sábado, 13 de setembro de 2014

O FUTEBOLÊS


“Pode-se asnear nos tratamentos; mas na gramática lavra mais fino” 
(Camilo Castelo Branco, 1825-1880).

Soube-se, ontem, em declaração da Federação Portuguesa de Futebol, que, finalmente,  Paulo Bento foi despedido depois de uma longa agonia motivada pelo facto de ter sido assinada uma cláusula de rescisão de contrato consigo no valor de 3 mil milhões de euros, antes do início do passado Campeonato Europeu de Futebol, num país que não tem dinheiro para mandar cantar um cego

Malgré tout, sempre pensei que o despedimento do seleccionador nacional de futebol me obrigasse, por respeito aos vencidos, a pôr ponto final nesta triste questão se não se desse o caso de o desporto-rei ser uma espécie de Rei Midas com súbditos do futebolês. Mesmo deixando Jorge de Jesus no banco dos suplentes com uma das suas famosas frases: “O processo de neutralização do jogador pertence ao forno interno do clube”, alguns sugestivos exemplos: Um craque da bola, ex-jogador do Porto, João Pinto: “O meu coração tem uma só cor: azul e branco”;  um repórter da SIC, Nuno Luz: “Inácio fechou os olhos e olhou para o céu”; um comentador desportivo, Gabriel Alves: “Fica na retina um cheiro de bom futebol”; finalmente, um treinador de futebol, Jaime Pacheco: “Querem fazer do Boavista um bode respiratório”.

Ou seja, o futebolês, por vezes, uma espécie de linguagem que se enquadra na afirmação de Eça de Portugal ser um país traduzido do francês em calão! Isto porque, não sei porque carga de água, o Portugal futebolístico do nosso tempo se transformou num país de um estranho anglicismo pela adopção do tratamento de “mister” dado aos treinadores de futebol. E aqui chegado, interrogo-me: terá sido por o tratamento de “coach” dado nos Estados Unidos aos respectivos treinadores ter sido posto de parte por haver o perigo de ser traduzido por “coxo”, entre a gente que não domina o inglês como uma espécie de esperanto para as comunicações científicas que viajam em fronteiras académicas de um mundo sem fronteiras?

Aliás, o tratamento do treinador por” mister” põe, ainda problemas que excedem simples normas de cortesia. Isto é, se, por exemplo, a treinadora for uma mulher casada deverá ou não ser tratada por “mistresss” (pese embora a palavra ter uma tradução, por vezes, pejorativa)? E no caso de ser solteira  por “miss”? Ou será que no futebolês, de tácticas de “todos a monte e fé em Deus!” ,“mister” é um substantivo sobrecomum?
 
Seja como for, mesmo se asneira, o tratamento de "mister" dado aos treinadores de futebol tem a forte chancela de passa-culpas de Camilo por, segundo ele, se poder asnear nos tratamentos. Já quanto à Gramática, não sendo ela disciplina curricular dos cursos de “Treinadores de Futebol de Fim-de-Semana”, usando do mais elementar bom senso, ao contrário do pomposo  nome de “Universidade de Verão do PSD”, não se arrojaram os seus mentores a titulá-la  de “Universidade de Futebol de Fim-de-Semana”. Aí, sim, “se memória desta vida se consente” nunca o autor do “Amor de Perdição” perdoaria tanta e tamanha  desfaçatez!

14 comentários:

  1. Excelente.

    Falta talvez acrescentar que um desporto em que é comum falar-se em "lances de bola parada" ou ainda em "excelentes jogadores sem bola" so pode dar-se mal com a gramatica...

    Boas

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    1. Obrigado pelo seu comentário. Lembraram-me os seus exemplos aquilo que se poderia chamar de policiês: Vamos a andar: é proibido estacionar parado!"


      Ainda hoje li numa carta ao director de um jornal: "Enfrentar de frente!"

      Cumprimentos cordiais,

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  2. "Pode-se asnear nos números; mas na gramática lavra mais fino". Anónimo
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    Deixe lá as pessoas que, com uma instrução abaixo do desejável, certamente por dificuldades próprias e do país, conseguiram mostrar mérito. E olhe que "prognósticos só no fim do jogo" até tem bastante que se diga, filosoficamente falando. E quem acha que é tarefa fácil ser articulado quande se é assaltado por jornalistas de microfone em punho, que atire a primeira pedra.

