sábado, 23 de maio de 2015

A NATUREZA E A DIVERSIDADE DA VIDA



Na próxima 3ª feira, 26 de Maio de 2015, pelas 18h realiza-se no RÓMULO Centro Ciência Viva da Universidade de Coimbra a palestra intitulada "A natureza e a diversidade da vida" com o Professor Nuno Ferrand de Almeida, Director do Centro de Investigação em Biodiversidade e Recursos Genéticos (CIBIO-inBIO). Esta palestra insere-se no ciclo "À Luz da Ciência", dinamizado pelo Bioquímico António Piedade, que decorre de Fevereiro a Junho de 2015.

Público alvo: Público em geral
ENTRADA LIVRE

SINOPSE DA PALESTRA:
"A natureza e a diversidade da vida sempre fascinaram o homem. Se durante muito tempo a arte constituiu uma das formas mais utilizadas para representar e interrogar essa diversidade, hoje a ciência dispõe de ferramentas sofisticadas que procuram explicar a origem, manutenção e evolução da diversidade biológica. Em particular, a confluência da biologia molecular, da genética e da genómica permitem níveis de análise e de poder explicativo sem precedentes. Esta palestra pretende ser uma reflexão sobre o estado actual do conhecimento nesta área, discutindo-se em especial o impacto da espécie humana na diversidade biológica do planeta e o lugar da história natural na idade da genómica."


sexta-feira, 22 de maio de 2015

Mariano Gago e o Processo de Bolonha




"As leis mal feitas constituem a pior forma de tirania" (Edmund Burke, político britânico do século XVIII):

 O meu post ”A Universidade e o Valor Mágico das Palavras” (DRN, 21/05/2015) mereceu, no dia seguinte, o comentário que se transcreve: “Professor Rui Baptista, concordo consigo. Devo dizer que todas as iniciativas nefastas tinham necessariamente a concordância de Mariano Gago (que foi ministro durante 12 anos). É bom não esquecer isso” (Ildefonso Dias).

Sem pretender beliscar, de forma alguma, a notabilíssima acção de Mariano Gago no âmbito da Política Científica Nacional durante a sua tutela na pasta ministerial socialista da Ciência, Tecnologia e Ensino Superior, assumo tranquilamente as críticas que lhe teci no domínio das medidas tomadas no que respeita ao Ensino Superior.

Assim, neste blogue em post intitulado “Carta aberta ao Ministro Mariano Gago” (25/05/2009), teci severas críticas às medidas por si tomadas na adopção do chamado “Processo de Bolonha”, cujos nefastos reflexos se projectam em nossos dias. Escrevi ao tempo:

“No seguimento do “Acordo de Bolonha”, as entidades oficiais portuguesas, ao contrário dos países anglo-saxónicos que atribuíram aos três primeiros anos de estudos superiores o grau académico de bachelor (em tradução para português, bacharel) resolveram “alcunhá-lo” de licenciado contra a opinião de sectores importantes da vida cultural nacional. E isto é tanto mais insólito por o grau de bacharel ter longa tradição em terra lusitana (Eça de Queirós era bacharel em Direito), tendo sido recuperado décadas atrás, ainda que em existência efémera de crisálida, em algumas faculdades para os três anos iniciais de estudos.

 Com a intenção, reconhecida por Adriano Moreira, de “estar nas decisões para não vir a ser apenas objecto delas”, levou a efeito o Conselho Nacional das Profissões Liberais, nos dias 12 e 13 de Novembro de 2004, em Coimbra, um seminário intitulado Reflexos da Declaração de Bolonha. Neste evento, a que assisti como convidado, todos os presentes, em parte representados por docentes universitários de todo o país, manifestaram-se contra a atribuição do grau de licenciado para o ciclo inicial de estudos superiores defendendo o de bacharel. A este clima, não deve ter sido estranho ter pairado no espírito dos presentes uma licenciatura, como disse, também, Adriano Moreira, “com o prestígio da Universidade que lhe deu a primeira credencial de título académico nobilitante”.

No ano seguinte, em crítica ao poderes públicos por não terem tido em conta este importante seminário, escrevi em artigo de opinião: “Começo a convencer-me que em Portugal, à sombra de princípios tidos como democráticos, há um prazer sádico dos seus governantes em auscultar os parceiros sociais, mesmo que possuidores de um estatuto de ‘interesse público’, para decidir precisamente o contrário” (Público, 13/06/2005).

 Em disparates sucessivos, numa altura em que era pedido pelas instâncias europeias “a adopção de um sistema de graus comparável e legível”, viria a ser adoptado, em território nacional, a terminologia de licenciado colocando, com isso, em dificuldade qualquer indivíduo que pretenda estabelecer a comparação e legibilidade entre este nosso grau e o grau de bacharel extra-fronteiras. Deste statu quo dei conta, quando escrevi:

“Assim ,julgo – e penitencio-me se estiver errado! - que se desatendeu a uma possível solução a dar aos actuais mestrados outorgados pela universidade, após estudos complementares com a duração de dois anos e apresentação de uma tese. É compreensível o prejuízo que daqui poderá advir passando a haver mestrados com igual ou menor duração das actuais licenciaturas universitárias (Diário de Coimbra, 14/12/2004).

E porque, como escreveu George Canning, “para cada problema há uma solução que é fácil, clara e…errada”, não poucas vezes, o desejo de querer ser diferente ou original tem o seu quê de caricato!

 Corre actualmente na Net a recolha de assinaturas para uma petição a apresentar na Assembleia da República para que aos mestrados universitários antes de Bolonha - quatro ou cinco anos de licenciatura e mais dois anos de estudo com apresentação de tese - seja dada equivalência aos actuais mestrados, em verdadeiro escândalo alguns deles obtidos no ensino politécnico em quatro anos apenas!...

 Trata-se de uma atitude em que aparece a pedir quem se encontra, como escreveu Jorge de Sena, “privado em extremo de justiça justa”. Assim, a petição deveria incidir, no mínimo, sobre a equivalência das antigas licenciaturas universitárias aos actuais mestrados e a atribuição de uma espécie de pós-graduação aos antigos mestrados universitários que os superiorizasse relativamente aos mestrados actuais. Se outros motivos de qualidade e exigência curricular não houvesse, uma simples conta de somar justificaria uma petição destas e a sua mais que justa aprovação na Assembleia da República. Mas menos do que isto deixará um travo amargo na boca por transportar para os dias de hoje o desalento de Manuel Laranjeira : “Num povo onde essa minoria intelectual, que constitui o capital de orgulho de cada nação se vê condenada a cruzar os braços com inércia desdenhosa, ou a deixá-los cair desoladamente sob pena de ser esterilmente derrotada” (in Jornal “O Norte”, 1908).

 Mas a proposta desta praxis (ou seja, aquilo que os filósofos gregos tinham como “a acção comum tendo em vista os melhores objectivos para a cidade” ) devia ser assumida pelo próprio ministro Mariano Gago para libertar o Portugal democrático da má sina em procrastinar um problema nacional que deveria já ter merecido uma solução justa, rápida e eficaz por parte dos homens com assento na Assembleia da República com o voto do povo. A dignidade dos antigos diplomas da universidade portuguesa assim o deve exigir como um princípio ético e um direito inalienáveis!”

Se de alguma coisa posso ser acusado nunca, por nunca, de faltar ao meu dever de cidadania em assumir posição pública sobre problemas da Educação , mesmo quando os seus lesados, com diplomas universitários, se calam em atitude cómoda, altamente estranha ou mesmo reprovável. Aliás, para o cumprimento daquilo que tenho para mim como dever de cidadania, encontro respaldo em René Char: "Quem vem ao mundo para nada perturbar não merece nem consideração nem paciência"!

