sábado, 9 de março de 2019

MAIS EFEMÉRIDES DE CIÊNCIA

Informação recebida de Adriano Alexandre Vicente Simões da Silva (BPM Porto):

6 de Março

6 de março de 1869 – Dmitri Mendeleiev apresenta a 1ª Tabela Periódica à Sociedade Russa de Química, onde não só explicava as propriedades dos elementos químicos conhecidos como previa as dos elementos químicos por descobrir. Em dezembro de 2017, a ONU declarou 2019 como o Ano Internacional da Tabela Periódica, bastante publicitado em Portugal pelo físico Carlos Fiolhais, de Coimbra. Ciência.

6 de março de 1917 – Nasce, em Lisboa, Luís de Albuquerque, professor universitário de Matemática e Engenharia Geográfica, mais conhecido como historiador dos Descobrimentos Portugueses. Ciência.

6 de março de 1899 – A Bayer regista a Aspirina como propriedade industrial. Indústria farmacêutica.

6 de março de 1953 – A Empresa Fabril do Norte continua o fabrico a partir do linho, graças a um regime especial, por despacho governamental (“O Tripeiro”, mar.2003, efem.). Indústria têxtil.

6 de março de 1955 – Vasco Sameiro ganha o Grande Prémio de Maracaná, no Rio de Janeiro, utilizando os pneus portugueses MABOR. É a consagração dos pneus (“O Tripeiro”, mar.2005, efem.). Indústria automóvel.

6 de março de 1969 – Entrou o visitante 20 mil na CUF – Companhia União Fabril, fábrica de cerveja e refrigerantes (“Diário do Norte”, 9 mar.1969, p. 2). Bebidas. Indústria.

7 de Março

7 de março de 1876 – Alexander Bell patenteia o telefone. Ciência. Indústria.

7 de março de 1953 – James Watson e Francis Crick apresentam a teoria da dupla hélice do DNA. Biologia. Ciência.

7 de março de 1969 – Separados no Espaço: a aranha e o “pingo de borracha” da Apolo-9 (“Diário do Norte”, p. 16). Ciência.

7 de março de 2009 – Lançamento do observatório espacial Kepler, projetado para descobrir planetas semelhantes à Terra, graças à ocultação periódica das estrelas pelos planetas, resultando daí uma oscilação do brilho das estrelas. A Kepler permitiu a descoberta de 2720 exoplanetas, antes de se aposentar em 30 de outubro de 2018. Ciência.

7 de março de 1859 – Publicou-se o n. 44 do jornal da Associação Industrial Portuense (jornal “O Porto e a Carta”, p. 2). Indústria.

7 de março de 1890 – Industriais cervejeiros do Porto fundam a CUFP – Companhia União Fabril Portuense de Fábricas de Cerveja e Bebidas Refrigerantes, antecessora da UNICER. Se quiser saber mais, leia o boletim interno na BPMP (na cota: P-B-1354) ou em “O Tripeiro”, Out.2015, p. 290-295, e ns. seguintes. Na imagem, rótulo antigo da cerveja preta da CUFP (retirada de “Porto Desaparecido” de 23 jan.2016). Bebidas. Indústria.
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7 de março de 1902 – João Garrido expõe a primeira “autociclette”, no seu estabelecimento à rua de Passos Manuel. Em poucas horas foram encomendados 17 aparelhos, antepassados das motocicletas (“O Tripeiro”, mar.1952, efem.). Indústria automóvel.

7 de março de 1909 – 1.º nº do jornal sindicalista “A Defesa Operária: defensor dos manipuladores de tabaco e do operariado em geral”, o qual terá terminado em 1914 (consultável na BPMP na cota IX-3-11). Sindicalismo. Tabaco. Indústria.

7/8 de março de 1909 – Conferência “A Paz pelo Direito: o valor da solução jurídica dos litígios entre nações” pelo académico A.A. Mendes Correia na Associação Protetora dos Industriais Portugueses (“O Tripeiro”, mar.1959). Indústria.

7/8 de março de 1915 – Inauguração, na Quinta da Formiga, em Ermesinde, de uma Escola de Pomologia e Pequenas Indústrias Agrícolas, sendo presidente Júlio Gama (“O Tripeiro”, mar.1965, efem.). Agricultura. Indústria.

7 de março de 1950 – Anúncio de 4 milhões de dólares do Plano Marshall para a fábrica de papel da Companhia Portuguesa, a construir em Cacia. Indústria do papel.

7 de março de 1963 – Inauguração, em Cabo Ruivo, da nova instalação da Petroquímica (“O Tripeiro”, mar.2013, efem.). Se quiser saber o que existe na BPMP sobre este assunto, pesquise no catálogo online da BPMP, disponível em http://bibliotecas.cm-porto.pt, por assuntos: Indústria de combustíveis – Periódicos (a divisão do assunto Indústria foi pedido/sugerido pela leitora/professora/investigadora Maria da Luz Sampaio).

7 de março de 1969 – Importante donativo para o Lar do Comércio: D. Sílvia Ferreira, viúva do grande industrial Delfim Ferreira, deu 100 mil escudos (“Diário do Norte”, p. 11). Indústria. Idosos.


"A nova geração terá o poder de decidir o que quer aprender"

Na sequência de texto anterior (aqui), reproduzo uma entrevista a Marc Prensky, que cunhou a expressão "nativo-digital", retirando dela implicações para a Educação, que sistematiza e actualiza no seu muito premiado livro Education to Better Their World. Unleashing the power of 21 st -Century Kids (2016). 
A entrevista foi realizada por Leo Branco em 2017 e apresentada na revista Exame com o título "O professor deve ser um mentor". O motivo foi o lançamento de uma escola, da qual é consultor pedagógico, pertencente à rede Global Future Education Foundation and Institute, que fundou e da qual é director executivo,

Nota: Os destaques são meus.