    E usar palavras estrangeiras não é exclusivo da tribo do futebol. Haverá muitas razões para isso, boas e más: facilidade de utilização (palavras mais curtas e ágeis), pertença à mesma tribo internacional, o querer descrever um conceito que a palavra equivalente portuguessa não espelha bem, etc. E o que não falta por aí é drs da mula-russa a usar neologismos inúteis e desaquados.

    No caso de mister, especulo que virá da (boa) tradição inglesa de nãp tratar automaticamente o chefe por dr., coisa bastante porteguesinha e abjecta, por tudo o que significa. Uma pessoa será uma pessoa, acima de tudo, ou a sua função se fior relevante. No caso de uma treinadora, o equivalente seria madam, mas não havendo exemplos a expressão usada será diferente quando o problema se colocar. A própria palavra futebol também foi importada, e esse mecanisimo é comum em todas as línguas, é assim que evoluem. Veja o número de latinismos usados na língua inglesa, apesar de não ser uma língua românica.

    Mas divago. O meu ponto é que talvez fosse bom sermos mais tolerantes e benevolentes com os pontapés na gramática dos outros, apanhados pelas circunstâncias da vida mas capazes de dar valor, e olharmos mais para as nossas próprias limitações. Que dizer de um Doutor que, escrevendo com alguma soberba sobre a gramática dos outros num blog sobre a natureza das coisas, confunde 3 milhões com 3 mil milhões?

    Distraíu-se com o que o estado emprestou ao Novo Banco? Ora aí está uma tribo em que tb podia pegar na gramática (os famosos "de que") e nos anglicismos bacocos. E esses não costumam ter a desculpa de não terem tido oportunidade de andar na escola.

    Com elites destas não vamos lá...

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    1. Quer concorde ou não com o seu comentário, redimo-me, não de um erro gramatical meu, mas de um "lapsus calami" ao escrever 3 mil milhões de euros em vez de 3 milhões de euros.

      Talvez até pudesse eu evocar, em minha defesa, um passado de 68 anos a lidar com escudos do tempo do Estado Novo. Mas não!, como sabe e nos ensina a voz do povo: “Burro velho não aprende línguas”. Ou, numa linguagem mais elaborada do tempo de Nixon: “My mind is made up; d’ont confuse me with the facts”.

      Quanto aos deslizes gramaticais (embora ficando-lhe muito bem a defesa de quem os comete, sob a alegação caridosa de uma vida madrasta que não lhes permitiu terem tido acesso a determinados estudos ), se se tiver dado ao cuidado de analisar os seus autores dois deles não se devem ter ficado pela antiga 4.ª classe do antigo ensino primário, aliás bem exigentes!

      Para lhe avivar a memória, e não recair sobre mim o opróbrio de pretender chacotear pessoas, como sói dizer-se, de letras gordas, apresentei , de entre 5 exemplos, dois indivíduos cujos estudos académicos que certamente têm, ou deviam ter, não desculpam o “futebolês” utilizado em metáforas sem nexo linguístico ou filosófico. São eles os casos do comentador desportivo Gabriel Alves e do repórter da SIC Nuno Luz. Escreveu o primeiro em ignorância fisiológia: “Fica na retina um cheiro de bom futebol”. E o segundo em linguagem paradoxal: “Inácio fechou os olhos e olhou para o céu”. Isto, mais do que “futebolês”, é “eduquês” de um país em que, segundo a Associação Comercial do Porto, “ensina-se pouco, educa-se menos e exige-se quase nada”. Se este “statu quo” não fosse trágico seria cómico e humano porque, “não existe cómico fora do que é propriamente humano” (Bergson).

      Quanto ao seu comentário que me quer puxar para os meandros da filosofia: “E olhe que “prognósticos só no fim do jogo” até tem bastante que se lhe diga, filosoficamente falando”.Que responder-lhe? Apenas: “Vocês, os filósofos, colocam questões sem resposta que assim devem permanecer para que mereçam o nome de filosóficas”. Sabe quem o escreveu? Um filósofo, Jean-François Lyotard!

