.

O iParque é um conceito único em Portugal. Terá vida o dia todo, num local ideal para trabalhar, fazer desporto ou apreciar a paisagem e passear por um espaço de qualidade onde a inovação, a ciência e as empresas estão lado-a-lado.

Mais vídeos aqui: http://www.coimbraiparque.pt/videos

O futuro começa sempre HOJE!
:-)

J. Norberto Pires
Professor da FCTUC
Presidente do Conselho de Administração do Coimbra iParque
Web: http://www.coimbraiparque.pt/

VEM AÍ O FIM DO MUNDO?


Minha crónica do "Sol" de ontem:

Sempre houve profetas da desgraça. Não admira por isso que hoje, quando ao fim de 14 anos de intenso trabalho vai entrar em funcionamento o maior acelerador de partículas do mundo – o Large Hadron Collider - na Organização Europeia para a Investigação Nuclear, CERN, em Genebra, na Suíça, surjam profetas da desgraça. E a desgraça desta vez não podia ser maior: eles prevêem o fim do mundo!

O instrumento, que está montado um grande túnel (com 27 km de perímetro), irá acelerar protões e outros núcleos atómicos para estudar os resultados de colisões a altas energias. Planeado de início para descobrir uma nova partícula que a teoria prevê, é bem possível, se descobrir outras partículas, que sirva para elucidar alguns dos maiores mistérios da física actual, nomeadamente o da “matéria negra” do Universo, uma matéria que exerce força gravitacional mas não emite luz. Os físicos estão à espera de ser surpreendidos.

Foram desde já surpreendidos com um processo judicial. Um ex-físico nuclear e também jurista americano acaba de entregar num tribunal do Hawai um processo contra o CERN e várias organizações americanas que nele participam, com base na sua previsão de formação de um buraco negro nos choques a altas energias. Como é que uma organização internacional situada na Suíça, à qual Portugal aliás pertence, pode ser interpelada por um tribunal federal americano? Não pode, mas o fim do envolvimento americano seria um rude golpe no novo acelerador. O juiz pode, porém, dizer que, se os receios do profeta fossem justificados, tanto faz ser europeu como americano: o tal buraco negro engoliria a Terra toda. Haverá, de facto, razões para ter medo?

Não. A notícia do juízo final é francamente exagerada. O CERN já elaborou vários estudos de segurança e está a completar um outro. Um especialista esclareceu que as experiências planeadas no CERN, que irá recriar uma fase do Big Bang, não são muito diferentes das colisões que ocorrem todos os dias na alta atmosfera quando alguns raios cósmicos chegam até nós. E estamos vivos...

Evolução do preço da gasolina

Evolução do preço do petróleo entre 1947 e 2007 (a preços de 2006). Fonte «Oil Price History and Analysis», WTRG Economics.

Nos últimos tempos tenho recebido uma série de mails que, com ligeiras variantes na prosa, exprimem a indignação do remetente em relação aos preços da gasolina. De facto, a serem verdade os dados indicados, o preço do petróleo em euros teria na realidade descido de 70 euros em 2000 para 66,6 euros em 2008 enquanto a gasolina - sem chumbo 95 - aumentou de 0.922 euro (com taxa de conversão 1 euro=200,482 escudos) para 1.381 euro no mesmo período.

Após a exposição dos números, o mail termina invariavelmente com: «Cada um que pense por si, mas eu acho que estamos a ser roubados pelos políticos, pelas petrolíferas e agora até pela associação de padeiros!»

Embora não intencionalmente, a parte dos padeiros está na realidade intimamente relacionada com os combustíveis uma vez que os preços dos cereais têm subido astronomicamente nos mercados internacionais devido à sua utilização na produção de biocombustíveis. Já há cerca de um ano, George Monbiot avisava:

«o preço do milho duplicou desde o princípio do ano passado. O preço do trigo atingiu o máximo dos últimos dez anos, enquanto que as reservas mundiais dos dois cereais desceram para o valor mais baixo dos últimos 25 anos. Já houve motins por causa de comida no México e chegam de todo o mundo relatos de que os pobres estão a sentir o impacto. O Departamento de Agricultura americano avisa que 'se tivermos uma seca ou uma colheita muito pobre poderemos presenciar o tipo de volatilidade que vimos nos anos 70 e, se não acontecer este ano, estamos a prever igualmente reservas mais baixas para o próximo ano'. Segundo a FAO, das Nações Unidas, a principal razão é a procura de etanol: o álcool utilizado como combustível, que tanto pode ser produzido a partir do milho como do trigo».