O chão que Lisboa pisa

Informação chegada ao De Rerum Natura.


quinta-feira, 21 de maio de 2015

CONTRA O USO DE GATOS EM EXPERIÊNCIAS DE FÍSICA

Prestei um depoimento ao Público sobre este assunto: ler aqui.

A UNIVERSIDADE E O VALOR MÁGICO DAS PALAVRAS


“Imaginamos o que desejamos, queremos o que imaginamos e, por fim, acreditamos no que queremos” (Bernard Shaw, Prémio Nobel 1925).

No passado dia 11 de Abril deste ano, em cerimónia de entrega de diplomas de formatura num estabelecimento de ensino politécnico da margem esquerda do Mondego, o presidente do Instituto Politécnico de Coimbra, Rui Antunes, voltou a defender a mudança do nome  de Ensino Superior Politécnico para Universidade Técnica.

Desta forma, aproveitou a ocasião para ser novamente porta-voz da sua discordância pessoal e institucional sobre a nomenclatura atribuída a um ensino predestinado a ministrar cursos com a duração de apenas dois anos lectivos (curiosamente, cursos repescados pelo actual Ministério da Educação). Cursos do ensino politécnico que passaram a atribuir bacharelatos, depois licenciaturas e actualmente mestrados com pretensões, insistentemente reiteradas, de atribuírem doutoramentos.

Ou seja, esta espécie de crisma para universidade técnica em vez de dignificar este actual subsistema de ensino superior, levaria ao seu descrédito pela criação de universidades de segundo plano em substituição de um ensino politécnico de créditos firmados em herança honrosa de antigos e prestigiados cursos médios, v.g., institutos industriais e comerciais.

Ipso facto, esta pretensão carece de razão legítima, entre outros motivos, por poder corporizar o receio de Fernand Brandel: “Tenho medo das pessoas que acham que podem, da noite para o dia, agarrar a sociedade, torcer-lhe o pescoço e fazerem uma nova”. Acresce que nem sequer é inédita!  

Já em décadas passadas, com o sugestivo título “A Diplomocracia", escrevia  António José Saraiva (na opinião de Eduardo Lourenço, “uma referência-chave da cultura portuguesa”) o seguinte:
“Há meses uma cidade do Norte de Portugal reclamava um instituto ‘universitário’. Por amor da ciência e da instrução? Não, porque já possuía um instituto ‘técnico’. O que realmente se reclamava era uma mudança de palavra: que o ‘técnico’ passasse a chamar-se ‘universitário’ com os mesmos cursos, programas e mestres. E assim foi: mudou-se a palavra, e por causa disso houve arraial e foguetório. Parece anedota, mas não é. É só um exemplo da importância que se liga à palavra Universidade. À palavra e não à coisa. Porque a Universidade anda de rastos e em vias de se tornar num asilo de atrasados mentais a julgar por recentes concursos que houve em escolas de ciências humanas. Mas é próprio da superstição o valor mágico das palavras” (“Diário de Notícia”, 31/08/1979).
Aliás, para a verdadeira balbúrdia criada entre os ensinos superiores universitário e politécnico muito contribuiu a respectiva legislação. A propósito, escrevi no “Diário de Coimbra” (13/11/2004):
“De há três décadas para cá, a criação de cursos superiores públicos e privados em Portugal, para além de não ser devidamente planificada em termos quantitativos, estabeleceu uma verdadeira babilónia entre  o ensino universitário e o ensino politécnico e suas fronteiras. A própria Lei de Bases do Sistema Educativo (1986), traduz o aspecto nebuloso que presidiu a este statu quo. Nos respetivos formulários, os ensinos universitário e politécnico pouco diferem na forma e no conteúdo consentindo diversas leituras que permitem que o ensino politécnico navegue à bolina dos interesses dos seus diplomados e com terra à vista dos sucessivos graus académicos que vão exigindo. Quase se pode dizer que a respectiva legislação se viu perante aquilo que quis dizer e não disse e aquilo que disse e não quis dizer”.
Escreveu Churchill: “Quanto mais para trás se olhar mais para a frente se pode ver”. Portanto, nada melhor que fazer o balanço das universidades existentes actualmente , relativamente a tempos chegados a 25 de Abril com apenas quatro universidades: Coimbra, Lisboa, Porto e Nova de Lisboa. Sem entrar em linha de conta com universidades privadas, apelidadas “de vão de escada”, existem actualmente oito universidades públicas (por ordem alfabética: Algarve, Coimbra, Lisboa, Madeira, Minho, Nova de Lisboa, Porto, Trás-os-Montes e Alto Douro). No que tange a institutos politécnicos, existem seis situados, respectivamente, em Castelo Branco, Coimbra, Guarda, Lisboa, Porto e Santarém. De realçar que a doutrina que presidiu à criação do ensino politécnico apontava para a sua implantação em regiões carenciadas de ensino superior. Curiosamente, foi este ensino implantado, ex abrupto, em Lisboa, Coimbra e Porto cidades de longa e cimentada tradição de ensino universitário.

Este verdadeiro boom de instituições de ensino superior, por vezes, nascidas como cogumelos em terreno húmido de interesses regionais (e não só!), deu azo a que a frequência de alunos nas próprias universidades e mesmo estabelecimentos de ensino politécnico descesse vertiginosamente a ponto de fazer perigar a respectiva sobrevivência económica.

E como uma asneira traz atrás de si novas asneiras, sendo até então condição sine qua non de acesso ao ensino superior o 12.º ano do ensino secundário, logo foram criadas as “Novas Oportunidades” e o “Exame de Acesso ao Ensino Superior para maiores de 23 anos” que, pelo exagerado facilitismo de que se revestem, nem de perto nem de longe exigem o estudo e a aplicação do diploma do ensino secundário e/ou dos extintos e exigentes “Exames ad-hoc”. 

Sagazmente, numa espécie de apelo a votantes, António Costa apresenta no Programa Eleitoral do Partido Socialista o ressurgimento das Novas Oportunidades. Eu até poderia concordar com “oportunidades” que melhorassem o conhecimento teórico de práticas profissionais e nunca como uma forma de oportunismo em dar saltos de canguru para um diploma do 12.º anos e posteriores estudos superiores de duvidosa qualidade perdendo-se, com isso, um bom profissional para se  “ganhar” um  licenciado de pouca ou nenhuma utilidade para o país. Unicamente como ornamento de pechisbeque de umas tantas personagens governamentais ou das bancadas de S. Bento.

E, se como escreveu Gabriel Garcia Marquez, “tudo o que sucede sucede por alguma razão”, é Portugal no seu pior para satisfação de uma determinada “diplomocracia” de ensino superior que tem como objectivo a escandalosa obtenção de “canudos”!

SOBRE A POLÍTICA CIENTÍFICA DE MARIANO GAGO

José Mariano Gago tinha uma política científica, que o actual governo tem tentado destruir. Tinha uma visão para o país, enquanto hoje é um salve-se quem puder (e algun, bem situados, salvam-se). Nesta peça do jornal I está um depoimento que prestei ontem à jornalista Marta Reis: aqui. 

Salvatore Quasimodo: Raio de Luz entre Trevas



1-E É DE SÚBITO NOITE

Cada um está só sobre o coração da terra
Apunhalado por um raio de sol:

e é de súbito noite.
 

 
2-REFÚGIO DE PÁSSAROS NOTURNOS

 No espaço sideral está um pinheiro torcido;
está concentrado e escuta o abismo,

com o tronco dobrado como uma fera.


