segunda-feira, 8 de outubro de 2012

EM QUE UNIVERSIDADES SE FORMARAM?


Texto de Guilherme Valente, o autor do recente "Os Anos Devastadores do Eduquês" (Presença):

Li impressionado a entrevista da minha Amiga Helena Damião à revista "A Cabra". Um texto revelador  do grau de virulência e impregnação da ideologia  e das teorias pedagógicas  que temos designado por eduquês. 

Mesmo alguém que tem assumido corajosamente a análise crítica das teorias em que foi formada (talvez deva dizer formatada), revela uma dramática dificuldade em assumir e explicar  a rejeição de uma das mais obviamente tontas, ignorantes e perversas ideias-matrizes do eduquês. A ideia de que os alunos estão encerrados num fatídico determinismo, que não distinguem entre o bem e o mal, que não são responsabilizáveis pelos seus actos.

Na entrevista, Helena Damião "contorce-se" dolorosamente para não ter de assumir aquilo que seguramente se impõe à sua consciência, inteligência e instrução histórica, como absolutamente óbvio, justo, exigível, indispensável: a existência (também) na Universidade  de  um código que  consagre os direitos e deveres dos que têm o privilégio de a frequentar e nela trabalhar. Com a penalização, igual para todos, claramente expressa de quem o violar.

O código de direitos e deveres, com a necessária penalização  para quem  o viole, foi um passo de gigante na "escalada civilizacional do homem". A sua inexistência traduz-se, se não na luta de todos contra todos, na  usurpação da liberdade do outro, na inevitável opressão e liquidação dos mais fracos, a discriminação, a barbárie, enfim. Documentadas amplamente na história da humanidade.

 E não é isso que se prefigura ou está mesmo, cada vez mais frequentemente, de algum modo, a manifestar-se nas nossas escolas, até nas universidades?  Não é por isso que ocorre agora esta discussão sobre a necessidade de um código disciplinar, que, afinal, devia ter  existido sempre? A justiça é o cimento de uma sociedade, e a escola a instância   matricial  onde deve começar a ser consagrada, vivida.

E porquê essa dificuldade de admitir e defender o óbvio? Porque para o eduquês os "meninos" não sabem o que fazem. E o código iria ferir a sua auto-estima. Não se poderia imaginar ideia mais cretina!

Violam uma colega, dão uma navalhada noutro, batem no professor ou não o deixam dar a aula, isso deve-se a um trauma qualquer antigo dos meninos, manifestações  que na versão mais despudorada, cretina ou oportunista, estilo Eduardo de Sá, ou mais suave (e hoje convenientemente mais envergonhada) de Daniel Sampaio, parece deverem mesmo ser acolhidas como algo positivo, passo decisivo para a sua superação.

Querem evidência mais expressiva do modo como o eduquês  nega, tenta roubar ao ser humano, aquilo que é o mais  distintivo, mais definidor, melhor  da sua  humanidade? A consciência moral, diria mesmo, a inteligência das coisas, a capacidade de nos colocarmos no  lugar do outro, condição da solidariedade, o sentido de responsabilidade e de justiça. Percebem como assim lhe é negada a autonomia e a liberdade?
É esta, caro leitor, a pedra angular ideológica de onde tudo o resto da praga é deduzido, a pedra angular de onda brota a devastação em curso.

As regras, com a respectiva penalização, um código, realmente e justamente, para todos igualmente, coercivo,  são absolutamente imperativos  em todas as nossas instituições. Desde logo na escola, como é mais de que obvio. E todavia... 

São imperativos entre nós pela razia, moral, ética, da mais elementar falta de respeito, mesmo físico, pelo outro, a que crescentemente se assiste.  

Anos de devastação na escola, que devia ser a sede privilegiada para a instrução, teórica e prática, da civilidade, do respeito pelo outro, da solidariedade, da responsabilidade.

O que se passa nas nossas universidades é um escândalo absolutamente intolerável. Escândalo pago com o dinheiro de quem começa a não ter dinheiro para comer. Poderá  isto continuar?

Universidade em que professores não conseguem dar as aulas, em que os alunos copiam despudoradamente (nas licenciaturas, nos mestrados e nos doutoramentos), traindo o objectivo nuclear e definidor da instituição, prejudicando não só os colegas, mas a si próprios. Universidades e politécnicos a cujos alunos é mesmo significativamente publicamente oferecida a descarada possibilidade de comprarem trabalhos e teses de licenciatura, mestrado e doutoramento. Poderá isto continuar?

Vejamos o que se verifica nas verdadeiras universidades. Apenas dois exemplos concretos, que directamente conheço.

A Universidade de Cornell. Quando o aluno é aceite, assina um compromisso de honra. Sabem qual é a pena para quem copie ou apenas não indique o autor de uma  citação que faça? Expulsão imediata. É assim que se formam profissionais e cidadãos, as elites que deverão promover a ética na sociedade, na vida política. Bandidos há sempre. Corruptos há sempre. Mas como é a corrupção enfrentada nessa sociedade, muito mais complexa e diversa, aliás?

Sabem que em Cornell os alunos fazem, por vezes, os testes em casa? E que ninguém copia? Sabem que em Cornell os alunos mudam de turma quando os professores não são suficientemente exigentes? Que não é preciso haver chumbos porque os próprios alunos desistem quando verificam não conseguir fazer o curso com a exigência exigida?

Por isso o valor de um curso em Cornell é reconhecido e apreciado.

Um aluno da Universidade do Porto, a estudar na Finlândia no âmbito  do Programa Erasmus, foi apanhado a copiar num exame (na Finlândia há exames...). Consequência:  expulsão  imediata e a Finlândia rompe com Portugal a cooperação Erasmus.  Mais revelador ainda  foi o comportamento de um pro-reitor (suponho, estou a referir de memória a notícia do jornal): desculpou o "menino" . Poderá isto continuar?

Mais perduravelmente nefasto para o país do que  todos  os "oliveira e costa", "dias loureiro", " freeport", "robalos", " ppp" e tudo o muito mais que se sabe e não se sabe. Em que universidades se terão formado? 

Como há muito escrevi, o eduquês teve e tem o êxito que se vê e sofremos por ter enxertado no pior da mais velha cultura portuguesa. Que a escola do eduquês, em vez de contrariar, tem  reforçado.

Será que toda essa gente cometeu esses actos miseráveis por não ter nascido rica, como o filho do Senhor Belmiro de Azevedo? (E mesmo que fosse por isso, e não é, que culpa tínhamos nós todos disso?)  E que os teriam cometido se soubessem que poderiam responder por eles perante uma verdadeira e eficaz justiça? Se não se sentissem protegidos  ao mais algo nível político? Se soubessem que poderiam ser presos como acontece a um desgraçado que roube, para comer, num supermercado?

Tudo óbvio, portanto.

Sempre pensei  que o problema dos eduqueses  é, em última instância, a ignorância. O que estudaram,  que autores e livros leram? Se eu pudesse dar-lhes o castigo que merecem,  seria estudarem e lerem. Fazerem o o bom curso que lhes falta.

Coragem, portanto, minha cara Helena, é esse o seu papel histórico.

Guilherme Valente

“CORES DE OUTONO”

Informação chegada ao De Rerum Natura.

O CONSERVATÓRIO DE MÚSICA DE COIMBRA RETOMA A INICIATIVA “QUINTAS DO CONSERVATÓRIO”. SÃO AS “CORES DE OUTONO”...

... que, nos meses de Outubro, Novembro e Dezembro, proporcionam, nas noites de quinta-feira, música, teatro e palavra.


11 DE OUTUBRO | 21H30 
AUDITÓRIO DO  CINEMA

Poderá ver ou rever

"SONATA DE OUTONO",                                        DE INGMAR BERGMAN


Organização: A2C2 e Fila K Cineclube

Bilhetes à venda no Conservatório de Música de Coimbra | 1€
Horário: Quarta 18h-20h | Quinta 16h-21h30 

Informações, programação e reservas aqui.

domingo, 7 de outubro de 2012

Aprender e treinar para o bem

O estudo de Stanford, sobre os comportamentos de “guardas” e “prisioneiros” numa experiência de 1970, feita pelo psicólogo Zimbardo, e já aqui referido, mostrou, como já vimos, o modo como os comportamentos perversos e assassinos aparecem assim que se criam as condições favoráveis.