Ou seja, não estamos de facto a ser roubados pelo padeiro, estamos a sofrer as consequências de uma política de redução das emissões de CO2, completamente contraproducente na opinião de vários peritos.

E será que em relação ao preço dos combustíveis há alguma verdade neste mail? Foi isso que tentei investigar e cheguei a conclusões interessantes.

O gráfico que ilustra o post, retirado de uma exposição histórica da evolução do preço do petróleo o mercado norte-americano, a preços constantes de 2006, indica que este aumentou muito mais entre 2000 e 2008 que o referido no mail (que referencia 60 e 100 dólares como o preço do barril em 2000 e 2008, respectivamente).

Se analisarmos a evolução do preço do Brent em Londres, o nosso preço de referência, encontramos um cenário análogo, agora expresso em valores nominais. Para converter em valores nominais o preço em dólares do Brent Blend 38º no ano 2008 recorri a esta tabela. Finalmente, para a conversão dos preços em dólares no correspondente em euros precisamos analisar a evolução da taxa cambial entre as duas moedas fortes do cenário mundial. Esta apresenta uma história curiosa que passo a sintetizar.

No primeiro dia da sua cotação, a 4 de Janeiro de 1999, o euro foi lançado a 1,1665 dólar e fechou a 1,1837 dólar. Menos de dois meses depois, a 1 de Março, o euro cai para 1,10 dólar e a 26 de Maio um euro em queda fica a 1,05 dólar. A cotação do euro manteve-se mais ou menos inalterada durante os restantes meses de 1999, mas o ano mais negro foi 2000, nomeadamente a 27 de Janeiro o euro situa-se pela primeira vez abaixo da paridade, a 0,9882 dólar. Em 26 de Outubro, o euro alcança o seu nível histórico mais baixo, valendo apenas 0,8230 dólar. Após uma série de intervenções do Banco Central Europeu (BCE) o euro recupera ligeiramente e a 20 de Dezembro de 2000 o euro fixa-se em 0,90 dólar.

Apenas a 15 de Julho de 2002 o euro recupera a paridade com o dólar. A taxa cambial entre o euro e o dólar continuou em subida instável, com uma pausa em Outubro, atingindo um novo máximo histórico, de 1,1978 dólares, em 19 de Novembro de 2003, após o departamento norte-americano do Tesouro ter divulgado que os investidores estrangeiros aplicaram 4,19 mil milhões de dólares no mercado bolsista norte-americano, um valor muito abaixo dos 49,9 mil milhões de dólares registados em Agosto desse ano e o nível mais baixo desde Setembro de 1998, mês em que o valor do investimento líquido estrangeiro em acções norte-americanas atingiu os 1,17 mil milhões de dólares.

A apreciação face ao dólar no cômputo do ano 2003 da moeda única europeia foi de cerca de 21% - 5,3% dos quais só em Dezembro. Nas duas primeiras semanas de 2004, o euro estabeleceu sucessivos máximos históricos, aproximando-se da fasquia dos 1,29 dólares. Em 2005 e 2006, com algumas flutuações, a taxa manteve-se praticamente inalterada se olharmos para os valores médios anuais, que foram 1,242 em 2004, 1,243 em 2005 com uma ligeira subida para 1.255 em 2006. O ano de 2007, em que em média um euro se converteu em 1,368 dólar, viu uma subida acentuada do valor do euro, que terminou o ano valendo 1.472 dólar, subida que se manteve em 2008, em que o euro está a valer, em média, 1.5 dólar.

Inserindo esta informação cambial nos dados sobre o preço do petróleo no mercado de Londres, confirmamos facilmente que o teor deste mail, que certamente já foi recebido por muitos dos nossos leitores, embora muito exagerado, tem um fundo de verdade uma vez que o preço em euros do Brent tem vindo a descer desde 2007 nos mercados internacionais e o preço que pagamos pela gasolina tem aumentado, reflectindo aparentemente a variação do custo do crude em dólares e não em euros.