Refúgio de aves noturnas,
na hora mais tardia ressoa

um  batimento veloz de asas.


Tem então um só ninho o meu peito
Pairando no negror, uma voz;

E está também concentrado na noite.

3-GARÇA
 
No pântano cálido, estatelada nos limos
E adorada por insetos, flagela-me ver

uma garça morta.


Eu devoro-me na luz e no zumbido;
Vencido por ecos pestilentos,

De vez em quando geme um arquejo
esquecido.


Piedade, que eu não seja
Sem vozes e olhares

na memória, um dia.


4-NO SENTIDO DA MORTE

Árvores cerúleas
De onde parte o som mais melífluo

E saboreia, imaturo, as chuvas novas.


Em uma cabeça, dócil
A luz oscila /

Ao enlaçar-se com o ar; //


no sentido da morte, /
Estou aqui com receio do amor.

SNESup REÚNE COM PRESIDENTE DA FCT

Informação recebida do SNESUP

A Direção do SNESup reuniu com a nova Presidente da FCT no passado dia 14 de maio. Para além da apresentação de cumprimentos e votos de bom mandato, esta foi uma oportunidade para serem analisadas algumas questões essenciais e prementes.
 
Abordámos por isso a questão da denúncia ao Ministério Público sobre o processo de avaliação das unidades de investigação e desenvolvimento, que foi já acompanhado de ações judiciais por parte de algumas unidades. A nova Presidente da FCT pretende pacificar a situação, que pode vir a tornar-se profundamente constrangedora. Tal como a própria FCT reconhece, existe a possibilidade de os tribunais ordenarem o reinício de todo o processo. Ainda assim, encontram-se em desenvolvimento algumas das propostas avançadas pelo CRUP e que podem ter impacto nas matérias da 2ª fase. Mas o processo torna-se cada vez mais enviesado, sendo óbvia a negociação. Várias unidades aguardam pela decisão sobre as suas reclamações, com uma forte probabilidade de avançarem com mais ações em tribunal. Tal como tivemos oportunidade de referir, o tempo agudiza as consequências deste processo. Há áreas de investigação em que se perdem equipas completas, processos de internacionalização de alto nível e investimento.
 
Levantámos também o problema do atual Estatuto do Bolseiro, um documento que, como a FCT reconhece, possui várias limitações que o desvalorizam legalmente. O problema deste Estatuto torna-se ainda mais pertinente quando várias instituições passaram a recorrer à figura do bolseiro para o desenvolvimento de relações de trabalho. Note-se que todas estas situações deveriam carecer de avaliação pela FCT, mas dado que o Estatuto não prevê penalizações, a lei torna-se letra morta. Importa, por isso, rever o Estatuto do Bolseiro e terminar com as situações de abuso ao recurso desta figura. As instituições têm de passar a ser claras sobre o seu problema de financiamento e não o escamotearem com recurso a más práticas.
 
Alertámos ainda para alguns problemas relativos às bolsas, quer em termos de atrasos ao seu pagamento (em muitos casos por atrasos na assinatura dos contratos), bem como as consequências das novas regras do concurso de bolsas que agora terminou, em especial na figura das bolsas de pós-doutoramento.
 

Tivemos ainda tempo para abordar as questões relativas ao programa Portugal 2020, nomeadamente o papel que a FCT terá na avaliação dos projetos. Em várias Universidades e Institutos Politécnicos foram recolhidas propostas que podem vir a receber apoio através das verbas comunitárias. Trata-se de projetos que possuem equipas com qualificações, formação avançada e conhecimentos, existindo uma relação com direitos de autor, que não podem ser presas fáceis de interesses instalados. Trabalhar para a competitividade do País significa aproveitar o investimento na formação, dando aos nossos mais qualificados oportunidades para que possam desenvolver o seu trabalho. Por esse motivo parece-nos necessário que exista não só um envolvimento na avaliação, como também um acompanhamento dos processos, com momentos de aferição que garantam a qualidade das propostas, não permitindo situações em que o nome e o trabalho dos investigadores sejam utilizados para que certos interesses obtenham financiamento. Como é óbvio, esta avaliação e acompanhamento não podem ser comprometidos pelos erros dos últimos concursos. É fundamental uma FCT que funcione bem.

quarta-feira, 20 de maio de 2015

“DEIXEM-NOS FICAR”


Minha crónica no Público de hoje:

Agora que se aproximam as eleições legislativas e presidenciais, um sinal muito preocupante sobre o estado da democracia portuguesa acaba de ser publicado no sítio da Presidência da República. Um estudo sobre as situações e atitudes dos jovens portugueses da autoria de investigadores do Instituto de Ciências Sociais da Universidade de Lisboa apurou que 70% dos jovens nacionais entre os 15 e os 24 anos consideram a hipótese de emigrar. A razão é compreensível: 38% dos inquiridos nessa faixa etária estão sem emprego há mais de um ano, enquanto na faixa etária entre os 25 e os 34 anos essa percentagem se eleva para 53%.

Não admira, por isso, que os jovens estejam descrentes em relação à nossa democracia. Só 17% dos jovens entre os 15 e os 34 anos consideram que ela funciona bem, cerca de metade dos que diziam o mesmo num estudo semelhante de 2007. Os números são impressionantes: 57% dos jovens entre os 15 e os 24 não se interessam nada por política, cerca do dobro do que acontecia em 2007. Se essa tendência se mantiver, em breve serão 100%! Os números respeitantes à participação cívica dos jovens vão também em triste queda: entre os 15 e os 34 anos, só 4% participam em partidos, 4% em sindicatos e 6% em associações profissionais (em 2007 esses números eram, respectivamente, 14%, 12% e 20%, isto é, o seu envolvimento em grupos de participação cívica caiu para cerca de um terço).

Não são aliás só os jovens que estão insatisfeitos com a política lusitana. Num inquérito europeu de 2013 só 22% da nossa população se encontrava satisfeita com a democracia, figurando Portugal nos últimos lugares, entre o Kosovo e a Rússia (no topo da lista estão a Suíça e a Noruega, com 85% e 84% de cidadãos satisfeitos).

Embora inquéritos deste tipo sejam elucidativos, os seus resultados estão longe de surpreender. Bastava ir às recentes festas da Queima das Fitas para verificar que os estudantes viviam os últimos dias antes da partida para o estrangeiro. No cortejo da Universidade do Minho, a queima chama-se “enterro da gata” e o tema do enterro deste ano era “a gata deu à sola”. Lia-se num carro do cortejo: “Deixem-nos ficar”. Os pais de uma finalista declararam ao Jornal de Notícias: “Espero que Passos não a mande para fora.”

É sintomático este depoimento. De facto, foi Passos Coelho quem incitou à emigração juvenil, propalando umas balelas sobre a universalidade dos portugueses. O primeiro-ministro ainda há pouco elogiou publicamente Dias Loureiro porque ele “viu muitas coisas por esse mundo fora”. O mundo que esse ministro e conselheiro de Estado de Cavaco Silva (entre uma coisa e outra administrador do Banco Português de Negócios) viu é Angola e Cabo Verde.

