sexta-feira, 24 de abril de 2020

"Orchestravirus"

Um amigo, professor de Pedagogia da Universidade de Granada, dá-me conta da sua vida académica em tempo de pandemia, destacando a criação da "Orquestra e coro da Universidade de Granada" designada por "Orchestravirus". Depois de diversos aperfeiçoamentos, eis que tocam e cantam uma bela versão do "Guardeamus igitur" já traduzido em treze línguas.



A defesa de Portugal como cidade

Mais um texto com pensamento "fora da caixa" de Santana-Maia Leonardo, inserto no jornal As Beiras de hoje:

Se os nossos governantes, caciques e deputados não fossem aquilo que toda a gente sabe que eles são, aproveitavam a oportunidade única que esta pandemia nos vai proporcionar para reverter, de vez, o modelo desenvolvimento grego da Cidade Estado, herdado da Corte de Lisboa, defendido por Salazar e cimentado por Guterres, Sócrates e Passos Coelho.

Eu sei que isto é praticamente impossível de concretizar tendo em conta a natureza maioritária do povo português residual. O povo português residual, como sabem, é descendente dos cortesãos e parasitas que ficavam nas praias de Lisboa, cheios de medo do mar sem fim, à espera da chegada das naus com as especiarias, o ouro do Brasil e, mais tarde, as divisas dos emigrantes com que matavam a fome e proclamavam o orgulho de ser português, como se, para tal, tivessem dado algum contributo, para além de darem ao dente. Ora, como facilmente se constata cada vez que um político ou comentador abre a boca, o povo português residual apenas aceita partilhar aquilo que é dos outros.

Acontece que, como o terramoto de 1755 já tinha demonstrado e esta pandemia veio a confirmar, o modelo de desenvolvimento holandês das cidades médias é o que melhor serve a Portugal, em todos os aspectos: unidade e desenvolvimento nacional, coesão e ocupação do território, defesa do ambiente, apoio intergeracional, luta contra a corrupção e capacidade de resposta a cataclismos naturais, pandemias e atentados terroristas.

O princípio estruturante desta grande reforma, que eu venho defendendo há mais de trinta anos, resume-se a isto: “governar Portugal como se fosse uma cidade, em vez de governar Lisboa como se fosse o país.”

 Se todos os ministérios, secretarias de estado, direcções gerais, Assembleia da República, universidades públicas, quartéis militares e os estados-maiores, Tribunais Superiores e Constitucional, etc. etc. fossem deslocalizados para os diferentes distritos, cada um com a sua especialização (Educação, Turismo, Agricultura, Negócios Estrangeiros, Justiça, Economia, etc.), e os diferentes organismos do Estado deles dependentes fossem distribuídos pelas diferentes vilas e cidades de cada distrito, para além de se libertar Lisboa da pressão urbanística e aliviar os transportes públicos da região de Lisboa, permitia não só que todos os funcionários destes serviços fossem a pé (ou de bicicleta) para o trabalho como também que os filhos fossem a pé para a escola.

Além disso, havia uma infinidade de gente que passava a poder usufruir e dar utilidade à grande quantidade de equipamentos públicos que estão à disposição por todo o interior do país (para já não falar, por exemplo, do aeroporto de Beja) e que estão sub-aproveitados por falta de pessoas.

Por outro lado, permitia que o país não ficasse decapitado se uma grande tragédia se abatesse sobre Lisboa, ao mesmo tempo que salvaguardava a unidade nacional. E já todos percebemos que, com o advento da internet, dos novos meios de comunicação e com a rede de auto-estradas existente, o facto de os edifícios físicos dos ministérios estarem distribuídos pelo território não só não causa qualquer transtorno na prestação do serviço como só tem vantagens.

E sendo obrigatório, para o relançamento da economia, o lançamento de obras públicas, era uma forma de levar a cabo um grande programa de obras públicas a nível nacional para a próxima década, ao mesmo tempo que se levava a cabo a reforma do Estado: reorganização territorial e administrativa; regionalização, reforma das autarquias e da lei eleitoral; reforma judiciária e judicial; reforma das forças armadas e das forças policiais; reforma do sistema educativo e da organização das universidades, etc. etc.

Finalmente, este seria um passo determinante na luta contra a corrupção, tendo em conta que é precisamente a concentração de todos os poderes numa pequena cidade como Lisboa e a entrega do resto do território, despovoado e sem massa crítica, aos caciques, todos eles afilhados do poder de Lisboa de cujo orçamento dependem, que são os alicerces e as traves mestras da corrupção portuguesa, uma corrupção estrutural, assente na cunha e no compadrio. A defesa de Portugal como cidade

Santana-Maia Leonardo Advogado

A MEGALOMANIA DE FERRO RODRIGUES E AS COMEMORAÇÕES DE 25 DE ABRIL DE AMANHÃ

                                   A grandeza não consiste em receber honras, mas em merecê-las"
                                                                                                                           Aristóteles

Houve uma altura em que, por momentos, julguei poder ser pensado que sofro de delírio persecutório,  relativamente ao 25 de Abril. Mas foi sol de pouca dura perante a realidade dos acontecimentos.

Obrigo-me, como tal, a agradecer a Ferro Rodrigues por ser minha testemunha de defesa  pela razão que encontro nesta notícia  da Rádio Renascença: “Número de pessoas na cerimónia tem vindo a ser reduzido devido às decisões das entidade convidadas”.

Aqui chegado, residem em mim duas dúvidas: Por serem essas comemorações havidas por extemporâneas, num momento em que o país se confronta com um combate de vida ou de morte com a pandemia do coronavírus? Ou porque, parafraseando a voz sábia do povo,  o medo do contágio é que guarda a vinha? 

A minha discordância fundamento-a com o facto de Ferro Rodrigue poder ter visto aqui, por hipótese, uma ocasião soberana para compartilhar honras com Salgueiro Maia em defesa de uma causa em que ele acreditou e por ela arriscou a vida, e que dela nunca se aproveitou, ao contrário de tantos outros que se aproveitaram por miserável interesse pessoal. Neste contexto, alinho incondicionalmente com Millôr Fernandes, escritor e humorista  brasileiro: “Desconfio de todo o idealista que lucra com o seu ideal”.

A lista moderada de convidados, acordada democraticamente com os lideres parlamentares, foi acrescida autocraticamente por Ferro Rodrigues ou apenas por si autorizada? Em hora de tantas duvidas, ocorre-me a fábula do  sapo da história infantil, que querendo ficar do tamanho de um boi, tanto inchou que  acabou por rebentar. Aliás, esta tendência megalómana também humana foi bem caracterizada por Blaise Pascal: “Somos tão presunçosos que desejaríamos ser conhecidos em todo o mundo. E tão vaidosos que a estima, de cinco ou seis pessoas que nos rodeiam, nos alegra e satisfaz”.

