sexta-feira, 16 de fevereiro de 2018

"ENTRE ESTRELAS E ESTRELINHAS. ESTE MUNDO ANDA ÀS VOLTINHAS"


Acaba de sair o livro com o título de cima, da autoria de José Fanha (poemas), Daniel Completo (músicas e interpretação) e meu (prefácio e notas introdutórias aos poemas).  Trata-se de um livro de poemas infantis que vem acompanhado por um CD e com belas instruções da Cristina Completo. A editora  é  Edições Canto das Cores. Sesimbra, que tem publicado outras obras congéneres. Os dois primeiros autores têm feito sessões nas escolas em que juntam música e poesia. A novidade deste livro consiste no facto de todos os poemas envolverem a ciência, a começar no Big Bang e a acabar no planeta Terra. Quem estiver interessado em adquirir o livro pode fazê-lo através do endereço: https://www.cantodascores.com/loja?lightbox=dataItem-jdg5kk4j

Deixo aqui o meu prefácio e um poema de José Fanha "Canção do Porquê" com uma minha nota introdutória:


Estes poemas de José Fanha, feitos a pensar nos mais jovens, são todos eles inspirados na ciência. A ciência é a descoberta do mundo. Os cientistas colocam questões sobre o mundo e tentam saber se as respostas que dão estão certas. É logo de pequenino que todos nós começamos, movidos pela curiosidade, a colocar perguntas. Os cientistas são aquelas pessoas que nunca deixam de colocar perguntas e de procurar as melhores respostas. E para isso é preciso observar e experimentar. Os poemas que se seguem convidam a fazer perguntas, a observar e a experimentar.

Hoje os cientistas, depois de terem colocado perguntas sobre as estrelas, sabem que houve um tempo em que ainda não havia estrelas, mas apenas o material para fazer essas estrelas. O início do mundo foi semelhante a uma grande, tremenda, explosão. O material de que viriam a ser feitas as estrelas espalhou-se pelo espaço e só depois, quando o Universo foi arrefecendo, é que se juntou devido à força da gravidade, formando os astros luminosos que vemos no céu.

A estrela mais próxima de nós, a “nossa estrela”, é o Sol. Sem ela, sem a sua luz, não poderíamos viver neste planeta a que chamamos Terra. A Terra está à distância certa do Sol para aqui podermos viver: nem é muito quente, nem muito frio. Ao longo de um ano damos uma volta ao Sol, numa órbita que é ainda explicada pela força da gravidade. E, tal como a Terra anda à volta do Sol, a Lua anda à volta da Terra. Sempre graças à gravidade. Para viver, beneficiamos também da presença de ar e de água no nosso planeta, o ar que respiramos, e a água que bebemos.  A vida, que se multiplica no nosso planeta, não é conhecida em mais nenhum outro sítio. Mas os cientistas continuam à procura de vida noutros lados...

De posse de algumas respostas, validadas pela observação e pela experiência, os cientistas conseguem mudar o mundo. Falamos de invenções, como a da luz eléctrica, que nos permite ler quando está escuro. Os cientistas têm ideias sobre o mundo e essas
ideias acabam por permitir uma vida melhor nele.

Tudo isto pode levar muito tempo a explicar. Mas aqui está explicado de um modo muito simples e atraente. Na forma de poemas para canções. A cantar também se pode aprender. A ciência, como José Fanha mostra, pode misturar-se com a poesia.


Carlos Fiolhais
Professor de Física da Universidade de Coimbra


CANÇÃO DO PORQUÊ

Fazer perguntas sobre o mundo à nossa volta é o o início de toda a ciência. Na “idade dos porquês” as crianças começam a fazer perguntas. Começam, portanto, a imitar os cientistas: dizem, como eles, “quero saber o porquê”.


      Ai porquê porquê porquê
      ai porquê porquê porquê
      ai de tudo à minha volta
      quero saber o porquê

Porque é que o céu é azul
e começa a escurecer
quando é hora de deitar
e eu estou quase a adormecer

Porque é que o  deserto é quente
e o Polo Norte tão frio
porque corre o rio para o mar
e o mar não corre para o rio

      Ai porquê porquê porquê
      ai porquê porquê porquê
      ai de tudo à minha volta
      quero saber o porquê

Porque é que o céu fica escuro
para dizer que vai chover
porque é que eu fico com fome
na horinha de comer

Porque é que  somos diferentes
uns loiros outros morenos
negros brancos amarelos
mais  altos ou mais pequenos.

      Ai porquê porquê porquê
      ai porquê porquê porquê
      ai de tudo à minha volta
      quero saber o porquê

Porque é que a terra não pára
porque é que o mar é salgado
e o fumo sobe para o céu
e a chuva cai no telhado
Porque é que a água congela
e outras vezes é  vapor
ou então é água pura

nos olhos do meu amor.

José Fanha

HOJE: NOVA APRESENTAÇÂO EM LISBOA DE "A CIÊNCIA E OS SEUS INIMIGOS"


quarta-feira, 14 de fevereiro de 2018

Ordem dos Médicos: Validade científica outorgada por portaria - ameaça à Saúde dos cidadãos

Validade científica outorgada por portaria - ameaça à Saúde dos cidadãos

Foi publicada em 9 de fevereiro a Portaria 45/2018 que regula os requisitos gerais que devem ser satisfeitos pelo ciclo de estudos conducente ao grau de licenciado em Medicina Tradicional Chinesa (MTC) que venham a ser criados.

No âmbito das suas atribuições, compete à Ordem dos Médicos contribuir para a defesa da saúde dos cidadãos e dos direitos dos doentes, pelo que não podemos deixar de salientar que o referido ciclo de estudos não habilitará à prática de Medicina, que é exclusiva dos Médicos.

A consagração deste ciclo de estudos é o culminar de um processo que sempre mereceu e continuará a merecer a oposição da Ordem dos Médicos quer pela forma como foi conduzido, quer pelas soluções adotadas.

Não podemos deixar de realçar que um jovem médico, em Portugal, tem uma formação pré-graduada exclusivamente universitária de 12 semestres curriculares correspondente a 360 unidades de crédito ao qual se segue a formação pós-graduada para habilitação ao exercício autónomo e especializado da Medicina que, em algumas especialidades, chega a durar 7 anos.

Reiterando que todas as intervenções terapêuticas com resultados efetivos e comprovados cientificamente são incorporadas na Medicina convencional, a criação de ciclo de estudos com formação de 8 semestres curriculares em práticas que não têm base científica comprovada, constitui um perigo para a Saúde e para as finanças dos portugueses pois poderá gerar atrasos em diagnósticos e tratamentos de situações potencialmente graves que, assim, continuarão a evoluir.

Mais uma vez a Ordem dos Médicos lamenta que o legislador tenha cedido aos interesses comerciais e publicitários, apelidando este ciclo de estudos de Medicina Tradicional Chinesa, dando azo a que surjam equívocos quanto à componente (inexistente) de formação Médica.