Com certeza que, para jovens em formação, circular é uma óptima opção. Mas já é muito mau se essa opção for a única. E é pior quando o regresso não tem qualquer hipótese. Nestes tempos sombrios em que metade da ciência nacional foi purgada pela dupla Passos Coelho - Crato, os casos que me chegam de fuga de cérebros são inúmeros. Conheço uma estudante de doutoramento da área da astronomia que não teve bolsa da Fundação para a Ciência e a Tecnologia, mas foi escolhida pela União Astronómica Internacional para um lugar no Japão. E recebi há dias esta mensagem de alguém que não conheço: “Sou um jovem de 30 anos feitos em Março, que, devido à conjuntura socioeconómica e ao clima de guerra silenciosa em que o Estado se apodera de tudo quanto pode, tive que abandonar o país. Não aguentava mais viver onde não me eram dadas quaisquer oportunidades de emprego. O meu Portugal é governado por pessoas que pensam única e exclusivamente em si. Estou a viver em Inglaterra e acabo de me candidatar ao doutoramento em Psicologia.”

E que diz a isto tudo o Presidente Cavaco Silva, que referiu o estudo do Instituto de Estudos Sociais nos seus últimos Roteiros do Futuro, intitulados Portugal e os Jovens - Novos rumos, Outra esperança? Declarou em bom politiquês que “é fundamental desenvolver uma estratégia vocacionada para a criação de emprego qualificado e para a credibilização das instituições e seus protagonistas”. E sobre a apatia cívica dos jovens: “De uma vez por todas, é imperioso ter consciência da gravidade deste fenómeno e da necessidade premente de agir”. Lê-se e não se acredita. Pois não está ele numa instituição e não é ele protagonista? E não esteve ele em instituições e não foi ele protagonista? Cavaco Silva está na política há mais de 35 anos (foi ministro das Finanças em 1980 e 1981, primeiro-ministro de 1985 a 1995 e Presidente da República de 2006 até hoje), mas só agora vê premência de agir.

O regime caiu no abismo da indiferença, por vezes da aversão, por parte dos cidadãos que nasceram no seu tempo político. Não perceberá que simboliza melhor que ninguém uma democracia em desagregação?

terça-feira, 19 de maio de 2015

Lista dos meus livros

Com a publicação muito recente dos três últimos manuais escolares da Texto (Físico-Química do 9.º e Física e Química do  10.º anos) o número dos meus livros atingiu o 50 (alguns deles tiveram várias edições e traduções). Deixo aqui a lista de títulos:

I. Livros de divulgação científica, história da ciência e política da ciência:

1.     Física Divertida, Lisboa: Gradiva,  1ª ed., 1991; 8.ª ed, 2012. ed. Brasil,  Universidade de Brasília, 2000: ed. espanhola, 2008;  ed. italiana, 2010.
2.      Universo, Computadores e Tudo o Resto, Lisboa: Gradiva, 1994.
3.      com C. Providência e H. Alberto, Ciência a Brincar, Lisboa: Bizâncio, 1999, 4.ª ed., 2004. Há edições no Brasil  e Espanha.
4.     com A. Vieira, Roteiro de Ciência e Tecnologia: Um guia de ciência para jovens de todas as idades, Lisboa: Ulmeiro, 2001.
5.      A Coisa Mais Preciosa Que Temos, Lisboa: Gradiva,  2002, 3.ª ed., 2005. Esgotado.
6.      com C. Providência me B. Costa, Ciência a Brincar 3. Descobre a Água, Lisboa: Bizâncio, 2003.
7.      com C. Providência, H. Alberto, Ciência a Brincar com Camila e Xavier, Lisboa:  Gradiva, F. Gulbenkian  e FCT,  2003 (imagens de Isabel Fernandes).
8       com C. Providência, N. Crato e M. Paiva, Ciência a Brincar 4 – Descobre o Céu, Lisboa: Bizâncio,  2005.
9.       Curiosidade Apaixonada, Lisboa: Gradiva, 2005. Esgotado.
10.    Nova Física Divertida, Lisboa: Gradiva,  2007. Ed. italiana, 2010.
11.   com C. Providência, Ciência a Brincar 8. Descobre o Património, Lisboa: Bizâncio, 2008.
12.   O Engenho Luso e Outras Crónicas, Lisboa: Gradiva, 2008.
13. com D. Martins, Breve História da Ciência em Portugal,Coimbra:  Imprensa da Universidade de Coimbra  e Gradiva, 2010.  
14. A Ciência em Portugal,  Lisboa: Fundação Francisco Manuel dos Santos, 2011.
15.  Sócios Portugueses da Royal Society / Portuguese Fellows of the Royal Society, Coimbra: Universidade de Coimbra, 2011.
16. com  D. Marçal, Darwin aos tiros e outras histórias de ciência, Lisboa: Gradiva, 2011, 8.ª ed. 2015.
17. com  D. Marçal, Pipocas com Telemóvel e outras histórias de falsa ciência, Lisboa: Gradiva, 2012, 6.ª ed., 2015.
18.  com P. Mendes, A Biblioteca Joanina/The Kings’John LIbrary, Coimbra: Imprensa da Universidade de Coimbra, 2013.
19. História da Ciência em Portugal,  Lisboa: Arranha Céus, 2013, 2.ª ed., 2015.
20. com A. Vieira, Ciência e Tecnologia em Portugal: métrica e impactos (1995-2010), Lisboa: Fundação Francisco Manuel dos Santos, 2015 (há ebook).

II.  Teses

21.   Teoria Microscópica das Ondas de Spin nos Ferromagnetes, Tese de Licenciatura, Coimbra, 1978.
22.   C. Kollektive Masse und Nullpunktsenergien in der Generator-koordinatenmethode, Doktorarbeit (Tese doutoral), Frankfurt am Main, 1982.

III. Manuais Escolares

23.   com J. Güémez e M. Fiolhais, Fundamentos de Termodinâmica do Equilíbrio, Fund. Gulbenkian, Lisboa, 1998. Manual universitário.
24.   com J. Valadares, L. Silva e V. D. Teodoro, Física 8º ano, Lisboa: Didáctica, 1994; 8.ª ed., 1998.
25.   com J. Valadares, L. Silva e V. D. Teodoro, Química 8º ano, 1994; id., 8.ª ed., 1998.
26.   com J. Valadares, L. Silva e V. D. Teodoro, Física 9º ano, 1995; id., 7.ª ed., 1999.
27.   com J. Valadares, L. Silva e V. D. Teodoro, Química 9º ano, 1995; id, 3.ª ed., 1997.
28.   com J. Valadares, L. Silva e V. D. Teodoro, Física 10º ano, 1994; id., 5.ª ed., 1996.
29.   com J. Valadares, L. Silva e V. D. Teodoro, Física 11º ano, 1995; id., 3.ª ed., 1996.
30.   com J. Valadares, L. Silva   V. D. Teodoro, Física 12º ano, 1996, inclui software; id., 3.ª ed., 1998.
31.   com M. Fiolhais, V. Gil, J. Paiva  e G. Ventura, Física 8, LisboA: Gradiva, 1999.
32.   com M. Fiolhais, V. Gil, J. Paiva  e  G. Ventura, Química 8, id., 1999.
33.   com M. Fiolhais, V. Gil, J. Paiva   e G. Ventura, Física 9, id., 2000.
34.   com M. Fiolhais, V. Gil, J. Paiva   e G. Ventura, Química 9, id., 2000.
35.  com M. Fiolhais, V. Gil, J. Paiva   e G. Ventura, Terra no Espaço, id., 2002.
36. com M. Fiolhais, V. Gil, J. Paiva   e G. Ventura, Terra em Transformação, id., 2002.
37. com M. Fiolhais, A. Ferreira, J. Paiva e  G. Ventura, F10, Lisboa: Texto Editora, 2003, nova ed. 2007.
38     com M. Fiolhais, A Ferreira, J. Paiva  e  G. Ventura, Q10, id., 2003, nova ed., 2007.
39.   com M. Fiolhais, A. Ferreira, J. Paiva e G. Ventura, F11, id., 2004.
40.   com M. Fiolhais, A Ferreira, J. Paiva e G. Ventura, Q11, id., 2004.
41.   com M. Fiolhais, A. Ferreira, J. Paiva e  G. Ventura, F11B, id., 2005.
42.   com M. Fiolhais, J. A. Paixão   G. Ventura, F12, id., 2005.
43.   com M. Fiolhais, J. Paiva, V. Gil, C. Morais  e S. Costa, 7FQ, id., 2006.
44.   com M. Fiolhais, J. Paiva, V. Gil, C. Morais e  S. Costa, 8FQ, id., 2007.
45.   com M. Fiolhais, J. Paiva, V. Gil, C. Morais  e S. Costa, 9FQ, id., 2008.
46. com S. Costa, M. Fiolhais, V. Gil, C. Morais   e J. Paiva, Universo FQ7,  id., 2013.
47. com S. Costa,  M. Fiolhais, V. Gil, C. Morais  e J. Paiva, Universo FQ8,  id., 2014.
48. com S. Costa, M. Fiolhais, V. Gil, C. Morais  e J. Paiva, Universo FQ9,  id., 2015.
49.  com M. Fiolhais e   G. Ventura, F10 novo, id., 2015.
50. com A. Ferreira e  J. Paiva, Q10 novo, id., 2015.

