sexta-feira, 4 de junho de 2010

SÓ E MAL ACOMPANHADO


Minha crónica no "Público" de hoje:

Nunca José Sócrates esteve tão só. E há boas razões para ter sido votado ao abandono pelo eleitorado, como é manifesto nos números de sondagens recentes. Nós demos-lhe, nas últimas eleições legislativas, o benefício da dúvida. E ele, à semelhança aliás do que aconteceu em eleições anteriores com outros primeiros-ministros, deu-nos, em troca, o malefício da dívida. Não, o país, há muito endividado e sem força anímica, não mudou. E a governação do país também não. Ainda está para nascer um político que, nas vésperas de ir a votos, nos fale a verdade. E nos fale dos juros verdadeiros em vez de nos encher de juras falsas.

O primeiro-ministro japonês, Yukio Hatoyama, acaba de anunciar a sua demissão, ao fim de oito meses de governação, alegando que as pessoas “deixaram de o ouvir”. Entre nós é notória uma quebra de confiança com contornos semelhantes, que vem agravar os nossos males tanto externos como internos. Quando ouvimos o nosso primeiro-ministro dizer – e foi há muito pouco tempo - que não ia subir os impostos e hoje o vemos faltar à palavra dada, ainda por cima com efeitos retroactivos, ficamos na dúvida se amanhã não vai ser pior. No Parlamento ou noutro sítio raramente tem apresentado argumentos seguindo uma linha coerente, antes se limitando a invectivar os adversários (uma táctica que obviamente não resulta quando não se tem a maioria absoluta). Da última vez não esteve sequer a defender o agravamento fiscal, deixando só o ministro das Finanças. Em clara fuga à solidão doméstica, entrou num ziguezague no estrangeiro. Não é apenas penoso ouvi-lo falar portunhol em Madrid, também o é vê-lo, mais uma vez, em Caracas, a vender computadores Magalhães ao seu amigo Hugo Chávez. No Rio de Janeiro, primeiro pediu um cafézinho e um bate-papo a Chico Buarque (podia ter mandado uma mensagem: “Meu caro amigo me perdoe, por favor / Se eu não lhe faço uma visita / Mas como agora apareceu um portador / Mando notícias nessa fita (...) Mas o que eu quero é lhe dizer que a coisa aqui tá preta.”) e depois retirou um convite para jantar a Caetano Veloso. E quem se anima por sabê-lo em Marraquexe a exportar para Marrocos o TGV que não temos nem vamos ter tão cedo, porque a Espanha deve entretanto adiar o projecto?

Hatoyama saiu por causa da manutenção de uma base militar, que ele na campanha eleitoral tinha prometido transferir, e por causa de casos indecorosos que abalaram correligionários seus. Uma questão de honra, portanto. Mas, por aqui, nem falsas promessas nem escândalos fazem cair governos. O primeiro-ministro português está só, divorciado do país por causa das falsas promessas. Mas está também mal acompanhado, como transparece dos vários escândalos que o atingem. Uma das suas companhias é um deputado que, qual vulgar carteirista, surripiou gravadores a jornalistas em pleno Parlamento sem ser alvo de qualquer censura por parte dos seus pares. Outra das suas companhias é um ex-bancário e agora banqueiro que o informava por SMS, em tempo real, das saídas dos locutores numa televisão privada. Outra ainda das suas companhias é o secretário de estado do Emprego, que, formado nas mentiras do “eduquês”, não aceita as estatísticas da União Europeia sobre o desemprego, negando a aflitiva realidade dos cada vez mais portugueses sem trabalho. Os três, apesar dos escândalos, mantêm os seus chorudos empregos (o informador continua a receber um salário de truz, apesar de o banco o ter suspenso de funções). Poderá dizer-se que são pequenas ofensas aos bons costumes comparadas com as dos japoneses. Há-as, porém, aqui bem maiores, algumas com afloramentos nos casos apontados.

Sócrates encontrou lenitivo para a sua solidão no “tango” com o novo líder da oposição. Estará, desta vez, em boa companhia? O que sucederá no fim da dança? Muitos eleitores, conhecedores do comum tirocínio nas juventudes partidárias e da comum licenciatura em universidades privadas, receiam que o futuro primeiro-ministro não seja muito diferente do actual. Oxalá estejam enganados.

quinta-feira, 3 de junho de 2010

João Aguiar

João Aguiar, jornalista de formação e profissão, mas sobretudo escritor por, desde os nove anos, querer escrever, deixa-nos belas páginas em português, que se têm transformado em belas páginas em italiano, alemão, espanhol... E mais do que belas, esclarecidas e críticas, ácidas algumas, como é preciso, nesse reduto de liberdade que é a literatura.


"Ninguém acompanhava ou parecia acompanhar os processos do meu raciocínio. No entanto, o meu raciocínio parecia-me simples, claro, banal, mesmo: se é cada vez mais certo que nada temos de seguro, que a nossa vida não tem apoio e a nossa única certeza é a dúvida, então há que saber fazer de cada pequeno momento uma pequena alegria, para ir afastando, enquanto for possível, a escuridão e a loucura.

Esta concepção pessimista produz um optimismo quotidiano que tenta fazer de cada ocasião uma boa ocasião. Por exemplo: ter o cachimbo aceso, com o fornilho quase em brasa bem apertado na palma da mão."

In Os comedores de pérolas, 9 de Agosto.

Quatro novos livros da "Classica Digitalia"

Informação recebida pelo De Rerum Natura.

Os Classica Digitalia têm o gosto de anunciar quatro novos livros, resultantes de uma crescente partilha de trabalhos dentro do espaço lusófono.

Relembra-se que todos os volumes são editados em formato tradicional de papel e também na biblioteca digital de acesso livre.

I. Colecção Autores Gregos e Latinos – Série Textos Gregos

- J. A. Segurado e Campos: Licurgo. Oração Contra Leócrates. Tradução do grego, introdução e notas (Coimbra, CECH/CEC, 2010). 285 p.PVP: 16 Euros)


II. Colecção Autores Gregos e Latinos – Série Textos Latinos

- Márcio Meirelles Gouvêa Júnior: Gaio Valério Flaco. Cantos Argonáuticos – Argonautica. Tradução do latim, introdução e notas (Coimbra, CECH, 2008). 242 p.PVP: 14 Euros)

III. Série Monografias

- Cristina Santos Pinheiro,
O percurso de Dido, rainha de Cartago, na Literatura Latina (Coimbra, CECH/CEC, 2010). 196 p.PVP: 11 Euros)

- Ricardo Nobre, Intrigas Palacianas nos Annales de Tácito. Processos e tentativas de obtenção de poder no principado de Tibério (Coimbra, CECH/CEC, 2010). VI + 205 p.PVP: 13 Euros)

A RISOTA PEDAGÓGICA

“O riso é a mais antiga e ainda a mais terrível forma de crítica” – Eça de Queiroz.

No dia 30 de Maio p.p., Helena Damião publicou neste blogue uma sátira intitulada "Ginástica de fole: riso por e para professores”. Nela, muito oportunamente, dá-nos conta da realização de um curso, ministrado por um formador/professor/licenciado/mestre, destinado a professores do ensino básico e ensino secundário e auxiliares de acção educativa, e não só! O conhecimento deste curso deixar-me-ia atónito não se desse o caso de ter tido conhecimento de um outro curso de (de)formação de professores promovido por um sindicato de professores.

Para que o leitor se possa rir a bandeiras despregadas com a vantagem de não pagar propinas, fica, desde já, aqui a promessa da descrição detalhada e preciosa deste último curso que em nada fica a dever aquele sob o ponto de vista “científico e pedagógico”, excedendo-o, até, largamente no número de formadores e respectivas especializações. Reporto-me a um artigo publicado no Público, em 8 de de Maio de 2005, da autoria do respectivo director adjunto Nuno Pacheco, com o sugestivo título “Brincar às escolas”. Neste texto assume real importância o aforisma latino: “Ridendo castigat mores” ("a rir se castigam os costumes"). E que costumes!