      Este comentário já vai longo. Em resumo, as minhas posições nucleares são estas:

      - Porque não adoptar o tratamento bem português de senhor para os treinadores e de senhora paras as treinadoras? Quanto ao tratamento de “madame”, por si evocado, ocorre-me o tratamento pretensiosamente “chic” que os caixeiros das lojas davam às clientes do sexo feminino: “Que deseja madame? “

      -Convivo bem com ignorantes, só não tolero sapateiros que vão além da chinela . Um exemplo? “Eu criei uma ciência para ter uma ideia, um modelo de jogo, um modelo de jogador, um modelo de treino” (Jorge Jesus, “Jornal de Notícias”, 11/03/2013).

      Diga-me, caro leitor, se isto não é o paradigma do “futebolês” temperado com doses maciças do picante da modéstia? Uma ciência com um cientista que pretende revolucionar a Geometria com este princípio: “Vocês quatro formem aí um triângulo” (Jorge Jesus “dixit”, mesmo sem a pressão de estar a falar para o microfone de uma estação televisiva).

      Mesmo tendo em conta os milagres de que se gaba um Jesus destes não há Santa Engrácia que nos valha! Repare, caro comentador, nestas pérolas que lhe saem da boca como quem atira pérolas a porcos que não têm humildade suficiente para o compreenderem e ajoelharem-se respeitosamente perante tanta sapiência. Atente, agora, o leitor nesta notícia de um órgão nacional de informação escrita: “O treinador do Benfica considera-se o melhor do mundo e não acredita que alguém saiba mais de futebol do que ele. Nem Mourinho o supera" (“Jornal I”, 27/08/2014). Como diz o povo, quem fala assim não é gago! Deixa-me é tartamudo a mim!

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    2. Dado o preciosismo da leitura do meu post, por parte do comentário anónimo, rectifico ( última linha do 3.º § ) "aliás bem exigentes" para "aliás bem exigente".

      E já que estou com as mãos na massa, os textos do meu "post" e deste comentário foram escritos segundo o Antigo Acordo Ortográfico.

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    3. Vou tentar explicar-me melhor. O meu ponto central era que seria mais importante cuidarmos dos nossos erros e tentarmos melhorar, em vez de troçar dos outros. Até porque os motivos de troça não serão porventura tão óbvios como parece à primeira vista.

      Uma ironia deliciosa que enquanto troçava da gramática lhe tenha saído o número torto, um problema comum em Portugal, e com consequências bem funestas.

      Mas e o que fez na sua resposta? Minimizou o seu erro (espero que não seja o sr a fazer as compras lá em casa...) mas aumentou a parada na troça, ainda para mais invocando o eduquês e a exigência da antiga 4a classe. A mim parece-me que isso é ser forte com os fracos e fraco com os fortes, infelizmente tb comum em Portugal.

      A minha referência ao madam (e não madame) foi uma tentativa de lhe chamar à atenção que esta coisa dos neologismos tem muito que se lhe diga. Mas pelos vistos não me fiz entender.

      Mas analisemos um pouco a indigência comentadora da tribo futebolense (que aliás me interessa pouco) referida por si. Passando por cima da dificuldade que é, mesmo para um profissional, ter um discurso articulado em directo, “Fica na retina um cheiro de bom futebol” é muito eficaz a transmitir o pretendido. A sensação de uma boa jogada de futebol, atrevo-me a dizer, está muito mais próxima de um aroma que do sentido da visão, por onde nos chega, Através de uma frase absurda e metafórica, e até por isso, o comentador conseguiu transmitir com vivacidade o que deveras sentia, ao espectador. Aliás não seria por acaso que o dito comentador era apreciado.

      Analogamente no caso de “Inácio fechou os olhos e olhou para o céu”. Ao real fechar de olhos a concentração de Inácio foi para cima e tentou certamente VER (que é assim que imaginamos) a inspiração divina que almejava.