Ação de Divulgação da ABIC

Informação recebida da Associação dos Bolseiros de Investigação Científica (ABIC):

No seguimento das comemorações do 1º de Maio, às quais a ABIC se associou, marcando presença em eventos por todo o País, a ABIC irá realizar uma distribuição de panfletos informativos que visam dar a conhecer as suas diferentes linhas de atuação, sendo que o ponto central é a promoção do reconhecimento do trabalho e a dignificação dos profissionais que exercem investigação científica em Portugal, enquanto bolseiros.

Os Bolseiros de Investigação são, porventura, o grupo cuja atividade mais contribui para a produtividade do sistema científico português; no entanto, são também o grupo que trabalha em condições de maior precariedade.

A ABIC apela à empenhada participação de todos os bolseiros nas ações que durante o mês de Maio irão ocorrer em várias cidades do país.

Já estão marcadas distribuições para esta semana, em:

Faro, Universidade do Algarve, Pólo de Gambelas, no átrio da cantina dia 21 às 12h
Aveiro, Universidade de Aveiro, porta da Reitoria dia 22 às 11h
Porto, IBMC dia 22 entre as 12h e as 14h

MERA SUPLENTE

O Público já confirmou, depois de lido o Diário da República. As funções que o ministro Nuno Crato atribuiu à actual Presidente da FCT, Maria Arménia Carrondo, são de mera suplente. Só tem mandato para substituir o presidente que caiu em desgraça, Miguel Seabra, durante o tempo que este tinha atribuído. Os vice-presidentes que ajudaram à desgraça  mantêm-se. É como se a ciência tivesse apenas uma gestão interina. Não faz qualquer sentido pois a ciência nacional precisava de olhar para o futuro e não de manter o lamentável passado recente.

Esta é a ciência a que a FCT disse não

Um excerto do artigo de Mariana Correia Pinto no Público, com testemunhos de candidatos recusados pela FCT, a propósito da iniciativa "Há ciência para além da FCT?", que terá lugar amanhã na Casa da Achada, em Lisboa:

Os critérios de avaliação, diz a jovem de 29 anos, são “incompreensíveis”. “Não conheço ninguém que os consiga explicar. Procuram, por exemplo, pessoas com experiência científica dificilmente alcançável tendo em conta que se concorre a doutoramento depois de mestrado. Pessoas com livros publicados em editoras internacionais. É quase como pedir um estagiário com cinco anos de experiência.”

segunda-feira, 18 de maio de 2015

Conversa sobre privacidade na Net no auditório da biblioteca da FCT/UNL



"Sabia que a maior ameaça à nossa privacidade são os sistemas de localização através de dispositivos móveis, que detetam e memorizam a nossa localização exata?
Sabia que os conteúdos publicados numa rede social podem permanecer disponíveis na internet mesmo que posteriormente sejam removidos do site onde foram publicados?
Será o Cloud Computing uma boa solução para o armazenamento da informação?
Como podemos viver num mundo em constante evolução tecnológica e manter um clima de total confiança, numa época em que somos confrontados com a ameaça crescente do cibercrime e do roubo de identidade?
Estamos seguros online?

Ano Internacional da Luz na Biblioteca da FCT/UNL


Mais informações aqui.

domingo, 17 de maio de 2015

2015 - ANO INTERNACIONAL DOS SOLOS

Novo artigo sobre solos de Galopim de Carvalho:

Crostas pedogénicas 

Em determinadas condições morfoclimáticas favoráveis, certos solos evoluem no sentido de gerar um horizonte endurecido, mais ou menos impermeável, habitualmente designado por crosta e couraça, sendo o último termo reservado aos casos em que este endurecimento é mais acentuado e abrange uma maior espessura. Não cabendo os materiais constituintes destas crostas nos conceitos convencionados para os três grupos de rochas tradicionalmente aceites (ígneas, sedimentares e metamórficas) e tendo em atenção, por um lado, o seu carácter habitualmente coeso e rígido, isto é, rochoso, no sentido vulgar do termo, e, por outro, o seu modo de formação no âmbito da pedogénese, há autores que as consideram rochas residuais. Geólogos e geomorfólogos de língua inglesa tratam-nas por duricrusts e diferenciam-nas em função da natureza química dominante. Os pedólogos referem-nas como durimpermes e duripans (estas de natureza siliciosa). 

Entre as crostas (croûtes, cuirasses ou dalles, dos autores de língua francesa) geradas nestas condições, merecem destaque as ferruginosas (ferricretos), mais conhecidas por lateritos, as aluminosas (alcretos) ou bauxitos[1], as calcárias (calcretos) e as siliciosas (silcretos). Outras há com menor expressão no terreno, como sejam as dolomíticas, de natureza magnesiana (dolocretos), as fosfatadas (phoscretos)[2], as gipsíferas, isto é, à base de gesso (gypcretos) e as salinas (salcretos). Nas áreas aplanadas e deprimidas, como sejam as superfícies envolventes das sebkras norte-africanas ou das alkaliflats nos pediments das Basins and Ranges do Oeste norte-americano, o ressurgimento de águas de infiltração, de elevado teor salino, desenvolve tapetes de eflorescência, em geral, de gesso ou anidrite, mas também de outros sais.

Ferricretos

Em associação com os solos ferralíticos das regiões subáridas, com alternância bem marcada de estações seca e húmida, desenvolvem-se extensas concentrações de óxidos e hidróxidos de ferro sob a forma de crostas ou couraças, mais conhecidas por lateritos férricos ou, simplesmente, lateritos, explorados como matéria-prima para a indústria do ferro[3].

Para muitos autores o termo laterito, assim chamado pelo facto de este material ter sido usado na construção, depois de cortado em paralelepípedos, à semelhança dos tijolos (later, em latim), inclui quer os férricos, quer os aluminosos. A corroborar esta posição está o facto de os dois materiais ocorrerem frequentemente associados. O ganho ou a perda de ferro, induzidos pelas condições locais, determinam a natureza da crosta que, assim, pode variar entre essencialmente férrica (laterito, em sentido restrito), essencialmente aluminosa (bauxito) ou ser uma mistura dos dois materiais.

O horizonte situado abaixo da couraça laterítica, designado por litomargem, é essencialmente caulinítico e encontra-se, por vezes, marmorizado[4].

