domingo, 1 de fevereiro de 2015

CINCO PLANETAS MUITO ANTIGOS

A partir do artigo publicado no Diário de Coimbra.

Imagem artística do sistema Kepler-444, com os seus cinco planetas do tipo terrestre, dois dos quais em trânsito. 
(Crédito: Tiago Campante/Peter Devine)


Há cerca de 13,8 mil milhões de anos ter-se-á iniciado a evolução do Universo em que existimos. Cerca de 380 mil de anos depois de ter ocorrido o evento designado por “Big Bang”, ter-se-ão formado os primeiros átomos e a luz pôde espalhar-se pelo espaço: o universo tinha-se tornado transparente à luz.

Os primeiros átomos, maioritariamente hidrogénio, deram origem à formação das estrelas de primeira geração, muito massivas, brilhantes e com tempos de vida muito curtos (3 milhões de anos, contra os 10 mil milhões para o nosso Sol). A explosão destas primeiras estrelas semeou o universo com o seu futuro. Novas estrelas formaram-se, com tempos de vida mais longos, e agregaram-se em galáxias. A galáxia a que pertencemos, a Via Láctea, ter-se-á formado há 13,6 mil milhões de anos. O nosso sistema solar formou-se há cerca de 4,6 mil milhões de anos. Ter-se-ão formado sistemas planetários antes do nosso? Se sim, há quanto tempo?

Na década de 90 do século passado, descobrimos que o Sol não é a única estrela a ser orbitada por planetas. Outras estrelas também têm planetas e respectivos sistemas planetários. Desde então, já foram descobertos cerca de 2000 planetas (mais precisamente, exoplanetas) a orbitarem outras estrelas da nossa galáxia, mais ou menos distantes de nós.

Mas os avanços na instrumentação astronómica e astrofísica não param de nos surpreender e revolucionar o que julgávamos estabelecido, com as novas descobertas que nos proporcionam.

Agora, graças a dados que a missão espacial Kepler da NASA recolheu ao longo de 4 anos, uma equipa internacional, da qual fazem parte os investigadores do Instituto de Astrofísica e Ciências do Espaço (IA) Vardan Adibekyan, Nuno Santos e Sérgio Sousa, publicou a descoberta do sistema planetário Kepler-444 (ver animação) na edição do dia 27 de Janeiro da revista The Astrophysical Journal (ver artigo).

Este sistema tem cinco planetas, com tamanhos próximos do da Terra, e ter-se-á formado há 11,2 mil milhões de anos, próximo do início da Via Láctea. Quando a Terra se formou, os exoplanetas deste sistema já eram mais velhos do que a idade actual da Terra. Este é por isso o mais antigo sistema estelar conhecido a albergar exoplanetas do tipo terrestre.

Para Vardan Adibekyan, citado no comunicado de imprensa do IA, “a descoberta de um sistema com planetas do tipo terrestre, tão antigo como o Kepler-444, confirma que os primeiros planetas se formaram muito cedo na vida da nossa Galáxia, o que nos dá uma indicação de quando terá começado a era da formação planetária.

Este sistema, situado a pouco mais de 116 anos-luz, é um dos mais próximos observado pelo Kepler, que detectou o quinteto através do método dos trânsitos. Este sistema planetário é extremamente compacto, sendo as órbitas destes exoplanetas 5 vezes menores que a órbita de Mercúrio, o que significa que completam uma translação à volta da estrela em 10 dias ou menos. A estrela do sistema Kepler-444 é uma anã laranja, ligeiramente menor do que o Sol e com cerca de 5000 graus Celsius à superfície (o Sol tem cerca de 6000 graus).

Para o primeiro autor do artigo, o português Tiago Campante, da Universidade de Birmingham, esta descoberta tem implicações profundas nas teorias de formação planetária: “Agora sabemos que planetas do tamanho da Terra se formaram ao longo dos 13,8 mil milhões de anos do Universo, por isso potencialmente, poderão ter sido criadas as condições para o aparecimento de vida desde muito cedo na história do Universo”, pode ler-se no comunicado do IA.

Esta descoberta mostra, por outro lado, que apesar dos enormes avanços no conhecimento do universo, a nossa ignorância é ainda muito grande e temos muitas perguntas para as quais não temos respostas. Humildemente, continuamos a observar a fronteira do desconhecido.


António Piedade

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