Mas mostrou também duas coisas muito importantes e esperançosas: a capacidade de reagir e a possibilidade de aprender a fazer o bem. Segundo ele, na referida entrevista, (Público, 23/9/2012), um dos “guardas” recusou-se a utilizar a força e os vexames com os “presos”. Diz ele: «Em todas as experiências, em todas as situações reais há sempre uma pequena percentagem – uns 10% - que resiste. Mesmo nas piores circunstâncias. Mas nunca ninguém estudou quem são esses 10% que resistem ao apelo do mal».

Refere ainda um estudo em que procura identificar os perfis psico-afetivos e intelectuais de «jovens, homens, mulheres, que tinham pertencido a gangues violentos nos EUA (alguns tinham matado pessoas, vendido heroína a famílias inteiras), (…) e que a certa altura passaram para o lado bom, impedindo que outras crianças fossem recrutadas por gangues ou esforçando-se por tirá-las de lá. São heróis» diz ele. E com razão, pois «arriscaram a vida para fazer isso e os gangues querem matá-los». Estes exemplos dão-nos muita esperança pois revelam a existência de forças benéficas, que precisam de ser reconhecidas, estimuladas e desenvolvidas.

Portanto, numa altura em que a formação moral e cívica parece ter perdido o norte, em virtude das ideais e do ethos pós moderno, esta experiência revela-nos que há um fundo humano, uma força, que não sabemos identificar nem de que natureza é, mas que nos incomoda, se a não exercemos, e mostra vias possíveis para a ação educativa. E é, portanto, da maior importância social. Zimbardo fala de vários tipos de heroísmo e depois centra-se em dois tipos de herói: o refletido e corajoso, que se opõe toda a vida a um sistema malévolo (Luther King, Gandhi, Mandela, etc.) e o das formas quotidianas e ocasionais que todos podemos por em prática. Diz ele: «ser um herói consiste em ajudar pessoas que precisam de ajuda ou em defender um princípio moral».

Neste sentido «qualquer um de nós pode vir a ser um herói». E isso aprende-se, na medida em que se pode ensinar a analisar as situações, a diagnosticar a infeção de uma dada situação e a reagir a ela procurando encontrar aliados nessa reação. Em muitos casos «o custo potencial pode ser perder a vida, ser ferido, perder o emprego. As pessoas que denunciam a corrupção no seu lugar de trabalho, diz ele, quase nunca são promovidas ou são despedidas». (Lembram-se do caso revoltante, e que vai ficar para a história dos escândalos judiciais, em que o vereador Sá Fernandes, da Câmara de Lisboa, acabou condenado por denunciar, e provar, uma tentativa de corrupção da Braga-Parques? Mal sabia o nosso famoso “sistema judicial” como estava a seguir as leis da psicossociologia).

Mas, neste sentido, e de qualquer modo, como ele diz, o pior de tudo é a inação, o «efeito espetador» (bystander effect), isto é, «quando acontece uma coisa terrível à nossa frente e não fazemos nada». Que é, de resto, a atitude mais comum. Não é bom, nem para a vítima nem para o espetador. «O pior mal do bulling nem é o que acontece às vítimas, mas o que acontece a todos os outros, que, ao estarem lá e não fazerem nada, vão sentir vergonha para o resto da vida».

Ora há estratégias para atacar esta passividade que, pelas suas consequências, pode ser assassina; há formas de ensinar a desenvolver forças de bem. E o primeiro passo é saber que existe em nós a tendência para o silêncio, que é normal acobardarmo-nos nestas situações. Mas que não o devemos fazer, até porque temos forças em nós que também reclamam a nossa intervenção. Depois, que devemos encontrar aliados, porque é muito provável que, face a uma situação de injustiça ou de violência, haja outras pessoas a sentir a mesma revolta que nós. Em grupo, há mais força, e a ideia de que estamos a fazer o que devemos cria uma dinâmica nova e compensadora. E mais: que, a médio e longo prazo, todos seremos beneficiados. Para um clima de humanidade e de bondade é um complemento teórico e psicológico importante.

E para terminar, diz Zimbardo: «Somos todos poderosos agentes de influência social e quando somos vistos a fazer coisas más – passar um sinal vermelho, por exemplo – isso incentiva outros a fazer o mesmo. Mas também projetamos uma sombra positiva sobre quem nos vê a ajudar alguém ou a respeitar a lei» Como vêem, as implicações sociais são imensas. E nós, portugueses, que a toda a hora somos cilindrados por influência maléficas e exemplos que nos degradam, deseducam e deprimem, precisamos de começar a inverter este ciclo depressivo e infernal. Nem tudo é economia! (Apetece-me dizer: estúpidos! Mas não digo e só repito). Nem tudo é economia!

João Boavida

Contra mim

No artigo jornalístico "The Writing Revolution" podemos ler o seguinte:
In a profoundly hopeful irony, New Dorp’s re­emergence as a viable institution has hinged not on a radical new innovation but on an old idea done better. The school’s success suggests that perhaps certain instructional fundamentals—fundamentals that schools have devalued or forgotten—need to be rediscovered, updated, and reintroduced. And if that can be done correctly, traditional instruction delivered by the teachers already in classrooms may turn out to be the most powerful lever we have for improving school performance after all.
O que está em causa é parcialmente a negação da ideia central que defendi aqui: que os alunos aprendem por si e que a escola, tal como é, só empata. Os resultados desta escola, pelo contrário, parecem militar a favor das ideias defendidas neste blog pela Helena, entre outros. Vale a pena ler o artigo com atenção e reflectir sobre o caso.

sábado, 6 de outubro de 2012

AS CIÊNCIAS DA TERRA NA ANTIGUIDADE (3)

Terceira parte de um texto do Professor Galopim de Carvalho.
A primeira pode ser encontrada aqui e a segunda aqui.


Ovídio (43 a C-17 d C), o poeta romano, deixou-nos em verso alguns conceitos que pôs na boca de Pitágoras (579-497 a.C.) alusivos à tendência universal para a mudança, não só a das coisas vivas, mas também das mortas. E nas coisas mortas estavam, entre muitas outras, as terras e os mares, as montanhas, os rios e as rochas.

Dizia ele: tudo flui, tudo muda, nada morre. Embora ele tenha posto estas afirmações na boca do filósofo e matemático grego, não se sabe de onde Ovídio as tenha retirado. Em alguns dos seus versos, diz-se claramente que se encontram conchas marinhas (fósseis) no interior das terras, que há terras que emergem e que há outras que se afundam, dando lugar a mares (mas não explica como), que as águas desgastam as montanhas, aplanando-as (sem que haja alusão a acções catastróficas) e que as condições climáticas mudam com o tempo.

Estas ideias contrariavam crenças antigas que, entre outras, defendiam a imutabilidade das linhas de costa e o carácter sagrado das montanhas, pelo que falar do avanço ou recuo dos litorais e da erosão destes relevos era dificilmente aceite.

O poema Aetna, da segunda metade do século I, de autor romano desconhecido, põe em destaque as preocupações da época no domínio do vulcanismo. Fala de uma fornalha alimentada por enxofre, alúmen e asfalto que se incendiava devido à presença de lapis molaris uma lava que largava chispas quando percutida. Esta visão poética antecipa a concepção neptunista do século XVIII, do alemão Abraham Gottlob Werner, da Academia de Minas de Feiberga, que defendia que os vulcões eram alimentados pela combustão de carvão e betume existentes no subsolo.

