domingo, 8 de dezembro de 2013

Lapis phylosophorum

Grafite
No seguimento da sua fixação numa nomenclatura binomial e em latim, o grande naturalista sueco Carlos Lineu (1707-1778), a meados do século XVIII, deu o nome de Lapis philosophorum à grafite, com base no facto de, então, este mineral ser a “pedra” (lapis, em latim) com a qual se podia escrever num suporte macio e porque escrever era prática de estudiosos, ou seja, de filósofos.

Um outro nome da grafite foi “mica dos pintores”, em alusão ao seu aspecto lamelar e por deixar traço negro e fácil sobre o papel. Repare-se que o nome desta espécie no léxico mineralógico actual reflecte a última destas características, contida no elemento grego graph, que traduz o acto de escrever.

Numa época em que se não distinguiam as rochas dos minerais, tudo era pedra. É por isso que ainda hoje se fala de pedra-mármore, uma rocha de todos conhecida, e de pedra-hume, um mineral (sulfato duplo de alumínio e potássio) de uso corrente pelo seu carácter adstringente e cicatrizante.

Foi neste contexto que surgiram os nomes lápis, para designar o objecto com que escrevemos e desenhamos, e mina, para o estilete de grafite no seu interior. Lápis e mina duas palavras que radicam no referido contexto. Com efeito, no passado, a palavra mina era usada como sinónimo de minério e a grafite era já então explorada com tal. No que se refere à palavra lápis, disse-se atrás que, na origem latina, significava pedra e que qualquer mineral era referido como tal.

Porque a macieza ao tacto, a cor negra e o brilho metálico da grafite a confundiam com a molibdenite, então referida por molybdaena, e porque nesse tempo não se distinguia o molibdénio do chumbo (plumbo, em latim) também se lhe chamou “plumbagina” e “chumbo negro”. Com a mesma composição química do diamante e como ele, um polimorfo de carbono nativo, a grafite é um bom condutor do calor e da electricidade e uma das substâncias de mais baixa dureza, à semelhança do talco (silicato de magnésio hidratado) e da molibdenite (sulfureto de molibdénio). A grande diferença que a separa do diamante, a mais dura conhecida, reside no modo de arrumo dos átomos de carbono.

Se dermos o nome de grafeno a uma estrutura planar na qual os átomos de carbono estão fortemente unidos (ligação covalente), constituindo folhas em que cada átomo (através de três dos seus quatro electrões) se liga a três outros, formando hexágonos, a estrutura grafite define-se como sendo um empilhamento de folhas de grafeno unidas por uma ligação muito fraca (ligação de van der Waals) a uma distância de 3,35 Angströms.

Com largas aplicações na metalurgia do ferro, nas indústrias dos lápis (misturada com argila), dos lubrificantes (o pó da grafite é usado a seco), dos refractários, das tintas, das borrachas e na electrónica, parte da grafite que se explora de entre as rochas, no subsolo, já foi hulha ou antracite e, centenas de milhões de anos antes, madeira de árvores das florestas de então.

A primeira mina de grafite foi descoberta na Baviera, no início do século XV. Cem anos depois, idêntica descoberta teve lugar em Cumberland, na Inglaterra, mas só no final do século XVIII se soube a sua verdadeira natureza química, em resultado do trabalho do químico sueco Karl Wilhelm Scheele (1742-1786). Em 1761, o alemão Kaspar Faber deu início à produção de lápis, em Stein, próximo de Nuremberga. Um seu bisneto, Lothar von Faber, modernizou a produção a partir de 1839. Passou, então a ser possível fabricar lápis com graus de dureza, através da mistura de argila com grafite.

Oriunda da região de Irkutsk, na Sibéria, a grafite usada pela fábrica Faber era localmente referida por “ouro negro” e transportada no dorso de renas até ao porto de onde saía, em navios, para os seus destinos. A indústria dispõe hoje de grafite produzida industrialmente, a temperatura e pressão elevadas, a partir de coque, de petróleo ou de antracite.

A. Galopim de Carvalho

sábado, 7 de dezembro de 2013

DISCURSO DE TOMADA DE POSSE DO REITOR DA UNIVERSIDADE DO MINHO


Meu artigo de opinião saído no "PÚBLICO" do dia de ontem:
“Há meses uma cidade do Norte de Portugal reclamava um instituto ‘universitário’. Por amor da ciência e da instrução? Não, porque já possuía um instituto ‘técnico’. O que realmente se reclamava era a mudança de uma palavra: que o ‘técnico’ passasse a chamar-se ‘universitário’, com os mesmos cursos, programas e mestres” (António José Saraiva, “Diário de Notícias”, 31/08/1979).
O discurso de tomada de posse de António Cunha, como reitor da Universidade do Minho (18 do mês passado), e o corte de relações com o Governo do Conselho de Reitores das Universidades Portuguesas, logo no dia a seguir, por razões de financiamento das universidades e reestruturação da rede de ensino superior, agudizaram o clima de instabilidade vivido  pelo ensino universitário público. O que me não parece desligado do facto de haver um ensino superior pouco dual e de difícil orçamentação pelo seu crescimento exponencial e nebulosa situação legislativa.

Mas voltando à notícia supracitada, pode ela cair no poço sem fundo do esquecimento, como o acontecido em outras ocasiões. Assim, o Conselho de Reitores das Universidades Públicas em debate por si promovido,  “Repensar o Ensino Superior” (1996), tentou, sem êxito e em síntese, evitar que o politécnico  imitasse o universitário pela possibilidade de reconversão das escolas superiores de educação em centros de formação contínua dos docentes do ensino não superior ou em escolas com outra vocação. Recorde-se, a propósito, que as escolas superiores de educação foram criadas para ministrarem apenas formação a futuros professores do 1.º ciclo do básico (antigo ensino primário) e educadores de infância, anteriormente diplomados pelo então chamado ensino médio. Hoje, quase se pode dizer que se transformaram em “universidadezinhas” paroquiais que ministram conhecimentos de tudo e de nada.

Escrevi num meu artigo de opinião, nesse mesmo ano de 1996: “Segundo números emanados do Ministério da Educação, eram de 82%  e de 75% as percentagens de licenciados universitários com destino à docência, respectivamente, em Letras e Ciências”. E mais acrescentei: “Muitos licenciados em História, Estudos Portugueses, Francês, Filosofia, por exemplo, com destino à docência, embora profissionalizados, já hoje não são colocados em concursos nacionais para professores” (“Jornal de Notícias”, 20/11/1996).

Hoje esta situação muito se agravou para desespero do caudal imenso de professores profissionalizados que não encontram colocação em concursos nacionais, porquanto as faculdades e as escolas superiores de educação, não tendo em atenção a lei da oferta e da procura, abriram as comportas de saída de diplomados com destino ao ensino sem a possibilidade de um lugar que lhes garanta o sustento do pão de cada dia com o suor de rostos macerados pelo desespero da desesperança.

Por na recente cerimónia de recondução do reitor da Universidade do Minho, ter havido referência, devidamente empolada, à escassez das dotações para as universidades públicas, se eu assumisse, porventura, a personagem do Dr. Watson perguntando a  Sherlock Holmes  o móbil de tal  “crime” obteria, provavelmente,  como resposta: “Elementar meu caro Watson!”

E, assim, compreenderia a finalidade do empobrecimento progressivo e acelerado do ensino universitário oficial com consequência evidente da sua perda de prestígio para  poderem ser  tecidas loas de louvor ao ensino universitário privado com a premeditada intenção de virem a ser assinados contratos de associação com o Estado, a exemplo de convenções com  colégios privados. Aliás, um velho sonho do ensino universitário privado que se poderá tornar em realidade numa sociedade em que, segundo João Lobo Antunes, “a  mediocridade é a lei”.

E isto numa época de decréscimo vertiginoso da população escolar e em que no antigo Liceu de Camões, em Lisboa, de grande e cimentado prestígio nacional, a respectiva direcção teve que recorrer a espectáculos no Coliseu dos Recreios para angariar cêntimos para evitar a degradação total de paredes vetustas. Em contraste escandaloso, em tempos de governação do Partido Socialista, foram feitas obras faraónicas em escolas básicas e secundárias de bem menor, ou quase nenhuma, tradição.

Em consequência, ainda que tenha de gritar “até que a voz me doa”, assumo a recusa em comungar do desalento de Fernando Pessoa: “Já não me importo/ Até com o que amo ou creio amar./ Sou um navio que chegou a um porto/ E cujo movimento é ali estar."

Aposentado, como tal, sem interesses de benefícios pessoais, parafraseando o poeta de “Orpheu”, não quero ser um navio ancorado num porto de abrigo sem fazer ondas!

"O que nos molda verdadeiramente o carácter é a educação"

Nelson Mandela sobre a sua (primeira) educação formal.

"Acredito que, mais do que a origem biológica, 
o que nos molda verdadeiramente o carácter é a educação."

"Tanto o meu pai como outros chefes influentes nutriam imenso respeito pela educação formal, como é frequente entre aqueles que nunca a receberam (...).