Estima que estimo ser bem  maior do que a de meia dúzia de pessoas por Ferro Rodrigues pertencer ao partido no poder. Se, porventura, esta estima  não sofre contestação dentro do partido do Largo das Caldas parece-me  mau sinal porque desconfio dos indivíduos que só tem amigos e não tem inimigos. Ou são santos de pau carunchoso ou pobres diabos!

Estamos  perante um clima  de  contestação, difícil de ocultar, às cerimónias de 25 de Abril, reconhecida em declarações do  próprio António Costa, hábil mediador de conflitos, quando faz apelo público  ao bom senso.

Com  maior exigência, escudado em arrojo meu, faço apelo ao “soberaníssimo bom senso”, de que nos  falava Antero da sua ilha açoriana. Transposto para os nossos dias, o direito  dos cidadãos em exporem as suas, ainda que discutíveis, opiniões em nome da liberdade conquistada em 25 de Abril.

Quando evoco liberdade faço-o no seu sentido mais nobre que custou a vida a  Madame Roland, escritora e activista política, que durante a Revolução Francesa, ao subir ao cadafalso, onde seria guilhotinada, proferiu a frase que passou à história:  “Ó  liberdade! Quantos crimes se cometem em teu nome”!

Aditamento a este meu "post": No  início desta madrugada, "Páginas dos Jornais"  (SIC), foi dado conhecimento da capa do "Jornal I" sobre da ausência da UGT nestas comemorações.

quinta-feira, 23 de abril de 2020

AMOR VIRTUAL - II - VARIAÇÕES SOBRE UM SONETO CAMONIANO

Mais um poema do meu amigo Eugénio Lisboa:



Amor é fogo que arde só ao longe
É ferida que dói e que se sente.
É um contentamento só de monge
É promessa doce que logo mente!


É um querer igual a não querer
É um comer que come sem comer
É um contentar-se em não colher
É um cuidar que se ganha sem arder!


É querer não estar preso e solitário
É sonhar que é sonhando que se tem
É só saber aguentar o fadário


Na esperança de o vírus acabar
É amar com as regras ao contrário
É cuidar que se frui sem se roçar!



Eugénio Lisboa,

pedindo desculpa ao grande Vate, por se apropriar

de um seu soneto justamente célebre, para fins medi-

cinais, muito necessários neste momento de grande solidão.

COSMOS: MUNDOS POSSÍVEIS: UMA ESCADA ATÉ ÀS ESTRELAS


Neste Dia Mundial do Livro deixo aqui, para abrir o apetite para a obra, início do Cap. 1 de "Cosmos- Mundos Possiveis", de Ann Druyan, que a Gradiva acaba de publicar: 


"Não sou eu que o digo, mas o mundo, que tudo é uno."
HERACLITO, CERCA DE 500 A. C.

"Neste grande futuro, não podes esquecer o teu passado."
BOB MARLEY, «NO WOMAN NO CRY»

"Ao longo de 99,9 por cento do tempo de existência da nossa espécie, fomos caçadores e recolectores [...] limitados apenas pela terra, pelo oceano e pelo céu [...] Nós, que nem o nosso lar planetário conseguimos pôr em ordem [...] vamos aventurar‑nos a viajar pelo espaço, a mover mundos, a modificar tecnologicamente outros planetas, a instalar‑nos em sistemas estelares próximos? [...] Na altura em que estivermos prontos para nos instalar nem que seja nos sistemas planetários mais próximos, já teremos mudado. Só por terem passado várias gerações já nos teremos modificado. Somos uma espécie adaptável. [...] Apesar de todos os nossos defeitos, apesar das nossas limitações e falhas, nós, seres humanos, somos capazes de grandeza [...] Onde terá a nossa espécie nómada chegado no fim do próximo século? E no fim do próximo milénio?"
CARL SAGAN, O PONTO AZUL‑CLARO |

Somos muito jovens, recém‑chegados à vastidão cósmica. Agarramo‑nos à nossa praia no oceano do cosmos como crianças que ainda mal sabem andar, afastamo‑nos uns passos da nossa mãe até que os nossos medos nos assaltam e voltamos para ela a correr em busca de protecção.

Há cerca de 50 anos fizemos meia dúzia de visitas à Lua, durante um breve período. Desde então as nossas viagens de exploração têm sido feitas por robôs. Em 1977, enviámos a Voyager 1, o nosso emissário robótico mais ousado, a uma distância de nós maior do que alguma vez tínhamos alcançado, para lá dos ventos emitidos pela nossa estrela, em direcção ao espaço interestelar.

Mas o Sol é apenas a estrela mais próxima. À velocidade de 60 mil quilómetros por hora, aproximadamente aquela a que se desloca a Voyager 1, seriam precisos quase 80 mil anos para chegar a Próxima do Centauro, a que está a menor distância a seguir ao Sol. Seria apenas uma viagem entre duas estrelas na Via Láctea, um grupo de centenas de milhares de milhões reunidas pela gravidade, e a Via Láctea é apenas uma de talvez um bilião de galáxias como a nossa — dois biliões, se contarmos com as galáxias anãs que entretanto se fundiram com outras maiores. Estas observações mostram‑nos um cosmos com triliões de estrelas, e provavelmente mil vezes mais mundos possíveis.

 E estamos a falar apenas da parte do Universo que podemos ver. A maior parte do cosmos está escondida por trás das cortinas do tempo e da distância. A expansão inicial do tecido do espaço‑tempo, mais rápida que a luz, deixou uma parte imensa do Universo eternamente fora do alcance mesmo dos nossos telescópios mais poderosos. Existe ainda a possibilidade de todo o nosso Universo, um sítio de uma imensidão que chega a confundir‑nos, não passar de uma partícula minúscula num multiverso para lá da nossa imaginação. Não admira que nos sintamos assustados e nos agarremos à ilusão de que estamos no centro das coisas, à fantasia de que somos os filhos únicos do Criador. Perante essa realidade esmagadora, como podem seres como nós, que se perdem tantas vezes no que não passa afinal de um ponto, sentir‑se em casa no Universo?

Desde que somos humanos que contamos a nós mesmos histórias que nos ajudam a vencer o medo do escuro. A «escuridão» é uma qualidade, não uma quantidade. A noite no quarto de uma criança é um cosmos em si mesmo. A nossa espécie, movida por narrativas, encontra o seu caminho analisando o escuro com a ajuda de histórias. Antes de haver ciência não tínhamos forma de verificar essas histórias por confronto com a realidade. Deambulávamos no oceano do espaço‑tempo sem ideia de onde ou quando andávamos, até que muitas gerações de investigadores foram estabelecendo as nossas coordenadas.