Este artigo (que se encontra transcrito no meu livro "O Leito de Procusta": crónicas sobre o sistema educativo", edição do SNPL, Outubro de 2005, p. 81) seria verdadeiramente hilariante se não espelhasse a tragédia de certos cursos nacionais de formação para professores, como se verá pela respectiva transcrição integral que faço a seguir:

“Portugal espanta-nos sempre. Mesmo quando imaginamos que nada pior pode já acontecer, alguém se encarrega de vir desenganar-nos. Veja-se o seminário 'Dicas para ser melhor professor(a)' convocado para 11 e 12 de Maio em Lisboa e organizado por uma autodeterminada 'pró-Ordem dos Professores'. Vale a pena descrever, na íntegra, os objectivos de tal encontro, tal como vêm escritos no folheto no folheto, sem omitir um único: 'Como arranjar a sala de aula para facilitar a aprendizagem? Qual a melhor postura a adoptar? Como colocar a voz? Como gesticular? Que gestos devo evitar? De que cor me devo vestir? De que cor deve ser a sala de aula? Como gerir conflitos? Que legislação devo saber de cor? Como relaxar os alunos antes da aula? Como auto-relaxar? É importante saber os signos dos alunos para transmitir melhor a matéria? Se um aluno sofrer um acidente que primeiros socorros devo saber? Como aplicar estas dicas na escola, em casa, aos alunos e a mim?'. Lê-se e, por melhor boa vontade, não se acredita. Não há pasmo que consiga descrever a sensação de estar perante tamanho disparate. Ainda vamos descobrir que os males do nosso ensino se devem aos cortinados das escolas, ao mau design dos equipamentos ou ao perfume usado pelos professores. Talvez ajude um pouco de meditação transcendental, talvez exercícios tântricos, talvez 'feng shui'... Mas o pasmo aumenta à medida que se vai lendo a lista dos especialistas convidados para as palestras: um colaborador do programa da SIC “querido mudei a casa” (imagina-se a variante 'pedagógica': 'queridinhos alunos, mudámos a escolinha!'), um actor de telenovela Morangos com Açucar, uma 'formadora em marketing e relações públicas, uma terapeuta de energias, uma astróloga 'licenciada em comunicação' um psicólogo, uma enfermeira, uma professora/advogada para explicar leis e alguém da Associação de Mediadores de Conflitos para, naturalmente, descodificar os artifícios da concórdia. No intervalo, sem desprimor para os ditos, haverá pastéis de Belém junto com o café.

É espantoso como em pleno século XXI, se promove um encontro para os professores julgando colmatar com 'dicas' impensáveis a miséria do nosso ensino. É inacreditável como se fala de exercícios de relaxamento, de colocação de voz, de marketing, de cores, de energias e signos , e não se fale da única coisa que as escola devia fazer com a máxima competência e empenho: ensinar, com sabedoria e não com truques de feira; transmitir conhecimentos em condições como é apanágio das melhores escolas e colégios por esse mundo. É patético imaginar que em Harvard ou Oxford haja professores a discutir os benefícios de fazer 'exercícios de relaxamento' com os alunos. Porquê? Precisamente porque são professores e não diletantes do estilo e da forma, porque a sua missão na escola é a mesma de há séculos: formar cidadãos competentes e preparados para a vida e não patetas incapazes de articular um único pensamento aproveitável. Infelizmente o seminário da pró-Ordem é um sinal dos tempos: a mediocridade não se limita a corroer as mentes, já se arvora em ciência, uma 'ciência'que dá 'dicas’. Pobres de nós”.

Porque, segundo Bergson, “não existe cómico fora do que é verdadeiramente humano", o país de lés-a-lés ficou a saber que houve cursos (e haverá, pelo andar da carruagem) para o professor “brincar às escolas” e rir a bom riso, até ficar com dores de barriga, sem qualquer motivo para tal, apenas contagiado pelos colegas do lado. Mas não será mais do que altura de parar com a reinação, reflectir sobre o papel de certo sindicalismo docente, chamar a atenção de quem promove ou consente este tipo de cursos destinados à (de)formação de professores e, com a consciência aliviada, verter lágrimas copiosas por um ensino, por vezes, degradado até às fronteiras da indignidade?

Ou seja, não basta lamentar este statu quo. Há que pôr cobro ao calvário de crianças e adolescentes das nossas escolas, vítimas indirectas e inocentes de um circo verdadeiramente funambulesco. Mas o pior de tudo isto é que tudo o que acontece neste país, seja no campo da educação, da saúde, da economia, da política e dos próprios costumes, é natural e tem explicação. Até o que não é nada natural!

Ciência na UL: A cultura Portuguesa em Negativo

Mais uma palestra do ciclo Ciência na UL - Ciência em Português. Informação recebida da Universidade de Lisboa:


Sexta-feira, 4 de Junho de 2010
18:30 - 20:00
Museu da Ciência da Universidade de Lisboa (Anfiteatro Manuel Valadares)

José Eduardo Franco
Centro de Literaturas e Culturas Lusófonas e Europeias, Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa

Tema: A cultura Portuguesa em Negativo: “Anti-semitismo, antijesuitismo, antiprotestantismo, antimaçonismo, anticomunismo, antifeminismo,...”

Sinopse:
Abordaremos de uma forma analítica algumas das mais significativas correntes e discursos centrados numa percepção negativa de um ‘Outro’ (p. ex. antisemitismo, anticlericalismo, antifeminismo, anticomunismo, antimaçonismo, antiamericanismo, …) no âmbito da história da cultural portuguesa. Neste sentido, procuraremos compreender de que modo os discursos propagandísticos e intolerantes criaram e demonizaram as diferenças. Lançaremos, pois, um olhar hermenêutico sobre a história da cultura através de imagens em ‘negativo’, para empregar uma metáfora fotográfica.

quarta-feira, 2 de junho de 2010

Início do "Big Bang"

Início do livro "Big Bang" de Simon Singh, recentemente publicado pela Gradiva:

"No princípio

A ciência deve começar com os mitos e com a crítica dos mitos.
Karl Popper

Não me sinto obrigado a acreditar que o mesmo Deus que nos dotou de bom senso, racionalidade e intelecto quisesse que renunciássemos ao seu uso.
Galileu Galilei

Viver na Terra pode ser caro, mas inclui uma viagem anual grátis à volta do Sol.
Anónimo

A física não é uma religião. Se fosse, teríamos muito mais facilidade em conseguir financiamento.
Leon Lederman


O nosso universo é pontilhado por mais de 100 mil milhões de galáxias, cada uma delas com mais ou menos 100 mil milhões de estrelas. Não sabemos ao certo quantos planetas existem na órbita destas estrelas, mas sabemos, com certeza, que num desses planetas se desenvolveu vida. Em particular, há uma forma de vida que teve a capacidade e a audácia de especular sobre a origem deste vasto universo.

Os seres humanos olham para o espaço há milhares de gerações, mas nós temos o privilégio de pertencer à primeira geração que pode afirmar ter uma descrição respeitável, racional e coerente da criação e da evolução do universo.

O modelo do Big Bang oferece-nos uma explicação elegante da origem de tudo o que se vê no céu nocturno, o que constitui um dos maiores feitos de sempre do intelecto e do espírito humanos. É a consequência da nossa curiosidade insaciável, de uma imaginação fabulosa, de observações apuradas e de uma lógica implacável.

O que é ainda mais maravilhoso é que o modelo do Big Bang pode ser entendido por todos. Na adolescência, quando ouvi falar pela primeira vez do Big Bang, fiquei fascinado com a sua simplicidade e beleza, e por ter sido construído com base em princípios que, em grande medida, não iam além da física que estava a aprender na escola. Da mesma forma que a teoria da selecção natural de Charles Darwin é simultaneamente fundamental e compreensível para a maioria das pessoas inteligentes, também o modelo do Big Bang pode ser explicado em termos que façam sentido para os não especialistas, sem ser necessário distorcer os conceitos essenciais da teoria. Mas antes de irmos ao encontro dos primórdios do modelo do Big Bang necessitaremos de algumas bases.

O modelo do Big Bang do universo foi desenvolvido nos últimos cem anos. No entanto, as conquistas do século XX só foram possíveis porque se apoiaram em alicerces da astronomia construídos em séculos anteriores. Por sua vez, estas teorias e observações do céu foram sendo introduzidas numa estrutura científica laboriosamente criada ao longo de dois milénios. Recuando ainda mais no tempo, o método científico como via para a verdade objectiva sobre o mundo material só floresceu quando o papel dos mitos e do folclore começou a declinar. No fundo, as raízes do modelo do Big Bang e o desejo de uma teoria científica do universo recuam ao declínio da antiga visão mitológica do mundo."

A MATEMÁTICA DA NOVA FÍSICA


Resumo da palestra que vou fazer na Biblioteca Eduardo Lourenço na Guarda no próximo sábado, dia 5 de Junho, pelas 15h30. A palestra é organizada pela Sociedade Portuguesa de Matemática inserindo-se no programa "Tardes de Matemática":

Quando em 1926 Heisenberg, Schroedinger, Dirac e outros propuseram, na senda de trabalhos de Planck, Einstein, Bohr, de Broglie e outros, a mecânica quântica - em duas versões, a mecânica de matrizes e a mecânica ondulatória, que se mostrou logo serem equivalentes - não foi necessário criar matemática nova. O mesmo já tinha aliás acontecido antes com outro ramo da nova física, a teoria da relatividade.