Caius Plinius Secundus (23-79 d C), mais conhecido por Plínio, o Velho, eclesiástico veneziano morto na histórica erupção do Vesúvio, no ano de 79, tem lugar de destaque no progresso das ciências da Terra através da sua monumental História Natural, em 37 volumes. Aí se encontram algumas descrições de minerais, em especial dos utilizados como pigmentos, como minérios e como gemas.
                                                                            Erupção do Vesúvio no ano 79 dC

São dele, entre outros, os termos silex, sablum (areia), calcarius (calcário), succinum (âmbar), bitumen (betume), lapis specularis (gesso em placas transparentes e brilhantes), creta (cré) e cabunculum (nome dado ao rubi, à espinela vermelha e à granada da mesma cor). À semelhança de Estrabão, atribuía a elevação das montanhas ao fogo central.

Astrónomo, geógrafo e matemático grego, Cláudio Ptolomeu (90-168 d C.) foi o responsável pela grande divulgação do geocentrismo, uma ideia de há muito defendida por Eudóxio Cnido e por Aristóteles, bem do agrado da Igreja e que dominou, entre as elites intelectuais, maioritariamente religiosas, por quase quatro séculos. Dos escritos que nos deixou, envolvendo temas de astronomia, matemática, óptica e teoria musical, salienta-se a sua Geographia, em 8 volumes. Esta obra, que reúne todo o conhecimento geográfico greco-romano, inclui um mapa da região mediterrânea, com os erros decorrentes das limitações próprias da época.

quinta-feira, 4 de outubro de 2012

Comportamentos e regulamentos

Depoimento que me foi solicitado pelo Jornal Universitário de Coimbra, a cabra, sobre a recente redacção e aprovação de Regulamentos Disciplinares por parte de universidades portuguesas.

1. Concorda com a existência de Regulamentos Disciplinares no Ensino Superior?

A minha concordância é relativa pelo que explico de seguida. Esses regulamentos decorrem da afirmada necessidade de fazer face a problemas reais: nos últimos anos, tanto professores como estudantes, têm identificado e relatado, junto das devidas instâncias, comportamento problemáticos da parte de alguns estudantes, tanto em contexto académico mais geral como de sala de aula, bem como diversos tipos de fraudes nos trabalhos que lhe são pedidos. São manifestações que, se crê, terem-se tornado progressivamente mais frequentes e mais graves. Assim, para, num primeiro momento, se diminuir a sua ocorrência e/ou para as desencorajar, justifica-se tipifica-las e legitimarem-se sanções correspondentes.

Mas um regulamento disciplinar, só por si, não educa nem responsabiliza. E preciso fazer mais alguma coisa com os estudantes que chegam ao patamar superior de escolaridade, até para que não seja necessário recorrer a esses regulamentos. Entendo que o que tem de ser feito, pelas escolas e pelo conjunto dos seus professores, é um trabalho deliberado e sistemático no plano da atribuição de valor ao conhecimento, da atenção aos outros, da curiosidade e da honestidade intelectual.

Dir-se-á que a universidade não é o lugar indicado para fazer esse trabalho, que os estudantes já deveriam ter adquirido antes, no ensino básico e secundário, essa sensibilidade. Podemos dizer que há alguma razão nisso, mas há também dois aspectos a ter em conta: por um lado, é preciso perceber que esse trabalho está sempre em aberto, não pode dar-se por acabado, deve ser retomado em todos os patamares de escolaridade; por outro lado, os sistemas de ensino não estão a preparar devidamente os estudantes aos níveis que referi, muito chegam à universidade pouco preparados para desenvolver uma aprendizagem autónoma e responsável.

2. São os outros níveis de ensino que estão abaixo do superior que estão a falhar?

Todos os níveis de ensino estão a falhar em alguns aspectos. O mesmo para as escolas e para os professores. Mas isso tem muito a ver com o quadro social em que nos inserimos. É preciso pensarmos um pouco nisso, em que é que estamos a falhar para precisarmos de um regulamento disciplinar no ensino superior.

3. Acredita que o regulamento disciplinar será devidamente aplicado?

Não me cabe responder. Percebo que há um empenhamento da Reitoria e das Faculdades que conheço para melhorar a aprendizagem e a atitude dos alunos. Assim, presumo que o regulamento vai ser tido como uma referência.

4. Sabe de algum episódio que pudesse ter sido alvo de sanção disciplinar?

Tomei conhecimento de vários episódios. Agrupo os mais relevantes em três alíneas: comportamentos agressivos relacionados com a praxe académica; fraude académica com diversas concretizações; perturbação das aulas que impedem o decurso normal do ensino e, consequentemente, da aprendizagem. Mas, devo dizer que muitos dos episódios de que tomei conhecimento revelam algo mais preocupante do que os episódios em si: os protagonistas não revelarem consciência das regras sociais que balizam a liberdade individual e, em sequência, não perceberem que o seu comportamento é incompatível com essas regras.

5. A Universidade de Coimbra tem para já o único documento aprovado. Sabia que uma das advertências pode levar à interdição por 5 anos da universidade?

Li o regulamento mas não tomei atenção às punições previstas. Imagino que possam identificar-se comportamentos dos estudantes de tal modo graves que justifiquem esse tipo de sanção.

“In Memoriam” de Nene, Jogador de Futebol da Académica de Coimbra



Post de Rui Baptista:

“As memórias procriam como se fossem pessoas vivas.”
 Agustina Bessa-Luís.

Por pertença aos mortais que o fim de vida  não pode fazer cair no esquecimento público, trago à presença do leitor  a memória do talentoso Nene, jogador de futebol do Grupo Desportivo de Lourenço Marques e da Associação Académica de Coimbra.

Recordo-me dele, como meu aluno da Escola Industrial Mouzinho de Albuquerque de Lourenço Marques quando, com a sua alegria de predestinado para o desporto-rei, encantava  todos aqueles que  tinham o prazer de o ver passear a sua enorme classe deliciando-os, com as sua fintas de  pés, quais verónicas de dextro toureador, nos torneios inter-turmas de futebol de 5, realizados no velhinho campo desportivo a céu aberto de uma saudoso estabelecimento de ensino técnico que diplomou homens de rija têmpera, profissionais de incontestável valor e  desportistas de grande mérito, v.g., Fernando Adrião, no Hóquei em Patins, e Paulo Carvalho, no Basquetebol.

Passados escassos dias do infaustoso falecimento de Nene, cumpridos que estavam apenas duas dezenas de anos de idade, lia-se in “A  Bola” (12/09/1971), em transcrição parcial que faço:

“Nascera em Madrid, mas cedo a família partiu de Moçambique. À aventura. Foi lá que despontou para o futebol no Desportivo de Lourenço Marques um rapazinho de seu nome Modesto Luís de Sousa Neves – (Nene) era o seu nome de guerra/alcunha no jogo de pontapeio da bola. Com 17 anos ruma a Coimbra. Matriculado no Instituto Industrial, tornou-se atleta-estudante da Académica de Coimbra e seu jogador cobiçado. Aos 20 anos, o Sporting acena-lhe com um contrato milionário: 1.350 contos.

Era o preço do seu génio, da sua imaginação cintilante, dos seus dribles irresistíveis, das suas arrancadas destruidoras, dos seus remates fulminantes. Mas numa noite tepidamente trágica naquele Agosto, depois de ter jantado em Coimbra, pegou no seu Austin oferecido pela Académica e partiu para a Figueira da Foz, nesse percurso numa curva traiçoeira perdeu o controlo do carro e foi enfaixar-se nas traseiras de uma camioneta…

E Coimbra em dor e lágrimas. Pela morte  de um ídolo ainda menino. E de um símbolo. Que era umas das maiores esperanças (se não a maior) do futebol Português. Jazia já no cemitério da Conchada em Coimbra”. Frase final que eu me atreveria complementar com respaldo em Fernando Pessoa: “Jazia já no cemitério da Conchada, 'o menino de sua mãe´”.

Também jovem, muito jovem, a caminho da consagração no firmamento de Hollywood, morreu, igualmente, em desastre de automóvel no  Porsche que conduzia (1955), James Dean, ícone da juventude rebelde da década de 50, como se o destino se comprazesse em ceifar a vida da sua melhor e mais promissora juventude. Igualmente se tratava de um menino de que o mecânico que o acompanhava na ambulância diz ter ouvido “um grito suave emitido por Jimmy : a lamúria de um menino chamando por sua mãe ou de um homem encarando Deus”! 