"O americano Marc Prensky, de 71 anos, é um otimista sobre o futuro da educação. Para Prensky, que estudou em universidades prestigiadas como Harvard e Yale e escreveu sete livros sobre o tema, hoje os professores devem trabalhar como mentores, estimulando as crianças a pensar em soluções criativas para os problemas da sociedade. Atualmente, segundo ele, um bom ensino é aquele que faz o aluno descobrir qual é seu propósito e aprender a usar as ferramentas para mudar o mundo (...)
Como o modelo educacional deve se adaptar ao mundo atual? Por séculos, o conhecimento acadêmico funcionou bem para ensinar matemática, línguas e ciências. Isso não funciona mais. A tecnologia trouxe instabilidade. O mercado de trabalho está mudando rapidamente. As crianças hoje têm mais poder de aprender sozinhas do que no passado. A educação tradicional não se encaixa mais às necessidades delas.  
Quais são as alternativas? Temos de dar poder às crianças para elas decidirem o que querem aprender. O professor precisa ter um papel de mentor dos desejos do aluno, e não o de mero retransmissor de conteúdo. A criança precisa hoje do professor não para receber conhecimento, que ela pode encontrar facilmente na internet, mas para guiá-la na busca do que gosta de fazer. 
O que o senhor quer dizer com “dar mais poder às crianças”? É mostrar às crianças coisas que elas enxergam como problemas no mundo e estimulá-las a encontrar soluções. Por exemplo, se há crianças que se preocupam com a violência policial contra jovens negros, o papel da educação é instigá-las a resolver o problema. Uma maneira é usar o tema como ponto de partida para as aulas de história e sociologia, e ensinar habilidades importantes para a vida profissional, como criar um aplicativo para avaliar a qualidade do atendimento policial. O aprendizado virou um meio para chegar a um objetivo, que, no fundo, é formar indivíduos transformadores. 
Os professores estão preparados para a mudança de função? Não estarão preparados se enxergarem a si mesmos como provedores de conteúdo. Alguns profissionais vão entender a mudança, mas outros vão sair da profissão. 
Qual é o perfil ideal de professor para os novos tempos? O critério mais importante para dar aulas hoje é ter empatia. A pessoa gosta de trabalhar com crianças? Gosta de aconselhar os outros a seguir seus propósitos? Então pode dar aulas. O conhecimento acadêmico do professor deveria vir em segundo plano. 
Como avaliar a qualidade do ensino atualmente? Hoje é comum criar rankings para tudo: as melhores escolas, os melhores professores etc. Acho isso uma bobagem. Prefiro avaliar a entrega: quem de fato produziu algo. É a mesma coisa nos negócios. Os profissionais bem avaliados são os que entregam aquilo que se propuseram a fazer. 
Haverá sala de aula no futuro? Na minha opinião, não. O modelo de sala de aula vai mudar. Recentemente, visitei uma escola em Palo Alto, na Califórnia, em que todos os móveis das salas tinham rodas para que pudessem ser movidos de um lado para o outro, dependendo da atividade. Veremos cada vez mais exemplos de soluções assim."

sexta-feira, 8 de março de 2019

(Ep. 51) "A Quarta Revolução Industrial"

APTIDÕES SOCIAIS EM CONTEXTO ESCOLAR

Artigo do psiquiatra Nuno Pereira:


    As aptidões sociais, plasmadas no gesto e na palavra com regras convencionais relativas a determinada cultura, criam forte vínculo entre os indivíduos da mesma comunidade. A vida em sociedade requer a aprendizagem de certas normas de comportamento com a função de possibilitar boas relações interpessoais e de evitar conflitos, o que influencia significativamente o êxito académico e profissional e o próprio bem-estar. Por outro lado, há correlação entre défice das habilidades sociais e perturbações ansiosas, depressivas, de autocontrolo ou mesmo aditivas. Embora tais normas pragmáticas não compartilhem a ideia da universalidade dos princípios éticos, representam a forma externa de respeito ao próximo. Trata-se dum estádio decisivo do desenvolvimento humano, em que se aprende a ser autêntico na expressão dos próprios sentimentos e sensível aos sentimentos dos outros.

    Os principais contextos para cultivar a competência social são a família, a escola, o grupo de amigos e o ambiente virtual criado pelo progresso tecnológico. No presente, a perda do medo à autoridade obriga a privilegiar outras modalidades educativas orientadas para a aprovação e a ordem sociais.

    A família, como primeiro agente socializador da criança, tem cada vez menos tempo para transmitir noções elementares de civilidade e preparar a inserção na sociedade. O crescente alheamento dos pais leva a que as relações entre pares e o ambiente digital relevem demasiado na formação dos filhos, que deste modo correm maiores riscos de apresentar problemas de comportamento.

    A escola, como local de socialização secundária, reúne as condições necessárias para minorar as falhas da família (muitas vezes, disfuncional) na transmissão dum código de relacionamento que proporcione um convívio agradável, aproveitando circunstâncias específicas da vida escolar quotidiana. Sem prejuízo da área curricular da educação para a cidadania (garante dos direitos e deveres do cidadão), os professores podem desenvolver as aptidões sociais dos alunos, reforçando comportamentos adequados e agindo como modelos significativos. A aprendizagem opera-se naturalmente, sem recurso a qualquer programa particular, por reforço social e observação do comportamento do modelo, em situações humanas concretas. Atos gentis provocam reações semelhantes no Outro com benefício mútuo.

    A educação do trato social, de suma importância para a realização do projeto de vida pessoal, deve promover um estilo comunicativo assertivo através sobretudo de aprendizagem em espelho e prática diária, o que supõe necessariamente um cuidado acrescido do professor e mesmo dos demais funcionários da escola, com a desejável participação do núcleo familiar.

                                                                            Nuno Pereira (psiquiatra)

As múltiplas gerações de "nativos digitais" ou a ideia de que os alunos de hoje são completamente diferentes dos do passado

"Our students have changed radically. 
Today’s students are no longer the people 
our educational system was designed to teach."
Marc Prensky, 2001, p.1.

As expressões "imigrante digital" e "nativo digital", que rapidamente entraram tanto no vocabulário comum como no vocabulário académico, foram criadas pelo norte-americano Marc Prensky e apresentadas num artigo - Digital Natives, Digital Immigrants -, publicado em 2001.

Estas expressões, esclarece o seu autor, traduzem uma "descontinuidade" de interpretação, de comunicação, de relação entre as pessoas nascidas antes da revolução digital (para quem os meios tecnológicos são estranhos, de modo que poderão tornar-se, quanto muito, consumidores passivos) e as pessoas nascidas depois da revolução digital e criadas com elas (para quem os meios tecnológicos, mais do que estarem presentes na sua vida, fazem parte da sua identidade e funcionamento). Entre as características mais marcantes destes últimos estão, a utilização activa de tais meios, o multitasking, a espontaneidade e a resposta imediata, a permanente ligação em rede, o uso de écrans em substituição do papel, a necessidade de obter recompensas imediatas e constantes.