Evolução do preço do Brent em dólares e euros (escala da esquerda em valores nominais) e do preço da gasolina 95, escala da direita.

sábado, 5 de abril de 2008

“Dê-lhe contos de fadas”

Em Fevereiro passado, escrevemos para o De Rerum Natura um texto intitulado Ei, intelectuais! Deixem as crianças em paz!, sobre a Colecção de Clássicos da Literatura Portuguesa Contados às Crianças, que o semanário Sol e as Edições Quasi decidiram publicar em conjunto. Continuamos a reflexão que iniciámos nesse texto, pois entendemos que a adaptação de obras marcantes da literatura, pelas questões fundamentais que levanta, merece mais algumas considerações.

Se atendermos à forma dos livros que compõem a dita colecção, inferimos que tais livros se destinam a crianças que dão os primeiros passos na leitura, senão vejamos: têm poucas páginas, os caracteres são muito grandes, as imagens são vastas e coloridas, a capa é dura, as folhas resistentes. O estilo da escrita vai, pelo menos em muitas passagens, no mesmo sentido. Por exemplo, n’ Os Maias a história começa assim: “Foi há muito tempo. Foi antes de tu nasceres, foi também antes de eu nascer, foi antes de os teus pais nascerem e mesmo antes de os teus avós nascerem. Foi no tempo em que as casas tinham nomes”.

O que queremos discutir neste texto é se os livros adaptados, com o intuito de fazerem parte da colecção a que aludimos, são, de facto, adequados ao público a que se destinam.

Comecemos com uma história contada por Maria Emília Traça (1992: 23).

“Era uma vez um famoso físico chamado Albert Einstein, que um dia encontrou uma senhora extremamente desejosa de ver o seu filho triunfar numa carreira científica. A senhora pediu ao sábio que lhe desse conselhos sobre a educação do seu filho, em particular sobre o tipo de livros que lhe deveria ler.
– ‘Contos de fadas’, respondeu Einstein, sem hesitar.
– ‘Está bem, mas que deverei ler-lhe em seguida?’, perguntou a ansiosa mãe.
– ‘Mais Contos de fadas’, replicou o grande cientista acenando com o seu cachimbo como um feiticeiro que prenuncia um final feliz para uma longa aventura.”

Pois é, os leitores mais pequenos devem ler contos de fadas e outros livros adequados à sua idade e não Os Maias ou outras obras destinadas a jovens quase adultos ou a adultos. Há temáticas mais adequadas a estes leitores, mais compreensíveis, mais edificantes, enfim, mais próprias para eles.

Que ideia tão estranha a de querer que as crianças, conheçam Os Maias! É impossível uma criança nos primeiros anos de vida ler Os Maias. Trata-se de uma obra com 712 páginas (Edição «Livros do Brasil»), que exige uma destreza de leitura e um conhecimento do mundo e do homem incompatíveis com a sua capacidade de entendimento. Isto para não falar da temática, totalmente desajustada a um leitor muito jovem. Ou seja, o que estamos a defender é que há livros impróprios para serem postos nas mãos de uma criança, do mesmo modo que há filmes impróprios para menores de 16 ou de 18 anos.

N’ Os Maias, o que temos? Uma belíssima visão crítica da sociedade do século XIX apresentada por um dos maiores escritores portugueses, possuidor de um estilo que confere às suas obras a marca da arte literária. Já vimos no post anterior que adaptar uma obra destas é destruí-la: ao ser adulterado o estilo do escritor e alterados os assuntos, deixámos de estar perante a obra do escritor para estarmos perante uma imitação, uma abusiva e má imitação.

Mas, então, não devemos dar estas obras aos mais jovens? Não, não devemos. Eles vão lê-las quando tiverem idade de as poder compreender em todas as suas dimensões.

Então, o que devemos dar a ler às crianças mais pequenas? Literatura, naturalmente! Textos literários, sem dúvida! Mas quais?

Podemos considerar três tipos de textos a pôr nas mãos das crianças: os produzidos pelos chamados escritores de literatura infanto-juvenil, os dos escritores de literatura canónica que escreveram algumas obras especificamente para o público mais novo, como, por exemplo, o Romance da Raposa, a Arca de Noé e O Livro de Marianinha, de Aquilino Ribeiro, e, ainda, as obras de escritores consagrados que não foram especificamente escritas para crianças, mas cuja temática também é adequada ao nível etário dos mais novos.

Não vamos focar os dois primeiros casos: trata-se dos textos obviamente destinados às crianças. E são estes os que devem predominar.