À semelhança de todas as crianças xossas, adquiri conhecimentos sobretudo através da observação. Esperava-se que aprendêssemos por via da imitação e da emulação e não das perguntas. Da primeira vez que estive em casa de brancos fiquei espantado com o número de perguntas que as crianças faziam aos pais e com a disponibilidade destes para lhes responder. Na nossa casa, as perguntas eram um incómodo e os adultos transmitiam só as informações que consideravam necessárias (...)

Um dia George Mbekela foi visitar a minha mãe. – O teu rapaz é esperto – disse ele. – Devia frequentar a escola. A minha mãe não respondeu. Na família nunca ninguém tinha ido à escola e ela não estava preparada para a sugestão de Mbekela. Mas falou no assunto ao meu pai, o qual, apesar da sua falta de educação formal – ou talvez por causa dela –, resolveu de imediato que o filho devia frequentar a escola.

Esta era um edifício composto por uma única sala, com um telhado à maneira ocidental, que ficava do outro lado da colina, em relação a Qunu. Eu tinha sete anos e no dia anterior ao começo das aulas o meu pai puxou‑me à parte e disse que eu tinha de ir decentemente vestido para a escola. Até então, e à semelhança de todos os garotos de Qunu, sempre tinha usado uma manta enrolada à volta do ombro e apertada na cintura. O meu pai pegou num par de calças suas e cortou‑as por altura do joelho. Mandou-me que as vestisse e o comprimento estava mais ou menos bom; o pior era a cintura, demasiado larga. O meu pai pegou então num cordel e cingiu-me as calças. A minha figura devia dar vontade de rir, mas nunca tive um fato que me orgulhasse mais de vestir do que aquelas calças cortadas pelo meu pai.

No primeiro dia de aulas, a professora, a menina Mdingane, atribuiu a cada um de nós um nome cristão e disse que daí em diante seria por esse nome que teríamos de responder sempre que estivéssemos na escola (...). A educação que recebi foi à maneira inglesa e tanto as ideias como a cultura e as instituições britânicas eram naturalmente consideradas superiores. A cultura africana era uma coisa que não existia."

In Um longo caminho para a liberdade. Planeta, 2012, pp.19-24.

O CASO MIGUEL RELVAS AINDA MEXE

“Quem o alheio veste na praça o despe” –  ditado popular.

Hoje dia 7 de Dezembro, acabo de ter conhecimento, através do semanário “EXPRESSO”, de uma petição do Ministério Público para que seja anulado o”título académico” de Miguel Relvas pelo facto de estar em causa a equivalência de disciplinas inexistentes no ano  da respectiva inscrição. Um breve reparo: título académico ou grau académico? Ou seja (“honny soit qui mal y pense!”), ao título profissional de engenheiro é exigido o grau académico de licenciado (hoje de mestre) em Engenharia.

Da pena de Victor Hugo: “O direito é a justiça e a verdade”! Num país em que  prescrevem crimes pelo atraso da Justiça em os resolver , é sempre um bálsamo para a alma ver o Ministério Público tirar a venda que tolhe a visão da Justiça na procura da verdade dos factos. 

Ontem, dia 6 de Dezembro, numa das minhas resposta a um comentário ínsito no meu “post”, “A Universidade Actual e o Espírito de Tempos Idos” (05/12/2013), escrevi:

Embora eu não aprecie gastar cera com ruins defuntos não posso de deixar de o fazer, como vacina, para evitar novos Miguéis Relvas ou Sócrates que, ao contrário do grego da Antiguidade, não sabe que nada sabe! Mas foi capaz de saber que Paris é a Cidade das Luzes, uma espécie de elixir de sabedoria, ainda que, por vezes, em propaganda enganosa!”

Mal sabia eu que o caso Miguel Relvas era um defunto que viria a ressuscitar no dia seguinte, dando razão à sabedoria popular”: “Quem o alheio veste na praça o despe”!

Como é sabido, há gatos com sete foles. Não antecipemos, portanto, o final do folhetim do caso Miguel Relvas que já fez correr tanta tinta negra. Mas  uma coisa é clara como água a jorrar de fonte límpida: dos andrajos da vergonha a necessitar de serem substituídos por um traje moral não se livra ele, desde já!

sexta-feira, 6 de dezembro de 2013

“MUDAM-SE OS TEMPOS, MUDAM-SE AS VONTADES”



Morreu, aos 95 anos, Madiba, assim lhe chamavam, carinhosa e afectivamente, os que o admiraram, respeitaram e amaram.

Estamos de luto, de verdade, todos os que puderam conhecer a vida e a obra desta figura ímpar, bondosa, tolerante, sorridente e bonita, moral e fisicamente.

No dia 11 de Junho de 2008, o deputado António Filipe, do PCP, numa intervenção no Parlamento, por altura da comemoração do 90.º aniversário de Mandela, disse para os que não sabiam e lembrou aos interessados em fazer esquecer que, em 1987, há pouco mais de um quarto de século, a Assembleia Geral das Nações Unidas aprovou, com 129 votos, um apelo para a libertação incondicional de Nelson Mandela, e que os três países que votaram contra foram os Estados Unidos da América, de Ronald Reagan, a Grã-Bretanha, de Margaret Thatcher, e Portugal, de Cavaco Silva, na altura Primeiro Ministro.

No site da Presidência da República, datada de 5 de Dezembro de 2013, pode ler-se a mensagem de condolências enviada pelo Senhor Professor Cavaco Silva ao seu homologo Jacob Zuma pela morte de Nelson Mandela, que aponta como “figura maior da África do Sul e da História mundial”.

Nesta mensagem, o Professor afirma que “Nelson Mandela deixa um extraordinário legado de universalidade que perdurará por gerações”. Realça “O seu exemplo de coragem política, a sua estatura moral e a confiança que depositava na capacidade de reconciliação constituem verdadeiras lições de humanidade”. E acrescenta, lembrando que “A dedicação de Nelson Mandela aos valores da democracia, da liberdade e da igualdade invadiu os corações de todos quantos o admiram, na África do Sul ou em outro lugar, incutindo esperança, mesmo diante dos desafios mais difíceis”.

O Professor afirma, ainda, que “A atribuição do Prémio Nobel da Paz a Nelson Mandela e a sua eleição massiva para a mais elevada Magistratura da África do Sul simbolizaram o merecido reconhecimento de um político de causas e uma vitória para os Direitos Humanos no mundo”.

Nesta dualidade de posições, flagrantemente antagónicas, duas conclusões se poderão tirar: ou o nosso Presidente mudou radicalmente de opinião ou as palavras que agora subscreve são pura hipocrisia.

A. Galopim de Carvalho

quinta-feira, 5 de dezembro de 2013

A Universidade Actual e o Espírito de Tempos Idos

"Não pode exigir-se que haja um Dante em cada paróquia e exigir que os Voltaires nasçam com a profusão dos tortulhos” (Eça de Queiroz, 1845-1900).

Do comentário ao meu postUma Posição Pessoal Sobre a Prova de Acesso à Docência” (28/11/2013), subscrito por Pedro Miguel Santos e lido por mim com atenção e proveito, retenho e relevo o seguinte naco de prosa que reproduzo por considerar ser uma perspectiva a ter em devida conta por comungar do desalento de ambos por uma certa  “modernice” que paira sobre os claustros universitários. Escreveu este comentador: “As universidades portuguesas e os seus académicos deviam abraçar de novo o espírito de tempos idos”.
Desse corte com “o espírito de tempos idos” que, pesar de tudo, o não tenho como generalizado, embora, por vezes, possa haver uma certa, ou muita dose, de apatia na defesa de  uma tradição medieva e seus legítimos interesses, exceptuo os académicos (referenciados no meu post supracitado) Cristina Robalo Cordeiro e Reis Torgal, ambos  da mais antiga universidade portuguesa. De outros exemplos dou agora notícia sem qualquer ordem cronológica, correndo, ainda, o risco de omissão involuntária de outras personalidades ilustres da vida académica nacional. Mas  penso estar isento de pena grave  por “crime” não premeditado. São estes os outros exemplos:

Maria Filomena Mónica quando reclama um ensino universitário de qualidade: “Pela sua natureza, a universidade é uma instituição que deve ser frequentada pela aristocracia intelectual, que tem como vocação a universalidade e que deve adoptar como critério a exigência”.

Carlos Reis, num “Forum de Jornalistas”, disse:” Para a Universidade sou adepto de um modelo exigente e eltista”.

Vasco Pulido Valente, denunciou, no “Público”, o seu desalento por “um ensino, em particular um ensino superior, ineficiente e caótico e, além disso, irreformável”.

Vital Moreira não se acanhou em escreveu: “A ideia de democratizar o ensino superior pela via da banalização do acesso e pela crescente degradação da sua qualidade não é somente um crime contra a própria ideia de ensino superior, é também politicamente pouco honesta”.

Adriano Moreira havido como um dos senadores da vida política nacional, no Seminário “Reflexos da Declaração de Bolonha” (Coimbra, 12 e 13 de Novembro/2004), pôs o dedo na pústula da intenção clara em “universitar os politécnios ou politécnizar as universidades”.

