domingo, 2 de outubro de 2011

CARIDADE À FORÇA?

O Ministério da Educação português tem a grande capacidade de arrumar quem não o consiga arrumar. Na actualidade, parece que há lá sectores que querem fazer implodir quem ainda não implodiu a enorme sede da 5 de Outubro e seus braços tentaculares. A história dos prémios para os melhores alunos que foram retirados à pressa, nas vésperas da entrega, não lembraria ao diabo. Mas lembrou a algum burocrata. Como diz o povo, quem dá e tira, vai para o Inferno e gira.

O cúmulo aconteceu, porém, quando se disse que os prémios teriam de ser entregues à força, numa gesto de patética caridade obrigatória, a alguém que a gigantesca e opaca máquina do Ministério acha, vai-se lá saber porquê, estar mais necessitado que os melhores alunos, que estavam já a preparar-se para receber a recompensa que lhes tinha sido prometida. Para onde foi ou vai afinal o dinheiro? Ou não há dinheiro e não deviam ter prometido nada? Portugal, como se vê mais uma vez pelo exemplo, é um país onde custa a reconhecer o mérito.

sábado, 1 de outubro de 2011

O DOUTOR ATÓMICO

Como hoje é o Dia Mundial da Música deixo aqui um excerto da ópera "Doctor Atomic", de John Adams, representado há cerca de dois anos em S. Francisco, sobre a vida do físico Robert Oppenheimer.


Doctor Atomic: San Francisco production from Brandon Noonan on Vimeo.

MINHA APRESENTAÇÃO DE "A FÍSICA DO FUTURO"


No sítio do Centro Ciência Viva Rómulo de Carvalho acaba de ser "postado" um vídeo com a minha curta apresentação de "A Física do Futuro", de Michio Kaku, saído na Bizâncio. Ver aqui.

A lógica do sistema


Destaque habitual para a coluna de J.L. Pio Abreu no "Destak":

"O sistema financeiro que nos governa tem uma lógica implacável: a selecção dos fortes, que mais fortes ficarão, e a aniquilação dos fracos. O truque está nos juros que substituíram os dividendos da riqueza produzida. Os mais ricos (pessoas, famílias, empresas, Estados) podem pedir emprestado com juros baixos, frequentemente para emprestar com juros elevados. É tudo ganho. E a quem vão eles emprestar? – Aos mais fracos, que são esmagados pelos juros até à sua aniquilação. Sugado o pouco dinheiro que tinham, serão depois desapossados dos seus bens.

Este sistema foi imaginado por Milton Friedman e seus colegas de Chicago, e implementado por Ronald Reagan e Margaret Thatcher. O ideólogo de serviço era Friederich von Hayek, um filósofo-economista com formação biológica e psicológica que se baseou num apressado modelo darwiniano da evolução espontânea através da selecção natural competitiva. Por outras palavras, o seu modelo era a selva. Cego para a Declaração Universal dos Direitos Humanos e para a Justiça Social, von Hayek argumentava que a natureza também não era justa.

Mas ninguém pensou que a actividade predatória, comandada pelos CDSs e pelas agências de rating, atingisse as proporções actuais. A desconfiança e o salve-se quem puder acabaram por paralisar a Europa, onde apenas se pergunta quem será a próxima vítima. E já todos perceberam que têm de inverter a lógica do sistema. Afinal, na selva, nem os elefantes estão seguros."

José L. Pio de Abreu

NEUTRINOS SUPERLUMINAIS VÃO-SE EVAPORANDO...

Da coluna de hoje "What's New" do físico Robert Park:

JUST IN: NEUTRINO VELOCITIES AND FLYING CARPETS.
"I am told that Andrew Cohen and Sheldon Glashow in arxiv:1109.6562v1 make the observation that superluminal neutrinos would radiate by the same effect as Cerenkov radiation when particles exceed c/n.  That makes it clear, if it wasn’t already, that the claim of superluminal neutrinos was wrong.  No one knows why."

Robert Park

Quotas!

Boneco chegada à caixa de correio do De Rerum Natura. Datado de 2008, mantém o sentido no quadro da avaliação do desempenho docente.

sexta-feira, 30 de setembro de 2011

A ESCOLA TEM DE ADIVINHAR O FUTURO


Entrevista que dei à jornalista Sara Oliveira, do portal Educare, a propósito das Conferências sobre Educação da Fundação Francisco Manuel dos Santos (FFMS):

EDUCARE.PT (E): Aprender a aprender é o tema da primeira conferência. O que parece uma redundância é, de facto, uma das questões-chave da Educação no nosso país?

Carlos Fiolhais (CF): "Aprender a aprender" é uma expressão que se tem ouvido muito. Está presente em inúmeros documentos dos programas portugueses, onde reina uma visão construtivista da pedagogia. Para alguns, mais importante do que a aprendizagem dos conteúdos, é a possibilidade que ela oferece de estarmos recetivos a aprender mais. Para outros, essa expressão não passa de um chavão que, no fundo, pretende desvalorizar os conteúdos em favor das metodologias, uma intenção afinal sem fundamento pois não se podem desligar conteúdos de metodologias. Aprende-se sempre alguma coisa em concreto.

A Fundação Francisco Manuel dos Santos (FFMS) acha que esta dicotomia conteúdos-métodos deve ser discutida. Vamos discuti-la. O debate para o qual agora convocamos todos os interessados passa por cientistas da cognição e psicólogos. Como aprendemos? Há melhores formas de aprender do que outras? Que fatores favorecem a aprendizagem? As modernas neurociências e a moderna psicologia experimental oferecem-nos novos meios de olhar o assunto.

E: Quem tem de aprender a aprender? Os alunos? Os professores? Os pais? Todos?

