|
quarta-feira, 7 de setembro de 2016
O LICEU CAMÕES RESTAURADO
Tem sido muito discutida a necessidade de obras de restauro do Liceu Camões em Lisboa. Mas há restauros mais fáceis que os arquitectónicos. O nosso leitor Eduardo Martinho, com a sua arte informática, restaurou uma foto de uma antiga aula de Física nesse liceu, que foi aqui há pouco publicada. Fica aqui o antes e o depois do "lifting".
GEOLOGIA E O NOVO ANO LECTIVO
Novo texto do Prof. Galopim de Carvalho:
Prestes a
começar o novo ano lectivo, verifico com apreensão que os novos programas
referentes aos 10º, 11º e 12º anos da
disciplina “METAS CURRICULARES DE GEOLOGIA - Curso científico-humanístico de
Ciências e Tecnologias”,
cujas linhas gerais estão delineadas e que conheço no pormenor, elaborados por
uma equipa a que, de facto, reconheço competência científica e pedagógica,
continuam amordaçados, algures numa gaveta do Ministério...
Imenso e tido por inabarcável, ao tempo dos descobrimentos marítimos, o nosso Planeta é hoje assustadoramente pequeno face ao crescimento exponencial da população, além de que começa a dar preocupantes sinais de esgotamento e agressão já evidentes, em especial, na poluição do ar que respiramos, da água que bebemos e dos solos onde, é bom não esquecer, radica a maior parte da cadeia alimentar que nos sustenta. Sendo a geologia uma disciplina científica que, entre outros aspectos fundamentais à sociedade, nos fornece o essencial dos conhecimentos necessários ao conhecimento e à defesa do ambiente natural, é fulcral atribuir-lhe, ao nível da Escola, a importância que, realmente, tem.
Da exploração racional dos recursos geológicos, mineiros e energéticos, todos eles não renováveis (e são tantos) e das águas subterrâneas à protecção do ambiente e à prevenção de catástrofes naturais, a geologia faculta-nos os conhecimentos indispensáveis. À desenfreada procura de lucro de uns poucos, tem de opor-se a necessária cultura científica por parte do comum dos cidadãos. E a Escola tem, forçosamente, que fornecer essa cultura em articulação harmoniosa e inteligente com os saberes de outras disciplinas. Não o “molho” de definições que (salvo honrosas excepções) tem sido a sua praxis.
Quem, a nível político, tem decidido sobre o maior ou menor interesse das matérias curriculares referentes à disciplina de Geologia mostrou desconhecer a real importância deste domínio do científico como motor de desenvolvimento e bem-estar, mas também como componente da formação cultural dos portugueses. Mostrou, ainda, incapacidade pedagógica em transmitir aos alunos a beleza e o fascínio das matérias que nos revelam a história deste “planeta azul” que nos deu berço e nos assegura a vida.
Já o escrevi aqui, em blogues e noutros meios de comunicação, já o disse de viva voz ao anterior ministro da Educação, já o comuniquei por escrito ao actual (que continua sem resposta), já explanei por palavras ditas, por onde quer que sou convidado a falar, e insisto em afirmar que, no panorama das nossas escolas, e com as sempre necessárias e honrosas excepções, esta disciplina limita-se a um conjunto de matérias desarticuladas e desinseridas de um contexto unificador, tidas por desinteressantes e, até, fastidiosas. Todos sabemos que há professores mal habilitados que as debitam sem entusiasmo, por dever de ofício. Há, ainda, os que, sem capacidade crítica, seguem o estereotipado e igualmente acrítico manual adoptado, que o aluno decora por obrigação de um programa de falho de mérito, e que lança no caixote do esquecimento, passado que foi o exame final. O que, no presente, o professor é convidado ou obrigado a fazer (salvo as honrosas excepções que é necessário ressalvar) é preparar o aluno para acertar nas perguntas que lhes irão ser apresentadas no exame. E do acertar ou não nessas, por vezes, armadilhas em forma de charadas depende a sua aprovação numa disciplina que em nada contribuiu para o seu enriquecimento intelectual.
Tem sido este o quadro nas nossas escolas, onde a Geologia sempre foi subalternizada. Foi este o quadro em que cresceram e se formaram a imensa maioria das mulheres e dos homens que hoje temos na política, na administração, nas empresas, na cultura, na comunicação social, no cidadão comum.
É preciso e urgente olhar para esta realidade do nosso ensino. É preciso e urgente que o actual ministro reactive a equipa que trabalhou nos últimos dois anos no estabelecimento das linhas gerais do programa no sentido de finalizar no mais curto espaço de tempo os novo curricula.
Afigura-se-me como necessária uma profunda revisão de tudo o que se relacione com o ensino desta área curricular, a começar nos programas, passando pelos livros e outros manuais adoptados, pela formulação dos questionários nos chamados pontos de exame, sem esquecer a necessária e conveniente formação dos respectivos professores-
Sempre disse e insisto em dizer que o professor, deve saber muitíssimo mais do que os alunos a quem se dirige. Não pode, de maneira nenhuma, ser um mero transmissor das noções, tantas vezes, torno a dizer, estereotipadas, acríticas e, por vezes, incorrectas de alguns manuais de ensino.
Sendo certo que a capacidade de intervenção de cada indivíduo, como elemento consciente da Sociedade, está na razão directa das suas convenientes informação e formação científicas, importa, pois, incrementá-las. E incrementá-las é facultar-lhe correctamente o acesso aos conhecimentos que, constantemente, a ciência nos revela.
Imenso e tido por inabarcável, ao tempo dos descobrimentos marítimos, o nosso Planeta é hoje assustadoramente pequeno face ao crescimento exponencial da população, além de que começa a dar preocupantes sinais de esgotamento e agressão já evidentes, em especial, na poluição do ar que respiramos, da água que bebemos e dos solos onde, é bom não esquecer, radica a maior parte da cadeia alimentar que nos sustenta. Sendo a geologia uma disciplina científica que, entre outros aspectos fundamentais à sociedade, nos fornece o essencial dos conhecimentos necessários ao conhecimento e à defesa do ambiente natural, é fulcral atribuir-lhe, ao nível da Escola, a importância que, realmente, tem.
Da exploração racional dos recursos geológicos, mineiros e energéticos, todos eles não renováveis (e são tantos) e das águas subterrâneas à protecção do ambiente e à prevenção de catástrofes naturais, a geologia faculta-nos os conhecimentos indispensáveis. À desenfreada procura de lucro de uns poucos, tem de opor-se a necessária cultura científica por parte do comum dos cidadãos. E a Escola tem, forçosamente, que fornecer essa cultura em articulação harmoniosa e inteligente com os saberes de outras disciplinas. Não o “molho” de definições que (salvo honrosas excepções) tem sido a sua praxis.