Em destaque merecido,  é recordado, em vésperas de nova participação da Académica na “Liga Europeia”, pelo médico de Coimbra Vitor Campos, seu companheiro de equipa, em jogo da 2.ª mão (1970), entre o Manchester City (que viria a conquistar a “Taça das Taças” desse ano) e a “Briosa”, em clima  épico em que esta seria vencida no campo adversário por 0-1, depois de um empate a zero em Coimbra, a pessoa de Nene, num artigo do” Diário de Coimbra” (18/09/2012). Nesse texto de jornal, relata-nos  Vitor Campos o seguinte:

 “’Ninguém nos conhecia em Inglaterra e eles, na 2.ª mão, pensavam que iam dar três ou quatro a zero’, recorda Vitor Campos, que assume com orgulho que a Académica fez ‘a vida negra’ ao Manchester City.

‘Tínhamos uma  equipa com qualidade, muito experiente’ afirma o antigo centrocampista que, apesar da derrota no prolongamento, não deixou de elogiar ´a grande jornada’ protagonizada pelos estudantes. 

Sem querer tirar o mérito ao colectivo, o médico fez questão de elogiar um companheiro em particular: ‘Não posso deixar de destacar o saudoso Nene, que era um jogador fantástico. Pôs em sentido toda a defesa com uma excelente exibição individual que nos ajudou muito’”

Quanto à equipa de Coimbra dos dias de hoje, Vitor Campos entende que ‘tudo pode acontecer na participação na Liga Europeia que começa na quinta-feira”.

Na noite de hoje e nesse “tudo pode acontecer”, seja uma  forma de homenagear “in memorian”, se possível, com uma vitória, Neno que vindo das longínquas e revoltas águas do Índico trouxe às calmas  margens do Mondego  toda a  magia, entusiasmo e juventude de um  futebol que permanece na lembrança nostálgica dos simples adeptos da Académica, dos seus  sócios  e dos seus desportistas  de capa e batina. De toda uma cidade que não deixou cair no olvido de um mundo de ingratidão  – que não reconhece o valor dos seus melhores em vida e daqueles que dela já partiram – um passado de glória desportiva  imprimindo nos sulcos da memória colectiva a sua marca indelével . 

Escreveu Fernando Pessoa: “Tenho pensamentos que, se pudesse revelá-los e fazê-los viver, acrescentariam nova luminosidade às estrelas, nova beleza ao mundo e maior amor ao coração dos homens”. Bem haja Vitor Campos por ter pensamentos que revelou, compartilhando-os connosco, quando escreve: “Não posso deixar de destacar o saudoso Nene que era um jogador fantástico”!

Rui Baptista

AS CIÊNCIAS DA TERRA NA ANTIGUIDADE (2)

Segunda parte de um texto do Professor Galopim de Carvalho.
A primeira pode ser encontrada aqui e a terceira aqui.


A concepção dos quatro elementos, ditos de Aristóteles, “terra, água, ar e fogo”, tem origem na Pérsia, em meados do século IX a.C., de autoria desconhecida.

Estes quatro elementos, então considerados como “princípios” universais da matéria, são, pois, o culminar de um modelo muito anterior a este filósofo, que se desenvolveu gradualmente até ser objecto de uma formulação, mais completa e abrangente, por Empédocles (c. 450 a.C.), conhecida por Teoria das Substâncias ou Teoria dos Quatro Elementos.

Relativamente a esta visão do mundo físico, coube a Aristóteles o mérito de a divulgar e de lhe dar um crédito tal que a fez singrar, incólume, por quase dois mil anos. A igreja romana não só aceitou esta ideia como a impôs no essencial do seu conteúdo, opondo-a, constante e tenazmente, à concepção atómica de Demócrito, considerada materialista. Ainda hoje o termo materialista é entendido como não religioso.

Discípulo e continuador de Aristóteles no Liceu de Atenas, Teofrasto (372-287 a C) deixou-nos, entre outros, um tratado, Das Pedras, tido como a primeira obra escrita acerca de minerais, rochas, minas e metalurgia. A ele se deve a primeira classificação de minerais, que tinha por base a utilidade desses produtos naturais como minérios, pedras preciosas e pigmentos. Os seus ensinamentos, neste domínio, mantiveram-se durante cerca de dezoito séculos, até finais da Idade Média. 

Nascido em Lampsaco, na Anatólia, Estratão (360-270 a C.), conhecido por O Físico, procurava explicar a natureza, buscando nela própria as causas do seu surgimento, do seu desenvolvimento e do seu declínio. No domínio do pensamento geológico e à semelhança de Aristóteles, defendia a ideia do cúmulo de um tempo imenso sobre os processos naturais extremamente lentos. Discípulo de Teofrasto e seu sucessor no Liceu de Atenas, Estratão foi um materialista na linha do atomismo de Demócrito, ensinando que a matéria era constituída de partículas e de vazio.

Alheio aos ensinamentos da teologia e da metafísica, explicava a natureza através de uma via exclusivamente materialista, a ponto de ter prescindido de Deus, no dizer de Cícero (106-43 a C), o grande filósofo latino. Aristarco de Samos (310-230 a C), foi o primeiro astrónomo a propor que a Terra gira em torno do Sol, em oposição ao geocentrismo há muito defendido por Eudóxio e por Aristóteles. Este audacioso modelo heliocêntrico só foi reconhecido e validado mais de mil anos depois, por Nicolau Copérnico (1473-1543).

Para Aristarco, era mais lógico admitir que um astro menor girasse em torno de um maior, numa visão que se opunha à dos seus antecessores. Aristarco defendia, ainda, que a Terra possui movimento de rotação. Aristarco realizou cálculos geométricos das dimensões e distâncias da Terra ao Sol e da Terra à Lua e tentou determinar o tamanho destes dois astros. Embora o método utilizado fosse correcto, os erros nos seus cálculos devem-se, sobretudo, à imperfeição dos instrumentos que utilizou. Astrónomo, geógrafo, matemático, poeta e bibliotecário da grande Biblioteca de Alexandria, Eratóstenes (285 - 194 a C.) determinou o valor de 23o 51' para a obliquidade da eclíptica, determinou os valores da circunferência e do raio da Terra, o que pressupõe que, já nessa altura, o planeta era visto como uma esfera.

Eratóstenes constatou, muito antes de Leonardo da Vinci, que havia conchas de moluscos marinhos, no interior das terras, a centenas de quilómetros do litoral, o que o levou a aceitar que, no passado, essas terras haviam sido fundo marinho. Estrabão (64 a C.-24 d C.) não aceitava a concepção de uma geografia imutável e, praticamente, eterna, de inspiração aristotélica. Este geógrafo grego chamou a atenção para a existência de “pedras com a forma de conchas” em regiões afastadas do litoral e concluiu pela presença do mar, nessas terras, em tempos passados. Assim, defendia que os mares se convertiam em terras e vice-versa.

Admitia, ainda, que movimentos verticais ascendentes e descendentes, quer dos continentes, quer do substrato oceânico, eram responsáveis por essa permuta de terras e mares. Procurou relacionar a elevação das montanhas (comprovada a partir da presença aí de conchas de moluscos marinhos) com a existência de um fogo central que alimentava os vulcões. Admitia afundamentos e soerguimentos dos terrenos motivados por sismos e por grandes deslocamentos de terras. Procurou mostrar que as montanhas se convertiam em planícies e estas, novamente, em montanhas e relacionou a erosão com o assoreamento. Na sua visão do mundo, as fontes e os rios surgiam e desapareciam. Ao observar o Etna e a ilha vulcânica de Ischia (Pitecusas) no Mar Tirreno, Estrabão admitiu que os ventos ateavam o fogo vulcânico.