      Interpretações literais podem ser divertidas mas não são necessariamente inteligentes.

      E continuando, mas um triângulo só pode ter 3 pontos? A natureza do triângulo futebolês não se esgota certamente na sua forma geométrica. Porque não um jogador à frente e 3 em linha atrás? ou 3 nos vértices e um no centróide? A mim parece-me que triângulos só com 3 jogadores é filosofia limitada. As aparências podem iludir portanto.

      Jorge Jesus pode não se expressar perfeitamaente mas lá que chegou em anos consecutivos à final de uma taça europeia, chegou. e isso consegue-se com ideias do que se quer, como se quer e com quem se quer, que na minha modesta opinião foi o que ele tentou dizer. E com resultados daqueles, não sei bem quem está a ir para além da chinela.

      A sua última citação do JJ é para mim a mais deliciosa. Acredito que JJ sabe muito bem o que é e acredito que essa frase é profundamante irónica.

      Mas a ironia passa mal em Portugal. Especialmente junto dos nostálgicos da antiga 4a classe, Desconfio que há uma ligação.

      Saudações, espero que mais irónicas que sarcásticas!

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    4. Ultrapassando a interpretação literária que faz, por vezes mística de Inácio em olhar com os olhosfechados o céu, ou forçada , sob o ponto científico, de Gabriel Alves confundir a função da retina com o sistema olfactivo, passemos ao cerne dos seus contra-argumentos.

      Mesmo dando de barato o incómodo que lhe parece causar a evocação da antiga 4.ª classe quando posta em confronto com, passe o pardoxo, as antigas “Novas Oportunidades” ou certos diplomas de universidades de vão de escada, torna-se difícil discutir argumentos com quem pretende demonstrar a quadratura do círculo ou que um triângulo (para si, “em filosofia não limitada”) poder ter mais de três vértices, tidos como pontos na sua irreprimível tendência de tornar acessível, à compreensão de magos da bola, a Geometria!

      Talvez sem querer fez-se discípulo dos sofistas, estrangeiros que chegados à Grécia Antiga se faziam professores itinerantes procurando popularizar o conhecimento cultivado pelas sociedades científicas ajudando, desta forma, os jovens a fazer carreira política. Como vê “nihil novi sub sole” se tivemos em conta a carreira de determinado políticos da nossa praça habilitados com diplomas que não valem um caracol furado sob o ponto de vista académico.

      A sua pretensão é diferente, é justo reconhecê-lo, ao querer reduzir os aspectos científicos do futebol (v.g., Biomecânica, Metodologia do Treino, Fisiologia do Esforço) a simples conhecimentos empíricos como se os processos da ciência não fossem característicos da acção humana, por se moverem pela indissolúvel união do facto empírico e do pensamento racional, como defendeu J. Bronowski.

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    5. (Continuação do comentário anterior)


      Mas para não me tornar enfadonho em fazer chover no molhado, termino este meu comentário com um último argumento da sua lavra : “A sua última citação (ou seja, minha) do JJ é para mim a mais deliciosa. Acredito que JJ sabe muito bem o que é e acredito que essa frase é profundamente irónica” .

      Seria irónica se proferida num teatro de revista de antes de 25 de Abril em que a piada subtil , ou a frase irónica, servia para iludir a apertada vigilância da Censura aos Espectáculos.

      Reproduzo, novamente, para que o leitor possa tirar as ilacções devidas, as declarações de JJ (Jorge Jesus): “O treinador do Benfica considera-se o melhor do mundo e não acredita que alguém saiba mais de futebol do que ele. Nem Mourinho o supera” (“Jornal I”, 29/08/2014).
      .
      Não se trata, portanto, de uma simples opinião de um qualquer jornalista mentiroso num jornaleco qualquer, mas sim de uma reportagem de um jornal de referência sobre uma palestra proferida por Jorge Jesus, a convite de um núcleo de alunos, no anfiteatro da Faculdade de Motricidade Humana da então Universidade Técnica de Lisboa(Jornal I, 27/08/2014).

