quarta-feira, 10 de dezembro de 2014

Jesuítas de Portugal: 1542-1759/ Arte, Culto, Vida Quotidiana


Já saiu o livro "Jesuítas de Portugal: 1542-1759/Arte, Culto, Vida Quotidiana", Fausto Sanches Martins Livraria Manuel Ferreira R. Dr. Alves da Veiga, 89 4000-073 Porto

 Trabalho de investigação histórica da maior importância e rigor para todos quantos se dedicam ao estudo da Companhia de Jesus em Portugal, desde a fundação do primeiro colégio de Coimbra em 1542 até à sua expulsão em 1759. Profusamente documentado com fotografias nas páginas de texto e ampla bibliografia. ´

“A opção destas marcas cronológicas correspondem a uma intenção bem definida de protesto por toda uma literatura que, num passado recente, se preocupou, sobretudo, em escalpelizar as causas e os “culpados” da expulsão dos “espúrios” filhos de Santo Inácio, esquecendo, por completo, ou relegando para plano secundário a acção da Companhia de Jesus, com as suas luzes e sombras, ao longo de dois séculos.”

 PVP: 30€ (encomendas directas à livraria)

DEUS TEM FUTURO?

Programa Prós e Contra de segunda-feira à noite: aqui.

Qual o valor dos estudos clássicos?



Numa altura em que se discute o que deve ser estudado nas escolas, em que se questiona a utilidade de certas matérias para as quais a nossa sociedade economicista não vê uma utilidade, eis aqui um pequeno, mas útil, contributo para essa discussão:
http://espresso.repubblica.it/inchieste/2013/08/22/news/il-classico-insegna-a-diventare-adulti-grazie-alla-filosofia-1.137549

segunda-feira, 8 de dezembro de 2014

O TEMPO

O TEMPO na poesia


Cada Coisa a seu Tempo Tem seu Tempo

Cada coisa a seu tempo tem seu tempo.
Não florescem no Inverno os arvoredos,
Nem pela Primavera
Têm branco frio os campos.

À noite, que entra, não pertence, Lídia,
O mesmo ardor que o dia nos pedia.
Com mais sossego amemos
A nossa incerta vida.

À lareira, cansados não da obra
Mas porque a hora é a hora dos cansaços,
Não puxemos a voz
Acima de um segredo,

E casuais, interrompidas sejam
Nossas palavras de reminiscência
(Não para mais nos serve
A negra ida do Sol) —

Pouco a pouco o passado recordemos
E as histórias contadas no passado
Agora duas vezes
Histórias, que nos falem

Das flores que na nossa infância ida
Com outra consciência nós colhíamos
E sob uma outra espécie
De olhar lançado ao mundo.

E assim, Lídia, à lareira, como estando,
Deuses lares, ali na eternidade,
Como quem compõe roupas
O outrora compúnhamos

Nesse desassossego que o descanso
Nos traz às vidas quando só pensamos
Naquilo que já fomos,
E há só noite lá fora.

Fernando Pessoa, Ricardo Reis, Odes

VIVEMOS COM BACTÉRIAS



Quarta-feira, 10 de Dezembro, pelas 18h00, no espaço Rómulo Centro Ciência Viva da Universidade de Coimbra.



Sobre a palestra:
No nosso organismo existem 10 vezes mais microrganismos do que as “nossas” próprias células. Mas para além disso, por vezes, as bactérias podem moldar as nossas sociedades…
António Veríssimo


Esta palestra insere-se no ciclo "A Ciência no Dia-a-Dia" organizado por António Piedade.

O PROBLEMA DO TEMPO


Meu artigo na última revista "Anselmo" da Anselmo Joalheiros:

O filósofo português Leonardo Coimbra contava esta história sobre um professor que queria definir o tempo como aquilo que fica depois de se ter tirado tudo: "Um velho professor de Mecânica começava as suas lições universitárias por convidar o curso a imaginar um comboio deslizando na linha, dizendo depois solene: 'suprimam o comboio, a paisagem, a linha, o solo, etc., o que fica?' E o curso, perplexo, debalde tratava de pensar o que ficaria. Depois de uma pausa misteriosa, era o professor que deste modo respondia: 'O Tempo!' " 

De facto, o velho professor estava equivocado. De acordo com o físico suíço de origem alemã Albert Einstein o tempo é indissociável do espaço. Os dois formam um todo – o espaço-tempo – que surgiu numa misteriosa explosão – o Big Bang – há cerca de treze mil milhões de anos. De então para cá, à medida que o tempo tem passado, o Universo tem evoluído num processo contínuo de auto-organização: a energia primordial do Big Bang deu lugar a partículas, as partículas juntaram-se em átomos, os átomos associaram-se em moléculas e estas agregaram-se em matéria infinitamente variada, incluindo a mais complexa de todas, a matéria viva de que somos feitos.

O que é, afinal, o tempo? Pois um físico começará por dizer que o tempo é aquilo que marcam os relógios. Com efeito, o ano foi definido como o tempo que o nosso planeta demora a dar uma volta completa em torno da nossa estrela. É como se a seta invisível que vai do Sol para a Terra fosse o ponteiro de um gigantesco relógio. Mas esta noção de tempo – o tempo duração, o tempo sempre repetido, o tempo reversível – contrasta nitidamente com a do tempo cosmológico – o tempo evolução, o tempo que nunca se repete, o tempo irreversível. O Universo nasceu, vive e aparentemente tem um futuro eterno à nossa frente. É finito para trás, mas infinito para a frente. Contudo, tal não quer dizer que a vida na Terra seja eterna: a nossa estrela nasceu há cerca de cinco mil milhões de anos, vive e um dia irá morrer. E cada um de nós é bem mais temporário do que o Sol à volta do qual andamos. Sabemos bem que a nossa vida é finita, raramente chegando um habitante da Terra a dar uma centena de voltas em torno do astro-rei.    