Em meados dos anos de 1980 terá sido dado, segundo Prensky, um passo decisivo nessa "descontinuidade", consolidada ao longo do século XXI. Contudo, ela estaria a ser preparada duas décadas antes: Karl Kapp designou as gerações nascidas nos anos de 1960 e seguintes por "Gamers generation" e Don Tapscott designou a geração nascida em finais dos anos de 1970, inícios dos anos de 1980 como "Net generation".

Juntando as contribuições, nem sempre convergentes, destes e de outros nomes, provenientes sobretudo das áreas da tecnologia e da economia, identificam-se as seguintes "gerações":
Geração X, constituída pelos nascidos por volta de 1965 a 1980, viram surgir a internet e adaptaram-se ao computador pessoal. 
Geração Y, constituída pelos nascidos por volta de 1980 a 1999. É a "geração do milénio" (millennials) ou "geração internet", ou, ainda dos "nativos digitais" que acolhem o espírito da globalização.
Geração Z, constituída pelos nascidos por volta de 2000 a 2010. É a "geração do pós-milénio" (pós-millennials), que vive a par das tecnologias, extensões do seu corpo, e funciona de modo multitarefa.
Geração Alpha, constituída pelos nascidos após 2010, cujo contacto com as
tecnologias acontece desde o berço, por isso, elas já não são uma extensão do seu corpo, fazem parte dele. Denotam capacidade empreendedora e de aprender por si.
Há ainda a “geração uber”, a "geração eu" e outras...
Tudo isto para dizer que conceitos sem qualquer substância científica, surgidos noutras áreas que não a Educação, infiltraram-se nela de um modo rápido e profundo, ao ponto de criarem novos "paradigmas" de aprendizagem.

É o caso de Prensky que, no seu livro Education to Better Their World. Unleashing the power of 21 st - Century Kids (2016), identifica o problema que diz ser central na nessa área: os professores, imigrantes digitais, ao usarem uma linguagem da era pré-digital, não se conseguem fazer entender junto dos seus alunos, nativos digitais, porque estes usam uma linguagem da era digital. Assim, ou os professores se adaptam à linguagem e modos de pensar dos alunos ou não se conseguirão fazer a transição que a figura representa: do passado para o futuro.

quinta-feira, 7 de março de 2019

"Cristovão Colon e o Corsário Coimbrão Pedro Ataíde"

"O LHC do CERN a máquina dos infinitos"

UM MINISTÉRIO FALHADO


Minha crónica no Público de hoje:


Em 2015 assinei com o actual ministro da Ciência, Tecnologia e Ensino Superior, Manuel Heitor, o Livro Negro da Avaliação Científica em Portugal. Dissemos aí que a avaliação dos centros de ciência e tecnologia mandada fazer por Nuno Crato foi um desastre. Quatro anos volvidos está na altura de um “Livro em Branco” sobre a nova avaliação, porque ela está largamente por fazer. Esperei o suficiente, mas passou quase toda a legislatura sem que uma nova avaliação, uma avaliação decente, tivesse sido concluída (na Matemática e na Física nem sequer há avaliadores conhecidos). A comissão sobre o assunto que o ministro constituiu de início foi uma perda de tempo pois não serviu para nada. Deixar passar quatro anos sem reparar erros monumentais lesa tanto a ciência quanto a errada avaliação anterior.

No emprego científico há também atrasos sobre atrasos. De acordo com os dados do Observatório de Emprego Científico, do próprio ministério, pouco mais de um terço dos contratos anunciados está formalizado. São milhares de investigadores no limbo. O concurso de contratos para investigadores de 2017 só abriu em 2018 e quem o ganhou não está ainda a ser pago, apesar de já estarmos em Março de 2019. No concurso de 2018 só no mês passado fecharam as candidaturas e, se o ritmo continuar, só lá para 2020 é que os vencedores poderão ter a situação resolvida. Sei de bolseiros a quem foi reconhecido o direito a um contrato de trabalho e que ainda estão à espera que a burocracia avance. O Programa de Regularização Extraordinária dos Vínculos Precários na Administração Pública tem sido pouco usado para as carreiras docentes e de investigação. Acabou-se com o anterior programa de contratação de investigadores e reduziram-se as bolsas de pós-doutoramento, mas ficou um hiato em que praticamente não houve nada para ninguém. Ora os investigadores não vivem do ar. O ministro mostra uma espantosa insensibilidade para a questão ao falar de “pleno emprego” dos doutorados, apregoando que está tudo bem. Os investigadores sem emprego ou os que emigraram sabem bem que não está.

E há, pasme-se, investigadores seniores ainda precários. Há investigadores que lideram grupos e alunos de doutoramento que têm o desemprego à vista (o caso de Maria Mota deu brado). Os juniores que com eles trabalham até podem descortinar algum futuro, mas eles não. O modelo de investigação montado por José Mariano Gago, um sistema essencialmente desligado do ensino superior, mantém-se, apesar de hoje já não fazer sentido. De facto, as universidades e politécnicos não estão a renovar os seus quadros na medida desejável. E as poucas contratações que fazem continuam a seguir velhas práticas endogâmicas, como nota David Marçal no seu recente livro Cientistas Portugueses (Fundação Francisco Manuel dos Santos).

Por não ter uma estrutura estável, a ciência em Portugal sofre de imprevisibilidade crónica. Não se sabe quando abrem os concursos. E, quando abrem, os atrasos são enormes. Continuam-se a trocar bolsas e contratos precários por mais bolsas e contratos precários. Ainda recentemente ficámos a saber que as bolsas de pós-doutoramento não acabam, ao arrepio do discurso oficial e sem qualquer diálogo com os investigadores. No importante sector da comunicação de ciência a precariedade também é norma. Funções permanentes em museus e centros de ciência continuam a ser desempenhadas por bolseiros, com estranho alheamento do ministro. Em resumo: a ciência ainda é precária entre nós, apesar do percurso que o saudoso Mariano Gago iniciou há mais de 20 anos.