CF: Os alunos, os professores, os pais, todos podem e devem aprender. Aprender faz-se na escola e fora dela, no tempo da escola e ao longo da vida. Mas os alunos, evidentemente, estão numa fase em que a aprendizagem se faz praticamente a tempo inteiro, estão numa fase em que se estão a preparar para a vida futura. Ora, a escola é o sítio onde devem aprender, foi o sítio que a humanidade inventou para isso. À medida que aprendem vão verificar que ficam evidentemente capazes de aprender ainda mais. Pedem-se várias coisas da escola, mas deve-se pedir sobretudo que nela se aprenda, o que implica necessariamente que nela se ensine, pois não há escola sem professores. É responsabilidade dos alunos aprender, é responsabilidade dos professores ensinar e é responsabilidade dos pais exigir a alunos e a professores que cumpram a sua obrigação.

E: Qual a principal mensagem do livro "Em causa: aprender a aprender", que será lançado em outubro?

CF: A cada conferência está associado um livrinho, que contém textos de apoio e que estará à disposição dos participantes. Isso permitirá que os debates cheguem mais longe do que as sessões presenciais. O livro sobre "aprender a aprender" contém as várias posições a propósito desse título por conceituados psicólogos da Universidade de Carnegie Mellon, nos Estados Unidos, e por dois especialistas portugueses, da Universidade do Minho e da Universidade de Lisboa. Não me vou antecipar, o melhor é ir à conferência e ficar com o livro para refletir. Os livros também poderão, depois das conferências, ser comprados nas livrarias.

E: A escola tem ensinado os alunos a encarar novos desafios, a enfrentar novas situações?

CF: Não há dúvida que a escola tem mudado à medida que a sociedade muda. Parece-nos, porém, muitas vezes, que a sociedade muda mais do que a escola. E isso leva-nos a pensar que temos de mudar ainda mais a escola. De facto temos. A escola é e deve ser cada vez mais uma realidade dinâmica. Mas temos de ter algum cuidado ao fazer isso: a escola tem obrigação de transmitir o que for, em cada época, julgado mais importante entre a enorme herança do passado. A escola tem de ser progressiva, adivinhar o futuro, mas ao mesmo tempo tem de ser conservadora, tem de transmitir os ensinamentos mais seguros do passado.

E: Num momento em que a Educação é uma área sensível, em que as políticas são contestadas nas ruas, o que importa debater? O que é importante mudar?

CF: Há várias questões que importa debater e há várias coisas que é preciso mudar. A FFMS quer ter e proporcionar uma visão mais profunda do que a que resulta da "espuma dos dias", da política contestada nas ruas. Queremos saber, por exemplo, onde estamos e para onde devemos ir no ensino do Português e da Matemática. Como estamos e para onde queremos ir nas ciências experimentais. Queremos, através de projetos de estudo, efetuar comparações internacionais sobre exames, horários escolares, exigência curricular, gestão das escolas, formação de professores, etc. E averiguar o que precisamos fazer para nos aproximarmos dos países mais desenvolvidos. A nossa comparação não deverá tanto ser com nós próprios no passado mas mais com os outros, que estão melhores do que nós, no presente.

E: O ensino experimental das ciências é outro assunto a analisar. Este ensino deverá ser uma presença assídua nos programas curriculares, independentemente dos conteúdos e das idades dos alunos?

CF: Sim, esse ensino deve ser uma presença nos programas. Mas é essencial nas idades mais baixas. Precisamos de mais e melhor ciência na escola, em particular nessas idades. Uma das maneiras de seduzir os jovens para a ciência, e até a melhor maneira para os levar a perceber o que é a ciência, consiste em generalizar na escola a experimentação. Para descobrir o mundo a ciência tem de "agarrar o mundo" com as mãos. Nos nossos jardins-escolas, no nosso ensino básico, as nossas crianças e jovens estão a "agarrar o mundo" com as mãos? Infelizmente, não o estão a fazer na medida suficiente.

E: A ciência é uma área que está a ser tratada como merece?

CF: A ciência em Portugal tem feito progressos extraordinários. Há mais investigadores, há mais projetos financiados, há mais dinheiro investido. E, com isso, publicam-se mais artigos, formam-se mais pessoas e espera-se que haja mais riqueza no sistema produtivo. Mas já o progresso não será o mesmo se analisarmos a educação científica nas escolas. A ciência ainda aparece algo escondida nos programas (chama-se-lhe até "Estudo do Meio" no 1.º ciclo) ou com pequena carga horária. O último teste internacional (PISA 2009) revelou alguns avanços, mas deixa-nos ainda, na área da ciência, abaixo da média internacional. Temos, por isso, de procurar fazer melhor.

E: Aprender uma segunda língua é o tema que será debatido em dezembro. As práticas internacionais serão analisadas para se perceber qual o exemplo que deverá ser seguido?

CF: Sim. O Inglês é, em Portugal, cada vez mais uma segunda língua. O seu ensino tem-se generalizado no Ensino Básico, em particular no 1.º ciclo. Mas a segunda língua aprende-se de forma diferente da língua materna, e estamos interessados em perceber o melhor modo de o fazer. Em vários países da Europa, o Inglês está mais difundido do que aqui e queremos aprender com as melhores práticas. O mesmo se pode dizer de outras "segundas línguas" como o Espanhol, o Francês ou o Alemão.

E: Como coordenador pedagógico, quais as bases em que se alicerçou para escolher os temas?

CF: Os temas já tinham sido escolhidos no ano passado, uma vez que estão na sequência natural dos temas escolhidos para as primeiras Conferências de Educação da FFMS, que foram "O valor de educar, o valor de instruir", o ensino da Matemática ("fazer contas ajuda a pensar?") e o ensino do Português ("como se aprende a ler?). Todas estas são questões-chave de educação. E haverá mais para o ano.