A nossa última pista para a idade do Universo chegou‑nos do satélite Planck, da Agência Espacial Europeia, que observou o céu ao longo de mais de um ano, tempo durante o qual mediu meticulosamente a luz emitida quando o Universo não passava de um recém‑nascido, meros 380 mil anos após o big bang. A missão do Planck revelou um cosmos com 13,82 mil milhões de anos — mais 100 milhões de anos do que os cientistas pensavam.

 Isto é uma das coisas de que gosto na ciência. Quando tivemos provas de que o Universo era um pouco mais velho do que imaginávamos, nenhum cientista tentou suprimi‑las. Assim que os novos dados foram verificados, toda a comunidade científica abraçou a nova visão das coisas que eles fundamentavam. A atitude permanentemente revolucionária, a abertura à mudança que está no centro da ciência, é o que a torna tão eficaz.

A história científica do tempo é tão longa que temos de a subdividir em segmentos mais humanos. O calendário cósmico traduz o tempo todo, esses 13,82 mil milhões de anos que tem a versão científica da História, em algo que somos capazes de abarcar, um simples ano de vida da Terra. O tempo começa no extremo superior esquerdo com o big bang, a 1 de Janeiro, e acaba à meia‑noite de 31 de Dezembro, no canto inferior direito. A esta escala, todos os meses representam um pouco mais de mil milhões de anos. Cada dia corresponde a 38 milhões de anos e cada hora a quase 2 milhões. Um único minuto cósmico são 26 mil anos. Um segundo cósmico corresponde a 440 anos, não muito mais que o tempo decorrido desde que Galileu olhou pela primeira vez através de um telescópio.

É por esta razão que o calendário cósmico é tão significativo para mim. Ao longo dos primeiros 9 mil milhões de anos não houve planeta Terra. Só depois de passados os primeiros dois terços do ano cósmico, lá para o fim do Verão, a 31 de Agosto, é que o nosso pequeno mundo começou a formar‑se com base no disco de gás e poeira que rodeia a nossa estrela. Nada do que constitui o nosso mundo existiu ao longo da maior parte da história do Universo. Por si só, isto já me parece uma razão profunda de humildade.

O nosso planeta foi seriamente maltratado ao longo dos seus primeiros mil milhões de anos de vida. No princípio, tudo isso fez parte das colisões entre os novos mundos que arrastavam a maior parte dos detritos que povoavam as suas órbitas. Mais tarde foi provavelmente o caos provocado no conjunto do sistema solar pela passagem de Júpiter e Saturno, com as suas enormes massas, através das órbitas dos outros planetas, que levaram muitos asteróides a sair das suas órbitas e a colidir com outros planetas e satélites.

 Este bombardeamento intenso tardio, como é conhecido, ainda não tinha sequer acabado quando a vida começou, no fundo dos oceanos. Tudo boas notícias para aqueles que têm esperança que se venha a encontrar vida noutros pontos do Universo. A história da nossa estrela e dos seus mundos é provavelmente bastante comum no Universo. Os corpos que bombardearam a Terra podem ter sido um banal serviço de entregas dos ingredientes necessários à vida, e até do calor necessário para a pôr ao lume a cozinhar.

 Pensa‑se que todos os seres vivos da Terra têm a mesma origem. Pensa‑se que tudo começou na escuridão das profundezas do oceano a 2 de Setembro, numa cidade perdida de torres de pedra no fundo do mar, uma história que contaremos em pormenor mais tarde.  Dessa primeira vida fazia parte um mecanismo de cópia que permitia fazer mais vida. Era uma molécula, uma colecção de átomos em forma de escada de caracol, o ADN. Um dos seus grandes trunfos era a imperfeição. Por vezes cometia erros ao copiar, ou era danificada pelos raios cósmicos. Tudo isso era aleatório, mas algumas dessas mutações produziram formas de vida mais bem‑sucedidas — um processo a que chamamos evolução por selecção natural. Com isto a escada ia crescendo, acumulando cada vez mais degraus.

Foram precisos outros 3 mil milhões de anos para a vida evoluir a partir dos primeiros organismos unicelulares até assumir a forma de plantas que pudéssemos ver à vista desarmada. Só que não havia olhos para as ver. Ainda assim, já nessa altura havia consciência. Não é nenhum absurdo dizer que o organismo unicelular que sabe que «a ti como, a mim não» mostra já um certo grau de consciência.

(...)"

Vesálio ou a rara permanência de um saber


Texto de Maria de Sousa no seu livro "Meu Dito, meu escrito", uma lição que proferiu em 2011 na Biblioteca Joanina em Coimbra :

Uma das muitas riquezas de uma longa vida científica feliz é a lenta embriaguez, quase inenarrável, de perceber como é efémero o saber e, portanto, o escrever sobre o que se sabe em ciência. A escrita e o saber científicos contrastam marcadamente com a permanência das outras escritas: a literatura, a poesia, a pintura, o desenho, a música, as múltiplas manifestações da escrita na arte. Quando uma pessoa dessa vida transitória é convidada a pertencer, ainda que brevemente, a um momento que celebra um livro e um saber de quase 500 anos, não consegue encontrar palavras que possam transmitir facilmente a quem a convida como lhes está grata.

As minhas primeiras palavras são, portanto, de agradecimento aos Professores Carlos Fiolhais e João Malva pelo convite para estar aqui hoje, numa ocasião promovida pela Sociedade Portuguesa de Neurociências como parte da celebração da Semana do Cérebro e de um livro publicado pela primeira vez em 1543 [1]. E também de agradecimento à Professora Catarina Resende de Oliveira por exprimir uma tão generosa opinião a meu respeito. O que me dá a oportunidade de afirmar publicamente a admiração recíproca que tenho por ela e por todo o seu silencioso, generoso e notável trabalho pessoal e social em Coimbra e no país científico em geral.

Depois de muito pensar em como iria abordar esta intervenção, decidi que me concentraria sobretudo na questão de ver em ciência e sobre o raramente visto que pode conduzir à permanência de um saber, intacto, durante 500 anos. O que se vê, como se vê, o que se pensa do que se vê e como o progresso tecnológico influencia o processo de ver e de permitir que outros vejam em ciência.

 Vesálio

Vesálio, com os seus sete livros ilustrando a «fábrica do corpo humano», é, para mim, uma das figuras mais interessantes da história da ciência médica. Nele cruzam- -se o desafio ao ver galénico e ainda hipocrático de origem grega e o ver descritivo, e mais bem visto, baseado na disseção de cadáveres humanos. Para além do cruzamento de formas do pensar e do ver científicos, cruzaram-se também em Vesálio a permanência da arte, com a possível mobilização de um discípulo da escola de Ticiano para ilustrar a ciência anatómica contida nos sete livros [2]. A qualidade e a divulgação dessa ilustração vieram a depender, por sua vez, do aparecimento na Europa Central de grandes casas impressoras, como a  de Oporinus em Basileia, capazes de imprimir obras não só bem escritas mas também por vezes magnificamente ilustradas, como a de Vesálio, que celebramos hoje, e a de Copérnico, as duas vindas a lume em 1543.

