sexta-feira, 5 de setembro de 2014

PEDRAS DISTO, DAQUILO E DE MAIS ALGUMA COISA (2)

Texto na continuação deste.

Pedra Furada, no lapiás de Maceira (Montelavar, Sintra)
Entre as pedras mais célebres destaca-se a Pedra de Roseta, um fragmento de uma estela (do grego stela, que significa pedra erguida) egípcia, na qual foram gravados três parágrafos com o mesmo texto (um decreto promulgado em 196 a.C., na cidade de Mênfis). O primeiro, na parte superior, usa os hieróglifos do Egipto antigo; o seguinte, a meio, utiliza a escrita egípcia tardia, ou seja, o demótico; e, por baixo deste, o último está gravado em grego antigo.

A pedra usada nesta relíquia é um ganodiorito, uma rocha afim do granito, encontrada em 1799, na cidade de Rashid (Roseta), no delta do Nilo. Tendo resistido ao tempo e às vicissitudes da história, permitiu decifrar os referidos hieróglifos e, a partir deles, conhecer boa parte de uma civilização milenária. Importante para os muçulmanos, a Pedra Negra é uma das relíquias mais sagradas do Islão. Para os seus seguidores, esta rocha escura, com cerca de 50 cm de diâmetro, exposta ao culto na Kaaba, em Meca, na Arábia, caiu do céu ao tempo de Adão e Eva.

Entre cristãos, o primeiro contacto do catecúmeno com a pedra tem lugar junto à pia baptismal, no geral esculpida em pedra, e no momento em que o celebrante lhe introduz uma pedrinha de sal na boca. Para as crianças da minha geração, a pedra de escrever era aquele pequeno rectângulo de ardósia emoldurado a madeira, na qual, com lápis de pedra, se aprendiam a escrever as primeiras letras e se faziam as primeiras contas e os primeiros bonecos. Da mesma rocha era o quadro-preto, na parede da sala de aula, frente aos alunos, e ser chamado à pedra pelo professor era, para muitos deles, uma dor de barriga. Com o progresso, esta expressão tende a sair da escola, mas perdura, em sentido figurado, como uma prestação de contas por algo de menos correcto que se tenha praticado.

Como topónimos ou designação de sítios com interesse geológico, geográfico, etnográfico ou outro, relacionados com a ideia de pedra, são exemplos Pedra Furada, localidade no concelho de Barcelos, e mais duas, com idêntico nome, no concelho de Sintra, uma na freguesia de Almargem do Bispo e outra na de Montelavar. Como geossítios de interesse pedagógico e turístico, destacam-se a Pedra Furada de Setúbal, a de Maceira (Montelavar, Sintra) e a situada na vizinhança da Lagoa de Óbidos, no extremo do concelho das Caldas da Rainha.

São caprichos da natureza, explicados pela erosão em diferentes afloramentos rochosos: um arenito ferruginoso do Pliocénico, na primeira, um calcário do Cretácico superior, na segunda, e um arenito argiloso do Cretácico inferior, na terceira, também conhecida por Penedo Furado. Há, ainda, merecedoras de destaque, a Pedra da Ursa e a Pedra da Anicha, dois afloramentos rochosos, emergentes das águas do mar, junto à costa, e explicados como residuais da erosão que, constantemente, faz recuar a falésia. A primeira pode ser descrita como um enorme espigão de calcário do Jurássico superior, na ponta do Cabo da Roca (maneira antiga de dizer rocha ou pedra), na imediata vizinhança da Praia da Ursa.

Mais a sul, frente ao Portinho da Arrábida, a segunda é um minúsculo ilhéu de calcário do Miocénico, constituindo uma reserva ecológica marinha característica de litorais catamórficos (rochosos) rodeada de um fundo de areia próprio de um litoral anamórfico, isto é, de praia arenosa. 