A razão dos problemas é conhecida: não há dinheiro para a ciência. Heitor, como todos os seus colegas do governo, é Centeno. Contenta-se com o poucochinho que lhe dão: no seu mandato o sector não passou de 1,3% do PIB, quando em 2009 tinha atingido 1,6% e a média europeia é 2,0%. Em particular, a Fundação para a Ciência e Tecnologia tem tido um financiamento claramente insuficiente para as necessidades nacionais. Agora que se aproximam as eleições europeias convém lembrar que o PS da “geringonça” não conseguiu, como no tempo de Gago, mobilizar fundos europeus para a ciência. Heitor pode conhecer a sua área, mas – apesar de muita gente como eu ter confiado nele – falhou como ministro.

quarta-feira, 6 de março de 2019

Sem fiança… se atingir a criança: o caso BMW

Texto de Mário Frota, especialista em Direito do Consumo, publicado no jornal As Beiras de hoje.

A BMW, de 1 a 29 de Janeiro de 2017, fez passar na pantalha, por cerca de 650 vezes, em distintos canais – da RTP1 ao Discovery Channel –, em campanha para lançamento de veículos da gama BMW X, mensagens com o emprego de crianças “em seus jogos e brincadeiras” com uma sugestiva advertência: “Volte a ser criança”!

A campanha teve também como suportes diários e semanários de renome, como o PÚBLICO e o EXPRESSO, entre outros. A apDC e a Frente Cívica, a que preside Paulo de Morais, denunciaram tal campanha à DGC – Direcção-Geral do Consumidor.

A DGC instaurou, como lhe competia, os autos de contra-ordenação e infligiu, por decisão de 15 de Dezembro de 2017, coimas no montante global de 120 000 euros.
“As mensagens em causa apresentavam menores, na qualidade de intervenientes principais, o que deriva do objectivo das mensagens: mostrar que a condução dos carros da gama BMW X é um divertimento semelhante ao proporcionado pelas brincadeiras de infância; sendo que não existe ligação directa entre os automóveis da gama BMW X e os menores pelas razões [noutro passo] aduzidas”. 
A BMW e os 9 suportes impugnaram a decisão para a competente instância criminal, no caso, a de Oeiras. O julgamento do recurso pende ali seus termos. E a audiência prosseguirá no dia em que a apDC/Delegação de Leiria promove as IX JORNADAS DE DIREITO DO CONSUMO: “OS MENORES & O CONSUMO”.

Realce aqui para a problemática da publicidade infantil. Louva-se a Direcção-Geral do Consumidor, agora sob nova batuta, por se estar a desobrigar das missões a seu cargo, em contraste com o panorama de outrora. Louva-se a Frente Cívica por se ter associado à apDC na permanente denúncia de situações que tendem a envolver crianças e jovens ao arrepio das prescrições legais, de não exposição e de preservação perante as perturbantes forças do mercado que não olham a meios para atingir ínvios fins.

Nem sempre se tem a percepção do que tal representa na subversão de valores e na perturbação dos equilíbrios domésticos.

Na Europa, o aliciamento de menores pela publicidade representa entre 30 a 40% da afectação dos orçamentos domésticos às suas exigências. No Brasil, p.e., os índices são mais elevados. Países há que proíbem simplesmente a publicidade a menores até aos 12/13 anos e a que os envolve como partícipes.

O regime que vigora em Portugal não o consente em absoluto como o não proíbe de todo. Ei-lo, como se nos apresenta no art.º 14 do Código da Publicidade:
“1 - A publicidade especialmente dirigida a menores deve ter sempre em conta a sua vulnerabilidade psicológica, abstendo-se, nomeadamente, de:
a) Incitar directamente os menores, explorando a sua inexperiência ou credulidade, a adquirir um determinado bem ou serviço;
b) Incitar directamente os menores a persuadirem os seus pais ou terceiros a comprarem os produtos ou serviços em questão;
c) Conter elementos susceptíveis de fazerem perigar a sua integridade física ou moral, bem como a sua saúde ou segurança, nomeadamente através de cenas de pornografia ou do incitamento à violência;
d) Explorar a confiança especial que os menores depositam nos seus pais, tutores ou professores.
2 - Os menores só podem ser intervenientes principais nas mensagens publicitárias em que se verifique existir uma relação directa entre eles e o produto ou serviço veiculado.” Que às autoridades não doam as mãos sempre que em causa a salvaguarda de valores contra os interesses que se insinuam e subvertem.
Mário Frota 
apDC – DIREITO DO CONSUMO - Coimbra

terça-feira, 5 de março de 2019

"Prós & Contras" do Serviço Nacional de Saúde e da ADSE

Meu artigo de opinião publicado hoje in "Diário as Beiras": 


De forma preambular, para além da opinião que, neste meu artigo, peço aos seus possíveis leitores solicito, igualmente, em desespero de causa e com maior razão, aos profissionais de Medicina o que entendo poder ser sua valiosa contribuição "em defesa da saúde dos cidadãos e dos direitos dos doentes" (artigo 3.º, alínea b), do "Estatuto da Ordem dos Médicos"). Ou seja, o que pensam os médicos sobre a forma desumana e ignominiosa como foram expulsos os familiares de beneficiários da ADSE (alguns deles, idosos, doentes e até deficientes). Segue-se a transcrição do meu artigo escrito sob forma acusatória por não me curvar à vontade de vizires ou, à boa maneira camiliana, não obedecer a tolos: 


“Outrora a velhice era um a dignidade; hoje ela é um peso”. 
 François Chateaubriand.

Gostava de saber a sua opinião, caro leitor, expressa em comentários a este meu artigo, sobre a expulsão em retroactividade - que julgo atentar contra princípios de boa-fé e protecção da confiança por parte do Estado - de familiares de beneficiários idosos, doentes e, por vezes, com elevado grau de deficiência por usufruírem de magérrimas pensões para as quais descontaram mensalmente para a Segurança Social. 

Curiosamente, em todos os debates de “Prós & Contras” a que assisti sobre este assunto nunca este facto foi tratado, ou simplesmente aflorado, pelos corifeus da ADSE, ou quaisquer outras entidades presentes, talvez porque, como sentenciavam os antigos romanos ,“de minimis non curat praetor” (o pretor não se ocupa de pequenas questiúnculas).

Mas não se trata, senhores que nos governam de questiúnculas, trata-se de vidas humanas (uma que fosse!) que vos deviam merecer grande e acrisolada atenção por se tratar de gerações que vos antecederam e que em vez de receberem a vossa gratidão merecem o vosso silêncio cúmplice por uma responsabilidade que não desejam assumir. 