Quem, a nível político, tem decidido sobre o maior ou menor interesse das matérias curriculares referentes à disciplina de Geologia mostrou desconhecer a real importância deste domínio do científico como motor de desenvolvimento e bem-estar, mas também como componente da formação cultural dos portugueses. Mostrou, ainda, incapacidade pedagógica em transmitir aos alunos a beleza e o fascínio das matérias que nos revelam a história deste “planeta azul” que nos deu berço e nos assegura a vida.
Já o escrevi aqui, em blogues e noutros meios de comunicação, já o disse de viva voz ao anterior ministro da Educação, já o comuniquei por escrito ao actual (que continua sem resposta), já explanei por palavras ditas, por onde quer que sou convidado a falar, e insisto em afirmar que, no panorama das nossas escolas, e com as sempre necessárias e honrosas excepções, esta disciplina limita-se a um conjunto de matérias desarticuladas e desinseridas de um contexto unificador, tidas por desinteressantes e, até, fastidiosas. Todos sabemos que há professores mal habilitados que as debitam sem entusiasmo, por dever de ofício. Há, ainda, os que, sem capacidade crítica, seguem o estereotipado e igualmente acrítico manual adoptado, que o aluno decora por obrigação de um programa de falho de mérito, e que lança no caixote do esquecimento, passado que foi o exame final. O que, no presente, o professor é convidado ou obrigado a fazer (salvo as honrosas excepções que é necessário ressalvar) é preparar o aluno para acertar nas perguntas que lhes irão ser apresentadas no exame. E do acertar ou não nessas, por vezes, armadilhas em forma de charadas depende a sua aprovação numa disciplina que em nada contribuiu para o seu enriquecimento intelectual.
Tem sido este o quadro nas nossas escolas, onde a Geologia sempre foi subalternizada. Foi este o quadro em que cresceram e se formaram a imensa maioria das mulheres e dos homens que hoje temos na política, na administração, nas empresas, na cultura, na comunicação social, no cidadão comum.
É preciso e urgente olhar para esta realidade do nosso ensino. É preciso e urgente que o actual ministro reactive a equipa que trabalhou nos últimos dois anos no estabelecimento das linhas gerais do programa no sentido de finalizar no mais curto espaço de tempo os novo curricula.
Afigura-se-me como necessária uma profunda revisão de tudo o que se relacione com o ensino desta área curricular, a começar nos programas, passando pelos livros e outros manuais adoptados, pela formulação dos questionários nos chamados pontos de exame, sem esquecer a necessária e conveniente formação dos respectivos professores-
Sempre disse e insisto em dizer que o professor, deve saber muitíssimo mais do que os alunos a quem se dirige. Não pode, de maneira nenhuma, ser um mero transmissor das noções, tantas vezes, torno a dizer, estereotipadas, acríticas e, por vezes, incorrectas de alguns manuais de ensino.
Sendo certo que a capacidade de intervenção de cada indivíduo, como elemento consciente da Sociedade, está na razão directa das suas convenientes informação e formação científicas, importa, pois, incrementá-las. E incrementá-las é facultar-lhe correctamente o acesso aos conhecimentos que, constantemente, a ciência nos revela.
ANTÓNIO GALOPIM DE CARVALHO
UMA VIAGEM A SÃO PETERSBURGO
Minha crónica no Público de hoje:
A primeira vez que ouvi falar de S. Pertersburgo foi nas Viagens na Minha Terra de Almeida Garrett, onde o burgo é associado ao frio: “Que viaje à roda do seu quarto quem está à beira dos Alpes, de Inverno, em Turim, que é quase tão frio como São Petersburgo — entende-se.” Pois eu não viajei à roda do meu quarto e saí até à cidade russa.
Não encontrei o frio porque era Agosto. Encontrei, isso sim, a cidade que conhecia dos livros de História: a cidade de Pedro I, o Grande, o seu fundador em 1703 numa região pantanosa à entrada no Báltico, banhada pelo rio Neva, e de Catarina II, também a Grande, que içou a então capital da Rússia aos cumes da opulência. Quem já viu palácios, igrejas e museus nas capitais europeias não viu nada até ter visto São Petersburgo. Só palácios barrocos há mais de uma centena. Imperdíveis são o Palácio de Inverno dos czares (sede de um dos maiores museus do mundo, o Hermitage) e o Palácio de Verão (a uma meia hora do primeiro por hydrofoil). Foi ao Palácio de Inverno que o cruzador Aurora, que ainda por ali permanece, atirou os primeiros tiros da Revolução de Outubro, em 1917, vai fazer cem anos. Foi no Palácio de Verão que, em 1941, Hitler quis dar uma recepção, face à dificuldade em entrar na cidade, mas Estaline reagiu bombardeando o local. Está tudo reconstruído, brilha o ouro barroco nos salões e nas fontes.
O motorista de táxi que apanhei no aeroporto de Pulkova (perto de um histórico observatório astronómico que serviu de modelo ao Observatório da Ajuda), indicou-me até onde chegaram os blindados alemães. Agora está lá um enorme stand da Mercedes, pelo que comentou: “Sempre é melhor do que tanques”. O seu avô tinha combatido no cerco da cidade, que se prolongou por quase 900 dias, tendo tido a sorte de sobreviver ao contrário de dois milhões de russos, que pereceram mais de fome do que das bombas que caíam todos os dias, de manhã, à tarde e à noite. Ponto alto da defesa da cidade foi a interpretação, que se tornou símbolo da resistência russa, da Sétima Sinfonia de Dmitri Choskatovitch na Sala Grande da Filarmónica a 9 de Agosto de 1942. Isso não impediu que o compositor, natural da cidade, tivesse sido vítima da implacável censura estalinista. A cidade tem sido pródiga em artistas, mas estes nem sempre foram bem vistos: Paolo Troubetskoy, que fez uma estátua equestre de um dos últimos czares, respondeu assim quando mudou o regime: “Eu não sou político. Só fiz um animal em cima de outro.”