Seabra Santos, ao tomar posse, pela primeira vez do cargo de Magnífico Reitor da Universidade de Coimbra, criticou a promiscuidade entre o ensino universitário e o ensino politécnico “porque concorrenciais entre si na formação de professores e engenheiros”.

Carlos Fiolhais, renomado académico de Física da Universidade de Coimbra, escreveu: "Além do ensino universitário há ainda o ensino politécnico, mas aí temos um problema de definição de objectivos, que deveriam ser distintos dos do ensino universitário”.

“Last but not least”, em final de vida, numa cerimónia académica, Aníbal Pinto de Castro, em minha recordação uma figura notável das Belas Letras em margens do Mondego, teve este grito de  revolta: “Não destruam. Não cedam. Não tenham medo porque a Universidade não pode ser uma instituição de caridade. Para isso há os asilo se a Mitra. Não pode ser um hospital de alienados”.
Entretanto, a acção dos reitores universitários, mereceu a crítica do sociólogo e académico de Lisboa, António Barreto: “No meio da agitação, com greves e manifestações, quase se não tem reparado no comportamento dos reitores das universidades, assim como dos dirigentes científicos das escolas. Com ressalva das excepções habituais, têm-se portado com toda a cobardia possível. Revelam duplicidade e esperam passar entre as gotas de água” (“Público”, 24/11/1996).
Porém, por eu ter tido conhecimento de bastidores que o “modus operandi”, de um modo geral, das equipas reitorais, em tempo de avanço belicoso e despropositado do ensino politécnico em investidas para ganhar terreno, era frouxo e pouco vísivel , na semana anterior à publicação deste artigo de António Barreto, por mim citado no parágrafo anterior, num meu esrito de opinião, tive como acto de justiça apresentar a seguinte excepção: “O Senado Universitário de Coimbra, em reunião de 6 de Novembro passado, não se exime de declarar que as proposta do Governo subverteriam a missão e objectivos dos Institutos Politécnicos e das Universidades e se traduziriam numa inaceitável degradação” (“Público”, 17/11/1996).

Hoje, numa altura em que se discute, uma vez mais, o rumo futuro dos dois subsistemas do Ensino Superior, o Governo e a Universidade, sem complexos de elitismo, como coisa má, perversa e anti-democrática, ganhariam em reflectir sobre este texto do sociólogo italiano Francesco Alberoni: “Na verdade a pedagogia que nivela tudo por baixo no intuito de esbater as diferenças tem como consequência tornar ignorantes milhões de pessoas e não privilegiar aqueles que podiam ir para a universidade e para escolas de excelência com professores respeitados e programas rigorosos; é por esta razão que há cada vez mais pessoas a quererem uma escola mais sério, mais rigorosos, com professores preparados e mais respeitados”.
Esta oportunidade (que seria muito grave desperdiçá-la por ficar tudo, ou quase tudo, na mesma em jeito bem português!) representa uma ocasião soberana para o rufar de tambores de quem se mostra disposto a defender princípios seculares da Cultura e do Conhecimento Científico e o toque de clarim de revolta de homens sábios perante um clima de desastre que corre o risco de criar raízes nos claustros universitários, aberrantemente,  em duvidosa promiscuidade com o ensino politécnico. Um ensino politécnico incapaz de criar um “corpus” próprio, tão-só, em pretendida clonagem de graus académicos universitários espreitando, para além de outorgarem já licenciaturas e mestrados, uma qualquer oportunidade, ou mera distracção do poder político, para se arrogarem ao “direito” de atribuírem doutoramentos, até aqui da exclusiva atribuição  por parte da Universidade.

Seja exigido, portanto, como coisa boa e justa, a excelência do Ensino Superior e seus dois subsistemas - universitário e politécnico - dentro de limites devidamente tipificados, sem qualquer resignação da dignidade e finalidade de ambos, mas sem permitir, “à outrance”, intromissões de foices politécnicas  em seara alheia universitária pela defesa, em reduto inexpugnável, do princípio  estabelecido pelo direito da Roma Antiga: “Suum cuique tribuere”. Ou seja, dar a cada um o que é seu!
Entretanto, recue o leitor comigo a décadas passadas. O objectivo inicial da criação das Escolas Superiores de Educação foi a elevação formativa dos professores do antigo ensino primário que se fazia, com muita seriedade e dignidade, nas antigas Escolas do Magistério Primário. Assim, passou  esse objectivo a ser cumprido no chamado ensino politécnico com a atribuição apenas de bacharelatos. Mas logo daí se partiu, por pressão sindical e  dos  seus directos interessados, para a formação de professores do 2.º ciclo, a nível de licenciatura, e a pretensão de chegar à formação de professores do 3.º ciclo do básico e até secundário, acrescentando a essa  formação novos  cursos, alguns deles em espaços ocupados habitualmente por escolas universitárias. Ou seja, assistiu-se ao aparecimento de universidades de segunda classe pelo desapareimento de um ensino politécnico de primeira classe.

É este, em muitos casos, o actual panorama de um ensino superior promíscuo, criticado severamente  por um antigo secretário de Estado do Ensino Superior e Investigação Científica, António Brotas: “Tem que se acabar com algumas coisas. Uma é acabar com a sagrada mania da uniformidade”. E exemplifica com o caso seguinte: “No Técnico há 120 doutores em Química. As escolas superiores de educação, que têm zero doutores em Química, arrogam-se ao direito de formar docentes em Química. É isto. Um absurdo!” Ou seja, uma pretensão megalómana que Eça, em farpas desferidas sobre o cachaço taurino dos usos e costumes da vida social do seu tempo, teria hoje, e passo a citá-lo, como “a igualdade do insignificante e do medíocre”! 

Do passado do ensino universitário e politécnico privados, estamos todos recordados de escândalos públicos recentes Mas o que esperar do futuro dos dois subsistemas oficiais do Ensino Superior? E aqui, porque a rir se criticam os costumes, remeto o leitor para Mark Twain: “A profecia é algo muito difícil, especialmente em relação ao futuro”!

quarta-feira, 4 de dezembro de 2013

Vivemos numa democracia

O Parlamento inglês chamou  Alan Rusbridger, director do jornal The Guardian, a depor com base no argumento de que as notícias que permitiu que se publicassem sobre o caso Snowden comprometiam a defesa nacional. Prestei atenção quando, no telejornal, ouvi a pergunta:
"Ama este país?"
A resposta - conferi-a na internet - foi a seguinte:
"Vivemos numa democracia. A maioria das pessoas a trabalhar nesta história são britânicas patriotas, que têm famílias neste país, que amam este país. Estou ligeiramente surpreendido surpreendido que me façam a pergunta, mas sim, somos patriotas e uma das razões do nosso patriotismo é a natureza da democracia e a natureza da nossa imprensa livre e o facto de, neste país, poder discutir-se e noticiar-se estas coisas."
Em tempos estranhos, é (quase) estranho ouvir alguém fazer sobressair o valor Verdade e da Liberdade.

terça-feira, 3 de dezembro de 2013

NUNO SANTOS FALA DE "OUTRAS TERRAS NO UNIVERSO"


O INÍCIO DO INFINITO


Deixo aqui um excerto do Cap. 3 de um grande livro que acaba de sair na Gradiva na colecção "Ciência Aberta": "O Início do Infinito", de David Deutsch. Recomendo: é uma leitura imprescindível para se perceber o poder da ciência, o seu impacte na filosofia  e a confiança no futuro que ela nos pode transmitir.

"Muitas das referências antigas à realidade para além das nossas experiências quotidianas não só eram falsas como se revestiam de um carácter radicalmente diferente das modernas: eram antropocêntricas. Ou seja, centravam‑se nos seres humanos e, num sentido mais amplo, nas pessoas — entidades com intenções e pensamentos de dimensão humana, que incluíam indivíduos poderosos e sobrenaturais, como espíritos ou deuses. Por isso o Inverno podia ser atribuído à tristeza de alguém, as colheitas à generosidade, os desastres naturais à raiva, e assim sucessivamente. Tais explicações envolviam muitas vezes criaturas de importância cósmica preocupadas com o que os seres humanos faziam e com intenções em relação a elas. Concomitantemente, os seres humanos adquiriam também relevância cósmica. Por fim a teoria geocêntrica colocou igualmente o ser humano no centro físico do universo. Esses dois tipos de antropocentrismo — explicativo e geométrico — tornaram‑se reciprocamente mais plausíveis, e por isso o pensamento pré‑iluminista era mais antropocêntrico do que podemos imaginar hoje.

 Uma das excepções assinaláveis foi a ciência da geometria, em especial o sistema desenvolvido pelo matemático grego antigo Euclides. Os elegantes axiomas e modos de raciocínio sobre entidades impessoais como pontos e linhas seriam mais tarde uma inspiração para muitos dos pioneiros do iluminismo. Até lá, a geometria teve pouco impacto nas visões prevalecentes do mundo. A título de exemplo, grande parte dos astrónomos eram também astrólogos: apesar de usarem geometria sofisticada no seu trabalho, acreditavam que as estrelas prediziam acontecimentos políticos e pessoais na Terra.

