Deixo aqui um excerto do Cap. 3 de um grande livro que acaba de sair na Gradiva na colecção "Ciência Aberta": "O Início do Infinito", de David Deutsch. Recomendo: é uma leitura imprescindível para se perceber o poder da ciência, o seu impacte na filosofia e a confiança no futuro que ela nos pode transmitir.
"Muitas das referências antigas à realidade para além
das nossas experiências quotidianas não só eram falsas
como se revestiam de um carácter radicalmente diferente
das modernas: eram
antropocêntricas. Ou seja, centravam‑se
nos seres humanos e, num sentido mais amplo, nas
pessoas — entidades com intenções e pensamentos de
dimensão humana, que incluíam indivíduos poderosos e
sobrenaturais, como espíritos ou deuses. Por isso o Inverno
podia ser atribuído à tristeza de alguém, as colheitas à
generosidade, os desastres naturais à raiva, e assim sucessivamente.
Tais explicações envolviam muitas vezes criaturas
de importância cósmica preocupadas com o que os
seres humanos faziam e com intenções em relação a elas.
Concomitantemente, os seres humanos adquiriam também
relevância cósmica. Por fim a teoria geocêntrica
colocou
igualmente o ser humano no centro físico do universo.
Esses dois tipos de antropocentrismo — explicativo e geométrico
— tornaram‑se
reciprocamente mais plausíveis,
e
por isso o pensamento pré‑iluminista
era mais antropocêntrico
do que podemos imaginar
hoje.
Uma das excepções assinaláveis foi a ciência da geometria,
em especial o sistema desenvolvido pelo matemático
grego antigo Euclides. Os elegantes axiomas e modos
de raciocínio sobre entidades impessoais como pontos e
linhas seriam mais tarde uma inspiração para muitos dos
pioneiros do iluminismo. Até lá, a geometria teve pouco
impacto nas visões prevalecentes do mundo. A título de
exemplo, grande parte dos astrónomos eram também
astrólogos: apesar de usarem geometria sofisticada no seu
trabalho, acreditavam que as estrelas prediziam acontecimentos
políticos e pessoais na Terra.
Numa altura em que ainda nada se sabia sobre o funcionamento
do mundo, tentar explicar fenómenos físicos através
de pensamentos e acções com intenções e dimensão
humana poderá ter sido uma abordagem razoável. Afinal é
assim que ainda hoje explicamos muitas das nossas experiências
diárias: se uma jóia desapareceu misteriosamente de
um cofre, procuramos explicações a nível humano, como
erro ou roubo (ou, em determinadas circunstâncias, magia),
e não novas leis da física. Mas essa abordagem antropocêntrica
nunca produziu boas explicações que ultrapassassem o
domínio das lides humanas. Em relação ao mundo físico, no
sentido lato, foi um erro colossal. Sabemos agora que os
padrões das estrelas e dos planetas no céu nocturno não
interferem na vida dos seres humanos. Sabemos que não
estamos no centro do universo — este não possui sequer um
centro geométrico. E sabemos que, embora os titânicos
fenómenos astrofísicos descritos no capítulo anterior tenham
desempenhado um papel significativo no passado, nunca
tivemos qualquer importância nesses mesmos fenómenos.
Um fenómeno é
significativo (ou
fundamental) se, como os
átomos e as estrelas, tiver um papel crucial na explicação de
muitos outros fenómenos; diria portanto que os seres humanos
e os seus desejos e acções são extremamente insignificantes
no universo em geral.