Há uma tradição sangrenta na política russa. Foi em Leninegrado, isto é, São Petersburgo, que Estaline mandou, em 1934, matar o seu número dois, o dirigente local Serguei Kirov, iniciando uma purga que dizimaria uma boa parte dos dirigentes comunistas. Já tinha sido em São Petersburgo, na Fortaleza de São Pedro e São Paulo, que Pedro I mandou torturar até à morte o seu próprio filho, Alexei, suspeito de conspiração. Foi aí que Catarina II, alemã de nascimento, esteve por trás do golpe de estado, perpetrado por um seu amante, contra o marido, Pedro III, neto de Pedro I (o czar deposto morreria meses depois na prisão), para reinar longos anos. Foi ainda aí que o filho de Catarina, Paulo I, foi assassinado, num forte que mandou construir porque se sentia inseguro no Palácio de Inverno. A Catedral de São Pedro e São Paulo, no centro da fortaleza, é o panteão dos czares, onde estão Pedro e Paulo, dois dos primeiros Romanov assassinados. Mas os regicídios foram mais. No sítio onde foi baleado Alexandre II ergue-se hoje a portentosa Igreja do Sangue Derramado. Não, os últimos Romanov, Nicolau II e a sua família, não foram mortos aqui pelos bolcheviques, mas estão sepultados desde 1998 no panteão, após funerais nacionais com a presença de Iéltsin. Foram todos santificados pela Igreja Ortodoxa.
São Petersburgo tem só 300 anos, mas é um concentrado de história. Nas sinistras masmorras de São Pedro e São Paulo estiveram como presos políticos Dostoiévski, Trotsky e Krotpokin. A porta do Neva ficou conhecida por “Porta da Morte” pois aí embarcavam os condenados a pena capital ou a trabalhos forçados na Sibéria. O primeiro português que esteve na capital imperial russa teve sorte madrasta: António Luís Vieira foi recrutado em Londres por Pedro I, que fez dele capitão da sua guarda, mas, após a morte do monarca, acabou desterrado na Sibéria. Outro português na corte russa foi António Ribeiro Sanches, que salvou a jovem Catarina II de uma doença grave antes de ela ser coroada, e teve melhor sorte. Ainda no século das Luzes, D. João Carlos de Bragança visitou São Petersburgo, tendo merecido um poema encomiástico do escritor Aleksandr Sumarokov. Depois de se referir a Homero, Virgílio e Camões, o poeta diz que “as zonas quentes são propícias à vinda a este mundo de bons poetas”. Mas ele, nascido no frio, não se conformava: queria também enfileirar na galeria.
Nas fotos: Palácio de Inverno (Hermitage), Palácio de Verão (ou Peterhof) e Catedral de São Pedro e São Paulo (com os túmulos dos cazares)
terça-feira, 6 de setembro de 2016
Estrelas de neutrões, pulsares e testes da teoria da relatividade geral
Informação recebida dos organizadores:
O
Departamento de Física da Faculdade de Ciências e Tecnologia
da Universidade de Coimbra (FCTUC) acolhe, de 5 a 9 de
Setembro, a Escola Internacional “NewCompStar School 2016”,
(ver https://indico.cern.ch/event/505595/) em que participam cerca de 60
estudantes de Física de vários países, entre os quais
Alemanha, Espanha, França, Hungria, Inglaterra, Índia,
Itália, Malta, Polónia, Portugal,
Rússia, Turquia, África do Sul e EUA.
Esta escola de Verão, que tem como tema de destaque a
Física Gravitacional, é organizada em conjunto pelo Centro
de Física da FCTUC (CFisUC) e pela ação COST NewCompStar.
Convidam-se os interessados a assistir, em particular à
palestra pública no dia 8 de Setembro às 18h30 no Museu de
Ciência, por Paulo Freire do Instituto Max Planck em Bona:
"Neutron stars, pulsars and tests
to the theory of General relativity"
segunda-feira, 5 de setembro de 2016
Investigadores usam conhecimento para combater infecções e resistência a antibióticos
Foram atribuídos 2,5 milhões de euros a um novo projecto que pretende criar uma rede entre centros de investigação e hospitais portugueses para controlar doenças infecciosas e prevenir o aparecimento de resistência a
antibióticos.
Durante os próximos três anos, mais de 80 investigadores
vão estar empenhados a dar respostas em tempo real às necessidades específicas
dos hospitais de Lisboa, sempre que forem diagnosticadas infecções bacterianas. Depois da
implementação bem sucedida do projeto em Lisboa, poder-se-á alargar ao resto do
país.
Coordenado por Raquel Sá-Leão e Mónica Serrano do
ITQB NOVA, o projecto ONEIDA pretende estabelecer uma rede inovadora
de investigadores e instituições de investigação com a capacidade de dar
resposta muito rápida a questões relativas aos patogénios que infectam doentes
que chegam aos hospitais, fazendo a caracterização biológica minuciosa de cada
estirpe em termos de conteúdo genético e proteico. Dessa forma, o corpo clínico
terá respostas rápidas e completas sobre o perfil do patogénio que pretende
eliminar, o que permite escolher o fármaco e antibiótico mais adequado a cada
caso. Desta forma, conseguir-se-á dar resposta mais rápida e adequada a cada
caso, o que diminuirá a morbilidade e evitará o uso inadequado de antibióticos.
Ao mesmo tempo, a comunidade científica poderá fazer um estudo mais rigoroso e
com mais dados sobre os patogénios que infectam pessoas e animais em Portugal.
Este projeto une três grandes institutos
de investigação portugueses: o Instituto de Tecnologia Química e Biológica António Xavier (ITQB NOVA), Instituto de Medicina Molecular (iMM) e
o Instituto Gulbenkian de Ciência (IGC), para enfrentar a necessidade urgente
de soluções efetivas para a prevenção e controlo de doenças infeccionas e a
multirresistência a antibióticos, que é um problema emergente em Portugal e no
Mundo.
O projeto ONEIDA foi financiado pelo Portugal
2020, um programa que reúne 5 Fundos Europeus Estruturais e de Investimento -
FEDER, Fundo de Coesão, FSE, FEADER e FEAMP – com o objetivo de alinhar as grandes orientações
estratégicas nacionais e europeias para o desenvolvimento económico, social e
territorial que se pretende promover em Portugal até 2020.
CIÊNCIA E MÚSICA NO CICLO DE TERTÚLIAS "CIÊNCIA AO LUAR"
No âmbito do programa CIÊNCIA VIVA NO VERÃO EM REDE, dia 6 de Setembro pelas 21h00, realiza-se a terceira tertúlia do ciclo "Ciência ao Luar", na esplanada do Café Santa Cruz (Praça 8 de Maio, Coimbra), dedicada ao tema MÚSICA, com as participações de Manuel Rocha e Rui Vilão e moderação de Carlos Fiolhais.
Organização do Rómulo Centro Ciência Viva da Universidade de Coimbra.