 Numa altura em que ainda nada se sabia sobre o funcionamento do mundo, tentar explicar fenómenos físicos através de pensamentos e acções com intenções e dimensão humana poderá ter sido uma abordagem razoável. Afinal é assim que ainda hoje explicamos muitas das nossas experiências diárias: se uma jóia desapareceu misteriosamente de um cofre, procuramos explicações a nível humano, como erro ou roubo (ou, em determinadas circunstâncias, magia), e não novas leis da física. Mas essa abordagem antropocêntrica nunca produziu boas explicações que ultrapassassem o domínio das lides humanas. Em relação ao mundo físico, no sentido lato, foi um erro colossal. Sabemos agora que os padrões das estrelas e dos planetas no céu nocturno não interferem na vida dos seres humanos. Sabemos que não estamos no centro do universo — este não possui sequer um centro geométrico. E sabemos que, embora os titânicos fenómenos astrofísicos descritos no capítulo anterior tenham desempenhado um papel significativo no passado, nunca tivemos qualquer importância nesses mesmos fenómenos. Um fenómeno é significativo (ou fundamental) se, como os átomos e as estrelas, tiver um papel crucial na explicação de muitos outros fenómenos; diria portanto que os seres humanos e os seus desejos e acções são extremamente insignificantes no universo em geral.

 As concepções antropocêntricas erradas têm sido derrubadas em todas as áreas fundamentais da ciência: o nosso conhecimento de física é agora totalmente expresso com base em entidades tão impessoais como os pontos e as  linhas de Euclides, ou seja, partículas elementares, forças e espaço‑tempo — um contínuo de quatro dimensões, com três dimensões de espaço e uma de tempo. Os seus efeitos recíprocos não são explicados com sentimentos ou intenções, mas usando equações matemáticas que expressam leis da natureza. Em biologia, por exemplo, pensava‑se que os seres vivos tinham sido criados por um ser sobrenatural e que continham obrigatoriamente um ingrediente especial, um «princípio vital», que os fazia comportar‑se como se tivessem um propósito. Mas a biologia descobriu novos modos de explicação usando coisas tão impessoais como reacções químicas, genes e a evolução. Por isso agora sabemos que todos os organismos vivos, incluindo os seres humanos, são constituídos pelos mesmos ingredientes que as pedras e as estrelas, obedecem à mesmas leis e não foram concebidos por ninguém. A ciência moderna, longe de explicar fenómenos físicos com base em pensamentos e intenções de pessoas não observadas, considera os nossos pensamentos e intenções agregados de processos físicos microscópicos não observados (mas observáveis) do nosso cérebro.

Este abandono das teorias antropocêntricas tem sido tão frutífero, e tão importante na ampla história das ideias, que o anti‑antropocentrismo tem sido aos poucos elevado ao estatuto de princípio universal, designado por vezes princípio da mediocridade: não há nada de significativo no que diz respeito aos seres humanos (no esquema cósmico das coisas). Como afirma o físico Stephen Hawking, os seres humanos não passam de «lixo químico na superfície de um planeta comum na órbita de uma estrela comum nos confins de uma galáxia comum». A ressalva «no esquema cósmico das coisas» é necessária, pois o lixo químico tem, como é evidente, uma relevância especial de  acordo com os valores que atribui a si próprio, como valores morais. Mas o princípio diz que todos esses valores são em si mesmos antropocêntricos: explicam apenas o comportamento do lixo, ele próprio insignificante. É fácil confundir idiossincrasias do nosso próprio ambiente ou perspectiva (como a rotação do céu nocturno) com características objectivas do que se está a observar, ou regras gerais (como a previsão do nascer diário do Sol) com leis universais. Referir‑me‑ei a esse tipo de erro como paroquialismo. 

Os erros antropocêntricos são exemplos dessa visão restrita, mas nem todo o paroquialismo é antropocêntrico. Ou seja, a previsão de que as estações ocorrem ao mesmo tempo em todo o mundo é um erro paroquial mas não antropocêntrico: não implica uma explicação das estações numa base humana. Outra das ideias influentes sobre a condição humana é a dramaticamente chamada nave espacial Terra. Imagine uma «nave geracional» — uma nave numa viagem tão longa que muitas gerações de passageiros passam aí as suas vidas. Este conceito foi proposto como meio de colonizar outros sistemas de estrelas. Na ideia da nave espacial Terra, essa nave geracional é uma metáfora da biosfera — o sistema de todos os organismos vivos na Terra e regiões que habitam. Os seus passageiros representam todos os seres humanos da Terra. No exterior da nave, o universo é implacavelmente hostil, mas o interior é um sistema de suporte de vida altamente complexo, capaz de prover todas as necessidades de sobrevivência dos passageiros. À semelhança da nave, a biosfera recicla todo o lixo e é auto‑suficiente, recorrendo à sua espaçosa central nuclear (o Sol). Do mesmo modo que o sistema de suporte de vida da nave é concebido para sustentar os seus passageiros, também a biosfera é «aparentemente concebida»: parece altamente adaptada para nos sustentar (afirma a metáfora) porque nós nos adaptámos a ela através da evolução. Mas a sua capacidade é finita: se a sobrecarregarmos, meramente com a nossa população ou adoptando estilos de vida muito diversos daqueles em que temos vivido (aqueles para os quais a biosfera foi «concebida»), ela vai esgotar‑se.

E tal como os passageiros da nave espacial não temos uma segunda oportunidade: se o nosso estilo de vida se tornar demasiado negligente ou perdulário e arruinarmos o nosso sistema de suporte de vida, não temos mais nenhum sítio para onde ir. A metáfora da nave espacial Terra e o princípio da mediocridade alcançaram uma grande aceitação entre as pessoas com espírito científico — ao ponto de se tornarem truísmos. Isto apesar de, dadas as circunstâncias, argumentarem em sentidos ligeiramente opostos: o princípio da mediocridade sublinha quão comuns são a Terra e o lixo químico (no sentido de não serem extraordinários), enquanto a nave espacial Terra salienta quão pouco comuns eles são (no sentido de serem adequados unicamente um para o outro). Quando se interpretam as duas ideias em sentido lato e numa perspectiva filosófica, o que em geral é o caso, elas facilmente convergem. Ambas se vêem a si próprias como correcções dos mesmos equívocos paroquiais, designadamente que a nossa experiência de vida na Terra é representativa do universo e que a Terra é vasta, fixa e permanente. Ambas apontam, em vez disso, o seu carácter diminuto e efémero. Ambas se opõem à arrogância: o princípio da mediocridade opõe‑se à arrogância pré‑iluminista da importância do homem no mundo; a metáfora da nave espacial Terra opõe‑se à arrogância iluminista de aspirar ao domínio do mundo. Ambas contêm um elemento moral: não devíamos considerar‑nos relevantes, dizem; não devíamos esperar que o mundo se submeta indefinidamente à nossa devastação. Desta forma, as duas ideias geram um enquadramento conceptual rico, capaz de informar toda uma visão do mundo. Contudo, como explicarei mais à frente, são ambas falsas, mesmo num sentido objectivo e factual. E num sentido mais amplo, são tão enganadoras que, se quiséssemos gravar numa rocha uma máxima válida e recitá‑la todas as manhãs antes do pequeno‑almoço, mais valia usar as negações destas concepções. Ou seja, a verdade é que as pessoas são importantes no esquema cósmico das coisas e a biosfera terrestre é incapaz de sustentar a vida humana.

Tomemos o comentário de Hawking de novo. É verdade que nos situamos num planeta comum (de alguma forma) de uma estrela comum numa galáxia comum. Mas estamos longe de ser como a matéria que existe no universo. Por um lado, julga‑se que cerca de 80 por cento dessa matéria é «matéria negra» invisível, que não emite nem absorve luz. Actualmente, detectamo‑la apenas através dos seus efeitos gravitacionais indirectos nas galáxias. Só os restantes 20 por cento são matéria do tipo a que restritamente chamamos «matéria comum». Caracteriza‑se por brilhar continuamente. Não costumamos pensar em nós como seres brilhantes, mas trata‑se de outra noção errada e paroquial, dadas as limitações dos nossos sentidos: emitimos radiação térmica, luz infravermelha, e ainda luz no domínio do visível, demasiado leve para ser detectada pelos nossos olhos. As concentrações de matéria tão densas como nós, o nosso planeta e a nossa estrela, embora numerosas, também não são propriamente comuns. São fenómenos isolados e invulgares. O universo é maioritariamente vácuo (e radiação e matéria negra). A matéria comum é‑nos familiar apenas porque é aquilo de que somos feitos, e por causa da nossa proximidade pouco comum com grandes concentrações desta.

 Adicionalmente, somos uma forma pouco comum de matéria comum. A mais comum é o plasma (átomos dissociados nos seus componentes com carga eléctrica), que emite normalmente luz clara e visível, pois existe nas estrelas, que são bastante quentes. Nós, lixo, somos basicamente emissores de infravermelhos, já que contemos líquidos e químicos complexos que só podem existir a temperaturas muito mais baixas.(...)"