E: A presença de especialistas internacionais nas conferências - como Lynne Reder, professora de Psicologia da Universidade de Carnegie Mellon, David Klahr, professor de Desenvolvimento Cognitivo e Ciências da Educação da Universidade de Carnegie Mellon, e Cármen Muñoz, professora de Linguística Inglesa e Linguística Aplicada na Universidade de Barcelona - é importante para Portugal olhar à sua volta?

CF: A FFMS está interessada em fazer a análise e o diagnóstico da Educação em Portugal para possibilitar a todos uma melhor percepção do país que somos. E isso passa muito por comparações internacionais. Queremos cotejar-nos na cena europeia e mundial. E queremos aprender com o que se passa noutros lados, quer para evitar cometer os mesmos erros, quer para imitar os casos de sucesso. Chamamos alguns dos melhores especialistas internacionais porque eles nos trazem outras realidades e porque o seu olhar exterior é muito útil para compreender a nossa realidade e atuar sobre ela no melhor sentido.

E: Qual o futuro da Educação do nosso país?

CF: Na Educação progredimos nalguns indicadores mas estamos ainda longe dos níveis dos países mais desenvolvidos, onde existe mais e melhor Educação. O nível geral de qualificação da nossa população ativa ainda é baixo. Podemos melhorar, temos de melhorar. A maior riqueza de Portugal são os seus recursos humanos. Quanto mais formação tiverem os cidadãos, maior será a nossa riqueza. O nosso sistema educativo terá necessariamente de evoluir para formar mais e melhor os portugueses. Sem Educação, ou melhor, sem uma Educação qualificada, o nosso país não tem futuro. O futuro da Educação é, portanto, o futuro do país.

quinta-feira, 29 de setembro de 2011

A minha alma não, desculpe!

Entro num certo departamento de uma certa instituição de ensino e não posso deixar de reparar no único cartaz que está afixado. A cor é suave, o grafismo apelativo. Vejo que se trata duma lista... Com alguma curiosidade, aproximo-me e confirmo: é uma lista composta por uma espécie de princípios, tópicos, aspectos. São muitos, mas não consigo passar do primeiro. Leio-o, relei-o e volto a relê-lo.

Quando aquilo que observamos é de tal modo alheio aos nossos esquemas mentais, temos dificuldade em perceber o seu sentido, o seu alcance...

Aderir de corpo e alma ao novo paradigma da organização…”, eis a frase que me deixa, por largos momentos, nesse estado!

Aderir ao “novo paradigma”!? Paradigma é uma palavra sofisticada, imprime sempre um tom erudito a qualquer texto, a qualquer conversa, não menospreza o leitor ao qual se destina, eleva-o a um patamar de sofisticação linguística, e o leitor sente que "está em casa".

Mas, "voltando à terra", qual é esse paradigma? Onde está explanado? Eu deveria conhecê-lo!? E, se não o conheço, devo aderir a ele? De corpo e alma!?

Seja qual for o paradigma, posso aderir a ele (talvez) de corpo. Mas de alma!? Aí, vamos mais devagar, calma… A alma (seja lá isso o que for) é minha e só minha, não ma peçam, por favor, que o não podem fazer.

Eu até a posso dar, empenhar, vender, destroçar, mas isso é comigo e só comigo. Não posso admitir que me digam para a dar, que me imponham que a dê, que a empenhe, que a venda, que a destroce. No caso, que adira…

Quem escreveu isto (alguém escreveu isto!), mesmo que seja agnóstico ou ateu, terá lido a Nau Catrineta?

Nota: Não importa a identificação da instituição que motivou este texto porque estará longe de se tratar de um caso isolado.

Magueijo, Majorana e os neutrinos


Hoje, às 18h30, na FNAC do Colombo, em Lisboa, tenho o gosto de apresentar o livro do físico João Magueijo (na figura), "O Grande Inquisidor" (Gradiva) que acaba de sair na Gradiva. Não podia ser mais actual pois se trata de uma biografia de Ettore Majorana, o físico italiano desaparecido misteriosamente em 1938 depois de ter estudado os neutrinos (há até um neutrino com o seu nome). E os neutrinos têm estado na ordem do dia. Deixo um bocadinho do livro, com a descrição dos neutrinos por João Magueijo, esperando assim abrir o apetite para um magnífico livro que é tanto de divulgação científica como de história da ciência moderna.

Carlos Fiolhais
"Termos descoberto a existência do neutrino é por si só quase um milagre, e no entanto o universo está infestado deles. Há tantos neutrinos como partículas de luz e mais, mas muito mais, neutrinos que átomos ou quaisquer partículas associadas à matéria vulgar. Movem-se por toda a parte, em todas as direcções, a uma velocidade próxima da da luz, atravessam tudo, atingem o nosso corpo aos biliões a cada segundo que passa, vindos dos céus, do chão, da linha do horizonte, de toda a parte.

Se alguma vez conduziu nas ruas de Palermo, talvez tenha reparado num número comparável de scooters a rodearem o seu carro vindas de todas as direcções concebíveis, e também a ultrapassarem-no a uma velocidade próxima da da luz; pelo menos, é o que parece. Conduzir em Palermo é uma metáfora perfeita do movimento
dos neutrinos. A semelhança, no entanto, fica-se por aqui. As scooters de Palermo, uma vez por outra, embelezam os carros dos habitantes com os efeitos extravagantes
de choques aparatosos; já os neutrinos são demasiado tímidos para este tipo de exuberância. Na verdade, são tão modestos e introvertidos que, apesar de biliões deles nos atingirem a cada segundo que passa, atravessam o nosso corpo como a um fantasma. São precisas várias horas para que um único neutrino interaja com os átomos do corpo de uma pessoa. Para os neutrinos, a matéria do universo é perfeitamente transparente, diáfana, imaterial; do mesmo modo, nós próprios não nos apercebemos dos efeitos do colossal mar de neutrinos que nos envolve.

