sábado, 26 de dezembro de 2009

A propósito de ano novo...

No Réveillon, termo francês que evidencia o despertar para uma nova etapa, celebra-se no Ocidente a entrada no Ano-Novo, de acordo com um calendário anual.

Em Roma, no período da república, os anos não eram contados, mas nomeados em homenagem aos cônsules. Contudo, é romano o calendário ocidental que fixa o dia 1 de Janeiro como o primeiro dia do ano, segundo um decreto do governador Júlio César, presumivelmente em 46 a.C.

Janeiro é o mês dedicado a Jano, divindade representada com duas cabeças, uma virada para a frente e outra para trás, que nunca se cruzavam, mas que indiciavam a importância do Passado e Futuro no caminho humano.

Jano era, deste modo, o deus tutelar de todos os começos e patrono de todos os finais.

Consta que o seu templo se abria enquanto durassem os conflitos bélicos, para ser encerrado apenas em tempos de paz, numa tradição que perdurou até ao século IV d.C. Este templo, erguido em Roma na região do Fórum, teria permanecido encerrado por longos anos durante o pacífico reinado de Numa Pompílio; uma vez reaberto, só voltou a ser fechado após a segunda guerra púnica, e mais tarde já no reinado de Augusto.

Supostamente o costume das populares Janeiras conterá memórias da saudação que os romanos davam a Jano ao entoarem cânticos, como um modo de propiciar a boa fortuna e ao trocarem também um bolo de frutos secos a que acrescentavam pequenas lembranças simbólicas.

ORDEM E CAOS NA MATEMÁTICA

Do meu livro Curiosidade Apaixonada (Gradiva, 2005) uma recensão do livro de Gregory Chaitin "Conversas com um Matemático" (Gradiva, 2003):

"Dieu a choisi celuy qui est... le plus simple en hypotheses et le plus riche en phenomenes."

[Deus escolheu o mundo que é o mais simples em hipóteses e o mais rico em fenómenos.]

Gottfried Leibniz, Discours de métaphysique, VI, 1686 (edição portuguesa: “Discursos de Metafísica”, Colibri, 1995).

Esta asserção do filósofo alemão Leibniz, escrita originalmente em francês, aparece no frontispício da página Web do matemático norte-americano Gregory Chaitin, investigador no Thomas J. Watson Center da IBM, em Nova Iorque. Chaitin é o autor da obra “Conversas com um Matemático”, subintitulada “Matemática, Arte, Ciência e os Limites da Razão”, que saiu em português do prelo da Gradiva. A fim de efectuar o lançamento desse livro, Chaitin esteve uma semana entre nós, numa iniciativa da Gradiva apoiada pela IBM, proferindo um seminário não técnico no Instituto de Investigação Interdisciplinar da Universidade de Coimbra que sugestivamente se intitulou “É o Universo inteligível?”.

Por que é que Chaitin gosta de citar Leibniz? Simplesmente porque considera Leibniz o percursor da “teoria algorítmica da complexidade” de que Chaitin é não só autor como também incansável arauto.

Para Leibniz vivemos no melhor dos mundos possíveis (uma ideia satirizada pelo seu rival francês Voltaire, no romance “Candide”) e o “melhor” significa aqui a ligação entre o “mínimo de hipóteses” e a “máxima riqueza de fenómenos”. Para ele, na linha do racionalismo da Grécia Antiga, o mundo era inteligível: podia compreender-se com base num certo conjunto de leis simples – a palavra simples é aqui essencial porque leis demasiado complicadas conduzem, como é óbvio, à ininteligibilidade. Mas, por outro lado, o mundo era dificilmente inteligível, dada a imensa variedade de fenómenos que a Natureza nos oferece. As leis simples estão tão bem escondidas pela complexidade das manifestações naturais que é quase um milagre a descoberta humana das leis da Natureza. Foi Einstein quem comentou que o “mais ininteligível do Universo era o facto de ele ser inteligível”.

Leibniz, com formação em direito, foi não só um filósofo extraordinário como um matemático (autor do cálculo diferencial e integral e da linguagem binária usada hoje pelos computadores), um físico (estudou mecânica e óptica) e um engenheiro (construiu uma das primeiras máquinas de calcular). Foi talvez por temer ser ensombrado pelo génio de Leibniz que Newton e seus mais fiéis amigos polemizaram longa e asperamente com ele. Hoje em dia, Chaitin encontra em Leibniz a premonição das ideias que reclama sobre complexidade. Segundo o matemático norte-americano, a complexidade é medida pelo tamanho do programa computacional que a produz. Um programa curto pode originar resultados complexos. Mas um programa longo produzirá uma complexidade maior. Escreveu Leibniz, há mais de três séculos, no seu «Tratado de Metafísica» (transcreve-se o original francês não por presunçosa erudição, mas simplesmente porque tem outro “som”):

"Mais quand une regle est fort composée, ce qui luy est conforme passe pour irrégulier". [Quando uma regra é muito complicada, o seu resultado parece caótico].

Os físicos do século XIX criaram um conceito novo para descrever o caos. É a entropia: um valor elevado de entropia deve ser associado a sistemas onde reina o caos, a sistemas de elevada complexidade. E o norte-americano Claude Shannon, a trabalhar para a Bell Telephones nos anos 40 do século XX, associou entropia com falta de informação.