David Deutsch

Literatura e Ensino do Português

Prefácio da autoria de Carlos Fiolhais a "Literatura e Ensino do Português",, de José Cardoso Bernardes e Rui Mateus, que acaba de sair na Fundação Francisco Manuel dos Santos: 

A Fundação Francisco Manuel dos Santos tem como principal objectivo conhecer melhor a realidade portuguesa, nos seus múltiplos aspectos, com liberdade e independência. E tem pugnado para que os portugueses tenham uma opinião sobre essa realidade e a sua transformação baseada na mais amplo e melhor conhecimento. Um dos aspectos da realidade portuguesa que mais tem interessado a Fundação tem sido o ensino e, dentro do ensino, o do Português. 

Com efeito, logo em 2010 quando começaram as “Conferências-Chave sobre Problemas de Educação”, um dos temas escolhidos foi precisamente “Como se Aprende a Ler?”. Juntámos reconhecidos especialistas nacionais e estrangeiros na Língua e no Ensino da Língua com outros da Psicologia e das Ciências Cognitivas para tentar compreender melhor como é que entre nós se aprende a ler, em comparação com outras experiências internacionais. Dessa conferência saiu um pequeno livro com o mesmo título, contendo as comunicações principais, que foi prefaciado por José Morais, professor de Psicologia português da Universidade de Bruxelas. E sobre o título “O ensino da leitura no 1.º Ciclo do Ensino Básico: crenças, conhecimento e formação dos professores” iniciámos um projecto, em fase de conclusão, coordenado por João Lopes, professor de Psicologia da Universidade do Minho.

 Por outro lado, também significativo da atenção que a Fundação quis dar ao Ensino da Língua Portuguesa foi o lançamento como primeiro número da sua colecção de Ensaios do livro “O Ensino do Português”, de Maria do Carmo Vieira, professora de Português do Ensino Secundário, que logo se tornou um best-seller não só pela relevância e actualidade do tema, mas também pela inovação que a colecção representava. Nessa obra, muito crítica sobre o nosso statu quo, analisava-se um vasto leque de questões do ensino da língua materna em geral, muito para além dos aspectos da aprendizagem inicial da leitura e da escrita. Defendia-se, por exemplo, o primado da Literatura no ensino da língua em relação aos textos utilitários ou corriqueiros. 

 Com a publicação da presente obra, a Fundação mostra o seu continuado interesse pelo tema do ensino da língua portuguesa. Desta vez lançamos um foco mais concentrado sobre a Literatura na sua relação íntima com a Língua Portuguesa. José Augusto Bernardes e Rui Mateus, respectivamente professor de Literatura Portuguesa da Universidade de Coimbra (e também Director da Biblioteca Geral da mesma Universidade, uma casa que este ano comemora o seu quinto centenário) e professor de Português no ensino secundário numa escola de Castelo Branco, proporcionam-nos um olhar, rigoroso e inteligente, alicerçado na sua variada e rica experiência lectiva, sobre o papel da Literatura no ensino de Português e sobre a necessidade de desenvolvimentos que permitam reforçar esse papel. 

 Como os autores bem assinalam na sua introdução, o ensino da língua materna tem sido atravessado por de questões cuja relevância encontra eco em acaloradas discussões públicas. Todos se lembram, por exemplo, da polémica da nova terminologia da gramática (mais conhecidas pela respectiva abreviatura: TLEBS), assim como todos têm assistido à polémica, que parece longe de estar esgotada, em torno do Novo Acordo Ortográfico. Mas essas são, embora de maneiras diferentes, questões do foro normativo. Tão ou mais importantes serão, porém, as questões, que também têm concitado a atenção não só dos professores como da opinião pública, dos conteúdos e metodologias da disciplina de Português. Que Português ensinar? Como ensinar Português? As “Metas de Português” para o ensino básico recentemente aprovadas pelo Ministério da Educação e Ciência, às quais se irão seguir, as “Metas de Português” para o ensino secundário, prefiguram um caminho de maior atenção a aspectos nucleares dos conteúdos, como são decerto a função da Literatura Portuguesa na aprendizagem da língua materna.

 Está, portanto, em debate o papel das Belas Letras nas Letras Nacionais. Os autores defendem, com argumentos cuidadosamente pensados e expostos, que não há nem pode haver Letras sem Belas Letras. Que não se pode ensinar Português sem se ensinar também, obviamente na medida certa, Literatura. E também defendem que a medida actual está bastante aquém da medida certa. Por medida não se deve entender apenas a quantidade mas também e sobretudo a qualidade. Interessa o “quanto” e interessa o “quê” e o “como”. Será necessário, nesta como noutras áreas, que sejamos mais exigentes para connosco próprios. 

Os professores, os estudantes mais avançados e as famílias são convidadas, com a leitura deste livro, a reflectir sobre o papel da escola como mediadora desses bens inestimáveis e perenes que são a língua e a cultura nacionais. Se o fizerem, a Fundação terá dado mais um passo no cumprimento da sua missão. 

Carlos Fiolhais (Responsável pelo programa de Educação da Fundação Francisco Manuel dos Santos)

UNIVERSO PROGRAMADO. Uma alternativa ao darwinismo e à religião - Nota Introdutória


Introdução ao livro "Universo Programado" de Miguel Ribeiro:

Não me lembro por que razão comprei, excepcionalmente, um exemplar da revista National Geographic (20, Nov. 2006). O que me intrigou no artigo de Carl Zimmer foi perceber que o material genético para uma inovação, tal como a cabeça, a flor ou a pena, já existia em espécies precursoras sem essas estruturas. O facto de não conseguir enquadrar esta informação naquilo que eu considerava ser o âmbito da evolução darwinista incomodou-me durante um dia ou dois, após o que se me varreu do pensamento — nessa altura a fotografia e a minha prática médica quotidiana monopolizavam os meus interesses e preocupações.

No final de 2007, decidi sequenciar fotografias a preto e branco em filmes curtos, com música. Para preencher as longas horas de digitalização dos mais de mil negativos, dediquei-me a documentários e a literatura sobre vida animal, evolução e cosmologia, e fui-me apercebendo, a pouco e pouco, da inimaginável complexidade das coisas e, em particular, da vida.

Descobrir que o universo é regido por princípios matemáticos pareceu-me inconciliável com o modelo aleatório. Em contradição com este modelo estavam, também, várias teorias baseadas no papel central da informação no universo que, na sequência do «it from bit» de J. A. Wheeler, têm vindo a ganhar aceitação crescente nos últimos anos. Na verdade, o modelo aleatório, longe de corresponder a uma necessidade intrínseca da cosmologia, teve a sua origem na extrapolação automática da evolução neodarwinista — se a vida emergiu e se desenvolveu como um fenómeno aleatório, o universo que a alberga será, também, necessariamente, aleatório.

Contudo, a emergência da vida representou uma mudança de paradigma, incompatível, portanto, com um universo que se desenvolve pelo acaso. E o padrão da evolução para a complexidade, antes ou depois da emergência da vida, manteve-se inalterado, indiferente à seleção natural. Por outro lado, o programa da célula parece estar inevitavelmente contido no «ADN-lixo», o que o coloca fora do alcance da mesma seleção natural. Para além de tudo, a evolução por mutação aleatória é matematicamente irrealizável, dada a dimensão do genoma.

Enquanto estas premissas fermentavam e insensivelmente ganhavam forma no meu pensamento, aconteceu- me ler The Goldilocks Enigma de Paul Davies — numa lista de possíveis origens do universo, a exclusão de todas elas, uma após outra devido ao postulado aleatório, produziu o repentino «clique».

Assim, considerando estas e outras premissas, avancei a hipótese de habitarmos um universo programado e lancei-me numa reflexão pessoal e numa revisão da literatura — a começar por Nicole King, W. Jeffery, e outros autores citados no referido artigo da National Geographic, subitamente reavivado — com vista a testar a suposição de que a mutação é, de facto, programada, e o acaso, em larga medida, uma ilusão. Estávamos então em inícios de 2010 e senti-me compelido a coligir as minhas ideias, originariamente com a intenção de elaborar um artigo.

A mutação programada abre portas a um universo teleológico e, especificamente na linha de pensamento aqui traçada, a um mundo de informação por oposição à religião e ao darwinismo. Apesar da possível implicação criacionista2, e em sintonia com esse mundo de informação a que conduziu o exercício racional que este livro representa, eu, que desde a adolescência sou cético e agnóstico assumido, continuo sem inclinação mística ou religiosa.

Através dos tempos, desde há longínquos milénios, todo o ser humano ter-se-á repetidamente interrogado sobre a sua origem e destino, e os do mundo que habita.

 Apesar da cultura tecnológica e do materialismo atual, cerca de 90% da população continua a procurar respostas na religião ou nalguma forma de teísmo. E porque a questão das origens tem resistido à verificação científica, a objetividade tende a dar lugar a crenças que são fruto de influências socioculturais e de uma variedade de ideias preconcebidas, nomeadamente a esperança num ser sobrenatural e protetor e num mundo melhor existente algures.

Curiosamente, a correspondência e a literatura que consultei para este livro mostraram-me que, possivelmente influenciados pela pressão de pares, os próprios cientistas não são menos suscetíveis aos preconceitos e à emotividade, no que toca a este tópico polarizado e ardente.