A maior parte das hordas de neutrinos que nos atingem vem do Sol, mas a Terra é tão transparente para eles, que à noite recebemos uma chuva de neutrinos vinda de baixo, e o brilho do Sol no «canal de neutrinos» é aproximadamente o mesmo de noite e de dia.

A situação é de tal maneira estapafúrdia que, quando por fim construímos o primeiro telescópio de neutrinos, tivemos de o pôr no Pólo Sul — para observar os céus do hemisfério norte! Usámos a Terra como «lente», ou filtro, para que os muitos quilómetros de gelo do Pólo Sul funcionassem como película nesta peculiar câmara
de neutrinos.

Foi preciso esperar por 1956 para conseguirmos detectar o primeiro neutrino, com recurso a um truque muito engenhoso. Teve de o ser, uma vez que qualquer vulgar neutrino consegue atravessar vários anos-luz de matéria como se se deslocasse no vácuo, sem paragens em que possa dar-se a conhecer.

Sendo assim, como é possível que Ettore já soubesse da existência de neutrinos nos anos 30? A resposta pode muito bem ter a ver com o seu desaparecimento.

Os neutrinos podem ser tímidos, mas detêm o segredo da mais mortífera das armas humanas. Sem o segredo do neutrino, as armas nucleares não seriam possíveis. Cada vez que há uma detonação nuclear, é lançada uma vaga tremenda de neutrinos. Embora sejam demasiado discretos e tímidos para causarem qualquer dano directo, são fundamentais para a deflagração."

João Magueijo

quarta-feira, 28 de setembro de 2011

A Física Nuclear: de Rutherford à bomba atómica


O físico britânico Ernest Rutherford, que há cem anos descobriu o núcleo atómico, foi o primeiro a reconhecer no seu interior a existência dos protões, partículas com carga simétrica da dos electrão mas cerca de 2000 vezes mais pesadas, no núcleo atómico.

Além dos protões, que mais partículas há nos núcleos dos átomos? Como os electrões escapam dos núcleos nos processos radioactivos beta pensou-se durante algum tempo que existiam, de facto, electrões nos núcleos, tal como existem fora deles. Diz o senso comum que se o Senhor Fonseca aparece à porta de casa porque, com certeza, se encontrava antes em casa. Os electrões, contudo, apareciam e aparecem à porta do núcleo sem terem estado antes do núcleo. Eles eram o resultado do declínio de uma partícula, de cuja existência suspeitaram várias pessoas, entre elas o próprio Rutherford, mas que só foi identificada experimentalmente em 1932 por um discípulo dele, James Chadwick, num laboratório de Cambridge, que ganhou assim direito ao Prémio Nobel da Física de 1935. Na experiência de Chadwick, um núcleo de berílio, bombardeado com partículas alfa (núcleos de hélio), originava carbono e libertava um neutrão. Este neutrão era depois absorvido por azoto, saindo finalmente novas partículas alfa e ficando um núcleo de boro.

1932 foi o "annus mirabilis" da Física Nuclear: nesse ano foi construído o primeiro acelerador circular (por Ernest Lawrence, em Berkeley, Califórnia), foi realizada a primeira reacção nuclear num acelerador (por John Cockcroft e Ernest Walton, em Cambridge; note-se a "importância de se chamar Ernesto", uma vez que já é o terceiro que aqui aparece) e descobriu-se, como já foi dito, o neutrão. Se as duas primeiras proezas foram percursoras de importantes técnicas experimentais para a exploração dos núcleos, tendo essas máquinas primitivas sido antepassadas dos modernos aceleradores, a última veio completar o elenco dos principais componentes do núcleo: o núcleo atómico é uma colecção de protões e neutrões (genericamente nucleões), sendo a soma deles igual ao número de massa e o número de protões, ou número atómico, igual ao número de electrões no átomo.

Em 1933 reunia mais um Congresso Solvay em Bruxelas. Desta vez a percentagem de físicos nucleares era bastante maior que das outras vezes. Apareciam, da velha geração, Ernest Rutherford e Marie Curie, e da nova, Niels Bohr, James Chadwick, Ernest Lawrence, John Cockcroft, Enrico Fermi, George Gamow, Rudolf Peierls, Irène e Fréderic Joliot Curie, Lise Meitner, Werner Heisenberg, etc. A Física Nuclear estava a entrar na sua idade adulta.

A mecânica quântica, estabelecida na sua forma actual em finais dos anos 20, conseguia explicar os fenómenos tanto do átomo como do núcleo. A radioactividade alfa só pode ter lugar devido a um efeito quântico chamado efeito túnel, tal como o físico de origem russa George Gamow (famoso pelos seus excelentes livros de divulgação) concluiu em 1928. Os processos radioactivos beta, por sua vez, foram teorizados pelo italiano Enrico Fermi em 1934, usando sempre a mecânica quântica. A teoria apareceu nestes casos bem depois da experiência.

Em 1934 descoberta a radioactividade artificial por Fréderic e Irène Joliot Curie, esta última filha do casal Curie. Núcleos leves em configurações anormais, por exemplo com grande excesso de neutrões, podiam ser a origem de processos radioactivos, tal como os núcleos pesados. O novo casal Curie bombardeou alumínio com partículas alfa, obtendo uma modalidade radioactiva de fósforo e provocando emissão de neutrões. Em 1935, Fréderic e Irène Curie receberam o Prémio Nobel da Química (numa cerimónia a que a mãe de Irène não pôde assistir pois tinha falecido de leucemia no ano anterior, em resultado do seu prolongado contacto com material nuclear; já Pierre Curie tinha efectuado sobre si próprio experiências sobre os efeitos fisiológicos da radioactividade).