Agora, Chaitin vai mais longe ao dizer que a entropia se pode obter do tamanho de um programa. Se, com Shannon, a teoria da informação se liga à ciência termodinâmica, com Chaitin são as ciências da computação que se vêem ligadas à mesma ciência, abrindo uma fecunda visão interdisciplinar. Mais ainda: como as ciências da computação estão intimamente ligadas a problemas fundamentais de matemática (basta lembrar que os problemas do funcionamento de autómatos investigados pelo inglês Alan Turing têm relação directa com o teorema da incompletude do austríaco Kurt Goedel), Chaitin vai procurar iluminar as bases da matemática com noções termodinâmicas, como a de aleatoriedade, que pareciam completamente estranhas a essa disciplina.

Os matemáticos estranharam, antes de entranhar. Numa das interessantes entrevistas incluídas no seu livro mais recente, Chaitin exprime assim a reacção dos seus colegas matemáticos perante as novas propostas:

“...Os matemáticos acham que não pode haver qualquer aleatoriedade! Uma afirmação matemática ou é verdadeira ou é falsa, não pode ter 50% de probabilidade de ser verdadeira. Os matemáticos acham que têm de acreditar na verdade absoluta. Os físicos, por outro lado, acreditam na aleatoriedade. A aleatoriedade é um dos temas básicos da física do século XX [a mecânica quântica, rejeitada por Einstein quando disse que Deus não jogava aos dados com o Universo]. Por isso, os físicos deliciam-se com o meu trabalho. (...) Os físicos sentem-se muito mais à vontade com as minha ideias do que os matemáticos, porque peguei numa ideia da física, que é a aleatoriedade, e descobri-a na lógica matemática. Mas as pessoas que trabalham em lógica matemática não gostam disso, não compreendem a aleatoriedade”.

Ora aqui está um bom exemplo do modo como a moderna ciência se faz nos intervalos interdisciplinares. Uma ideia do mundo da física foi inseminada com sucesso no mundo da matemática. Alguma matemática passou a ser feita à moda da física. Para ver que a filosofia não pode passar incólume, basta ler Leibniz:

“Sans les mathématiques on ne pénètre point au fond de la philosophie. Sans la philosophie on ne pénètre point au fond des mathématiques. Sans les deux on ne pénètre au fond de rien”
[“Sem a matemática não podemos penetrar no fundo da filosofia. Sem a filosofia não podemos penetrar no fundo da matemática. E sem as duas não penetramos no fundo de nada”].

Surgem, portanto e imediatamente, consequências filosóficas. De resto, novas ideias epistemológicas surgem sempre que duas ou mais disciplinas se aproximam e se intersectam.

Amante do saber, o matemático Chaitin vai ao encontro da filosofia: ele é uma espécie de Leibniz dos tempos modernos!

ARTE E MATEMÁTICA

Informação recebida do Robotarium:

Leonel Moura, Pinturas Voronoi
Em exposição no espaço Robotarium na LxFactory, Lisboa, até 31 de Janeiro de 2010, todos os dias das 10 às 18:30 horas
T: 213625286

Realizada em 2002 a série de pinturas Voronoi baseia-se nos diagramas do mesmo nome criados pelo matemático russo Georgy Voronoy (1868-1908). Trata-se de uma geometria celular, dinâmica, que encontra múltiplas aplicações na ciência, desde a biologia à meteorologia e inúmeros modelos de crescimento de cristais, manchas de poluição, desenvolvimento urbano, contaminação social e cultural.

Algumas destas pinturas fazem recordar o “ambiente” Mondrian, mas agora numa versão caótica mais apropriada ao nosso tempo.

KOESTLER, UMA VIDA DO SÉCULO XX


"Arthur Koestler, Man of Darkness", é o título de um artigo acabado de sair no suplemento de livros do "The New York Times". Sendo seu autor é Christopher Caldwell, trata-se de uma recensão do livro "The Literary and Political Odyssey of a Twentieth-Century Skeptic." de Michael Scammell, (Random House), uma nova biografia do escritor húngaro Arthur Koestler, autor de The Sleepwalkers ("Os Sonâmbulos"), uma notável história da astronomia. Contar a vida dele, com o fim trágico que é conhecido, é contar a história do século passado.

Inicia-se assim:
No other writer of the 20th century had Arthur Koestler’s knack for doing odd things, crossing paths with important people and being present when disaster struck. As a 27-year-old Communist he spent the famine winter of 1932-33 in Khar­kov, amid millions of starving Ukrainians. Rushing southward through France ahead of the invading Nazi armies in 1940, he ran into the philosopher Walter Benjamin, who shared with him half the morphine tablets Benjamin would use, weeks later, to commit suicide. The Harvard drug guru Timothy Leary gave Koestler psilocybin in the mid-1960s, and Margaret Thatcher solicited his advice in her 1979 election campaign. Simone de Beauvoir slept with him but came to hate him, and in a fictional portrait described a blazing intelligence and a personality capable of sweeping people off their feet.
E o resto pode ser lido no link indicado no cimo.

Na imagem: Koestler em 1931 numa viagem ao pólo Norte a bordo de um Zeppelin.

WARNING! CELL PHONES ARE FOUND TO EMIT BULLSHIT

Ainda os supostos perigos dos telemóveis no habitual destaque semanal que damos à coluna do físico Robert Park, que semanalmente vai denunciando tretas:

"From San Francisco to Maine there is a campaign to require cancer warning labels on cell phones. Fact: cell phone radiation doesn’t cause cancer. Cancer agents break chemical bonds, creating mutant strands of DNA. Microwave photons cannot break chemical bonds. This is not debatable. In 1989, Paul Brodeur, a staff writer for the New Yorker, claimed in a series of sensational articles that electromagnetic fields from power lines cause childhood leukemia. Brodeur, however, understood none of this and when virtually every scientist agreed that it was impossible, Brodeur took their unanimity as proof of a massive cover-up. Other anti-science know-nothings followed Brodeur’s lead, shifting their attack to cell phone radiation. Cell phones have since spread to almost the entire population, but with no corresponding increase in brain cancer. Case closed."