Para contrastar a permanência da arte com o que se julga saber em ciência, vou primeiro mostrar um poema escrito na segunda metade do século xvi a que pertenceu:

Chidiock Tichborne (1558?-1586)

ON THE EVE OF HIS EXECUTION

My prime of youth is but a frost of cares,
My feast of joy is but a dish of pain,
My crop of corn is but a field of tares,
And all my good is but vain hope of gain;
The day is past, and yet I saw no sun,
And now I live, and now my life is done.

 My tale was heard and yet it was not told,
My fruit is fallen, yet my leaves are green,
My youth is spent and yet I am not old,
I saw the world and yet I was not seen;
My thread is cut and yet it is not spun,
And now I live, and now my life is done.

I sought my death and found it in my womb,
 I looked for life and saw it was a shade,
I trod the earth and knew it was my tomb,
And now I die, and now I was but made;
My glass is full, and now my glass is run,
And now I live, and now my life is done.

Vesálio, e depois um trecho de Ambroise Paré, o famoso cirurgião francês contemporâneo de Vesálio,  dizem-nos o que se pensava sobre a peste que reinava na Europa. O poema foi escrito por Tichborne, um jovem poeta inglês, na véspera de ser executado. Como ilustração do que supostamente se vê em ciência, no caso da peste, a doença que mais se via nesse tempo, passo a citar Ambroise Paré. Poucos na segunda metade do século XVI duvidavam de que a peste era um castigo divino. Paré parece não ter sido excepção:

É opinião confirmada, constante e aceite entre Cristão em todas as idades que a peste e outras doenças que violentamente atacam a vida humana são frequentemente enviadas pela ira de Deus, punindo as nossas ofensas [3].

O que vemos da expressão dos sentimentos em Tichborne permanece intacto, intocado e intocável pela passagem do tempo: poderia ser escrito hoje por um jovem doente com uma infecção letal por HIV (o vírus da sida). Em manifesto contraste, o saber científico permanece cativo do que se pode saber num dado tempo para além da reprodução exacta e, no caso de Vesálio, da reprodução exacta e belíssima, do que se vê.

Durante a discussão de uma outra apresentação sobre o tema do saber em arte e ciência, o professor e crítico literário Seabra Pereira mencionou, com a lucidez e profundidade de saber que lhe são características, que a construção do conhecimento em arte resulta muito da experiência endógena, ao passo que a construção do conhecimento em ciência é muito mais dependente de factores exógenos, como o aparecimento de novas tecnologias.

Ramón y Cajal

Saltemos três séculos, para o período entre o final do século xix e o princípio do século xx, e vamos ver como o mesmo ver exacto de Vesálio, com o auxílio agora do microscópio e da introdução de colorações especiais dos tecidos, vai permitir a Ramón y Cajal desenhar o visto em cortes de cérebro e cerebelo, usando uma coloração desenvolvida por Camilo Golgi. A observação cuidadosa ao microscópio leva Cajal à concepção do neurónio como unidade central da actividade cerebral. Cajal e Golgi partilharam o Prémio Nobel de Medicina e Fisiologia em 1906.

Poderíamos dizer que Cajal foi o seu próprio Ticiano, e tivemos que esperar muitos anos para haver um grande pintor norte-americano com quadros que evocam as redes neuronais de Cajal: Jackson Pollock. Não coincidiram no tempo, não consegui nunca saber se Pollock alguma vez viu os desenhos de Cajal, mas os dois coincidem na nossa imaginação. É um pouco para isso que a imaginação humana serve: questionar-se sobre o improvável.

Mas Cajal também descreveu estruturas intranucleares4 que, quarenta e poucos anos mais tarde depois de Pollock, foram estudadas por uma bióloga celular portuguesa a fazer o seu pós-doutoramento no EMBO nos anos 90 [5]. Deve ser para nós um motivo de enorme satisfação ver numa lista de referências de um artigo de revisão sobre a contribuição de Cajal duas referências a um grupo português liderado por Maria do Carmo Fonseca, imediatamente a seguir à referência a Cajal; e poder vislumbrar o que verdadeiramente está dentro desses grânulos intranucleares inicialmente descritos e ilustrados pela cuidadosa capacidade de ver e de desenhar de Cajal: SnRNPs, small nuclear ribonucleoproteins. 

Os avanços tecnológicos em biologia celular e molecular são notáveis, mas não são uma grande surpresa, uma vez que passámos a ter disponíveis anticorpos específicos com marcadores fluorescentes, microscópios de fluorescência e o conhecimento dos processos envolvidos na passagem de mensagens de ARN. A mim, impressionam-me particularmente os avanços tecnológicos que nos obrigam a deixar de ver do modo como Vesálio ou Cajal viram, isto é, deixar de ver com os nossos olhos, para passar a ver com o tratamento matemático da informação [6].

Porque este convite resulta da amabilidade do Professor Carlos Fiolhais, o bibliotecário da Biblioteca Geral da Universidade de Coimbra, da Sociedade Portuguesa de Neurociências e da celebração da semana do cérebro, o Doutor João Malva manifestou algum interesse em que eu abordasse a evidência recente de  aproximação funcional entre o sistema imunológico e o cérebro. Começarei por o surpreender com o que me surpreendeu há muitos anos: encontrar em Hipócrates uma imaginada semelhança entre o cérebro e os gânglios linfáticos que constituem um dos componentes mais relevantes do hoje chamado sistema imunológico.

Hipócrates e o livro sobre as glândulas

O Livro VIII do Corpo Hipocrático inclui uma secção sobre as glândulas. Li-a como parte de introdução à minha tese de doutoramento [7], numa edição traduzida por Littré, publicada em 1853 [8]. Fascinou-me encontrar em Hipócrates a caracterização dos gânglios linfáticos como glândulas com a função de absorverem os humores na vizinhança de áreas com pêlos, como as axilas. A glândula mesentérica que se encontra junto dos intestinos é a excepção. A maior glândula de todas, o cérebro, tinha a vizinhança dos pêlos mais compridos, os cabelos. A noção de glândulas absorventes vai durar séculos e ainda a vamos encontrar no artigo em que Hodgkin descreve pela primeira vez, em 1832, «some morbid appearances of absorbent glands and the spleen» [9] .

