terça-feira, 25 de setembro de 2018

AS PRAXES BESTIAIS


Meu depoimento sobre a praxe publicado na revista de domingo do "Correio da Manhã" em artigo das jornalista Vanessa Fidalgo: 

 Estudei na Universidade de Coimbra entre 1973 e 1978 num tempo em que as praxes estavam interrompidas por “luto académico”. Nunca usei traje académico, que evoca tempos em que a Universidade estava casada com a Igreja. Mas, quando era aluno do liceu, conheci o pavor das trupes vestidas de preto, com tesouras e colheres de pau, que impediam que se saísse à noite. Eram os vampiros da noite! Considero a praxe actual completamente fora do tempo e, nalgumas das suas manifestações, abominável. Vejo passar filas de caloiros de mão dada a gritar impropérios a mando dos veteranos e acho o cortejo uma total estupidez. Não sei como é que tanta gente aceita ser humilhada. Os excessos são crimes, que muitas vezes ficam impunes: lembro os afogamentos na praia do Meco e a queda do muro em Braga. Lembro-me também do caso, mais antigo, de uma aluna da Escola Agrária de Santarém que foi besuntada com excrementos de suíno e, depois de ter sido vítima de sevícias sexuais, pendurada, de cabeça para baixo, em cima de um penico. E lembro-me também de um caso de um estudante da Escola Agrária de Coimbra que ficou paraplégico numa praxe ao escorregar sobre uma vala com bosta. Uma coisa bestial para os autores da ideia, mas que eu acho bestial por ser próprio de bestas.

 Importante: as mulheres são discriminadas nos códigos da praxe, feitos num tempo em que só havia homens no ensino superior. Um Dux veteranorum do Porto defendeu que os "fados e as serenatas são coisas de homens". Segundo ele, a interpretação do fado pelas mulheres na academia "seria inverter os papéis do macho e da fêmea, se as fêmeas fossem fazer serenatas aos homens onde é que íamos chegar?" Parece que há mulheres que aceitam estas restrições. E fico pasmado, pois não percebo a diferença entre isso e a proibição de as mulheres guiarem nalguns países árabes.

1 comentário:

  1. Em memória das vítimas do DUX, para que atos criminosos, cometidos por palhaços loucos, passem a ser severamente punidos:

    O DUX

    Numa tarde fria e húmida de Inverno, perguntei a um velho pescador, de barbas brancas e cachimbo ao canto da boca, que encontrei, sentado e de pernas estendidas, no grande areal de uma praia deserta, contemplando a imensidão do mar, o que ele, como um desgraçado plebeu que era, achava do caso Dux. O pescador impassível, sem desviar por um momento o olhar da linha do horizonte, respondeu-me, com uma voz de trovão:
    - Meu filho, ainda és muito novo para entenderes o sentido da vida, mas como vejo que os rituais praxísticos te consomem a alma, talvez a seguinte parábola te possa ajudar:
    "Num dia quente de verão, um grupo de estudantes de uma "universidade" privada, onde se formam para a vida "licenciados", "mestres" e "doutores", decidiu, sob as ordens do Dux, ir fazer umas palhaçadas estúpidas e perigosas - as chamadas Praxes - para o meio de um bosque mediterrânico de carrascos, oliveiras, pinheiros mansos e vegetação arbustiva cerrada, quase impenetrável, e muito seca. Na qualidade de chefe do grupo, o Dux exigiu aos seus subordinados, entre os quais se contavam alguns pastranos e pastranas, que apanhassem lenha e a amontoassem debaixo de uma oliveira, com mais de quinhentos anos, para que, quando a noite caísse, ele pudesse acender a Grande Fogueira da Praxe.
    Confiando cegamente no Dux, os inocentes segundanistas, digamos assim, cumpriram à risca a sua tarefa, finda a qual o tronco da oliveira, com mais de dois metros de diâmetro, deixou de se ver, pois ficou rodeado por um amontoado de cavacos, giestas e gravetos secos. Regressaram então, todos contentes, para uma casa de emigrante que tinham alugado numa aldeia da serra e que servia de base de apoio aos seus "trabalhos académicos de campo", a sua maneira secreta e codificada de dizer Praxe. Depois de jantarem pizza e muita cerveja, voltaram, a altas horas da noite, muito emocionados e vestidos com túnicas brancas de linho - exceto o Dux, que trajava de capa e batina -, para o seu "bosque sagrado", onde teria lugar a cerimónia à volta da fogueira. Quando estavam a cerca de 3 km do objetivo, o Dux disse que todos deviam vendar os olhos com umas faixas de tecido preto, que era a cor da academia, e depois, ele próprio, sem venda nos olhos, amarrou os segundanistas uns aos outros, pelos pulsos e tornozelos, com umas cordas de nylon muito resistente, mas que lhes permitiam arrastar os pés e seguir atrás do Dux, em fila indiana, muito lentamente e aos tropeções. Foi assim, presos de pés e mãos, que todos se sentaram à volta da Oliveira Sagrada da Praxe, exceto o Dux, que, após queimar com um isqueiro um raminho seco de carrasco, viu, quase instantaneamente, umas pavorosas labaredas de fogo saírem da pira de lenha, mal tendo tempo de fugir a sete pés em direção à barragem do Alto Rabagão, onde mergulhou na água refrescante, salvando-se assim de uma morte certa. Os segundanistas tiveram menos sorte!...
    Alarmados com o fogo no bosque, os aldeões das proximidades chamaram a guarda nacional e os bombeiros que nada mais puderam fazer do que tomar conta da ocorrência e extinguir as chamas...
    Isto passou-se num país ocidental e civilizado, que não era Portugal, e, portanto, o Dux veio a ser julgado por um juiz, de origens plebeias, mas muito teso e honesto, que o condenou por homicídio."

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