Robert Park

HUMOR: DESIGN INTELIGENTE


Como está a acabar o Ano Darwin, fica mais um "cartoon" sobre evolução.

sexta-feira, 25 de dezembro de 2009

"O conto de Natal em Portugal"

A literatura ocidental tem-se deixado influenciar pela pluralidade de significados que o Natal adquiriu ao longo do tempo: o teatro, o conto e a poesia dão-lhe destaque.

Vasco Graça Moura, numa incursão pela literatura portuguesa, revela-nos textos e autores que, desde o século XV até ao presente, têm captado e explorado esses significados.
Vale a pena ler a Antologia em que apresenta essa incursão e da qual reproduzo, de seguida, as duas primeiras páginas.

“Como é natural, as referências ao Natal na nossa literatura começam por registos de uma intensa devoção e só muito mais tarde se preocupam com a transposição de celebração religiosa e do seu sentido transcendente para o plano civil de uma comunhão festiva, familiar e universal, necessariamente ligada à ideia de paz na terra e reconciliação entre os homens.

É na poesia e no teatro que desponta literariamente aquela exaltação religiosa, com mestre André Dias (1348-1437), e depois nalguns auto vicentinos de devoção, para não parar mais, até ao nosso tempo: do Maneirismo, no Barroco, no Romantismo e daí em diante, até hoje. Basta recordar, mais ou menos ao acaso, poetas como António Ferreira, Frei Agostinho da Cruz, Diogo Bernardes, Rodrigues Lobo, D. Francisco Manuel de Melo, Jerónimo Baía, Correia Garção, Reis Quinta, Cruz e Silva, Bocage, Almeida Garrett, Castilho, António Nobre, Gomes Leal, Fernando Pessoa, Vitorino Nemésio, Miguel Torga, Álvaro Feijó, António Gedeão, David Mourão-Ferreira e tantos outros…, para se ver que o «cancioneiro de Natal» lusitano é muito abundante e variadíssimo.

Por sinal que é provavelmente com um célebre soneto de D. Francisco Manuel de Melo, «De consoada a uma sua prima», que o lado da celebração familiar e afectiva da quadra natalícia, acompanhada da troca de presentes, surge na nossa literatura, com a particularidade de ser escrito na prisão e, portanto, de contrapor um estado de afastamento, de solidão e de tristeza (…) a uma época do ano que era tradicionalmente de jubilosa reunião da família.

Mas ainda no século anterior, a pós-vicentina Prática dos Compadres de António Ribeiro Chiado, já descreve, de modo muito colorido, no pitoresco diálogo entre o Cavaleiro e o Compadre, os usos e folguedos entre familiares e vizinhos, a propósito da ceia de Natal e da missa do galo.

Isto tinha razões muito antigas. O Padre Mário Martins explica a dramatização popular na liturgia do Natal a partir de uma ideia de presépio que «vinha de longe, muito antes de São Francisco de Assis» e observa que na «Idade Média (…) nem tudo era edificante, pela festa do nascimento de Jesus". Em 1473, um concílio de Aranda (…) fala-nos de representações, mascaradas, figuras monstruosas e versos indecentes (…) que vinham a público, nas igrejas, por ocasião do Natal, da festa dos Santos Inocentes, São João Baptista, etc. (…).

Com pouco desfasamento em relação à poesia e ao teatro (e também às artes plásticas, do Vasco Fernandes da Adoração dos Pastores até ao Machado de Castro dos presépios), na nossa tradição cultural as referências importantes ao Natal, em prosa literariamente consistente, podem ser detectadas já em finais do século XV, n’O livro de Vita Christi em lingoagem português, tradução da obra de Ludolfo de Saxónia mandada fazer por D. João II e por sua mulher, a rainha D. Leonor (…).”

Referência completa: Graça Moura, Vasco (2003). Gloria in Excelsis: Histórias Portuguesas de Natal (Antologia: apresentação e selecção). Porto: Colecção Mil Folhas (Jornal Público), páginas 5 e 6.

Imagem. Natividade, Painel de azulejos portugueses (1746, 1754) - Igreja Basílica do Senhor do Bonfim, São Salvador, Bahia. Encontrado em: http://peregrinacultural.wordpress.com/2008/12/18/canto-de-natal-poesia-de-manuel-bandeira/

E O MENINO JESUS SABE FÍSICA?


A resposta também já foi dada neste blogue: aqui.

Na imagem: Max Ernst - Virgem sovando o menino Jesus perante três testemunhas: André Breton, Paul Éluard e o pintor

O PAI NATAL EXISTE?


A resposta já foi dada num post publicado há algum tempo neste blogue. Recordamo-la aqui.

quinta-feira, 24 de dezembro de 2009

O MEU NATAL DE ANTIGAMENTE

Um poema "temperado com música" enviado por quem tem a mestria de combinar as duas artes. Obrigada Paulo Rato.

O poema: O meu Natal de Antigamente, de Teresa Rita Lopes

O MEU NATAL DE ANTIGAMENTE

Quando era menina
não havia Pai Natal nem Árvore de Natal.
Armava-se o presépio com chão de musgo
rochas de cortiça virgem ervas a valer
pedrinhas de verdade
e searinhas que se semeavam em pires e latas vazias
no dia 8 de Dezembro
e eram o pequeno milagre o primeiro
a despontar dos grãos de trigo e a crescer todos os dias.
As criaturas do presépio eram de compra
mas também moldei algumas em barro fresco.
Uma vez uma das minhas tias fez casas e igrejinhas de papel
e acendemos velas lá dentro.
Foi um deslumbramento a luz a sair pelas janelinhas!
Mas ardeu tudo de repente.
Desde então só a lamparina de azeite continuou a alumiar
esse parco mundo pobre.