Einstein, querendo consolar a viúva de um seu grande amigo quando este faleceu, escreveu que "o tempo é ilusão", querendo significar com isso que não existe distinção entre passado e futuro do ponto de vista das partículas individuais (a Terra e o Sol podem ser vistas como duas partículas). Mas essa distinção existe, de facto: sabemos bem que o futuro é diferente do passado, lembramo-nos do passado e não nos lembramos do futuro. Dá a ideia que o tempo irreversível aparece com o aumento do número de partículas e da complexidade das suas interacções. Uma partícula sozinha não conhece a diferença entre o passado e o futuro ao passo que muitas partículas em interacção já conhecem. Como passar do tempo reversível para o tempo irreversível? Reside aqui o grande problema do tempo, um problema que persiste na ciência e na filosofia, apesar de ter sido enfrentado, embora de prismas diferentes, tanto por grandes físicos como por grandes filósofos. Tentamos perceber o tempo, mas ainda não conseguimos.

A questão do tempo assume um papel central na charneira entre a ciência e a filosofia, mostrando como as duas se tocam. O matemático e filósofo britânico Alfred North Whitehead sumariou de maneira lapidar a nossa dificuldade em compreender o tempo: "É impossível meditar no tempo e no mistério do processo criativo da Natureza sem se ter uma emoção esmagadora sobre as limitações da inteligência humana."

"Deus tem futuro?" na RTP1


Hoje à noite vou estar em directo na RTP1 no programa "Prós e Contras"  com representantes de várias igrejas e um membro de um movimento de ateus. Introdução da responsabilidade da produção do programa:

"Deus tem futuro?
Quando a ciência procura e encontra cada vez mais respostas.
Quando em nome da religião se geram conflitos e violam direitos humanos.
Será que a ideia de Deus se mantém no coração do homem?
Que relação têm as religiões entre si?
E o que pensam os ateus?
Cientistas, ateus e homens de Deuses diferentes, todos juntos no maior debate da televisão portuguesa.
Deus tem futuro?
Prós e Contras 2ª feira à noite na RTP!

domingo, 7 de dezembro de 2014

JOSÉ SÓCRATES VAI PRESTAR MAIS UM SERVIÇO AO PAÍS?


Tinha prometido a mim mesmo nada escrever sobre Sócrates por se tratar de uma questão, essencialmente, do âmbito da Justiça e, acessoriamente, do domínio dos media ou de uma simples opinião pública de natureza pessoal.

Mudei de opinião face à notícia do "Expresso", de hoje, intitulada "Sócrates quer ajudar país a ser livre". Transcrevo-a: "O autarca de Matosinhos visitou este domingo José Sócrates no Estabelecimento Prisional de Évora, classificando de "cobardes" aqueles que mantêm o ex-primeiro ministro preso. "Um dia ele vai prestar mais um serviço ao país, que é ajudar a fazer a reforma na justiça", afirmou."

Por ora, nada mais acrescentarei. Endosso os comentários à prometida ajuda de Sócrates para fazer a reforma da justiça (?) aos leitores, num país que se debate entre o amor e o ódio  a Sócrates.

O medo, como convém, volta regulamente às cabeças das pessoas

O "medo", é uma impressão difusa mas bem real. Instala-se nas pessoas sem elas darem conta e passa a acompanhá-las em todos os momentos da sua vida. Não é preciso fazer mais nada para que a liberdade esmoreça. E, com ela, naturalmente, a democracia.

A visão de Maria José Morgado sobre o medo (aqui). Refere-se, em concreto, a Portugal, mas penso que, infelizmente, deixando de lado outros cantos do mundo que não conheço, podemos generalizar a sua visão ao Ocidente. Leia-se Jacques Brazun (por exemplo, "Ascenção e Queda do Ocidente", Gradiva) e perceber-se-á melhor o que esta magistrada diz:



E, porque as palavras escritas têm mais força, destaco:
"O medo voltou. A corrupção instalou-se. As pessoas têm medo de ficar sem reforma. As pessoas têm medo de não encontrar emprego. As pessoas têm medo de não conseguir sobreviver a todas as privações que têm. As pessoas têm medo de ser despedidas. As pessoas têm medo de serem mal classificadas pelos chefes. A sociedade portuguesa está dominada pelo medo. Não há nenhuma espécie de liberdade. Mais, não há liberdade até naqueles que têm o dever de julgar. Aquilo que eu estou a dizer é um fenómeno difuso que está na cabeça das pessoas. Essas coisas funcionam na cabeça das pessoas de forma contraditória e com grandes dilemas."

sábado, 6 de dezembro de 2014

MINHA ENTREVISTA AO CORREIO DA MANHÃ


A propósito do livro Pseudociência, apresentado no âmbito do Ciclo de Conferências e Debates: Pensar Portugal, que decorre no Corte Inglês, em Lisboa:

http://www.cmjornal.xl.pt/cultura/detalhe/pseudociencia_o_lado_comico_da_medicina_alternativa.html

Disse uma pessoa com-abrigo...

ANNE-CHRISTINE POUJOULAT/AFP/Getty Images
Reproduzida no Expresso on line: aqui

Ontem, dia 5 de Dezembro, o jornalista Daniel Ribeiro, correspondente em Paris, publicou um artigo no Expresso on line que importa muito ler (aqui).

Conta ele que a câmara de Marselha obriga todas as pessoas sem-abrigo a identificarem-se da maneira que se percebe na fotografia acima. Cada uma deve ter colada à roupa e em sítio bem visível um triângulo onde consta o seu nome e as doenças de que padece.

"É um simples cartão de socorro e permite aos bombeiros e aos médicos agir com eficácia para salvarem a vida destas pessoas, dificilmente identificáveis sem esse cartão", explica candidamente e, presumo, bastante surpreendida, uma pessoa com-abrigo e com um cargo importante na câmara, quando lhe pediram que explicasse a medida.

A explicação que deu não destoa muito de outras que se vão ouvindo (e, mais do que isso, se vão impondo) neste tempo em que a eficácia, a eficiência, a rentabilidade, a produção, a economia financeira... comandam o mundo. Para dizer a verdade, não a estranhei. O que (ainda) estranhei foi não a ter estranhado.

