Descubra quem são as pessoas famosas nesta pintura chinesa. Para isso vá aqui e verifique se acertou clicando em cada figura: as entradas são para a Wikipedia:
-Chinese Artists Dai Dudu, Li Tiezi, and Zhang An, 2006, oil on canvas
terça-feira, 22 de novembro de 2011
ECOCHALLENGE: CONCURSO PARA ESCOLAS
O programa de eficiência energética da EDP para o qual foi realizada uma
parceria com a empresa ISA e o Centro Ciência Viva Rómulo de Carvalho já arrancou, com a realização da primeira fase de
candidaturas. Em breve serão
publicada as escolas a concurso. Ver:
http://ecochallenge.edp.pt/
segunda-feira, 21 de novembro de 2011
CIENTISTAS DE PÉ E DARWIN AOS TIROS NO SOL
Reportagem sobre os Cientistas de Pé e o lançamento do livro Darwin aos Tiros e Outras Histórias de Ciência, publicada na edição do SOL desta semana.
DOUTORAMENTO HUMORIS CAUSA
Ao subir ao palco, Sónia Negrão entra a matar. Diz-se especialista em arroz, «arroz de pato, arroz de cenoura» e apresenta o cartão de visita – é uma engenheira agrónoma. «Já sei o que vocês estão a pensar», continua Sónia. «Engenheira agrónoma, engenheiro Sousa Veloso». E confessa que achava este seu antigo colega «sexy. Devia ser das patilhas». Mas, ao contrário do simpático apresentador do clássico da RTP1, TV Rural, Sónia é uma «sexóloga do arroz», uma planta que se «diverte sozinha» porque é hermafrodita, isto é tem ao mesmo tempo os dois órgãos sexuais. Ou, de acordo com Sónia, «tem um pénis e um cérebro».
A plateia já exulta nesta fase. Sónia tinha sido o terceiro elemento do grupo de stand up comedy Cientistas de Pé a entrar em cena na Fnac do Colombo (Lisboa). O biólogo Bruno Pinto iria suceder-lhe, apresentando ao público a sua grande preocupação com os recursos naturais. Pinto arriscou logo uma definição deste conceito: «Uma das formas naturais de gerir um recurso natural é metê-lo ao bolso antes que outros o façam». E recorda um dos poucos destes recursos que ainda é de todos, o ar. Pelo menos, até o primeiro-ministro se lembrar de o privatizar...
Mas a actuação dos Cientistas de Pé não foi a pagar. Estavam ali para apoiar o lançamento do livro Darwin aos Tiros e Outras Histórias de Ciência, do físico Carlos Fiolhais e do bioquímico David Marçal, que também é fundador do grupo de stand up. O humor cruzou-se das piadas em palco à versatilidade das histórias científicas contadas no livro, distribuídas por todas as disciplinas das ciências e até das pseudociências.
O percurso de David Marçal foi traçado entre o laboratório e as crónicas humorísticas n’ O Inimigo Público, suplemento satírico do diário Público. A certa altura, as experiências encontraram-se pelo caminho e Marçal percebeu que «se escrevesse piadas sobre ciência criava um nicho. Se escrevesse piadas sobre outros assuntos», brinca, «tinha de ter mais piada que os outros, o que nunca me pareceu uma boa estratégia».
Enquanto gere o grupo que fundou em 2009 – e que já sofreu, este ano, uma remodelação, devido à inevitável ‘fuga de cérebros’ nestes ofícios – Marçal está a tirar pós-doutoramento na sua área, depois de ter sido investigador no Instituto de Tecnologia Química e Biológica da Universidade Nova de Lisboa.
Já tinha passado por uma experiência teatral, no grupo Teatro do Oprimido, que deve as técnicas de representação ao princípio de que todos somos actores, até os espectadores, doutrina do dramaturgo brasileiro Augusto Boal (1931-2009). Por sinal, Boal também cruzava uma área artística com a ciência, pois era químico de formação.
A ideia dos Cientistas de Pé é evidente. Tentar comunicar ciência com humor, numa linguagem acessível. As tarefas são asseguradas pelo apoio de David Marçal nos textos e do encenador Romeu Costa na libertação da linguagem corporal. Afinal, trata-se de cientistas e não de actores.