O Livro Sétimo da Obra de Vesálio

O Livro Sétimo de Vesálio é dedicado ao estudo e à descrição da anatomia do cérebro. O que o tempo e os avanços tecnológicos do estudo dos componentes das diferentes áreas do cérebro e das suas interações fizeram ao que hoje pensamos das funções cerebrais, o que em inglês se diz mind boggling, traduzido pobremente para português como «quase inacreditável» ou «quase não dá para acreditar» e ilustrado com muita graça num cartoon da colecção de Levine da revista New Yorker. 

Um dos avanços mais notáveis no estudo do cérebro humano in vivo tem sido um crescente aperfeiçoamento das técnicas designadas como neuroimagem. Com base em conhecimentos que nos chegam da física, da biologia, da química e da hematologia podemos ver de uma forma não invasiva o que acontece dentro do cérebro humano em resposta a vários estímulos de muitas naturezas: visuais e imunológicas, entre outras. Os estudos são hoje numerosíssimos. Há uma crescente, eu diria, quase explosiva, evidência de que algumas moléculas produzidas por células do sistema imunológico estão relacionadas, por exemplo, com a depressão. Tantos e tão numerosos que até eu, como coorientadora de uma aluna de doutoramento do Senhor Doutor Rui Mota Cardoso, psiquiatra, a Senhora Doutora Margarida Figueiredo Braga, tenho uma publicação nessa área [10]. Há mesmo um artigo publicado no Verão de 2010 que tem o título «The concept of depression as a dysfunction of the immune system» [11]. Face a uma tão grande variedade de contribuições nesta área, decidi partilhar convosco as imagens de um só artigo em que os autores usam functional magnetic resonance, fMRI, onde o que se observa é o aumento do fluxo sanguíneo numa região específica do cérebro após a administração de uma substância que provoca uma reacção inflamatória. Neste mesmo estudo, os autores mediram também alterações em disposição/humor, que uso como tradução do inglês mood.

À pergunta que poderia ser de Vesálio no cartoon do New Yorker, responde um estudo de Harrison e colaboradores do Centro de Neuroimagem do Wellcome Trust e do Centro de Neurociências Cognitivas, ambos em Londres12. Técnicas que seriam impensáveis para Vesálio e muitos outros ainda no século xx e que permitem ver o que se passa dentro de áreas específicas do cérebro com mudanças de humor, em reacção a um processo inflamatório, nomeadamente em áreas que se pensa estarem ligadas à depressão. De tal modo que uma forma de tratamento da depressão profunda reside na chamada estimulação do cérebro profundo pela colocação de eléctrodos nessas mesmas regiões.

 O mesmo se passaria com Ramón y Cajal em relação às novas formas de repetir as suas notáveis observações, com marcadores coloridos e microscópios de  fluorescência, ou microscópios que permitem ver as células em movimento, culturas celulares que permitem dissecar in vitro populações celulares separadas, que, por sua vez, in vivo no cérebro, funcionam em comunicação contínua entre si. Como é o caso dos astrócitos, que se sabe hoje influenciarem o funcionamento de neurónios em funções nobres como a memória.

No que respeita à interacção de células e moléculas do sistema imunológico com funções cerebrais, para que todos a possamos começar a perceber, teremos talvez primeiro de mudar a nossa percepção do sistema imunológico como um sistema direccionado exclusivamente para combater infecções. Já que me convidaram, terão de ouvir esta manifestação da minha cruzada.

A minha cruzada diz que a imunologia é um ramo do conhecimento demasiado novo para que saibamos exactamente como o conhecimento da complexidade e extensão das suas funções se vai situar na maravilhosa fábrica do corpo humano [13]. Parece claro que uma dessas novas funções reguladoras em fisiologia que parecem ligadas a patologias tem a ver com interacções entre os sistema imunológico e o sistema nervoso central. Conhecer essa complexidade é o enorme desafio para todos os jovens neurocientistas e imunologistas membros desta Sociedade e da Sociedade Portuguesa de Imunologia.

 Termino como comecei: agradecendo o convite para estar presente nesta cerimónia extraordinária. Creio que ela, para além de celebrar a permanência de um saber, deve celebrar também a abertura de uns anos do século XVI  ao ensino da filosofia natural e da anatomia,  abertura que parece só ter durado uma breve década e que se veio a fechar rapidamente, reflectindo o desinteresse da universidade em apoiar o desenvolvimento do conhecimento científico [14]. Dominique de Villepin, num livro sobre os anos da queda de Napoleão entre 1807 e 1814, diz uma coisa que talvez seja oportuno repetir no contexto da celebração de um livro que ficou desses breves anos de abertura na universidade à liberdade do conhecimento científico:

As palavras chegam então em socorro das armas, mais do que tudo, as palavras ficam como as únicas e verdadeiras armas desde que a imprensa deu ao discurso os meios de permanecer um presente eterno [15].

Coimbra, Biblioteca Geral
 16 de Março de 2011

1 Vesálio, A., 1543. De Humani Corporis Fabrica, Basileia
2 Laurenza, D., 2012. «Art and anatomy in Renaissance Italy». The Metropolitan Museum of Art Bulletin, Inverno 2012, vol. LXIX, n.º 3.
3  Pettigree, A., 2010. The Book in the Renaissance. New Haven: Yale University Press.
 4 Lafarga, M., Casafont, I., Bengoechea R., R., Tapia, O. e Berciano, M., 2009. «Cajal’s contribution to the knowledge of the neuronal nucleus». Chromosoma 118: 437-43.
5 Carmo-Fonseca, M., Pepperkok, R., Sproat, B. S., Ansorge, W., Swanson, M. S., Lamond A., 1991. «In vivo detection of snRNP rich organelles in the nuclei of mammalian cells». EMBO Journal 10: 1863-1873.
6 Dyson, F., 2011. «How We Know». The New York Review of Books, March 10.
7 De Sousa, M., 1971 Ecotaxis. PhD Thesis. University of Glasgow.
 8 Littré, E., 1853. Oeuvres Completes d’Hippocrate. Tome 8. Paris e Londres: Bailleu. 9. Hippocrate Tome XIII, texto fixado e traduzido por Robert Joly, X.1, 1978.
9 Hodgkin, T., 1832. «On some morbid appearances of the absorbent glands and spleen». Medical Chirurgic Transactions 17: 68-114.
10 Figueiredo-Braga, M., Mota-Garcia, F., O’Connor, J. E., Garcia, J. R., Mota-Cardoso, R., Cardoso, 10 C. S. e De Sousa, M., 2009. «Cytokines and Anxiety in Systemic Lupus Erythematous (SLE) patients not receiving anti-depressant medication. A little explored frontier». Annals of the New York Academy of Sciences 1173: 286-91.
11 Leonard, Brian E., 2010. «The concept of depression as a dysfunction of the immune system». Current Immunology Review 6: 205–212.
 12 Harrison, N. A., Brydon, L., Walker, C., Gray, M. A., Steptoe, A. e Critchley, H. D., 2009. «Inflammation causes mood changes through alterations in sugenual cingulate activity and mesolimbic connectivity». Biological Psychiatry 66: 407-414.
13 Bernard C., 1865. Introduction à l’étude de la Médicine expérimentale, Paris.
14 Monteiro, N. G., 2009. História de Portugal, coordenador Rui Ramos, Lisboa: Esfera dos Livros.
15 Villepin, D., 2008. La Chute de l’Empire de la Solitude 1807-1814.
Paris: Perrin, p. 477.