Acho que isto diz muito do pensamento contemporâneo, que é, afinal, ancestral e, vez em quando, emerge. Se não formos capazes de lhe resistir ele há-de conduzir-nos, de novo, a caminhos que já conhecemos.

sexta-feira, 5 de dezembro de 2014

Janelas para a filosofia

A FCT, OS ERROS E AS CONSEQUÊNCIAS PARA A CIÊNCIA

Informação recebida do Sindicato Nacional do Ensino Superior (SNESup):

O processo de denúncia feito pelo SNESup ao Ministério Público relativo à avaliação das Unidades de Investigação contínua a desenvolver-se. O SNESup enviou recentemente a sua resposta à pronúncia da FCT, com argumentos que descrevem situações factuais comprovadas dos vícios/ilegalidades invocados, aproveitando o facto de terem sido disponibilizados outros documentos, reforçando a posição com a questão do acordo de quota prévia de 50% e com a recente posição do CRUP esclarecedora sobre esta matéria. Tivemos assim oportunidade de dotar o processo de mais elementos, auxiliando a ação da justiça. Os desenvolvimentos deste processo, são fundamentais para repor um quadro de legalidade nos procedimentos da FCT.

Todavia, e mantendo a sua linha de atuação, a FCT continua a insistir nas quotas na segunda fase da avaliação. A FCT precisa de parar de insistir no erro. A FCT precisa de dignidade. E o país necessita da dignidade institucional.

Como se não bastasse as confusões promovidas pela FCT, relativas a este processo, e a perturbação ao normal funcionamento das Unidades de Investigação, as consequências destas malfeitorias afetam também Laboratórios do Estado e Laboratórios Associados, que se vêm forçados a repensar a sua missão, ou a dispensar Investigadores. É absolutamente necessário repor a dignidade na Ciência. Os investigadores precisam voltar a ter condições para poderem preocupar-se com o essencial: investigar! É caso para dizer à FCT: Pare, escute, corrija e deixe-nos produzir!

Educação e Cultura Mediática

Informação chegada ao de Rerum Natura.


No próximo dia 10 de Dezembro, pelas 18h00 será apresentado o livro Educação e Cultura Mediática, da autoria de Carlos de Sousa Reis. A sessão terá lugar na Biblioteca Municipal Eduardo Lourenço, na Guarda.

Resenha feita autor

O presente trabalho resultou de duas preocupações: em primeiro lugar, a compreensão do fenómeno da educação, de modo a encontrar um sentido para a problemática educacional dos planos educativo e deseducativo; em segundo lugar, a apreciação da cultura mediática, muito particularmente da publicidade, sob um ponto de vista educacional crítico.

Não tivemos a intenção de demonizar a cultura mediática e a publicidade, mas entendemos que há necessidade de fazer a sua crítica, sobretudo, pela preponderância que apresentam nas nossas sociedades. Cada vez mais se reclama uma literacia para os media, pois estes possuem um enorme poder para determinar atitudes e estilos de vida, muitas vezes, deploráveis.

O trabalho divide-se em quatro partes.

Na primeira delas, em três capítulos, discutem-se vários elementos de problemática e crítica do campo educacional. Partimos da apreciação da questão da educabilidade humana, encarando a emergência problemática da Paideia e o problema da tensão, ou mesmo agonia, educativa. A reflexão evolui, então, para a apreciação da antinómica do campo educacional, que nos conduziu a uma concepção complexa da educação. Em consequência do enquadramento obtido foi-nos possível indicar um horizonte crítico para avaliar o educativo e o deseducativo.

Na segunda parte, procurámos apreciar, em dois capítulos, o valor deseducativo da cultura mediática, no que concerne ao complexo “televisivo-publicitário”. Depois de uma breve resenha histórica sobre a evolução dos meios de comunicação, que nos deixa perceber as linhas gerais das suas consequências para as sociedades e a educação, nomeadamente as resultantes da integração telemática e da digitalização, focamos a nossa análise sobre o medium dominante: a televisão. Para além de se caracterizar o meio e a sua linguagem, quisemos tipificar a televisão generalista, contrapondo-a à temática, uma vez que a primeira continua a ser a que mais públicos capta. A seu respeito realizámos uma crítica dos regimes prevalecentes sobre o seu fluxo: por um lado, o do fait-divers, palimpsesto e estandardização; por outro, o da espectacularização, escopofília e promiscuidade dos planos informativo, comercial e do entretenimento. Concluímos mostrando os limites da ideologia televisiva e apontando alguns parâmetros para estruturar a televisão educativa.

Na terceira parte, faz-se um aprofundamento analítico, no sentido de apreciar, em especial, o valor deseducativo daquilo que denominámos a anticultura e o enclausuramento publicitários. Em três capítulos, aprecia-se, de modo sintético, os processos de instrumentalização publicitária, que promovem o enclausuramento na “consu(b)mição” e, de seguida, a sua instrumentalização específica dos valores, em que se destaca a exploração do feiticismo dos objectos. A este respeito procurámos fazer uma ilustração crítica, considerando os valores da liberdade, felicidade, sexualidade, enamoramento, amor, amizade e família.

Finalmente, no último capítulo desta parte, quisemos levar a nossa análise um pouco mais longe, no sentido de mostrar como a publicidade, promovendo o consumismo, promove, de facto, um certo tipo de materialismo, que criticamos, a partir dos seus aspectos redutores e deseducativos. Esta parte encerra-se apontando algumas linhas directrizes para definir uma literacia para a publicidade e o consumo. O trabalho termina com uma parte prática, consequente com o que se discutiu nas partes teóricas, e em que tivemos por intenção realizar um estudo exploratório, com recurso à análise de conteúdo, da instrumentalização de um conjunto de valores seleccionados (a amizade, o amor, o enamoramento, a família, a felicidade, a liberdade e o sexo/atracção sexual), no prime time de quatro canais de televisão generalista (três portugueses e um espanhol).