ENTRADA LIVRE
Público-alvo: Público em geral
Sustentabilidade Ambiental e Produção Animal
Com alguma frequência verificamos que os consumidores admitem que os métodos modernos de produção de carne de bovino, de ovino, de caprino, de suíno, de aves ou de algumas espécies de peixe, têm maior impacto sobre o ambiente que os métodos tradicionais. Alguns falam mesmo, com indisfarçável saudade, dos “bons velhos tempos de antigamente”,
Atribuem-se, assim, aos métodos de produção ditos intensivos efeitos muito nefastos sobre o ambiente, a segurança alimentar e, portanto, sobre a saúde humana, muito mais que aos métodos tradicionais de produção. Vários autores (por exemplo, Jude Capper, 2011) têm mostrado quão errada é esta presunção.
Com efeito, diz-se correntemente que os métodos intensivos poucas vezes respeitam - ou, na versão mais radical e simplista, sempre desrespeitam -, os direitos dos animais - designadamente, o direito ao seu bem-estar e, em última análise, à sua saúde - e ao direito a exibirem comportamentos alimentares e outros normais, isto é, próprios da vida de cada espécie ao ar livre, em plena natureza.
Numa palavra, apelidam-se os métodos de produção animal de hoje em dia como sendo métodos verdadeiramente insustentáveis.
Por isso, queremos, em primeiro lugar, definir o que deve ser entendido por sustentabilidade, definição que tenha, a um tempo, rigor científico e que possa ser entendida por todos.
Assim parece-me uma definição muito feliz aquela que podemos encontrar na internet em http//www.epa./gov/Sustainability/basicinfo.htm. Passo a traduzir: sustentabilidade consiste em fazer face às necessidades actuais da sociedade sem comprometer a capacidade de as gerações futuras poderem satisfazer as suas próprias necessidades.
Devo acrescentar que isto implica, em relação à carne de bovino e a outros produtos animais, responsabilidade ambiental e viabilidade económica - estamos a viver em mercado há vários milénios e, por isso, ninguém pode trabalhar na sociedade actual para produzir alimentos seguros se não receber algo tangível em troca...
Esta produção deve ter também plena aceitabilidade social nas suas técnicas de produção que, reconhecemos sem dificuldade, se alteraram muito ao longo da História da humanidade.
Como regra, em democracia, os votos levam a que os decisores políticos sejam particularmente sensíveis a primeira e à última destas consequências, ou seja, responsabilidade ambiental e aceitabilidade social.
Relativamente à responsabilidade ambiental, vale bem a pena ver o que Jude Capper (2011) apurou relativamente à produção de carne de bovino nos USA comparando o que se passou em 1977 com o que ocorreu 30 anos depois, isto é, os sistemas de produção prevalecentes em 2007.
Para o efeito Capper (2011) utilizou um modelo determinístico, perfeitamente validado pelo mundo científico. Foi baseado nas necessidades alimentares da população bovina nos USA em 1977 e em 2007, votada à produção de carne e foram quantificados todos os recursos utilizados – inputs – e as respectivas saídas - outputs - observadas, considerando sempre todos os alimentos que os animais
consumiam para produzir carne (numa palavra, a dieta) e as fracções da dieta sempre desperdiçadas sob a forma de fezes, urina e metano, ou seja, os excreta por bilião de kg de carne de bovino produzida.
As regras de maneio características sistemas de produção de 1977 e de 2007, não deixaram de ser devidamente consideradas bem como as dinâmicas da população bovina num caso e noutro. As características produtivas destes sistemas nas duas épocas foram igualmente tidas em conta.
Após realizar esta análise Capper (2011), concluiu que a produção de 1 bilião (escrito de forma matemática: 10 elevado a 12) de kg de carne de bovino em 2007 nos USA gastou muito menos recursos que em 1977, a saber, designadamente: foram precisos apenas 69,9% de animais, 81,4% de alimentos, 87,9% de água e 67,0% de terra.
A produção de efluentes foi também consideravelmente reduzida: em 2007 a unidade de produção de carne de bovino nos USA, produziu 81,9% de fezes+urina, 82,3% de metano e 88,0% de óxido nitroso, relativamente ao mesmo bilião de kg de carne de bovino 30 anos antes
Nem é de ficar surpreendido que assim tenha sido tendo em conta toda a informação científica hoje disponível. A pegada de carbono em 2007 foi também algo menor que em 1977. Com efeito para produzir a mesma quantidade de carne a pegada de carbono foi reduzida em 16,3%.
Perante esta constatação, que posição racional se pode tomar senão estar de acordo com a recomendação de Jude Capper quando diz (traduzo): “dado que a população americana vai aumentar – e, acrescento eu, a FAO (2008) prevê que aumente bastante mais nalguns países que nos USA - será crucial prosseguir no rumo da investigação que visa conseguir melhorar a eficiência da utilização dos recursos na produção de carne como aconteceu nos últimos 30 anos. Só assim se pode satisfazer as aspirações do mercado para carne de bovino segura, atractiva do ponto de vista económico, usando menos recursos e mitigando o impacto ambiental”
Que posição assumiu o comissário da saúde da UE em 2007?
Numa publicação com apresentação excelente e certamente muito cara (aquele papel de certeza que não foi barato…) comemorativa de “50 anos de segurança alimentar na UE” (2007 European Union), o Comissário Europeu para a Saúde (de nacionalidade grega), senhor Markos Kyprarianou ou alguém da sua confiança, escreveu - destacando, de forma bem visível - num quadradinho com fundo encarnado, “Did you know? Intensively reared beef production uses over 33 as much of energy as pasture production to produce the same quantity of meat. Now that`s intensive!”
Não posso admitir que o Comissário da Saúde da UE afirme isto usando de má fé. Que será então? Ignorância muito atrevida? Infelizmente parece-me o mais provável. Mas daqui poderia não vir grande dano para a UE e para todos nós – bastaria que o Comissário Marcos fosse bem assessorado para tais disparates não seriam publicados. Assim este disparate pode vir a custar muitos euros a todos nós...
Permitam-me, no entanto, que vos recomende uma leitura muito atenta e satírica da crónica de Henrique Monteiro contida na edição em papel do EXPRESSO de 31.05.2014 a propósito das recentes eleições para o Parlamento Europeu “Bárbaros regressam à Europa”.
Arnaldo A. Dias da Silva
Referências:
- Capper J. L. (2011) – The environmental impact of beef production in the United States: 1977 compared with 2007. J. ANIM SCI 2011, 89; 4249-4261.