A casa e a sabedoria do jardineiro

                                                                                              Apesar das ruínas e da morte,
                                                                                              Onde sempre acabou cada ilusão,
                                                                                              A força dos meus sonhos é tão forte,
                                                                                              Que de tudo renasce a exaltação
                                                                                               E nunca as minhas mãos ficam vazias.

Sophia de Mello Breyner Andresen


Ruína e morte são as imagens que nos assolam nestes dias de incerteza, mas, tal como Sophia, devemos manter "a ilusão e o sonho" para que as nossas mãos não fiquem vazias.
A nossa casa, o nosso interior são agora a nossa "morada" permanente e é nela que devemos pensar, "com a força dos sonhos" o futuro que queremos viver.
A natureza segue o seu ritmo, a Primavera, com as suas flores, chegou, mas, confinados no nosso interior, não podemos hoje apreciar o que antes não víamos pela vertigem da corrida diária.

No sua crónica de 15 de Abril (aqui), Pascale Seys lembrava a "sabedoria do jardineiro" pois:
"para ser sábio é preciso, em primeiro lugar, ser conhecedor ... e para responder à questão de saber como viver a vida, é conveniente observar os movimentos da natureza e a sua “armadura” rigorosa, que testemunham a coesão e a solidariedade entre todos os seres vivos ligados, como uma corda vibratória, por uma afeição comum ao universo inteiro;
... observar a natureza e compreender as suas leis, contemplar um pedaço de um parque ou um canto de jardim, admirar as flores que brotam na Primavera e em breve o lilás, é a vida real da sabedoria prática, é o que sabe também o jardineiro Gilles Clément. Ele sabe que o ritmo do que desponta no seio da natureza é o que escapa à vontade e à corrida dos homens."

É uma sabedoria ancestral, que vem do princípio dos tempos, aquilo a que os estóicos chamavam:
"a “palingenesia cósmica” para dizer, literalmente, o “nascimento de novo” ou ainda, segundo um outro termo culto a  “apocatástase”, a regeneração, a reconstituição, o restabelecimento e o retorno à vida depois de cada destruição."

e que levou Nietzsche a falar da "lei do “eterno retorno”.
"então é preciso poder dizer sim a todas as coisas, quer dizer que é preciso poder aceitar e mesmo desejar que o que acontece acontece exactamente como acontece. Assim, é preciso semear no mundo gestos e pensamentos o mais doce e ao mais alegres possíveis visto que se deve esperar que o fruto das sementeiras volte, depois que a terra tenha dado a sua volta."
Por isso o jardineiro Gilles Clément diz que:
"fazer jardinagem é “acompanhar o tempo” e, por consequência, neste sentido também, jardinar é desobedecer. Um ano é o tempo que é necessário à terra para completar a sua revolução.

E nós, durante esse tempo, nós corremos rápido demais, ignorando os fusos horários, confundindo o dia e a noite, nós apanhámos demasiados aviões e esgotámos a terra."

 E, entretanto, eis-nos confinados, fechados nas nossas casas, no interior de nós mesmos. Na crónica de 22 de Abril (aqui), Pascale Seys fala-nos da casa, do seu significado:

“A nossa morada segue a sua história”, escrevia o poeta René Char. .... 
A casa conta, com muita exactidão, como nós sonhamos e como experimentamos a nossa vida num espaço que nos limita e numa espécie de continuidade da nossa própria história. E tudo isto, porque as casas têm uma alma. Observar o espírito do lar ou evocar o espírito de uma casa era um pensamento comum a Gregos e Romanos que viam em Héstia ou Vesta a guardiã da vida doméstica. Os Antigos consideravam os Penates os génios dos lugares, forças protectoras da casa. No exterior o movimento, a agitação, no interior, os génios do lar permanecem na sua morada, moram em si e é esse mesmo o sentido da casa: um lugar onde se permanece, onde se reside, excepto para aquilo que o atravessa.

Em 1957, o filósofo Gaspar Bachelard desenvolveu uma imagem segundo a qual a casa é o lugar da verticalidade: a alma da casa, diz ele, eleva-se da cave ao sótão, desde as forças obscuras do inconsciente alojadas nas caves até aos medos dominados pela razão debaixo dos telhados. Entre os dois pólos, da cave ao sótão, a escadaria é o dono da circulação que liga os nossos medos à sua proprietária e à sua dominação. E depois, como nas bonecas russas, há também na casa, a casa das coisas: os cofres, as malas, as gavetas e os armários que somos incapazes de imaginar vazios e que são senhores de todos os segredos que encerram.
Como a casa, a alma é uma morada e Bachelard, por analogia, evocava também a casa das palavras. As palavras, explicava ele, são pequenas casas, com caves e sótãos. Enquanto que subir na casa das palavras consiste em praticar a abstração, descer à cave é sonhar, é procurar tesouros de sentidos, sempre entre a terra e o céu, que é o espaço do próprio ser.
...
Assim, habitamos a terra, habitamos um bairro, uma casa ou um apartamento, habitamos as palavras e a língua, e a situação é dramática para quem não habita parte nenhuma. À verticalidade de Bachelard, entre a cave e o sótão, na casa e nas palavras, pode responder a horizontalidade do exterior versus interior.
Ontem nómadas, livres de ir e vir, de transpor portas e circular por aqui e por ali, no exterior, no mundo, eis-nos no interior, nas nossas casas, alojados em nós mesmos, sem que seja preciso qualquer máscara, porque no interior, necessariamente, as máscaras caem.
Amanhã, em breve, num dia próximo retomaremos o caminho do exterior e sairemos das nossas conchas como caracóis assustados.
Entretanto, nós habitamos o mundo e as palavras de modo diferente  e abrandámos o ritmo dos nossos passos.
Nas novas fábulas que contaremos, o caracol triunfará do leão, da lebre e da raposa, porque com a sua casa às costas e a sua mestria do tempo lento, o caracol tornar-se-á, com espanto, o animal mais sábio.
Que tal seguirmos a "sabedoria do jardineiro"? Talvez ainda seja:
" verdadeiramente o tempo de cultivar o nosso jardim tendo em vista preparar e imaginar a revolução que vem"
E fica no ar a questão que Pascale sempre coloca:


Et vous, qu’ en pensez-vous?