Formulámos três problemas e nove hipóteses, todas elas relativas à eventual existência de diferenças estatísticas significativas entre o número de casos de instrumentalização dos valores e os da sua não instrumentalização, durante o prime time, seja em termos globais, seja em termos específicos, para cada um dos sete valores considerados. Para o efeito, seleccionámos, do período de um ano, dos quatro canais, uma amostra aleatória de 804 spots, de que se realizou uma análise quantitativa e outra qualitativa.

Os resultados permitem-nos afirmar que, em termos globais, o número de casos relativos à instrumentalização é significativamente maior apenas quando se considera o contexto estrito dos casos em que há referência aos valores seleccionados. E, neste contexto, em particular, encontrámos também um número de casos de instrumentalização significativamente maior dos valores da amizade, amor, enamoramento, felicidade e sexo/atracção sexual. O valor da família é o único em que predomina, de forma significativa, a não instrumentalização. Só não se encontraram diferenças significativas, entre instrumentalização e não instrumentalização, no caso específico do valor da liberdade. Globalmente, isto significa que encontrámos evidência empírica da análise levada a cabo nas partes teóricas.
Carlos de Sousa Reis

Aniversário do Museu da Ciência: 5 de Dezembro de 2014


Divulgar a ciência e preservar o património científico da Universidade de Coimbra (UC). Estas são duas das principais missões do Museu da Ciência da UC que comemora a 5 de dezembro o seu oitavo aniversário.

Para assinalar a data o Museu preparou algumas atividades. Pelas 17 horas tem lugar a apresentação do livro “Jardins de Cristais, Química e Literatura”, de Sérgio Rodrigues (Dep. Química da Faculdade de Ciências e Tecnologia da Universidade de Coimbra) que vai contar, também, com a presença de Carlos Fiolhais (Rómulo – Centro de Ciência Viva), João Paulo André (Universidade do Minho) e Helena Santana (Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra).



Às 18 horas realiza-se um espetáculo de ciência ao vivo seguido de um apontamento musical pelo Quarteto Santa Cruz com Joana Neto (mezzosoprano), que vão interpretar obras de Vivaldi e Haendel. As atividades são gratuitas e abertas ao público em geral.

A fechar a tarde de comemorações não vai faltar o bolo de aniversário, para ser partilhado com todos aqueles que queiram fazer parte da festa.

O Museu da Ciência celebra assim oito anos marcados por uma atividade muito diversificada, entre exposições temporárias, visitas guiadas, conversas com cientistas e ateliês que têm justificado a visita de milhares de visitantes. Atualmente, para além da exposição permanente, “Segredos da Luz e da Matéria”, é ainda possível visitar, até 5 de janeiro o projeto “Saúde e Mental e Arte”, que mostra diferentes expressões artísticas de autoria de pessoas com problemas de saúde mental.

Notícia reproduzida do site da UC com imagens do Museu da Ciência.

EXAME DE PROFESSORES PARA QUÊ?

Nuno Crato, contra tudo e contra todos, insiste no exame para professores. Eu não percebo para que é esse exame a não ser para acirrar os ânimos dos professores. Não é contra os sindicatos, mas sim contra os professores. O modelo de prova  - tipo teste QI -  não se percebe. E os resultados são inúteis, pois só serve para eliminar um pequena franja de aspirantes a professores que poucas possibilidades teriam mesmo sem exame. Exame de professores para quê? Sou a favor de uma escolha criteriosa dos professores - as melhores escolas são as que podem escolher os melhores professores e mantê-los - mas esta prova não é para escolher, mas sim para eliminar alguns com base em critérios que pouco têm a ver com a profissão. Se querem fazer um teste de QI na função pública por que não o fazem para todos os funcionários, incluindo o pessoal dos ministérios?

Seria interessante saber o que o Conselho Geral do IAVE (ex-GAVE) tem a dizer sobre a insistência do ministro num exame para professores aparentado a um teste psicológico. Tem lá psicólogos e cientistas de educação, para além de representantes de associações de professores. Acham que este exame serve para alguma coisa? Não é nesta altura uma perturbação da vida das escolas?

quinta-feira, 4 de dezembro de 2014

A IRREVOGÁVEL SUPRESSÃO DO FERIADO

Paulo Portas, membro deste governo, afinal está contra a supressão do feriado do 1.º de Dezembro decidia por ele, membro do mesmo governo. Bastou para tanto que António Costa declarasse que ia restaurar o feriado da Restauração. Basílio Horta já sugeriu que o próximo governo fosse PS-CDS. Não parece provável dado o rumo de Costa, mas esta mudança de Portas vai precisamente nesse sentido. Por aqui se vê como vai a coligação governamental.

Uma anedota de Egas Moniz

Trecho de Egas Moniz (Prémio Nobel), "A Nossa Casa", Paulino Ferreira e Filhos, Lisboa, 1950:


"No meu passado de estudante o feriado era a suprema aspiração. Estávamos presos à frequência das aulas, com quatro faltas apenas para as necessidades mais imperiosas – e havia quem as não desse! – o que nos trazia sempre à espera de alguns feriados, de fora do calendário, a despontar no horizonte. A morte de um lente dava um feriado. Quer ele fosse do activo, quer dos aposentados. Destes perscrutava-se o estado de saúde e não era raro ouvir-se, ao saber da idade:

- Já podia ir indo…

Sucedeu uma vez que certo lente de teologia. De há muito jubilado, que marinhava na casa dos oitenta. Dado como homem espirituoso do seu tempo, passou a enfermar de mal crónica que não tinha fim.

A rapaziada, numa solicitude pouco dignificante, ia frequentemente saber a sua casa, como ia o senhor doutor. Apresentavam ar compungido. A criada ia informando:

- A noite foi melhorzinha. Muito agradecida.

- Desejamos muito as melhoras.

- Obrigado.

Indagou o velho teólogo do que se tratava e soube das solicitações dos académicos em que, sabia bem, não iam votos pelas suas melhoras, A criada foi chamada e instruída de forma a dar a todos a mesma resposta.