- Henrique Monteiro, crónica in EXPRESSO, edição de 31.05.2014
- EUROPEAN UNION – 2007. 50 years of food safety in European Unit 1957- 2007
PUBLICADO NO BOLETIM DA SACP, Nº 3, Setembro de 2014
OITENTOSE
Texto recebido do Prof. Galopim de Carvalho:
Há dias o otorrinolaringologista que me
observou, depois de ouvir o meu historial clínico e de olhar para a lista de
fármacos que diariamente sou forçado a tomar, olhou para mim com um amistoso
sorriso e disse:
- A sua doença, professor, é só uma e chama-se “oitentose”.
Rimos os dois enquanto ele prescreveu o que
entendeu prescrever. Despedimo-nos, ele ficou onde estava, à espera do próximo
cliente e eu voltei à minha rotina.
De facto, a “oitentose”, outros há que a referem
pela sigla PDI, afectou-me consideravelmente a audição, a visão, a mobilidade e,
em consequência disso, o convívio com os outros, com a sociedade que me rodeia.
Em contrapartida, aumentou-me a capacidade de interiorização. E nesta
interiorização, o natural envelhecimento do corpo conduz, inevitavelmente, ao
problema da morte, que, no meu caso pessoal, é sentido com a maior
tranquilidade, como um fim de uma etapa natural inscrita na natureza e na
evolução da matéria.
São muitos os que, para seu conforto, se agarram
à ideia de uma vida “do lado de lá” assegurada pelas respectivas almas. Não é,
seguramente, o meu caso.
A Bíblia ensina que a alma, entendida como
espírito, é uma emanação exclusiva do Homem a quem Deus deu vida no sexto dia
da Criação, o que, segundo o texto sagrado, aconteceu há cerca de seis mil
anos. Para os crentes, a alma nasce com o ser humano, cresce e evolui com ele,
liberta-se dele no momento da morte do respectivo corpo e permanece para além
dele.
Nesta
concepção, a morte física de alguém tem lugar no momento em que a alma abandona o corpo e
parte para uma outra forma de existência, entendida como unicamente espiritual,
imortal e, portanto, eterna.
A palavra alma radica no
latim “anima” e significa o que anima
e dela derivam palavras do nosso dia-a-dia, como animal, animado, animação, ânimo e animismo, a teoria que considera a alma, simultaneamente, princípio
de vida psíquica e física ou orgânica. Nesta óptica, abandonado pela alma, o
corpo fica sem animação e, portanto, morto.
No âmbito da grande maioria das
religiões cristãs e não cristãs, a alma é uma entidade imaterial que continua a
existir após a morte do corpo, destinada a fruir, para sempre, a graça
celestial ou condenada ao eterno tormento. Os seguidores desta ideia poderão concluir que, uma vez
libertas do corpo e dos interesses e compromissos inerentes à vida terrena, as
almas se tornam as melhores críticas dos actos dos homens ou das mulheres que
foram.
Na linha da tradição religiosa pagã da antiga
Grécia, Platão ensinava que as almas, na sua imortalidade, caminhavam para a
perfeição, ganhando sabedoria e libertando-se dos medos e de outros defeitos
humanos, entre os quais, a inevitável condição de errar.
E essa sabedoria era interpretada
por ele como a capacidade de conviver com os deuses por todo o sempre.
Para Lucrécio, poeta romano do século I a. C., a alma morria
com o corpo de que foi complemento. Ele defendia que, após a morte, dela
restava o que ele designou por “simulacrum”, entidade a que o povo chama
fantasma e que muitos acreditam deambular entre os vivos. Nesta sua visão revela
ter bebido na sabedoria grega, nomeadamente, na ideia epicurista de “eidolon”,
termo grego que refere o mesmo tipo de entidade.
A Igreja católica ensina que
há tantas almas, quantas a pessoas nascidas na Terra.
Um parêntesis para dizer a quem não sabe que o
termo católico tem origem na palavra grega katholikós,
que significa Universal.
Há, portanto, as almas das
pessoas que estão vivas e as de todas as que já morreram, digamos que desde
Adão e Eva. Aceitando esta versão bíblica, o número de almas é imenso e não pára
de crescer. Assim sendo, podemos perguntar «onde é que cabem tantas almas?»
A resposta afigura-se-me
simples. O conceito de alma implica o seu carácter imaterial. Assim, as almas
não têm dimensão física, ou seja, não têm massa nem volume, não têm peso e não
ocupam espaço. São como o pensamento. Para elas não há gravidade nem
distâncias, nem fronteiras, não há alto nem baixo, nem dia nem noite, nem
quente nem frio. São ubiquistas, podendo estar, ao mesmo tempo e a qualquer
momento, aqui e nos quasares mais longínquos, nos confins do Universo, a
milhares de milhões de anos-luz.
Sendo a alma exclusiva do
Homem e se tivermos em atenção a evolução do ser humano como espécie, desde o
mais antigo primata, até ao Homo sapiens actual,
passando pelos australopitecos e pelos outros hominídeos que os estudiosos têm
descoberto e descrito, a pergunta que me ocorre fazer é «a partir de que
estádio evolutivo da hominização, os nossos antepassados começaram a surgir
acompanhados das respectivas almas?» Foi no Neanderthal,
aparecido há umas centenas de milhares de anos, ou foi só no Cro-Magnon, que se pensa ter exterminado
aqueles, há uns trinta ou quarenta mil anos?
A alma entendo-a pura e
simplesmente como o psiquismo decorrente da vida animal. Sem sombra de dúvida, sabemos
que os nossos antepassados exerceram actividade psíquica e, neste sentido,
torna-se evidente que tiveram alma tal como eu a entendo. Mais ainda, muitos
animais superiores revelam capacidades cerebrais amplamente investigadas em
institutos de psicologia animal, pelo que podemos dizer que também têm alma,
repito, no sentido que dou à palavra. Quem põe em causa a inteligência de um
chimpanzé, de um cão, de um golfinho ou, mesmo, do Troodon formosus, o dinossáurio carnívoro, desaparecido há mais de
sessenta milhões de anos?
Nesta concepção, quando morre
o corpo morre a alma. O que perdura, por mais ou menos tempo, é a memória que
dele, enquanto vivo, nos ficou.
Por vezes, dou por mim a pensar que sou um materialista, no sentido filosófico da palavra, não
no sentido vulgar e pejorativo de pessoa só interessada nos bens materiais. Um
materialista na linha de Leucipo de Mileto e
de Demócrito de Abdera, filósofos atomistas do século V, antes de Cristo, e
precursores do materialismo, para os quais tudo o que existia era feito de
átomos e vazio.
Até que algo me “ilumine”, como a
tantos outros, sou de opinião de que tudo o que existe é matéria e que todos os
fenómenos que observamos são o resultado de interacções materiais. O
pensamento, ou seja, a actividade intelectual, psíquica ou espiritual, como
alguns preferem dizer, cria as ideias, mas temos de concordar que essa
actividade é processada por circuitos eléctricos entre células do cérebro, que
sabemos serem entidades materiais feitas de carbono, oxigénio, hidrogénio,
azoto e umas pitadas de outros elementos químicos.