Quem sabe se por remontar ao tempo da Grécia Antiga em que os velhos, doentes e deficientes eram lançados de altas escarpas para não se tornarem pesados para o erário público, em Portugal d’hoje substituem-se essas migalhas de dispêndio por escândalos diários de corrupção causando a repulsa da população portuguesa nascida e criada em ambiente familiar ou social a quem repugna este “statu quo”, ademais em debates, como os “Prós & Contras” de ontem (25.Fev.2019), em que a palavra solidariedade foi repisada várias vezes por parte de alguns dos seus intervenientes. 

Ora, a única solidariedade que me foi dada ouvir passou-se entre pontos de vista, ou simples achismos, concordantes em defesa, essencialmente, da medicina convencionada a quem o estado decadente do Serviço Nacional de Saúde, pese embora a acção dedicada da maioria dos seus médicos e enfermeiros, menina dos olhos do seu falecido criador António Arnaut, lhe abriu novas rotas, por vezes, em sistema autofágico por abrir desregradas convenções em localidades em que elas já chegam e sobram para as encomendas. 

Neste debate, apropriando-me de palavras de Eça, meu escritor de eleição, “sempre a mesma exageração ! Todo aquele barulho, pelos céus fora, por um bocado de toucinho!”. 

E o que esperar de discussões sobre temáticas da Saúde que não envolvem simples pedaços de toucinho, mas bácaros inteiros, imortalizados por Rafael Bordalo Pinheiro, em que cada um deles procura avidamente a sua teta? 

Descrente de debates que envolvam a ADSE era minha intenção não assistir a este último. Fi-lo, apenas, porque instado por uma das minhas filhas esperançada que desta vez viriam à baila questões de humanismo que a sua formação cívica contempla, e, por temer eu, por meu lado, estar a ser demasiado pessimista sobre a malvadez da ADSE em relação a familiares de seus benificiários.

Termino declarando a minha tristeza em ser cidadão de um país em que a ingenuidade dos portugueses os leva a acreditar que um dia, sem ser para as calendas gregas, os pratos da justiça deixarão de pender para o lado dos poderosos e dos argentários.

ALTERAÇÕES CLIMÁTICAS: DAS EVIDÊNCIAS OBSERVACIONAIS À MODELAÇÃO DO CLIMA FUTURO


Na próxima 4ª feira, dia 13 de Março de 2019, pelas 18h00, vai ocorrer no Rómulo Centro Ciência Viva da Universidade de Coimbra a palestra “Alterações climáticas: das evidências observacionais à modelação do clima futuro”, por Pedro Matos Soares, físico, investigador em climatologia na Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa.


Esta palestra integra-se no ciclo "Ciência às Seis - Terceira temporada"* e constitui uma boa oportunidade para debater um tema da máxima actualidade com um dos nossos principais especialistas em alterações climáticas.

Sinopse da palestra:
“As alterações climáticas são um dos maiores desafios que a humanidade enfrenta. Após várias décadas de investigação em torno da problemática do aquecimento global existe hoje um consenso quase absoluto que o sistema climático vive um processo de aquecimento em resultado das emissões de gases de estufa de origem humana. Este consenso tem por base, em primeiro lugar, as evidências inexoráveis das observações da evolução clima passado e recente, e em segundo lugar, dos modelos físicos do sistema climático. De facto, os modelos climáticos constituem a mais poderosa ferramenta para projectar a evolução do nosso clima desde a escala global à regional e mesmo local. A região mediterrânica, e em particular Portugal, é das áreas do mundo considerados mais vulneráveis às alterações climáticas, o que confere grande relevância a uma quantificação da mudança do clima em Portugal no século XXI, e dos seus impactos associados na nossa sociedade.”

*Este ciclo de palestras é coordenado por António Piedade, Bioquímico, escritor e Divulgador de Ciência.

ENTRADA LIVRE
Público-Alvo: Público em geral

segunda-feira, 4 de março de 2019

“Filantropismo empresarial”: para uma leitura do discurso e da acção das empresas nos sistemas educativos

A palavra filantropia tem origem etimológica no grego. É composta por dois elementos: antropos que significa homem, no sentido de ser humano e philos (filos) que significa amigo. Assim, philanthropia, quer dizer, basicamente, "amor à humanidade", um filantropo é o amigo do homem, do ser humano, da humanidade. No fundo, filantropia remete para a atitude de altruísmo que é marca da educação e da formação. Será este o sentido com que a palavra é usada no presente, no âmbito da educação escolar e da formação profissional? Vejamos… 

A ideia de envolvimento da sociedade, e dos seus diversos agentes, na educação escolar (sobretudo na educação básica) e na formação profissional não é nova, ainda que no presente denote características muito próprias.

Situando-me no presente, começo por assinalar que são em número crescente os actores que reivindicam a sua co-responsabilidade social e cultural nessa dupla matéria, sendo ela reconhecida (incluindo em letra de lei e no espaço de trabalho académico) a muitos deles que. Entre tais actores estão empresas, fundações, associações e think-tanks, mas também organizações não governamentais e grupos de intervenção cívica.

Fiquemo-nos pelos primeiros. A declaração de intenções que fazem é substancialmente focalizada na necessidade e urgência de debelar a pobreza e de qualificar e requalificar profissionais. Objectivos que afirmam, tendo custos elevados, não estão a ser atingidos pelos sistemas públicos devido à ineficácia e instabilidade das suas políticas e medidas. Assim, disponibilizam-se a "apoiar" esses sistemas. Expressões como “caridade mediática” e “caridade sentimental” (Lipovestsky, 1998), “filantropismo económico” (Seguro Romero, 2017), “filantropia empresarial” (Krawczyk, 2018) traduzem isso mesmo.