- Os senhores escusam de estar a incomodar-se mais. O senhor doutor está melhor  e resolveu morrer em férias…
 "

quarta-feira, 3 de dezembro de 2014

Portugal. Geografia, paisagens e interdisciplinaridade

Informação chegada ao De Rerum Natura.



No próximo dia 5 de dezembro de 2014, pelas 12h00, na Sala do Senado da Universidade de Coimbra decorrerá a 5.ª edição do Prémio Joaquim de Carvalho.

O Prémio foi atribuído à obra Portugal. Geografia, paisagens e interdisciplinaridade, da autoria do Senhor Doutor Fernando Rebelo.

Deus e Caravaggio. A negação do claro‑escuro e a invenção dos corpos compactos

Informação chegada ao De Rerum Natura.

Lançamento da obra Deus e Caravaggio. A negação do claro‑escuro e a invenção dos corpos compactos, da autoria de Carlos Vidal.

A sessão terá lugar no dia 4 de dezembro, às 18h00, na sala Francisco Sá de Miranda na Casa Municipal de Cultura de Coimbra, estando a apresentação a cargo dos senhores Doutores Osvaldo Silvestre e Pedro Pousada.

Educar, Defender, Julgar: Funções Essenciais do Estado

Informação chegada ao De Rerum Natura.

Educar, Defender, Julgar - Para Uma Reforma Das Funções do EstadoHoje, quarta-feira, pelas 18hoo, na Livraria Almedina no Estádio Cidade de Coimbra, tem lugar a apresentação do livro "Educar, Defender, Julgar: Funções Essenciais do Estado" pelo Professor Doutor Rui Alarcão.


Autores: Aniceto Afonso | António Almeida de Moura | António Santos Carvalho | António Vicente | Guilherme da Fonseca | Henrique Curado| Inês Seabra de Carvalho | João José Brandão Ferreira | Joaquim Formeiro Monteiro | José Mouraz Lopes| José P. Ribeiro de Albuquerque | Nuno Coelho | Paulo Ferreira da Cunha | Susana Barreto

Da nota introdutória “A obra que agora se apresenta é o resultado de um diálogo comprometido das Associações de profissionais que representam diferentes setores da vida nacional e que, para além dos seus interesses corporativos, defendem, sobretudo o Estado de Direito. Num tempo em que a palavra reforma do Estado é confundida muitas vezes com políticas conjunturais sustentadas apenas no discurso económico, torna-se essencial demonstrar a relevância histórica das funções essenciais do Estado: a educação, a defesa e a justiça.” ().

DEUS NA ERA DA CIÊNCIA - HOJE EM COIMBRA


Clicar para ver melhor!

O FANTASMA DE SÓCRATES


Minha crónica no Público de hoje:

Apesar de já ter sido quase tudo dito sobre José Sócrates, este continua um tema inescapável. Que me ocorre dizer sobre ele? Em primeiro lugar lembrar o que já disse. Em 6 de Maio de 2011 escrevi neste jornal uma das minhas crónicas mais contundentes (“O grau zero da política”), uma peça que foi interpretada como favorável à ascensão de Pedro Passos Coelho ao poder. Na altura escrevi sobre Sócrates: “Foi o actual primeiro-ministro o responsável número um pelo grau zero da política. Foi ele que se rodeou de gente incompetente (com poucas honrosas excepções), que impavidamente deixou o país deslizar para o fundo. Não, não se trata só da sua incapacidade de percepção das consequências gravosas das suas políticas. Eles criaram uma campanha propagandística que nos iludiu sobre o estado da nação.” E terminei assim: “Se a escolha em Portugal fosse, por hipótese, entre o actual primeiro-ministro e o rato Mickey, eu não hesitaria em votar no boneco da Disney.”

É claro que eu já temia que viesse aí algo de mau, mas pior teria sido manter Sócrates. Hoje ele está preso. Eu não sou juiz e não o vou julgar no plano jurídico. Sou apenas um cidadão que vê e comenta a vida pública. Já o julguei no plano político. Quanto ao resto nada sei, embora não possa deixar de ter presentes os vários casos anteriores associados a Sócrates que permanecem por esclarecer. Oxalá ele esteja inocente e possa daqui por uns tempos estar desbotada a mancha na nossa democracia causada pelos imbróglios em que o nome do antigo primeiro-ministro esteve ou está envolvido. Mas, dados os seus rabos-de-palha, tal parece difícil de acontecer. Espero que a justiça siga o seu curso, pedindo-lhe mais rapidez do que a usual.

Quer se queira quer não, a detenção de Sócrates tem óbvias consequências na vida política, tanto para o PS, que esteve no governo, como para o PSD e CDS, que actualmente estão. Espero, por isso, que esses partidos, que se têm sentados nas cadeiras do poder, façam, motivados pelo presente caso e por outros similares, a regeneração que conseguirem e, nessa mudança, se protejam – e, acima de tudo, nos protejam – do vírus hediondo da corrupção. O PS já devia ter aprendido com a condenação de Armando Vara (que apresentou recurso). O PSD e o CDS deviam aprender com o processo sobre presumível corrupção ligada aos vistos gold, que levou à demissão de um ministro, para já não falar das condenações de Isaltino Morais, ex-ministro que cumpriu pena, e de Duarte Lima, ex-líder parlamentar do PSD (que apresentou recurso).

A possibilidade de renovação, nos partidos e nos governos, é uma das maiores virtudes da democracia. António Costa, que vai ser provavelmente o próximo primeiro-ministro, recebeu, sem ter feito nada por isso, uma importante ajuda com o caso Sócrates. Assim ele perceba que esse caso deve ter consequências internas, de modo a aumentar a credibilidade do PS (Mário Soares lamentavelmente não percebeu). No Congresso do PS realizado no passado fim de semana o novo líder conseguiu três coisas não despiciendas: evitar que os militantes falassem de Sócrates, afastar alguns nomes do passado, e alinhar todo o partido, ou quase, para a luta política que se avizinha, apontando os adversários (por muito que tenha sido declarada morta, a dicotomia esquerda-direita ainda funciona) e os eventuais aliados, se as forças próprias não chegarem para a almejada maioria absoluta.