Não sendo matéria, as ideias concebo-as como
fruto de um estado muito avançado desta realidade física e biológica, que é o
cérebro. São parte do intelecto (uns
dirão do espírito) de quem as concebeu enquanto criatura viva e, portanto,
radicam em algo bem material. Morto o cérebro são muitas as ideias que
sobrevivem através das suas criações, por tempo menos ou mais dilatado. Leucipo
e Demócrito, para citar apenas dois, morreram há mais de dois milénios, mas as
suas ideias continuam bem vivas. As criações materiais, que podemos tocar ou
ver, uma escultura ou uma pintura, por exemplo, encerram ideias que não morrem,
a não ser que algo as destrua. Mas as criações imateriais morrem se não tiverem
quem as mantenha vivas e as transmita.
O pensamento filosófico ou o matemático só existem se forem registados
num qualquer suporte material ou se alguém, como criatura viva, os recordar.
A música existe mas só nos damos conta dela se for escrita, tocada,
gravada ou cantada. Praticamente, perdeu-se toda a música que se cantou ou
tocou na Antiguidade e na Idade Média, anteriormente à introdução dos
pentagramas (pautas) e respectivas notações dos sons, no século XI. Mas sabemos
que se fez música porque alguns dos instrumentos usados, como a lira e a
cítara, chegaram até nós.
Com a poesia passa-se o mesmo. Se não for escrita ou registada perde-se.
Têm sido muitos os poetas populares, que não sabendo escrever ou não tendo tido
quem lhe escrevesse os versos que criaram, morrem, levando consigo toda a
poética de que foram autores. Felizmente que, por terem sido escritas, chegaram
até nós obras que classificamos de imorredouras e que dizemos serem as almas dos
respectivos poetas. E é por isso que se fala da imortalidade de Píndaro, de
Virgílio, Dante, Camões, O’Neill, Sofia, Ary…
GALOPIM DE CARVALHO
PEDRO JOÃO DOS SANTOS: O FÍSICO MISTERIOSO
Meu texto na última Rua Larga, revista da Universidade de Coimbra:
São muitas e variadas as conexões entre o famoso personagem
criado pelo desenhador belga Hergé (pseudónimo de
Georges Remi) e o mundo da ciência. Mas são apenas algumas
as referências que Tintim faz a Portugal e aos portugueses.
Num só caso, os dois conjuntos de referências se intersetam:
no álbum A Estrela Misteriosa, uma das personagens é Pedro João
dos Santos, professor de Física da Universidade de Coimbra
(UC). É bem conhecido o cuidado com que Hergé preparava
os seus álbuns, muitas vezes baseados em cenários, personagens
e eventos reais. Faz, portanto, todo o sentido perguntar:
quem era o físico português da banda desenhada? Que personagem
poderia ter servido de inspiração ao artista?
O álbum A Estrela Misteriosa, publicado em 1942, na Bélgica
ocupada pela Alemanha nazi, descreve a queda de um meteorito
na Terra, no qual tinha sido detectado, durante a
queda, um elemento químico novo. Para o estudar, foi constituída
uma comissão internacional de sábios, que apenas
incluía cientistas da Alemanha e de países neutros, como
Portugal e Suécia. A expedição, que viaja sob a bandeira de
um Fundo Europeu de Pesquisas Científicas, anterior ao
aparecimento das instituições científicas pan-europeias que
emergiram no pós-guerra, inclui o investigador português
Pedro João dos Santos, que Hergé designa por baixo do respe tivo
retrato, de “célebre físico da Universidade de Coimbra”.
Curiosamente, embora o Professor Santos nunca fale, é-lhe reconhecida
alguma proeminência entre os sábios, uma vez
que aparece por duas vezes em reuniões à direita de Tintim,
o principal herói do álbum.
Na época, ensinava em Coimbra um professor com um
nome que também era “João” e “Santos”, João de Almeida
Santos (1906-1975), que se tinha doutorado em 1935, na
Universidade de Manchester, na área de raios X, trabalhando
com o mais jovem prémio Nobel de sempre, William
Bragg. Em 1942, Almeida Santos ainda não era catedrático
(viria a sê-lo em 1948) e não se pode dizer que fosse célebre.
Torna-se relevante na ciência da UC quando é nomeado,
em 1948, diretor do Laboratório de Física, sucedendo
a Mário Silva, o discípulo de Madame Curie afastado pelo
Estado Novo por motivos políticos. Almeida Santos viria a
dirigir o referido Laboratório até à Revolução de 1974.
A ele se deve o desenvolvimento da investigação em
Coimbra, não apenas na área dos raios X, mas também
noutras áreas que cresceram nos anos 1960: a física nuclear
experimental e a física teórica. Replicando o que se tinha
passado consigo, enviou bolseiros para algumas das melhores
instituições científicas do Reino Unido. Não admira,
por isso, que o Departamento de Física o tenha homenageado
em 1997. Antigos discípulos dele louvaram as suas
capacidade pedagógicas e de gestão, baseadas numa sólida
formação científica. Se o nome favorece a identificação de
Almeida Santos com o físico português de Hergé, outros
factores não vão no sentido de tal associação. O retrato da
banda desenhada não se parece com o do personagem real
(aparenta ser mais velho do que Almeida Santos, que em
1942 tinha 36 anos) e, principalmente, a sua área de trabalho
não seria a mais adequada para integrar uma expedição às águas do Árctico, em busca de um meteorito. A verosimilhança
do retrato não é uma questão de somenos, pois o
membro sueco da expedição, de seu nome Erik Björgenskjöld,
apresentado como “autor de notáveis trabalhos sobre as protuberâncias
solares”, parece inspirado em Auguste Piccard
(1884-1982), um cientista suíço que trabalhou em Bruxelas
e que, conforme o próprio Hergé admitiu, foi também o modelo
para a criação do Professor Girassol, personagem que só
surgiu em O Tesouro de Rackham o Terrível, de 1944, a sequela
de O Segredo de Licorne, de 1943, o álbum seguinte à A Estrela
Misteriosa. Piccard protagonizou descidas submarinas a grande
profundidade, a bordo de um batiscafo de sua autoria, e
também ascensões à estratosfera, a bordo de balões especiais.
Um batiscafo em forma de tubarão, pilotado por Tintim,
surge n’O Tesouro de Rackham o Terrível.