No que diz respeito ao terceiro caso, que fazer para que as crianças comecem a tomar contacto com a escrita maior dos autores considerados clássicos? Três caminhos foram seguidos no passado e podem continuar a ser trilhados: a escolha de textos completos de pequena extensão; a selecção de excertos da obra com determinada unidade, eventualmente precedidos de uma contextualização da situação ou do episódio; e a introdução de supressões na obra, mantendo o essencial, tornando-a com uma extensão mais compatível com a capacidade de leitura da criança. Em qualquer destes casos, além do respeito pelos assuntos e pela intencionalidade comunicativa, opte-se sempre, sempre, pela manutenção das palavras do escritor, das suas frases, da sua construção de parágrafo, enfim, do seu estilo.

Nota: Este assunto continua num próximo post.... Com a indicação de alguns textos de escritores consagrados que podem servir para que as crianças iniciem a leitura dos clássicos.

Referência bibliográfica: Traça, Maria Emília (1992). O Fio da Memória. Do Conto Popular ao Conto para Crianças. Porto: Porto Editora.

Maria Regina Rocha e Maria Helena Damião

sexta-feira, 4 de abril de 2008

Das Sociedades Humanas às Sociedades Artificiais

Em 1997, Garry Kasparov, considerado por muitos dos seus pares como o maior xadrezista de todos os tempos, foi vencido por uma máquina programada: o Deep Blue. O xadrez computacional é um representante ilustre de uma abordagem conhecida (desde 1956) por “Inteligência Artificial” (IA).

Em 2004, enquanto equipas de humanos jogadores de futebol disputavam em várias cidades portuguesas o Campeonato da Europa de Futebol (o Euro 2004), equipas de robots jogadores de futebol disputaram em Lisboa o RoboCup 2004 – a edição anual do Campeonato Mundial de Futebol Robótico. Para alguns dos cientistas que inspiraram originalmente esta iniciativa internacional de investigação e educação em Inteligência Artificial e Robótica, o objectivo é que até certa de 2050 uma equipa de robots humanóides vença num jogo de futebol a equipa humana campeã do mundo da modalidade.

Talvez à primeira vista possa parecer que jogar futebol não deveria contar como uma actividade muito representativa dos comportamentos e capacidades dos humanos. Contudo, se não atendermos apenas ao intelecto e dermos o devido valor às competências encorpadas como parte da inteligência sofisticada, podemos ver a questão de outra maneira. O futebol robótico, que implica comportamentos fisicamente realizados num espaço real a três dimensões, requer competências correntes em criaturas naturais do reino animal, mas requer também um comportamento colectivo de uma equipa em competição com outra equipa – dimensões que implicam alguma forma de inteligência. O futebol robótico enquadra-se numa abordagem designada genericamente por “Nova Robótica”.

Há toda uma história que medeia entre a IA clássica, exemplificada pelo xadrez computacional, e a robótica colectiva, exemplificada pelo RoboCup. A robótica colectiva investiga as formas de estruturar múltiplos robots num mesmo cenário e de os controlar em vista à concretização de uma dada tarefa. Desse modo, além de participar num tipo de investigação que aceita o lugar do corpo na inteligência, contribui para ultrapassar o paradigma da inteligência como fenómeno puramente individual e para começar a pensar a inteligência como inteligência da relação em colectivos de alguma complexidade. Esta nova orientação, ao constituir em alguma medida uma ruptura, limita o interesse de continuar a recorrer às velhas metáforas da IA clássica. A “metáfora do computador”, que concebe a inteligência basicamente como processamento de informação dentro da cabeça, perde muito do seu apelo. O jogo de xadrez como exemplo por excelência da inteligência já não ajuda muito. A robótica colectiva teve de procurar outras metáforas.

Essas novas metáforas começaram por ser metáforas biológicas. Contudo, a inspiração biológica pode revelar alguns limites quando se tenta explicar formas sociais. Por isso a robótica colectiva chegou a uma nova geração de metáforas inspiradoras vindas das ciências da sociedade, incluindo a economia.

É dentro desse alargamento das formas inspiradoras que o Instituto de Sistemas e Robótica, pólo do Instituto Superior Técnico (ISR/IST) tem desde há alguns anos desenvolvido projectos de robótica colectiva concebidos como aproximações a “sociedades artificiais”. Mais recentemente iniciou investigação directamente inspirada no pensamento económico.