Nessa altura, com o Vesúvio adormecido, descreveu-lhe o cimo “como um lugar que havia estado incendiado em outros tempos e que se apagara por falta de combustível”. A sua Geographia, um tratado monumental, em 17 volumes, foi uma das duas publicadas na Antiguidade. A outra, um pouco mais tardia, foi a de Ptolomeu.

Continua

Galopim de Carvalho

CAIXA BAIXA



Meu artigo de opinião no Público de hoje:

Numa altura em que circulam rumores sobre a privatização, pelo menos em parte, da Caixa Geral de Depósitos (CGD), esse banco estatal que não encontra equivalente com o seu peso nos países europeus (representa mais de 20 por cento da banca portuguesa), vieram a lume notícias sobre corrupção e peculato no interior daquela instituição. Parece que um director do serviço de prevenção e segurança daquele banco obteve no ano transacto um empréstimo de 800 000 euros, com metade a spread muito baixo e outra metade a spread zero. É caso para dizer que, numa altura de crise generalizada, alguém se quis prevenir e segurar... E um Tribunal Administrativo veio, como noticiou o Público de 1 de Outubro, anular a pena de suspensão de funções e vencimento durante seis meses imposto a um trabalhador da CGD que, há três anos, chamou a atenção para casos de abuso de poder no interior do referido serviço, que terão incluído escutas ilegais.

Para se reconhecer que Portugal é um país muito pequeno, atente-se nos nomes implicados. Quem nomeou o director cujos benefícios pessoais, aparentemente ilícitos, vieram agora a lume? Pois foi Armando Vara, o controverso político do Partido Socialista que saiu com uma promoção salarial da vice-presidência da CGD para ocupar funções similares no Millennium BCP e que, no seu estranho percurso académico, conseguiu ser pós-graduado antes de se graduar na Universidade Independente (o seu nome tem aparecido no âmbito do processo Face Oculta, cujo desfecho se aguarda). E quem assinou a ordem de castigo, evidentemente ilegal, do funcionário da CGD? Pois foi Francisco Bandeira, também ele afecto ao Partido Socialista, que tendo sido vice-presidente da CGD presidiu também ao Banco Popular de Negócios (BPN), o banco privado de José Oliveira e Costa que, para grande prejuízo nosso, o anterior governo decidiu nacionalizar (ouvido há dias no Parlamento, Bandeira afirmou que será impossível recuperar 500 milhões de euros do BPN afundados em off-shores, sabendo-se hoje que o prejuízo total será de pelo menos 3400 milhões). Acrescente-se que estes dois ex-gestores da CGD foram já este ano punidos pela Comissão de Mercado de Valores Mobiliários com uma multa de 50 000 euros por terem autorizado em 2006 e 2007 operações fraudulentas de crédito abrindo contas-fantasmas a alguns clientes para compra de acções de empresas.

Agora o banco do Estado tem administradores de outra área política. Mas nada garante que os negócios escuros e os compadrios tenham cessado. Os portugueses, muitos deles clientes da CGD (declaração de interesses: possuo lá uma conta desde que comecei a trabalhar na função pública, pois o Estado depositava os salários nesse banco), não podem deixar de estar perplexos com o facto de os actuais administradores ganharem mais do que o primeiro-ministro e de haver pensões elevadíssimas de ex-gestores, acumuláveis com outros vencimentos. E ficaram espantados quando ouviram recentemente um vice-presidente da CGD e quadro do Partido Social Democrata, António Nogueira Leite, dizer que emigraria se o governo aumentasse mais os impostos, como vai fazer. Escreveu ele no Facebook: “Se em 2013 me obrigarem a trabalhar mais de sete meses só para o Estado, palavra de honra que me piro, uma vez que imagino que quando chegar a altura de me reformar já nada haverá para distribuir, sendo que preciso de me acautelar”. Um primor de linguagem para um gestor público. Mas emigrará?

Se o governo, por absoluta necessidade de pagar aos credores, decidir vender, ainda que parcialmente, a CGD a privados, deve ver bem o melhor timing para o fazer. A Caixa está em baixa. A CGD, com casos como o da área de prevenção e segurança (dever-se-ia dizer falta de prevenção e insegurança completa), que não são explicados, tem vindo a desacreditar-se. Para além do negócio absolutamente ruinoso que foi a absorção do BPN, está envolvida noutras transacções catastróficas. Com efeito, a CGD anunciou há dias que ia perder cerca de 50 milhões de euros em Parcerias Público-Privadas (PPP) relativas a obras de construção de auto-estradas, neste momento paradas, na Espanha e na Grécia (os governos desses países estão a renegociar as PPP). Em economês chama-se a isto “imparidades”. A CGD declarou prejuízos de 12,7 milhões de euros no primeiro semestre deste ano, o que contrasta com lucros de 91,4 milhões de euros em igual período do ano passado. Nogueira Leite já avisou que as imparidades vão continuar e não há que duvidar da sua sinceridade.

Já que este é um artigo de opinião, não termino sem dar a minha. Julgo que não vale a pena ter um banco público que quase só serve os interesses da oligarquia partidária que, de um modo irresponsável e penoso, se vai alternando no poder. Escolham só a melhor altura para o vender.

quarta-feira, 3 de outubro de 2012

AS CIÊNCIAS DA TERRA NA ANTIGUIDADE (1)

Novo texto do Professor Galopim de Carvalho, que será publicado em três partes. Eis a primeira parte (a segunda pode ser encontrada aqui e a terceira aqui)


                     Academia de Atenas, numa pintura de Rafael. Ao fundo e ao centro Platão e Aristóteles

Limitando-nos às ciências da Terra, nas suas múltiplas disciplinas, e ao mundo mediterrâneo, berço da nossa civilização, foi na Grécia antiga que surgiram os primeiros textos envolvendo temas desta importante área do conhecimento, incluídos na chamada Filosofia Natural.

A grande influência dos filósofos e poetas gregos no pensamento da Europa cristã (através das suas obras originais ou das traduções destas, feitas, mais tarde, por judeus e árabes), também se fez sentir nalguns temas incluídos nas ciências da Terra. Ao tempo, a chamada Filosofia Natural especulava acerca da natureza, ou seja, do universo físico. De início, não dava grande ênfase à descrição dos objectos e dos fenómenos naturais, procurando, sobretudo, chegar à essência dos entes (que possuem corpo), e ao conhecimento das primeiras causas e dos “princípios” (constituintes) do mundo material.

Na linha do pensamento platónico, era uma disciplina mais de elaboração mental do que de observação ou de experimentação. Filósofos gregos pré-socráticos deixaram-nos obra escrita no âmbito da Filosofia Natural, com destaque para Demócrito de Abdera (460-379 a C) e o seu pensamento sobre o atomismo. Para Platão (429-347 a C), o inovador do idealismo e do inatismo, a verdadeira realidade estava no mundo das ideias, das formas inteligíveis, apenas acessíveis através da razão.

Para este discípulo de Sócrates (469-399 a.C), as ideias começavam por ser formuladas no pensamento, sendo o raciocínio e a indução as principais vias para atingir o conhecimento. Interessou-se pelo vulcanismo, uma realidade geológica do seu tempo bem à vista no Mediterrâneo. Admitia a existência de um rio subterrâneo de lama fervente e lava, o “pirofiláceo”, que serpenteava pelo globo terrestre e alimentava os vulcões. Esta mesma ideia já fora divulgada na obra poética do seu conterrâneo Píndaro (518-438 a C), na qual se fala da existência de um canal ardente, o “typhone”, que, em profundidade, ligava a região de Nápoles à Sicília, com ramificações subterrâneas, explicando assim as erupções do Etna e das ilhas Lipari.

Frequentador de Academia de Platão, o astrónomo e matemático Eudóxio de Cnido (390 – 338 a C), foi o autor do primeiro modelo do Sistema Solar, que concebeu como um conjunto de esferas centradas na Terra. Esta hipótese cosmológica geocêntrica, que causou grande impacto sobre a filosofia natural grega, antecipou-se, cerca de cinco séculos, à de Cláudio Ptolomeu.