A matemática da mecânica quântica incluía a álgebra linear e o cálculo infinitesimal (teoria das equações diferenciais), mas também e principalmente a análise funcional, uma vez que requeria o uso de funções complexas definidas em espaços de Hilbert, que eram actuadas por operadores. A teoria quântica, por se referir muitas vezes à noção de simetria, fornecia também belas aplicações da teoria de grupos que os matemáticos já tinham desenvolvido.

A beleza matemática presidiu algumas vezes à descoberta, como mostra, por exemplo, a equação de Dirac para o electrão. Foi Dirac que disse: "Este resultado é demasiado bonito para ser falso. É mais importante ter beleza nas equações do que tê-las de acordo com a experiência".

Por seu lado, o significado físico da função de onda, devido a Born, remete para o conceito de probabilidade, trazendo para o palco da física fundamental a teoria das probabilidades e a estatística.

A descrição da Natureza necessita pois de vários ramos da matemática que aparecem "entrelaçados" e que foram antes desenvolvidos pelos matemáticos sem qualquer ligação com o mundo físico. A questão foi bem colocada por Wigner, outro dos grandes nomes da teoria quântica: "Há uma desrazoável efectividade da matemática, na descrição do mundo natural", ou, noutro passo, "o milagre da adequação da linguagem matemática para a formulação das leis da física é um presente maravilhoso que não compreendemos nem merecemos." Ou, por outras palavras, como disse, séculos antes, Galileu: "O Livro da Natureza está escrito em caracteres matemáticos".

FÍSICO PASSEIA COM FAMÍLIAS PELA CIÊNCIA ESCONDIDA NA CIDADE


Texto recebido do Museu da Ciencia de Coimbra

Dia 6 de Junho às 11 horas, o Museu da Ciência desafia adultos e crianças a acompanhar o físico Francisco Gil num passeio original pela cidade de Coimbra.

Que a Ciência não mora apenas nos livros, todos sabemos. Mas quantos de nós já tiveram oportunidade de descobri-la... nas ruas que percorremos habitualmente? No dia 6 de Junho, a partir das 11 horas, o Museu da Ciência da Universidade de Coimbra (UC) desafia curiosos de todas as idades a partirem em busca da Física que se esconde nos recantos da cidade.

A iniciativa está integrada no projecto "Trilhos", um conjunto de passeios pedestres que pretendem dar a conhecer, uma vez por mês e pela mão de investigadores da UC, os segredos científicos mais-bem guardados das ruas de Coimbra.

Em Junho, o passeio está a cargo do físico Francisco Gil, professor auxiliar da Faculdade de Ciência e Tecnologia, onde é responsável pelo Laboratório de Óptica Avançada e Fototómica e coordenador dos cursos de licenciatura e mestrado em Conservação e Restauro.

Que histórias nos contam as cores dos edifícios da cidade de Coimbra? E que segredos estão por trás da arquitectura utilizada? Afinal, por que é que Coimbra é como é?

"Quando passeamos pela cidade, habitualmente não nos apercebemos de aspectos macroscópicos da urbanização, nos seus diversos volumes, formas arquitectónicas e cores, nem de aspectos microscópicos, como os materiais de construção e nomeadamente os revestimentos", explica Francisco Gil.

A proposta para este passeio é, por isso, redescobrir Coimbra a partir do olhar da Física. Em destaque vão estar, entre outros temas, a evolução das cores que caracterizam a paisagem urbana, os problemas associados à degradação exterior dos edifícios e à sua reabilitação, revela Francisco Gil.

A participação no "Passeio com a Física" custa três euros por pessoa e requer marcação prévia junto do Museu da Ciência da UC (telefone: 239 85 43 50). Para mais informações, os interessados poderão consultar o site do museu (http://www.blogger.com/www.museudaciencia.org).

Depois de passeios com a Química e com a Física, o projecto "Trilhos" regressa no dia 4 de Julho, com uma visita às plantas mais surpreendentes da cidade de Coimbra, uma cortesia do investigador António Coutinho, do Departamento de Ciências da Vida da Faculdade de Ciências e Tecnologia da UC.

Os livros de Maio da Gradiva

Press release recebido da editora Gradiva

José Eduardo Franco, José Augusto Mourão e Ana Cristina da Costa Gomes (dir.)
Dicionário Histórico das Ordens e Instituições Afins em Portugal

UMA OBRA ÚNICA, MONUMENTAL. DEZ ANOS DE TRABALHO MUITO EXIGENTE E QUALIFICADO

Pela primeira vez na história editorial portuguesa e internacional é publicado um dicionário de horizonte tão abrangente dedicado às ordens e às suas metamorfoses, à luz de um ideário de ecumenismo cultural e científico. Centenas de instituições, umas mais conhecidas e outras praticamente incógnitas, encontram nesta obra um espaço de conhecimento que até hoje nunca tinha sido sistematizado deste modo e disponibilizado ao grande público. Ordens e instituições católicas, protestantes, hindus, budistas, maçónicas, esotéricas, templárias, míticas, honoríficas e profissionais são aqui dadas a conhecer com rigor e amplitude de visão, tendo-se procedido também à análise daquilo que tem sido a dimensão do seu papel e influência na sociedade portuguesa. Em ano de comemoração do Centenário da Primeira República, publicar uma obra tão englobante, que envolve numerosos investigadores e instituições da Igreja, da Maçonaria, de ordens profissionais e esotéricas, entre outros, é um verdadeiro exercício de democracia, de liberdade, de inclusão e de tolerância.

TIRAGEM LIMITADA PARA VENDA AO PÚBLICO RESERVE JÁ O SEU EXEMPLAR


«Fora de Colecção», nº 332, 1020 pp., € 99,00


Cyril Aydon
Breve História da Humanidade - Cento e cinquenta mil anos da nossa história

A história da nossa espécie baseada na investigação histórica e arqueológica mais recente, numa perspectiva que não a das minúcias da história convencional – de reis e rainhas, batalhas e tratados – mas das ideias e das inovações que mudaram a nossa forma de viver e moldaram o mundo actual. Trata-se de uma obra abrangente e pluridisciplinar que interessará a todos os leitores que procuram conhecimento. Mais um grande livro Gradiva.

«Trajectos», nº 83, 516 pp., €26,00


Avraham Milgram
Portugal, Salazar e os Judeus

Trabalho pioneiro de investigação histórica sobre os judeus perseguidos pelo nazismo em Portugal durante a Segunda Guerra Mundial, baseado em documentação portuguesa e nos arquivos israelitas. O autor, historiador do Museu do Holocausto em Jerusalém, analisa com rigor os principais protagonistas do drama: de Salazar e PVDE à elite social e política portuguesa e aos líderes da Comunidade Israelita de Lisboa. Nesta obra, mostra-se que a neutralidade de Portugal não garantiu imunidade ao confronto moral e ético suscitado pela questão judaica.

«Trajectos Portugueses», nº 84, 432 pp., € 19,00


Bento de Jesus Caraça
Escritos de Economia Matemática

Com organização e um estudo introdutório de Carlos Bastien, um livro que reúne escritos de uma faceta porventura menos conhecida de Bento de Jesus Caraça. Com rigor e intuito pedagógico, interessará de igual forma a economistas e matemáticos.

«Temas de Matemática», nº 10, 240 pp., € 14,50

terça-feira, 1 de junho de 2010

O FIM DAS HUMANIDADES? (3)

(CONCLUSÃO)