De 1935 a 1945, Enrico Fermi, um notável professor que, vindo de Roma, atravessou o Atlântico para se estabelecer em Chicago e se confirmar como um dos maiores génios na Física do século XX (conseguia até, por cálculos simples, saber o número de pianos que havia em Chicago sem precisar de os contar!), foi o principal intérprete dos desenvolvimentos da Física Nuclear. Uma vez descoberto o neutrão, Fermi começou por efectuar numerosas experiências de bombardeamento de outros núcleos por neutrões, desencadeando assim várias reacções nucleares. Ganhou assim o Prémio Nobel da Física de 1938.

Usando ainda colisão de neutrões, os alemães Otto Hahn e Fritz Strassman descobriram em 1938 a cisão do urânio, num laboratório em Berlim. O urânio 235, quando bombardeado com neutrões, dava origem a núcleos de crípton e bário, muito mais leves que o urânio, e libertava neutrões. A cisão nuclear foi logo explicada por uma física sueca de origem austríaca, Lise Meitner, e por um seu sobrinho, Otto Frisch. Um tal processo pode ser induzido por neutrões ou mesmo aparecer espontaneamente, sendo neste caso, tal como acontece no declínio alfa, resultado de um efeito túnel. A cisão, descoberta no limiar da Segunda Guerra Mundial, viria a provocar o seu termo, como é bem sabido. Em 1942, Fermi punha a funcionar debaixo da bancada de um estádio de Chicago a primeira reacção em cadeia no urânio. O urânio bombardeado com neutrões lentos fazia libertar novos neutrões que, por sua vez, cindiam outros núcleos de urânio. Em 15 de Julho de 1945 num sítio chamado Trinity Zero, no deserto do Novo México, no meio do maior segretismo, era realizada a primeira explosão de uma bomba atómica no planeta. O chefe da notável equipa do Projecto Manhattan, que concebeu e experimentou a bomba foi Robert Oppenheimer, um jovem e brilhante físico norte-americano que haveria nos anos 50 de conhecer os horrores da suspeita política e da perseguição (existem uma peça de teatro e uma série televisiva sobre o caso Oppenheimer). A história do fabrico da bomba por demais conhecida: a fuga recambolesca de Niels Bohr da Europa com uma garrafa que julgava ser de água pesada mas que afinal continha cerveja, as travessuras de Richard Feynman a abrir os cofres de Los Alamos, a exclamação penitente de Oppenheimer de que "nós os físicos conhecemos o pecado", o facto insólito de um dos descobridores da cisão ter sabido da explosão sobre Hiroshima num campo de prisioneiros na Inglaterra (Hahn tinha recebido o Prémio Nobel da Química em 1944). Curiosamente, já tinha havido uma premonição de Pierre Curie, no seu discurso Nobel em 1911, sobre os perigos do material nuclear: "pode imaginar-se que em mãos criminosas o rádio se torne uma arma terrível"...

CIGANA E CIGANO


Novo texto literário da escritora Cristina Carvalho:

Há muitos, muitos anos havia uma égua e em cima da égua, uma mulher de longo, enorme cabelo que lhe corria até abaixo da linha da cintura. A égua era branca e tinha uma crina branca, muito forte, muito bela, comprida, comprida! A mulher, sentada de lado em cima do lombo da égua afagava-lhe de vez em quando a crina, dava-lhe umas palmadinhas no pescoço forte e muitas vezes, à medida do trote, trote que trote, entortava-se a mulher de modo a poder dar-lhe um beijo ainda e outra vez, no pescoço. Ambas trotavam. Uma em cima da outra. A mulher, descansadamente, enquanto passeava ia escovando calmamente o seu belo cabelo que se revelava com ar de cobre sob o sol desse quente mês de Junho.

Alguém lhe seguia os movimentos. Atrás de si e do trotar da sua égua, um passo rápido, um passo forte, uma passada de cavalo acompanhava-a sem disfarce e sem engano. Ela à frente, ele atrás. O homem em cima do cavalo era jovem, tão jovem que fazia o chão tremer à sua passagem, tão jovem e belo que nada mais neste mundo ali e naquele momento, nada poderia fazer com que ele desistisse desse passo e intenção.

Ela seguia escovando o cabelo. Nem tormentas, nem saudades, nem passado ou novidades a fariam desistir deste passeio único e apaixonado. A sua égua marchava calmamente e livre, livre sem rédeas, sem mandos, sem ordens, sentindo apenas aquele corpo tão leve em cima de si.

É então, num certo momento, num arredondar da estrada que eu a vejo. Vejo os dois. Ela em cima da égua. Ele em cima do cavalo. Mas a luz do seu cabelo cega-me, mal a vejo, mal a distingo tal é o Sol que dela vem. E agora ele, vestido de preto de cima a baixo, e por baixo do grande chapéu que usa vejo-lhe os olhos a brilhar, a seguir a passada da égua mais à frente, atentos olhos, atento rosto. É esta beleza que eu contemplo escondida por detrás duma árvore e quase que a respiração me falta, quase que passo ao sobressalto quando sinto o raspar dos cascos da égua tão perto da minha sombra e agora o sopro poderoso da respiração do cavalo que monta o homem vestido de preto, homem sem sombra de tão jovem, de tão poderoso que é. Ela avança pelo trilho, afaga a crina e o lombo da égua, escova o seu cabelo de oiro e cobre, o seu grande orgulho, e eu muda e muda e muda desloco-me, mudo de posição, escondo-me mais, quase desapareço nesta prega dum tempo que já não existe, que vai desaparecendo aos poucos como desaparece o dia quando a noite se aproxima, inexoravelmente.