A Ordem dos Médicos já tinha em 2013 manifestado em sede Parlamentar e em ofício dirigido ao Presidente da República que a expressão “Medicina tradicional chinesa” fosse substituída por “Terapêuticas tradicionais chinesas” a propósito da proposta de Lei 111/XII.
As práticas ou terapêuticas tradicionais chinesas não constituem prática médica e, em defesa da verdade, da transparência, das expectativas dos candidatos à formação pré-graduada e da própria saúde dos doentes, isso deveria ser bem claro para todos aqueles que venham a interagir com os titulares de tais estudos.
De resto, não basta como faz o artigo 15º da Portaria em análise, prever que “as instituições de ensino superior devem garantir que a comunicação ou publicidade relativa aos ciclos de estudos conducentes ao grau de licenciado em Medicina Tradicional Chinesa não origina equívocos sobre a natureza do ensino ministrado e que não o tornam confundível com outros ciclos de estudos acreditados”.

O ministro da Ciência, Tecnologia e Ensino Superior, e o ministro da Saúde ao assinarem esta Portaria estão a contribuir para um retrocesso sem precedentes na essência da fundamentação científica da investigação e na evolução da inovação tecnológica e terapêutica próprias da medicina. Uma atitude irresponsável de consequências nefastas para a saúde das pessoas e dos doentes, que irá provocar um aumento imponderável na publicidade enganosa e na pseudociência. Atribuir validade científica por portaria e induzir as pessoas em erro criando licenciaturas em terapêuticas que não têm a devida fundamentação científica é legitimar de forma artificial cursos superiores que não servem os interesses dos doentes que o Estado tem a obrigação de proteger.
Esta decisão do ministro da Saúde e do ministro da Ciência, Tecnologia e Ensino Superior, pode colocar em causa as relações institucionais entre a Ordem dos Médicos e o Governo e reforça de forma definitiva a desastrosa política de saúde que tem sido implementada nos últimos anos, com prejuízo grave para os doentes e para todos os profissionais de saúde que têm por formação e agem com base em conhecimentos fundados na evidência científica. A Ordem dos Médicos fica assim totalmente legitimada para liderar um processo de oposição firme de todos os médicos a uma política de saúde patológica que não serve os doentes nem o país.

A Ordem dos Médicos continuará a defender a saúde pública, a medicina e os doentes de práticas sem validade científica comprovada, do exercício ilegal da Medicina e da publicidade enganosa.


Conselho Nacional da Ordem dos Médicos

Bastonário da Ordem dos Médicos
Lisboa, 14 de Fevereiro de 2018

"A nova censura cultural" ou uma (boa) intenção de proteger sensibilidades

Paula Corroto, jornalista espanhola, autora de um dos artigos citados em texto anterior - Não matem a leitura nas escolas -, publicou na última revista Letras Libresdeste mês de Fevereiro, um artigo intitulado La nueva censura cultural que se apresenta assim:
"Com a intenção de proteger sensibilidades, sectores de todo o espectro ideológico pedem a retirada ou proibição de obras de arte. Estamos perante uma nova censura cultural."
Do texto (que também pode ser encontrado aqui), destaco duas passagens com particular pertinência no campo da educação escolar, particularmente permeável à "nova censura": uma sobre as suas causas e outra sobre a figura dos ofensores e dos ofendidos.

As causas da "nova censura"
"Do ponto de vista político, Manuel Arias Maldonado, professor de ciência política da Universidade de Málaga e autor de livros como La democracia sentimental (Página Indómita, 2016) [refere que a primeira causa] tem a ver, precisamente, com a sua tese sobre o novo sentimentalismo, quer dizer «com um desejo de proteger quem possa sentir-se ofendido, a nova patologia das sociedades ricas, porque quando falamos de sentimentalização dos conflitos não deixa de ser um luxo. São preocupações não materialistas porque está menos em causa a distribuição de salários e mais os códigos a partir dos quais comunicamos». Dito de outra maneira: quanto mais ricos somos, mais fina é a nossa pele. Ou, de modo mais simplista, quando não há um problema muito grave faz-se um drama a partir de qualquer coisa, a priori banal. A segunda causa assenta na «articulação identitária dos grupos sociais. Quando alguém se identifica com um grupo sente-se atacado na sua auto-estima quando esse grupo é criticado. Estabelece-se um vínculo entre a nossa auto-estima e o grupo a que estamos ligados»”.
Os novos ofendidos
"Não são apenas os ultraconservadores que decidem tapar o seio de uma estátua, paradoxalmente a maioria das novas investidas de censura são de grupos que, em princípio, actuam de boa fé, a partir daquilo que consideram «bom» para a sociedade (não insultar os negros, não expor os menores a imagens de carácter sexual). De facto, há um conjunto de emoções, sentimentalismo, preocupação com o «politicamente correcto» que acaba conduzindo ao lado obscuro das liberdades (a um raciocínio do tipo «sou livre de exigir que se proíba algo porque me ofende») e à aparição da vitimização (outra fórmula para definir a nova ofensa) (...)
Pelo menos é assim que o entende Daniel Gamper, professor de filosofia moral da Universidade Autónoma de Barcelona, quando assinala que (...) «se numa sociedade se chega a um consenso para deixar de usar determinadas palavras, seria ético dizer que isso é censura, que tem, portanto, a ver com a batalha da libertade [agora substituída pela] batalha das minorias».
Como explica Arias Maldonado, «a esquerda tradicional era um movimento que se propunha acabar com os tabús, garantir os direitos humanos, etc. Uma vez que isso já está feito, há que mudar o rumo: ser conservador para manter o bem-estar. Quando se centra o debate naquilo é que pessoal passa-se a pensar que os sujeitos se formam a partir das experiências pelas quais passam e ficam e indefesas quando precisam de reagir a certas influências (...). É um assunto de hetero-subjectividade. Teme-se produzir algum dano psicológico e emocional» (...).
Para Victoria Camps, filósofa e catedrática emérita de ética da Universidade Autónoma de Barcelona, autora de livros como El gobierno de las emociones (Herder, 2011), esta reacção exagerada da esquerda observa-se inclusivamente na linguagem (...). Há quem pense que se o uso metafórico da palavra cancro ou autismo pode ser danoso para alguém [há que evitá-las]. «Isto só empobrece a linguagem e isso é negativo» (...) [Também é paradoxal substituir uma palavra por outra] (...) «a nova designação acaba sendo tão depreciativa como a anterior e temos de a substituir» (...).
Coincide com a sua colega Arias Maldonado no que respeita aos valores progressistas. «Hoje nenhum partido deixa de ser feminista ou de falar de políticas sociais (...) insistir demasiado numa linguagem correcta sob este ponto de vista é falta de imaginação (...).
Camps entende que todos temos o direito de dizer o que entendemos mas existem limites: «a autocensura é fundamental num mundo plural, aberto e livre, é preciso exercê-la antes de falar», afirma. 
É puro senso comum: pensar duas vezes antes de ofender ou sentir-se ofendido."