No meu Natal de antigamente havia menos presentes.
Os meninos não exigiam esses brinquedos extrabíblicos:
computadores, jogos de computadores, cêdêroms, sei lá.
Nem o Menino Jesus podia com tanto peso!
Sim, porque no meu Natal de antigamente era o Menino Jesus
quem dava as prendas.
Púnhamos, na véspera, o sapatinho na chaminé
mas tínhamos que ir para a cama esperar pela manhã
porque Ele só descia pela calada da noite
se ninguém estivesse à espreita
(hoje o Pai Natal não tem esses pudores).
Eu imaginava-O a saltar das palhinhas
nuzinho em pêlo
e a Nossa Senhora a agasalhá-Lo logo com a sua capa.
E lá ia Ele
Como um menino pobre enrolado no casaco do pai
a contentar todas as crianças do mundo.
O Pai Natal, esse, foi encarregado (não sei por quem)
de dar presentes a pequenos e grandes.
Com o Menino Jesus tudo ficava entre meninos.
e se a prenda não agradava
a gente fazia-lhe uma careta
e até, à socapa, chamava-lhe um nome feio.

O Pai Natal é um palhaço cheio de postiços:
barba bigode cabeleira
até a barriga é uma almofadinha.
E vai à televisão convencer-nos a comprar coisas.
Agora o Natal antecipa o Carnaval.
O Menino Jesus, esse não! nunca ia à televisão
(que para dizer a verdade não existia ainda.)

Mas que menino de hoje trocaria o seu Pai Natal
(gerente de um supermercado de prendas)
pelo meu Menino Jesus
a tiritar nas palhas?

Teresa Rita Lopes


A música: Um pastor vindo de longe, de Fernando Valente, sobre uma melodia tradicional portuguesa, numa interpretação de: Sílvia Correia Mateus, soprano; Coro da Sé Catedral do Porto; Octeto de Flautas de Bisel; Orquestra Sinfónica da Póvoa De Varzim; direcção de Osvaldo Ferreira.

Sobre o consumismo desenfreado



Postal electrónico de Natal realizado no âmbito da cadeira de Projecto II, do curso Design da Universidade de Aveiro. Este postal visa os problemas do excesso de consumo que se vão apoderando desenfreadamente da nossa sociedade, tendo por base o conceito de "prosumer".

Sobre o ritmo do tempo


Partilhamos uma das mais interessantes mensagens de fim de ano que recebemos. Veio do jornalista estudioso do tempo Fernando Correia de Oliveira:

"A vida tem na aldeia um ritmo que a cidade nunca poderá entender. Cada compasso, aqui, dura um ano certo. Porque se mata o porco só pelo Natal, se os salpicões ficam salgados passam-se trezentos e sessenta e cinco dias a repetir:
- Os salpicões ficaram salgados.
A correcção apenas se poderá fazer no ano seguinte. Cada semente que a mão lança à terra, cada árvore enxertada, cada lagar de vinho, prendem o homem a um pelourinho de expiação, de doze meses. Desde que haja engano numa realização, só na próxima sementeira, época ou colheita se poderá retomar a liberdade, para de novo semear, enxertar e pisar -- e apagar da própria lembrança e da dos vizinhos o erro vital cometido."
Miguel Torga - Diário IV

Nesta época de tradicional regresso às origens, às raízes, votos de Boas Festas. Siga o seu ritmo, seja ele qual for.

Fernando Correia de Oliveira

quarta-feira, 23 de dezembro de 2009

Portugal prolonga ano internacional da astronomia


Informação recebida da caixa de correio do De Rerum Natura (na imagem Júpiter e as luas galilaicas):

"Portugal vai prolongar as comemorações do Ano Internacional da Astronomia (AIA) até Março. Com 1700 actividades em agenda e a colaboração de 370 instituições, o país tem sido um dos mais activos do mundo.

Embora o ano dedicado aos grandes temas do Universo termine por todo o globo no início de Janeiro, em Portugal continuarão a multiplicar-se as actividades de divulgação, com o objectivo de dar a conhecer a Astronomia ao grande público.

Actividades a reter:

No nascer de 2010, os céus do Funchal vão homenagear o Universo. O tradicional fogo de artifício da passagem de ano terá este ano como tema a Astronomia.

Até ao dia 22 de Janeiro, estará em exibição na Torre do Tombo, em Lisboa, uma exposição de manuscritos astronómicos - Registos do Céu - Astronomia em Manuscritos da Torre do Tombo - que testemunham como Portugal, no tempo de Galileu, se mantinha na linha da frente na investigação do Universo.

Para descobrir mais sobre os astrónomos portugueses do passado, o público pode ainda visitar, até ao dia 30 de Abril, a exposição Medir os Céus para Dominar a Terra - A Astronomia na Escola Politécnica de Lisboa, 1837-1911, patente no Museu da Ciência da Universidade de Lisboa.

Entretanto, continua a decorrer, o concurso nacional Astronomia Artística, que desafia todos os alunos do Ensino Básico e Secundário a criarem obras de arte a partir de temas ligados ao Universo, seja por intermédio das artes plásticas, multimédia, conto, poesia ou até da música. O objectivo é promover o diálogo entre a Arte e a Ciência. Os trabalhos terão de ser entregues até ao dia 31 de Janeiro de 2010. Mais informações estão disponíveis aqui.