Uma análise destes conceitos, faz ressaltar, três aspectos:
1. A educação e a formação dependem da “boa vontade” dos mencionados actores, sendo conceptualizadas e concretizadas segundo a sua “vontade”. Isto significa que o modelo de base é o empresarial, sobretudo de índole técnica e funcional, mesmo que além dos comportamentos competências se prevejam atitudes/valores;
2. As relações pessoais são, por natureza, de dependência, tendo por referência os meios económicos e as oportunidades de acesso aos mesmos: quem tem, dá; quem não tem, recebe. Mas quem recebe fica vinculado à obrigação de contribuir para quem lhe deu, vinculação tanto mais forte quanto mais fragilizada for a sua situação;
3. A difusão (e o reforço) das iniciativas dos actores em questão nos média é bem visível, com destaque para a internet. A mediatização, estrategicamente delineada, associada ao apoio explícito de políticos, de investigadores, de estrelas do espectáculo e de outras personalidades influentes, contribui para a sua aceitação generalizada junto das mais diversas populações. 
Estes três aspectos são bastantes para retirar valor educativo e formativo à educação e à formação a que aludimos. Na verdade, para que a educação e a formação o sejam realmente, têm de ter um carácter altruísta (Maia, 2006), manifestando-se na acção desinteressada, focalizada no Bem para o outro. Mais, têm de ser guiadas por princípios como a “justiça distributiva”, a “igualdade de oportunidades”, e a “liberdade de escolha”. Em suma, têm de resultar, de facto, da filantropia, tal como acima definida. É que a pessoa a educar e a formar, seguindo Kant, tem de ser encarada e tratada sempre como um fim e nunca como um simples meio, caso contrário é a “dignidade”, que fica comprometida.

