Informação recebida da Gradiva:
|
|
|
|
|
|
|
|
|
|
|
|
|
|
|
|
|
|
|
|
|
|
|
|
|
|
Informação recebida da Gradiva:
|
|
|
|
|
|
|
|
|
|
|
|
|
|
|
|
|
|
|
|
|
|
|
|
|
|
Informação recebida da Imprensa da Universidade de Coimbra:
A “Atlantís” disponibilizou o seu número mais recente (em acesso aberto). Convidamos a navegar pelo sumário da revista para aceder à informação.
Atlantís - review
v. 42 (2021)
Sumário
https://impactum-journals.uc.pt/atlantis/index
[Recensão a] BARATTA, Giulia, Benest, malest: Archeologia di un gioco tardo-repubblicano, Edicions de la Universitat de Barcelona, Barcelona, 2019. 290 pp. ISBN 978-84-9168-317-9.
José D'Encarnação
[Recensão a] GAZZANO, Francesca, TRAINA, Giusto & COUVENHES, Jean-Christophe (Dirs.), Plutarque et la guerre / Plutarco e la guerra, Institut des Sciences et Techniques de l’Antiquité, Besançon, Presses Universitaires de Franche-Comté 2019, 327 pp. ISBN: 978-2-84867-720-0
José Vela Tejada
[Recensão a] ROHDEN, Luiz, Filosofar com Gadamer e Platão: Hermenêutica filosófica a partir da Carta Sétima, São Paulo, Annablume Clássica, 2018. 244 pp. ISBN: 978-85-391-0867-1
Leonardo Marques Kussler
[Recensão a] CASERTANO, Giovanni, Venticinque studi sui preplatonici, Petite Plaisance, Pistoia, 2019. 488 p. ISBN: 978-88-7588-251-8
José Gabriel Trindade Santos
[Recensão a] QUINÁLIA, Rineu, O Belo em Platão, LiberArs, São Paulo, 2019. ISBN: 978-8594591814
Aldo Lopes Dinucci
________________________________________________________________________
Atlantís
http://impactum-journals.uc.pt/atlantis
______________________________________ Classicadigitalia_pt mailing list Classicadigitalia_pt@uc.pt http://ml.ci.uc.pt/mailman/listinfo/classicadigitalia_pt
Minha entrevista ao «Pilão», revista dos estudantes de Farmácia da Universidade de Coimbra:
P- Nasceu em Lisboa e, posteriormente, foi estudar para a Escola dos Olivais, em Coimbra, e para o Liceu D. João III, onde ganhou alguns prémios de Pintura. Mais tarde, enveredou pela área das Ciências, uma área completamente distinta. Quando se apercebeu da sua paixão pelas Ciências?
Em 1905, Albert Einstein (1879-1955), um modesto funcionário de uma pequena repartição de patentes na cidade suíça de Berna enviou para publicação cinco artigos científico, que mudaram o nosso conhecimento do mundo.
Dois desses artigos, um deles a sua tese de doutoramento, tratavam das dimensões e o movimento das moléculas. Quando ainda não era clara a constituição atómica da matéria, o diplomado pela Escola Politécnica de Zurique, então com 26 anos, ajudou a quantificar a noção de molécula. Os átomos e as moléculas deixaram então de ser meras hipóteses para se tornarem, a nossos olhos, realidade.
Um terceiro artigo sobre o efeito fotoeléctrico foi talvez o mais revolucionário. Einstein explicou esse efeito, conhecido experimentalmente, que consistia na expulsão de electrões de uma superfície metálica quando nela incidia luz. Einstein «fez luz» sobre a luz: prosseguindo na senda iniciada em 1900 por Max Planck, sustentou que a luz era formada por pequenas unidades, os quanta (plural de quantum, termo latino para quantidade). Havia um paradoxo, já que corpúsculo é um conceito oposto ao de onda, que era na altura assumido para a luz. Einstein, que por este trabalho recebeu em 1921 (faz este ano cem anos) o Nobel da Física, tornou-se assim um dos fundadores da teoria quântica, a teoria que anula o paradoxo, ao conjugar ondas com corpúsculos. Mas ele não conseguiu acompanhar os novos desenvolvimentos da teoria. A sua frase «Deus não joga aos dados» significa a sua rejeição das ideias probabilísticas que estão no cerne na teoria quântica. Foi um pai que a certa altura deixou de compreender a filha...