CLASSICA DIGITALIA

Informação recebida da Imprensa da Universidade de Coimbra:

A Imprensa da Universidade de Coimbra (IUC) está a migrar as suas publicações para uma nova plataforma, razão pela qual não têm sido anunciados livros nos últimos tempos. A nova plataforma deve ser lançada dentro de algumas semanas, mas, para não prejudicar autores e leitores, as obras entretanto publicadas serão disponibilizadas através da plataforma de gestão editorial, mantendo toda as características da publicação final.

Desta forma, os Classica Digitalia têm o gosto de anunciar 2 novas publicações com chancela editorial da IUC. Os volumes dos Classica Digitalia são editados em formato tradicional de papel e também na biblioteca digital, em acesso aberto.

Além do usual circuito de distribuição da IUC, a versão impressa das novas publicações encontra-se disponível em todas as lojas Amazon.

NOVIDADES EDITORIAIS

Série “Autores Gregos e Latinos” [textos]

 - Maria de Fátima Silva & José Luís Brandão, Plutarco. Vidas Paralelas – Alexandre e César. Tradução do grego, introdução e comentário (Coimbra, Imprensa da Universidade de Coimbra, 2019). 348 p.

[Alexandre da Macedónia merece a Plutarco a atenção devida a um génio da arte militar e da diplomacia na consolidação do poder. Num trajeto de vida que pouco ultrapassou os 30 anos, o jovem rei macedónio alterou o mapa político e cultural da época: colocou território europeu, africano e asiático sob a sua autoridade, promoveu uma globalização intercultural de modo a unificar um xadrez de povos dentro das fronteiras de um enorme império, deslocou o centro intelectual do mundo, de Atenas, para outras cidades do Oriente. Não sem que uma ambição crescente e desmesurada tivesse vindo, por fim, pôr em causa o sucesso de um projeto e a própria vida do seu autor. Ao emparelhar César com Alexandre, Plutarco põe em relevo a fama de grande conquistador, o aspeto da personalidade que o biógrafo mais admira neste estadista romano. Mas a ambição (philotimia) que reiteradamente move César representa o lado negro que o conduzirá à morte, antes que ele possa colher os frutos dos seu afã. Embora não transforme cabalmente César num tirano cruel, esta Vida ilustra, contudo, uma crítica à ambição exacerbada e irracional de poder.]

Série “DIAITA- Scripta & Realia” [textos]

- Joaquim Pinheiro, Plutarco. Sobre comer carne (Coimbra, Imprensa da Universidade de Coimbra, 2019). 55 p.

[O tratado De esu carnium (‘Sobre comer carne’) chegou-nos na forma de dois logoi, com múltiplas lacunas, sobretudo o segundo logos. Recuperando temáticas já desenvolvidas pela doutrina pitagórica, por Xenócrates, por Teofrasto ou pelos Estóicos, Plutarco argumenta sobre a natureza dos seres vivos, no âmbito da relação entre homem e animal. À semelhança de outros tratados do corpus plutarcheum, como Bruta animalia ratione uti (‘Os animais são racionais’), mais conhecido por Gryllus (‘Grilo’), ou o De sollertia animalium (‘Sobre a inteligência dos animais’), a narrativa desenvolve-se em torno de questões relacionadas com a natureza e a psicologia dos animais, como a possibilidade de existir virtude e razão entre os animais, defendendo Plutarco a philanthropia e a generosidade com que se deve tratar todos os seres vivos, opondo-se, dessa forma, ao simples utilitarismo ou ao problemático princípio da necessidade. Sendo um dos tratados zoológicos, o De esu carnium é também um texto de caráter retórico pelo facto de Plutarco construir, por oposição aos Estóicos, uma teoria argumentativa que sustenta a ideia de que comer carne é para physin (‘contra a natureza’).]

Delfim Leão
(Classica Digitalia

quarta-feira, 22 de abril de 2020

Glosando Dois Versos de El Rei D. Denis

Do meu  estimado amigo Eugénio Lisboa, cultivador das Belas Letras, recebi este poema que publico para deleite meu e dos leitores:

(A propósito de Bolsonaro)

Mui mais queria, besta não havendo,

antes ir a pé que nele cavalgando,

dizia D. Dinis, disto sabendo,

como doutras coisas sob seu comando.

Se nesse tempo a besta escasseava,

como diz o rei que o Pinhal plantou,

agora é animal que abunda à brava

pelo mundo que o português criou.

O Brasil que Cabral a nós abriu

tem hoje, Presidente, Bolsonaro,

que diz que o vírus nunca existiu,

que assim lho diz instinto e faro.

Capitão ignaro, egrégio cavalo,

feito à medida das bestas de carga,

não apetece, mesmo assim, montá-lo

por nos impor maldade à ilharga.

Filho da mãe bem certificado,

bicho raivoso e enviesado,

odeia o pobre e o povo esmagado,

com ódio de bicho mal amado.

Há-de lixar-se, não tarda, o estuporado,

porque tudo lhe será contado,

o que fez, o que não fez, bem pesado

na balança que não mente o resultado!

Se o vírus o apanha de raspão,

com pontaria certa e justiceira,

é vê-lo cobarde e trapalhão,

choramingar ante a foice da Ceifeira.

Assim findam os grandes tiranetes,

assim findam, mijando-se nas pernas:

antes eram pimpões e alegretes,

agora morrem, bichos das cavernas!

Eugénio Lisboa,

Lavando o fígado, como mandavam os gregos antigos.

Ana Delicado - Cultura Científica

Cristina Ferreira e o Secretariado Nacional de Informação do Estado Novo

As entrevistas televisivas de Cristina Ferreira a elevadas figuras da nossa vida política  não param de me espantar.

Depois de entrevistados António Costa e  Margarida Temido sobre o problema da pandemia,  chegou a vez de Graça Freitas, directora-geral da Saúde.

Cristina Ferreira, ao invés do seu ar histriónico   de gargalhar e gritar   por tudo e por nada, nesta última entrevista, em atitude pensadora e pensativa, mostrou-se muito comedida, compungida e senhoril dando-lhe  o ar de   confessionário para a personalidade entrevistada lavar a alma de possíveis pecados, cometidos  no  actual pandemónio da pandemia que assola terreno pátrio e o próprio planeta terra.

Por seu lado, Graça Freitas perdeu o seu ar esfíngico para se mostrar eufórica ao  anunciar um breve abrandamento  no pico da curva da pandemia,  com o senão estético de um penteado  de avozinha. Nesta entrevista demonstrou Graça Freitas um notável mimetismo em se adaptar às circunstâncias boas (?) e  más  do seu penoso consulado.

Por fim, Cristina Ferreira corre o risco de copiar António Ferro, personagem de grande cultura ao serviço do Estado Novo, ela  vincadamente ao serviço do Partido Socialista. Ora as cópias  são sempre piores que os  originais , aqui, por motivos vários facilmente detectáveis.