Vindos das mais diversas áreas, dizem que aprendem muito sobre outras ciências, já que a escrita é debatida permanentemente. Da bioquímica à biologia marinha, passando pela arqueologia, tudo é discutido. Leonor Medeiros representa esta última disciplina e confessa que a maior dificuldade que sentiu foi dedicar-se «à escrita com piada».
A selecção é feita a partir de audições anunciadas pelo blogue do grupo (http://cientistasdepe.blogspot.com) ou pelo Facebook. João Cruz, biólogo marinho, foi dos que respondeu à chamada. Criou um rap num dos espectáculos anteriores e voltou à carga com ele no Colombo. «É uma forma mais divertida de comunicar a ciência». Concorrência aos Buraka Som Sistema? Não, «eles são da Reboleira. Mas Reboleira Som Sistema não ia soar muito bem...».
Joaquim Paulo Nogueira, o único actor do grupo, é doutorando em Ciências da Comunicação. A experiência dos palcos não foi um salvo-conduto para o stand up: «Tenho uma incapacidade completa de contar anedotas». Mas o tempo passado com os Cientistas de Pé serviu-lhe para superar a crónica falta de piada. Ou não fosse o riso, como disse Joaquim na apresentação, «o Prozac dos pobres».
Ricardo Nabais
Poema da Malta das Naus
Tem-me chegado à caixa de correio uma espécie de apelo contra o esquecimento de poemas e músicas, que deixaram de passar nas rádios ou só muito raramente passam.
Hoje chegou-me o Poema da Malta das Naus, de António Gedeão, com música e interpretação de Manuel Freire. Partilho-o com os leitores do De Rerum Natura para que não se esqueça.
Lancei ao mar um madeiro,
espetei-lhe um pau e um lençol.
Com palpite marinheiro
medi a altura do Sol.
Deu-me o vento de feição,
levou-me ao cabo do mundo,
pelote de vagabundo,
rebotalho de gibão.
Dormi no dorso das vagas,
pasmei na orla das praias,
arreneguei, roguei pragas,
mordi peloiros e zagaias.
Chamusquei o pêlo hirsuto,
tive o corpo em chagas vivas,
estalaram-me as gengivas,
apodreci de escorbuto.
Com a mão esquerda benzi-me,
com a direita esganei.
Mil vezes no chão, bati-me,
outras mil me levantei.
Meu riso de dentes podres
ecoou nas sete partidas.
Fundei cidades e vidas,
rompi as arcas e os odres.
Tremi no escuro da selva,
alambique de suores.
Estendi na areia e na relva
mulheres de todas as cores.
Moldei as chaves do mundo
a que outros chamaram seu,
mas quem mergulhou no fundo
do sonho, esse, fui eu.
O meu sabor é diferente.
Provo-me e saibo-me a sal.
Não se nasce impunemente
nas praias de Portugal.
Poema publicado em:
- Teatro do Mundo, Coimbra, 1958;
- Poemas Escolhidos: Antologia Organizada pelo Autor, Lisboa: Edições João Sá da Costa, 1997
Hoje chegou-me o Poema da Malta das Naus, de António Gedeão, com música e interpretação de Manuel Freire. Partilho-o com os leitores do De Rerum Natura para que não se esqueça.
Lancei ao mar um madeiro,
espetei-lhe um pau e um lençol.
Com palpite marinheiro
medi a altura do Sol.
Deu-me o vento de feição,
levou-me ao cabo do mundo,
pelote de vagabundo,
rebotalho de gibão.
Dormi no dorso das vagas,
pasmei na orla das praias,
arreneguei, roguei pragas,
mordi peloiros e zagaias.
Chamusquei o pêlo hirsuto,
tive o corpo em chagas vivas,
estalaram-me as gengivas,
apodreci de escorbuto.
Com a mão esquerda benzi-me,
com a direita esganei.
Mil vezes no chão, bati-me,
outras mil me levantei.
Meu riso de dentes podres
ecoou nas sete partidas.