A Passos Coelho coube o papel de rato Mickey, alguém que sucedeu a Sócrates. As coisas não têm corrido nada bem no governo que chefia. O PSD e o CDS estão hoje descredibilizados. Nem sequer se entendem sobre o futuro: se o fizessem, já teriam um acordo para as próximas eleições. Vão gerindo a trouxe-mouxe, ignorando o interesse público. Dou só um exemplo do actual desgoverno: a política do PSD e do CDS na educação e na ciência tem sido um desastre, com o afundamento das escolas públicas face às privadas, como mostram os últimos rankings, e a inacreditável “avaliação” dos centros de investigação, que inclui uma tentativa de favorecimento de instituições privadas em relação às suas congéneres públicas, com claro prejuízo do sistema de ensino superior. Acontece, porém, que o PS ainda não tem suficiente crédito. Afirma, continuando com o mesmo exemplo, defender a escola e a ciência públicas, mas não é ainda claro o que vai fazer e como o vai fazer. Para que haja confiança no próximo governo e esperança no funcionamento da democracia, o PS tem de aumentar o seu merecimento de voto. Tem de esconjurar totalmente o fantasma de Sócrates. Passos Coelho subiu ao poder porque já ninguém acreditava em Sócrates. Não foi tanto mérito seu mas mais demérito do seu predecessor. Costa não deveria subir ao poder apenas porque já ninguém acredita em Passos Coelho. Estou em crer que terá a inteligência necessária para construir o seu caminho.

terça-feira, 2 de dezembro de 2014

Obra Completa do Padre António Vieira

Informação chegada ao De Rerum Natura.

No dia 3 de dezembro de 2014, quarta-feira, pelas 18h30 no Salão Nobre da Reitoria da Universidade de Lisboa, realizar-se-á a sessão de lançamento dos 30 volumes da Obra Completa do Padre António Vieira, pela primeira vez concluída depois de mais de 15 tentativas falhadas para a sua publicação desde 1851.

A apresentação científica estará a cargo dos Professores Carlos Reis, da Universidade de Coimbra, Eduardo Lourenço, da Fundação Calouste Gulbenkian e Viriato Soromenho-Marques. da Universidade de Lisboa.

Participarão a título especial nesta sessão o Ator Júlio Martín, que encenará um sermão de Vieira, e a Orquestra Académica da Universidade de Lisboa.

Graças à articulação do CLEPUL - Centro de Literaturas e Culturas Lusófonas e Europeias da Universidade de Lisboa com outras instituições académicas e culturais de Portugal e do Brasil, foi possível cumprir o exigente calendário estabelecido para a preparação e edição do conjunto total dos textos daquele que foi considerado por Fernando Pessoa o Imperador da Língua Portuguesa.

A Obra Completa de Vieira agora editada em 30 volumes foi preparada por uma equipa intergeracional e interdisciplinar (paleógrafos, latinistas, linguistas, filósofos, historiadores, teólogos, juristas, cientistas literários, etc.) de cerca de meia centena de investigadores, que levantou, transcreveu, fixou, atualizou, traduziu e anotou milhares de fólios manuscritos de Vieira e muitos outros atribuídos a este grande escritor que estão espalhados por bibliotecas e arquivos portugueses e estrangeiros (do Brasil, Espanha, Inglaterra, França, Itália, Estados Unidos,...), apurando a autoria vieirina e as autorias duvidosas.

Esta obra imensa agora editada de quase 15 mil páginas dá à luz do prelo milhares de páginas de inéditos numa preparação pré-editorial e editorial recorde concluída em cerca de dois anos, graças a um trabalho intenso e concertado entre universidades portugueses e brasileiras.

Vieira torna-se novamente, como acontecia com os seus textos publicados avulso no século XVII, um bestseller, dado que é absolutamente raro, em Portugal, um autor clássico de há quatro séculos ter uma tão grande receção entre o público leitor no século XXI.

Do ponto de vista dos recursos mobilizados, foi decisivo o apoio benemérito de um grupo significativo de entidades que quiseram associar-se à Universidade de Lisboa, entre as quais merece destaque, como mecenas principal, a Santa Casa da Misericórdia de Lisboa.

 Assim, foi possível colmatar uma grave lacuna da nossa cultura, disponibilizando ao grande público toda a obra do maior orador português de todos os tempos, cujos textos ainda revelam uma grande atualidade no plano da sua reflexão sobre os Direitos Humanos, a paz, o ecumenismo, a crítica à corrupção, o diagnóstico que faz aos problemas estruturais perenes de Portugal, as soluções que apresenta para tornar o nosso país mais empreendedor, assim como a sua crítica às instituições de bloqueio do nosso progresso como o caso da Inquisição, além da análise certeira que realizou à mentalidade atávica portuguesa como a inveja, a maledicência sistemática e a falta de incentivo político e social aos portugueses com talento e mérito que muitas vezes têm de sair da sua pátria para encontrar reconhecimento e espaço para pôr a render as suas competências.

Agora seguem-se mais duas etapas deste ambicioso projeto chamado ”Vieira Global”: a preparação de um Dicionário Multimédia de Vieira e a tradução e edição da obra seleta deste genial escritor em 12 línguas de grande circulação internacional (Inglês, Francês, Espanhol, Italiano, Russo, Mandarim, Japonês, Árabe, Polaco, Alemão, Holandês, Búlgaro).

PROVA ORAL DE PSEUDOCIÊNCIA

A minha Prova Oral na Antena 3, com Fernando Alvim, Rita Camarneiro e a participação de vários ouvintes:

http://www.rtp.pt/play/p260/prova-oral

ACUPUNCTURA E O RELATÓRIO DA OMS


Uma excelente análise da Leonor Abrantes, para ler no sítio da Comunidade Céptica Portuguesa, 
acerca de um dos argumentos de autoridade frequentemente usados para fazer a apologia científica da acupuntura:


MINHA ENTREVISTA NA ANTENA 1

Uma agradável conversa que tive com Edgar Canelas, emitida no última sábado na Antena 1, acerca de Pseudociência. Para ouvir aqui:

segunda-feira, 1 de dezembro de 2014

1.º de Dezembro

Nesses anos, há pouco mais de sete décadas, não adivinhávamos que, para vergonha dos portugueses, um punhado de nossos concidadãos, alheados da História e avessos à cultura, decretassem e promulgassem o fim deste feriado e o do 5 de Outubro, duas celebrações nacionais tão importantes como a dos “cravos” na nossa geração.