As concepções antropocêntricas erradas têm sido derrubadas
em todas as áreas fundamentais da ciência: o
nosso conhecimento de física é agora totalmente expresso
com base em entidades tão impessoais como os pontos e as
linhas de Euclides, ou seja, partículas elementares, forças e
espaço‑tempo
— um contínuo de quatro dimensões, com
três dimensões de espaço e uma de tempo. Os seus efeitos
recíprocos não são explicados com sentimentos ou intenções,
mas usando equações matemáticas que expressam
leis da natureza. Em biologia, por exemplo, pensava‑se
que os seres vivos tinham sido criados por um ser sobrenatural
e que continham obrigatoriamente um ingrediente
especial, um «princípio vital», que os fazia comportar‑se
como se tivessem um propósito. Mas a biologia descobriu
novos modos de explicação usando coisas tão impessoais
como reacções químicas, genes e a evolução. Por isso
agora sabemos que todos os organismos vivos, incluindo
os seres humanos, são constituídos pelos mesmos ingredientes
que as pedras e as estrelas, obedecem à mesmas leis
e não foram concebidos por ninguém. A ciência moderna,
longe de explicar fenómenos físicos com base em pensamentos
e intenções de pessoas não observadas, considera
os nossos pensamentos e intenções agregados de processos
físicos microscópicos não observados (mas observáveis)
do nosso cérebro.
Este abandono das teorias antropocêntricas tem sido
tão frutífero, e tão importante na ampla história das
ideias, que o
anti‑antropocentrismo
tem sido aos poucos
elevado
ao estatuto de princípio universal, designado por
vezes princípio da mediocridade:
não há nada de significativo
no que diz respeito aos seres humanos (no esquema
cósmico das coisas). Como afirma o físico Stephen Hawking,
os seres humanos não passam de «lixo químico na
superfície de um planeta comum na órbita de uma estrela
comum nos confins de uma galáxia comum». A ressalva
«no esquema cósmico das coisas» é necessária, pois o lixo
químico tem, como é evidente, uma relevância especial de
acordo com os valores que atribui a si próprio, como
valores morais. Mas o princípio diz que todos esses valores
são em si mesmos antropocêntricos: explicam apenas
o comportamento do lixo, ele próprio insignificante.
É fácil confundir idiossincrasias do nosso próprio
ambiente ou perspectiva (como a rotação do céu nocturno)
com características objectivas do que se está a
observar, ou regras gerais (como a previsão do nascer
diário do Sol) com leis universais. Referir‑me‑ei
a esse
tipo de erro como
paroquialismo.
Os erros antropocêntricos são exemplos dessa visão
restrita, mas nem todo o paroquialismo é antropocêntrico.
Ou seja, a previsão de que as estações ocorrem ao
mesmo tempo em todo o mundo é um erro paroquial mas
não antropocêntrico: não implica uma explicação das
estações numa base humana.
Outra das ideias influentes sobre a condição humana é a
dramaticamente chamada
nave espacial Terra. Imagine
uma «nave geracional» — uma nave numa viagem tão
longa que muitas gerações de passageiros passam aí as suas
vidas. Este conceito foi proposto como meio de colonizar
outros sistemas de estrelas. Na ideia da nave espacial Terra,
essa nave geracional é uma metáfora da
biosfera — o sistema
de todos os organismos vivos na Terra e regiões que
habitam. Os seus passageiros representam todos os seres
humanos da Terra. No exterior da nave, o universo é implacavelmente
hostil, mas o interior é um sistema de suporte
de vida altamente complexo, capaz de prover todas as
necessidades de sobrevivência dos passageiros. À semelhança
da nave, a biosfera recicla todo o lixo e é auto‑suficiente,
recorrendo à sua espaçosa central nuclear (o Sol).
Do mesmo modo que o sistema de suporte de vida da
nave é concebido para sustentar os seus passageiros, também a biosfera é «aparentemente concebida»: parece altamente
adaptada para nos sustentar (afirma a metáfora)
porque
nós nos adaptámos a ela através da evolução.
Mas a sua capacidade é finita: se a sobrecarregarmos,
meramente com a nossa população ou adoptando estilos
de vida muito diversos daqueles em que temos vivido
(aqueles para os quais a biosfera foi «concebida»), ela vai
esgotar‑se.