 Porém, embora ciente de que o assunto está para muitos encerrado à discussão, este livro apresenta a minha interpretação e os meus argumentos.

Miguel Ribeiro

Prefácio à segunda edição de "Como Respiram os Astronautas"


Transcrevemos o prefácio à 2.ª edição do livro "Como Respiram os Astronautas", de Manuel Paiva, que acaba de sair na colecção "Ciência Aberta" da Gradiva: 

Desde que este livro foi escrito, a nossa nave espacial com o leitor a bordo deu nove voltas ao Sol e os astronautas na Estação Espacial Internacional deram muito mais voltas ao nosso mundo globalizado. Lá em cima, continuam a respirar calmamente e os pulmões não deverão constituir problema para as viagens interplanetárias, o que é uma boa notícia para os astronautas; é menos boa para os investigadores que procuram fundos para realizar experiências sobre o sistema respiratório no espaço, pois há outros órgãos cujo estudo é prioritário para assegurar a saúde dos astronautas durante longos períodos em imponderabilidade.

Nos últimos anos, com a excepção dos astronautas chineses ou taikonautas, a carreira de astronauta perdeu fôlego, visto que as dificuldades económicas estão a atrasar a exploração do espaço, em particular a aventura marciana. Os três vaivéns que sobreviveram às múltiplas idas-e-voltas espaciais estão em museus e o acesso dos astronautas à Estação Espacial Internacional é assegurado unicamente pelos velhos foguetões Soyuz. Ainda levará algum tempo até que os norte-americanos consigam levar de novo homens e mulheres para o espaço com material próprio e é provável que grande parte desse transporte venha a ser assegurado por empresas privadas. Felizmente, muito do que os astronautas poderão fazer já está a ser realizado por naves automáticas, como a Curiosity, que percorre actualmente a superfície marciana analisando sistematicamente o terreno. Um simples clique no sítio da NASA pode levar o leitor a um passeio marciano.

É interessante verificar que muitos esforços foram envidados para estudar o sistema respiratório em imponderabilidade. A primeira justificação foi o receio de que, quando o astronauta entrasse em imponderabilidade, o afluxo de sangue no pulmão produzisse o que então se designava por congestão pulmonar, que poderia ser fatal. Algumas das experiências da trágica missão da Columbia tinham precisamente como objectivo medir a quantidade de líquido no pulmão dos astronautas. Houve grandes expectativas de que viesse a ser possível utilizar os dados do disco duro de um dos computadores que resistiu à desintegração do vaivém. Quando me jubilei anos depois, a empresa Spacehab, que era dona dos aparelhos, ainda não tinha chegado a acordo com a NASA sobre o valor da indemnização pela perda dos instrumentos, e os resultados científicos foram dados, na sua maior parte, como definitivamente perdidos. Infelizmente, a influência dos cientistas na exploração humana do espaço continua a ser muito pequena.

Quando já era claro que o pulmão não devia ser um obstáculo para a vida em imponderabilidade, um astronauta russo teve problemas respiratórios a bordo da Estação Mir, o que foi apresentado como argumento para novas investigações sobre o sistema respiratório. É possível que, se ele não tivesse fumado lá em cima, nenhum sintoma tivesse ocorrido! No entanto, os modelos matemáticos que foram então desenvolvidos para calcular a deposição de partículas nos pulmões dos astronautas servem hoje para avaliar o que se passará quando chegarem a Marte, onde a força da gravidade é três vezes menor que na Terra. Mesmo quando a motivação não é a mais apropriada, uma investigação séria conduz quase sempre a resultados interessantes. Desde que escrevi este livro, já passaram nove anos e, entretanto, uma aplicação recente do Teste de Esvaziamento do Nitrogénio do Pulmão, cuja representação gráfica se mostra na capa, passou a ser usada na avaliação clínica de pacientes com fibrose cística. A maneira standard de realizar este teste foi recentemente aprovada pela American Thoracic Society e pela European Respiratory Society. Quando sugeri que fosse feito no espaço, nunca imaginei que este teste ganharia um dia esta inovadora aplicação clínica.

Fui estudar Física para a Universidade Livre de Bruxelas em 1964 e, à medida que criava raízes na Europa do Norte, fui perdendo a ligação com as minhas origens. Retomei os contactos regulares com Portugal há 17 anos, graças às funções que ocupava na Agência Espacial Europeia. Fui convidado a passar uma semana em Portugal. Tive então muita dificuldade em compreender como é que o país que eu estava a redescobrir podia funcionar com mentalidades que me pareciam semelhantes às que me tinham feito partir. Os meus interlocutores não percebiam o meu pessimismo e irritavam-se com a opinião de um estrangeirado. Curiosamente, sou menos pessimista hoje que a maioria dos portugueses, que passam por um período de grande depressão. Este estado de espírito, que induz passividade, parece mesmo impedir que se apreciem os avanços realizados em certas áreas, como a da ciência. Uma razão parece-me ser o facto de esses progressos terem sido feitos muitas vezes fora das estruturas universitárias tradicionais e por cientistas formados fora de Portugal, por vezes estrangeiros, atraídos por melhores condições de investigação. Contribuem assim para diminuir a endogamia ou consanguinidade das universidades portuguesas. Ao mesmo tempo que a ciência progredia, os indicadores internacionais de avaliação do ensino básico e secundário diziam que Portugal ainda estava no fundo da tabela. Parece-me relevante compreender este aparente paradoxo.

Quais foram então as razões principais do recente progresso da ciência em Portugal? Os fundos aumentaram de uma maneira espectacular e o mesmo responsável pela política de investigação manteve-se no Governo durante um período excepcionalmente  longo. José Mariano Gago modernizou as estruturas da investigação científica com base em padrões internacionais de avaliação externa, isto é, abalou o paroquialismo local. Além disso, o número de investigadores estrangeiros que se instalam em Portugal tem aumentado significativamente, o que favorece a vitalidade do sistema e cria um efeito bola de neve, pois a qualidade atrai a qualidade. Quanto ao aumento da investigação feita no sector privado, surpreende-me que as empresas que mais investem na investigação pertençam a sectores diferentes dos de outros países europeus. Por exemplo, gostaria de compreender quais são os benefícios para a sociedade portuguesa dos investimentos bancários na investigação e desenvolvimento. No que diz respeito ao financiamento dos Laboratórios Associados e das unidades de investigação reconhecidas pela Fundação para a Ciência e a Tecnologia, regozijo- -me com a grande transparência. Hoje, qualquer pessoa pode consultar na Internet os dados sobre o financiamento científico e respectivos critérios de seleção. Depois de um período de aceleração da ciência, na qual a participação dos contribuintes portugueses foi decisiva, é agora uma boa altura de os cientistas que trabalham em Portugal procurarem obter mais fundos das agências internacionais de financiamento da ciência, onde a competição é bem mais dura. Há já alguns casos de sucesso cujo mérito está, felizmente, a ser reconhecido.

É para mim um grande reconforto e um motivo de esperança verificar a diferença de mentalidade entre a nova e a velha geração. No entanto, se bem que seja menos pessimista do que a maioria dos portugueses quanto à sua situação na Europa, estou muito menos optimista do que há nove anos quanto à posição da Europa em relação aos Estados Unidos da América e à China. Contrariamente ao que então esperava e escrevi no final deste livro, tenho hoje receio de que a declaração de Lisboa nunca se venha a concretizar, isto é, que a Europa nunca se torne o espaço económico mais dinâmico e competitivo do mundo, baseado no conhecimento.

Voltemos à qualidade do ensino, qualidade essa que considero constituir cada vez mais, a base do progresso. Infelizmente, as soluções que funcionaram para a investigação não se podem transpor directamente para o ensino básico e secundário. O custo do ensino básico e secundário em Portugal antes da crise económica era equivalente à média europeia mas com resultados bastante piores, o que era também o caso da Bélgica francófona. Aumentar os fundos sem modificar as estruturas, de nada serviria. Trariam os mesmos resultados que uma terceira auto-estrada Lisboa-Porto. Enquanto os indicadores de qualidade da investigação científica se generalizavam, alguns responsáveis pelo ensino lutavam contra as avaliações internacionais dos alunos e os rankings das escolas. Parece-me que têm uma grande responsabilidade no facilitismo que está generalizado no ensino. Nunca me convenceram os argumentos contra exames nacionais como sistema de avaliação dos conhecimentos dos alunos a partir do primeiro ciclo do ensino básico. Quanto a professores de mérito semelhante, mas com diplomas de instituições de critérios e exigências desiguais, as notas finais de curso poderão ser muito diferentes. Não estarão pois em igualdade para iniciar as respectivas carreiras. Não seria mais justo que o recrutamento pelo Estado fosse baseado num exame nacional? Um chefe de empresa acolherá de modo idêntico dois candidatos, ambos com nota final de 18 valores, um com um diploma da Universidade do Porto e outro da Universidade Lusófona?