O AIA foi decretado pela Organização das Nações Unidas, precisamente no ano em que se comemora os 400 anos das descobertas astronómicas de Galileu Galilei. Em Portugal é promovido a nível nacional pela Sociedade Portuguesa de Astronomia, com o apoio da Fundação para a Ciência e a Tecnologia (FCT), da Fundação Calouste Gulbenkian, do Museu da Ciência da Universidade de Coimbra, da Agência Nacional Ciência Viva e da European Astronomical Society (EAS).

Uma investigadora mexicana em Portugal

Ivette Pacheco no programa Nós:


E para algo completamente diferente: a Ivette também é uma das Cientistas de Pé.

Feliz Natal e Bom Ano de 2010

Habituei-me a considerar as festas natalícias como uma altura em que todos renovamos a esperança no nosso futuro colectivo. É muito mais do que uma data religiosa, que só tem significado para os crentes como eu. É um momento de paragem e reflexão sobre a caminhada que fizemos desde o ínicio dos tempos. É sempre nessa perspectiva que envio os meus desejos de boas festas e feliz ano novo.

A verdade é que, quando formos capazes de perceber que não existe castigo, nem prémio, que não valeram a pena os caminhos curtos e obscuros, quando percebermos que estamos num processo e que a nossa missão é deixar melhor do que encontrámos, sendo felizes, veremos quão importante é esse valor a que chamamos integridade.

Muitas coisas valem a pena, porque nos fazem sorrir. Outras não, porque nos distraem do essencial.

Estas são algumas das coisas que me fizeram sorrir em 2009.


Discurso de abertura do ano lectivo nos EUA (Barack Obama):


Missão STS-129 do Space Shuttle (NASA):


Uma música (Caetano Veloso):

(só ouvi esta interpretação em 2009)

Uma foto "Saturno" (Cassini, 2009):

(Retirado daqui)

Dois livros "O Relatório de Brodeck" (Philippe Claudel, ASA) e "Mentira" (Enrique de Hériz, Dom Quixote):


Um filme, aliás dois, "Avatar" (James Cameron) e "Los Abrazos Rotos" (Pedro Almodóvar):




Uma peça de teatro "Este Oeste Éden" (Abel Neves):


Link: http://weblog.aescoladanoite.pt/?cat=1

Um evento internacional de 2009 "Prémio Nobel da Paz" (Barack Obama):

Evento nacional de 2009 (A Universidade de Coimbra é, mais uma vez, a melhor universidade do país como revela o ranking do jornal "The Times"). Como é viver em Coimbra (Expresso.TV):


Todos os 3 vídeos aqui.

Um evento pessoal de 2009 (Abertura da 1ª fase do iParque com Cavaco Silva):

Uma palestra no Museu da Ciência de Coimbra, que fui repetindo por escolas e que deu origem a um livro:


Um momento desportivo "Desmarets ACREDITOU" (no jogo Guimarães-Braga):


Uma tarde de verão com atletismo (com a Martha, a Rita e a Beatriz, entre muitos outros como o Artur Carvalho, a Gisela Cruz e a Paula Simões):


Feliz Natal. Bom Ano Novo.
:-)

Ps:
Outros Cartões de Natal ainda muito actuais:
http://robotics.dem.uc.pt/natal2006/
e
http://robotics.dem.uc.pt/natal2008/
/Ds

terça-feira, 22 de dezembro de 2009

A FORMAÇÃO DE PROFESSORES AO SABOR DAS MARÉS


“A desistência das elites, substituída por uma casta de medíocres, transformou-nos numa espécie de carpideiras” (Baptista-Bastos, escritor e jornalista).

Esta “desistência das elites” tem dado azo a que vozes vindas de estratos profissionais sem ligação directa ao ensino se manifestem publicamente, enquanto os professores formados por universidades parecem viver numa espécie de apatia generalizada. Das vozes mais contundentes, sobressai, sem dúvida, a de Medina Carreira, que não perde a oportunidade em chamar a atenção para a importância de uma educação que separe o trigo do joio: “Isto de sermos todos iguais é uma trafulhice” (Revista Expresso, 24/10/2009).

Recuando ao ano de 2004, cito uma entrevista televisiva em que, por seu lado, o economista Silva Lopes dá conta da sua preocupação com o lamentável estado da educação nacional. Dela recolho uns tantos excertos: ”É um desastre completo. Nem daqui a 30 ou 40 anos nos livramos dos erros que andamos a fazer hoje. Sobretudo no fim da carreira temos alguns dos professores primários mais bem pagos da Europa. Nunca ninguém me explicou por que não há concursos verdadeiros para professores, por que é que se utilizam as notas das universidades, venham eles de uma escola boa e exigente ou de uma escola perdulária nas notas”.

Este statu quo, torna-se forçoso dizê-lo, encontrou acolhimento nos próprios licenciados por faculdades que se venderam por um “prato de lentilhas” concorrendo para a docência de escolas superiores de educação que iam sendo criadas, a eito, pelo país fora. Chamei a atenção, várias vezes, para esta situação merecedora, por parte de um professor do politécnico, do seguinte protesto: “Considero absolutamente lamentável o artigo da autoria de um membro da direcção do Sindicato Nacional dos Professores Licenciados. Utilizando uma linguagem belicista com o propósito de mobilizar os estudantes universitários para uma espécie de guerra santa a fazer aos estudantes do ensino politécnico, o autor acaba por tornar visível a xenofobia académica que tem vindo a alimentar algumas (repito, algumas) das posições através das quais se recusa, liminarmente, às ESE’s a possibilidade de formarem professores para leccionar no 3.º ciclo do ensino básico” (Público, Carta ao Director, 24/12/96).