O ciclo de conferências “Das Sociedades Humanas às Sociedades Artificiais” foi concebido como iniciativa de apoio aos projectos de Robótica Colectiva em desenvolvimento no ISR/IST. Engenheiros e cientistas com enquadramentos disciplinares diversos, com interesses que vão desde a robótica à economia, passando pela biologia e as neurociências, bem como filósofos, ajudarão a aprofundar um percurso de fertilização cruzada entre disciplinas. Seremos capazes de projectar sistemas multi-robots com comportamentos conjuntos sofisticados, ou mesmo de os colocar em interacção persistente com múltiplos humanos? Nas seis conferências do ciclo “Das Sociedades Humanas às Sociedades Artificiais”, engenharias, ciências e filosofias cruzam-se numa reflexão que poderá ajudar a clarificar as possibilidades de virmos a projectar “criaturas” artificiais capazes de sociabilidade – caminhando assim no sentido do esclarecimento daquela questão.

A primeira conferência, “Economia, Instituições e Sociedades Artificiais”, que será proferida pelo Professor José Castro Caldas, é já na próxima segunda-feira 7de Abril.

Informação recebida de Porfírio Silva. Mais informações aqui.

quarta-feira, 2 de abril de 2008

A depuralina depurada


O "Viver bem até aos 1OO", blog de alimentação, nutrição, saúde e longevidade, comenta aqui o recente caso da depuralina, o suplemento alimentar de origem espanhola que parece ter contraindicações.

terça-feira, 1 de abril de 2008

Tagarela



Post de Norberto Pires, que agora dirige o Parque Inovação em Coimbra:

Uma brincadeira muito séria.
Costumo usar estes robozinhos nas visitas que faço regularmente a escolas, a convite. A ideia é falar de Matemática, de Física, de Tecnologia, e mostrar coisas dessas em acção... como o TAGARELA.

Acham que resulta?

:-)

OSNIS NO SADO


Leio no "Diário de Notícias" de domingo passado (cada vez mais parecido com o "Correio da Manhã") uma notícia sobre "osnis" no rio Sado, perto da Arrábida. O que são "osnis"?

São objectos submarinos não identificados, hipoteticamente devidos a civilizações extraterrestres. Eu, que já participei num debate sobre ovnis com um general da Força Aérea, qualquer dia poderei ser convidado a discutir ovnis com um almirante. Sobre os ovnis citei na altura o físico Richard Feynman, que no seu livro "O Que é uma Lei Física" afirmou que sabia tudo sobre ovnis: não existem. Acrescentou: "É mais lógico atribuir os avistamentos de ovnis à conhecida irracionalidade dos terrestres do que às desconhecidas proezas dos extraterrestres." Sobre os "osnis", a adenda é óbvia: também não existem e pelas mesmas razões.

Para quem não leu a notícia deixo dois excertos relevantes. Os pescadores dantes gabavam-se de que o peixe deles era o maior, mas agora é o osni deles que é o maior!

"Há uma onda de mistério a envolver a serra da Arrábida e o rio Sado, em Setúbal. Ovnis e osnis são alguns dos fenómenos que têm sido avistados pelos habitantes sadinos e os seus relatos já despertaram a curiosidade de especialistas e até de cinéfilos.

Luzes que surgem entre a vegetação da serra, clarões vindos do fundo do rio, provocando turbilhões na água, brilhos avistados por escuteiros dentro de uma suposta passagem subterrânea que ligará Tróia a Sintra são apenas alguns dos fenómenos que em breve serão apresentados num filme.

(...) Histórias de pescadores que asseguram ter comunicado, através de um very light, com um círculo de luz no fundo do Sado, junto à fortaleza de Outão. Tudo se passou em 2002, quando Carlos e Pedro Coelho, pai e filho, foram pescar durante a madrugada e acabaram por ser surpreendidos por uma luz verde fluorescente vinda do fundo do mar.

O brilho, contaram aos autores do documentário, tinha uma forma circular e movimentava-se sem deixar rasto. Dizem os pescadores que o fenómeno provocou ainda um enorme turbilhão na água. Carlos e Pedro quiseram fugir, mas não conseguiram porque ficaram paralisados, sentindo um formigueiro em todo o corpo. Minutos mais tarde recuperam a mobilidade e subiram ao miradouro da fortaleza, onde apontaram um very light ao osni. Durante quase meia hora, Carlos e Pedro Coelho dizem ter interagido com o objecto não identificado. O círculo de luz acendia, apagava e mudava a cor, mas depois de um estrondo e de um clarão na serra da Arrábida, afastou-se até desaparecer no oceano."