      Posso até desculpá-lo que ao olhar com simpatia para o rato preto ele lhe pareça branco (António Vieira), ma não posso deixar de lamentar que a prosápia de Jorge Jesus seja por si tomada como profundamente irónica porque feita no auditório da Faculdade de Motricidade Humana da antiga Universidade Técnica de Lisboa, onde foi convidado, ou fez-se convidado, em palestral e em que quis fazer crer ao auditório de estudantes do futebol, sob os seus apectos científicos, que o empirismo de Jorge Jesus lhe permita o arrojo de afirmar (entre outras basófias) “que nem Mourinho o supera”. Ou seja, referia-se ele a Mourinho licenciado em Desporto pelo ISEF e doutor “honoris causa” pela Universidade Técnica de Lisboa.

      Por mais alquimia, ou sofismas, que pretenda a sua admiração por Jorge Jesus transformar o latão (ou a simples lata!) em ouro, essa transmutação não é possível como impossível é pretender que o louvor em boca de Jorge Jesus, em vez de perder todo o valor, como diziam os latinos (“laus in ore proprio vilescit”), seja havido, por si, como PROFUNDAMENTE IRÓNICO! Esta a questão!

      Como escreveu Eça (cito de memória), se continuar com os seus argumentos filosóficos ou explicativos do que se passa na cabeça de Jorge Jesus, “não é um vencido que se retira, é um enfastiado que se afasta”… a menos que o seu comentário traga algo de novo e substantivo que me leve a mudar de opinão!

      Isto é, nada de sofismas , da sua parte, que pretendam demonstrar que a petulância de Jorge Jesus não existe, restando, apenas, a sua profunda ironia em se considerar o melhor treinador do mundo e, por que não?, do número , traduzido em biliões, de estrelas da via lactea!

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    6. "It is I, LeClerc" ('Allo 'Allo!, séries 1 a 5)
      [Lamento o hiato da resposta mas só comento em blogs ao fim de semana.]

      O meu ponto original era que era profundamente irónico que a sua diatribe contra a iliteracia sofresse de inumeracia, confundindo 3 M€ com 3 G€, concluindo eu que seria melhor olhar para os erros próprios antes de troçar dos outros, especialmente quando estes têm circunstâncias atenuantes: desde sempre o futebol foi um meio de fugir à pobreza para quem não tinha inclinação ou condições de estudar, nem um meio familiar que pudesse compensar a falta de inclinação. Achei o seu artigo feio e indigno de um membro da elite social, de que indubitavelmente faz parte, e comentei que o seu artigo seria um exemplo que tipifica bem a elite portuguesa: de fraca qualidade, mais atreita a acusar os erros de outrem que a corrigir os erros próprios e sempre disponível para vincar as diferenças de classe.

      Descartou o seu lapso como um mero "lapsus calami" mas já não foi tão benevolente com o Jorge Jesus e companhia. E como se costuma dizer, "a caridade começa em casa". E tão grave pontapés na gramática como a sua confunsão de números. E não perceber isso também é sinal de inumeracia. E não foi apanhado numas declarações em directo para um telejornal, escreveu-o num artigo, supostamente pensado e com oportunidade de correcção.

      E poderia ter feito os seus pontos sem troça. Até podia ter construído muito melhor o seu caso (com o qual eu até poderia concordar) - o da utilização abusiva de palavras estrangeiras e dos "sapateiros para além da chinela" - com outra retórica e outros protagonistas mais merecedores (lembro-me assim de repente do "cidadões", daquele rapaz doutorado que fez a 4a classe antiga), mas infelizmente preferiu bater nos bombos da festa do costume. Alvo completamente errado.

      Mas nas suas respostas a coisa estraga-se ainda mais. Vejamos:

      - Acredita mesmo que o Gabriel Alves não sabe qual é a diferença entre a função da retina e o sistema olfactivo? really? [uso do inglês para aumentar a ênfase] Ou terá sido um comentário oral rápido utilizando lugares comuns que saiu mal? Não é este tipo de erros comum em todas as TVs do mundo? É possível os comentadores utilizarem uma linguagem colorida e metafórica sem os seus erros serem sintoma de iliteracia.