A antologia de textos de Brockman, escritos por eminências como Stephen Jay Gould, Richard Dawkins ou Paul Davies, entre muitos outros, evidencia a possibilidade de se escrever de modo claro, acessível e não raro brilhante para um público não iniciado. E saboreia-se, com gozo traçado de alguma melancolia, as farpas lançadas por Jay Gould aos intelectuais tradicionais: “A terceira cultura”, diz o autor de O Sorriso do Flamingo, “é uma ideia extremamente poderosa! Existe algo de parecido com uma conspiração, entre intelectuais literários que se tomam por donos da paisagem intelectual e das revistas de avaliação crítica, quando, de facto, há um grupo de escritores de não ficção, largamente oriundos das ciências, que possuem todo um exército de ideias fascinantes sobre que as pessoas querem ler". E, sublinha com fina ironia, “alguns de nós são escritores decentes e exprimem-se razoavelmente bem.” Gould cita, em abono da sua causa, o laureado com o Nobel, pelos seus estudos sobre imunologia, Sir Peter Medawar, além de mais, notabilíssimo escritor, “um cientista humanista e classicamente educado, [que] afirmou ser injusto que um cientista que não conhecesse nem arte nem música muito bem fosse, entre a gente da literatura, considerado um pateta e um filistino, ao passo que os literatos pensavam não terem necessidade de conhecer fosse o que fosse de ciência, para serem considerados pessoas educadas; tudo o que uma pessoa educada teria que saber era arte, música e literatura, mas não qualquer pedacito de ciência.” As espadas desembainhadas começavam a brilhar com fulgor intenso nas mãos de alguns dos mais notáveis cientistas que se mostravam, na esteira de Pascal, Descartes, Whitehead ou Russell, exímios ou mesmo grandes escritores (um deles, Russell, para grande pirraça de não poucos, laureado com o Nobel da... Literatura). O grande biólogo Richard Dawkins, por exemplo, reagiu à arrogância exclusivista dos humanistas com estas palavras desbocadas e certeiras: “Sinto-me um tanto paranóico com aquilo que tomo por um autêntico assalto dos media intelectuais por parte da gente literária. Não se trata apenas da palavra «intelectual» . Eu reparei, aqui há dias, num artigo, da autoria de um crítico literário, intitulado “Teoria”. Vocês querem acreditar? “Teoria” aparecia ali a significar apenas “teoria na crítica literária”. Aparecia num periódico generalista, como um diário de domingo. A própria palavra “teoria” foi tomada de assalto para fins literários extremamente paroquiais e de vistas estreitas – como se Einstein não tivesse teorias; como se Darwin não tivesse teorias.” Mais acutilante ainda – e dou-vo-lo como acepipe – o físico teórico e notabilíssimo popularizador de ciência, Paul Davies diz coisas como esta: “A maior parte dos políticos, os media e as pessoas que controlam os media – são licenciados de Oxford. Como resultado disso, a percepção pública de um intelectual é a de um gentleman de óculos e cabelos grisalhos, que estuda mitologia grega, beberica sherry e impele com vara preguiçosa e contemplativa o barco, rio abaixo, por entre os terrenos de algum colégio antigo. E é com esta percepção que é dado um status que sugere serem os intelectuais das artes e das letras que detêm o monopólio outorgado por Deus das grandes questões da existência.” Mas Davies, além de caricaturar sobre um aflitivo fundo de verdade, avisa: “O facto de os cientistas começarem a ser ouvidos, captando não só os espíritos mas também os corações da população – como se evidencia pelo fenomenal êxito dos livros de ciência – está a provocar o que se parece muito com uma gritaria territorial para os lados das letras. A repercussão disto tem assumido a forma de um palavreado histérico nos jornais e periódicos , e uma chuva de livros que denunciam os cientistas como fraudes arrogantes e interesseiras. [...] Durante anos e anos, os cientistas foram ignorados porque não eram ouvidos; agora que começam a ser ouvidos, são violentamente atacados por uma máfia intelectual.”

Sem negar mais do que alguma razão aos motivos que têm tido os cientistas para reagir, devemos, no entanto, lamentar que as coisas tenham chegado a este ponto – porque a nenhuma das partes aproveitam. As ciências são obviamente importantes mas, para existirem e se imporem, não precisam de aniquilar, no seu progresso, as humanidades. A “terceira cultura” que visionava Snow – uma interfecundação entre as duas que lhe pre-existiam – parece-me bem mais produtiva (menos destrutiva) do que aquela que Brockman nos veio apresentar. Contei já, noutro lugar, a história do chefe de empresa que deparou com dificuldades aparentemente insanáveis, quando se dispôs a dar aos seus engenheiros a oportunidade de subirem pelo organigrama acima até aos lugares de topo. Até certo nível da hierarquia, tudo corria bem mas, a partir de um certo nível, nem os engenheiros se sentiam muito confortáveis com os lugares, nem os lugares pareciam ajeitar-se demasiado bem aos engenheiros. Qual a razão? O chefe da empresa quebrou a cabeça durante anos, até que lhe apareceu a incrível solução do mistério: o que faltava aos seus engenheiros para fluírem suavemente pela escada acima era um pouco de “cultura geral”.

Peço licença para transcrever, a concluir, o que então escrevi sobre este conto exemplar e verídico. “Custara-lhe [ao chefe de empresa] chegar a uma conclusão que agora o ofuscava, pela sua evidência, mas não tinha dúvidas: 'aquilo' que a cultura geral dá – uma [abertura] de espírito, uma visão alargada dos comportamentos humanos da complexidade do ser humano, da beleza, do conhecimento e do seu valor, dos incentivos que o homem valoriza, da complexidade dos relacionamentos, do apreço pelo prazer que a música e a literatura e a arte dão, para além do que ensinam, a descoberta de que 'os escritores transformam os factos que o mundo produz – pessoas, lugares e objectos – em experiências que sugerem significados' – tudo isto dá a quem o 'possui' um maior à vontade, uma maior fluência no comércio de todos os dias com os outros, seja no âmbito privado, seja no âmbito profissional. São vantagens que ajudam quando, no desempenho das suas profissões, o engenheiro [ou o médico] não tem que se confinar ao técnico, mas tem, sobretudo, que resolver problemas de relacionamento com os outros: de persuasão, de convicção na 'venda' de uma ideia ou de um projecto, que em muito depende de uma avaliação correcta do interlocutor, ou da empatia que se saiba construir e pode depender de uma súbita revelação de sintonia de gostos ou de valores....” O ensino das humanidades pode trazer tudo isto e muito mais aos cientistas, aos técnicos, aos empresários e até aos economistas – estes últimos em grande parte responsáveis pela introdução, nas universidades, de um “economicismo redutor” e incapaz de medir o valor e a necessidade de um certo “desperdício” que a universitas convoca e sempre convocou – Einstein “desperdiçou” os últimos 30 anos da sua vida na busca infrutífera de uma via que em tudo se desviava das correntes dominantes da Física do seu tempo. Não consta que a sua universidade lhe tenha pedido contas do tempo investido nem o tenha intimado à produção de n papers por ano lectivo. O economicismo que actualmente devora o ensino superior é um cancro devastador e significa o triunfo de uma miopia de efeitos nefastos. Nisto, também, um bom banho de humanidades poderá ajudar a transformar o universo universitário e empresarial. “É por isso que”, dizíamos nós no texto que há pouco dedicámos a este tema, “mais do que estar [criminosamente] a transformar os departamentos de humanidades em 'escolas de línguas', para os 'salvar' de forma pífia, haveria que utilizar o saber dos seus docentes, no sentido de se poder ensinar aos alunos de todos os departamentos da Universidade aquele 'sistema de ideias vivas que o tempo possui' (Gasset) e dá pelo nome de ...cultura.” Que não é, nem deve ser, evidentemente, património exclusivo dos literatos e humanistas, mas que, ao longo dos séculos, tem sido por eles protegido, acarinhado e desenvolvido. Assim se poderia “aproveitar”, de modo fecundo, um saber e um estar na cultura de que poderiam fruir no melhor sentido, os alunos de biologia, de medicina, de física, de química, de engenharia, de arquitectura, de agricultura... Ter lido Dickens, ou Stendhal, ou Sófocles, ou Tácito, ou Camões, ou Cesário Verde não é, para o estudioso de cultura científica, tão irrelevante como possa parecer. Einstein dizia, sem pestanejar, que tinha uma visão artística do universo. O fim das humanidades? Só se não tivermos imaginação para fazer melhor.

Eugénio Lisboa

O FIM DAS HUMANIDADES? (2)

(CONTINUAÇÃO)