Reproduzo abaixo extractos de trabalhos em que me baseei para escrever este apontamento, reportados à realidade muito uniforme da Europa, da América do Norte e do Sul e de África.
“(…) por toda a parte, sob o reinado da caridade mediática, a acção moral depende menos de princípios éticos interiorizados que de golpes mediáticos (…). Com a caridade mediática, a moral não desaparece, torna-se sentimental, à la carte, intermitente e, ao mesmo tempo, espectacular, melhor dito, epidémica, última forma de consumo.” Gilles Lipovestsky, 1998, 35-36.
“(…) a educação pública nos EUA foi e continua sendo uma importante estratégia de política social e de ação filantrópica empresarial (…). Em meados do século XIX, podíamos encontrar, de alguma forma estabelecida, a escola primária pública em alguns estados do país, como consequência da forte pressão dos liberais e dos trabalhadores, em contraposição a conservadores e eclesiásticos. E, com a abolição da escravidão, houve um incremento importante da escolaridade, entre outros motivos, pela influência exercida pelas primeiras fundações filantrópicas educativas, criadas por capitalistas do Norte para a erradicação do atraso educacional do Sul (…). É parte do ethos americano o orgulho de ajudar os outros e de uma cultura filantrópica como escopo da moral de uma sociedade democrática liberal. Grandes fundações empresariais foram criadas no século XIX, tais como Carnegie, Rockfeller ou Ford, que atuam até hoje em diferentes âmbitos, prioritariamente na educação. Andrew Carnegie é uma figura emblemática da filantropia empresarial norte-americana. Fez sua fortuna na produção de aço. Era chamado ‘o rei do aço’. Embora muitas vezes apresentado como um dos ‘barões ladrões’ (personagens inescrupulosos da História do capitalismo nos Estados Unidos), é citado como o primeiro empresário a declarar publicamente que os ricos têm a obrigação moral de repartir suas fortunas acumuladas. Fundou em 1905 a Carnegie Foundation for the Advancement of Teaching. A influência dos empresários tem sido intensa na educação pública desde o século XIX. A lógica filantrópica e a atividade das grandes corporações estão enraizadas em todos os espaços da produção educacional americana: na produção de políticas, de programas educacionais, nas escolas. Ela surgiu como atividade filantrópica, com os empresários moralmente obrigados a ‘compartilhar’ parte de sua riqueza. Cresceu exponencialmente a partir da década de 1980, conferindo-lhes poder e prestígio que, além das vantagens fiscais, resultaram na criação de um gigantesco mercado educacional.” Nora Krawczyk, 2018, pp. 60-63. 
“Nota-se que dos anos 90 em diante surgem áreas mais atraentes de atuação para as ONGs: a educação básica, a pobreza e suas distintas manifestações, talvez pela facilidade de captação de recursos e pelo interesse do Estado e mercado em redirecionar o gasto social com estas políticas. Uma das teses recorrentes trata das novas exigências educacionais para a formação do trabalhador (…). O fenômeno da responsabilidade social do empresariado e as parcerias com as ONGs ganham destaque na mídia, porém, apresentam-se ao senso comum de duas formas: na primeira situação, o sujeito fracassou em virtude de sua própria incompetência, não tinha os elementos necessários em sua formação para que pudesse garantir a empregabilidade; e, na segunda, a maneira de se apresentar o fenômeno é mostrá-lo como natural, banal, inevitável, porque esse é um problema da virada do século ou da reestruturação produtiva e da falta de educação do cidadão para o trabalho, colocando o pobre dependente da ajuda dos empresários e das ONGs. O mundo do mercado é cada vez mais competitivo e o Estado cada vez mais gerenciador desses interesses. Educação e pobreza, portanto, criam ou ampliam os espaços para as ONGs, diversificando-as de acordo com o cidadão-beneficiário que interessa ao mercado. Em escala mundial se anuncia a formação de uma rede de parcerias e diálogos que expressa, ao mesmo tempo, uma preocupação com a pobreza e com a educação. Anunciam-se as vantagens da revolução tecnológica em curso, as vantagens do mercado concorrencial fora do controle estatal e se difunde uma filosofia individualista em que predomina o desempenho de cada sujeito em total independência com o coletivo, mesmo estando nele.” Adelaide Ferreira Coutinho, 2009, sp. 
“A filantropia diz respeito à demissão do Estado em consonância com a ideia do Estado mínimo, o que se traduz na tendência a considerar que a educação é um problema de toda a sociedade e não propriamente do Estado, isto é, dos governos. A impressão é que, em lugar do princípio que figura nas constituições, segundo o qual a educação é direito de todos e dever do Estado, adota-se a diretriz contrária: a educação passa a ser dever de todos e direito do Estado. Com efeito, o Estado se mantém como regulador, como aquele que controla, pela avaliação, a educação, mas transfere para a sociedade as responsabilidades pela sua manutenção e pela garantia de sua qualidade. Veja-se como exemplo, no governo FHC, o mote Acorda Brasil. Está na hora da escola e, no governo Lula, o Compromisso Todos pela Educação (…). Na divulgação da Campanha Acorda Brasil, o MEC distribuiu um folheto publicitário que continha frases como: «Os professores precisam ter condições para se atualizar; entre outras coisas, você pode: patrocinar a realização de palestras, seminários e cursos de atualização nas escolas, doar livros e assinaturas de jornais e revistas para uso dos professores (…). E vai em frente (…) pedindo para «ajudar as crianças com dificuldade, ministrando aulas de reforço». Fica claro, aí, que o princípio constitucional que define a educação como dever do Estado cede lugar à boa vontade da população, num regresso à época em que a educação ainda não era considerada um assunto de responsabilidade pública, permanecendo na alçada da filantropia. Quanto ao Todos pela Educação, trata-se de um movimento criado pelos empresários, sugerindo que a educação é um problema não restrito ao Estado e aos governos, mas de toda a sociedade (…). Conforme reportagem do The Intercept-Brasil, a filantropia pode ter várias utilidades: «o honesto desejo por um mundo melhor, a lavagem de consciência, o tráfico de influência e até a lavagem de dinheiro» (Borges, 2016), além, obviamente, das isenções fiscais e da promoção da imagem das empresas que criam os respectivos institutos ou fundações. O resultado observável empiricamente é a precarização geral da educação em todo o país, visível na rede física, nos equipamentos, nas condições de trabalho e salários dos profissionais da educação, nas teorias pedagógicas de ensino e aprendizagem, nos currículos e na avaliação dos resultados.” Dermeval Saviani, 2018, pp. 24 e 25. 
“A pobreza no País vem sendo orientada por uma lógica, de um lado, representada pela adoção de um conjunto desarticulado, insuficiente e descontínuo de programas sociais compensatórios, que na década de 1990 passam a se orientar pelos princípios da ‘focalização’, da ‘descentralização’ e da ‘parceria’ assentados no ideário neoliberal, tudo movido pela ideologia da ‘solidariedade’ e da reedição da ‘filantropia’ e da ‘caridade’, agora estendida ao âmbito empresarial. De outro lado, é mantido o modelo econômico baseado na sobre-exploração do trabalho e na concentração de riqueza socialmente produzida, cuja expressão é o aumento do desemprego, o incremento do trabalho instável e precariza-do; a diminuição da renda do trabalho e a conseqüente expansão da pobreza.” Maria Ozanira da Silva e Silva, 2003, p.238. 
“Há já muito tempo, décadas, que a mercantilização chegou aos sistemas educa-tivos africanos com a intenção de ir conquistando nichos de actuação e de expansão. Processo de marcada índole neoliberal que atribui à educação (…) um papel excessivamente reducionista e alienante se considera-da uma perspectiva social ampla (…). Pretendemos, com cautela e prudência académica, reflectir sobre os aspectos que devem alar-mar toda e qualquer sociedade que se tem por humanista e emancipada [justifica-se, pois, interrogar] os processos de mercantilização da educação que a entendem como produto e bem de mercado (…). Quando a ajuda humanitária provém de instituições sociais vinculadas e sustentadas por empresas que participam no Mercado Livre é necessário que a análise seja cautelosa (…). A educação (…) será utilizada como fenómeno poderoso de alienação cidadã a interesses concretos dos mercados produtivos. Dito isto, o caso de África subsaariana e concretamente o liberiano, com um passado histórico adverso, constitui um excelente terreno para instaurar e experimentar reformas educativas pela mão de agentes externos. Instituições internacionais tais como a Rockeffeler, MacArthur, Ford, Kellogg e a Carnegie Corporation de Nueva York têm grande relevância no financiamento da educação superior na África subsaariana, enquanto outras como a Microsoft de Bill Gates, a Facebook de Mark Zuckerberg financiam projectos como a Bridge International Academics dirigidos à educação básica (…). Quando se chega a este ponto, a educação e a formação têm de passar a um outro debate em defesa do público (…) [Não existe melhor estratégia de conquista neoliberal do que seduzir para uma cidadania em vias de desenvolvimento com «cantos de sereia em forma de materialismo simbólico», que projectam as necessidades e vícios deste mundo globalizado, falácias que se apresentam como ícones do progresso].” Seguro Romero, 2007, pp. 661, 663, 664, 675. 
Referências bibliográficas: 
- Ferreira Coutinho, A. (2009) responsabilidade social do empresariado ou filantropia empresarial a serviço do capital? Comunicação apresentada nas IV Jornada Internacional de Políticas Públicas.
- Krawczyk, N. (2018). Brasil - Estados Unidos. A trama de relações ocultas na destruição da escola pública. N. Krawczyk (Org) (2018). Escola pública. Tempos difíceis mas não impossíveis (pp.59-72). Campinas: Faculdade de Educação da Universidade Estadual de Campinas.
- Lipovetsky, G. (1998). A era do após-dever. In E. Morin & I. Prigogine. (Org.). A sociedade em busca de valores: para fugir à alternativa entre o cepticismo e o dogmatismo (pp. 29-37). Lisboa: Instituto Piaget.
Maia, C. F. (2006). Altruísmo e educação: condição consciência e dignidade. Revista Portuguesa de Educação, vol. 19, n.º 2, pp.185-215.
- Saviani, D. (2018). A defesa da escola pública no Brasil: difícil, mas necessária. N. Krawczyk (Org) (2018). Escola pública. Tempos difíceis mas não impossíveis (pp.23-32). Campinas: Faculdade de Educação da Universidade Estadual de Campinas.
- Seguro Romero, P. (2017). Filantropía educativa como coarta tácita en la neoleberalizavión de los sistemas educativos del África Sub-sahariana. In J. M. Hernández Díaz & E. Eyeang. Los valores en la educación de África. De ayer a hoy (pp. 661-675). Salamanca: Ediciones Universidad.
- Silva, M.O.S da (2003). A política pública de transferência de renda enquanto estratégia de enfrentamento à pobreza no Brasil. Revista de Políticas Públicas, vol. 7, nº 2.

Não se livrem dos livros impressos”. Estudar em papel potencia a compreensão


Num estudo de meta-análise, publicado em Novembro de 2018 (ver aqui), quatro investigadores (três da Universidade de Valência e uma do Instituto de Tecnologia de Israel sistematizam as a eficácia, em termos de compreensão da leitura em suporte de papel e em suporte digital.