      - Introduziu a despropósito temas novos como a influência da 4a classe antiga e das "novas oportunidades", sugerindo que eram parte do, ou cruciais para o problema. As questões da educação podem ser graves e muito haveria para discutir, mas não era esse o tema da discussão. E que eu saiba nenhum dos exemplos frequentou as "novas oportunidades" e pelo menos dois dos visados (GA e JJ) frequentaram a antiga 4a classe! Portanto, non sequitur, ou melhor segue o argumento contrário ao que tenta fazer.

      - Segue colocando argumentos na minha boca [ah, perdão, colocando argumentos como se fossem da minha autoria] que eu nunca fiz. De facto o que eu disse foi que um triângulo tem muitos pontos e, se cada jogador representa um ponto, mais do que três jogadores podem formar um triângulo. O sr. substituiu "pontos" por "vértices" e construiu um argumento falso, um espantalho (strawman, em inglês): atribuir ao oponente um argumento falso ou fraco - o espantalho - para depois o destruir. Na realidade, sendo um triângulo limitado por linhas e contendo uma área, pode-se sugerir a forma triangular com n pontos, por exemplo na fronteira, sendo que, claro, 3 deles terão que estar nos vértices. Não há nenhuma quadratura do círculo e a minha Geometria está muito bem, muito obrigado. Distracção, inumeracia ou desonestidade intelectual?

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    7. [cont. do comentário anterior]

      - Vou passar por cima dos comentários sobre a minha filosofia, que nunca expliquei, ou dos sofismas que supostamente avancei porque apenas conseguiu ou acertar em mais espantalhos ou dar-me razão, se tivesse percebido os meus argumentos

      - No caso do JJ, recorre a informações escritas e em 2a mão. Mesmo admitindo que a transcrição foi fidedigna, dificilmente uma transcrição pode detectar um comentário irónico. Por outro lado, o sr. parte do princípio que JJ não poderia ser irónico naquele contexto, mas isso é apenas a sua opinião. É aliás em contextos do género que a ironia é mais poderosa. JJ tem uma persona, que na minha opinião passa por se declarar o melhor do mundo que obviamente não é. Faz parte nestas circunstâncias que se seja inteligente o suficiente para se saber que é basófia e que o próprio sabe que é basófia. As declarações de JJ sobre ele próprio não podem ser levadas demasiado a sério. É um expediente de quem é pouco articulado e está sujeito permanentemente a pressão dos media para fazer declarações sobre como salvar a humanidade, digo o Benfica. Só mesmo quem não consegue perceber a ironia é que pode pegar nas palavras de JJ e interpretá-las literalmente. Aliás é curioso que invoque o Mourinho que, sendo mais articulado, também é especialista em declarações bombásticas.

      - Aproveitou para fazer umas insinuações, misturadas com mais uns espantalhos, sobre a falta de formação profissional do JJ, e putativa incompetência, mas que a realidade desmente: Portugal é uma indústria competitiva e de algum êxito internacional, ganhámos várias taças de clubes das mais importantes e somos a 11a melhor equipa por selecções (e já fomos, salvo erro, a 4a). JJ é treinador de uma das melhores equipas portuguesas e teve algum êxito nessa tarefa; se não tivesse, já teria sido despedido há muito. Os treinadores profissionais têm que ter o curso de treinador de um certo nível. O papel do treinador é difícil de definir mas eu sublinharia a condução de jogadores, adequar os jogadores à equipa e ás necessidades e a definição das tácticas. Por muito importante que seja o papel das metodologias do treino e outras coisas que refere, elas são em parte da responsabilidade do resto da equipa técnica. Sobre o mais importante no papel do treinador, não se conhece muito. Está apenas no início a utilização da teoria de jogos e da estatística neste contexto. Tudo isto significa que a intuição ainda tem um papel importante e esse é muito provavelmente um ponto forte do JJ. Compará-lo ao Mourinho, provavelmente o melhor treinador do mundo, é sintomático do valor de JJ, com ou sem doutoramentos honoris causa. Ele não é um sapateiro que foi para além da chinela (já lhe disse que esta tb é uma expressão feia?), antes pelo contrário, calçou-a muito bem, apesar dos seus pontapés na gramática.