A Física do papel de parede


A Andreia Azevedo Soares, jornalista do "4 x Ciência" e do "Público", agora a estudar em Londres, fez-nos chegar esta curiosa notícia científica, com origem no MIT. Transcrevemo-la com os devidos agradecimentos, acrescentando que Pedro Reis frequentou a Escola Secundária em Viseu (Escola Alves Martins):

Team explains 'the wallpaper problem'
Work could have industrial applications

CAMBRIDGE, Mass.-- Frustrated by tape that won't peel off the roll in a straight line? Angry at wallpaper that refuses to tear neatly off the wall?

A new study reveals why these efforts can be so aggravating. Wallpaper is not out to foil you-it's just obeying the laws of physics, according to a team of researchers from the Centre National de la Recherche Scientifique (CNRS) in Paris, the Universidad de Santiago, Chile, and MIT.

The report, published in the March 30 online issue of Nature Materials, sheds light on a phenomenon many people have experienced, which the researchers dubbed “the wallpaper problem.”

“You want to redecorate your bedroom, so you yank down the wallpaper. You wish that the flap would tear all the way down to the floor, but it comes together in a triangle and you have to start all over again,” said Pedro Reis, one of the authors of the paper and an applied mathematics instructor at MIT.

This pattern, where two cracks propagate toward each other and meet at a point, is extremely robust. It applies not only to wallpaper but other adhesives such as tape, as well as nonadhesive plastic sheets such as the shrink-wrap that envelops compact discs. It even extends to fruit: The skin on a tomato or a grape typically forms a triangle when peeled off.

This has happened to everyone. it's frustrating,” said Reis, who collaborated with Enrique Cerda and Eugenio Hamm of the Universidad de Santiago, Benoit Roman of CNRS and Michael LeBlanc of the University of Chicago.

The team found that those ubiquitous triangular tears arise from interactions between three inherent properties of adhesive materials: elasticity (stiffness), adhesive energy (how strongly the adhesive sticks to a surface) and fracture energy (how tough it is to rip).

The researchers developed a formulation that predicts the angle of the triangle formed, based on those three properties.

They also figured out just how those triangular tears arise. As the strip is pulled, energy builds up in the fold that forms where the tape is peeling from the surface. The tape can release that energy in two ways: by unpeeling from its surface and by becoming narrower, both of which it does.

In a possible industrial application, materials engineers could use this method to calculate one of the three key properties, if the other two are known. This could be particularly useful in microtechnologies, such as stretchable electronics, where the characterization of thin material properties is very difficult.

Reis, who now works in MIT's Applied Mathematics Laboratory, and his collaborators at CNRS and Universidad de Santiago got the idea for the project after noticing consistent tearing patterns in plastic sheets such as the plastic wrapping of CDs.

The researchers tried controlled experimental versions of the same process in their lab and got the same results. “This shape is really robust, so there must be something fundamental going on that gives rise to these shapes,” Reis said.

However, the shapes formed by tearing nonadhesive sheets proved difficult to study because they are not perfect triangles, and without adhesion, the physics of the problem is more complicated. Instead, the researchers turned their attention to adhesives, which do form perfect triangles when torn.

The triangular shapes can also be seen in the work of French artist Jacques Villeglé. His art consists of posters taken from the streets of Paris and other French cities, complete with the same sort of rips that the researchers studied. One of the posters may be featured on the cover of Nature Materials to illustrate the team's paper.

Torn posters, tape and tomato skins may seem like strange research topics for physicists and applied mathematicians, but it's perfectly normal to Reis and his colleagues, who draw inspiration from an array of everyday objects.

Such real-world applications are not only fun to study, but “we can really learn things that will be useful for industry and help us understand the everyday world around us. It is also a great way to motivate students to be interested in science,” Reis said.

Trinta anos de eduquês: origem e instrumentos do mal


Artigo de opinião de Guilherme Valente publicado no Público de 30/3/2008:


"O cérebro é uma coisa maravilhosa.
Era bom que todas as pessoas tivessem um."