Do lado dos intelectuais da cultura humanista, a reacção não tem sido boa. Como não compreendem, contra-atacam, desvalorizando e tentando impor, com o seu quê de arrogância, o primado dos seus próprios valores: ler Homero, ou Virgílio e tratar-se por tu com Shakespeare dispensa bem saber o que diz e significa o segundo princípio da termodinâmica. Os juristas, os letrados, os historiadores não raro “se gabam” de não terem inclinação para os números. Não perceber matemática é um galardão. O poeta inglês Wystan Hugh Auden disse um dia: “Quando me encontro na companhia de cientistas sinto-me como um pároco mal amanhado caído, por erro, numa sala repleta de duques.” Quase juraria tratar-se, aqui, não de genuína modéstia, mas sim, de falsa humildade, com o fim de (mal) esconder a alegria exuberante de poder manifestar o seu alheamento do “charabia” dos cientistas. Não ter inclinação nem para números nem para abstracções demasiado refinadas – é, para tantos, da nossa feira de vaidades, uma bandeira que se arvora com orgulho. E é assim que o fosso se aprofunda. Cada vez mais correríamos o risco de andar a criar duas linguagens sem denominador comum. O conhecido linguista americano Noam Chomsky julgou poder estabelecer que “todas as pessoas têm, programada nos seus genes, uma faculdade chamada gramática universal.” O avanço vertiginoso do cabedal científico do nosso tempo, desacompanhado de uma tentativa séria de o tornar partilhável pelo comum das pessoas pode levar a pôr em causa a assunção de Chomsky. Por um lado, como nota Asimov, “a ciência não pára. É uma paisagem que subtilmente se dissolve e altera enquanto a olhamos. Não pode ser fixada em todos os seus pormenores, num qualquer momento, sem nos deixar ficar para trás.” No entanto, de há várias décadas a esta parte, um número perigosamente elevado de pessoas foi-se deixando ficar para trás, para se não incomodar com a linguagem bizarra dos “duques”. E, todavia, o fosso real entre as duas culturas é, de sua natureza, bem menor do que se tem inculcado. O professor Sir Cyril Burt, num eloquente prefácio que escreveu para o celebrado e controverso livro de Arthur Koestler, The Act of Creation, notava com pertinência: “O estudante da natureza humana mostra-se hoje em dia muito inclinado a esquecer-se de que a maior parte do que sabemos sobre a mente do homem aprende-se em escritos, não de cientistas, mas de homens de letras – os poetas e os filósofos, os biógrafos e os historiadores, os romancistas e os críticos literários. Eu digo aos meus estudantes que leiam o Ensaio sobre o Homem de [Alexander] Pope, bem como livro de texto de Skinner sobre Ciências e Comportamento Humano (Pope foi poeta e Skinner cientista).” E concluía assim: “Mas, na verdade, o psicólogo moderno, tal como o jovem Bacon, precisa de 'meter todo o conhecimento dentro da sua província'.” Thomas Kuhn, o autor do celebrado livro A Estrutura das Revoluções Científicas, observava, com o seu quê de provocação, que, “mesmo hoje, a teoria geral [da relatividade] de Einstein, atrai os homens, principalmente por razões estéticas, uma atracção que poucas pessoas, fora das matemáticas, têm sido capazes de sentir.” E, já agora, lembrarei – o que por mais de uma vez fiz – o admirável livro de Bronowski, Science and Human Values, no qual o autor recorda que “a maçã [que cai] no jardim de verão e a grave lua [que se move] acima das nossas cabeças são por certo tão dissemelhantes nos seus movimentos quanto duas coisas o podem ser [mas que] Newton descobriu nelas duas expressões de um só conceito, a gravitação: e o conceito (e a unidade) são, nesse sentido, uma criação sua.” Newton teria, por outras palavras, encontrado “semelhanças escondidas” numa aparente dissemelhança. O mesmo faz o poeta, observa ainda Bronowski, porquanto “uma imagem poética [é apenas] a captação e a exploração de uma semelhança escondida, o manter unidas duas partes de uma comparação que assim se darão mutuamente um acréscimo de profundidade.” E conclui com uma saudável e fundamental audácia: “As descobertas da ciência, as obras de arte são explorações – melhor, são explosões de uma semelhança escondida. O descobridor [científico] ou o artista apresentam nelas dois aspectos da natureza e fundem-nos num só. Isto é um acto de criação, no qual nasce um pensamento original, e é o mesmo acto em ciência original e em arte original.” É neste mesmo – e essencial – sentido que Arthur Koestler, no toque de clarim com que abre o primeiro capítulo do seu livro The Act of Creation (que engloba na sua “província” as artes e as ciências), nos adverte com estas firmes palavras: “A fluidez de fronteiras entre Ciência e Arte é evidente, quer consideremos a Arquitectura, a Culinária, a Psicoterapia ou a escrita da História. O matemático fala de soluções 'elegantes', o cirurgião de uma 'bela' operação, o crítico literário de personagens bi-dimensionais. Diz-se que a ciência visa a Verdade, a Arte a beleza; mas os critérios de Verdade (tais como verificabilidade e refutabilidade) não são tão limpos e duros como tendemos a acreditar, e os critérios de Beleza são-no, é claro, ainda menos.”

Pois então, perguntava eu, num texto que em tempos escrevi para um simpósio de cientistas portugueses que viviam no estrangeiro, “se tanto de essencial aproxima o cientista do artista e do escritor criativo, não será o caso de se começar a fazer um pouco mais no sentido de se dar [nas universidade] expressão curricular a tal semelhança? Não será lisinhamente aconselhável que se acabe, de vez, com esse falso fosso que divide as duas culturas e se inclua, para maior abertura, equilíbrio e até alegria e sentido de descoberta de ambas as partes, [se inclua, dizia] no curriculum de alguns alguma matéria do pelouro dos outros? Não seria normal, fecundo e aproximador que durante algumas horas por semana as humanidades fecundassem a reflexão dos aprendizes de cientista, nas universidades, e vice-versa? Note-se que falo de fecundação curricular e não de docência tolerada a horas tardias [e voluntárias] de erosão e cansaço. A proposta pouco tem de idealista e nada tem de original. O mito da super-especialização [automaticamente estreitadora], como muitos outros mitos, começou há muito a meter água por todas as costuras. No fim de contas, homens como Einstein, Oppenheimer, Bento de Jesus Caraça, Mira Fernandes, Tiago de Oliveira ou António da Silveira, para só citar alguns ao acaso, eram vultos de ampla abertura cultural, fora do domínio específico em que se distinguiram. Se, como queria Durrell, “a ciência é a poesia do intelecto e a poesia é a ciência dos afectos do coração”, seria, a todos os títulos, recomendável que ciência e poesia melhor se conhecessem, para que o coração se aproprie um pouco mais da ciência e a ciência um pouco mais do coração.”

Era isto, em resumo, que Sir Charles Snow, ao lançar, em 1959, o alerta de As Duas Culturas, pretendia, no fundo: o aparecimento de uma terceira cultura que fechasse o fosso entre as outras duas. Seria esse o ideal a atingir. Começa-se, no entanto, a pensar – porque se começa a verificar – que a “terceira cultura” imaginada por Snow não corresponde exactamente à terceira cultura que começou de facto a emergir. No seu livro que recolhe textos antológicos de notáveis cientistas vivos, John Brockman, no prefácio que antecede a selecção , dá-nos conta daquilo em que parece estar a tornar-se, de facto, a terceira cultura. Brockman, no seu bem arguido comentário, observa: “Embora eu peça emprestada a Snow a frase [As Duas Culturas], ela não descreve a terceira cultura que ele previu. Os intelectuais literários não andam a comunicar com os cientistas. Os cientistas é que andam a comunicar directamente com o público em geral. Os media do intelectual tradicional jogavam um jogo vertical: os jornalistas escreviam de baixo para cima e os professores escreviam de cima para baixo. Hoje, os pensadores da terceira cultura tendem a evitar o intermediário e conseguem exprimir os seus pensamentos mais profundos de modo acessível ao público leitor inteligente.” Por isso, concluía Brockman, “os recentes êxitos editoriais de livros sérios de ciência só têm surpreendido os intelectuais do velho estilo."

O seu ponto de vista é que estes livros são anomalias – que são comprados mas não são lidos. Eu discordo. A emergência desta actividade da terceira cultura é o testemunho de que muita gente tem uma grande fome intelectual de novas e importantes ideias e estão desejosas de fazer o esforço necessário para se educarem. Se alguma coisa a terceira cultura veio fazer, foi marginalizar ainda mais uma classe de mandarins intelectuais antiquados e elitistas, abrindo-se à divulgação e livre discussão das ideias mais importantes e influentes do nosso século.

Eugénio Lisboa

(CONTINUA)

O FIM DAS HUMANIDADES? (1)

Novo post de Eugénio Lisboa:

Por todo o lado – e não só em Portugal – se começa a murmurar e até mesmo a proclamar em voz alta e indiciadora de algum pânico o fim dos estudos humanísticos, alegadamente cilindrados pela proeminência devastadora da cultura científica que, primeiro lentamente, depois em aceleração assustadora, se tem vindo a impor e a tomar conta do palco nos teatros do mundo. Como é de regra, também nesta história, não há culpados, de um lado, e inocentes, do outro. As culpas distribuem-se cartesianamente bem pelos dois lados e alguma inocência também. Quando, em 1959, C. P. Snow lançou o grito de alarme, com o seu célebre ensaio sobre As Duas Culturas, embora não estivesse a dizer nada de novo, levantou ondas de aplauso sonoro, simultaneamente com gritos de indignação e mesmo, nalguns casos, com feios exemplos de vitupério e de vitríolo. A reacção do célebre académico de Cambridge, F. R. Leavis, considerado pelos britânicos como o maior crítico literário do nosso tempo, ultrapassou, em violência e desaforo, tudo quanto a tradicional cautela universitária tem por costume aconselhar. Reacções destas não pareciam sugerir – como visara Snow – a futura construção de pontes que ligassem a cultura humanística à cultura científica. O bioquímico Michael Yudkin, aludindo à controvérsia e entrando nela em cheio, fazia uma lúgubre profecia, nestes termos: “Há, infelizmente, dúzias de culturas no uso que Sir Charles faz do termo, mesmo que o fosso entre o cientista e o não-cientista seja provavelmente o maior... Não haverá [no futuro] construção de pontes através desse fosso, não aparecerão modernos Leonardos, não haverá migração de cientistas para a literatura. Em vez disso, verificar-se-á a atrofia da cultura tradicional e uma gradual anexação feita pelo científico – anexação não de território mas de homens. Talvez não passe muito tempo até se chegar a uma cultura única que vai ficar.”