      Enfim isto já vai demasiado longe e não vou voltar a comentar, que foi dito o suficiente para reflexão. Como é dado a citações, que me pareceram, com excepção de uma, despropositadas despeço-me numa última evocação ironico-sarcástica, com a ajuda de Shakespeare:

      " I do repent the tedious minutes I with [you] have spent." [A Midsummer Night's Dream, 2.2.110-111], ironia!

      "I think thou art an ass." [The Comedy of Errors, 3.2.15], sarcasmo!

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    8. Acabo de publicar, em post, intitulado "A basófia de Jorge Jesus tida como profunda ironia", ao duplo comentário, devido à sua extensão, publicado às 17:50, a primeira parte, e às 17:51 a segunda parte, do dia de ontem.

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  3. O autor do artigo expressa-se e argumenta muito bem, não há dúvida. O Anónimo,ao defender pessoas como o Jorge Jesus parece querer que o salário do mesmo suba aos três mil milhões de euros de maneira a que esse dinheiro seja dividido entre eles. Isso demonstra que o anónimo não é mau de todo, daí a "inteligência" de se manter anónimo. Queria convidar outros anónimos como eu a juntarem-se a esta luta contra o Dr. Rui Baptista de maneira a podermos ser tão ricos como os banqueiros que o anónimo tanto despreza. Juntemo-nos para esse sonho se torne realidade …que nós anónimos continuemos anónimos e que nunca depositemos o nosso dinheiro num banco que nos possa roubar. A partir de hoje façam vossas a minha voz e digam roubar é bom, quanto mais melhor e vamos ser justos e dividir tudo entre nós. Que ninguém engane o outro. Anónimos unidos enriqueçamos, nos mantenhamos anónimos, dividamos o nosso dinheiro equitativamente e anonimamente e que tenhamos como único propósito na nossa filosofia de formar um triângulo com um homem no vértice e doze na base e esperemos que ninguém note que são mais que onze. Se isso não bastar para ganharmos, tornamos a nossa baliza anónima como nós. Será que é possível marcar um golo anónimo? Ficamos por aqui à espera de uma resposta

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    1. Este blog permite anónimos e se quisesse, podia proibi-lo. Aceita portanto estas regras de jogo. Ficou bem ao RB não falar disso, espero que não seja um acólito contratado.

      Ser anónimo tem uma grande vantagem, mas não é a que está a pensar:

      De e para um anónimo, o que conta são apenas os argumentos que se usa e não quem se é. E para uma discussão valer a pena não pode importar quem se é. Não havendo incivilidade, só vejo vantagens. Já no caso dos ataques ad "anonimen" pode ser um problema, mas esses ficam com quem os prefere, anónimo ou não.

      E, apesar dos anónimos não avançarem muitas vezes com bons argumentos - veja-se o seu caso - conseguem perceber de geometria. Pena é incluírem o árbitro na sua táctica. Por isso são 12 e isso é batota

      "*Ficamos* aqui à espera de uma resposta"

      Temos acólito!

      [Como disse ao RB, não vou voltar aqui, life is too short]

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    2. Viva o anonimato.!!! Não respondo a malucos senhor anónimo com letra minúscula. Seja construtivo, dê o seu contributo à sociedade, trabalhe!
      Mais vale um bom escritor que se expressa e dá a cara ao público, do que um anónimo que precisa de conversar com os "cidadões" seus amigos para recolher argumentos, arranjando desculpas feias, que pouco o dignificam, para a demora da resposta. Ao contrário de si, não fico à espera de uma resposta, há coisas mais interessantes para fazer nesta vida!!! De certeza que já deve ter "perdido" algum debate com o Dr. Rui Baptista, pois as suas respostas evidenciam rancor, o que ainda lhe vai provocar um ataque cardíaco, mas pelo menos reconhece que a vida é muito curta para aqueles que em vez de fazerem o bem se pautam por vinganças e rancores que acabam por virar-se contra os próprios!
      Assinado: Aquele que repudia os anónimos cobardes e os acólitos contratados e que acha que a vida é bela quando não temos complexos… e mesmo assim mantenho-me anónimo:)

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