Que outras hipóteses se podem colocar sobre a eventual
personagem que teria inspirado Hergé? Havia, embora já
jubilado, um outro professor da UC, que, sendo matemático
em vez de físico, trabalhava na área da Astrofísica Solar
(portanto, tal como Björgenskjöld, sabia de protuberâncias
solares): Francisco da Costa Lobo (1854-1945) doutorou-se em 1885 e foi director do Observatório Astronómico de
Coimbra, de 1922 a 1934, quando se jubilou. Participou em
numerosos congressos por todo o mundo, representando
a UC e a ciência portuguesa, tendo com isso alcançado
um certo reconhecimento internacional (recebeu, por
exemplo, a Ordem de Leopoldo da Bélgica). No entanto,
se a sua área de trabalho e a sua celebridade se ajustam
mais à sua integração numa equipa científica internacional,
contra a sua identificação está o facto de ele, em 1942, com
88 anos, estar há muito retirado da vida ativa.
Há ainda uma terceira hipótese: o físico António Gião
(1906-1969), que começou a estudar na UC em 1924 e que
se mudou para a Universidade de Estrasburgo, onde se formou
em Geofísica, tendo então começado uma carreira
internacional em meteorologia. Esteve em várias cidades
europeias e há uma curiosa associação a uma expedição a
águas do Árctico: em 1928, foi convidado a integrar a expedição
ao Polo Norte chefiada pelo capitão italiano Umberto
Nobile, tendo, no entanto, declinado o convite. Foi a sua
sorte, pois a expedição acabou em tragédia: o dirigível caiu
nos gelos, tendo morrido sete dos seus tripulantes. Para cúmulo do infortúnio, também faleceu numa operação de socorro
o famoso explorador norueguês Roald Amundsen,
que tinha sido o primeiro a chegar ao Polo Sul em 1911.
Gião haveria, devido à guerra, de voltar a Portugal, tendo
-se estabelecido na sua terra natal, Reguengos de Monsaraz.
Em 1946, dá início a uma correspondência com o então já
famoso Albert Einstein, a residir em Princeton, nos Estados
Unidos. Haveria de ingressar na Faculdade de Ciências da
Universidade de Lisboa, nos anos 1960, como professor
convidado. Foi também o primeiro director do Centro de
Cálculo do Instituto Gulbenkian de Ciência.
Não há, portanto, uma atribuição óbvia a um personagem
real do personagem fictício da história de Tintim. Almeida
Santos, Costa Lobo ou Gião. Os três tiveram ligações à UC,
os três tiveram carreiras internacionais e os três, cada um
a seu modo, foram figuras do século XX português, decerto
marcado pela governação de Salazar. O facto mais interessante
é Hergé ter-se lembrado de incluir um cientista de
Coimbra numa expedição, chefiada por um belga, que reunia
cientistas da Suécia, Espanha, Suíça e Alemanha. Tem
sido muito discutida a inclinação germanófila de Hergé
nos tempos da Segunda Guerra Mundial. De facto, o jornal
Le Soir, onde ele primeiro publicou as tiras de A Estrela
Misteriosa, era colaboracionista com o invasor. Um pormenor
deste álbum dá a entender o antissemitismo do desenhador
belga. Com efeito, há uma expedição ao meteorito
rival da do Fundo de Pesquisas Europeu: ela aparece no
Le Soir como uma expedição norte-americana financiada
por um judeu, de seu nome Blumenstein. Hergé mais tarde
teve o cuidado de ter mudado a bandeira dessa expedição
para a bandeira de uma inexistente República de São Rico e de ter
substituído o nome do patrocinador por um outro sem
qualquer conotação judaica. As Aventuras de Tintim são um
retrato do tempo em que foram desenhadas e, como não
podia deixar de ser, também um retrato do autor. Hergé
pode ter sido controverso, mas é incontroverso que a sua
obra inaugurou uma época na banda desenhada.
domingo, 4 de setembro de 2016
ENSINO SUPERIOR AGRÁRIO EM PORTUGAL, HOJE
Texto recebido do professor de Ciências Agrárias Arnaldo Dias da Silva:
Estamos à porta do início de novo ano. É natural que os alunos e os seus pais vivam este período com alguma ansiedade. Porém, tal ansiedade não será vivam este período com alguma ansiedade. Porém, tal ansiedade não será muito grande para aqueles que procuram o ensino superior agrário pela triste triste razão da procura destes cursos ser actualmente muito baixa muito entre nós.
Com efeito, analisando abundante informação, sou levado a suspeitar que serão pouco prováveis grandes alterações na (baixa) procura dos cursos superiores de índole agrária verificada em Portugal nos últimos anos.
No entanto, aparentemente, tudo vai bem neste cantinho, quanto a este assunto. Na altura em a altura em que escrevo este texto ainda não conheço angústias publicadas na imprensa pelos responsáveis pela formação ou pelo emprego dos graduados nesta área – e também das ordens profissionais que, supostamente, os irão enquadrar na vida activa. Algo se passará!
De facto, alguma coisa deve estar mal. A situação é particularmente grave nos cursos superiores florestais, tendo em conta a importância económica que a floresta representa para Portugal desde há muito.
Em Portugal existem um total de 8 Institutos Politécnicos ((IP ) com outras tantas Escolas Superiores Agrárias (ESA), onde se ministram licenciaturas e mestrados – mas que estranhamente não oferecem cursos florestais - e 6 Universidades (U) onde, tal como nas ESA, se oferecem licenciaturas e mestrados em ensino superior agrário embora de perfil curricular diferente da que é oferecida nas ESA.
Esta estrutura é um tanto complexa. Não temos dúvidas em admitir, porém, que, em geral, esta (pesada) estrutura foi construída com o melhor dos objectivos. O que conhecemos da matéria “diz nos”, no entanto, que algumas clarificações são urgentes
Mesmo aqueles que não estão muito familiarizados com as produções na agro-indústria e no agro-comércio, incluindo produtos florestais, provavelmente ao saberem da oferta que temos neste ensino superior poderão exclamar: nada mau, fez-se boa aplicação de dinheiros públicos!
Será razoável perguntar se essa grande oferta de ensino superior agrário é de qualidade. Por aquilo que conheço, direi que sim.
Mas, se a oferta é grande, será também grande a procura por parte daqueles que saem do ensino secundário? Infelizmente, já o disse, não: o mau retrato é geral. Oxalá as próximas semanas não confirmem a tragédia.
A situação é particularmente grave em relação ao ensino superior florestal em todas as Escolas Universitárias – Lisboa (ISA) e UTAD. Só não vê quem não quiser.
ARNALDO A. DIAS DA SILVA.