Nada disto fora a intenção de Sir Charles Snow, ao escrever o ensaio sobre As Duas Culturas. Num texto que publicou quatro anos depois (1963), Snow confessa, com alguma candura, que não esperava muito, em termos de reacção ao seu livro: “Não esperava grande coisa”, observa ele na adenda intitulada "Two Cultures: A Second Look”. E acrescentava: “Muita gente andava a dizer coisas semelhantes. Pareceu-me que era tempo de se falar a uma só voz.” Nesta mesma adenda, ele resume, deste modo, a modesta intenção do seu ensaio, que tanto ruído viria a produzir: “Na nossa sociedade (isto é, na sociedade avançada do ocidente) perdemos a mais ínfima pretensão a uma cultura comum. Pessoas educadas com a mais elevada intensidade sabe-se que deixaram de saber comunicar umas com as outras no plano das suas maiores preocupações intelectuais. Isto é grave para a nossa vida criativa e intelectual e ainda mais grave para a nossa vida normal.” E dizia ainda: “Dei o mais agudo exemplo desta falta de comunicação sob a forma de dois grupos de pessoas que representavam o que eu baptizei de ´as duas culturas´. Um destes grupos incluía os cientistas, cujo peso, realização e influência não precisam de ser realçados. O outro grupo continha os intelectuais da literatura. Entre estes dois grupos – os cientistas e os intelectuais da literatura – existe pouca comunicação e, em vez de um sentimento de companheirismo, verifica-se algo de muito parecido com hostilidade.” Snow acrescenta ainda, com alguma melancolia, que pretendera, com o seu ensaio, descrever apenas com alguma grosseira aproximação, um estado de coisas – o fosso entre duas culturas -, fosso esse que detestava. Para sua surpresa, verificou que alguns comentadores presumiram que ele o aprovava.

Esta “desaproximação” entre estes dois universos vinha de longe. Já os pensadores gregos do período romano, nota Asimov com alguma ironia, no seu utilíssimo New Guide to Science, se “viram cada vez mais arrastados para os subtis prazeres da filosofia moral e para longe da aparente esterilidade da filosofia natural”. E acrescentava: “O cristianismo , com a sua ênfase na natureza de Deus e da sua relação com o homem, introduziu uma dimensão inteiramente nova no tema da filosofia moral, que aumentou a sua superioridade aparente enquanto trabalho intelectual, relativamente à filosofia natural. Entre 200 d.C. e 1200 d.C. os europeus preocuparam-se quase exclusivamente com a filosofia moral, em particular com a teologia. A filosofia natural [isto é, a ciência) foi quase esquecida.”

Deve-se aos árabes a preservação de Aristóteles e Ptolomeu – arautos da filosofia natural, mesmo com os seus erros colossais – e foi, graças a isto, escreve ainda Asimov, que “as principais figuras do Renascimento deslocaram o centro do interesse das matérias relativas a Deus para as obras da humanidade” e, por isso, estas foram designadas de “humanistas”. Os grandes cientistas do Renascimento acabaram por virar resolutamente as costas aos preconceitos típicos dos pensadores gregos, mesmo dos grandes, os quais veneravam sobretudo a “perfeição”, a “beleza” do método dedutivo e não a menor esbelteza ou elegância do indutivo. Para os gregos, confirmar uma teoria pelo processo “grosseiro” da experimentação e da verificação estava fora do seu horizonte. Asimov nota, com ironia perversa, que “não se sabe se Aristóteles alguma vez deixou cair duas pedras de peso diferente a fim de verificar o seu pressuposto de que a velocidade da queda é proporcional ao peso do objecto.” E Bertrand Russell observaria, com a sua acutilância felina, que Aristóteles poderia ter evitado afirmar que as mulheres têm menos dentes do que os homens, pelo processo expedito de pedir à Sra. Aristóteles que abrisse a boca. Galileu, no Renascimento, pediu vénia ao grande filósofo grego e foi, ainda assim, verificar, com dois objectos de peso diferente, que a afirmação milenar do grande filósofo era falsa: o peso do objecto que cai não tem qualquer influência na aceleração do movimento. Citando de novo Asimov, “verificar uma teoria perfeita usando instrumentos imperfeitos não impressionava os filósofos gregos como modo válido de obter conhecimento.” Era por causa deste amor à esbelteza do conhecimento dedutivo que os astrónomos andaram mais de mil anos a dizer que os movimentos dos astros em torno de outros astros se faziam percorrendo circunferências porque, sendo a circunferência uma curva perfeita e, nos céus, por ali não haver corrupção, só haveria lugar para a perfeição, o movimento de um astro em torno de outro astro teria que obedecer a esse mandato de perfeição. Mesmo quando a observação directa e o registo implacável dos factos recomendavam a elipse, alguns grandes astrónomos, como Copérnico, já em pleno Renascimento, obstinavam-se na circunferência preferindo duvidar dos factos da observação e privilegiar o apetite de elegância. Mas foi a partir do século XVI que o cientista passou a usar o método indutivo como “processo essencial de obter conhecimento”. Galileu, Tycho Brahe e Kepler abriram o caminho à monumental construção de Newton, que são as suas três simples e elegantes leis do movimento: simples e elegantes mas verdadeiras porque verificáveis experimentalmente e não verdadeiras por serem simples e belas... Newton, porventura o maior cientista de todos os tempos, foi idolatrado e a eminência do seu feito veio a constituir-se num potente motor de arranque para a extraordinária evolução que a ciência experimentou a partir dele. Mas foi, sobretudo, a partir da Segunda Guerra Mundial, que se começou a assistir a uma aceleração estonteante no progresso da investigação científica em todos os campos. Na física, na química, na astronomia, na biologia, na medicina. Em alargamento e em profundidade, aprende-se hoje mais em cinco anos do que se aprendia antes em dois milénios. Um aluno do secundário sabe hoje mais do que sabia Newton ou Galileu. E, com isto, vai-se criando, no domínio da ciência, uma linguagem cada vez mais opaca para o leigo nestas matérias. Como nota Asimov, no precioso livro que já citei: “As publicações de cientistas relativas ao seu trabalho individual nunca foram tão copiosas – e tão ilegíveis para toda a gente excepto os especialistas dos mesmos ramos. Isto transformou-se num prejuízo para a própria ciência, pois os avanços básicos do conhecimento científico decorrem muitas vezes da fertilização de conhecimentos entre diferentes especialidades.” E acrescenta: “Ainda pior, a ciência perdeu cada vez mais o contacto com os não cientistas. Nestas circunstâncias, os cientistas acabaram por ser vistos quase como mágicos – mais temidos que admirados. E a impressão de que a ciência é uma magia incompreensível, apenas compreendida por alguns escolhidos que são suspeitamente diferentes da humanidade normal, tende a afastar muitos jovens da ciência.”

Eugénio Lisboa
(CONTINUA)

FEIRA DO LIVRO DO PORTO


Informação recebida da Feira do Livro do Porto:

80ª Feira do Livro do Porto 2010 (programa)

A 80ª Feira do Livro do Porto, que abre hoje, 1 de Junho, e decorrerá até ao dia 20 de Junho na Av. dos Aliados na Baixa do Porto irá homenagear Manuel António Pina, escritor e jornalista, um dos nomes fundamentais da literatura portuguesa contemporânea, autor de quatro dezenas de livros, que se dividem pela poesia (já duas vezes reunida, a última em Poesia Reunida, 1974/2000, em fim de edição), ficção, crónica e literatura infanto-juvenil, e ainda várias peças de teatro. Obras suas foram levadas ao cinema, TV e BD, musicadas e editadas em disco. A sua poesia tem sido também traduzida e publicada em vários países. Mantém uma crónica diária no Jornal de Notícias, uma das mais lidas e citadas. Um novo livro com uma selecção destas crónicas será publicado ainda este ano, tal como nova reunião da sua poesia, acrescentada de inéditos.