Não matem a leitura nas escolas

Vale a pena ler os seguintes artigos publicados no jornal El País: ‘Matar a un ruiseñor’ no se podrá leer en algunas escuelas de Virginia por su lenguajede Cristina Pereda (2016) ‘Matar a un ruiseñor’, demasiado ofensiva para los niños, de Paula Corroto (2017).

Ambos se detêm na proibição de mais um livro por responsáveis escolares, com argumentos que encaixam no "politicamente correcto". Foi mais uma vez nos Estados Unidos da América mas podia ser noutro país ocidental; podia ser em Portugal.

Trata-se de um tipo de proibição com particular expressão nesse país, tanto nos níveis de ensino não superior (aqui e aqui) como nas universidades. E no que respeita a universidades, as inglesas não lhe têm ficado atrás (aqui, aqui, aqui).

A alegação de que certas expressões constantes nos livros, sobretudo nos grandes clássicos, certos elementos que contém, certas ideias que abordam podem perturbar não só o bem-estar emocional das crianças e dos jovens mas também a paz social, ganha adeptos dentro e fora do contexto escolar.

Ultimamente, têm sido as mães a queixar-se. Recolhi exemplos de Inglaterra (aqui) e de Portugal (aqui)

Ora, foi precisamente uma mãe que se queixou no Conselho Escolar do livro a que os dois artigo acima citados se referem: Não matem a cotovia, de Harper Lee, publicado em 1960. Queixou-se também do livro As aventuras de Huckleberry Finn, de Mark Twain, mas esse já consta na lista dos títulos mais censurados nas escolas americanas.

Disse essa mãe, e muitas outras concordaram, que certas palavras usadas em ambas as obras perturbaram o seu filho adolescente: "não discordo que seja uma obra da literatura mas há tantos insultos racistas e palavras ofensivas que é impossível ignorar". Entre esses insultos está a palavra "negro", que deixou de se poder pronunciar, tendo sido substituídas pela expressão "a palavra começada por ene".

É importante lembrar que, tal como As aventuras de Huckleberry Finn, Não matem a cotovia conta uma belíssima história que realça, com grande sensibilidade, o "valor de valores" como a igualdade e a liberdade. Por isso mesmo, Harper Lee recebeu em 2007, a Medalha Presidencial da Liberdade.

Contra esta censura imposta pelos mais esclarecidos ou pelos mais ignorantes, estribados nas mesmas razões, que julgam ser legítimas, e que alastra a olhos vistos, fazendo perigar a cultura civilizacional, há que fazer alguma coisa: ler e dar a ler!

"O ABADE CORREIA DA SERRA E OS EUA"


SESSÃO DE DISCUSSÃO SOBRE "A CIÊNCIA E OS SEUS INIMIGOS"


terça-feira, 13 de fevereiro de 2018

Sistemas educativos capazes

Eis o que, em entrevista de Luísa Meireles e Pedro Santos Guerreiro, intitulada “Não há inevitabilidades, quem escreve o futuro são os povos”, disse o ex-Presidente da República Ramalho Eanes, ao jornal Expresso da passada sexta-feira, sobre a educação escolar:
O que há a fazer?
Criar utopias realizáveis. Pergunto: como vamos responder às consequências da economia digital, que exige grande preparação? Pode fazer-se com sistemas educativos capazes, como está a acontecer agora em França. O ministro da Educação, Jean-Michel Blanquer, tem um programa extremamente ambicioso para acabar com o insucesso e o abandono escolar. E faz isso acabando com o facilitismo, acabando com o igualitarismo e com o pedagogismo que têm dado cabo do sistema francês. Esse ministro pôs os miúdos que se atrasam a serem apoiados e fez uma coisa muito interessante, mudou a escola de modo a que, como qualquer boa organização, cada escola tem um propósito, tem o controlo e tem uma equipa (...).
Também está a falar das escolas portuguesas.
Nós permitimos que os pais duvidem da escola, que os professores duvidem da instituição e que haja um domínio absoluto dos sindicatos. Os sindicatos são indispensáveis e são uma vitória importante da democracia, mas é necessário que não impeçam que se adquira o mérito, que as avaliações por mérito sejam feitas sistematicamente e que os que mais mérito têm sejam os mais premiados. O problema da igualdade é tão velho quanto o homem. Cícero falava da igualdade diferenciada no aspeto social. Igualdade que permita dignidade a todos, mas diferenciada de acordo com o mérito. Uma sociedade que não é capaz de premiar o mérito ameaça tornar-se decadente. Tudo isto para dizer que o mal da democracia não é um mal português, mas de todas as democracias avançadas da Europa.

Iniciativa Legislativa de Cidadãos contra o Acordo Ortográfico.

Faltam poucas assinaturas para atingir as 20.000 necessárias para que uma Iniciativa Legislativa de Cidadãos Contra o Acordo Ortográfico  possa entrar na Assembleia da República. Eu já assinei. Quem o também queira fazer, é fácil: Basta subscrever "online", aqui:

https://ilcao.com/subscricoes/subscrever/


segunda-feira, 12 de fevereiro de 2018

Que validade científica tem o "mindfulness"? - 1

O mindfulness (ou atenção plena, ou meditação) é um tema bem instalado na investigação que se faz  sobretudo nas área das ciências psicológicas e da saúde em universidades, centros e equipas, mesmo nas mais conceituadas. Vê-se destacado em publicações académicas (livros e revistas são-lhe inteiramente dedicados) e em encontros científicos.

Em pouco tempo infiltrou-se nos sistemas educativos: está presente em todos os seus níveis e sectores, desde a educação de infância ao ensino superior, desde o trabalho com os alunos até à formação de professores. O nosso sistema educativo não é excepção.

Estamos, portanto, a falar de entidades sérias (deixo de lado as de carácter mais ou menos exótico). Não obstante, prevalece a ideia de que o mindfulness é inequivocamente benéfico nas mais diversas e complexas situações pessoais e relacionais.

Mas, será mesmo assim?

Começam a surgir estudos que, recorrendo sobretudo à metodologia de meta-análise, procuram responder a esta pergunta. É o caso de um estudo publicado já neste mês, na revista Scientific Reports, intitulado The limited prosocial effects of meditation: A systematic review and meta-analysis, do qual se deixa, de seguida, o seu resumo:
"Muitas pessoas acreditam que a meditação tem efeitos positivos não só em casos de doença mental mas também pró-sociabilidade. O estudo dá conta de uma meta-análise que incidiu nos efeitos de intervenções baseadas na meditação na pró-sociabilidade. Isto em ensaios clínicos aleatórios com adultos saudáveis. Foram identificados cinco tipos de comportamentos sociais: compaixão, empatia, agressão, conexão e preconceito. Embora se verifique uma melhoria moderada da pró-sociabilidade após a meditação mas análises adicionais indicaram que esse efeito é influenciado por dois factores: tipo de pró-sociabilidade e qualidade da metodologia. As intervenções de meditação tiveram efeito na compaixão e na empatia mas não na agressão, conexão ou preconceito. Além disso, os níveis de compaixão só aumentaram em duas condições: quando quem faz a intervenção é co-autor do estudo publicado; e quando o estudo integra um grupo de controle passivo (lista de espera), mas não um activo. Contrariamente às crenças populares de que a meditação levará a mudanças pró-sociais, os resultados desta meta-análise mostraram que os efeitos da meditação sobre a pró-sociabilidade dependem do tipo de pró-sociabilidade considerada e da metodologia usada. Destaca-se, por fim, uma série de enviesamentos e problemas teóricos que precisam ser encarados para melhorar a qualidade da pesquisa nessa área".
Este texto continua aqui.

sábado, 10 de fevereiro de 2018

De nada mais o professor precisa para... não ser professor


Caro(a) colega
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No âmbito da disciplina de .........., colocamos ao seu dispor um Teste de Avaliação, cenários de resposta e matriz informativa. Esperamos que este recurso didático se revele útil e vá ao encontro das suas expectativas.
Votos de continuação de bom ano letivo!
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As ofertas de materiais pedagógico-didácticos que as editoras de manuais escolares fazem aos professores (em mão ou por envio para as suas caixas de correio) são progressivamente mais intrusivas no que é a essência do seu trabalho.