Quando me questionava sobre as causas dos problemas do ensino em Portugal, fiquei admirado ao encontrar uma resposta clara às minhas interrogações no livro de Nuno Crato O «Eduquês» em Discurso Directo (Gradiva, 2006). Nas minhas várias idas a escolas portuguesas durante os últimos anos, uma das coisas que me admirou foi o número de professores que me disseram nunca ter lido esse livro. Talvez a verdade fosse inconveniente e incomodasse. A enorme resistência à mudança por uma grande parte do mundo da educação deixa-me apreensivo. O que me dá alguma esperança, presentemente, é reconhecer e admirar as qualidades  excepcionais do autor d’O «Eduquês» em Discurso Directo e actual ministro. Espero que lhe seja dado o tempo necessário e que continue a ter energia e perseverança na concretização dos seus objetivos, cuja bondade, ouso esperar, acabará por ser reconhecida. Ter aceite começar um mandato num momento de crise revelou uma grande coragem. Estou também convencido de que os jovens portugueses que têm beneficiado do Programa Erasmus irão contribuir para continuar a evolução de mentalidades e alegro-me por ver desabrochar uma nova geração de jovens empreendedores em ruptura com as mentalidades fatalistas do passado. Ao mesmo tempo, desespera-me ouvir altos responsáveis encorajá-los a partir em vez de lhes assegurarem perspectivas de futuro em Portugal. Recentemente, um estrangeiro admirava-se do estado de um país que tinha um tal passado de exploradores. Foi-lhe respondido: «Nós não descendemos dos que partiram, descendemos dos que ficaram!»

Manuel Paiva
Monte dos Estorninhos, 2 de Maio de 2013

segunda-feira, 2 de dezembro de 2013

ORTA E AMATO, EXPOENTES DA MEDICINA DO SÉCULO XVI

Meu artigo acabado de sair no "As Artes entre as Letras":

  Na Medicina e na Botânica, então profundamente ligadas, sobressaem no século XVI Garcia de Orta e Amato Lusitano, os dois muito tempo longe da metrópole, um emigrado na Índia e o outro na Europa. Têm em comum a prática cuidadosa da Medicina e a análise de plantas com propriedades medicinais, como a raiz da China, que poderia curar a sífilis (Orta sofria desse mal). E os dois têm também em comum terem deixado escritos rigorosos baseados em experiência empírica.

Orta deixou uma única obra impressa, os Colóquios dos Simples e Drogas e Cousas Medicinais da Índia (1563), que tem a particularidade de ter sido escrita em português. Os Colóquios, um diálogo entre o autor e uma personagem ficcional, estão divididos em cerca de 60 capítulos descrevendo um número aproximadamente igual de drogas orientais, de origem vegetal, como o aloés, a cânfora, o ópio, os tamarindos, etc. Nesta obra surge a primeira descrição precisa das características, origem e propriedades terapêuticas de muitas plantas medicinais. Nos é também descrita pela primeira vez a sintomatologia de certas doenças raras e respectivos métodos terapêuticos, como a colera asiática. A divulgação internacional do livro deveu‑se ao botânico belga Charles de l’Écluse, que editou em Antuérpia um resumo em latim, sob o título Aromatum et Simplicium aliquot medicamentoru… (1567). Os Colóquios foram também divulgado em castelhano no livro Tractado de las drogas y medicinas de las Indias Orientales (1578), publicado em Burgos numa edição ilustrada pelo médico português, nascido no Norte de África, Cristóvão da Costa.

Orta e Amato estavam bastante actualizados, conhecendo as novidades do mundo moderno. Por exemplo, Garcia de Orta alardeou a sua auto‑confiança científica no Colóquio dos Simples, n.º 9:

“Não me ponhais medo com Dioscórides nem Galeno, porque não hei de dizer senão a verdade, e o que sei.”

Os dois criticaram o seu contemporâneo Vesálio. Orta escreveu, no Colóquio dos Simples:

“E destouta raiz da China dizem Vesalio e Laguna muitos males dizendo que é podre e sem virtude esta raiz da China e que custa muito dinheiro, e não tenho que ver com que custe muito ou que custe pouco, nem que seja cara ou barata, antes me parece bem o que diz Mateolo Senense, que basta para esta raiz ser boa mesinha, tomá-la o Imperador Carlos V e aproveitar-lhe.”

 E Amato escreveu ainda sobre a raiz da China, numa das Centúrias:

“Sobre ela me agrada falar aqui, visto que ate agora, que eu saiba, pouco ou nada foi dito e tanto mais que Andre Vesálio, há poucos dias, publicou um livrinho a que pôs o título “Da raiz dos Chinas”, no qual (poderia dizê-lo sem hostilidade pessoal) nada se encontra, alem do titulo, que diga respeito a raiz dos Chinas […] É Vesálio um insigne anatómico, muito sabedor e bastante versado na lingua latina...“

E noutro passo:

 “É isto que nos e os medicos profissionais muitas vezes percebemos. Eis porque Vesalio melhor teria feito neste assunto se tivesse encolhido a sua lingua virulenta em vez de aplicá-la, imbuido de falsas razoes de Averrois contra Galeno.”

 De seu nome original João Rodrigues, natural de Castelo Branco, formou‑se nas Universidades de Salamanca e de Siguenza, nas cercanias de Madrid, mas abandonou o País em 1534, no mesmo ano em que Orta o fez. Viveu primeiro na Bélgica, onde publicou a sua primeira obra: um comentário aos trabalhos de Dioscórides, Index Dioscorides (1536), sobre plantas medicinais. Mas foi depois para Itália, onde exerceu medicina em diversos locais, tendo sido médico pessoal de figuras notáveis. Publicou em Veneza In Dioscorides Anabarzaei de Medica materia Librum quinque (1553), um tratado muito completo sobre plantas de uso medicinal, onde são bem patentes os seus profundos conhecimentos nessa área. Ensinou e praticou anatomia na Universidade de Ferrara, no norte de Itália, onde chegou em 1541. Deve‑se‑lhe a descoberta da veia ázigos, em colaboração com o anatomista italiano Giambattista Canano, e das válvulas venosas, embora a prioridade não tenha sido logo reconhecida. Essa inovação contribuiu para a descoberta do sistema de circulação sanguíneo e do papel do coração, como uma bomba, por Harvey.

A obra mais notável de Amato foi Centúrias de Curas Medicianis (no original em latim Curationium Medicinalium Centuria), publicada entre 1531 e 1561, e que conheceu mais de 50 traduções em diferentes línguas. A primeira Centúria foi dedicada a Cosme de Médici, fundador da dinastia dos Médici. O cuidado com que apresenta as suas observações médicas é extremo, revelando‑se nisso muito moderno. Por exemplo, escreveu:

“Nesta nossa profissão, como muito bem sabem quantos a exercem, podem acontecer milagres e até se diz que a Medicina tem muito de Divino, mas temos que estar sempre atentos a todos os pormenores e aos mais pequenos sinais.”

Orta e Amato têm ainda em comum, para além das suas observações de botânica médica, o facto de ambos terem sido judeus obrigados a abandonar o reino. Tiveram, porém, destinos muito diferentes. Orta, que foi um médico reconhecido em Goa, não sofreu perseguições pela Inquisição em vida, mas apenas em morto. Com efeito, o Tribunal da Inquisição, que teve em Goa um dos seus principais centros, organizou um auto‑de‑fé em que condenou Orta quando ele já estava morto há 15 anos, tendo ordenado que se queimassem os ossos. Por sua vez Amato viu a sua obra ser muito censurada (as Centúrias caíram no Index Librorum Prohibitorum, a lista, criada em 1559, dos livros proibidos pela Igreja Católica) e teve de deambular por Itália (Veneza, Ancona e Ragusa) e, finalmente, de abandonar esse país, por razões em boa medida de ordem religiosa.

Nota: Este e textos anteriores aqui publicados são adaptações de trechos do meu livro “História da Ciência em Portugal”, Lisboa: Arranha Céus, que está a sair.

domingo, 1 de dezembro de 2013

Tempo e espaço da paideia nas Vidas de Plutarco

Informação chegada ao De Rerum Natura. 

Novo livro da Classica Digitalia, editorial do Centro de Estudos Clássicos e Humanísticos da Universidade de Coimbra.

Série “Humanitas – Supplementum” [Estudos]
Joaquim J. S. Pinheiro, Tempo e espaço da paideia nas Vidas de Plutarco (Coimbra, Imprensa da Universidade de Coimbra, Classica Digitalia, 2013). 458 p.
 28 € / Estudantes: 22 €

Todos os volumes dos Classica Digitalia são editados em formato tradicional de papel e também na biblioteca digital. O eBook correspondente (cujo endereço direto é dado nesta mensagem) encontra-se disponível em acesso livre. O preço indicado diz respeito ao volume impresso. 

Minerais e Cristais: avanços recentes

A Feira este ano é dedicada aos aspectos essenciais dos minerais, ou não ocorressem estes quase invariavelmente como cristais: o estado cristalino é uma característica basilar dos minerais. A maioria das propriedades dos minerais, sobretudo físicas, resultam do estado cristalino: por exemplo clivagem, propriedades ópticas e sobretudo o facto de os cristais serem, quando as condições de crescimento o permitem, limitados por faces planas.