O ponto alto desta homenagem terá lugar no dia 5 Junho, às 17h30, na sessão MANUEL ANTÓNIO PINA EM DESTAQUE, em que participarão, para além do escritor, Álvaro Magalhães, que falará da obra para a infância e juventude, Luís Miguel Queirós, que abordará a poesia, e Sousa Dias, organizador da citada antologia de crónicas no prelo, que se irá debruçar sobre Manuel António Pina cronista. No dia seguinte terá lugar um concerto pelo Bando dos Gambozinos, que por várias vezes interpretou poemas de MAP.

Um ano volvido sobre o desaparecimento de João Bénard da Costa, a FLP também homenageia aquele a quem Eduardo Lourenço chamou “O Senhor Cinema português”, de que foi um dos grandes protagonistas nas últimas décadas. Foi através do seu olhar que muitos vimos e aprendemos (e continuaremos a aprender com os muitos livros que nos deixou) a ver os filmes. A ver o que lá está e o que não nos tínhamos apercebido que lá estava. Os seus textos (as muitas Folhas da Cinemateca – agora também em livro – as muitas crónicas, monografias, catálogos) seduzem-nos e levam-nos aos filmes. Que João Bénard da Costa amava. E gostava de partilhar esse amor connosco .Em textos “parciais e apaixonados”. Pelo cinema. Pela pintura. Pela literatura. Pela música. Pela vida.

Para além dos catálogos da Cinemateca, JBC publicou Os Filmes da Minha Vida, Os Meus Filmes da Vida (já em segunda edição), um segundo volume Os Filmes da Minha Vida, o livro sobre actores e actrizes Muito Lá de Casa, histórias do cinema português, etc. Acaba de sair o 1º de uma série de 4 volumes de Crónicas – Imagens Proféticas e Outras, organizado por Lúcia Guedes Vaz, que no dia 4 estará presente na sessão A CASA ENCANTADA DE JOÃO BÉNARD DA COSTA, juntamente com Maria João Seixas, actual directora da Cinemateca Portuguesa, e João Pedro Bénard. Segue-se a exibição, ao ar livre, de JOHNNY GUITAR, de Nicholas Ray, o filme da vida dos filmes da vida de João Bénard da Costa, numa cópia cedida pela Cinemateca Portuguesa-Museu do Cinema.

Neste programa desafiámos também a colaborar connosco instituições do Porto que trabalham na área da cultura. Ao Cineclube do Porto, reactivado e a comemorar o 65º aniversário, propusemos mostrar alguns dos filmes mudos do seu espólio, num filme-concerto na abertura da Feira. A sessão, que terá lugar esta noite, junta 2 filmes de Fernando Ferreira, antigo cineclubista, Bastão Piloto + Obsessor, e a curta The New York Hat, de D.W. Griffith. A acompanhar as imagens, música original do Trio de Jazz da ESMAE.

A Associação de Estudantes da ESMAE, a mais importante das escolas de artes do espectáculo do Porto, que agora comemora 20 anos, foi outra das instituições convidadas. Para além do filme-concerto de abertura, haverá uma praça ESMAE, por onde passarão dezenas de músicos de áreas diversificadas, em cerca de dezena e meia de concertos.

O INATEL, que costuma organizar na cidade o Cinema Fora do Sítio, com exibições de cinema ao ar livre no Verão, dá-nos o apoio nas sessões de cinema.

Na quinta-feira, 3 de Junho, arranca uma longa série de encontros com escritores. Nesse dia é tempo de balanço da primeira década do século XXI, pelos escritores e críticos Eduardo Pitta (que falará sobre a ficção), José Mário Silva (a poesia) e Miguel Real (o ensaio).

Haverá também lugar para falar de Portugal (Rui Tavares, historiador, dramaturgo, blogger e um dos mais brilhantes e surpreendentes cronistas da actualidade; e, na véspera, Álvaro Domingues, autor de A Rua da Estrada, e Miguel Carvalho, que coligiu algumas das suas crónicas em Aqui na Terra); do centenário da República (os historiadores Fernando Rosas e Manuel Loff); da educação (Eduardo Marçal Grilo e Carlos Fiolhais); da viagem (Alexandra Lucas Coelho e Francisco Bélard); dos Livros do Desasossego de Pessoa/Soares e da biblioteca de Pessoa (Jerónimo Pizarro, responsável pela edição crítica do Livro do Desassocego e co-autor de A Biblioteca Pessoal de Fernando Pessoa, acabados de sair; João Botelho, em fase final de montagem do seu Filme do Desassossego; Onésimo Teotónio de Almeida). E num volta-face surpreendente, Pedro Mexia, Ricardo Araújo Pereira e Zé Diogo Quintela, sob a batuta de Carlos Vaz Marques, vão falar “agora a sério”.

Haverá também uma série de Leituras Cruzadas, onde se cruzarão conversas sobre as mais recentes obras dos autores: João Paulo Sousa (O Mundo Sólido), valter hugo mãe (a máquina de fazer espanhóis); Inês Pedrosa (Os Íntimos), Patrícia Reis (Antes de Ser Feliz); António Osório (A Luz Fraterna), José Tolentino Mendonça (O Viajante sem Sono e nova edição aumentada de A Noite Abre Meus Olhos – Poesia Reunida); Fernando Pinto do Amaral (O Segredo de Leonardo Volpi), Paulo Kellerman (Chega de Fado); Ana Luísa Amaral (Inversos – Poesia 1990-2010), Nuno Júdice (Guia de Conceitos Básicos); João Tordo (As Três Vidas), Rui Vieira (Vozes no Escuro); António Mega Ferreira (A Blusa Romena), Filipa Leal (A Inexistência de Eva); Pedro Eiras (Tentações), e Rui Zink (O Anibaleitor).

António Costa (comissário do programa)

Programa (até dia 7 de Junho)

terça, 1 Junho, 22h
Filme-concerto
Bastão Piloto + Obsessor, de Fernando Ferreira + The New York Hat, de D.W. Griffith
Música original Trio de Jazz da ESMAE: Contrabaixo, Diogo Dinis / piano, Pablo Dinis / percussão, Nuno Oliveira
Praça Gen. Humberto Delgado
(sessão organizada em colaboração com o Cineclube do Porto e a Associação de Estudantes da ESMAE)

quinta, 3 Junho, 18h
2000/2010: BALANÇO DA DÉCADA
Eduardo Pitta, José Mário Silva, Miguel Real
(auditório)

sexta, 4 Junho, 21h
A CASA ENCANTADA DE JOÃO BÉNARD DA COSTA
Maria João Seixas, João Pedro Bénard, Lúcia Guedes Vaz
(auditório)

sexta, 4 Junho, 22h
exibição ao ar livre do filme JOHNNY GUITAR, de Nicholas Ray
(homenagem a João Bénard da Costa, em colaboração com a Cinemateca Portuguesa-Museu do Cinema e o apoio do INATEL)
Praça Ge. Humberto Delgado

sábado, 5 Junho, 17h30
MANUEL ANTÓNIO PINA EM DESTAQUE
Álvaro Magalhães, Luís Miguel Queirós, Sousa Dias, Manuel António Pina
(auditório)

sábado, 5 Junho, 21h30
LEITURAS CRUZADAS
João Paulo Sousa, valter hugo mãe
(praça Azul)

domingo, 6 de Junho, 17h30
LEITURAS CRUZADAS
Inês Pedrosa, Patrícia Reis
(auditório)

segunda, 7 Junho, 18h30
(RE)PENSANDO A EDUCAÇÃO
Carlos Fiolhais, Eduardo Marçal Grilo
(auditório)

Ginástica Sueca versus Ginástica Respiratória (2)

(CONTINUAÇÃO)

Reproduziu Weiss de Oliveira 6 dos 18 preceitos de Tissié com alterações a seu cargo e adicionando novos preceitos que pôs ao serviço da “sua ginástica educativa de formação”, ministrada em três sessões semanais de 10 minutos de duração, que garantiam transformar “um monstro num rapaz perfeito”. Ainda hoje, em nome da verdade, não posso deixar de pensar que o pouco ou o muito da minha encadernação física não se ficou a dever, em nada, nada mesmo, ao Dr. Weiss de Oliveira mas, isso sim, a uma longa prática de muitas dezenas de anos (que ainda mantenho religiosamente) de “muito suor, sangue e lágrimas” de exercícios de musculação com pesos e halteres…

Mas, para mim, onde o médico Weiss de Oliveira mais se excedeu em conceitos acientíficos é quando evoca, em defesa da ginástica respiratória, o sudário de Cristo: ”Encontramo-nos assim perante uma coluna rectificada, e tão rectificada que nem a seladura lombar, tão pouco acentuada é, se acusa na imagem impressa no Sudário. Que mais decisivo argumento precisamos nós, os crentes, sobretudo, para estarmos seguros de que o terreno que pisamos tem sido firme?”