Ao contrário de seu mestre, Aristóteles (384 - 322 a C) introduziu o pensamento realista, sendo por isso considerado um precursor do empirismo. Para este discípulo de Platão as ideias chegam-nos através dos sentidos, observando, pelo que dava muita importância ao mundo exterior entendido como principal fonte do conhecimento e aperfeiçoamento das capacidades intelectuais. Para ele, o único mundo é o sensível, que é também o mundo inteligível. Este, que foi o fundador do Liceu de Atenas, introduziu o termo “física” (do grego antigo, physis, sinónimo de natureza) em substituição de filosofia natural, e destacou-se pelas suas especulações e investigações no âmbito desta disciplina, tendo influenciado profundamente o cenário intelectual europeu.

Aristóteles foi um notável e influente apoiante do modelo geocêntrico de Eudóxio. Segundo ele, a Terra permanecia estática, com uma geografia imutável, e era, também, o centro do Universo, que considerava praticamente eterno. Atribuía grande estabilidade ao mundo terrestre e, tendo em conta a efemeridade da vida do ser humano, defendia que certas acções naturais, extremamente lentas e imperceptíveis no dia-a-dia, teriam grande expressão com o acumular do tempo, que tinha por incomensurável.

Com este pensamento, o Estagirita (assim chamado por ter nascido em Estagira, hoje Stavro, na Macedónia) antecipou de mais de dois milénios a ideia do cúmulo de um tempo imenso sobre os processos naturais, a que James Hutton, no século XVIII, deu grande visibilidade, a ponto de ser visto por muitos como o pai desta ideia.

Continua.

Galopim de Carvalho 

Ondas Gigantes e o Canhão Submarino da Nazaré.


Crónica primeiramente publicada na imprensa regional.


Já se imaginou a surfar uma onda com 30 metros na costa portuguesa?

As maiores ondas oceânicas, em altura, ao longo de toda a costa portuguesa verificam-se, de forma mais majestosa e frequentemente, na região definida pela Praia do Norte, na vila da Nazaré. 

Importa dizer que a física das ondas é matéria complexa, pela influência de inúmeros factores como sejam, entre outros, a temperatura e salinidade das águas à superfície e no fundo marinho, amplitudes das marés, correntes marítimas, riqueza e diversidade da biomassa (algas, plâncton, etc.) que reduz a tensão superficial da água, o contexto geológico e oceanográfico. Neste último caso, o imponente Canhão Submarino da Nazaré, um dos maiores do mundo, desempenha um papel decisivo na circulação regional das massas de água e sedimentos e, logo, influência a formação de ondas.


O Canhão Submarino da Nazaré.

O investigador Luís Quaresma dos Santos, autor da tese “Observação De Ondas Internas Não-Lineares Geradas Sobre O Canhão Submarino Da Nazaré” (2006, Departamento de Física da Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa) caracteriza assim o gigantesco acidente geográfico submarino: “De entre uma dezena de canhões existentes na margem continental portuguesa, o da Nazaré é sem dúvida o mais imponente. Para além de ser um dos maiores do mundo, ele rasga por completo a plataforma continental, perpendicularmente à costa, e estende-se por mais de 220 km. A Norte do canhão a plataforma é estreita (40-50 km) e plana, com um declive médio da ordem de 0.3 %. A Sul do canhão a plataforma torna-se ainda mais estreita e menos profunda, apresentando-se confinada pelo Cabo Carvoeiro (Peniche) e as Ilhas das Berlengas”.

O canhão é um desfiladeiro submarino que começa a cerca de 500 metros da costa, com uma profundidade de 50 metros, e que se estende até a planície abissal ibérica nuns profundos 5000 metros desde a superfície marítima. De origem tectónica e está associado à falha Nazaré-Pombal.

Devido à configuração do Canhão, “observa-se a propagação de uma maré interna de grande amplitude ao longo do seu domínio interno, assim como uma redução da amplitude da maré junto da costa da Nazaré”, descreve aquele investigador. Este trabalho pioneiro sobre o canhão, caracterizou pela primeira vez a propagação de ondas internas solitárias não-lineares (C-NIWs) sobre a plataforma continental média, a Norte do canhão submarino da Nazaré. O próprio canhão parece desempenhar um papel condutor destas ondas, que se “distinguem das restantes por uma amplitude superior (alcançando os 30 m) e pela indução de pulsos de corrente com maior intensidade junto ao fundo (0,1-0,2 m/s)”. Estas ondas, designadas por solitões, “são observadas em grupo ou trens de onda". "No Canhão da Nazaré os trens C-NIWs são constituídos por duas a três ondas, com períodos de 5 a 10 minutos e amplitudes de 10 a 30 m. Ocorrem predominantemente “entre o fim da Primavera e o início do Outono, acompanhando o aparecimento de um termoclina sazonal”, pelo que esta altura é propícia à formação das ondas de grande amplitude e período, um grande potencial desta zona costeira para a prática da modalidade de surf “tow-in” em ondas gigantes.

E foi neste contexto ondulatório que o surfista havaiano Garret McNamara conseguiu entrar para o Guiness Book of Records, ao surfar uma onda com cerca de 30 metros de altura na zona da costa conhecida como Norte do Canhão, no dia 1 de Novembro de 2011.

Desde então, as ondas gigantes que se formam no Canhão da Nazaré passaram a ser alvo de atracção mundial e o sonho de muitos surfistas.

António Piedade

A avaliação dos alunos

Informação chegada ao De Rerum Natura. 

Na próxima 4.ª feira, dia 10 de Outubro, pelas 17h00, a Fundação Francisco Manuel dos Santos promove, em parceria com a Faculdade de Psicologia e de Ciências da Educação da Universidade de Coimbra, realiza uma conferência sobre a avaliação dos alunos

Essa conferência tem lugar no Auditório dessa Faculdade, e conta com a intervenção de três especialistas: Jeffrey Karpicke, Hélder Sousa e Leandro Almeida.

Mais informação aqui.

A conferência é gratuita, mediante inscrição prévia.

Pólis e Cosmópolis

Informação recebida no De Rerum Natura

O Centro de Estudos Clássicos e Humanísticos da Universidade de Coimbra abre, com a coleção Pólis e Cosmópolis, um canal de comunicação crítica na Universidade, entre Coimbra e outras cidades, entre esta unidade de investigação e outros centros de saber, na grande Cosmópolis que é o universo da pesquisa científica, com especial relevância para o espaço lusófono.

A partir da próxima semana, iniciamos a publicação de uma sequência de 32 episódios, em acesso livre, com a periodicidade de dois documentos por semana.

O episódio de apresentação da coleção pode ser visto aqui.

Gostaríamos de poder contar com a vossa companhia regular e com as vossas sugestões, neste esforço comum de promoção da cultura científica.

Maria do Céu Fialho e Delfim Leão(Coordenadores da coleção Pólis e Cosmópolis)

terça-feira, 2 de outubro de 2012

MARGINAIS NO PODER!


Mensalão: Trechos do voto ministro Celso de Mello em sessão plenária de 01/10/2012


Entendo que o Ministério Público expôs na peça acusatória eventos delituosos revestidos de extrema gravidade e imputou aos réus ora em julgamento ações moralmente inescrupulosas e penalmente ilícitas que culminaram, a partir de um projeto criminoso por eles concebido e executado, em verdadeiro assalto à Administração Pública, com graves e irreversíveis danos ao princípio ético-jurídico da probidade administrativa e com sério comprometimento da dignidade da função pública, além de lesão a valores outros, como a integridade do sistema financeiro nacional, a paz pública, a credibilidade e a estabilidade da ordem econômico-financeira do País, postos sob a imediata tutela jurídica do ordenamento penal.

Quero registrar, neste ponto, Senhor Presidente, tal como salientei em voto anteriormente proferido neste Egrégio Plenário, que o ato de corrupção constitui um gesto de perversão da ética do poder e da ordem jurídica, cuja observância se impõe a todos os cidadãos desta República que não tolera o poder que corrompe nem admite o poder que se deixa corromper.