É o manual do professor em que está tudo o que ele deve fazer e como deve fazer; são as planificações a longo, a médio e a curto prazo, incluindo as das aulas; é a calendarização com a distribuição de conteúdos pelo ano lectivo, trimestre, semana; são os testes de avaliação diagnóstica, formativa e sumativa; são os power-points; são os textos e as fichas suplementares, são as "actividades" para comemorar os dias disto e daquilo, são os programas informáticos para os tablets; são os vídeos e os filmes; são os guiões para visitas de estudo...

Quando abro a pasta do arquivo em que guardo esse material não posso deixar de pensar que está ali tudo; de nada mais o professor precisa para... não ser professor.

Na verdade, o que define o professor é o que o professor faz (em função, naturalmente, do que pensa): planificar o seu ensino da melhor maneira, tendo em vista a aprendizagem; elaborar testes para saber de onde parte (em termos de aprendizagem), como evoluem os seus alunos, onde chegam; escolher os métodos e os recursos que melhor se ajustam aos conteúdos que ensina sem perder de vista os objectivos a atingir... e, claro, estar com os alunos nas aulas, nos apoios, perto deles, numa relação que não é substituível.

Trata-se de um trabalho necessariamente fundamentado num saber multifacetado (que tem de ser profundo e vasto), nas directrizes que constituem o currículo oficial, e no conhecimento da escola, do meio, dos alunos. Esta fundamentação é o ponto de partida do professor, o que lhe permite organizar o ensino em situações específicas.

Como se percebe, é um trabalho criativo de grande exigência intelectual, onde os princípios e a técnica fazem a diferença. Mas, requerendo-se a decisão constante num campo tão delicado, está bem de ver que a responsabilidade é enorme.

Mas, se os professores abdicarem de tal trabalho, abdicam da sua "alma". E temo que muitos (já) o tenham feito.

Digo isto quando vejo exemplos como o que acima reproduzi: uma mensagem de certa editora dirigida a todos os professores de determinada disciplina do ensino secundário (portanto licenciados, mestres e alguns doutores) a oferecer uma "pasta zipada" que contém: a matriz de um teste, o teste, e a grelha de correcção.

Ora, esta e outras editoras não se dariam a tal trabalho (que envolve custos) se soubessem que ninguém o usaria. Logo, deduzo que ele seja usado.

Reafirmo o tenho dito (aquiaquiaquiaquiaquiaqui): o problema não está da parte das editoras, que são empresas, o seu fim não é educativo é económico; o problema está do lado das escolas e dos professores que não vêem, ou não querem ver, que é a própria profissão docente que põem em causa quando usam tais ofertas.

sexta-feira, 9 de fevereiro de 2018

A MINHA VERDADEIRA RELAÇÃO COM OS DINOSSÁURIOS: A propósito da inauguração do Dino Parque da Lourinhã

Quando, há dias, anunciei a abertura do DINO PARQUE, na Lourinhã, tive 780 “gostos”, 928 partilhas e dezenas de comentários, com parabéns, felicitações, palavras de estímulo e outras de agradecimento.


Ora, na realidade, eu não meti um dedo nesta obra, verdadeiro mérito dos lourinhanenses, que só hoje irei ver a convite dos seus reais promotores. Gostava de acreditar que participei no lançamento da semente que lhe deu corpo quando, há já não sei quantos anos, a convite do saudoso amigo Horácio Mateus, participei numa reunião, creio que na Câmara Municipal, com ele em representação de GEAL (Grupo de Etnologia e Arqueologia da Lourinhã), o então Presidente da Autarquia, o Ministro da Ciência e da Tecnologia, Prof. Mariano Gago, e a Dra. Catarina Vaz Pinto, em representação da Quaternaire Portugal, SA.

Mas eu sei qual a origem deste sentimento geral que me coloca, digamos com humildade, no centro do mundo dos dinossáurios que, para as crianças das escolas (por onde sempre andei e continuo, falando para alunos e professores) fez de mim o “pai dos dinossáurios” e hoje, com o passar dos anos (3 décadas), o “avô” dos mesmos bichos.

Tudo começou em 1986, quando dois finalistas da Licenciatura em Geologia da Faculdade de Ciências de Lisboa, Carlos Coke, hoje professor na Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro (UTAD), e Paulo Branquinho, de quem perdi o rasto, meus ex-alunos, descobriram um conjunto de cerca de duas centenas de pegadas de dinossáurios do Cretácico (92 a 96 milhões de anos) no fundo de uma pedreira abandonada e, na altura, a ser usada como vazadouro de entulhos e lixeira clandestina, em Pego Longo (concelho de Sintra) na vizinhança imediata de Carenque (Concelho da Amadora).

Ameaçada de destruição pela construção de uma auto-estrada (CREL), empenhei-me, ao limite das minhas capacidades e entusiasmo, como profissional e como cidadão, na sua defesa, apoiado na força institucional do Museu Nacional de História Natural que, então, dirigia. Foi um luta de cerca de 3 anos (1990-!993), árdua, por vezes dura, contra a insensibilidade dos que decidem.

Escrevi e dei entrevistas a todos os jornais. As rádios deram-me voz e a televisão, imagem, e tive a simpatia e a cooperação de todos os jornalistas que comigo se envolveram nesta luta.

Fui às escolas, vezes sem conta, de norte a sul do país, e tive de aprender o muito que não sabia sobre dinossáurios. Escrevi um livrinho de divulgação, “Dinossáurios”, edição da Sociedade Portuguesa de Ciências Naturais, Colecção Natura, 1998, fui coautor de outro, “ A Vida e Morte dos Dinossáurios”, Gradiva, 1991, e escrevi um outro, ainda, “Dinossáurios e a Batalha de Carenque”, Editorial Notícias, 1994.

Na sequência de uma petição pública, e das conversas que consegui ter com deputados de todos os Partidos, o Parlamento, no dia 11 de Fevereiro de 1993, tomava posição unânime na defesa da Jazida de Carenque. A acta desta sessão foi-me enviada, pessoalmente, acompanhada de uma carta manuscrita pelo próprio Presidente, o Prof. Barbosa de Melo, congratulando-se com a unanimidade conseguida.