Os dois outros artigos desse «ano milagroso» fundaram a teoria da relatividade. Na física há coisas relativas, isto é, que dependem do observador, e outras invariantes, isto é, que são as mesmas para os vários observadores. A noção de relatividade. que remonta a Galileu, tem a ver com a universalidade das leis físicas: as leis da mecânica são as mesmas para todos os observadores, quer estes estejam imóveis quer viajem com velocidade constante. O princípio da relatividade de Einstein alargou o de Galileu: não só as experiências mecânicas são as mesmas para todos os observadores, mas também todas as leis da física, incluindo as do electromagnetismo. Einstein acrescentou a este princípio um outro, o da invariância da velocidade da luz. As conclusões dessas premissas foram imperiosas: a mecânica de Galileu e Newton tinha de ser modificada, enquanto a teoria electromagnética de Faraday e Maxwell (que inclui a óptica) podia permanecer incólume. As modificações têm implicações profundas: o espaço e o tempo são inseparáveis, integrando o espaço-tempo, dependendo as medições do espaço e do tempo de cada observador. Uma outra consequência expressa-se na mais famosa equação da física: E= mc2. Energia e massa são equivalentes, podendo converter-se uma na outra. Esta equação explodiu na «cara da humanidade» com as bombas atómicas de 1945. Einstein que teve um papel distante no processo sentiu a culpa («Fui eu que carreguei no botão») e intensificou o seu pacifismo. Mas a equação tem aplicações benfazejas no nosso quotidiano: quando um doente é submetido a um exame de PET, electrões colidem com positrões, desaparecendo matéria para dar lugar a energia.
Einstein não se ficou por aqui. Uma década volvida generalizou a sua teoria da relatividade para o caso de observadores acelerados. O ponto de partida foi uma experiência pensada por Galileu: todos os corpos, pesados ou leves, caem da mesma maneira à superfície da Terra, se se desprezar a resistência do ar. O resultado foi uma epifania: a força de gravitação universal, que Newton tinha descrito por uma fórmula matemática, passou a ser vista como uma deformação geométrica do espaço-tempo à volta de algum corpo com massa e energia. A matéria-energia modifica o espaço-tempo, numa visão esteticamente atraente. A teoria da relatividade geral não só tem uma enorme elegância como é fonte de um grande número de previsões, que foram até agora confirmadas, como a existência de buracos negros. E há aplicações práticas no nosso dia-a-dia, como o GPS.
Observações cruciais para decidir a validade da teoria foram realizadas em 1919 na ilha do Príncipe e em Sobral, no Brasil, durante um eclipse total do Sol. A luz de estrelas por detrás do Sol devia, segunda a relatividade geral, encurvar-se ao passar perto dos bordos da nossa estrela. Ele não tinha dúvidas que ia ser assim: «Deus não dispôs de outra escolha na criação do mundo» (Deus era a sua metáfora preferida para a «harmonia do Universo.») As chapas fotográficas deram razão a Einstein, eclipsando as dúvidas.
Como em todas as revoluções científicas, Einstein baseou-se no que já se sabia, mudando o que era preciso mudar. Em cada revolução, há sempre elementos de continuidade. Newton tinha compreendido bem o modo como a ciência progride: «Se consegui ver mais longe é porque estava aos ombros de gigantes». O sábio queria realçar os que viveram antes dele, preparando-lhe o caminho. Einstein conseguiu subir para cima dos ombros de Newton, elevando a pirâmide humana do saber. Se conseguiu ver mais longe foi porque tinha uma sólida base de apoio. Hoje não falta quem tente subir aos ombros de Einstein, tentando conciliar a teoria da relatividade geral com a teoria quântica. Mas a tarefa não se tem revelado fácil: Um novo Einstein precisa-se!