Quem transgride tais mandamentos, não importando a sua posição estamental, se patrícios ou plebeus, governantes ou governados, expõe-se à severidade das leis penais e, por tais atos, o corruptor e o corrupto devem ser punidos, exemplarmente, na forma da lei.

Este processo criminal revela a face sombria daqueles que, no controle do aparelho de Estado, transformaram a cultura da transgressão em prática ordinária e desonesta de poder, como se o exercício das instituições da República pudesse ser degradado a uma função de mera satisfação instrumental de interesses governamentais e de desígnios pessoais.

Fácil constatar, portanto, considerados os diversos elementos legitimamente produzidos nestes autos e claramente demonstrados pelo eminente Relator, que a conduta dos réus, notadamente daqueles que ostentam ou ostentaram funções de governo, não importando se no Poder Legislativo ou no Poder Executivo, maculou o próprio espírito republicano.

Em assuntos de Estado e de Governo, nem o cinismo, nem o pragmatismo, nem a ausência de senso ético, nem o oportunismo podem justificar, quer juridicamente, quer moralmente, quer institucionalmente, práticas criminosas, como a corrupção parlamentar ou as ações corruptivas de altos dirigentes do Poder Executivo ou de agremiações partidárias.

Extremamente precisa a observação, sempre erudita, do Professor Celso Lafer, quando, ao discorrer sobre o espírito republicano, acentua, a partir de Montesquieu, que “o princípio que explica a dinâmica de uma República, ou seja, o sentimento que a faz durar e prosperar, é a virtude. É nesse contexto que se pode dizer que a motivação ética é de natureza republicana. Isso passa (...) pela virtude civil do desejo de viver com dignidade e pressupõe que ninguém poderá viver com dignidade numa comunidade política corrompida”.

É por isso, Senhores Ministros, que a concepção republicana de poder mostra-se absolutamente incompatível com qualquer prática governamental tendente a restaurar a inaceitável teoria do Estado patrimonial.

Com o objetivo de proteger valores fundamentais, Senhor Presidente, tais como se qualificam aqueles consagrados nos princípios da transparência, da igualdade, da moralidade e da impessoalidade, o sistema constitucional instituiu normas e estabeleceu diretrizes destinadas a obstar práticas que culminem por patrimonializar o poder governamental, convertendo-o, em razão de uma inadmissível inversão dos postulados republicanos, em verdadeira “res domestica”, degradando-o, assim, à condição subalterna de instrumento de mera dominação do Estado, vocacionado, não a servir ao interesse público e ao bem comum, mas, antes, a atuar como incompreensível e inaceitável meio de satisfazer conveniências pessoais e de realizar aspirações governamentais e partidárias.

O fato é um só, Senhor Presidente: quem tem o poder e a força do Estado, em suas mãos, não tem o direito de exercer, em seu próprio benefício, a autoridade que lhe é conferida pelas leis da República.

A gravidade da corrupção governamental, inclusive aquela praticada no Parlamento da República, evidencia-se pelas múltiplas consequências que dela decorrem, tanto aquelas que se projetam no plano da criminalidade oficial quanto as que se revelam na esfera civil (afinal, o ato de corrupção traduz um gesto de improbidade administrativa) e, também, no âmbito político-institucional, na medida em que a percepção de vantagens indevidas representa um ilícito constitucional, pois, segundo prescreve o art. 55, § 1º, da Constituição, a percepção de vantagens indevidas revela um ato atentatório ao decoro parlamentar, apto, por si só, a legitimar a perda do mandato legislativo, independentemente de prévia condenação criminal.

A ordem jurídica, Senhor Presidente, não pode permanecer indiferente a condutas de membros do Congresso Nacional – ou de quaisquer outras autoridades da República – que hajam eventualmente incidido em censuráveis desvios éticos e reprováveis transgressões criminosas, no desempenho da elevada função de representação política do Povo brasileiro.

Sabemos todos que o cidadão tem o direito de exigir que o Estado seja dirigido por administradores íntegros, por legisladores probos e por juízes incorruptíveis.

O direito ao governo honesto – nunca é demasiado reconhecê-lo – traduz uma prerrogativa insuprimível da cidadania.

A imputação, a qualquer membro do Congresso Nacional, de atos que importem em transgressão ao decoro parlamentar revela-se fato que assume, perante o corpo de cidadãos, a maior gravidade, a exigir, por isso mesmo, por efeito de imposição ética emanada de um dos dogmas essenciais da República, a repulsa por parte do Estado, tanto mais se se considerar que o Parlamento recebeu, dos cidadãos, não só o poder de representação política e a competência para legislar, mas, também, o mandato para fiscalizar os órgãos e agentes dos demais Poderes.

Vê-se, nesse ponto, a íntima correlação entre a própria Constituição da República, em face de que prescreve o seu art. 55, § 1º, e a legislação penal.

Qualquer ato de ofensa ao decoro parlamentar, como a aceitação criminosa de suborno, culmina por atingir, injustamente, a própria respeitabilidade institucional do Poder Legislativo, residindo,nesse ponto, a legitimidade ético-jurídica do procedimento constitucional de cassação do mandato parlamentar, em ordem a excluir, da comunhão dos legisladores, aquele – qualquer que seja – que se haja mostrado indigno do desempenho da magna função de representar o Povo, de formular a legislação da República e de controlar as instâncias governamentais do poder.

Importante destacar, Senhor Presidente, as gravíssimas consequências que resultam do ato indigno (e criminoso) do parlamentar que comprovadamente vende o seu voto e que também comercializa a sua atuação legislativa em troca de dinheiro ou de outras indevidas vantagens. A corrupção deforma o sentido republicano de prática política, compromete a integridade dos valores que informam e dão significado à própria ideia de República, frustra a consolidação das instituições, compromete a execução de políticas públicas em áreas sensíveis como as da saúde, da educação, da segurança pública e do próprio desenvolvimento do País, além de afetar o próprio princípio democrático.

Daí os importantes compromissos internacionais que o Brasil assumiu em relação ao combate à corrupção, como o evidencia a subscrição, por nosso País, da Convenção Interamericana contra a Corrupção (celebrada na Venezuela em 1996) e da Convenção das Nações Unidas (celebrada em Mérida, no México, em 2003).

As razões determinantes da celebração dessas convenções internacionais (uma, de caráter regional, e outra, de projeção global) residem, basicamente, na preocupação da comunidade internacional com a extrema gravidade dos problemas e das consequências nocivas decorrentes da corrupção para a estabilidade e a segurança da sociedade, eis que essa prática criminosa enfraquece as instituições e os valores da democracia, da ética e da justiça, além de comprometer a própria sustentabilidade do Estado democrático de direito, considerados os vínculos entre a corrupção e outras modalidades de delinquência, com particular referência para a criminalidade organizada, a delinquência governamental e a lavagem de dinheiro.

Esses vergonhosos atos de corrupção parlamentar, profundamente lesivos à dignidade do ofício legislativo e à respeitabilidade do Congresso Nacional, alimentados por transações obscuras idealizadas e implementadas em altas esferas governamentais, com o objetivo de fortalecer a base de apoio político e de sustentação legislativa no Parlamento brasileiro, devem ser condenados e punidos com o peso e o rigor das leis desta República, porque significam tentativa imoral e ilícita de manipular, criminosamente, à margem do sistema constitucional, o processo democrático, comprometendo-lhe a integridade, conspurcando-lhe a pureza e suprimindo-lhe os índices essenciais de legitimidade, que representam atributos necessários para justificar a prática honesta e o exercício regular do poder aos olhos dos cidadãos desta Nação.

Esse quadro de anomalia, Senhor Presidente, revela as gravíssimas consequências que derivam dessa aliança profana, desse gesto infiel e indigno de agentes corruptores, públicos e privados, e de parlamentares corruptos, em comportamentos criminosos, devidamente comprovados, que só fazem desqualificar e desautorizar, perante as leis criminais do País, a atuação desses marginais do Poder."

O sector da saúde mais pobre e mais desvalorizado.