Aprendi a circular nos corredores do poder, falei com ministros, secretários de estado, autarcas, presidentes e directores de empresas, passíveis de se interessarem neste processo e tive o apoio e a simpatia do Presidente Mário Soares.

Trouxe, de Londres, ao MNHN, em finais de 1992, a primeira e grande exposição de Dinossáurios Robots com número de visitantes até então e nunca mais alcançado - trezentos e quarenta e seis mil, seiscentos e noventa e quatro (346 694) visitantes, em apenas onze semanas.

Aproveitando a feliz oportunidade da realização do “1.º Simpósio Internacional e Primeiro Congresso Mundial sobre Preservação e Conservação de Colecções de História Natural”, em Madrid (10-15 de Maio de 1992), fui ali com uma representação do MNHN, apresentar as nossas dificuldades e pedir o apoio da comunidade científica internacional ali presente.

Tudo isto e muito mais contribuiu para que se fizessem os dois túneis da CREL que passam por baixo da jazida com pegadas de dinossáurios de Carenque.

Em 1994, João Carvalho e seus companheiros da Sociedade Torrejana de Espeleologia e Arqueologia de Torres Novas, descobriram um conjunto ainda maior e mais espectacular, com trilhos mais longos e centenas de pegadas de grandes herbívoros do Jurássico, com cerca de 175 milhões de anos, na Pedreira do Galinha, na Serra d’Aire, perto de Fátima. Voltei a percorrer idêntica caminhada, mas desta vez, menos difícil, rapidamente vencedora e, uma vez mais, sem dar por isso, tornei-me figura pública neste domínio da Paleontologia, sem ser paleontólogo, a ponto de, muitas vezes, ser apresentado, simpaticamente e por ignorância, como o “grande” e, ás vezes, o “maior especialista português dos dinossáurios”, o que é falso e sempre me embaraça e me leva a ter de explicar a minha verdadeira relação com este domínio da ciência.

Consegui financiamentos para desenvolver projectos de investigação, trazer a Portugal, especialistas na matéria e enviar estagiários para o estrangeiro, a fim de trabalharem e aprenderem com quem sabia.

A enorme apetência de miúdos e graúdos por tudo o que se relacione com estes animais do passado, fez com que o MNHN, comigo na direcção, trouxesse a Portugal um dezena de grandes e atractivas exposições de dinossáurios e, assim, uma vez mais o meu nome circulou nos media.

Tal esta mediatização que me caiu em cima que, corria o ano de 1994, na Alemanha, nos arredores de Hanover, de visita ao famoso Dinosaurier-Freilichtmuseum de Munchehagen, quando um canal de televisão de Munique, julgando estar eu relacionado com a então importante descoberta, na Lourinhã, de ovos de um dinossáurio terópode com embriões por eclodir, quis entrevistar-me. Tive de lhes explicar que essa descoberta se devia, não a mim mas ao casal Isabel e Horácio Mateus.

A. Galopim de Carvalho

"Arranha Céus": Um cartaz de cinema errado do ponto de vista da Física

http://observador.pt/2018/02/09/ha-algo-de-errado-no-cartaz-do-novo-filme-do-the-rock-desvendamos-o-que-e/

(fiz declarações ao Observador sobre a física do problema)

quinta-feira, 8 de fevereiro de 2018

E O PAPAGAIO NÃO QUERIA FALAR

A entrevista que o General Ramalho Eanes concedeu, no último Sábado, ao Expresso, trouxe-me ao presente a crónica que escrevi no meu livro “Fora de Portas, Memórias e Reflexões”, Âncora Editora, 2008:



“Eu não conhecia pessoalmente o então major António Ramalho Eanes, mas conhecia as suas qualidades humanas através de uma familiar sua e minha amiga pessoal. Acompanhei, como todos os portugueses, a sua participação como militar do Movimento dos Capitães, no pós-25 de Abril, e a sua campanha vitoriosa à Presidência da República. Apreciei o seu honroso e exemplar mandato e rendi-me à sua figura como estadista de grande competência e rigor e à sua seriedade impoluta. As suas capacidades como operacional experiente e eficaz, em situações de extrema gravidade, revelaram-se-me na longa noite do grande incêndio da Faculdade de Ciências de Lisboa, então sediada no nobre edifício da antiga Escola Politécnica.

Como homem entrou-me definitivamente no coração, já ele deixara o Palácio de Belém, quando da sua participação no programa “Parabéns”, do Herman José, que a RTP apresentava regularmente nos serões de Domingo. Foi quando o General contou a história de um papagaio ocorrida ao tempo em que ocupava o topo de hierarquia do Estado. Com a devida autorização do seu ilustre protagonista e na impossibilidade de transcrever, com o rigor da crónica, esse singular e divertido episódio, pareceu-me desejável evocá-lo no essencial, recorrendo à liberdade que a ficção consente.

A cena passa-se na rua, mais precisamente no passeio junto ao muro do jardim da residência do casal Eanes. Lá dentro, o General tratava das suas roseiras. Dois rapazes, entre os 10 e os 12 anos, acabados de sair da escola e a caminho de casa, param e um deles diz para o outro:
- O Presidente tem ali um papagaio que fala. A gente chama-o e ele responde. Queres ouvir?
- Ó louro! Ó louro! – Gritou, e a ave, nada. Sem obter resposta, o rapaz insistia.
- Ó louro! Então não respondes? - E o papagaio, mudo, era como se ali não estivesse. Tantas vezes o rapaz o chamou, sem que houvesse um sinal que confirmasse a sua versão, que o outro, dispondo-se a retomar a marcha, acabou por dizer:
- Afinal o papagaio não fala. Ou, então, não há ali nenhum papagaio. Estás, mas é, a enfiar-me uma grande galga. Anda, vamos embora!
- Espera aí, pá! - Reteve-o o companheiro e, gritando mais alto, insistiu.
- Ó louro! Dá lá um ar da tua graça!
Na verdade, o papagaio falava mesmo, ou melhor papagueava uns tantos sons equiparáveis a palavras, mas, naquele momento, não estava disposto a mostrar as suas habilidades.

Foi então que o General, sentindo-se solidário com o rapaz que, do lado de fora do muro, insistia na sua versão, e não desejando vê-lo passar, injustamente, por mentiroso, interrompeu o tratamento que estava a dar à roseira, aproximou-se do muro e, com a voz mais “papagaia” de que era capaz:
- Olá! - Respondeu, sonoro.
Ganhando ânimo, o rapaz insistia:
- Ó louro! - E o General respondia:
- Olá!...
Confirmada a sua versão, o rapaz gritou para dentro do jardim:
- Então, até logo! - e o General retribuiu, repetindo:
- Até logo.
- Vês como o sacana do pássaro é esperto. - Rematou, visivelmente recompensado”.
Pessoalmente, só nos conhecemos há pouco mais de uma dúzia de anos. Foi a 30 de Maio de 2001, dia da minha Jubilação na Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa, o General Eanes e a esposa, para surpresa de muitos, deram-me a honra de assistir à minha “última aula”, no grande auditório, do Bloco C3.