Fundei cidades e vidas,
rompi as arcas e os odres.
Tremi no escuro da selva,
alambique de suores.
Estendi na areia e na relva
mulheres de todas as cores.
Moldei as chaves do mundo
a que outros chamaram seu,
mas quem mergulhou no fundo
do sonho, esse, fui eu.
O meu sabor é diferente.
Provo-me e saibo-me a sal.
Não se nasce impunemente
nas praias de Portugal.
Poema publicado em:
- Teatro do Mundo, Coimbra, 1958;
- Poemas Escolhidos: Antologia Organizada pelo Autor, Lisboa: Edições João Sá da Costa, 1997
domingo, 20 de novembro de 2011
Fui Il Postino
No passado mês de Outubro, no dia 9, o escritor António Lobo Antunes visitou o crítico de literatura George Steiner, na residência desde, que fica perto de Cambridge. Na longa conversa que tiveram, em francês, publicada na revista Ler deste mês falaram, como talvez não pudesse deixar de ser, da função de professor, que Steiner exerceu com devoção e paixão, como um carteiro que leva uma mensagem a outrem...
"George Steiner: Sou antes de mais um professor. Foi essa a minha vocação. A minha culpa seria a de ser um mau professor. Sempre tive medo disso. Terei eu o direito de ensinar? Quem mo dá? É um direito enorme, moral, psicológico. Escrevi um livrinho, As lições dos Mestres, em que estudo esse fenómeno. E sempre disse a mim próprio: «Com que direito entras numa sala para dares uma aula?» É isso. É como para si o escrever todos os dias: o ensino foi para mim uma vocação. A própria palavra rabin, rabi, quer dizer «professor», nada mais, nada menos. São homónimas. O rabi é, pura e simplesmente, o senhor que dá as aulas. E isto, não o escolhi, isto escolheu-me, como a literatura o escolheu a si; e isto trouxe-me grande angústias e grandes alegrias. E quando tive de deixar o ensino foi o mais duro golpe da minha vida. Sinto muito a falta dos meus alunos.

António Lobo Antunes: O meu pai era professor e depois, quando teve de se retirar, por alturas da sua reforma, aos 70 anos, tive a impressão de que ele era, ao mesmo tempo, mestre e discípulo de si próprio.
George Steiner: Sim, tentamos. É uma fórmula belíssima. Tentamos. Mas sinto muito a falta da contradição, do bom aluno que diz «não». Falta-me a resistência, a mão que pressiona contra uma resistência viva.
(...)
George Steiner: Se eu pudesse ensinar de novo, se tivesse os meus alunos nesta sala (...). Acabam de colcar um retrato meu na Universidade de Londres, um retrato que, a meu pedido, ficou com o nome de Il Postino. Conhece o filme acerca de Neruda, Il Postino [O Carteiro de Pablo Neruda]? Define-me em absoluto. Eu sou o postino: trago as cartas dos grandes escritores e é preciso colocá-las nas caixas certas. Nem sempre é fácil. Quando se explica aos novos alunos da Universidade de Londres por que razão existe um quadro deste senhor, eles acham todos que Il Postino é o meu nome. Ao que eu digo: «Não expliquem, deixem-nos pensar assim.» É um grande privilégio, cuja coroação é a vossa presença aqui. É maravilhoso poder levar cartas! Não fui banqueiro, não vendi casacos de peles; de todos os desastres possíveis fui postino. É isto ser professor. O bom professor abre livros aos outros, abre momentos aos outros. E eu tive alunos muitíssimos dotados, o que foi um grande privilégio: saber que eles são mais dotados do que eu.
António Lobo Antunes: Era isso que dizia o meu pai. Nunca compreendi muito bem a sua paixão pelo ensino. Era para ele uma grande paixão (...). Ele realizava-se nas suas aulas na Faculdade de Medicina. Para ele, eram um imenso prazer. E, após a sua reforma, ensinava aos netos. Lembro-me de, quando tinha sete anos, termos viajado de autocarroa té Paris; fomos a Espanha, à França, à Suíça, à Itália, e ainda me lembro do seu discurso de meia hora em frente a um Tintoretto, sobre as perspectivas das estrelas em Tintoretto, em frente a um Rembrandt, e para mim, uma criança, isso foi muito aborrecido.