Einstein teria ficado famoso por qualquer um dos referidos trabalhos. Mas ele foi o autor de todos eles... e de mais alguns: deve-se também a ele a ideia do laser (que está hoje em qualquer impressora ou leitor de DVD), baseada em saltos quânticos. Não admira, por isso, que a revista Time, no ano 2000, o tenha elegido a «pessoa do século». Einstein é um ícone do nosso tempo, marcado pelo saber e pelo poder que só o saber pode dar.
Quando o rei D. Dinis
(1261-1325, rei em 1279) criou, em 1 de Março de 1290, o «Estudo Geral» em
Lisboa, iniciando o que é hoje a Universidade de Coimbra, já o reino português
levava 147 anos. O que se passou de mais importante na astronomia nesse quase
século e meio?
Ao contrário do que é corrente, a Idade Média está longe de ter sido uma «noite de dez séculos». A ciência astronómica foi sempre avançando, embora mantendo a cosmovisão aristotélica, adoptada por Ptolomeu, na qual a Terra estava no centro do mundo e os cinco outros planetas então conhecidos – Mercúrio, Vénus, Marte, Júpiter e Saturno – circulavam à volta da Terra. A Divina Comédia, do italiano Dante Alighieri, escrita entre 1308 e 1320 e publicada em 1472, apresenta esse modelo aristotélico-ptolomaico, com os planetas em circunferências concêntricas. Para explicar os retrocessos dos planetas do céu, foi preciso criar, ainda na Antiga Grécia, um conjunto de epiciclos, que Ptolomeu incorporou no seu modelo. Epiciclos são pequenas circunferências percorridas por um planeta em torno de um ponto que por sua vez percorre uma grande circunferência em torno da Terra.
O rei Afonso X de Castela (1221-1284, rei em 1252), cognominado o «Sábio» ou o «Astrólogo» , que era avô de D. Dinis, conhecia bem esse sistema geocêntrico com os epiciclos. O “Sábio” apoiou a escola de tradutores de Toledo, um grupo de cristãos, judeus e muçulmanos que assegurou a transmissão de muitas obras da Antiguidade Clássica, e mandou instalar um observatório astronómico também nessa cidade. Foi também o compilador das chamadas Tabelas Afonsinas, completadas em 1270, que descrevem as posições dos planetas em 1252, o ano da sua coroação, e o principal impulsionador dos Libros del Saber de Astronomia, preparados entre 1276 e 1279, portanto pouco tempo antes da fundação da primeira universidade portuguesa. As duas obras teriam ampla circulação até ao Renascimento. É famosa uma citação muito conhecida, mas apócrifa, de Afonso X: «Se o Deus todo-poderoso me tivesse consultado antes da criação, eu teria recomendado algo mais simples». O facto de o poderoso rei de Castela se interessar pela astronomia revela o alto estatuto dessa ciência no século XIII. Decerto que em Portugal, no tempo de D. Dinis, se conheciam as obras de Afonso X. Segundo alguns historiadores, D. Dinis teria recebido do seu avô os Libros del Saber. Mais tarde, D. Duarte (1391-1438, rei em 1433) chamaria, no Leal Conselheiro (1438), a Afonso X «aquele honrado rei astrólogo quantas multidões fez de leituras».