Com interesse paleontológico e/ou etnográfico, a desenvolver em textos separados, mais adiante, destacam-se: a Pedra da Mua, nome popular da grande laje de calcário do Jurássico superior com pegadas de dinossáurios saurópodes, no Cabo Espichel, cuja existência só foi cientificamente reconhecida em 1981. Causa de uma lenda vinda do século XIII, está na origem do santuário de Nossa Senhora do Cabo, ali erguido em meados do século XVIII.

Rara curiosidade petrográfica, na área Metropolitana do Porto, digna de relevo como geossítio de interesse pedagógico e turístico, a pedra-parideira, no Geoparque de Arouca, é um granito do soco hercínico com nódulos lenticulares biotíticos; com interesse histórico, a Pedra de Alvidrar, situada entre as Praias da Adraga e da Ursa, no concelho de Sintra, é um enorme lajão calcário do Jurássico superior, bastante frequentado por pescadores; no Alentejo, cada uma com sua história, ligadas à vida da populações locais, a Pedra Alçada, em Santiago de Maior, no concelho do Alandroal, e a Pedra dos Namorados, em São Pedro do Corval, no concelho de Reguengos de Monsaraz, são dois importantes afloramentos graníticos; comuns no norte granítico de Portugal, as pedras bulideiras ou pedras baloiçantes, conhecidas em alguns locais por pedras cavaleiras ou pedras encavaladas, são grandes penedos arredondados que oscilam quando empurrados por mãos humanas; no Algarve , a Pedra Mourinha, exposta numa rua de Portimão, é um grande bloco alongado, de sienito nefelínico, com cerca de 20 toneladas, do tipo de um menhir tombado, proveniente da serra de Monchique. Ligada a uma lenda envolvendo uma princesa moura e um cavaleiro cristão, a sua localização a duas dezenas de quilómetros da origem, continua controversa. Imóvel de interesse público, desde 1946, a Pedra da audiência, no lugar de Quintão, em Avintes, é uma tosca mesa de granito ladeada por bancos da mesma pedra, ali colocada em 1742 para servir de local de julgamentos.

Algumas rochas com nomes consagrados no domínio petrográfico são designadas por expressões populares centradas na palavra pedra. Uma delas, a pedra-mármore deu visibilidade à cidade italiana de Carrara, na Toscana, e às nossas Estremoz e Vila Viçosa. Usada na estatuária e na construção civil, como pedra ornamental [1], é um calcário calcítico transformado por metamorfismo regional, cuja idade se admite compreendida entre 450 e 410 milhões de anos, entre o Ordovícico médio e o Devónico inferior. Na região alentejana que envolve estas duas localidades, o mármore de composição dolomítica é referido em termos populares por pedra-cascável. 

A pedra-de-Ançã é um calcário do Jurássico médio, com cerca de 174 milhões de anos, de cor clara, entre o amarelado e o branco azulado, de textura oolítica, sem veios, muito macia, originária da região de Ançã, no concelho de Cantanhede. A estrutura compacta e muito fina desta pedra facilita grandemente o trabalho de cantaria e escultura desde o tempo da ocupação romana. A sua utilização na arte escultórica ganhou relevo no portal da igreja de Santa Cruz, em Coimbra e no túmulo da Rainha Santa Isabel, no Convento de Santa Clara, a Nova, na mesma cidade. A sua grande qualidade como pedra trabalhável a ponteiro e a cinzel espalhou-se por Espanha e por vários países da Europa. 

Ainda como pedra ornamental, especialmente usada no fabrico ou na manufactura de objectos decorativos, a pedra-sabão é uma rocha metamórfica, muito refractária ao calor, essencialmente constituída por talco, com ocorrências conhecidas no Nordeste Transmontano. Conhecida entre os geólogos por esteatito é um material de baixíssima dureza (1, na escala de Mohs) e, por isso, muito brando, macio e de aspecto saponáceo, facílimo de esculpir. A sua resistência o calor é aproveitada no fabrico de fornos e lareiras.

Na região de Aveiro tem nome a pedra de Eirol, um arenito vermelho, argilo-ferruginoso do Triásico, com cerca de 220 milhões de anos. No léxico estratigráfico português corresponde ao arenito ou grés de Silves. Com ela se fizeram os rebolos de amolar ou afiar facas e ferramentas cortantes e com ela se construíram os castelos de Penela e de Silves. 