George Steiner: Mas nunca mais se esqueceu.
António Lobo Antunes: Não.
George Steiner: É isso. Logo, ele era um bom professor."
In Ler, Livros & Leitores, páginas 47 e 52 (Tradução do francês de Joana Jacinto).
"George Steiner: Sou antes de mais um professor. Foi essa a minha vocação. A minha culpa seria a de ser um mau professor. Sempre tive medo disso. Terei eu o direito de ensinar? Quem mo dá? É um direito enorme, moral, psicológico. Escrevi um livrinho, As lições dos Mestres, em que estudo esse fenómeno. E sempre disse a mim próprio: «Com que direito entras numa sala para dares uma aula?» É isso. É como para si o escrever todos os dias: o ensino foi para mim uma vocação. A própria palavra rabin, rabi, quer dizer «professor», nada mais, nada menos. São homónimas. O rabi é, pura e simplesmente, o senhor que dá as aulas. E isto, não o escolhi, isto escolheu-me, como a literatura o escolheu a si; e isto trouxe-me grande angústias e grandes alegrias. E quando tive de deixar o ensino foi o mais duro golpe da minha vida. Sinto muito a falta dos meus alunos.

António Lobo Antunes: O meu pai era professor e depois, quando teve de se retirar, por alturas da sua reforma, aos 70 anos, tive a impressão de que ele era, ao mesmo tempo, mestre e discípulo de si próprio.
George Steiner: Sim, tentamos. É uma fórmula belíssima. Tentamos. Mas sinto muito a falta da contradição, do bom aluno que diz «não». Falta-me a resistência, a mão que pressiona contra uma resistência viva.
(...)
George Steiner: Se eu pudesse ensinar de novo, se tivesse os meus alunos nesta sala (...). Acabam de colcar um retrato meu na Universidade de Londres, um retrato que, a meu pedido, ficou com o nome de Il Postino. Conhece o filme acerca de Neruda, Il Postino [O Carteiro de Pablo Neruda]? Define-me em absoluto. Eu sou o postino: trago as cartas dos grandes escritores e é preciso colocá-las nas caixas certas. Nem sempre é fácil. Quando se explica aos novos alunos da Universidade de Londres por que razão existe um quadro deste senhor, eles acham todos que Il Postino é o meu nome. Ao que eu digo: «Não expliquem, deixem-nos pensar assim.» É um grande privilégio, cuja coroação é a vossa presença aqui. É maravilhoso poder levar cartas! Não fui banqueiro, não vendi casacos de peles; de todos os desastres possíveis fui postino. É isto ser professor. O bom professor abre livros aos outros, abre momentos aos outros. E eu tive alunos muitíssimos dotados, o que foi um grande privilégio: saber que eles são mais dotados do que eu.
António Lobo Antunes: Era isso que dizia o meu pai. Nunca compreendi muito bem a sua paixão pelo ensino. Era para ele uma grande paixão (...). Ele realizava-se nas suas aulas na Faculdade de Medicina. Para ele, eram um imenso prazer. E, após a sua reforma, ensinava aos netos. Lembro-me de, quando tinha sete anos, termos viajado de autocarroa té Paris; fomos a Espanha, à França, à Suíça, à Itália, e ainda me lembro do seu discurso de meia hora em frente a um Tintoretto, sobre as perspectivas das estrelas em Tintoretto, em frente a um Rembrandt, e para mim, uma criança, isso foi muito aborrecido.
George Steiner: Mas nunca mais se esqueceu.
António Lobo Antunes: Não.
George Steiner: É isso. Logo, ele era um bom professor."
In Ler, Livros & Leitores, páginas 47 e 52 (Tradução do francês de Joana Jacinto).
sábado, 19 de novembro de 2011
Chegámos ou não a este limite?
Diversos trabalhos jornalísticos, realizados em países ocidentais, têm destacado a ignorância dos estudantes do ensino básico, secundário e superior, bem como de populações que receberam educação escolar.