O ESPAÇO SOVIÉTICO
Mostro alguns posters de propaganda soviética da corrida espacial nos tempos da Guerra Fria que estão em exposição na Fortaleza de S. Pedro e S. Paulo em S. Petersburgo, na Rússia:
sábado, 3 de setembro de 2016
Estudantes portugueses ganham medalhas nas Olimpíadas Internacionais de Ciências da Terra no Japão
Comunicado recebido da Direcção da Sociedade Geológica de Portugal.
"Mais uma vez a Geologia
portuguesa está de parabéns!
Duas medalhas de prata e uma de
bronze em três medalhas possíveis nas olimpíadas Internacionais de
Ciências da Terra.
Pelo segundo
ano consecutivo Portugal participa nas Olimpíadas Internacionais de Ciências
da Terra e, pelo segundo ano consecutivo a participação da equipa Nacional
traduziu-se num enorme sucesso.
Entre 20 e 27
de Agosto realizaram-se em Mie no Japão as 10as Olimpíadas
Internacionais de Ciências da Terra (International Earth Sciences Olympiads
- IESO 2016; http://www. http://ieso2016.jp), na qual estiveram presentes
delegações de 26 países.
A delegação de
Portugal integrou os três estudantes portugueses, vencedores das 2as
Olimpíadas Portuguesas de Geologia, organizadas durante o ano lectivo
2015-16 pela Sociedade Geológica de Portugal (SGP). É com enorme satisfação que
a Direção da Sociedade Geológica de Portugal anuncia que Portugal acaba de
obter duas medalhas de Prata e uma medalha de Bronze:
Diogo
Nascimento (Prata), Escola Básica e Secundária de Murça
Marcos Freitas
(Prata), Colégio da Rainha Santa Isabel de Coimbra
Alexandre
Afonso (Bronze), Escola Secundária Adolfo Portela de Águeda
É a segunda vez
que Portugal concorre nesta temática de Olimpíadas Internacionais educativas,
tendo a representação portuguesa sido constituída pelos 3 alunos do Ensino
Secundário que obtiveram as três primeiras posições nas 2as
Olimpíadas Portuguesas de Geologia que decorreram no ano letivo 2015-16. A
comitiva foi constituída, para além dos referidos alunos, pelos seus mentores,
pertencentes à Comissão Nacional para as Olimpíadas de Geologia (CNOG), Prof.
Jorge Relvas (Coordenador Nacional) e Dr. Álvaro Pinto, ambos da Faculdade de
Ciências da Universidade de Lisboa.
Em paralelo, foram disputadas outras duas provas
colectivas transnacionais denominadas Internacional
Team Field Investigation (ITFI) e Earth
Science Project (ESP); também aqui a equipa portuguesa se destacou tendo
obtido mais uma medalha de Bronze na ITFI.
Um aspecto a
realçar, e que valoriza ainda mais a prestação dos estudantes portugueses, é
que as matérias
avaliadas nas Olimpíadas Internacionais diferem significativamente dos
programas nacionais da disciplina de Biologia e Geologia do 10ª e 11º ano,
porque incorporam adicionalmente conteúdos de Ciências Planetárias, Geofísica,
Oceanografia e Ciências da Atmosfera. Para valorizar ainda mais as competências
da delegação portuguesa, designadamente nas matérias que não integram os seus
programas escolares, foi feita uma preparação complementar dos estudantes que a
integram. Esta preparação, bem como todo o processo de organização da selecção
dos estudantes que representaram Portugal na IESO 2016, só foi possível,
graças ao inestimável apoio dos Centros Ciência Viva do Lousal e de Estremoz, e
de Professores da Escola de Ciências e Tecnologia da Universidade de Évora, da
Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa e da Faculdade de Ciências e
Tecnologia da Universidade Nova de Lisboa a quem a Sociedade Geológica de
Portugal agradece, reconhecida.
Evidentemente
que esta missão ganhadora só foi possível graças ao envolvimento, dedicação e
qualidade dos professores e estudantes portugueses envolvidos nas Olimpíadas
Portuguesas de Geologia. No entanto, uma iniciativa com esta dimensão envolve o
esforço de muitos colegas e instituições para além das que já foram nomeadas.
Embora correndo o risco de omissão, a Direcção da Sociedade Geológica de
Portugal não pode deixar de agradecer reconhecidamente em especial:
- ao Professor Jorge Relvas e a toda a equipa CNOG por ele
coordenado, por todos os aspectos logísticos deste complexo processo;
- ao Professor Jorge Ferreira, Presidente do Júri de Especialistas
e a toda a sua equipa, pela elaboração de todas as provas utilizadas nas 2as
Olimpíadas Portuguesas de Geologia;
- os apoios do Ministério da Educação e Ciência e da Agência Nacional
Ciência Viva, sem o qual tudo isso dificilmente teria sido possível."
Direcção da Sociedade Geológica de Portugal
sexta-feira, 2 de setembro de 2016
O que se passa com a Quercus?
Deparei-me com uma publicação no Facebook da organização ambientalista Quercus, que promove o alarmismo acerca dos supostos perigos das redes Wi-Fi:
A página ligada está cheia de disparates, como:
(...) existem informações científicas que afirmam que as redes WiFi são totalmente inofensivas, mas não podemos esquecer que essas conclusões cientificas são pagas pela “Alianza WiFi” uma associação que representa a indústria WLAN, que é atualmente integrada por mais de 200 grandes empresas.
5. Recorrer a médicos especializados para que realize uma descarga da radiação que o corpo poderá ter absorvido.
Escrevi recentemente acerca desta paranóia no PÚBLICO e incluí várias referências.
A Quercus costumava ser uma organização cientificamente credível.
Ocorreu uma cisão no início deste ano e um grupo de fundadores da Quercus (Francisco Ferreira, Susana Fonseca, José Paulo Martins e Hélder Spínola e Viriato Soromenho-Marques) abandonou a participação activa para formar uma nova organização, a ZERO. Que se passa com a Quercus? Ficaram só os lunáticos? Ou a conta de Facebook da Quercus foi sequestrada por algum?
Subscrever:
Mensagens (Atom)
UM CAMINHO CURRICULAR PARA A FORMAÇÃO HUMANISTA?
Entenda-se este texto não como um elogio acrítico a uma nova escola de iniciativa privada, mas como uma reflexão acerca da estrutura curricu...
-
A falácia do espantalho , uma das mais utilizadas pelos que que não conseguem sequer compreender os temas em debate, basicamente consiste em...
-
Na Antiguidade, entre os Gregos e os Romanos, as máscaras eram utilizadas no teatro e serviam para caracterizar a personagem que ali se que...