Nesse tempo, Astronomia e Astrologia confundiam-se, pois as posições dos planetas serviam para fazer horóscopos. D. Afonso IV (1291-1357, rei desde 1325), filho de D. Dinis, tinha na sua corte alguns astrólogos, como Afonso Dinis, bispo da Guarda e Évora. Já na dinastia de Avis, o rei D. Duarte tinha na sua corte o astrólogo Mestre Guedelha, cujas indicações nem sempre seguiu. Várias décadas volvidas Frei António de Beja (1493-1517), da Ordem de S. Jerónimo, haveria de publicar o seu livro Contra os Juízos dos Astrólogos (1523), onde contesta a profecia de que o fim do mundo seria no ano seguinte. O matemático Pedro Nunes (1502-1578), professor da Universidade de Coimbra, refere-se à astrologia uma só vez, no seu livro De Crepusculeis (1542). Diz ele que o seu discípulo D. Henrique, futuro Cardeal Rei, «se compraz de modo admirável com a teórica da Astronomia, isto é, da ciência que se ocupa do curso dos astros e da universal composição do céu, que não da crendice vã e já quase rejeitada que emite juízos sobre a vida e a fortuna.» Isto, é o sábio português faz questão de separar astronomia, a ciência dos astros, e astrologia, as previsões com base nos astros.
O primeiro almanaque em português, traduzido do latim, Almanaque Perdurável para Achar os Lugares dos Planetas nos Signos (c. 1321), saído portanto no reinado de D. Dinis, serviu de base a previsões astrológicas. Contudo, os primeiros almanaques portugueses sob forma impressa só surgiram na segunda metade do século XV, destacando-se o Almanach Perpetuum (1496), do astrónomo judeu Abraão Zacuto (c. 1450 - c. 1522), que seria usado durante as viagens de Vasco da Gama e Pedro Álvares Cabral.
Um dos eventos astronómicos que ocorreu entre D. Afonso Henriques e D. Dinis não foi registado na Europa Ocidental, mas sim na China e no Japão: Tratou-se da supernova de 1181, que permaneceu visível na constelação da Cassiopeia durante 183 dias. Uma supernova é uma grande estrela que explode violentamente por não conseguir manter o equilíbrio da matéria no seu interior. Só houve nove supernovas observadas a olho nu na nossa galáxia ao longo dos tempos históricos.
No Médio Oriente, a astronomia foi, na Idade Média, cultivada ao mais alto nível pelos muçulmanos. O polímata persa Naceradim de Tus ou Nasir al-Din al-Tusi (1201-1274) construiu, a partir de 1259. um observatório astronómico em Maragha (no actual Azerbaijão), que permitiu completar tabelas dos planetas em 1272. Essas tabelas seriam traduzidas para grego no Império Bizantino, mas não chegaram ao Ocidente. O tempo da globalização do saber ainda estava por chegar.
Espero que esta mensagem, colocada
dentro de uma garrafa, chegue, depois de muitos mais números da Visão (quiçá
mais 1500, o que significa no ano 2050), a alguém que a leia. Dado o
crescimento do nível das águas do mar, a garrafa poderá ser encontrada numa
zona que hoje está afastada da beira marítima. No quadro das alterações
climáticas em curso, uma das mais inexoráveis é, de facto, a subida da água do
mar, devida em boa parte à fusão de massas de gelo polares e dos glaciares de
altitude.
Para parar essas alterações, é preciso que o pico de emissões de dióxido de carbono seja atingido nas décadas mais próximas, o mais tardar até 2050, e, assim, quem me leia possa ter mais esperança na boa habitabilidade do planeta do que nós temos hoje. A Terra, que bem se poderia chamar Água ou Mar, é, na prática, o único sítio onde a Humanidade pode viver e é, de resto, um sítio maravilhoso para se viver. Sei bem que é obrigação da minha geração legar a nossa «casa» em bom estado às próximas gerações, a quem me vier a ler. Nós, quem hoje vive e quem amanhã viverá, não somos possuidores da Terra, mas apenas seus habitantes durante o nosso tempo de vida. A ciência, que recebemos e transmitimos, tem-nos proporcionado um cada vez maior conhecimento do mundo e, com ele, melhores condições de vida. Sem a ciência estaríamos decerto perdidos. Mas não é apenas a ciência que nos salva. É preciso uma forte vontade colectiva, uma vontade que, em qualquer presente, seja solidária para com o futuro.