Anónimo

1. Disse-se que a aluna do Carolina Michaëlis iria ser responsabilizada judicialmente (em Espanha, um juiz acaba de aplicar uma multa pesadíssima aos pais de um aluno que insultou uma professora). Ocultaram e relativizaram enquanto puderam os resultados dos exames com que não conseguiram acabar (arremedo de exames, aliás). Ocultariam e relativizariam enquanto pudessem, usando o natural constrangimento dos docentes atingidos, a indisciplina (que chegaram quase a elogiar), a violência, o regresso à barbárie que se está há trinta anos a promover. Bem-vindo, pois, de fora, o alerta às consciências do procurador-geral da República! Mas é preciso ter presente a origem do mal e a responsabilidade pela situação nas escolas e nas ruas: os Governos, os sucessivos ministérios, a Assembleia, os Presidentes da República, todos nós, afinal, a insensatez inimaginável, o conformismo, o assobiar para o lado, o arranjismo e oportunismo de todos estes anos.

2. Dos instrumentos de disseminação do flagelo, um dos mais perversos e eficazes é, seguramente, o modelo de gestão das escolas. Modelo "democrático", dizia mesmo muito boa gente, confundindo as coisas... É que a escolha da direcção de uma escola deve ser um processo de outra natureza: selecção de mérito num universo geral, e não legítima opção partidária e doutrinária no registo de uma eleição política. A escola deve ser uma meritocracia.

A confusão dos dois planos, a facilidade e a unanimidade como algo tão absurdo e desastroso foi defendido ou aceite dizem muito sobre o estado mental, sobre a passividade de todos nós, o grau de preconceito e complexos das elites - restos de "ismos", só na aparência opostos, acantonados e activos no sistema educativo e mal arrumados no nosso inconsciente.

Conselhos directivos integrados por professores eleitos pelos colegas? A solução perfeita para os sucessivos ministérios imporem o flagelo às escolas, sem que ninguém - sobretudo a nomenclatura e os ministros - fosse responsabilizado por nada (este é um dos objectivos do manhoso modelo de avaliação dos professores agora imposto, só idiota na aparência). Professores a elegerem, muito convenientemente, os colegas que terão de os dirigir, avaliar o seu trabalho, assegurar o cumprimento de objectivos e metas: onde já se viu ou funcionou tal modelo? Conhecem-se a teoria e os resultados. E não é esse o modelo da nossa democracia. O sistema educativo tem de ser uma rede de competência, dedicação e responsabilidade, que cumpre ao Governo avaliar e pela qual tem de responder ao país.

Como é escolhido, por exemplo, o presidente da Universidade de Cornell, uma das dez melhores do mundo? Por uma task force nomeada por um conselho de curadores com mais de cem membros, dos quais só dois são professores e só dois são alunos, eleitos pelos colegas. A maior parte é composta por ex-alunos, eleitos por todos os ex-alunos, estejam onde estiverem, seja qual for a sua nacionalidade.

As escolas precisam de um director responsabilizável, uma direcção com isenção e autoridade, sem constrangimento de afinidades ou dependências de eleição, pessoais, partidárias ou corporativas. Um director provadamente capaz de gerir com rigor os recursos da escola, de impor a disciplina e a autoridade devida ao professor, de acompanhar e apoiar o trabalho dos docentes, escolhido pela sua competência e idoneidade. Um director que responda perante quem o nomeou, para que este possa responder perante o país pela qualidade do sistema educativo. Escolhido, naturalmente, com a intervenção dos participantes no quadro de uma real, responsável e avaliável autonomia das escolas, e apoiado, evidentemente, por estruturas adequadas.

3. A escola do eduquês continuou a ser tão ideológica e praticamente tão amarradamente comandada pelo ministério como era a escola salazarista. Os conselhos directivos, intimidados, convertidos ou instalados na e pela comodidade do facilitismo, quase sempre tão docilmente obedientes como eram a generalidade dos reitores do Estado Novo, escolhidos entre os considerados fiéis ao chefe. Ontem, pretendia-se doutrinar e seleccionar as elites do regime execrável, mas havia quem resistisse. Hoje, a imposição do hipócrita delírio igualitarista desmotiva o mérito e a exigência, adormece a vontade e a ambição, promove a cretinização geral, condena à exclusão os mais desfavorecidos... sem resistência que se veja. Querem mais provas gritantes da natureza desse modelo de gestão, uma imagem reveladora do reino do eduquês? Professores que presidem ou integram, eleitos pelos colegas, há mais de 20 anos as direcções das escolas por onde passaram. Com que resultados, conveniências e atitude? Avaliações...

Basta!

E SE VOLTÁSSEMOS À DOCIMOLOGIA, OU SEJA, À CIÊNCIA DOS EXAMES?

  Em texto que antes publiquei sobre a infindável tragicomédia em que se tornou a classificação dos exames nacionais, disse que ela não se d...