Mais à frente, no final do caminho, a tenda armada num descampado de ervas rasteiras. É um vasto campo sem fronteiras, sem amarras. Dum lado a encosta do monte, do outro a cama brilhante do rio que corre, leito lânguido, língua húmida, água branca, transparente, enxoval de peixes e rãs e de pedras cintilantes como estrelas baixas. Eles lá entram na tenda e eu na esquina do tempo; o que por lá se passa não sei, não compreendo, não vejo a luz. Ainda não vejo a luz dos seus olhos e dos seus cabelos. Apenas sei e sinto que o tempo que tudo engole, também nos engole, a mim, a ti, cigana do longo cabelo que montas a égua da crina branca, e a ti, cigano jovem vestido de preto em cima do belo cavalo e não é porque tens esse longo cabelo, e não é porque tens esse olhos negros que espreitam abaixo da aba do teu chapéu e não é porque égua és e não é porque és cavalo e não é porque sou eu, arredondada na esquina do caminho, que escapamos à fome, à gula do tempo.

Hoje, passados anos, tantas luas já andaram e tantos sóis já giraram, tanta estrela se apagou, o grande vento soprou, águas de invernos passados, sopro de verãos desejados, aqui me encontro sentada nesta cadeirita baixa, atrás da minha banca recheada de peúgas de todas as cores e para todos os gostos. Estou velha e gorda. Já não tenho agilidade nenhuma. Apenas o meu olhar continua vivo, ardente e fixo. Reparo nas pessoas que se refugiam do calor debaixo dos toldos brancos das bancas dos feirantes, dos toldos que ondulam por via duma fraca brisa que flutua e finge frescura. Escalda e estoira o chão alcatroado, quase que derrete, o calor é tanto e tanto e eu, agachada na terra, escondida nas minhas roupas compridas e escuras, puxo o lenço preto mais para a frente, mais para a testa, restam-me os olhos; ninguém pára na minha banca, ninguém quer comprar nada e muito menos peúgas…

Mesmo em frente, do outro lado da rampa da rua por onde escorrem as bancas e os toldos, há um inesperado espaço e nesse espaço, abertura, hiato, não um cavalo nem uma égua mas uma carrinha branca e dentro do espaço de sombras dessa carrinha de portas laterais bem abertas, um escuro muito escuro porque a luz do Sol vai cegando e no escuro muito escuro, deitado nuns cobertores, acalorado, um homem, um outro homem sem cavalo, sem rasto de égua; um homem a dormitar. Do lado de fora, na rua, de frente para a boca aberta do escuro da carrinha, uma mulher escova o seu longo cabelo preto e branco e olha-se e torna a olhar-se e mais uma vez ainda, num espelhito pendurado no fecho duma das portas…

O tempo passou. Os animais já morreram. Nós ainda por cá andamos.

Cristina Carvalho

HUMOR: ATENDEDOR DE CHAMADAS DE UMA ESCOLA AUSTRALIANA

terça-feira, 27 de setembro de 2011

CIENTISTAS DE PÉ NA CASA DA CERCA

Uma mega-produção com um pôr do Sol verdadeiro e vista deslumbrante sobre Lisboa em cena, foi assim o espectáculo Salvar o Mundo ou Rir a Tentar na Casa da Cerca, em Almada:


Amanhã (quarta-feira) há mais: às 19h no Centro de Congressos do Estoril, na abertura do Green Festival.

MITOS E CRENÇAS NA CIÊNCIA

Versão completa do vídeo sobre mitos e crenças na ciência, criado especialmente para a Noite Europeia dos Investigadores 2011, pelas Produções Fictícias:

SOBRE A REVOLUÇÃO GENÓMICA










Richard Resnick, here in a TED Conference in Boston, is on the front lines of the business of genomes, as CEO of GenomeQuest, a maker of genomic software.

VACCINE: THERE IS NO INOCULATION AGAINST IGNORANCE.


Destaque para a sempre atenta e oportuna coluna What's New de Robert Park:

"Here we go again. Last week during a debate of Republican presidential candidates, Representative Michele Bachmann characterized human papilloma virus (HPV) vaccine as "a potentially dangerous drug," and linked its effect to "mental retardation." There is no medical support for her wildly irresponsible remarks; the HPV vaccine prevents cervical cancer, and an editorial in Nature calls on Bachmann to retract her words, but I don't think she reads Nature. The 1998 claim of British researcher Andrew Wakefield that the common MMR vaccine causes autism set off a revival of the anti-vaccination movement, and a corresponding rise in measles cases. In 2009, however, Wakefield was found to have altered patient’s records to support his claim . Barred from the practice medicine in the UK, Wakefield now operates an autism clinic in Austin, Texas. He doesn't have a US medical license, but such formalities don't much matter in Texas. Rick Perry, the Governor of Texas, differs with Bachmann on HPV, having attempted to mandate the use of the HPV vaccine for 11 and 12-year-old schoolgirls as the Center for Disease Control recommends, which may have something to do with the fact that Merck, the only maker of HPV vaccine, is a major contributor to Perry's campaign."

Robert Park

segunda-feira, 26 de setembro de 2011

BOM DIA NEUTRINO!



Crónica (adaptada) publicada no Diário de Coimbra.

A luz solar demora cerca de oito minutos a atingir o planeta Terra, depois de percorrer cerca de 150 milhões de quilómetros a uma velocidade de aproximadamente 299 792 458 metros por segundo. (Diga-se, neste andamento, que a distância Terra – Sol varia ao longo do ano, devido à trajectória elíptica da Terra: É mínima no periélio, que ocorre no princípio de Janeiro (141 milhões de km) e máxima no afélio (152,1 milhões de km) por volta de 4 de Julho (Dia de Coimbra).