Sem enquadramento histórico, social ou outro e com pouco ou nenhum rigor científico, assinalam falhas de cultura geral e específica que deveria ter sido adquirida por via da frequência do ensino formal.
Recorrendo, em geral, a uma abordagem despretensiosa e humorística, com alguma regularidade, esses trabalhos oferecem dados que questionam, ou deviam questionar, os sistemas educativos e quem neles tem responsabilidades.
Essa é a sua grande mais-valia e, por isso, são bem-vindos, ainda que, com base neles, não seja possível perceber o que é que, de facto, os alunos aprendem na escola, nem fazer um retrato do estado do ensino, e muito menos comparações com aprendizagens em gerações anteriores.
Centrando-nos no recente inquérito feito pela revista Sábado e admitindo que os alunos que foram abordados levaram a situação de entrevista a sério (não sabemos se foi assim) e que, por terem chegado ao ensino superior, deveriam saber responder às perguntas que a jornalista lhe pôs, mas não respondem ou não responderam certo, devemos perguntar: porque é que isso aconteceu?
A resposta parece-me bastante óbvia: porque não foram ensinados.
Não são as gerações mais jovens que falham na aquisição do saber, são as que chegaram há mais tempo ao mundo e que não assumiram devidamente o dever de educar, de ensinar, de instruir, como se queira chamar, que falharam.
São as gerações mais velhas que têm de assumir essa responsabilidade e se houver dedo a apontar, esse dedo deve voltar-se para nós: pais, professores e outros educadores, políticos, sociedade (não sei se por esta ordem), que não paramos de reivindicar mais e mais tempo de escola, mais e mais anos de escolaridade, mais e mais diplomas distribuídos para não ficarmos abaixo de uma qualquer estatística internacional, que permitimos que se progrida levemente, sem critérios nem dramas pelos sistemas educativos, que compreensivamente tornamos possível que o "não saber escolar" se iguale ao "saber escolar".
E quando as gerações mais novas, que já quebraram a relação com o saber escolar, se tornarem as gerações mais velhas, com responsabilidades por outras que virão e que precisam de ser ensinadas?
Já chegámos ou não a este limite? Outra abordagem jornalista que a seguir se reproduz, realizada nos Estados Unidos da América, pode ser o mote para a discussão que deveríamos empreender.
Sem enquadramento histórico, social ou outro e com pouco ou nenhum rigor científico, assinalam falhas de cultura geral e específica que deveria ter sido adquirida por via da frequência do ensino formal.
Recorrendo, em geral, a uma abordagem despretensiosa e humorística, com alguma regularidade, esses trabalhos oferecem dados que questionam, ou deviam questionar, os sistemas educativos e quem neles tem responsabilidades.
Essa é a sua grande mais-valia e, por isso, são bem-vindos, ainda que, com base neles, não seja possível perceber o que é que, de facto, os alunos aprendem na escola, nem fazer um retrato do estado do ensino, e muito menos comparações com aprendizagens em gerações anteriores.
Centrando-nos no recente inquérito feito pela revista Sábado e admitindo que os alunos que foram abordados levaram a situação de entrevista a sério (não sabemos se foi assim) e que, por terem chegado ao ensino superior, deveriam saber responder às perguntas que a jornalista lhe pôs, mas não respondem ou não responderam certo, devemos perguntar: porque é que isso aconteceu?
A resposta parece-me bastante óbvia: porque não foram ensinados.
Não são as gerações mais jovens que falham na aquisição do saber, são as que chegaram há mais tempo ao mundo e que não assumiram devidamente o dever de educar, de ensinar, de instruir, como se queira chamar, que falharam.
São as gerações mais velhas que têm de assumir essa responsabilidade e se houver dedo a apontar, esse dedo deve voltar-se para nós: pais, professores e outros educadores, políticos, sociedade (não sei se por esta ordem), que não paramos de reivindicar mais e mais tempo de escola, mais e mais anos de escolaridade, mais e mais diplomas distribuídos para não ficarmos abaixo de uma qualquer estatística internacional, que permitimos que se progrida levemente, sem critérios nem dramas pelos sistemas educativos, que compreensivamente tornamos possível que o "não saber escolar" se iguale ao "saber escolar".