A Figueira da Foz tem tradições
no cinema: além de ser a terra do realizador João César Monteiro, foi o sítio
do mais relevante festival de cinema do nosso país. Atento ao programa cultural
da Figueira, fui ver o Ocean Film Tour, que passou a 9 de Novembro no CAE
- Centro de Artes e Espectáculos.
Assisti a quatro documentários sobre os oceanos: um sobre a vigilância de pescas clandestinas, outro sobre os sons do mar, outro sobre uma corrida de vela à volta do mundo e outro ainda sobre desportos náuticos. O filme que mais gostei foi The weekend sailor («O marinheiro de fim de semana»), de 2016, realizado pelo mexicano Bernardo Arsuaga e já laureado com vários prémios internacionais. Conta a proeza de um veleiro mexicano, o Sayula II, que, com uma tripulação composta pela família do capitão e alguns marinheiros arranjados à pressa, conseguiu, em 1974, vencer a Whitbread Race, uma viagem de circum-navegação em quatro grandes etapas. O Sayula II, que competia com alguns dos melhores veleiros do mundo, ganhou, com bastante sorte à mistura. Nessa corrida, três velejadores de outros barcos, apanhados pelo mau tempo, caíram ao mar e morreram.
Na mesma sessão do CAE esteve um representante da associação SOS Cabedelo, um movimento cívico que tem defendido o desassoreamento junto à barra da Figueira, alertando para o perigo que as areias representam para a navegação. Quatro dias depois deste aviso, ocorria ali o naufrágio de um barco de pesca desportiva, com cinco amadores a bordo, dos quais só um se salvou. Em declarações ao Observador um activista daquela associação lembrou que os barcos de pesca Jesus dos Navegantes e Olívia Ribau tinham naufragado em águas da Figueira em 2013 e 2015, causando um total de nove vítimas mortais.
O novo acidente deu-se num sábado de manhã: eram marinheiros de fim de semana. Infelizmente não tiveram a sorte da tripulação mexicana, que, tendo estado várias vezes em grandes apuros, conseguiu chegar à meta. Mas, em questões marítimas, não se pode confiar na sorte. Há mar e mar, há ir e voltar!
O Natal é um tempo especial para dar e receber. Em particular, livros. Escolho aqui algumas das edições mais recentes publicadas entre nós e que constituem bons presentes de Natal. Ou já mas deram ou dei-as a mim próprio, atraído que fui pelo conteúdo e pela forma. Apresento-as por temas e, dentro de cada tema, por ordem alfabética do apelido do autor (ou de título, quando há vários autores). A seguir à indicação dos autores, título e editora digo brevemente as razões da escolha. Outras obras mereceriam lugar numa selecção natalícia, mas esta, limitada pelo espaço do jornal, foi naturalmente determinada pelo gosto pessoal.
Arte: Artur Pastor,
Fundação Francisco Manuel dos Santos e Arquivo Municipal de Lisboa, com
apresentação de António Araújo e Isabel Corda – um extraordinário álbum de imagens
de um país hoje inexistente que me surpreendeu por não conhecer o fotógrafo;
e Guilherme Pires, O Homem Infinito… Vida e obra de Nadir Afonso.
Influência – uma biografia de um pintor
que admiro, designadamente porque gostava de misturar arte e ciência.
(...)
Ver o resto em
https://www.publico.pt/2021/12/02/opiniao/opiniao/livros-presentes-1987029
(só para assinantes)
O físico norte-americano Richard Feynman (1918-1988) foi laureado com o Prémio Nobel da Física de 1965 pelo seu trabalho de formulação da «electrodinâmica quântica» (em inglês Quantum ElectroDynamics, QED), a teoria física extremamente precisa que descreve a interacção dos electrões com a luz. Mas Feynman, para além de outros trabalhos inovadores em várias outras áreas da Física e da Tecnologia (foi pioneiro da nanotecnologia e da computação quântica, duas áreas hoje em forte crescendo), foi também um grande pedagogo (escreveu as renomadas Feynman Lectures on Physics, três livros de capa vermelha que todos os estudiosos de Física apreciam pela sua originalidade e profundidade), e foi ainda um notável divulgador de ciência (os seus dois principais títulos nesta área são QED – A Estranha Teoria da Luz e da Matéria, saído na Gradiva, em 1988, com nova edição, revista, em 2015, que foi o Ano Internacional da Luz, e O Carácter da Lei Física, saído na Gradiva em tradução minha em 1989).