A observação cuidada dos cristais limitados por faces planas, e sobretudo a medição dos ângulos entre as faces destes cristais, permitem descortinar as características essenciais da matéria cristalina, que desafiaram os melhores espíritos durante séculos. A história da sua compreensão é apaixonante, e será contada durante a Feira. É uma história de mentes brilhantes.

Nos nossos dias, as ferramentas para o estudo dos cristais são muitas e variadas, de simples a extremamente complexas. Algumas estão ao alcance do mineralogista amador, e permitem muitas observações interessantes. 

Uma das principais conclusões do estudo dos cristais é a presença de simetria, em graus variáveis. A simetria exige regularidade na distribuição das partículas (átomos e iões), e é possível provar que existe um número limitado de maneiras de ocupar regularmente o espaço, condicionadas pela simetria. Simultaneamente, muitos operadores de simetria não são compatíveis com as redes cristalinas, como eixos de grau 5. Uma descoberta recente foi a de “quasicristais” naturais.

Estes e muitos outros pontos serão desenvolvidos nas conferências de divulgação que terão lugar durante a XXVII Feira, de forma muito simples e atraente.

Este evento, que constitui desde 1988, uma grande festa do Museu e uma marca na vida cultural da cidade, reúne coleccionadores e comerciantes de minerais, gemas e fósseis, oriundos de vários países da Europa, bem como um vasto público, representado por milhares de visitantes, que tem aqui uma oportunidade ímpar de adquirir ou simplesmente deleitar-se com a observação de exemplares únicos. Como habitualmente, paralelamente à Feira, terá lugar um programa complementar de actividades de divulgação cultural e científica destinadas a jovens e adultos, este ano sob o tema geral “Cristais”.

PROGRAMA

ABERTURA DA FEIRA 

Edifício do antigo Picadeiro do Colégio dos Nobres (R. Escola Politécnica, 60) 

5 Dez. – 15h00 
CONFERÊNCIAS… (no Espaço Café - Mineral, na Feira)
Simetria Cristalina: a natureza não brinca em serviço” 
Orador: Jorge Relvas (FCUL - CREMINER/LARSyS) 

6 Dez. – 16h00 
À Descoberta da Simetria dos Cristais” Orador: Isabel R. Costa (FCUL) 

7 Dez. – 16h00 

Cristais: obras de arte, desafios matemáticos ou átomos e iões competindo pelo espaço?”
Orador: Fernando Barriga (FCUL - CREMINER/LARSyS) 

8 Dez. – 16h00 

LABORATÓRIOS 

Laboratório de Minerais e Rochas 
“Actividades de divulgação em ciência e tecnologia”
com a participação do Centro Ciência Viva do Lousal – Mina de Ciência 
5 a 8 Dez. – das 11h00 às 18h00 (Espaço Feira) 

 Laboratório de Gemas 
com o gemólogo Rui Galopim de Carvalho
(N.º de participantes limitado – inscrição prévia na banca do Museu instalada na Feira)

6 Dez. – das 15h00 às 16h00 (Gabinete A, no espaço Feira, 1º andar) 

Química mineral experimental 
“Experimentações mostrando a composição química dos minerais” 
7 Dez. – 11h00 às 13h00 (Espaço do ‘Laboratório Aberto’) 

Laboratório em passeio… 
 “Mil fósseis aos nossos pés” Percurso pedestre para reconhecimento de elementos paleontológicos no edifício do Museu (concentração no átrio principal do Museu à hora marcada para o início da sessão) 

7 Dez. – 11h00 

 EXPOSIÇÕES… sobre temas geológicos no Museu 

 Minerais: identificar, classificar
Exposição introdutória à sistemática dos minerais na qual estão patentes alguns dos mais belos exemplares das colecções do Museu Nacional de História Natural 

Jóias da Terra: o minério da Panasqueira 
Exposição sobre a geologia, a mineralogia e exploração mineira nas minas da Panasqueira

Tudo sobre Dinossáurios 
Exposição sobre os principais temas relacionados com o nosso conhecimento dos dinossáurios

Allosaurus: um dinossáurio, dois continentes? 
Exposição sobre os principais temas relacionados com a descoberta de Allosaurus em Portugal

A Aventura da Terra – um planeta em evolução
Exposição sobre os 4600 milhões de anos de história da Terra e da Vida, do Big Bang ao tempo presente 

 4xVida na Terra
Apresentação das quatro grandes fases da história da Vida na Terra, com realce para as grandes extinções e suas consequências

Museu Nacional de História Natural e da Ciência
Rua da Escola Politécnica, 58 1250 – 102 Lisboa 
Tel: 21 392 18 08 
smineralogia@museus.ul.pt www.mnhn.ul.pt 
 A. Galopim de Carvalho

Sugestão séria para o Ministro da Educação e respectivo Secretário de Estado

Abandonem, por duas manhãs por semana, o Palácio das Laranjeiras e montem gabinete nas Escolas Públicas de Portugal. Era dinheiro bem gasto.

Peçam a cada escola, sede de agrupamento (existem 257), que ceda uma sala, e marquem uma agenda, de forma a estar duas manhãs a trabalhar nas instalações de escolas portuguesas. Fariam tudo de lá, despachavam e tomavam conhecimento da realidade. E seriam, espero, uma forte razão de incentivo.

A sério, se eu fosse governante nesta área faria isso. A minha agenda teria duas manhãs numa escola pública Portuguesa, percorrendo 8 escolas por mês (em pouco mais de dois anos percorriam todos os agrupamentos, numa legislatura percorriam o país duas vezes).

AGENDA 2.ª feira e 3.ª feira - Ministro e Secretário de Estado
8:30 - Pequeno almoço na Cantina da Escola;
8:45 - Encontro com a Direção da Escola;
9:30 - Trabalho no Gabinete;
11:30 - Encontro com professores;
12:30 - Encontro com alunos;
13:00 - Almoço de Trabalho na Cantina da Escola;
14:30 - Retorno a Lisboa.

J. Norberto Pires

A sério?

Começo por dizer que o Nuno Crato foi escolhido na sequência do processo democrático que leva à gestão do estado português e que, nesse sentido, ele é o ministro da Educação que nós escolhemos. As suas decisões passam pela câmara de representantes do povo e controladas pelo presidente da república, disso não haja a menor dúvida. Aliás, como todos os outros que ocuparam o lugar desde 1975. Portanto, a minha opinião sobre a pessoa em questão, que até é positiva, é irrelevante.

Após a contratação de umas centenas de milhares de profissionais (independente da natureza legal do contrato), virem-me dizer que não têm a certeza de que essas pessoas sejam capazes de exercerem a tarefa para que foram contratados, não poderia ficar assim. Tinha que vir com uma lista de responsabilidades, de responsáveis e de medidas que me convençam de que não volta a acontecer. E nada disso foi feito, foi-me dada uma solução infantil chamada "exame", coisa que pode parecer ter muita lógica num estagiário mas é completamente ridículo num órgão de gestão que emprega umas centenas largas de pessoas.

Primeiro, as pessoas não têm cursos universitários onde fazem exames? Se passaram esses exames porque é que lhe estamos a fazer outros? Das duas uma, ou não confiamos nos cursos em causa e retiramos a confiança que temos neles, ou confiamos.

Segundo, compreenda-se que se está a dizer que os professores não dominam assuntos que estão vários graus abaixo daquilo que supostamente ostentam. Dizer que um professor licenciado no que quer que seja, não domina matemática do 9º ano, não é uma afirmação qualquer. Supostamente, ele deveria dominar essa matéria desde o seu 10º ano. É este o nível de profissionalismo em que já estamos a falar?

Terceiro, como é que eu sei que os exames não vão ser a próxima coisa a ser examinada? Agora questionamos se os professores sabem aquilo que ensinam e, por isso, fazemos exames. Se passarem e os resultados continuarem lastimoso, vamos examinar os exames? É isso?

Quarto, "the last but...", examinar os professores? Eu tenho um problema de educação de professores? Eu tenho um problema de educação de alunos e tenho 40 mil pessoas todos os anos a quererem ser professores. Porque é que a educação dos professores é um problema meu? O meu problema é a educação dos alunos! Se os professores levam educação aos alunos, bom, senão problema DELES. Podemos e devemos levar-lhes os meios para atingirem os fins, mas se não atingirem, terão que ir fazer outra coisa. Mas tragam-me os fins! Não me venham falar nos princípios.

Aquilo que está a ser feito não é a defesa do interesse público que cabe ao órgão estatal de Educação. É um método completamente infantil de fingir que se está a tomar medidas estruturantes. Achar que se faz um exame a um profissional muda o que quer que seja, muda de certeza. A forma como esse profissional encara o patrão. E a forma como o contribuinte encara um órgão de gestão público.

É verdade que um cidadão português já tem muito pouco com que se surpreender. Mas exames ao professores? A sério?

CONTINUE-SE COM A PLATAFORMIZAÇÃO DOS EXAMES NACIONAIS

Foi publicado o Relatório da Inspecção-Geral da Educação e Ciência, com o extenso título Averiguações às irregularidades dos Exames Nacionai...