Albert Einstein considerou aquele valor como invariante e mostrou que ele era o limite superior inultrapassável para a velocidade de todas e quaisquer partículas e objectos no vácuo. A sua teoria da relatividade restrita, que entre outras se expressa na mais famosa equação do século XX - E = m c^2 (E para energia, m para massa, c a velocidade de propagação da radiação electromagnética no vácuo) -, parte precisamente da invariância da velocidade da luz e tem como consequência a existência de um limite superior para a velocidade: o m naquela equação vai crescendo à medida que a velocidade aumenta de modo a impedir que uma partícula com massa alcance a velocidade da luz.

O físico português João Magueijo tem vindo, há mais de uma década, a investigar a hipótese de o valor de c variar ao longo da evolução do nosso Universo, “desafiando” assim a teoria da relatividade de Einstein. Divulgou essa hipótese ao grande público no livro “Mais rápido do que a luz”, publicado em Portugal pela Gradiva, em 2003.

O novo livro de Magueijo, com o título de “O Grande Inquisidor”, também editado pela Gradiva, conta a vida de Ettore Majorana, um físico italiano que terá sido o primeiro a propor a existência do neutrão, partícula sem carga presente no núcleo dos átomos. Majorana, que desapareceu misteriosamente, terá também trabalhado, “precocemente”, na previsão da existência da partícula conhecida por “neutrino”, a qual tem sido notícia nos últimos dias devido à descoberta, pelo menos aparente, de que pode assumir velocidades superiores às da luz (ver, por exemplo, aqui, aqui e aqui)!

Mas o que é um neutrino?

Quando um neutrão é isolado de alguma forma de um núcleo atómico, os cientistas verificam que, em cerca de vinte minutos, ele “desaparece” aparecendo um protão e um electrão. Os primeiros investigadores a observar esta transformação ficaram intrigados porque, ao calcular (utilizando a equação de Einstein acima indicada) as energias envolvidas nessa transformação, estas não batiam certo: a soma das energias correspondentes ao protão e ao electrão resultante era inferior à energia do neutrão inicial!

A experiência parecia colocar em causa o princípio da conservação da energia, de certo modo semelhante ao princípio enunciado por Lavoisier da conservação da massa. No processo de transformação de um neutrão num protão e num electrão perdia-se, de alguma forma, energia. Num esforço teórico para “conservar”o princípio de conservação da energia (nada se cria, nada se perde, tudo se transforma!), Wolfgang Ernst Pauli (prémio Nobel da Física em 1945) propôs, como hipótese, a existência de uma outra partícula, indetectável pela tecnologia da época, que não teria carga eléctrica, mas que era responsável pela parte em falta no balanço energético! Essa hipotética partícula sem carga foi baptizada de “neutrino”. Os neutrinos viriam a ser detectados experimentalmente em 1956 na proximidade de reactores nucleares. E a confirmação da sua existência permitiu manter “incólume” o princípio da conservação da energia.

Os neutrinos, partículas muito difíceis de detectar por interagirem muito pouco com átomos ou com as partículas que os constituem, têm vindo a ser alvo de grande interesse por parte dos físicos e dos astrofísicos, quer para indagar a natureza íntima da matéria, quer para revelar a natureza do Universo longínquo. Sendo resultado de reacções nos núcleos atómicos, a detecção de neutrinos provenientes do “nosso” Sol foi mais uma confirmação da origem nuclear da energia das estrelas. Para além disso, a sua detecção na explosão da Supernova SN 1987A, em 1987, deu alento à astrofísica dos neutrinos como uma enriquecedora ferramenta para estudar o Universo.

Recebemos do centro do Sol um intenso fluxo de neutrinos (cerca de 65 mil milhões por segundo). Como estas partículas atravessam o nosso planeta praticamente sem interagirem com ele, podemos dizer, tal como escreveu Hubert Reeves, que o “Sol neutrínico nunca se deita” e, contrariamente à luz solar, somos banhados por fluxos solares de neutrinos numa alvorada permanente. Os neutrinos estão sempre a dizer-nos bom dia! Aliás, os neutrinos têm estado presentes nos novos dias da ciência, da nossa compreensão da natureza das coisas (De Rerum Natura) de que somos feitos e que nos rodeiam...

António Piedade

DAS ROCHAS SEDIMENTARES (2) - ROCHAS TERRÍGENAS


Arenito do Triásico discordante sobre camadas pregueadas
do Carbónico marinho, na Praia do Telheiro, Vila do Bispo, Algarve.


Continuação da divulgação dos textos do Professor Galopim de Carvalho sobre Rochas Sedimentares (ver aqui o primeiro).



ROCHAS TERRÍGENAS


Vai para 50 anos, mais precisamente, em 1963, o professor André Cailleux, da Universidade de Paris, de quem fui aluno de 1962 a 1964, escreveu: Parmi les joies qui s’offrent aux hommes, en ce demi-siècle, l’étude des sables et des galets tient une place de choix. E falou verdade este meu simpático mestre. Foram muitos os estudiosos que dedicaram às areias e aos calhaus muito do seu tempo. E eu fui um deles.

Ao classificar de terrígenas (em 1968) um certo tipo de rochas sedimentares, o professor Robert L. Folk, da Universidade do Texas, em Austin, pretendeu enfatizar a sua proveniência a partir das terras emersas, com base no correspondente étimo latino terra, em oposição a mare (mar), numa linha de pensamento que faz jus aos naturalistas do século XVIII, bem expressa numa das classes (“terras”) da classificação proposta em 1782 pelo químico e mineralogista sueco Torbern Oloff Bergman (1735 -1784), de todas a mais divulgada.