Por o artigo ser da minha autoria não podia deixar de justificar a razão da minha posição. Assim, respondi com um artigo de opinião intitulado “Uma Questão de Honra”, de que transcrevo parte: “Mas como eu me sinto feliz e orgulhoso pelo reconhecimento público de que tenho sido um esforçado centurião (aliás, desde 87) da recusa em ESEs poderem formar professores para o 3.º ciclo do ensino básico. Nunca me perdoaria a mim próprio deixar que os estudantes universitários pudessem ser apanhados desprevenidos nas teias que à sorrelfa se teciam nos gabinetes da 5 de Outubro para lhes usurpar um mercado de trabalho já saturado e da sua natural pertença. E porque, com escrevi, em artigo anterior, referindo-me, respectivamente, aos universitários e aos alunos do politécnico, ‘uns são os invadidos e outros os invasores’, tenho que aceitar a acusação que me é feita de ‘xenofobia académica’, mas que colhe nobre exemplo nos franceses que durante a II Guerra Mundial lutaram contra os alemães nas forças da Resistência, enquanto compatriotas seus colaboravam com os invasores. Nesta perspectiva, portanto, a minha ‘xenofobia académica’, mais do que uma mera opção, deve ser considerada uma questão de honra” (Público, 01/02/2007).

Tempos depois, foi a direcção do Sindicato Nacional dos Professores Licenciados recebida em audiência pela então secretária de Estado da Educação Ana Benavente. Aproveitando a ocasião, levantei esta questão. Fazendo jus à proverbial ambiguidade dos políticos, “bamboleando três vezes a cabeça como quem prefacia uma revelação ponderosa” (Camilo) não deixou ela de mostrar um ar agastado. Ao recordar-lhe que a Lei de Bases do Sistema Educativo contemplava, apenas, a atribuição dessa docência a diplomas universitários, sem se dar por achada, retorquiu: “Mas a lei muda-se de um dia para o outro!”

Sabia do que falava. Numa segunda alteração à Lei de Bases do Sistema Educativo, Lei n.º 49/2005, de 30 de Agosto, sendo Valter Lemos, antigo professor da Escola Superior de Educação de Castelo Branco, secretário de Estado da Educação, foi estabelecido no respectivo ponto 3, do artigo 34.º, do respectivo anexo: “A formação de educadores de infância e dos professores dos 1.º, 2.º e 3.º ciclos do ensino básico realiza-se em escolas superiores de educação e em estabelecimentos de ensino universitário”. Com esta promiscuidade formativa, através de faculdades e de escolas superiores de educação, corre-se o risco da universidade vir a diminuir a exigência do respectivo ensino para evitar que os seus alunos sejam preteridos por alunos saídos das escolas superiores de educação nos concursos para a docência em que conta a classificação final de curso.

A factura desta eventual baixa de qualidade na formação dos professores saídos das faculdades será paga por um país que parece conviver bem com a mediocridade do ensino fomentando-a, até, para além da própria decência, com passagens até ao 9.º ano de escolaridade, com finalidades meramente estatísticas de uma qualidade que não existe perante a apatia da própria opinião pública porque, como escreveu Simone de Beauvoir, “o mais escandaloso dos escândalos é que nos habituamos a eles”.

Sendo ministra da Educação Isabel Alçada e presidente do Conselho Nacional de Educação Ana Maria Bettencourt, as duas professoras das Escolas Superiores de Educação, respectivamente, de Lisboa e de Setúbal, difícil me parece que consigam subtrair-se ao fascínio de serem juízes em causa própria, tornando, assim, possível que a preparação dos professores do ensino secundário seja realizada, também ela, em escolas superiores de educação, desvirtuando, com isso e uma vez mais, o princípio legal que presidiu à criação dessas escolas: formarem educadores de infância e professores do 1.º ciclo do ensino básico detentores do diploma académico de bacharel. Trata-se apenas de uma questão de marés!

Cérebros, mulheres giras e cerveja barata


Artigo de opinião de David Marçal, publicado no "Público" de hoje:

Segundo um artigo recente publicado noutro jornal, os motivos apontados por dez investigadores estrangeiros para trabalharem em Portugal são a praia, a comida, as mulheres giras e a cerveja barata. E, de acordo com vários relatórios de organizações internacionais, Portugal é também o país europeu que mais exporta recursos humanos qualificados, o que faz supor que os portugueses só dão o devido valor a estas coisas quando se vêem a apanhar chuva na pinha e a pagar cinco euros por uma pint nalgum sítio onde as suas competências sejam valorizadas.

Que prevê o programa do actual Governo para a ciência? Cerveja grátis para investigadores? Não. O Governo propõe-se "a renovar e reforçar o Compromisso com a Ciência". Define metas quantitativas (aumentar o número de doutorados, patentes, o investimento público e privado em investigação), faz referência à necessidade de Portugal integrar as redes internacionais de conhecimento e de grandes infra-estruturas científicas. Promete ainda melhorar as condições fiscais para quem contratar doutorados, medida que não é novidade mas que me inspira alguma preocupação: a ideia de que a contratação de doutores pelas empresas tem que ser apoiada é um pouco como um médico que receita morfina: temos que estar mesmo muito mal. Mas, sem brincadeiras, a proposta que me parece mais interessante é esta:

"Será ainda garantido, a todos os investigadores doutorados, um regime de protecção social idêntico ao dos restantes trabalhadores, incluindo os actuais bolseiros, assegurando-se, ainda, o cumprimento integral, em Portugal, das recomendações europeias relativas às carreiras dos investigadores e às suas condições de mobilidade."