O texto que se segue consta do meu livro “FORA DE PORTAS, Memória e Reflexões”, Âncora Editora, 2008.
1.º ano, turma C, do Liceu Nacional André de Gouveia, 1942.

Nesta fase da minha vida escolar, em que ainda tinha bem presente a História de Portugal e o destaque dado à restauração da independência nacional, em 1640, e à defenestração do infeliz Miguel de Vasconcelos, no Paço da Ribeira, em Lisboa, contactei com outro 1º de Dezembro, o da nossa festa no Liceu de Évora, o mesmo que o meu pai frequentara, a começos do século XX, nos anos em que a grande Florbela Espanca também por lá estudou.

Mesmo antes de entrar neste liceu eu estava a par deste que era o seu maior acontecimento festivo. Conhecia-o através do meu irmão mais velho, Francisco José, entretanto saído para a Universidade, em Lisboa, e também pela minha irmã Maria de Lourdes, a frequentar o 5.º ano (o actual 9.º).

Por eles eu sabia da grande noitada da véspera, iniciada com o ensaio geral da Récita, no dia seguinte, e continuada com as tradicionais ceias dos estudantes mais velhos. As raparigas não tinham essa liberdade e nós, rapazes mais novos, na pré-adolescência, iríamos esperar que chegasse a nossa vez de homenagear, dessa forma, os heróis da restauração. No desconforto e no frio de uma garagem, de um armazém ou de um qualquer barracão, estes estudantes, muitos deles a experimentarem a primeira noite fora de casa, comiam e bebiam, dando largas à irreverência própria da sua condição de adolescentes libertos das balizas da escola e da família. Tocados, uns mais, outros menos, pelo efeito do álcool, a que não estavam habituados, acabavam por sair para a rua em grupos, cantando, correndo e gritando “efe-erre-ás”, enchendo a madrugada de animação para uns e de desassossego para outros.

Nessa noite a vigilância policial estava avisada, não para os reprimir, mas sim para os controlar e minimizar os excessos, que sempre havia. Ao nascer do dia, roucos de tanto gritarem, reuniam-se no Liceu, de onde saíam com a Tuna Académica [1], dando cumprimento à tradicional alvorada, percorrendo a cidade, tocando e cantando o Hino da Restauração e o do Liceu, e soltando mais e sempre mais “efe-erre-ás”, lançando capas ao ar. A primeira paragem era na rua do Conde da Serra, frente à casa do Reitor.

Da janela do 1,º andar, em roupão, o Dr. Gromicho ouvia os dois hinos em posição de respeito e, depois, acenando os braços, sorria aos “efe-erre-ás”, que eu também gritei quando chegou a minha vez. Nessas manhãs ele fechava os olhos à irreverência dos seu pupilos que, àquela hora, mais mortos do que vivos, curtiam a ressaca, caídos de sono.

Naquele tempo um Reitor de liceu tinha de ser um homem da confiança do regime e o Dr. Gromicho era-o, não só como membro da União Nacional, mas também, como deputado à Assembleia Nacional, de partido único. Não obstante este comprometimento político, o nosso Reitor sempre apoiou o uso da tradicional capa e batina [2], fazendo orelhas moucas às directrizes, vindas de Lisboa, no sentido de incrementar o uso da farda da Mocidade Portuguesa. - Quem tem capa, sempre escapa - dizíamos, repetindo uma frase corrente nessa época, e era assim, de negro, como os corvos, que nos movimentávamos em qualquer ambiente, desde jogar à bola, capa e batina no chão, fraldas de fora e meio empoeirados, à presença nos salões, onde a gala ditava as vestes e a compostura.

O Corvo”, jornal do Liceu de Évora
Depois do almoço do dia 1, refeitas as energias, tínhamos a Tarde Desportiva no campo de jogos do liceu. O professor Mariano, atlético e de voz bem timbrada, conduzia a exibição e as evoluções das suas classes de ginástica, ensaiadas à perfeição. Mas o melhor da festa eram as competições de voleibol e basquetebol, nas quais os nossos colegas mais crescidos defrontavam as habituais turmas adversárias, quase sempre as da Escola Comercial e Industrial Gabriel Pereira [3]. Nessa tarde distribuía-se “O Corvo” em edição especial da efeméride e em cuja feitura participavam professores e alunos. Semelhante a qualquer um dos muitos que sempre se fizeram e fazem no seio das escolas, “O Corvo” com a figura da ave, de capa e batina, na primeira página, era o nosso jornal e o jornal do 1º de Dezembro [4].

À noite tinha lugar a récita, por tradição no Teatro Garcia de Resende e, anos mais tarde, no grande salão do ginásio, depois deste novo edifício ter vindo ampliar as instalações do liceu. Preparada e ensaiada ao longo dos meses de Outubro e Novembro, a récita incluía actuações da Tuna e do Orfeão Académico, uma pequena peça de teatro, via de regra, uma comédia em um acto, e um espectáculo de variedades com recitação de poesias, canções a solo, a dois ou a três, danças e cantares do folclore nacional, sob a direcção, nesse tempo, da dona Maria do Carmo, senhora de volumosa estatura, mas com artes de pôr a cantar os mais desafinados.