Desconhecia ele, pelos vistos, que as curvaturas fisiológicas da coluna vertebral são necessárias, numa perspectiva biomecânica, para uma maior flexibilidade da coluna que no caso de ser uma haste direita seria, também, menos amortecedora dos pequenos microtraumatismos da simples marcha diária e da corrida em solo duro e altamente prejudicial nos saltos em que o impacto da queda recai sobre os calcâneos, ainda mesmo que precedido da necessária e ligeira flexão dos membros inferiores.

Assume a voz de uma forte contestação a esta corrente preconizada e defendida por Weiss de Oliveira, o tenente-coronel António Leal de Oliveira (já por mim citado) doutorado em Educação Física pela Universidade de Gand (Bélgica) quando afirma ser a ginástica respiratória escolar “passiva, ociosa e indolente”. Indo ao âmago das origens da ginástica respiratória, Leal de Oliveira escreve: ”São os frades brâmanes Joghis e os monges chineses Tao Pé, restos dos primeiros brâmanes indianos, que dão aos movimentos respiratórios isolados um papel fundamental, quase exclusivo, na actividade física individual, conforme a ginástica que criticamos”. Em defesa da ginástica sueca, pilar do sistema de revigoramento físico dos escolares, este mesmo autor traça, em 1931, os seguintes princípios doutrinários:

“A Educação Física constitui hoje uma ciência pedagógica de grande complexidade, subsidiária das ciências biológicas – psicologia, anatomia, fisiologia, higiene, da mecânica [hoje apelidada de biomecânica], da moral, da sociologia, etc. Só um curso universitário de grande extensão de estudos pode formar professores competentes e com prestígio necessário para ministrar a educação pelos exercícios físicos nos estabelecimentos de ensino normal, secundário, técnico e superior, e orientar, doutrinária e tecnicamente toda a educação física do povo: sociedades de ginástica e sociedades desportivas. Esse curso, Instituto ou Escola, deverá constituir o centro cultural donde irradiará o movimento orientador e construtivo que fará progredir a ciência da especialidade, por meio de estudos especulativos e práticos de um enorme interesse para a ciência”.

No ano anterior tinha sido criada no ensino privado a Escola Superior de Educação Física, na Sociedade de Geografia de Lisboa, que funcionou de 1930 a 1940 tendo por base o método de Ling. Através da persistente acção de Leal de Oliveira foi criado, em 1940, o primeiro estabelecimento oficial de ensino superior de formação de professores de Educação Física, o Instituto Nacional de Educação Física (INEF), actual Faculdade de Motricidade Humana, com a finalidade de “instituir um centro de estudos científicos e da prática racional da Educação”, viveiro de professores que se dedicaram em dar ao método de Ling uma projecção teórico-prática escolar e clubística, com grandes êxitos internacionais, empenhando-se, por outro lado, com o mesmo inegável êxito, na formação de atletas desportivos dos clubes nas modalidades de atletismo, basquete, voleibol, andebol, etc.

Em nossos dias, a formação desportiva assentou arraiais de monarca absoluto na formação da juventude portuguesa que frequenta as nossas escolas. É sempre difícil precisar datas, mas eu atrevo-me a balizar a vida do método de Ling, entremeado com a prática desportiva, até finais da década de 60 e princípios da década de 70. Nos ginásios das escolas deparamo-nos, hoje, com espaldares, bancos suecos, traves, bocks, plintos, etc., transformados em verdadeiras peças de museu em prova de ingratidão para com um passado de glória e de bons serviços prestados à formação de toda uma juventude. As mudanças (embora nem sempre para melhor) são justificadas por Roland Barthes quando escreve: “Existe uma erótica do novo, o antigo é sempre suspeito!”

Ginástica Sueca versus Ginástica Respiratória (1)

“Não faço exercício. Se Deus quisesse que eu me curvasse, teria posto diamantes no chão” (Joan Rivers, comediante e actriz norte-americana).

Mal adivinhava eu, quando em leda e cultural actividade retirei os olhos do livro que estava a ler dirigindo-os para o ecrã da televisão, que me iria deparar com a imagem de uma entrevistada que defendia - como quem anuncia uma novidade de muita erudição - a prática de exercícios respiratórios nas longas filas de automóveis como forma de diminuir o stress.

Essa ocorrência, de certo modo fortuita, obriga-me à publicação de um novo post sobre a polémica gerada pelo “método Weisss de Oliveira” e que eu tive, a par do conceito de Educação Física, como o perigoso destapar de uma caixa de Pandora motivante de comentários de grande fôlego argumentativo, e exigente rigor bibliográfico, por parte do Dr. João Boaventura em confronto com comentários meus menos "oxigenados", apesar de ter feito, em heróica paciência de Job, “ginástica de fole” durante todo um ano lectivo de estáticos exercícios respiratórios em benefício (sei-o agora) de uma possível longevidade, a fazer fé no dito de um anónimo com inegável sentido de humor: “Quando me querem convencer que correr prolonga a vida, lembro-me logo da tartaruga que não corre e vive mais de 150 anos”!

A publicação aqui do meu texto “A Ginástica de Fole” teve uma dupla intencionalidade:

1. Uma bem séria e em dever de cidadania: alertar os meus concidadãos para os efeitos nefastos para a saúde de uma prática respiratória dentro do automóvel em ponto morto pela inalação de gases tóxicos.

2. Outra, pela recordação bem humorada (o próprio título o indicia: “A Ginástica de Fole”) do meu sétimo ano do antigo curso dos liceus quando os meus pulmões eram solicitados para um trabalho de fole durante as aulas de educação física ministradas por um médico fiel a um seu colega esculápio, o Dr. Weiss de Oliveira.

Isto é, Weiss de Oliveira, um médico que deturpou, em benefício próprio e glória científica da sua ginástica respiratória, o Método de Ling, defendido por um outro médico, de nacionalidade francesa, Phillipe Tissié, vice-presidente do Instituto Internacional de Educação, organismo que viria a dar lugar, em 1953, à “Federation Internacional d’ Education Physique” (FIEP), de que se tornaria presidente o português Leal de Oliveira (1958-1970). Weiss de Oliveira, referindo-se, em cínico preito de homenagem, a Phillipe Tissié, dizia ser ele “seu mestre e amigo” (que bem se aplica aqui ao dito popular: “Quem tem amigos destes não precisa de inimigos!”).

Daqui o facto de eu ter atribuído a paternidade da ginástica respiratória escolar portuguesa a Weiss de Oliveira, como o fizeram diversas personalidades da vida portuguesa, não desmerecendo, com isso, o facto de ela, segundo o testemunho, na Assembleia Nacional, do deputado e médico otorrinolaringologista Moura Relvas, ter sido utilizada anteriormente na reeducação pós-operatória aos adenóides. Seja como for, há que fazer a necessária destrinça entre uma ginástica respiratória escolar e uma ginástica respiratória de recuperação terapêutica. Como se costuma dizer, uma coisa é uma coisa, e outra coisa é outra coisa.

Mas isto são contos largos que justificam o virar de páginas de um livro lido da frente para trás, e em que o “método Weiss de Oliveira” fica como que ensanduichado. Assim, corria o ano de 1915 quando o governo português nomeou uma comissão de 12 membros com a finalidade de criar um "Regulamento Geral de Educação Física" (de aplicação a quartéis e escolas), que foi publicado em 1920 visando, apenas, a escola e o robustecimento do indivíduo, a formação de cidadãos úteis à pátria dotados de vigor, agilidade, flexibilidade, etc., através de ginástica educativa combinada com jogos educativos e, posteriormente, com a prática desportiva, tendo como inspiração o método sueco.

Embora continuando a ter como génese, havida como bastarda, a ginástica sueca, doze anos depois, é dado suporte legislativo à ginástica respiratória pela aprovação do "Regulamento de Educação Física dos Liceus" (Decreto 21:110/32 de 4 de Abril). Situação logo aproveitado por Weiss de Oliveira que se apossa, em nome do seu declarado fervor religioso, desta nova corrente doutrinária de Educação Física escolar, em traição a Tissié, alterando 18 preceitos defendidos por si defendidos na qualidade de “apóstolo do método sueco no mundo”, como escreveu Weiss de Oliveira.

Um dos argumentos que Weiss de Oliveira evocou em defesa da sua fragilizada dama residia nesta sua declaração: “Educando a respiração combate-se num certo sentido a inclinação para o mal que para o físico veio em consequência do pecado original”. E, acrescenta ele ainda, “o que é bom na Suécia não é bom em Portugal”.

(CONTINUA)

CRISTIANISMO, HUMANISMO, POSITIVISMO E MARXISMO, PONTOS DE APROXIMAÇÃO E DE AFASTAMENTO

Texto do Professor A. Galopim de Carvalho O elitismo académico já teve o seu tempo. Agora é tempo de abordar “todos os saberes” “com toda a ...