terça-feira, 21 de maio de 2024

O (DES)PRESTÍGIO DAS HUMANIDADES

Encontrámos no facebook de Maria Teresa Amado, professora da área de Estudos Clássicos da Universidade de Santiago do Compostela, um texto recente e muitíssimo interessante sobre a relevância das humanidades e das línguas clássicas, escrito por Iñigo Ruiz Arzalluz, professor de Filologia Latina da Universidade do País Basco (ver aqui). Poderemos dizer que o final é... surpreendente!
 
Maria Helena Damião e Isaltina Martins
 
"Assistimos, desde há demasiado tempo a um progressivo desprestígio dos estudos de humanidades. Sem  dúvida, as razões serão muitas e variadas, mas não parece que se estejam a fazer grandes esforços para as identificar. Uma razão que se repete com frequência – apocalíptica e, como tal pouco convincente – é a que invoca o materialismo imperante na sociedade actual, segundo o qual o lucro é a única medida de sucesso, etc. (...).
 
O que aconteceu no ensino secundário com os estudos de humanidades? Várias coisas importantes e quase nenhuma boa. De todos elas, há uma que me parece ter maior relevância do que a que normalmente lhe é atribuída: o gradual encurralamento e desvitalização do estudo das línguas clássicas, especialmente do latim. Ao contrário do currículo de ciências, o currículo de humanidades sofre de uma manifesta falta de precisão (...).
 
Tradicionalmente, foram as línguas clássicas que caracterizaram simbolicamente os estudos de humanidades: foram elas que, em grande medida, identificaram a opção e constituíram – isto também é importante – a prova mais exigente para quem as escolhia. Alguém dirá que o latim – já para não falar do grego – não serve para nada ou para quase nada. Desde quando a utilidade prática é motivo para incluir uma disciplina no currículo do ensino secundário? Física e Química, por exemplo, são disciplinas que todos os estudantes – de ciências (...) – devem ter. Há alguém que, sem se ter dedicado profissionalmente à Química, ache útil aprender fórmulas? A Química não se ensina – continuemos com o exemplo – porque é útil na nossa vida, mas por razões muito mais poderosas: porque o seu estudo é um excelente exercício para a mente dos jovens, porque lhes abre a porta para uma disciplina fundamental, dando-lhes a oportunidade de continuar a estudá-la, etc. E é bom que seja assim.

O estudo das línguas clássicas cumpre todas estas funções: entre outras coisas, combina uma componente teórica e uma componente prática, convertendo-o num exercício intelectual que cativa quem o pratica e representa um desafio em que entram em jogo  a inteligência, a memória, a intuição (...). Quantas vezes ouvimos pessoas que não se dedicam às letras dizerem que, graças ao latim, compreenderam uma série de conceitos essenciais da gramática da sua língua materna ou de uma língua estrangeira. 
 
Claro que, tal como nas disciplinas de ciências, há muitas outras razões para o estudo das línguas clássicas no ensino secundário: permitem-nos aceder a uma civilização que, para além de ser a origem da cultura europeia, está presente em múltiplos aspectos da nossa sociedade; abrem-nos um mundo fascinante de textos de todos os tipos que nos fornecem uma visão mais informada da história do pensamento humano e da nossa posição na história, etc. 
 
Seria ingénuo atribuir o desprestígio das humanidades apenas ao abandono do estudo das línguas clássicas [mas este abandono contribui em muito para o seu descrédito]. O ensino das línguas clássicas – como no passado – com exigência e seriedade, poderia contribuir significativamente para que a área de letras voltasse a ser vista como uma opção tão sólida como qualquer outra. Esta outra reflexão parece muito próxima de tudo o que foi dito antes:
“Na velha escola (…) o latim e o grego eram estudados através da gramática, mecanicamente; mas a acusação de mecanicismo e aridez seria muito injusta e imprecisa. Estamos a falar de jovens nos quais é aconselhável incutir certos hábitos de diligência, de rigor, até de compostura física, de concentração psíquica em determinadas questões que não podem ser adquiridos sem a repetição mecânica de actos disciplinados e metódicos. (…) Haverá que substituir o latim e o grego como eixos da escola formativa e serão substituídos, mas não será fácil organizar a nova disciplina ou o novo conjunto de disciplinas numa estrutura didáctica que proporcione resultados equivalentes na educação e na formação geral da personalidade".
Talvez esta conversa sobre diligência, precisão, para não falar da compostura, pareça retrógrada, elitista ou sabe-se lá o quê; mas, bem, são palavras de Gramsci."

1 comentário:

António Pires disse...

Uma disciplina nova, e com já grande implantação nas nossas antigas escolas primárias e modernas C + S, que poderá substituir as disciplinas clássicas de Latim e Grego, com benefícios óbvios para a melhoria das aprendizagens, é a Filosofia Ubuntu. É muito fácil de aprender, promove a solidariedade entre todos os seres humanos, independentemente da cor da pele de cada um, valoriza a vida e o trabalho em comunidade com a fórmula "eu sou porque tu és" e, em suma, é uma autêntica panaceia para a os problemas de indisciplina física e moral que estavam a destruir as nossas escolas. Quem manda nas políticas educativas no mundo já não mora aqui, em Portugal. Agora temos de dar a vez aos americanos e, depois, aos chineses. Agora, as línguas são o inglês e o mandarim.

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