A Gradiva acaba de publicar uma edição completamente revista – na prática, uma nova tradução, pois a anterior, de 1988, deixava a desejar, ao contrário do que é norma naquela editora – do seu livro auto-biográfico, com histórias contadas oralmente ao seu amigo Ralph Leighton. O título é «Está a Brincar, Sr Feynman!». Aventuras de um personagem curioso (original: W.W. Norton, 1984). Trata-se de uma obra que sempre recomendei e que não me canso de recomendar, tal como o fazem, em prefácios distintos, o escritor português Onésimo Teotónio Almeida e o empresário e filantropo norte-americano Bill Gates. Onésimo Almeida diz que o autor é «uma inteligência fulgurante a dimanar-lhe do corpo inteiro, superiormente descontraído e sem pose e com um sentido de humor sorridente a iluminar-lhe as palavras. Tudo menos o cliché do prémio Nobel», ao passo que Bill Gates diz: «Mas Feynman foi mais do que apenas um cientista incrível e um professor estupendo. Foi uma das personagens mais interessantes da sua época. (…) As histórias neste livro são tão cativantes que o leitor vai querer partilhá-las com os amigos e a família». Quem não conheça o livro, em particular os leitores mais jovens, vai adorar fazê-lo, porque o professor de Física é desconcertante, ao relatar histórias passadas consigo que vão desde a sua oferta como voluntário em espectáculos de hipnotismo até uma briga ao murro num bar. Mesmo para quem já conheça o livro valerá a pena relê-lo, pois é uma escrita bem-disposta que transmite boa disposição.
Feynman licenciou-se em Física no MIT em 1939 e doutorou-se em 1942 na Universidade de Princeton, um sítio onde a grande figura era na época Albert Einstein (que estava presente no primeiro seminário que Feynman lá deu). Como conta neste livro, Feynman queria continuar a estudar no MIT, por achar que era «o melhor sítio do mundo», mas os seus professores não deixaram, pois achavam – e com razão – que ele devia conhecer o mundo antes de formar opiniões. Em 1943, Feynman foi recrutado para trabalhar em Los Alamos, no deserto do Novo México, no projecto Manhattan, que construiu as primeiras bombas atómicas. Foi nessa altura que começou a lenda a respeito da sua capacidade de abrir cofres, adivinhando os códigos que as pessoas usavam para proteger documentos ultra-secretos. A seguir foi professor na Universidade Cornell, onde realizou o trabalho que havia de lhe dar entrada na galeria dos prémios Nobel. No início dos anos 50 passou um ano no Brasil, onde aprendeu português para além de aprender a tocar frigideira e bongo. Depois aceitou uma oferta do Caltech, o California Institute of Technology, em Los Angeles, onde alcançou o cume da sua fama como professor, escrevendo as suas Lectures. Passou, portanto, pelas melhores universidades dos Estados Unidos e do mundo.
O livro que traduzi, O Carácter da Lei Física, compila um conjunto de palestras gravadas pela BBC em Cornell e destinadas ao público generalista, que dão um «cheiro» da sua obra pedagógica maior. Os direitos dos vídeos foram adquiridos por Bill Gates, que os colocou na Internet em acesso livre, conforme ele informa no prefácio a Está a Brincar, Sr. Feynman! (Gates chamou a Feynman o «melhor professor que nunca tive»).