O ex-Presidente da República encabeçava a fila dos muitos que vieram abraçar-me.

A. Galopim de Carvalho

O FUTURO DE XI JINPING E OS “MISTÉRIOS DO...OCIDENTE”


Publicado no Expresso de sábado passado, este é um artigo de opinião de Guilherme Valente e José Rocha Diniz* sobre a China:
"É mais fácil desintegrar um electrão que destruir um preconceito"
(Atribuída a Einstein)
A recente viagem de um bem preparado Macron à China (um exemplo para os nossos políticos) permitiu iluminar o desenho da política chinesa e o quadro em que os seus líderes se movem. Revelando, designadamente, o erro da generalidade das previsões sobre o futuro de Xi Jinping.
Na variedade estelar de grupos humanos e culturas há na civilização chinesa uma força centrípeta, com vários elementos, que une a China e os Chineses. Pode-se, por isso, generalizar o seguinte:
"A China é a religião dos Chineses". É pragmática e persistente. A História (e o culto dos antepassados) tem um valor “sagrado” para a China. A História é um elemento nuclear inscrito num processo sem princípio e interminável**, que determina todas as manifestações da mundivivência chinesa e onde tudo, bem e mal, verso e reverso, é componente necessário. A paz social e a integridade do território são para os Chineses obsessivos. Sentiram na pele a sua falta, marca "genética" várias vezes milenar, desde os tempos das invasões de bárbaros (ver o filme A Grande Muralha.)
O orgulho nacional (que não se realiza penalizando o "outro"*) foi e é a força mobilizadora do processo de ressurgimento pós decadência, iniciado antes mesmo de 1911.
Enquanto o PCC garantir a integridade do território, a unidade, a paz social, o progresso económico, a dignificação da China, terá o apoio da população.
Inscreve-se neste registo o combate mortal, nunca houve em país nenhum, contra a corrupção (sobretudo no interior do Partido), ameaça maior ao sonho de regeneração da China e... ao regime.
Ao assumi-la (levando nela, mas por arrasto, alguns adversários), Xi reforçou a legitimidade do poder do PC e a sua imagem.
Para se perceber a China, a política, o discurso dos líderes, tem de se ter presente estes traços civilizacionais.
Nas vésperas e no rescaldo do Congresso Nacional, que coincidiu com o termo do primeiro dos dois mandatos não renováveis dos actuais PR e PM, a generalidade dos comentadores decretou: Xi está a preparar a continuidade no poder. Um novo Mao, chegaram a escrever.
Com ele, assim, iria ser quebrada daqui a cinco anos a regra do exercício de dois mandatos. Regra bem sucedida, desenhada e praticada por Deng que pôs com ela termo de facto ao regime imperial. (Não confundir imperador com figuras tutelares, figuras históricas constituintes inapagáveis, acrescentadas pelo imaginário chinês aos antepassados míticos - uma das razões para Mao continuar a ser encomiado.)
Acontece que tudo aponta, interna e externamente, para o contrário: daqui a cinco anos a China terá um novo PR e um novo PM.
O primeiro SG e PR a ser designado sem a influência de Deng, coube a Xi continuar o desenho do mapa para o "rejuvenescimento" da China que Deng traçara e fora percorrido. Definir as novas etapas do percurso, começar a percorrê-lo, procurar garantir, como fizera Deng, que depois dele o percurso prosseguirá.
É isso que tem feito com grande sucesso interno e externo. Para isso continuará a colocar, a deixar dirigentes da sua confiança no Estado e na Administração. (Algo que os Chineses querem evitar no novo modelo político que procuram é, aliás, a descontinuidade de projecto de governo cujo efeito nefasto observam nas nossas democracias.)
Terminados os segundos mandatos, Xi retirar-se-á, provavelmente para o retiro de Zhongnanhai, daí procurando influenciar para que continue a ser percorrido o troço de percurso que lhe coube desenhar e começar a percorrer na rota para o "rejuvenescimento" da China. Prolongando, previsivelmente, a presidência da Comissão Militar Centra
Ser um novo Deng é pois a sua ambição possível.
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*Director do semanário A Tribuna, Macau.
** Inscrito no começo do pensamento filosófico chinês . Ver F. Jullien, Entrer dans une pensée, e, fundador, O Livro das Mutações.

quarta-feira, 7 de fevereiro de 2018

OS MODERNOS FRANKENSTEINS

Minha crónica no Público de hoje:

Há poucos dias foi noticiado que cientistas chineses tinham conseguido clonar macacos, usando a técnica demonstrada há vinte anos com a ovelha Dolly. As portas ficaram abertas para a clonagem de humanos, uma possibilidade que levanta sérios problemas éticos. No ano passado foi anunciado que cientistas americanos, em colaboração com chineses e coreanos, tinham ensaiado pela primeira vez a reparação de um gene em embriões humanos, usando a revolucionária técnica do CRISPR.

Não admira, por isso, que se fale de modernos Frankensteins, isto é, cientistas que, imitando o aprendiz de cientista Victor Frankenstein, personagem do romance Frankenstein, de Mary Shelley, cuja primeira edição saiu em 1818 (há dois exactos séculos, tinha a autora 20 anos). Também Victor passa os limites estabelecidos, quando consegue, usando um truque científico animar restos cadavéricos, criando um monstro, a que muita gente, ainda que erradamente, dá o nome do criador.  A criatura não nasce monstro, mas torna-se monstro, semeando o caos à sua volta, quando se vê repelido pelos humanos. O nome Frankenstein, seja ele criador ou criatura, passou a ser um símbolo da hubris cientifica, a desmesura arrogante que consiste na ultrapassagem dos limites entendidos como razoáveis no estudo da Natureza. Depois de tantas peças de teatro e filmes que se seguiram à novela de Shelley, à ciência ficou colada a imagem de criadora de monstros. Como ilustra uma gravura de Goya, “o sono da razão gera monstros”.

Vale a pena lembrar a origem do romance. Mary Shelley, na altura Mary Godwin, era uma inglesa de 18 anos, mas já com um filho pequeno nos braços, que fugiu de casa apaixonada pelo pai da criança e seu futuro marido, Percy Shelley, um escritor amigo da família. Godwin, um filósofo político percursor do anarquismo, estava casado em segundas núpcias pois a mãe de Mary, precursora do feminismo, tinha morrido após o parto. A fuga de Mary e Percy foi escandalosa na puritana Inglaterra, pois Percy era um homem casado. O par foi acompanhado por uma meia irmã de Mary, grávida, tendo o grupo viajado para a Suíça ao encontro de Lorde Byron, que era o pai da criança a nascer. Instalados numa vivenda nas margens do lago de Genebra o seu passatempo consistia na invenção, noite alta, de histórias de terror. No grupo estava também um médico amigo de Byron que escreveu o primeiro conto de vampiros. Mary contou mais tarde que a ideia de Frankenstein irrompeu num sonho que teve na altura. E reconheceu que estavam no seu espírito as experiências de galvanismo em moda na época.