Esperemos que cumpra rapidamente. É uma vergonha que tantos investigadores estejam abrangidos pelo Seguro Social Voluntário, o mesmo sistema de protecção social das donas de casa, e não pela segurança social igual para todos. Isto na prática equivale a prestações para a Segurança Social pelo valor do salário mínimo (com as devidas consequências no valor das prestações em caso de necessidade e na reforma) e ausência de subsídio de desemprego. Os bolseiros são uma fatia de leão, tanto em número como em importância para o sistema científico nacional. O que aconteceria aos grupos de investigação que ganham prémios e fazem notícias nos jornais se dispensassem os bolseiros? Perguntem-lhes.

É válida a meta apresentada pelo Governo de aumentar o número de investigadores. Mas esperemos que isso não continue a ser feito à custa da precariedade dos bolseiros. Sai muito mais em conta um bolseiro de investigação que ganha uma miséria (as bolsas não são actualizadas desde 2002, o que representa uma perda de 18% do poder de compra face à inflação acumulada), que recebe apenas 12 meses por ano, que custa 83,84? em segurança social por mês (independentemente do valor da bolsa) e que não dá chatices com subsídio de desemprego. Este tem sido o milagre da multiplicação de cérebros.

Registo como positivo o programa que na anterior legislatura permitiu a contratação de 1000 investigadores doutorados para institutos e universidades públicas. Os contratos de trabalho devem tendencialmente substituir as bolsas, pelo menos no caso dos investigadores doutorados, por isso esperemos (tal como consta do programa do Governo) que continue. Mas isto não invalida que as condições dos bolseiros não tenham que melhorar. Senão, perpetua-se uma espécie de sistema de castas, em que alguns felizardos conseguem saltar para o outro lado, assemelhando-se a carreira de investigação em Portugal ao filme Slumdog Millionaire.

Não ignoro que Portugal é um país que tem um PIB per capita muito inferior ao de outros países europeus e que não poderá de um momento para o outro oferecer aos investigadores as mesmas condições, pelo que teremos que continuar a contar com a ajuda do clima, da gastronomia, do sex appeal dos portugueses e da cerveja barata para fixar cérebros. Mas integrar os bolseiros no Regime Geral de Segurança Social (e julgo que deveriam ser todos e não apenas os doutorados) é o mínimo. Esperemos que isto aconteça em breve. E que a crise, o salvamento do sistema financeiro irresponsável, o défice ou qualquer outra perna de pau não sirva de desculpa para protelar indefinidamente esta medida.

segunda-feira, 21 de dezembro de 2009

Abuso discursivo

Ao ler o texto de Carlos Fiolhais, lembrei-me dos "quatro ingredientes" que Alan Sokal e Jean Bricmont dizem constituir, quando devidamente reunidos, o abuso discursivo no campo da ciência.

Para se perceber melhor o dito abuso, os autores dão o seguinte exemplo:


“Este diagrama [a tira de Möbius] pode ser considerado a base de uma espécie de inscrição essencial à origem no nó que constitui o sujeito. Isto vai bem mais longe do que aquilo que poderia pensar-se à primeira vista, um vez que pode procurar-se o tipo de superfície capaz de receber tais inscrições. Talvez reparem que a esfera, este símbolo antigo de totalidade, não é apropriada. Um toro, uma garrafa de Klein, uma superfície de corte cruzado, são capazes de receber tal corte. E esta diversidade é muito importante porque explica muitas coisa sobre a estrutura da doença mental. Se o sujeito pode ser simbolizado por este corte fundamental, também pode mostrar-se que um corte num toro corresponde ao sujeito nevrótico e numa superfície de corte cruzado a outra espécie de doença mental” (Lacan, 1970, 192-193).

Notas:
- A tira de Möbius é uma superfície só com uma face: a frente e o verso estão unidos por um caminho contínuo. Para a construir-se pega-se numa tira comprida de papel, torce-se 180 graus uma das pontas que se cola à outra ponta.
-Toro é uma superfície como a dum pneu ou duma bóia.
- A garrafa de Klein é semelhante a uma tira de Möbius mas sem aresta. Para a representar seria necessário um espaço euclidiano a quatro dimensões.
- A superfície de «capuz» cruzado, no texto escrito «corte cruzado» [cross-cut], provavelmente por um erro de transcrição, é um outro tipo de superfície.

E os ingrediantes acima referidos são:

"1. Falar abundantemente de teorias científicas de que não se tem, na melhor das hipóteses, mais do que uma vaga ideia. Na maior parte dos casos, estes autores não fazem mais do que utilizar uma terminologia científica (ou aparentemente científica) sem grandes preocupações com o seu significado;

2. Importar noções das ciências exactas para as ciências humanas sem fornecer a menor justificação empírica ou conceptual. Um biólogo que quisesse utilizar no seu campo de investigação noções elementares de topologia (como o toro), da teoria dos conjuntos ou da geometria diferencial seria instado a fornecer algumas explicações. Aqui pelo contrário, aprende-se com Lacan que a estrutura do nevrótico é exactamente o toro [é a própria realidade! (p. 32)], com Kristeva que a linguagem poética revela da potência do contínuo (p. 49) e com Baudrillard que as guerras modernas se desenvolvem num espaço não euclidiano (p. 145), tudo sem explicação;

3. Exibir uma erudição superficial, lançando sem vergonha palavras eruditas à cara do leitor num contexto em que não têm qualquer pertinência. O objectivo é impressionar e, sobretudo, intimidar o leitor sem formação científica (…).

4. Manipular frases desprovidas de qualquer sentido e dedicar-se a jogos de linguagem. Trata-se de uma verdadeira intoxicação de palavras associada a uma diferença alucinante pelo seu significado.”

Referência bibliografica: Sokal, A. & Bricmont, J. (1999). Imposturas intelectuais. Lisboa: Gradiva.

Poemas à Maneira de Anacreonte

Anacreontea. Poemas à Maneira de Anacreonte, é o mais recente livro da colecção Fluir Perene.