Se a floresta for destruída, a couraça aflora e endurece, num processo praticamente irreversível. Acontece muitas vezes, nestas regiões, proceder-se à desflorestação com o propósito de criar áreas de cultivo. Passados pouco anos, o encouraçamento laterítico torna o terreno incultivável mas, como há muita terra, abre-se nova clareira e, assim, se vão desertificando extensas áreas florestadas desta zona climática.

Na transição do Terciário para o Quaternário houve, em Portugal, condições climáticas favoráveis à lateritização. São disso testemunhos os encouraçamentos de Marmelar (Vidigueira) e da faixa planáltica a sul de Santiago do Cacém.

Alcretos

Nas regiões mais equatoriais, húmidas, como são as bacias do Amazonas e do Congo, tais condições são favoráveis à bauxitização, isto é, à produção e concentração de hidróxidos de alumínio – gibbsite, Al(OH)3, diásporo, AlO(OH) e boehmite AlO(OH), - com predominância do primeiro, constituindo, por vezes, grandes acumulações, de elevado interesse como matéria-prima de alumínio, mais conhecida por bauxito, geralmente em associação com argilas cauliníticas.

Estes solos residuais, no geral, de textura pisolítica[5], igualmente conhecidos por lateritos aluminosos, devem o seu grande enriquecimento em alumínio à perda dos restantes componentes das rochas-mães que lhes estão na origem. A intensa lixiviação e drenagem propiciadas pela constante pluviosidade e pelo bioquimismo próprio dos solos nestas condições, para além dos alcalinos e calco-alcalinos, facilmente removíveis, acabam por libertar os componentes menos solúveis como são os férricos e a sílica. A associação dos bauxitos às argilas cauliníticas resulta da incompleta evacuação da sílica que, assim, se combina com a alumina para formar o respectivo silicato hidratado, segundo a equação

2Al(OH)3+2H4SiO4→Al2Si2O5(OH)4+5H2O

Lateritos e bauxitos, tanto podem ser expressões de um solo, como corresponder a autênticos depósitos sedimentares. No primeiro caso são corpos residuais, autóctones, merecendo por parte de alguns autores, como se disse atrás, a designação de rochas residuais. No segundo, trata-se de acumulações de materiais oriundos dos perfis pedológicos onde foram gerados e, só depois, mobilizados e transportados, para mais perto ou mais longe, e depositados em locais favoráveis à sua imobilização. São pois, neste caso, materiais rochosos alóctones e, como tal, autênticas rochas sedimentares, a que se fará a devida referência em capítulo próprio.

Calcretos

Com cem anos de uso, o termo calcrete, proposto por G. H. Lamplugh (1902), só nas últimas décadas começou a figurar na nossa terminologia geológica. Próprios de certos ambientes morfoclimáticos caracterizados por uma certa subaridez (precipitação abaixo dos 500 mm/a), estas crostas, ligadas à actividade pedológica, resultam de acumulação de carbonato de cálcio ao longo de extensões superficiais maiores ou menores[6]. Os calcretos variam bastante em espessura, desde algumas dezenas de metros, na Austrália, África do Sul, Novo México (EUA), a alguns metros no sul e sudeste ibérico (3 a 5 m em Portugal, no Algarve).

Uma das primeiras referências a este tipo de crosta é da autoria de Ch. Darwin (1846) que, sob a designação de tosca, a descreve em pormenor nas pampas argentinas.

O termo calcrete, dos autores ingleses e aceite como unificador pela comunidade científica, abarca um sem número de designações regionais (cerca de meia centena), de entre as quais se destacam batha (Índia), calcário da catinga (Brasil), caliche (sul dos EUA), canto blanco (Canárias), croûte calcaire (Argélia e Tunísia), gigilim (Nigéria), kunkar (Índia), nari (Israel), Steppenkalk (Namíbia), tafeza (Norte de África), tapetate (México), travertine crust (Austrália), etc..

O termo português caliço, corrente na toponímia do sul do país, é mais um entre nomes locais e regionais a acrescentar a esta lista, tendo sido usado por Paul Choffat (1887) nos seus trabalhos sobre a geologia do Algarve. Branqueiros e laginhas de cal são expressões locais usadas na terminologia geológica para referir este tipo de ocorrências em Porto Santo e no extremo oriental da Madeira (S. Lourenço), onde a subaridez é a regra climática.

Os calcretos constituem corpos geológicos dispostos horizontalmente, sendo constituídos, no geral, por um nível friável, esbranquiçado, de aspecto pulverulento, farináceo, às vezes referidos entre nós, impropriamente, pelo nome de cré, sobre o qual se desenvolve, em estádios mais avançados de evolução, a crosta propriamente dita. Quando a evolução climática se faz no sentido do aumento da humidade, as crostas tendem e degradar-se, dando lugar a concreções calcárias espaçadas entre si.

Na maior parte das situações, os calcretos formam-se sobre rochas-mãe calcárias, como se verifica no Algarve em relação com as sequências carbonatadas mesozóicas. Menos frequentes, mas não raras, são as ocorrências sobre gabros e outras rochas ígneas ou metamórficas, susceptíveis de fornecer cálcio, com acontece na região de Beja. Conhecem-se calcretos a culminar perfis em rochas praticamente destituídas de cálcio, facto que leva a aceitar que estas crostas, para além de enriquecerem em calcite, a expensas da rocha, do substrato (per ascensum), podem receber essa contaminação, lateralmente, vinda de outras rochas através das águas de percolação no solo. Neste último caso, à semelhança do que se passa com os lateritos e os bauxitos, coloca-se o problema da sua condição sedimentar, uma vez que há transporte do material carbonatado, ainda que em solução.

Na qualidade de solos residuais, os calcretos, para além do carbonato de cálcio, conservam um resíduo insolúvel resultante da meteorização e evolução pedológica da rocha-mãe. Assim, contêm, em geral, uma fracção detrítica grosseira (fragmentos rochosos, areias) e uma outra essencialmente argilosa, de alteração e de neoformação no solo, ou herdada, no caso das rochas que lhes estão subjacentes conterem estes filossilicatos na sua composição.

Os calcretos são conhecidos a vários níveis do registo estratigráfico mundial, dos Old Red Sandstones, do Devónico da Escócia, ao Cenozóico, de que temos exemplos no Paleogénico da região de Macedo de Cavaleiros, na Beira Baixa, no Alentejo e na região de Colares (Sintra).

Silcretos

Em coerência com a uniformização da nomenclatura, Lamplugh (1907) propôs também o nome silcrete para as crostas pedogénicas enriquecidas em sílica. Sob diversas designações, estes arenitos do deserto, como lhes chamou R. Daintree (1872), ao descrevê-los no norte de África, são conhecidos por grés polimorfos em Angola e no Congo, por duripans nos Estados Unidos, por surface quartzites na África do Sul, por porcelanites na Austrália, por meulière em França, etc.

Os silcretos são característicos de regiões de tendência árida com drenagem deficiente, muito planas, com declives mínimos (inferiores a 5%), sendo comuns na África do Sul, Namíbia, Calaari, Mauritânia, Austrália e nordeste do Brasil, onde as espessuras são da ordem das dezenas de metros, podendo ocorrer sobre quaisquer tipos de rocha-mãe. É, em particular, sobre as rochas sedimentares terrígenas (conglomerados, arenitos, siltitos, argilitos) ou os seus equivalentes não consolidados (cascalheiras, areias, siltes e argilas) que os silcretos são mais frequentes e atingem maior expressão (em espessura e extensão).