E tal como os passageiros da nave espacial
não temos uma segunda oportunidade: se o nosso estilo
de vida se tornar demasiado negligente ou perdulário e
arruinarmos o nosso sistema de suporte de vida, não
temos mais nenhum sítio para onde ir.
A metáfora da
nave espacial Terra e o princípio da
mediocridade
alcançaram uma grande aceitação entre
as pessoas com espírito científico — ao ponto de se tornarem
truísmos. Isto apesar de, dadas as circunstâncias,
argumentarem em sentidos ligeiramente opostos: o princípio
da mediocridade sublinha quão comuns são a Terra
e o lixo químico (no sentido de não serem extraordinários),
enquanto a nave espacial Terra salienta quão pouco
comuns eles são (no sentido de serem adequados unicamente
um para o outro). Quando se interpretam as duas
ideias em sentido lato e numa perspectiva filosófica, o que
em geral é o caso, elas facilmente convergem. Ambas se
vêem a si próprias como correcções dos mesmos equívocos
paroquiais, designadamente que a nossa experiência
de
vida na Terra é representativa do universo e que a Terra é
vasta, fixa e permanente. Ambas apontam, em vez disso, o
seu carácter diminuto e efémero. Ambas se opõem à arrogância:
o princípio da mediocridade opõe‑se
à arrogância
pré‑iluminista
da importância do homem no mundo; a
metáfora da nave espacial Terra opõe‑se
à arrogância iluminista
de aspirar ao domínio do mundo. Ambas contêm
um elemento moral: não devíamos considerar‑nos
relevantes,
dizem; não devíamos esperar que o mundo se submeta
indefinidamente à nossa devastação.
Desta forma, as duas ideias geram um enquadramento
conceptual rico, capaz de informar toda uma visão do
mundo. Contudo, como explicarei mais à frente, são ambas
falsas, mesmo num sentido objectivo e factual. E num sentido
mais amplo, são tão enganadoras que, se quiséssemos
gravar numa rocha uma máxima válida e recitá‑la
todas as
manhãs antes do pequeno‑almoço,
mais valia usar as negações
destas concepções. Ou seja, a verdade é que as pessoas
são importantes no esquema cósmico das coisas e a biosfera
terrestre é incapaz de sustentar
a vida humana.
Tomemos o comentário de Hawking de novo. É verdade
que nos situamos num planeta comum (de alguma forma)
de uma estrela comum numa galáxia comum. Mas estamos
longe de ser como a matéria que existe no universo. Por um
lado, julga‑se
que cerca de 80 por cento dessa matéria é
«matéria negra» invisível, que não emite nem absorve luz.
Actualmente, detectamo‑la
apenas através dos seus efeitos
gravitacionais indirectos nas galáxias. Só os restantes 20
por cento são matéria do tipo a que restritamente chamamos
«matéria comum». Caracteriza‑se
por brilhar continuamente.
Não costumamos pensar em nós como seres
brilhantes, mas trata‑se
de outra noção errada e paroquial,
dadas as limitações dos nossos sentidos: emitimos radiação
térmica, luz infravermelha, e ainda luz no domínio do visível,
demasiado leve para ser detectada pelos nossos olhos.
As concentrações de matéria tão densas como nós, o
nosso planeta e a nossa estrela, embora numerosas, também
não são propriamente comuns. São fenómenos isolados
e invulgares. O universo é maioritariamente vácuo
(e radiação e matéria negra). A matéria comum é‑nos
familiar apenas porque é aquilo de que somos feitos, e por
causa da nossa proximidade pouco comum com grandes
concentrações desta.
Adicionalmente, somos uma forma pouco comum de
matéria comum. A mais comum é o plasma (átomos dissociados
nos seus componentes com carga eléctrica), que
emite normalmente luz clara e visível, pois existe nas
estrelas, que são bastante quentes. Nós, lixo, somos basicamente
emissores de infravermelhos, já que contemos
líquidos e químicos complexos que só podem existir a
temperaturas muito mais baixas.(...)"
David Deutsch