No jornal Público do passado dia 26 de Fevereiro, Cláudia Carvalho Silva, num artigo intitulado "Prefere ler em papel ou no ecrã? A ciência responde: há uma “superioridade do papel”, além de resumir esse trabalho inclui uma entrevista a um dos investigadores.
Um estudo da Universidade de Valência [conclui que] quando se lê em papel, a compreensão do que é lido é maior, ao contrário do que acontece quando o mesmo conteúdo informativo é lido em ecrãs (...) isto é sobretudo flagrante em crianças, o que exige uma reflexão política (…): “Não é por as crianças e jovens estarem mais habituadas aos ecrãs que a compreensão é maior - é precisamente o contrário”, alerta Ladislao Salmerón, um dos autores do estudo. 
Ao Público, Salmerón explica que uma das hipóteses para justificar que a compreensão digital seja menor em crianças é a “associação destes dispositivos a interacções curtas e re-compensas imediatas”. Isto, por sua vez, torna difícil que os jovens se consigam concentrar na leitura, por não se “desligarem” daquilo que esperam quando estão diante de um ecrã. “Precisamos de estar calmos, concentrados. É altamente incompatível com o uso actual que fazemos da tecnologia”, diz. 
Para chegar a estes resultados, foram analisadas as respostas de mais de 171 mil participantes, “uma amostra generalizada e com uma grande variedade de idades, das crianças aos idosos”. Cada participante leu individualmente, em silêncio, na língua que usa no dia-a-dia. Na análise foram só usados estudos que tinham por base textos simples e lineares, tanto no papel como na parte digital (evitando links ou animações que privilegiariam este formato). (…) restringimos a nossa pesquisa a estudos publicados em inglês”) (...). 
O grande número de participantes foi conseguido porque este estudo, intitulado “Não se livrem dos livros impressos”, é uma meta-análise (ou seja, combina os dados e conclusões de 54 estudos, feitos entre 2000 e 2017). “É mais poderoso do que um só estudo”, esclarece o investigador, reconhecendo que só não é vantajoso por estarem restringidos por aquilo que os outros investigadores fizeram. 
Como se lê no estudo, as pessoas adoptam um “estilo de processamento mais superficial” ao ler num formato digital, podendo também estar envolvida uma falha na qualidade e na capacidade de atenção. Seguindo esta hipótese, “quanto mais as pessoas utilizarem os meios digitais para estas interacções superficiais, mais difícil será usá-los para tarefas desafiantes”, os cientistas recomendem cautela com a utilização de dispositivos electrónicos para leitura na sala de aulas. 
Outro dos factores a ter em conta para uma compreensão eficaz é o tempo disponível para a leitura – o que é um “condicionamento clássico”, em salas de aulas (...). O investigador esclarece que isto está relacionado com “a forma como o nosso cérebro gere recursos no processo de leitura”: “Podemos pensar nisto como se fosse uma corrida. Se tivermos de correr 100 metros sem que o tempo conte, podemos ir ao ritmo que quisermos e consegue-se fazê-lo; se só tiver-mos um minuto, é diferente.” E acautela: “É por isso verdadeiramente importante que os estudantes estejam a gerir recursos de forma eficaz. É por isso que nestas situações se torna crítico que o dispositivo não nos perturbe, ou que nos faça pensar que estamos a ler e a interpretar quando na verdade não estamos”(…). 
Quando se trata de textos narrativos (romances, poesia), pouco importa se se lê em papel ou em suporte digital, porque a linguagem é menos técnica e mais próxima daquela que é utilizada no dia-a-dia, com mais diálogos, explica Salmerón (…). Os textos informativos são mais desafiantes para a nossa estrutura mental, precisamos de analisar vocabulário mais complexo, mais técnico”, adianta (…). 
A equipa também considerou importante investigar a diferença entre a leitura digital feita em computadores e que é feita em telemóveis, em e-readers (leitores de texto, como o Kindle) ou em tablets. “Na maior parte dos estudos, o digital refere-se a ecrãs de computa-or (…). [Reitera] que há poucos estudos e meta-análises sobre a influência da natureza do meio nos resultados de leitura. 
(...) Salmerón diz que não é preciso vilipendiar a tecnologia, mas encontrar soluções. “Não quero acreditar nem defender que é a tecnologia em si a causadora disto – mas é o uso que fazemos dela. As redes sociais, as conversas superficiais, as recompensas imediatas… não está a fazer nada de bom”. 
O estudo (...) mostra “de forma inequívoca que há uma inferioridade dos ecrãs, com resultados de menor eficácia de compreensão de leitura nos textos digitais quando comparados com os textos em papel”. Essa desvantagem é ainda maior em textos em que é preciso fazer scroll. 
A leitura digital acaba por ser uma parte inevitável nas escolas. “O facto de não podermos impedir a tecnologia de chegar às escolas não significa que não possamos ser mais selectivos”, observa Salmerón (…). Precisamos de mais intervenção do lado pedagógico (…) ‘o que podemos fazer para melhorar a interpretação textual através da tecnologia?’” (…) No caso da interpretação textual, “é provável que se tenha mesmo de abandonar a tecnologia”. 
Apesar das recomendações dos cientistas, há locais em que é dada primazia a recursos educativos digitais, deixando já o papel de parte (mas cada manual pode sempre ser impresso por cada utilizador). Nos Estados Unidos, por exemplo, o estado da Califórnia aprovou uma lei há dez anos em que ficou estipulado que todos os manuais académicos devem estar disponíveis online, em formato digital, até 2020. Também na Florida, em 2011, os deputados legislaram que as escolas públicas devem adoptar manuais escolares electrónicos, deixando o papel por inteiro. Em Portugal, raros são os casos de manuais escolares que vivam por si fora do papel, mas existem manuais que vêm acompanhados de materiais electrónicos (exercícios, vídeos, complementos à matéria). Em 2017, os deputados portugueses aprovaram uma proposta que visava o “fomento e generalização da desmaterialização dos manuais escolares”.

sábado, 2 de março de 2019

Conversa sobre Cientistas Portugueses na Rádio Renascença

Com a investigadora Maria Manuel Mota e o jornalista José Pedro Frazao no programa "Da Capa à Contracapa" da Rádio Renascença, a falar sobre endogamia e dos parasitas das universidades, da precariedade dos investigadores e outros temos relacionados, a propósito do meu novo livro Cientistas Portugueses.

CRISTIANISMO, HUMANISMO, POSITIVISMO E MARXISMO, PONTOS DE APROXIMAÇÃO E DE AFASTAMENTO

Texto do Professor A. Galopim de Carvalho O elitismo académico já teve o seu tempo. Agora é tempo de abordar “todos os saberes” “com toda a ...