O médico e físico italiano Luigi Galvani tinha proposto a ideia de electricidade animal, na sequência da descoberta que uma perna cortada de uma rã se esticava quando tocava um metal. Giovanni Aldini, um sobrinho de Galvani e seu sucessor na cátedra da Universidade de Bolonha, tinha realizado em Londres, ainda Mary era criança, uma assustadora experiência ao submeter o cadáver de um enforcado a choques eléctricos intensos. Frankenstein está pois, sem dúvida, associado à ciência da época. Havia razões para ter medo da ciência. De resto, o romantismo que então florescia cultivava precisamente esse medo.

Hoje em dia, a revista Science, ao evocar em número especial o mito de Frankenstein, para além de referir os perigos da moderna genética, que para além de aplicações mais directamente humanas, promete a possibilidade de vida sintética, através da produção de bactérias artificiais a partir de componentes genéticas, refere também um perigo vindo da ciência que alguns julgam ser o maior de todos: a inteligência artificial. Com efeito, certos profetas contemporâneos enfatizam a possibilidade da humanidade terminar, num momento que antevêem próximo, dando lugar a uma era das máquinas.

Curiosamente, num seu romance posterior a Frankenstein e bem menos famoso, O Último Homem, Shelley descreve uma Terra devastada por uma praga, na segunda metade do século XXI, onde a espécie humana desaparece. A questão é então como prevenir os perigos da ciência. Para não criar monstros é preciso que o homem mantenha a razão acordada. A ciência precisa de consciência, permanente e plena consciência. “Ciência sem consciência é ruína de alma”, já dizia, muito antes de Shelley, o médico, escritor e padre francês François Rabelais.

terça-feira, 6 de fevereiro de 2018

Em que se deve traduzir a profissão docente? O que diz a lei.

Na sequência do texto A capacitação dos professores para tomarem decisões.

É importante perceber-se que os desvios da função docente e da formação de professores para outros campos que não o ensino e até para a negação do ensino não tem qualquer sustentação na actual lei. De facto, aí se reconhece o professor como um profissional cuja função é ensinar com base num saber específico, que se situa nas seguintes áreas: de docência; educacional geral; didácticas específicas; cultural, social e ética. A tutela assume, pois, que o professor está ou deverá estar capacitado para assumir as suas funções com autonomia e responsabilidade.

Eis o que se diz nos diplomas que estruturam, em termos gerais, a profissão e a formação.

Perfis gerais de desempenho profissional (Decreto-Lei n.º 240/2001 de 30 de Agosto)
“… assume-se como um profissional de educação, com a função específica de ensinar, pelo que recorre ao saber próprio da profissão, apoiado na investigação e na reflexão partilhada da prática educativa e enquadrado em orientações de política educativa para cuja definição contribui activamente.” 
Estatuto da carreira docente (Decreto-Lei n.º 41/2012 de 21 de Fevereiro, Artigos 13.º e 15.º)
A formação inicial "é a que confere habilitação profissional para a docência no respectivo nível de educação ou de ensino (…) visa dotar os candidatos à profissão das competências e conhecimentos científicos, técnicos e pedagógicos de base para o desempenho profissional da prática docente.
A formação contínua destina-se a assegurar a actualização, o aperfeiçoamento, a reconversão e o apoio à actividade profissional docente [e] ainda o desenvolvimento na carreira e de mobilidade (…) deve ser planeada de forma a promover o desenvolvimento das competências profissionais do docente.
Regime jurídico de habilitação para a docência (Decreto-Lei n.º 79/2014, de 14 de Maio, Artigos 7.º, 8.º, 9.º, 10.º, 11.º e 12.º)
Áreas dos ciclos de estudos que conferem essa habilitação:
a) Área de docência - complemento, reforço e aprofundamento da formação académica, incidindo sobre os conhecimentos necessários para ensinar de acordo com as áreas disciplinares e grupos de recrutamento (...) incidindo sobre a sua fundamentação avançada, mesmo quando sejam matérias elementares;
b) Área educacional geral - abrange os conhecimentos, as capacidades e as atitudes comuns a todos os docentes relevantes para o seu desempenho na sala de atividades ou na sala de aula (...);
c) Didáticas específicasabrange os conhecimentos, as capacidades e as atitudes relativos às áreas de conteúdo e ao ensino das disciplinas do respetivo grupo de docência;
d) Área cultural, social e ética -  visa a sensibilização para a cultura, no seu sentido mais amplo, e para problemas contemporâneos, bem como para os valores reconhecidos no país na consciência das dimensões ética e cívica da sua ação docente;
E, ainda, a área da iniciação à prática profissional - vocacionada para o desenvolvimento profissional através de “articulação entre o conhecimento e a forma de o transmitir visando a aprendizagem”, realizando-se segundo princípios como “a observação em situação de ensino”, “as experiências de planificação, ensino e avaliação”.  

segunda-feira, 5 de fevereiro de 2018

Recensão de "A ciência e os seus inimigos" no Observador


Recensão de José Carlos Fernandes acerca do mais recente livro de dois também autores deste blogue "A Ciência e os Seus Inimigos", publicada no Observador:

Trump, Deepak Chopra ou as pulseiras quânticas: quem são os maiores inimigos da ciência?

A capacitação dos professores para tomarem decisões

São cada vez mais as entidades que "oferecem" cada vez mais guiões, manuais, referenciais, planificações, estratégias, actividades... aos professores. 

Temos, à cabeça, as editoras de manuais escolares e de recursos informáticos, mas outras empresas, associações, fundações e serviços da mais diversa natureza estão a ganhar terreno. Há que contar, ainda, com as academias, as equipas e os centros de investigação, sem esquecer, claro, o Ministério da Educação.

Virtualmente, toda gente, tenha ou não estudado alguma coisa de pedagogia, parece sentir-se habilitada para dizer aos professores como devem exercer o seu ofício (ver um exemplo absolutamente extraordinário aqui). Ora, por princípio, os professores são, tal como os médicos, os juristas, os engenheiros, profissionais capazes de fazer isso de forma autónoma e responsável.

Para assim continuarem é preciso proporcionar-lhes formação, tanto de carácter inicial como contínuo, baseada em conhecimento confiável, que lhes permita tomar decisões isentas e adequadas. 