A silicificação, nuns casos per ascensum, a parir do substrato, noutros por contaminação lateral, é feita sob a forma de opala, nos silcretos mais recentes, ou de quartzo microcristalino (calcedonite) ou fanerítico, nos mais antigos. No decurso da diagénese, como é sabido, a sílica amorfa tende a passar a cristalina. Nuns casos, a silicificação consiste na cimentação do horizonte pedológico por penetração da sílica nos vazios; noutros, verifica-se ter havido substituição epigénica (molécula a molécula) do material do perfil por sílica. É o que acontece na transformação (frequente) de calcretos em silcretos, por substituição do carbonato de cálcio pela sílica. Silcalcretos e calsilcretos são, assim, designações que procuram referir estádios intermediários dessa metassomatose.

Em Portugal, nas últimas décadas tem vindo a ser reconhecida a ocorrência de silcretos[7] quer sub-actuais (Quaternário de Rio Frio, Setúbal) quer mais antigos, em especial no Cenozóico da Beira Baixa, da Bacia do Tejo-Sado e do Alentejo interior. O grés porcelanóide, de há muito reconhecido no cimo aplanado do Buçaco, na vizinhança da Cruz Alta, deve ser considerado um silcreto de idade compreendida entre o Cretácico superior e o Paleogénico.

NOTAS
[1] Termo proposto por Dufrenoy (1845), inspirado em Le Baux, localidade do sul de França, onde este tipo de crosta foi encontrado por Berthier, em 1821. Nesta localidade, o bauxito integra antigas formações de idade eocénica, quando o território estava sob clima quente e húmido, muito diferente do actual.
[2] O elemento crete, que compõe este e os restantes termos afins, é o mesmo da palavra concreto (do latim concretus, tornado sólido por efeito de concreção), que no Brasil se usa como sinónimo de betão. Os elementos al, cal, dolo, ferri, gyp, phos, sal e sil aludem às respectivas composições. O aportuguesamento destes nomes muda-lhes o te final em to, como é regra na nossa terminologia dos materiais rochosos (a terminação te é exclusiva dos nomes dos minerais).
[3] Em alguns casos há manganês associado ao ferro e, mais raramente, níquel e ou cobalto.
[4] Sobre o fundo argiloso claro sobressaem manchas coradas, ferruginosas. O termo corresponde ao mottled, na terminologia inglesa, ao marmorisée ou tachetée, na francesa.
[5] Constituída por pisólitos, isto é, pequenas concreções esferoidais, de crescimento mais ou menos concêntrico, lembrando ervilhas.
[6] Relativamente a este tema, o leitor encontra informação mais pormenorizada, quer geral quer sobre a ocorrência de calcretos em Portugal, in A. M. Galopim de Carvalho & M. Teresa Azevedo (1993-97), iCalcretos, Geolis, Departamento de Geologia da Faculdade de Ciências de Lisboa, Vol. VII (1-2); A. M. Galopim de Carvalho & Silvério Prates (1983-85), Sobre a Ocorrência de Caliços no Algarve, Boletim da Sociedade Geológica de Portugal, Vol XXIV, Lisboa.
[7] O leitor encontra informação mais pormenorizada, bibliografia geral e sobre a ocorrência de silcretos em Portugal, in Silcretos, M. Teresa Azevedo & A. M. Galopim de Carvalho (1993-1997), Geolis, Departamento de Geologia da Faculdade de Ciências de Lisboa, Vol. VII (1-2).

sábado, 16 de maio de 2015

À LUZ DO ARCO-ÍRIS

Texto primeiramente publicado na imprensa regional.



O arco-íris deslumbra o nosso pensamento. É um fenómeno óptico e meteorológico natural de uma beleza luminosa. O contraste entre o cinzento carregado do horizonte nebuloso e as cores vivas e radiantes do arco que surge à nossa frente quando o sol aparece por entre as nuvens, envolve a fronteira da mudança com um halo misto de espanto e maravilhamento. Se hoje compreendemos a natureza do arco-íris, muitos milénios houve na história da humanidade em que o seu aparecimento era sinal de intervenção divina a anunciar melhores tempos ou a celebrar alianças.

Devemos a compreensão científica do arco-íris ao entendimento que foi sendo iluminado fisicamente sobre dois fenómenos ótpicos: a reflexão e a refracção. Na reflexão, um raio de luz ao encontrar uma superfície dita reflectora, como por exemplo um espelho, inverte o sentido de propagação segundo um ângulo bem definido. A refracção ocorre quando um raio de luz passa de um meio, por exemplo ar, para outro, por exemplo água, e sofre uma mudança na sua direcção de propagação, segundo um ângulo também bem definido e que depende da natureza dos dois meios atravessados.

A reflexão é conhecida desde a Antiguidade clássica e está, por exemplo, descrita na geometria de Euclides (c. 300 a.C.). A refracção só foi descrita matematicamente em 1621 pelo holândes Willebrord Snellius, tendo sido, contudo, publicada alguns anos mais tarde pelo francês René Decartes. Assim, a lei que a designa é conhecida por lei de Snell, ou por lei de Descartes. Mas foi Descartes quem, em 1637, primeiramente discutiu, de um ponto de vista científico, a natureza do arco-íris. Contudo a sua compreensão deve muito ao inglês Isaac Newton que demonstrou, em 1666, que um raio de luz solar pode ser decomposto em várias luzes coloridas ao atravessar um prisma.

Mas afinal, o que é o arco-íris e porque é que surge depois de uma tempestade ou forte chuvada e quando surge o Sol por entre as nuvens? Para o explicar é necessário sabermos, em primeiro lugar, que a luz visível irradiada pelo Sol é constituída por um conjunto de radiações electromagnéticas que possuem frequências diferentes a que correspondem cores diferentes. Quando a luz do Sol atravessa o ar, todos os raios de frequência diferente que a compõem permanecem “juntos” criando a ilusão de se tratar de um único. Contudo, quando encontra e atravessa um meio diferente como seja um cristal, um prisma ou uma gota de água, algo de maravilhoso acontece: a luz solar é refractada e decompõe-se no espectro das suas componentes coloridas (vermelho, alaranjado, amarelo, verde, azul, anil e violeta). Isto acontece porque cada uma das radiações que compõem a luz solar possuem, como já se disse, frequências diferentes a que correspondem energias diferentes. Ao mudar de meio cada um dos raios sofre um desvio na sua direcção de propagação (é refractado) que é tanto maior quanto maior for a sua energia (frequência). Nos extremos do arco-íris encontramos a cor vermelha e o violeta a que correspondem respectivamente uma energia (frequência) menor e maior.

No caso do arco-íris, o meio refractário que a luz Solar encontra é a gota de água. Vamos então tentar seguir, com ajuda da figura ao lado, um raio de luz no seu percurso através de uma gota de água que é aqui considerada como perfeitamente esférica para facilitar a explicação. Assim que o feixe de luz solar atravessa a superfície da gota no ponto A, sofre uma ligeira mudança na sua direcção (é refractado). Ao atingir a superfície interna oposta da gota, ponto B, parte do feixe de luz é reflectido no sentido oposto ao movimento que trazia e numa direcção diferente, uma vez que esta superfície interna da gota funciona como um espelho côncavo. O feixe reflectido atravessa então de novo a gota até sair dela no ponto C. Como neste ponto ocorre uma mudança de meio, a direcção do feixe de luz é novamente ligeiramente alterada (refractada). Cada um dos componentes da luz solar sofrerá este mesmo percurso mas, por terem frequências diferentes, os desvios de direcção sofridos por cada um deles será diferente. O resultado final é a sua separação num leque de feixes contíguos cada um com uma frequência específica e característica de cada uma das cores que podemos ver. Uma vez que uma gota de chuva típica é aproximadamente esférica isto produz um efeito na refracção e reflexão da luz Solar que é simétrico em relação a um eixo imaginário que passe no centro da gota com a direcção do feixe incidente. Por isso o arco-íris é circular.