Em entrevista à Revista da Ordem do Psicólogos Portugueses - Psis 21, n.º 2 -, Manuel Viegas Abreu, professor catedrático jubilado da Universidade de Coimbra, explica a situação da saúde mental em Portugal.


Disse uma vez numa entrevista que o sector da saúde mental é o mais pobre de todos...

Sim, o mais pobre e o mais desvalorizado. O mais pobre porque é o sector da saúde com menos recursos financeiros e também com menos recursos humanos. O sector da saúde mental tem sistematicamente o orçamento mais baixo de todos os sectores da saúde, orçamento que está centrado nas despesas com "camas" (ou seja, internamentos hospitalares) e com fármacos. O que significa que falta dinheiro para investir em estruturas, serviços e programas de Reabilitação Psicossocial e outras valências terapêuticas em que as intervenções psicológicas são de uma efectividade cientificamente demonstrada.

Desvalorizado porquê? Porque nos planos de tratamento dos doentes não são integradas outras modalidades de cuidados com as intervenções psico-educativas de doentes ou familiares, as terapias cognitivo-comportamentais e as actividades de Reabilitação Psicossocial. Trata-se de um «sintoma» da desvalorização com que a saúde mental é encarada pelas autoridades responsáveis pela melhoria da qualidade da saúde em Portugal. É preciso mudar esta situação.

Como é que se faz essa mudança?

A mudança requer a sensibilização de diversos agentes sociais e exige a conjugação de esforços de muitas organizações desde Associações de doentes e seus familiares até às Universidades (...). É indispensável reconhecer e proclamar que a reabilitação psicossocial é um direito das pessoas com doença mental e um dever do Sistema nacional de Saúde.

Actualmente dirige a Associação ReCriar Caminhos. Pode explicar em que consiste?

Associação ReCriar Caminhos foi criada no final de 2008 com o objectivo de contribuir para o apoio ao desenvolvimento vocacional, formação e inclusão social de pessoas com esquizofrenia. Ao afirmar que a reabilitação social das pessoas com esquizofrenia é possível, com base em experiências e dados científicos provenientes de outros países, a Associação está a defender um direito dessas pessoas, a pressionar as autoridades responsáveis pela política de saúde e a sensibilizar os cidadãos para a necessidade de integração da reabilitação psicossocial no sector da saúde mental.

segunda-feira, 1 de outubro de 2012

A moral da história

No próximo dia 3, quarta-feira, estarei no Rio de Janeiro, na Universidade Federal Fluminense, para fazer uma palestra intitulada "A Moral da História: Ética, Estética e Literatura". Trata-se de uma intervenção no VIII Seminário do Núcleo de Estudos de Literatura Portuguesa e Africana.


GOSTAR DE SABER É, AFINAL, UM PORMENOR...

Texto (paradoxalmente) na sequência do texto do Professor Galopim de Carvalho.

Os estudantes do ensino superior devem estar conscientes de que estudar dá trabalho e nem sempre se traduz em boas classificações. Bem vistas as coisas, não compensa, até porque há alternativas mais simpáticas para alcançar o sucesso e, afinal, gostar de saber é um pormenor. Por isso, no início de um ano lectivo e até, se possível, de um curso aproveitará a muitos ter em conta conselhos como os que se seguem:
"«(...) via colegas meus passarem demasiado tempo em frente dos livros, a sublinhar coisas»
(...) descreve, ali, a melhor altura para sacar a cábula, durante um exame. Ou a importância dos enunciados de testes dos anos anteriores - os professores gostam de repetir perguntas «Quando os professores não deixam levar o teste para fora da sala, podes sempre tirar uma fotografia discretamente. Se chumbares, vais ter o enunciado para estudar. Aproveita e partilha a foto com os teus amigos (não te esqueças de tirar o som, para que o teu professor não oiça a máquina a disparar...)». Quanto ao uso de cábulas: «É tão fácil ser mais esperto do que o professor (...). Se os professores não gostam de fazer e corrigir exames, ainda odeiam mais a vigilância do mesmo. E fazem tudo para que aquelas duas horas passem depressa: lêem o jornal, trabalham nos seus artigos científicos, preparam aulas, jogam no telemóvel, alguns até vão fumar um cigarro!»" 
De quem são estes conselhos? De um (agora) professor (português) do ensino superior. E também empresário de sucesso (em Portugal). Fala quem sabe!

Está tudo em livro, que é bem capaz de ser, se já não é, um sucesso de vendas. Muita gente quererá conhecer os truques que permitem obter os melhores resultados com o menor esforço, empenho ou gosto. E, aposto, ficará extasiada com cada um deles, pela "esperteza" que revela.

Isto é o nosso país no seu melhor, presumo!

PS. A notícia em que me baseei para escrever este texto foi-me enviada por um aluno que tive no curso de Ciências da Educação.

GOSTAR DE SABER E DEVER CÍVICO DE ESTUDAR

Texto do nosso já habitual colaborador Professor Galopim de Carvalho

Gostar de saber é uma das chaves que abrem as portas ao binómio ensino-aprendizagem e, portanto, ao sucesso escolar e à valorização do indivíduo. A outra, não menos importante, é a consciência do dever cívico de estudar. E estudar é trabalhar. Compete aos pais, em casa, e aos professores, na escola, desenvolver uma e outra.

Terminada a licenciatura em Geologia, em 1961, e sem qualquer preparação no domínio das ciências da educação, comecei imediatamente a leccionar, primeiro como assistente em aulas práticas e, só mais tarde, após o doutoramento, como regente de aulas teóricas. Os tempos eram outros e a tarimba do docente universitário desse tempo era passar pela maioria, senão todas, as disciplinas do Departamento. Quer em trabalhos prático no laboratório e no campo, quer em auditórios, por vezes com mais de uma centena de alunos, os docentes dos anos 60 e 70 do século que virou eram conduzidos a uma visão eclética da área científica da respectiva licenciatura.

Tal procura de ecletismo, consentida por uma então muito menor especialização do saber científico, estava bem patente nas modalidades de doutoramento e de agregação de então, marcadas por provas incidindo sobre a totalidade das disciplinas dessa área científica, em complemento das necessárias dissertações. O docente da minha geração criava a sua própria pedagogia, determinava-lhe os conteúdos, regia-a a seu modo e examinava os próprios alunos no final do ano ou do semestre.

Por razões diversas, umas bem conhecidas, outras não tanto assim, é frequente, numa qualquer turma, haver um, dois ou mais estudantes menos motivados, visivelmente desinteressados da matéria em estudo. Face a estes alunos, logo identificados nas primeiras aulas, adoptei uma estratégia que quase sempre resultou. Dava-lhes mais atenção, procurando estabelecer com eles um relacionamento de simpatia, que não era difícil transformar-se em afectividade, lhes tornava agradável o convívio comigo e, consequentemente, a frequência às aulas. Colocava-lhes problemas muito simples, ajudando-os a resolvê-los sem que dessem conta dessa ajuda. Posto isto, elogiava os seus progressos e dava-lhes tratamento que lhes despertava auto-estima, os estimulava a gostar de saber e, por essa via, a gostar de estudar. Para as dúvidas e para recuperarem parte dos atrasos, contavam comigo sem reservas nem receios de revelar dificuldades. Ganha esta intimidade e estabelecida uma relação de confiança, era fácil abordar temas que fossem dar à cidadania e ao dever cívico do estudante – estudar.

Este modo, que foi o meu, de conviver com os alunos, transparente, alegre, cordial, responsável e afectivo, tinha como consequência a presença nas aulas da grande maioria dos alunos, do começo ao fim do curso. Uma grande aproximação entre nós intensificava-se nas saídas ao campo e tinha efeitos benéficos até durante os exames, em especial, nas provas orais. Nestas o estudante sentia-se na presença de quem lhe transmitia conhecimento, mas também de um amigo, e não na de um qualquer frio e distante examinador.

Galopim de Carvalho

PASSAPORTE DE CIDADANIA PARA IR ONDE? FAZER O QUÊ?

Há poucos anos integrei na minha colecção de "produtos pedagógicos estranhos" uma folha que me chegou às mãos cujo título é "...