E quando as gerações mais novas, que já quebraram a relação com o saber escolar, se tornarem as gerações mais velhas, com responsabilidades por outras que virão e que precisam de ser ensinadas?
Já chegámos ou não a este limite? Outra abordagem jornalista que a seguir se reproduz, realizada nos Estados Unidos da América, pode ser o mote para a discussão que deveríamos empreender.
sexta-feira, 18 de novembro de 2011
REVISTA SÁBADO: Símbolo químico da água é coisa que não existe
Ainda a propósito da INCULTURA dos alunos das universidades portuguesas aferida pela Revista Sábado num artigo, gostaria de esclarecer que a resposta para a pergunta:
"Qual é o símbolo químico da água"
é
"não tem".
Os símbolos químicos são códigos de uma ou duas letras (em que apenas a primeira é maiúscula) usados para designar elementos químicos. Também os há com três letras, para representar os elementos muito pesados (mas esses são uma minoria). Alguns exemplos:
H - hidrogénio
He - Hélio
Li - Lítio
C - Carbono
N - Azoto
O - Oxigénio
U - Urânio
Uma lista completa pode ser consultada numa tabela periódica.
Um elemento é uma entidade química constituída por um único tipo de átomos. Cada tipo de átomos caracteriza-se pelo seu número atómico (ou seja o número de protões no seu núcleo).
A água não é um elemento químico, é uma molécula constituída por dois tipos de átomos: oxigénio e hidrogénio. Como são dois de hidrogénio e um de oxigénio, a água tem a fórmula química H2O. A fórmula química indica o número de átomos de cada elemento que constituem uma determinada molécula. Por exemplo, uma molécula do famoso dióxido de carbono é constituída por dois átomos de oxigénio e um de carbono, e tem por isso a fórmula química CO2.
Pode parecer uma picuinhice mas não é. Tal como Leonardo Di Caprio não é Leonardo Da Vinci uma molécula não é um elemento. E quando se está a falar da "cultura" dos outros é melhor não ter telhados de vidro...
Representação da molécula de água, mostrando as ligações e disposição espacial entre os átomos que a constituem. A molécula de água tem propriedade físicas e químicas bastante singulares, nomeadamente um ponto de ebulição muito elevado (100 ºC) para uma molécula tão pequena.
DARWIN AOS TIROS EM ALMADA

O livro DARWIN AOS TIROS E OUTRAS HISTÓRIAS DE CIÊNCIA será apresentado na Casa da Cerca, em Almada, no dia 23 de Novembro às 18h30.
Festa do 3.º Aniversário do Centro Ciência Viva Rómulo de Carvalho
O Centro Ciência Viva Rómulo de Carvalho tem o prazer de o convidar para a celebração do seu 3.º aniversário, que se realizará no próximo dia 24 de Novembro, Dia Nacional da Cultura Científica e dia de aniversário de Rómulo de Carvalho, entre as 17:00 horas e as 19:30 horas, nas suas instalações no piso térreo do Departamento de Física da Universidade de Coimbra. Serão apresentados os livros “Breve História da Química” de Regina Gouveia e “Darwin aos Tiros e Outras Histórias de Ciência” de Carlos Fiolhais e David Marçal, havendo no fim um magusto.
SÁBADOS COM CIÊNCIA
Amanhã, 19 de Novembro, na iniciativa "Sábados com Ciência", vamos falar de neutrinos e outras partículas que são estudadas no CERN e sobre a investigação que se faz no LIP - Laboratório de Instrumentação e Física Experimental de Partículas.
Esta iniciativa, promovida e moderada pelo comunicador de ciência António Piedade, vai reunir três investigadores e directores do LIP no seguinte encadeamento:
LIP - Um laboratório de ponta ... (Rui F Marques - Dep. Física FCTUC)
... que investiga física de partículas ... (João Carvalho - Dep. Física FCTUC)...
e desenvolve instrumentação (Paulo Fonte Dep. Física ISEC).
Um tema "quente" e útil para todos.
