segunda-feira, 25 de setembro de 2017

"Aos menos hábeis, as humanidades..."

Arturo Pérez-Reverte foi sobretudo jornalista e agora sobretudo escritor. Pelo que escreve e pelas entrevistas que dá revela-se uma pessoa atenta ao mundo e, de um modo muito particular, à educação escolar. No De Rerum Natura temos deixado apontamentos de declarações suas neste campo (aqui, aqui, aqui).

Ontem foi publicado um depoimento seu de grande interesse sobre o (mau) estado do ensino das humanidades e, especialmente, do ensino da cultura e línguas clássicas em Espanha, que vale a pena ler:

aqui se o leitor preferir o original
aqui se preferir ler a tradução (feita por Isaltina Martins no blogue A cultura e as línguas clássicas).

Eis um extracto especialmente revelador do que se passa também em Portugal:
Numa sociedade resolvida a suicidar-se culturalmente, aconselham-se os jovens brilhantes a estudar só cursos científicos ou de ciências sociais; aos menos hábeis, humanidades... Tal é o triste mapa do nosso futuro. E neste afã disparatado de apagar das aulas todo o inútil, as malfadadas leis e reformas educativas... conseguiram que os alunos que com 16 anos podem optar por Humanidades (...) se encontrem então, pela primeira vez, com o Latim, porém, descafeinado e de uma simplicidade aterradora. Mas essa opção, ainda por cima, está em competição com outras socialmente mais bem vistas: a científico-tecnológica e a profissional, de modo que as suas possibilidades são mínimas.” 

4 comentários:

  1. Em Portugal a realidade é esta :"Numa sociedade resolvida a suicidar-se culturalmente, aconselham-se os jovens brilhantes a estudar só cursos científicos; aos menos hábeis, humanidades" e artes.
    É esta a postura de pais e professores.
    Sendo que os professores dos cursos de ciências olham para os colegas de humanidades como se fossem professores de segunda categoria.
    Sou professora e já senti isso na pele, embora as escolas se reclamem de humanistas etc etc etc...

    Dulce Marques da Silva

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  2. O suicídio é sempre uma opção, mas a questão é outra.
    Ainda mal começamos a dar os primeiros passos na era da descoberta científica e das realizações inimagináveis do conhecimento das coisas, pondo tantos mitos em causa e indagando das causas da nossa ignorância e mal estar civilizacional.
    As ciências sociais têm atingido desenvolvimentos que não há tempo que chegue para os acompanhar e aproveitar. As humanidades e as artes também. E o peso ou relevância destas na economia dos países é bem superior ao das realizações técnicas.
    O mais difícil, na perspetiva de um professor, é comunicar de modo que as realidades não diretamente percetíveis, ou percetíveis através de pensamento, análise e conjeturas, se tornem evidentes.
    Frustrante e inútil e contraproducente é querer, à viva força, ou por magia, ou intervenção divina, saltar etapas, acelerar o movimento da terra, ou o crescimento do cabelo.
    Se são os menos ou os mais hábeis que estudam ciências sociais, humanidades e artes?
    Deixemos que seja a história a propor o veredicto. Nem temos outro remédio.
    E, qualquer que seja o veredicto, o mais importante não é o veredicto.

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  3. Arturo Pérez-Reverte foi para mim uma revelação. Até à leitura destes excertos de textos da sua autoria, eu quase cheguei a supor que não estava bom da cabeça, nomeadamente porque analisava o sistema de ensino de uma forma diametralmente oposta à esmagadora maioria dos meus colegas professores, já para não falar no modo doutorados em ciências da educação maltratam o ensino.
    Este formato de comentário em que escrevo não me permite ser muito expansivo.
    Uma ideia já completamente instalada no terreno é a de que os professores são injustos na atribuição de classificações aos seus alunos. Então, como primeira medida, propuseram a abolição das provas de exame! Com essas “provas” escritas o professor podia defender-se se o aluno não concordasse com a nota, e podia continuar a ministrar um ensino exigente, o que não se coaduna com um sucesso escolar obrigatório! Mas a sociedade reacionária protestou e tiveram de manter alguns exames, para inglês ver. Para contornar esta contrariedade reduziram, ao mínimo dos mínimos, os “saberes burgueses”, tanto científicos como humanísticos, que era permitido aos professores “enfiarem à força” nas pobres cabecinhas dos alunos filhos do povo trabalhador. Os alunos trazem de casa “saberes” populares que os professores devem sempre respeitar e valorizar. Resumindo, o professor deve ensinar o mínimo possível, mas, para isso, deve planificar muito bem, e por escrito, as suas aulas, e preencher muita outra papelada burocrática, nomeadamente no processo de avaliação das aprendizagens, com muitos gráficos e estatística. Para a avaliação ser justa e objetiva e positiva, usam-se as chamadas grelhas de avaliação, em que, para atribuir uma classificação numérica a um dos seus 150 alunos, o professor tem de resolver várias equações matemáticas com a introdução de mais de dez parâmetros de avaliação!
    Os “saberes” da escola antiga têm normalmente um peso de 60 %. É o sucesso escolar a tudo custo!

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  4. Digo isto há anos (a a ciência tem igual parte guardada in mio cuore), hoje em dia, principalmente, por senti-lo, num espaço de ciência reservado a ignorantes absolutos no que ao estudo das humanidades concerne (nunca leram além/aquém de Rodrigues dos Santos).

    Não é à toa que pessoas com percurso "não científico" estão hoje atrás de balcões e, trabalhando em espaços de ciência, com gente na casa dos 20, 30 anos, são uma espécie de ignorantes de serviço, assim em tipo
    2ª classe mal acabada (o que tem a sua graça, tendo, com aquela idade, 20 e muito poucos anos, trabalhado com gente de ciência, e... 5 estrelas: cinema, literatura, antropologia, eu sei lá!).

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