Anacreonte terá nascido no sécúlo VI a.C. e morrido quando o século seguinte chegava quase a meio. De Teos, a sua cidade natal, partiu e conheceu muito mundo - Trácia, Samos, Atenas, Tessália... -, o que lhe proporcionou um conhecimento aprofundado da natureza humana, com fraquezas e grandezas, com vícios e virtudes.

A sua obra literária, vasta e diversificada (ainda que ao presente só nos tenha chegado uma pequena pequena ), influenciou inúmeros poetas que procuraram segui-lhe o estilo, o estilo Anacreonte.

Neste livro, resultado da escolha e tradução de Carlos Martins de Jesus, com prefácio de Frederico Lourenço, pode o leitor desfrutar de poemas em edição bilingue (grego e português) que decorreram da inspiração neste Mestre Grego. Eis um belo exemplo:

Dá-me a lira de Homero,
mas sem a corda assassina.
Traz-me taças de preceitos,
traz-mas com leis misturadas,
para que ébrio possa dançar,
tomado por consciente loucura
e, cantando ao som das liras,
a canção de mesa eu entoe.
Dá-me a lira de Homero,
mas sem a corda assassina.


O livro poderá ser lido aqui, apesar de se poder adquirir em formato de papel no Instituto de Estudos Clássicos da Faculdade de Letras de Coimbra, ou encomendado pelos contactos disponíveis aqui.

Imagem que é capa do livro: Venus Anadyomène (1848) de Jean August Dominique Ingres

VACUIDADES SOBRE O MAGALHÃES

Há cerca de um ano e porque me foi perguntado respondi, num encontro de inspectores de ensino, que o computador Magalhães não passava de uma manobra de propaganda e de um grande negócio. Todas as revelações feitas nos últimos tempos sobre o negócio têm-me, infelizmente, dado razão.

O ex-ministro Mário Lino, no programa "Quadratura do Círculo" da SIC bem tentou fazer a indefensável defesa do Magalhães para consumo interno, mas agora é a União Europeia que está a esmiuçar o caso por terem sido violadas normas comunitárias.

Foi, por isso, com natural curiosidade que, alertado pelo título "O Magalhães não é apenas um concurso", comecei a ler um artigo de Francisco Jaime Quesado, Gestor do Programa Operacional Sociedade do Conhecimento, publicado no jornal "Público" de 19-12-2009. A minha desilusão foi enorme. O artigo era um emaranhado de lugares comuns, disfarçados em "economês" que, tal como o "eduquês", é declarado inimigo do pensamento claro.

Diz o articulista: "O Magalhães constituiu um passo marcante na afirmação por parte do Governo português de uma aposta estratégica na Educação como o grande driver de mudança colectiva da sociedade e recentragem no valor e competitividade como factores de distinção na economia global. Não tenhamos dúvidas." Eu, se me é permitido, tenho sérias dúvidas; lamento, mas não me convencem nem o "driver" nem a "recentragem"...

E continua: "Na "escola nova" de que o país precisa, [a Educação] tem que se ser capaz de dotar as "novas gerações" com os instrumentos de qualificação estratégica do futuro. Aliar ao domínio por excelência da tecnologia e das línguas a capacidade de, com criatividade e qualificação, conseguir continuar a manter uma "linha comportamental de justiça social e ética moral", como bem expressou recentemente Ralph Darhendorf em Oxford." Ainda se me é permitido, esta ideia da "escola nova" é muito velha e a "qualificação estratégica" é uma expressão não só gasta como vazia. E "conseguir continuar a manter" não passa de um comboio de verbos que, apesar da citação erudita, não leva a frase a estação nenhuma.

O autor, em vez de clarificar, consegue ser ainda mais confuso quando acrescenta: "Na economia global das nações, os "actores do conhecimento" têm que internalizar e desenvolver de forma efectiva práticas de articulação operativa permanente, sob pena de verem desagregada qualquer possibilidade concreta e efectiva de inserção nas redes onde se desenrolam os projectos de cariz estratégico estruturante." Registo a duplicação do "efectiva". E a insistência no "estratégico". Mas pergunto: que dicionário será preciso para perceber a frase toda?

Conclui o autor: "Por isso, a oportunidade e a importância do Magalhães. Que, para além dos efeitos ao nível da revolução na utilização das TIC como um instrumento de qualificação pedagógica, teve também o mérito de elevar na escala produtiva empresas portuguesas do sector, aumentando as exportações, consolidando dinâmicas de inovação e reforçando o emprego". Quanto à dita "qualificação pedagógica" nada está provado, pois nada foi até agora adiantado em seu abono. O que parece, outrossim, estar a ser provado é o favorecimento escandaloso de uma certa empresa com prejuízo da concorrência e, pior, dos dinheiros públicos e de todos nós.

Após uma defesa tão confusa do Magalhães, em nome de uma entusiástica fé em "amanhãs que cantam" graças a "novas tecnologias" que tornarão excelente o nosso depauperado ensino, continuo à espera de argumentos pedagógico-científicos que sustentem a distribuição a esmo e a pataco de computadores pelos infantes do 1.º ciclo, em detrimento de outros projectos como, por exemplo, o ensino experimental das ciências no ensino básico. Fala-se muito em avaliação. Não haverá ninguém que avalie a sério o Magalhães?

PS) "Darhendorf" deve ser "Dahrendorf" se é quem eu estou a pensar, mas esse erro é o menos...

ESCREVER MAL PARA SE MOSTRAR HUMANO?

Deixei de ler praticamente tudo aquilo que tem a ver com a designada inteligência artificial generativa (erradamente assim designada, pelo m...