Num camarote central, em lugar de destaque, o Reitor assistia à totalidade da récita, ladeado por alguns professores. A dona Maria do Carmo e o senhor Gasparinho, o ensaiador da peça de teatro, permaneciam nos bastidores, dando as últimas instruções e fazendo recomendações. A começar, sempre com atraso, as luzes esmoreciam, e um aluno dos mais antigos, iluminado por um círculo de luz, vinha à boca de cena, dizia umas breves palavras de apresentação e de cumprimentos, findas as quais o pano subia, lentamente, abrindo o palco ao público, com a Tuna Académica já perfilada. E ali estava eu, o mais pequeno do grupo, vestido de capa e batina feitas à medida pela minha mãe, de pandeireta na mão, repleta de fitas, caídas até ao chão. Aos primeiros acordes do Hino do Liceu, as fitas, brilhantes de seda e de todas as cores, esvoaçavam entre cotovelo, mão, cabeça, joelhos e bicos dos pés, marcando o ritmo. A seguir ouviam-se os hinos da Restauração e do Liceu e, por último, os “efe-erre-ás”, particularmente sonoros, lá em cima, nos “galinheiros” [5], em gritos que enchiam e quase deitavam abaixo a sala. A programação ia-se cumprindo, sempre prolongada noite adentro, com pausas intermináveis para mudar cenários, alegradas por animadores de ocasião, dizendo versos, contando anedotas e sempre, sempre, pedindo compreensão para os atrasos. Nestas idades, o maior gozo era prolongar o serão o mais possível e, tanto o Reitor como os nossos pais, que ali estavam como espectadores, sabiam que assim era.

No último intervalo, altas horas, uma comissão de alunos, à semelhança do que sempre se fizera e sabendo antecipadamente a resposta, dirigia-se respeitosamente ao Reitor, solicitando-lhe tolerância de ponto para as aulas da manhã que começariam daí a meia dúzia de horas. De seguida, com expressões nos gestos e nos olhares que confirmavam o que todos já esperávamos, subiam ao palco e anunciavam:
- Amanhã não há aulas da parte da manhã!
- Viva o senhor Reitor! Viva!
- Viva o 1º de Dezembro! Viva!
- Efe-erre-á! Fra!, Efe-erre-é! Fré!...”

Notas:
[1] Fundada no 1.º de Dezembro de 1902.
[2] Um privilégio radicado na tradição de uma imposição aos alunos deste liceu, por Portaria do Ministério do Reino, de 27 de Outubro de 1860, ao tempo de D. Pedro V. Até então este traje académico fora exclusivo dos estudantes da Universidade de Coimbra.
[3] Gabriel Victor do Monte Pereira, historiógrafo nascido em Évora em 1847.
[4] O primeiro número de “O Corvo” surgiu no dia 1 de Dezembro de 1921.
[5] Nome que se dava aos lugares mais baratos, por cima dos camarotes mais altos, frequentados pelos espectadores de menores posses.

A. Galopim de Carvalho

Manuel Acuña (1849-1873)


Estudante de medicina e um dos maiores poetas do méxico, Manuel Acuña deitou por terra a tese de que “é difícil escrever poemas de amor”. Nocturno a Rosario, um dos seus poemas mais conhecidos, é de uma simplicidade arrebatadora.
Rosario de la Peña foi a musa de Acuña (de Manuel María Flores, que lhe escreveu um belo soneto com o título A Rosario, e de José Martí); a violenta paixão conduziu o poeta ao suicídio, com cianureto de potássio. Quando morreu as lágrimas corriam pelo seu rosto cadavérico, segundo reza a lenda.



Elegia a Rosario
Bem, eu preciso dizer que te amo,dizer que te quero com todo o coração;que é muito o que sofro,que é muito o que choro,que não vou demorar muito,
e o teu grito imploro imploro  e falo em nome da minha última ilusão.
À noite, quando deito as minhas têmporas na almofada,e para outro mundo quero voltar o meu espírito,caminho muito, muito,e no fim do dia as formas de minha mãe perdem-se no nada,e tu apareces de novo na minha alma.
Eu entendo que os teus beijos nunca hão de ser meus;eu entendo que em teus olhos não me devo ver mais;e amo-te, e em meus loucos e ardentes desvarios bendigo o teu desprezo,amo os teus desvios,e em vez de te amar menos quero-te muito mais.
Às vezes penso em te dar minha despedida eterna delir-te das minhas memórias e fugir desta paixão;mas se é tudo em vão e minha alma não te esquece,que queres que eu faça grão da minha vida;o que queres que eu faça com este meu coração!;e depois que seria de mim?
Concluído o santuário,a lâmpada acesa vela-te sobre o altar,o sol da manhã atrás do  campanário,espumando as tochas,vaporizando o incensário,e aberta ao horizonte a porta da casa ...
Quero que tu saibas que há muitos dias que estou enfermo e pálido de tão pouco dormir;que já morreram todas as minhas esperanças;que as minhas noites são negras,tão negras e sombrias que já nem sei de onde vinha o futuro.
Que feliz teria sido viver sob o mesmo teto.
Os dois unidos para sempre
e amarmo-nos os dois;tu sempre apaixonada,eu sempre satisfeito,os dois, uma só alma,os dois,  um só coração,e no meio de nós a minha mãe como um Deus!
Imagina que formoso seria o nosso tempo!
Que doce e bela viagem por uma terra assim!
Eu só sonhava com isso,minha santa prometida,e ao delirar com isso com a alma inquieta,pensava em ser bom para ti, não só para ti.
Deus sabe bem que isso era o meu sonho mais belo,o meu anelo e a minha esperança,a minha felicidade  e o meu prazer;Deus sabe bem que não cifrava o meu labor,senão em te amar muito na casa risonha que me cobriu com beijos quando eu nasci!
Essa era a minha esperança...mas desde que os seus fulgores se opõem ao profundo abismo que há entre nós os dois,adeus pela última vez amor da minha vida!;luz das minhas trevas,olor das minhas flores,meu olhar de poeta,minha juventude, adeus!
Nota: a tradução não respeitou a métrica da elegia.

APRESENTAÇÃO DO LIVRO PSEUDOCIÊNCIA NO PAVILHÃO DO CONHECIMENTO

CONTINUE-SE COM A PLATAFORMIZAÇÃO DOS EXAMES NACIONAIS

Foi publicado o Relatório da Inspecção-Geral da Educação e Ciência, com o extenso título Averiguações às irregularidades dos Exames Nacionai...