O feixe de luz inicial voltou desta forma para traz com uma nova direcção, separado nos seus componentes coloridos e poderá atingir a retina do(a) leitor(a) caso estejam reunidas algumas condições. A primeira tem a ver com a posição do Sol. Este, que se encontra sempre atrás do observador de um arco-íris, terá que estar entre determinadas alturas no horizonte. Quanto mais baixo o Sol estiver, mais alto estará o arco-íris. Ao pôr-do-sol será possível ver um semicírculo completo com o arco de cor vermelha no topo do arco-íris a fazer um ângulo máximo de 42º com o horizonte. Como cada uma dos componentes da luz solar sofre refracções e reflexões ligeiramente diferentes, eles “saem” da gota de água em direcções que fazem um ângulo diferente com o horizonte. Quando vemos um arco-íris, o que realmente estamos a observar é o resultado da refracção e reflexão da luz solar em diferentes gotas de água que se encontram a alturas diferentes, o que permite que os diferentes raios que saem em ângulos diferentes possam ser visualizados simultaneamente pelo mesmo observador.

Gostava de chamar a atenção do(a) leitor(a) para o facto de em certas condições se poder observar ao mesmo tempo dois arco-íris. Descrevemos o trajecto do raio de luz solar através de uma gota de água. Mas nem toda a energia do raio sai da gota após este ter sido reflectido. Uma “parte” do raio pode sofrer uma segunda reflexão no ponto C e atravessar de novo a gota emergindo dela num outro ângulo. O arco-íris que normalmente observamos é designado por primário e é o resultado de uma única reflexão do feixe de luz solar no interior da gota. O outro arco-íris é designado por secundário e surge devido à ocorrência de duas reflexões internas, o que faz com que os “raios vermelhos”, por exemplo, saiam da gota com um ângulo de 50º em vez de 42º. Isto ocasiona um segundo arco-íris no qual as cores estão invertidas relativamente ao primeiro como se de uma imagem espelhada do primeiro se tratasse.

Na próxima vez que se deparar com a visualização de um arco-íris olhe mais para cima e tente descortinar este segundo arco-íris. Devido ao maior percurso do raio de luz dentro da gota, a intensidade deste é comparativamente menor, o que justifica que seja de difícil visualização e passe muitas vezes despercebido.


António Piedade

Para quê manter a Escola se há empresas que oferecem modelos admiráveis?

 Filme que pode ser encontrado aqui
"A partir do próximo ano lectivo, os alunos do ensino básico poderão avaliar, nas escolas, se conseguem aplicar o que ali estão a aprender a situações da vida real." (aqui)
"Projeto da [empresa X] quer promover a literacia de leitura, a literacia matemática e literacia científica no 2.º e 3.º ciclos do Ensino Básico. É um programa-concurso em que os alunos têm oportunidade de testar conhecimentos em situações concretas." (aqui)
Estas transcrições de notícias publicadas em jornais, na passada semana, parecerão pacíficas, construtivas, até. Não é assim que as considero: vejo-as como uma manifestação muitíssimo preocupante do recuo da Escola no cumprimento da sua missão de educar e do consequente avanço das mais diversas empresas nessa matéria. As causas deste movimento são várias e profundas; não cabe neste apontamento analisá-las, apenas notar alguns equívocos patentes nas referidas notícias.

O primeiro equívoco é que a escolaridade básica (e a avaliação) deve centrar-se em "situações da vida real", em "situações concretas", na "aplicação dos conhecimentos a casos práticos", na "aplicação de conhecimentos em casos concretos"... Essa é, na verdade, a orientação do Programa Internacional de Avaliação dos Alunos (PISA), concebido pela Organização para o Comércio e Desenvolvimento Económico (OCDE), a que as notícias aludem, mas é uma orientação que pode e deve ser contestada pela consequências nefastas que inevitavelmente têm no desenvolvimento de capacidades cognitivas e afectivas que requerem um elevado grau de abstração e pelo conhecimento relevante que afasta dos currículos escolares.

Ora, o caso noticiado é que certa empresa de recursos pedagógicos, partindo de "uma nova filosofia" de que "o nosso futuro coletivo constrói-se todos os dias", e propondo-se "contribuir para o desenvolvimento educativo, pessoal e social dos jovens, concebeu um "novo programa" avaliativo onde "não cabem apenas os melhores alunos. Cabem todos". Grandes declarações que contrastam com a focagem elementar, antes referida.

E, como convém, é invocado o seu altruísmo: não haverá "quaisquer custos para os alunos ou escolas", porque, nas palavras de um responsável pela empresa, "acreditarmos que esta iniciativa beneficiará os nossos alunos, ajudando-os a consolidar as aprendizagens e elevar os níveis de conhecimentos num contexto similar ao das avaliações internacionais."

Avanço para a operacionalização do tal programa destinado a testar, a partir do próximo ano letivo, a "literacia" em Matemática, Português e Ciências dos alunos dos 2.º e 3.º ciclos. A sua abrangência é nacional e a porta de acesso é a das escolas públicas.

Estas, tanto quanto percebi, limitam-se a receber a informação "detalhada sobre os objetivos e estruturas das provas", bem como os modos de inscrição dos alunos. Depois, as coisas funcionam como um "campeonato nacional", o que muito contribui para a "popularidade" da iniciativa. Transcrevo:
"No primeiro período, em cada escola, apuram-se os alunos com melhores desempenhos nas provas. No segundo período, a competição acontece a nível distrital para escolher os estudantes com melhores resultados. No terceiro, a competição é nacional numa grande final que encontrará os vencedores..."
Isto no quadro da tal filosofia onde "não cabem apenas os melhores alunos. Cabem todos"!

É claro que este tipo de estratégia teria de ter a forma de "provas interativas", disponibilizadas numa sacrossanta "plataforma online", implicando, claro está, que as escolas e/ou os alunos adquiram, a esta ou a outras empresas, agora ou depois, os equipamentos necessários para a concretizar. Perante isto, a declaração de altruísmo poderia ter sido evitada.

Assegura-se, no documento de divulgação do modelo avaliativo, a sua qualidade científica e pedagógica e explica-se a testagem que sofreu ao longo deste ano lectivo, em mais de 1500 alunos de cinco escolas de três cidades: Coimbra, Porto e Lisboa. Não duvido que, sob esse duplo ponto de vista, pouco erros se lhe possam apontar. 

Neste como noutros casos, os grandes erros não são de técnica, são de princípio: de concepção da própria Escola (Oficial e Pública), da sua missão educativa e das funções que deve assumir em termos de aprendizagem, bem como da colaboração que pode ter com outras entidades, sendo ela a decidir quais e em que sentido, não o contrário.

"Escolas" concebidas e geridas por empresas há muito que entraram na Escola, não parando de se expandir; "escolas" que não estão mandatadas pela sociedade para o serem mas que crescem em dimensão e em força, à medida que a Oficial e Pública, que está mandatada pela sociedade para o ser, mirra... e recua e dobra-se...

E, tudo à nossa vista... que, por acaso, até achamos muito bem!

A OPOSIÇÃO COMO CONDIÇÃO DE REGRESSO DA ESPERANÇA

Após ter explorado alguma informação para escrever o texto anterior, que, devo dizer, me impressionou pela linearidade, pela falta de aprofu...