Isto mesmo é dito no artigo que se pode ler aqui e de onde tirei a seguinte passagem.
(...) não significa dizer aos professores o que devem fazer (…), trata-se de os capacitar, liberando-os de governos, ministros e funcionários que muitas vezes são muito rápidos a emitir orientações com base nas suas ideias, que acreditam serem excelentes. (...) Ninguém do governo deve dizer aos médicos o que eles devem prescrever, mas esperamos que os médicos sejam capazes de tomar decisões informadas usando as melhores e mais recentes evidências disponíveis sobre a eficácia de certos tratamentos. Eu acho que os professores podem estar na mesmo posição (...). A crença implícita é que um método novo e caro é necessariamente melhor (…) métodos são usados para reduzir o absentismo, ensinar matemática, reduzir gravidez na adolescência e um monte de outras coisas mas não há evidências sólidas para afirmar se são benéficos.

quinta-feira, 1 de fevereiro de 2018

A DESCOBERTA CIENTÍFICA DO ANO


Meu artigo no último "As Artes entre as Letras":


A Science, revista científica de grande impacto publicada pela Associação Americana para o Progresso das Ciências, costuma escolher no final de cada ano a “descoberta do ano”.  Em 2016 a descoberta do ano tinha sido a das ondas gravitacionais, vindas do choque de dois buracos negros, que haveria de valer o prémio Nobel da Física de 2017, anunciado em  3 de Outubro, aos americanos  Rainer Weiss, Barry Barish e Kip Thorpe. E em 2017 a distinção foi para uma descoberta relacionada com a anterior. Tratou-se da primeira observação, realizada a 17 de Agosto mas só revelada publicamente escassos dias após o anúncio do Nobel, de ondas gravitacionais provenientes do choque de duas estrelas de neutrões, o que permitiu identificar pela primeira vez uma fonte simultânea de ondas gravitacionais e de ondas electromagnéticas ou luz. A colisão de duas estrelas de neutrões foi responsável pela emissão de ondas gravitacionais, durante os dois minutos antes do choque, depois pela emissão de raios gama,  que surgiram dois segundos após, a seguir, após 11 horas, pela emissão de luz visível, e, ao fim de duas semanas, pela emissão de raios X e de ondas de rádio. As ondas gravitacionais emitidas pelo par de estrelas de neutrões que, num baile vertiginoso, se aproximaram em espiral até colidirem uma com a outra são diferentes: têm, por exemplo, frequências maiores do que as que vêm de buracos negros. Nos emissores que se conheciam de ondas gravitacionais não emitiam qualquer luz por se tratarem de buracos negros – o próprio nome “negro” indica que não emitem luz -, mas, no caso de binários de duas estrelas de neutrões, já é possível receber luz e, para nosso contentamento, recebeu-se a partir de 17 de Agosto luz de várias frequências, que teve portanto de ser recolhida por telescópios de vários tipos, uns instalados em terra (os de luz visível, de infravermelhos e de ondas de rádio) e outros montados em satélites em órbita terrestre (os telescópios de raios gama e de raios X). O céu proporcionou-nos um espectáculo não só de “som” gravitacional mas também de luz e, ainda por cima, à semelhança de um fogo de artifício, luz de vários tipos. “Som” vai entre aspas porque não se trata de som convencional, que exige um meio material, mas sim da vibração do próprio espaço.

O nome “estrelas de neutrões” deve-se ao facto de a estrela ser feita de partículas do núcleo atómico, protões e neutrões, mas com grande predomínio de neutrões. A sua densidade é semelhante à dos núcleos atómicos: de facto, é como se fosse um gigantesco! núcleo atómico. Nos núcleos que ocupam o centro de todos os átomos, que constituem os elementos químicos, o número de neutrões vai aumentando à medida que aumenta o número de protões, deixando a certa altura de existir núcleos estáveis, por causa da repulsão eléctrica entre as cargas dos protões. Mas, numa estrela de neutrões, as forças nucleares fortes conseguem ganhar à repulsão entre os poucos protões.

O que distingue os buracos negros de estrelas de neutrões? A sua massa. Tanto uns como outros surgem no centro de uma estrela muito grande que explode numa fase avançada da sua idade – essa estrela chama-se “supernova”. A diferença é que os buracos negros têm uma massa maior do que  duas ou três massas solares ao passo que as estrelas de neutrões têm massa menor. Os buracos negros são, por isso, muito mais densos do que as estrelas de neutrões, que já são bastante densas, muito mais do que o Sol (basta dizer que a sua massa é semelhante à do Sol mas está concentrada numa esfera de cerca de dez quilómetros de raio). Uma vez que as estrelas de neutrões emitem luz, dispomos de muito mais informação a respeito delas do que a respeito de buracos negros, que são os sítios mais misteriosos do Universo.

Foram os mesmos dois observatórios americanos que tinham detectado as primeiras ondas gravitacionais, que constituem o LIGO – Laser Interferometer Gravitational Waves Observatory, que detectaram as primeiras ondas gravitacionais vindas de estrelas de neutrões. Mas não estiveram sozinhos nessa tarefa. Os seus dados foram complementados pelos de um outro observatório do mesmo tipo que funciona em Itália, o VIRGO. O facto de existirem três detectores permitiu efectuar uma triangulação para determinar a posição da fonte emissora: esta estava a 130 mil anos-luz da Terra, muito mais perto do que a fonte das primeiras ondas gravitacionais recolhidas, que estavam a mais de um milhão de anos-luz. Depressa se percebeu que um satélite, o Observatório Fermi de Raios Gama da NASA, tinha recolhido emissões fortes de raios gama vindas precisamente do mesmo local. Conhecido o sítio do céu e alertada a comunidade internacional de astrofísica, logo 70 diferentes telescópios, com os quais trabalham milhares de astrónomos, passaram a olhar com atenção e viram luz de vários tipos de onde antes não vinha nenhuma. Alguns modelos teóricos de choques de estrelas de neutrões puderam assim ser testados pela primeira vez e…  confirmados. Por exemplo previa-se que aparecessem elementos químicos mais pesados do que o ferro e apareceram mesmo, emitindo radiação característica.

Estamos a entrar num novo mundo na astrofísica. O que foi observado não foi uma grande novidade, pois se tratou essencialmente de confirmar conjecturas de base sólida. Mas agora estão abertas as portas para uma nova era de observações, que podem trazer surpresas. Dispomos de uma nova maneira de conhecer o céu, que junta luz e “som”. Tínhamos só filmes mudos, agora temos filmes “sonoros”. Não sabemos que filmes vêm aí…

A “descoberta do ano” diz respeito a eventos catastróficos muito longe de nós (ainda bem que é longe!), mas a espantosa tecnologia que usámos para a concretizar poderá encontrar aplicações no nosso quotidiano. Já há tecnologia computacional de detecção de corpos celestes que serve para encontrar tumores cancerígenos. Os leitores da Science, muito interessados  em questões de saúde, escolheram para descoberta do ano um sucesso recente em terapia genética. Mas a Science esteve bem ao ter escolhido uma descoberta da física. Se é certo que há grandes avanços na medicina, também os há na física. E o espaço sempre nos fascinou.

MINISTRO INDIANO NEGA TEORIA DA EVOLUÇÃO

http://www.nature.com/articles/d41586-018-01241-9?WT.ec_id=NATURE-20180202&spMailingID=55891285&spUserID=MjA1NjIyMTE3NAS2&spJobID=1340119441&spReportId=MTM0MDExOTQ0MQS2

Muitas pessoas estão mesmo dispostas a trocar a privacidade pela conveniência

Texto que o Professor Mário Frota nos enviou. Assina-o Ricardo Pintão, advogado de Tecnologia, Media & Comunicações e foi publicado hoje...