O livro agora reeditado dá conta tanto do génio como da excentricidade de Feynman, um novaiorquino de origem judaica. Existe uma sequela, Nem Sempre a Brincar, Sr. Feynman! Novos elementos para o retrato de um físico enquanto homem (3.ª edição, Gradiva, 2004), onde, entre outras vivências, expõe as suas posições como membro da comissão de inquérito ao desastre do vaivém Challenger da NASA, que vitimou, em 1986, os sete astronautas a bordo, incluindo a primeira professora civil a voar no espaço. Feynman já estava doente com cancro quando participou nessa comissão, na qual também estava Neil Armstrong, o primeiro homem a pisar solo lunar. A sua situação de saúde não o impediu de mostrar, perante as câmaras de televisão, durante uma conferência de imprensa muito concorrida, como uma anilha do vaivém se tinha quebrado no lançamento devido às baixas temperaturas em Centro Espacial Kennedy, na Florida, no dia do seu lançamento, em Janeiro. Declarou, sem papas da língua, criticando as manobras da NASA de encobrimento de alguns seus procedimentos: «A realidade tem de estar à frente das relações públicas, já que a Natureza não pode ser enganada.»
Feynman é hoje um herói popular: vários filmes, peças de teatro, bandas desenhadas e até uma ópera representam-no. Numa das peças de teatro o físico é apresentado a querer ensinar física teórica a prostitutas de Las Vegas, uma cena que não será inteiramente inventada. Alguns dos aspectos mais pitorescos do livro em apreço são as histórias que o autor conta a respeito de companhias femininas, desde a sua primeira mulher, que morreu de tuberculose num hospital em Albuquerque, quando ele estava a trabalhar em Los Alamos, até às várias mulheres que conheceu em bailes e bares. Quando recebeu o Nobel, estava casado em terceiras núpcias com uma inglesa, com quem teve um filho e uma filha (esta adoptada), depois de um segundo casamento assaz tumultuoso.
As últimas palavras de Feynman no hospital onde estava internado com o cancro terminal, foram de extrema ironia: «Não gostaria de morrer segunda vez. É tão aborrecido».
Outros livros de Feynman em português, além dos quatro já referidos, são, por ordem cronológica de publicação:
- Uma Tarde com o Sr. Feynman. Que é a ciência?, Introdução, apresentação, notas e tradução de A. M. Nunes dos Santos e C. Auretta (Gradiva, 1991). Dois professores da Universidade Nova de Lisboa reuniram a tradução portuguesa da Conferência Nobel e outros textos breves. Recomendo, em particular, a lição «Que é a ciência?» que ele deu em 1966 na Associação de Professores de Ciência Americanos.
- A Lição Esquecida de Feynman: O movimento dos planetas em torno do Sol, organizado por David Goodstein e Judith Goodstein (Gradiva, 1997). Um físico e uma arquivista de Cornell recuperaram uma lição das Feynman Lectures que não foi dada. O assunto são as conhecidas leis de Kepler do movimento planetário, mas Feynman conseguia ser original a respeito de qualquer assunto
- O Significado de Tudo. Reflexões de um cidadão-cientista (2.ª edição, Gradiva, 2005). Este livro contém as conferências públicas que ele proferiu na Universidade de Washington em 1963.
- O Prazer da Descoberta. Os melhores textos breves de Richard Feynman, organizado por Jeffrey Robbins (2.ª edição, Gradiva, 2011). Esta é uma colectânea dos melhores textos breves de Feynman, incluindo conferências, entrevistas e artigos. Destaco a palestra «Há muito espaço lá em baixo» dirigida à assembleia da Sociedade Americana de Física em 1959, e que marca o início da nanotecnologia, e a entrevista «O homem mais inteligente do mundo» dada em 1979 à revista Omnia.
De entre as várias obras sobre Feynman, destaco a sua biografia, da autoria do jornalista norte-americano James Gleick: Feynman: A Natureza do Génio (Gradiva, 1993). Continua, passados quase 30 anos, a ser uma excelente fonte sobre a vida do físico, combinando a descrição da sua vida com a exposição da sua obra científica.
