quinta-feira, 28 de maio de 2026

IAGEN E RECONFIGURAÇÃO DO TRABALHO

André Carmo, professor na Universidade de Évora (aqui), tem dedicado muitíssimo tempo e energia a desbravar as implicações da inteligência artificial generativa para a educação, a sociedade, o trabalho. Importa ler o seu mais recente artigo cuja primeira parte foi recentemente publicada no jornal online Maio. 

 

3 comentários:

Anónimo disse...


No caso das escolas portuguesas — EB1, EB2/3, JI e Secundário — os receios principais são reais e merecem análise séria.
O que a IA pode destruir na escola
1. A autoridade intelectual do professor
Durante séculos, o professor era uma das principais fontes de conhecimento. Agora, um aluno pode perguntar a uma IA:
• explicações;
• resumos;
• exercícios;
• redações;
• traduções;
• resolução de problemas.
Isso altera profundamente o papel docente.
2. O esforço cognitivo do aluno
Existe o risco de:
• alunos deixarem de escrever;
• deixarem de interpretar textos;
• dependerem da IA para pensar;
• perderem capacidade argumentativa.
Tal como a calculadora reduziu parte do cálculo mental, a IA pode reduzir parte da elaboração intelectual.
3. A socialização escolar
A escola não serve apenas para transmitir conteúdos. Serve para:
• aprender convivência;
• lidar com frustração;
• cooperar;
• desenvolver empatia;
• construir identidade social.
Se a aprendizagem migrar excessivamente para ambientes digitais mediados por IA, pode surgir:
• isolamento;
• hiperindividualização;
• perda de experiências humanas coletivas.
Aqui existe um paralelo forte com as críticas feitas à televisão e, depois, aos smartphones.
4. A desigualdade educacional
A IA pode ampliar diferenças:
• escolas ricas terão ferramentas avançadas;
• escolas pobres usarão sistemas baratos e automatizados;
• alunos com acompanhamento humano continuarão privilegiados.
Há o risco de transformar parte da educação pública num sistema semi-automatizado de baixo custo.
Mas a IA provavelmente não destruirá completamente a escola
A escola existe por razões que vão além da transmissão de informação.
Mesmo que a IA ensine conteúdos muito bem, continua a faltar:
• presença humana;
• disciplina social;
• mediação emocional;
• exemplos morais;
• construção comunitária.
Uma criança do JI ou do 1.º ciclo não aprende apenas matemática e português. Aprende:
• a esperar a sua vez;
• a brincar;
• a cooperar;
• a gerir conflitos;
• a viver em sociedade.
Nenhuma IA substitui plenamente isso.
O cenário mais provável
O mais provável não é o desaparecimento das escolas, mas a sua transformação profunda.
Os professores podem tornar-se mais:
• orientadores;
• mentores;
• moderadores;
• treinadores de pensamento crítico.
Enquanto a IA ficará encarregada de:
• personalizar exercícios;
• corrigir trabalhos;
• adaptar conteúdos;
• apoiar necessidades especiais.
O verdadeiro risco
O maior perigo talvez não seja tecnológico, mas político e económico.
Se governos decidirem:
• reduzir professores;
• massificar ensino automatizado;
• substituir interação humana por eficiência;
• tratar educação apenas como custo,
então a IA poderá degradar seriamente a escola pública.
O neoludismo contemporâneo surge precisamente dessa desconfiança:
a tecnologia é frequentemente apresentada como inevitável e neutra, quando na verdade reflete escolhas económicas e sociais.
Uma questão central
A questão talvez não seja:
“A IA vai destruir as escolas?”
Mas sim:
“Que tipo de sociedade usará a IA para reforçar a educação humana — e que tipo a usará para cortar custos e substituir relações humanas?”
Essa é uma discussão filosófica, pedagógica e política muito mais profunda do que simplesmente “ser a favor” ou “contra” a tecnologia.

Mário R. Gonçalves disse...

Sem sobranceira repugnância: são, sim, tal e qual velhos do Restelo. Sabemos contudo que há gente a favor e contra os velhos do Restelo, no que aos Descobrimentos e à 'gesta' portuguesa diz respeito. Eu por exemplo acho que els tinham razão: estávamos muito melhor, muito mais desenvolvidos e nivelados com a Europa, não fossem os amaldiçoados Descobrimentos e seguinte colonização. Foi mesmo esse o nosso desastre. Ora, com a IA, já me parece que estamos a falar de uma coisa universal, como a roda, o arado, a imprensa de Gutemberg, a máquina de vapor, o computador e a internet; e sendo assim ser contra a IA é remar contra uma maré planetária, contra a inteligência e criatividade da raça. Sou portanto totalmente a favor; os limites a pôr são os mesmos dos sinais de trânsito nas estradas: STOP, ceda, por aqui não, mais devagar, etc. - mas circular é livre.

Catolico disse...

https://novocatecismocatolico.blogspot.com/

In Memoriam — EDGAR MORIN

Edgar Morin (pseudónimo de Edgar Nahoum), Paris , 8 de Julho de 1921 — 29 de Maio de 2026 Lembrar o seu pensamento: — "O progresso não...