Detenho-me agora na figura majestosa de Ferro Rodrigues, presidente da  Assembleia da República. Só   lhe faltou, para lhe aumentar a elegância e imponência da silhueta, a túnica de senador romano para anunciar, “urbi et orbi”, não haver perigo de contágio pelo coronavírus, quer durante as solenidades comemorativas do 25 de Abril no hemiciclo, quer no decurso do  banquete que se lhe seguirá.

Aliás, anúncio desnecessário por a presença do  Presidente da República,  Marcelo Rebelo de Sousa, por  si só,  ser garantia do órgão representativo  do povo estar higienizado  como um bloco operatório e os deputados e convidados estarem afastados  uns dos outros a uma distância de segurança  em  que para se fazerem ouvir terão dificuldade, mesmo que usem aparelhos de audição “dernier cri” ou tenham ouvidos de tísico, como soe dizer-se! 

O verdadeiro  perigo reside no povo que nessa altura, porventura, se possa aglomerar nas monumentais escadarias do Palácio de São Bento para vitoriar o 25 de Abril, aconchegado ombro a ombro, de mãos dadas em prova de solidariedade que não admite  mariquices  de temer o bicharoco  de um  viruzinho que  tem ceifado   vidas sem conta. Mas  haverá moral para condenar essa massa anónima quando o exemplo vem de cima, ainda que com luvas e máscaras protectoras?

Aí o coronavírus vai  rir-se da macro massa cinzenta dos espertíssimos humanos que há milhões de anos se deslocavam em quadrupedia  e hoje se julgam deuses de um universo em colapso pelo aquecimento global  em diminuição, enquanto durar a quarentena, por parte de um   vírus “generoso” que contribuiu  para baixar a  taxa  de CO2 a níveis de séculos atrás. 

Razão assistiu a Henry Poincaré que alertou a humanidade para o facto de  o homem ter perdido a capacidade a capacidade de prever e prevenir acabando por destruir o mundo.

Não nos precipitemos, portanto, com uma hipotética  batalha final em estrénuo combate contra o coronavírus que está longe de estar ganha. A  exemplo do final da II Guerra Mundial esperemos pelo seu vitorioso final, para a exemplo dos ingleses, que se apinharam na Praça  de Trafalgar,  homenagearem os seus heróis, de igual modo, esperemos pela vitória final sobre o coronavírus para apinharmos a Praça do Comércio, antiga Praça do  Terreiro do Paço, de onde partiram as caravelas com a Cruz de Cristo, em demanda de Novos Mundos, para, sem distinções de cor de epiderme, de bens materiais, de estatuto social ou académico, de credos religiosos ou políticos, vitoriarmos os nossos heróis de hoje, beijando, abraçando, rindo e cantando de braço dado, com os médicos, enfermeiros   e auxiliares de saúde que, em dádiva generosa e louvável nunca vista, arriscaram, e continuam a  arriscar, a vida para nos mantermos  vivos. Honra total e merecidíssima para eles!

PS: Na manhã de ontem, vi e  ouvi num canal televisivo, que Cavaco Silva não estará presente nestas festividades abrilinas.

segunda-feira, 20 de abril de 2020

O Desconsenso Sobre as Festividades de 25 de Abril

“A respeito de política, chamo a tua atenção para a nova palavra 
“verborreia com que no artigo classifico a nossa eloquência S. Bental”
(Eça de Queiroz). 

Ontem, em comentário por mim inserto no meu “post” “A desorientação do PS”, escrevi: 
“Perante a contestação generalizada às festividades de 25 de Abril, tarde e a más horas, o presidente da Associação 25 de Abril, Vasco Lourenço, em notícia televisiva , discorda do número de convidados. Reforço, tarde e a más horas” 
Mas o assunto não se ficou por aqui. Hoje, em capa do “Jornal I”, sai reforçada a sua não ida à Assembleia da Republica ficando-se sem se saber se por discordância política ou uma questão de precaução de contágio próprio  porque “cuidados e caldos de galinha nunca fizeram mal ninguém”, na “voz populi”. 

O meu “post” de hoje tem como essência outros títulos de capa do supracitado jornal, que passo a citar: 
1."Não é o momento de criar eventos que juntem pessoas”, alerta Ricardo Mexia, presidente da Associação de Médicos de Saúde Pública“, 2."DGS [Direcção Geral de Saúde] fala da necessidade de chegar a um consenso para permitir a realização solene n AR”.3.“Não vejo razão para que as mais altas figuras de Estado não comemorem esta data fundadora, Vera Jardim”. 
Resumindo, confrontam-se, com opiniões opostas, a Associação de Médicos de Saúde Pública, a DGS, e em oposição um jurista, Vera Jardim, com um currículo político notável ao serviço do PS. 

Mas esta controvérsia não pode morrer solteira sobre uma questão que faz perigar vidas humanas. Ou seja, receio que um assunto de Saúde Pública se torne numa questão de baixa política, pondo em causa a vida de inúmeros portugueses com um balanço ainda por fazer e difícil de fazer porque apoiado em simples estatísticas, também elas, controversas entre os próprios especialistas.

Transpondo isto a exemplos da vida quotidiana: a pessoa quando está doente deve procurar um médico, essa mesma pessoa quando em litígio em tribunal deve contratar um advogado. Inverter estas posições é o mesmo que uma pessoa sedenta procurar um almoço salgado e com fome beber um simples copo de água. 

Por o assunto assumir proporções de vida ou de morte não se pode, e muito menos se deve, transformar o de 25 de Abril numa espécie de reunião de cavaleiros da Távola Redonda. 

A haver essa discussão proponho que ela se faça num programa da Cristina Ferreira transformado numa sucursal do antigo SNI (Sindicato Nacional de Informação) por ser useira e veseira em propagandear feitos lustrados de políticos socialista, com a excepção do Presidente da República, numa democracia com tantos anos aproximados quantos anos levou de vida o Estado Novo. 

Estamos a cinco dias de 25 de Abril, o tempo urge para se chegar a um consenso com senso. Ou, como diria um companheiro de mesa de café lisboeta do meu tempo de estudante, filho de um construtor civil, de poucos estudos, porque tinha o futuro assegurado pela fortuna paterna, que gostava de falar difícil, o tempo “ruge”!

Seja como for, é tempo de os portugueses, e eu incluído, aprenderem com Henry Thoreau (1817-1862) que “a política não é moral ocupando-se do que é oportuno”.

CONTINUE-SE COM A PLATAFORMIZAÇÃO DOS EXAMES NACIONAIS

Foi publicado o Relatório da Inspecção-Geral da Educação e Ciência, com o extenso título Averiguações às irregularidades dos Exames Nacionai...