Apareçam. 17h30 - Auditório da Livraria Bertrand - Dolce Vita. Coimbra.
PORTUGAL, O BRASIL E A CIÊNCIA

Minha crónica no jornal "Sol" de hoje (na imagem Gago Coutinho e Sacadura Cabral):
Hoje há muitos estudantes brasileiros na Universidade de Coimbra. Mas, no século XVIII, havia poucos. Foi, porém, um estudante brasileiro de Coimbra, Bartolomeu de Gusmão, que conseguiu a primeira ascensão mundial em balão, embora não tripulado, em 1709. No mesmo século, a Reforma Pombalina da Universidade de Coimbra foi um verdadeiro terramoto intelectual, ao promover em Coimbra o ensino experimental das ciências. O Reitor-Reformador, D. Francisco de Lemos, nascido no Rio de Janeiro, contratou mestres estrangeiros e também grandes cientistas nacionais como, só para referir um, o matemático José Monteiro da Rocha, que estudou no Brasil num colégio jesuíta, e internacionais, como, só para referir um, o naturalista italiano Domenico Vandelli. Foi um discípulo de Vandelli, o químico brasileiro Vicente Seabra, que, na época, ensinou em Coimbra a nova química de Lavoisier. Outro discípulo de Vandelli, Alexandre Ferreira, empreendeu, ainda no século XVIII, a famosa Viagem Philosophica pela Amazónia, que hoje está ricamente documentada em escritos, imagens e objectos. Já no século XIX, um dos grandes cientistas de Coimbra foi o metalurgista brasileiro José Bonifácio de Andrada e Silva, cujo papel na independência no Brasil é por demais conhecido. Há quem lhe chame “patriarca da independência”. Após a independência do Brasil, será um filho de Vandelli, assistente e genro de José Bonifácio, Alexandre Vandelli, que vai ensinar ciências naturais ao jovem imperador D. Pedro II.
Menos conhecido é que, em 1925, quando Einstein visita o Brasil, tem a escutá-lo o almirante Gago Coutinho, que em 1922 tinha realizado a primeira travessia aérea do Atlântico Sul. O almirante, empedernido anti-relativista, haveria de se envolver em polémica com Mário Silva, professor de Coimbra. Também menos conhecido é que Egas Moniz, professor da Universidade de Lisboa e ex-professor de Coimbra, visita o Brasil em 1928, divulgando a sua recente técnica de angiografia cerebral. Foi, na altura, nomeado sócio de várias sociedades científicas brasileiras e, mais tarde, foi ajudado por médicos brasileiros no processo que culminou no Prémio Nobel da Medicina em 1949.
Todos estes factos foram relembrados no recente Congresso Luso-Brasileiro de História das Ciências, que juntou em Coimbra historiadores portugueses e brasileiros. A ciência e no tempo dos Descobrimentos, o ensino dos Jesuítas aquém e além-mar, as ciências no Iluminismo, o desenvolvimento científico nos séculos XIX e XX, foram alguns dos temas discutidos no encontro. Concluiu-se que a ciência em Portugal sempre se cruzou fecundamente com a ciência no Brasil. Hoje em dia, quando o Brasil é uma potência emergente, espera-se que esse cruzamento continue.
quinta-feira, 17 de novembro de 2011
INCULTURA
A revista "Sábado" fez um inquérito de rua que mostra a incultura dos nosos estudantes universitários. Publicamos este extracto com a devida vénia, chamando a atenção para o sítio da revista (ver no fim, com filme, que mostra as respostas) e para a revista em papel.
Por André Barbosa e Tânia Pereirinha e imagem de Joana Mouta e Bruno Vaz
"Enquanto Portugal se ri da auxiliar de acção médica concorrente da Casa dos Segredos, que julga que África é um país da América do Sul, a SÁBADO fez um teste básico a 100 alunos de universidades de Lisboa.