Em 1967, o petrógrafo e sedimentólogo britânico John C. Griffits (1912 – 1992) considerava uma rocha terrígena R como uma população de indivíduos (as partículas detríticas) e, assim, interpretava-a como uma função f das variáveis: composição litológica e/ou mineralógica C, dimensão D e forma F das partículas e, ainda, das respectivas orientação O e acondicionamento A, função que representou pela expressão: R = f(C,D,F,O,A). Quer isto dizer que, observando a natureza, o tamanho e a forma (incluindo o grau de desgaste) dos elementos detríticos de uma rocha terrígena e, ainda a orientação e a inclinação destes e o seu empilhamento, poderemos reconstituir a sua história e o ambiente em que se formou.

A expressão rocha detrítica (do latim detritus, o que resultou de esmagamento) usada como sinónima de rocha terrígena, acentua que os seus constituintes são, via de regra, fragmentos ou clastos (do grego klastós, fragmento) minerais ou líticos (rochosos) subtraídos a outras rochas preexistentes, por meteorização e/ou erosão e, em geral, transportados até ao local de sedimentação.

Na medida em que as principais fontes de materiais detríticos constituintes das rochas terrígenas provêm de granitóides (granitos, granodioritos e afins), gnaisses e xistos, rochas estas fornecedoras, sobretudo, de quartzo e de minerais primários ricos em silício (feldspatos, micas) ou de outros minerais silicatados (argilas), resultantes da meteorização destes, estas rochas são também apelidadas de siliciclásticas.

(continuar a ler aqui)

Com Camus

Jean Daniel, fundador do Le Nouvel Observateur, privou com Albert Camus, foram amigos, distanciaram-se, apesar de terem continuado unidos na profissão e no pensamento. A morte prematura do jornalista-filósofo-escritor-editor não permitiria uma reaproximação em presença, o que, de resto, não seria necessário: Daniel ficaria, para sempre, com Camus.

O livro que publicou em 2006 na Gallimard revela o encontro entre duas pessoas que, nas grandes e pequenas batalhas que o jornalismo convoca (e além dele) se pautaram, sem cedências, pelo humanismo.

É precisamente este conceito que se revela como o centro do livro, numa reflexão pouco linear mas indubitavelmente real: por não estar terminado e, nessa medida, implicar procura não isenta de erros; por levar, em certas ocasiões, à mudança de rumo que se tinha por certo e procurar novo caminho; por envolver coragem para pensar e agir em consciência, ainda que isso aconteça ao contrário do que está estabelecido.

Diz Daniel:

"Maravilhei-me um dia perante Camus por ele ter podido encontrar, tão jovem e com tanta facilidade, a força para se opor, a todos os seus, quando resolveu indignar-se, e com que soberba, pelo facto de a explosão da primeira bomaba atómica sobre Hiroxima poder ter sido saudada com um entusiasmo sem reticências. Negligenciando o facto (enorma, gigantesco!) de a nova invenção anunciar o fim da guerra, Camus receava já encontrar o homem na posse dos meios de destruir não só o inimigo, como a sua espécie. É preciso compreender em que consistiu a solidão desse grito e a coragem insólita de, na época, publicar a sua expressão. Como nos podemos escutar a nós mesmo quando somos os únicos a pensar? Como teremos confiança em nós mesmos? Perguntas que sempre me haveriam de atormentar. Como poderemos ousar persuadir-nos de que estamos certos, quando aqueles que admiramos discordam de nós?" (página 33).

E, mais adiante:

"Camus tem as suas receitas pessoais (...) quando não hesita em declarar que se enganou e que, daí em diante, tudo fará para manter os valores morais, mesmo que essa expressão pareça ridícula aos pedantes do realismo histórico. E quando pede aos intelectuais - e aos jornalistas! - que observem quatro obrigações: «1. Reconhecer o totalitarismo e denunciá-lo. 2. Não mentirem e saberem reconhecer o que ignoram. 3. Recusar dominar. 4. Rejeitar em todas as ocasiões e seja qual for o pretexto todo o despostismo, mesmo provisório», temosa sensação de possuir por fim estas regras de vida que nos protegem dos mais sanguinolentos desvios. (...) Como pilar filosófico de todas estas regras, havia a prevalência do facto moral (...) o que conta para mim é o facto de, em Camus, a moral não ser moralismo. Se se pode dizer que, em ceryos aspectos ele era nietzschiano, é no sentido em que a denúncia da impostura decanta a ética" (página 127).

domingo, 25 de setembro de 2011

Mais dois livros dos Classica Digitalia

Informação chegada ao De Rerum Natura.

O Conselho Editorial dos Classica Digitalia tem o gosto de anunciar dois novos livros.

Colecção “Humanitas Supplementum” (Estudos)

- Gabriele Cornelli, O pitagorismo como categoria historiográfica (Coimbra, Classica Digitalia/CECH, 2011). 265 p.
PVP: 30 € / Estudantes: 24 € [capa dura]

Colecção “Autores Gregos e Latinos” ‑ Série Ensaios

- Joaquim Pinheiro, José Ribeiro Ferreira, Nair Castro Soares e Rita Marnoto: Caminhos de Plutarco na Europa (Coimbra, Classica Digitalia/CECH, 2011). 192 p. [2ª edição revista e aumentada]
PVP: 14 € / Estudantes: 9 €

Nota: Todos os volumes dos Classica Digitalia são editados em formato tradicional de papel e também na biblioteca digital. O eBook correspondente (cujo endereço directo é dado nesta mensagem) encontra-se disponível em acesso livre. O preço indicado diz respeito ao volume impresso.

UM CAMINHO CURRICULAR PARA A FORMAÇÃO HUMANISTA?

Entenda-se este texto não como um elogio acrítico a uma nova escola de iniciativa privada, mas como uma reflexão acerca da estrutura curricu...