Para abrir o apetite para o livro deixo dois excertos. O primeiro explica o título. Feynman, inexperiente em eventos sociais, era convidado num chá dado pelo director da Faculdade em Princeton, o Professor Eisenhart:
«Entro e vejo algumas senhoras e raparigas. É tudo muito formal e estou a pensar onde me devo sentar, e se devo ou não sentar‑me ao pé de certa rapariga, e como devo comportar‑me, quando oiço uma voz atrás de mim:/ ‘Quer natas ou limão com o chá, Sr. Feynman?’/ Era a Sra. Eisenhart a servir o chá./ ’Quero as duas coisas, obrigado, respondo eu, ainda a procurar um sítio para me sentar, quando, subitamente, oiço: ‘Eh‑eh‑eh‑eh‑eh. Deve estar a brincar, Sr. Feynman.’»
O segundo conta uma cena do seu primeiro baile na Universidade Cornell:
«Dancei com outra rapariga e vieram de novo as perguntas do costume: ‘É estudante ou está a doutorar‑se?’ (Havia muitos estudantes mais velhos que o habitual, porque tinham estado no Exército.) / ‘Não, sou professor.’/ ‘Oh! Professor de quê?’/ ‘Física Teórica.’/ ‘Suponho que trabalhou na bomba atómica.’/ ‘Sim, estive em Los Alamos durante a guerra.’/ ’Que grandessíssimo mentiroso!’, acusou ela, afastando‑se.»
O «mentiroso» estava afinal a falar verdade! Para ter êxito com as mulheres tinha de lhes mentir…
O “sistema educativo mundial”, protótipo dos “sistemas educativos nacionais”, ainda que apresentado de modo apelativo e mobilizador, dissimula contradições várias. Uma delas, objecto deste texto, é o elogio da colaboração, ao mesmo tempo que estimula à competição de tipo empresarial. O que devem os educadores fazer? Resistir, diz o filósofo Michael Sandel porque o conhecimento, tal como outros bens, que concorrem para o “bem comum”, não tem preço nem pode ser posto ao serviço da meritocracia; tem um valor que deve ser partilhado.
"Vivemos tempos estranhos: ensinar confunde-se com entreter, o emotivismo impõe-se à emotividade e o entretenimento aquieta o conhecimento."
Neste livro publicado em 2020, o filósofo, pedagogo e ensaísta espanhol Gregório Luri analisa a situação actual da escola e as políticas educativas de cariz economicista que põem de lado o conhecimento e a exigência, em favor do lúdico e do facilitismo. Defendendo o valor do conhecimento poderoso, aquele que compete à escola transmitir ao aluno, critica o empobrecimento intelectual a que se condenou toda uma geração que sai da escolaridade obrigatória sem os conhecimentos fundamentais, e sem saber distinguir "um facto de uma opinião".
Numa entrevista ao jornal digital "Vozpópuli", em Março de 2020, afirma que:
"Se a escola está em crise não é por ser uma instituição vetusta, mas por ter esquecido a sua nobre função: a de reduzir, no mínimo tempo possível e no maior número de alunos, a distância entre a ignorância e o conhecimento poderoso."
Alertando para o facto de estarmos a viver uma "batalha cultural", incita a que cada um defenda sem complexos aquilo em que acredita, pois:
"Há que defender aspectos essenciais da transmissão do melhor da nossa herança e a memória é um delas."
E destaca:
"Em educação damos mais atenção ao bonito que ao rigoroso. O que eu digo é que não há substituto do esforço e creio que uma das grandes satisfações desta vida é o esforço intelectual que encontra a resposta para o que se procura."
"As novas tecnologias permitem chegar a muitas coisas e proporcionam muitos recursos, mas eu defino-as como próteses antropológicas que ampliam o que já eras. "
“De repente as portas abrem-se e vemos um homem patético, simples, pequeno, igual a qualquer um, não tinha chifres, nada. E este homem tinha...