Em Mondim de Basto, pedra-amarela refere o granito hercínico de duas micas, de grão médio e grosseiro com tendência porfiróide, amarelecido pelos hidróxidos de ferro resultantes da alteração da biotite.

Muito diferente, a pedra-pomes é uma rocha vulcânica piroclástica, fruto de erupções explosivas violentas, formada por arrefecimento rápido de lava ácida, riolítica. Muito vesiculada, como uma espuma, flutua na água. Comum na ilha de São Miguel, nos Açores, ocorre associada às grandes Caldeiras das Sete Cidades, do Fogo e das Furnas. Nome antigo, pedra-pomes é sinónima de pomito, termo que radica no latim vulgar, pomice. Para os açorianos, pedra-fervente é a expressão pela qual designam os blocos de lava muito vesiculados e fumegantes, acabados de extrudir do fundo do mar, que sobem à superfície e aí flutuam por algum tempo.

As velhas pedras de afiar ou pedras de amolar, quer as de uso caseiro, quer os atrás referidos rebolos com que os carpinteiros, afiavam os ferros das plainas, os formões e os badames, eram arenitos de grão suficientemente homogéneo e fino. Eram ainda xistos argilosos e ardósias que, por terem uma granularidade finíssima (micrométrica), acabavam por dar o fio desejado às ferramentas. Permitia, ainda, aos sapateiros afiar facas e afilar sovelas.

O progresso trouxe-nos a trituração de minerais suficientemente duros, como o quartzo ou o corindo, para obtenção de granulados que, aglutinados, reproduzem, com vantagens, os produtos naturais do antigamente. Trouxe-nos, ainda, o carborundo, material sintético composto de carbureto de silício (SiC), que, igualmente triturado e aglutinado, integra muitos dos afiadores disponíveis no mercado. A pedra do sapateiro era e ainda é para os poucos que restam deste ofício artesanal, um calhau rolado de praia ou de rio, no geral, de quartzito, sobre o qual o aprendiz e, na falta deste, o oficial martelava a sola, depois de convenientemente demolhada.

Entre ourives e negociantes de metais preciosos, designa-se por pedra-de-toque certas rochas (e mais recentemente outros materiais artificiais) que têm a particularidade de serem inertes aos ácidos e suficientemente duras e escuras, como são o basalto, o lidito, ou pedra-da-Lídia, e o sílex negro. Riscando com uma técnica própria, ou fazendo a tocadura (como se diz na gíria dos ourives), da amostra sobre uma destas pedras, e usando padrões de pontas de metal como elementos visuais de comparação, pode testar-se a qualidade das ligas de ouro e identificar-se outros metais como a prata e a platina, usando, para o efeito, ácidos adequados.

Noutro domínio, a arte e a tecnologia de impressão, tiveram um notável avanço ao longo de século XIX com a descoberta, pelo Checo Aloysius Senefelder (1771-1834), da litogravura, Esta modalidade de impressão, caída em desuso, utiliza um calcário afanítico, de grão micrométrico, que se tornou conhecido por pedra litográfica, sobre a qual se escrevia ou desenhava com uma tinta gordurosa (cera, sabão e negro de fumo), a que se seguia o ataque da pedra com um ácido. Restando em relevo, os grafismos protegidos sob a tinta, permitiam a impressão.

Noutra actividade, a pedra moleira, utilizada no passado na feitura de mós para moer cereais, é uma rocha essencialmente siliciosa, no tipo da meuilière dos autores franceses. De uso igualmente antigo e pelo facto de incendiar a pólvora em mosquetes, pistolas e bacamartes, o sílex ou pederneira ficou conhecido por pedra-de-fogo. 

Nota:
[1] Pedra ornamental – Na gíria gemológica esta expressão é usada como sinónimo de pedra dura

Este texto continua aqui.
Galopim de Carvalho

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