Ana Amaro, de 18 anos, que frequenta a licenciatura com o mestrado integrado em Psicologia do Instituto Superior de Psicologia Aplicada (ISPA), está a fumar à porta da faculdade, em Alfama. Aceita participar no teste de cultura geral da SÁBADO (20 perguntas, divididas por dois questionários de 10, ambos com um grau de dificuldade mínimo), mas está mais preocupada em acabar o cigarro. À quinta questão (qual é a capital dos Estados Unidos?), começa a atrapalhar-se. “Estados Unidos...? A esta hora é muita mau”, queixa-se. Não são 7h, são 13h30, e os colegas começam a sair para o almoço. Mas Ana parece ter acordado há 10 minutos, suspeita que a própria confirma.
A partir daí, é sempre a cair.
Não sabe quem escreveu O Evangelho Segundo Jesus Cristo, quem fundou a Microsoft, quem é Maria João Pires nem que instrumento toca. E não parece preocupada. Afinal, acabou de acordar.
“Não dei isso no 12.º ano”, “Cinema não é comigo”, “Não me dou bem com a literatura” – na arte de justificar a ignorância, os estudantes universitários inquiridos pela SÁBADO têm nota máxima. “Se perguntasse alguma coisa de psicologia, agora cultura geral...”, diz Janine Pinto, optando pela desculpa número um.
– Quem pintou o tecto da Capela Sistina?
– Ai, agora... Tudo o que tem a ver com capelas e igrejas não sei (desculpa número dois dos universitários).
– E quem escreveu O Evangelho Segundo Jesus Cristo?
– Eh pá! Coisas com Jesus Cristo?! Sou fraca em religião ... (desculpa número três).
E se é que isto serve de desculpa, aqui vai a número quatro: Janine, tal como muitos outros inquiridos, não está num curso de Teologia, nem de Artes.
Mas Bruno Marques, 18 anos, no 1.º ano de Ciências da Cultura na Faculdade de Letras, escorrega num tema que deveria dominar.
– Quem é Manoel de Oliveira?
– Já ouvi falar, mas não sei quem é.
– Estás em Ciências da Cultura. Dás Cinema?
– Sim, algumas coisinhas, mas não sei...
Pedro Besugo, 18 anos, estreante no curso de Turismo da Lusófona, admite não saber qual é a capital de Itália. Perante a insistência da SÁBADO (“Então estás a tirar Turismo e não sabes?”), responde: “Será Florença?” Não é. Como também não é Veneza, nem Milão ou Nápoles, como outros responderam.
Não saber quem pintou a Capela Sistina ou Mona Lisa (um aluno responde Miguel Arcanjo; outro Leonardo di Caprio) é igualmente grave. Talvez não tanto como pensar que África é um país da América do Sul ou não fazer ideia do que é um alpendre. Mas Cátia Palhinhas, do reality show Casa dos Segredos2, autora destas e de outras respostas, que põem o público a rir, não frequenta o ensino superior – é auxiliar de acção médica e está a tirar o 12.º ano à noite no programa Novas Oportunidades.
Aos 22 anos, sonha tornar-se “conhecida e vencer na televisão”. Por isso, não está nada preocupada em saber qual o maior mamífero do mundo – “É o dinossauro!”, disse há umas semanas.
Há universitários que respondem “mamute” à mesma questão. Catarina, 20 anos, aluna de Psicologia do ISPA, fica na dúvida: “É o elefante. É o mamute. É o elefante. Acho que é o elefante. O elefante é de África e o mamute da Antárctida”."
Ver http://www.sabado.pt/Multimedia/Videos/Vox-Pop/VoxPop--A-ignorancia-dos-nossos-universitarios.aspx
Por André Barbosa e Tânia Pereirinha e imagem de Joana Mouta e Bruno Vaz
"Enquanto Portugal se ri da auxiliar de acção médica concorrente da Casa dos Segredos, que julga que África é um país da América do Sul, a SÁBADO fez um teste básico a 100 alunos de universidades de Lisboa.
Ana Amaro, de 18 anos, que frequenta a licenciatura com o mestrado integrado em Psicologia do Instituto Superior de Psicologia Aplicada (ISPA), está a fumar à porta da faculdade, em Alfama. Aceita participar no teste de cultura geral da SÁBADO (20 perguntas, divididas por dois questionários de 10, ambos com um grau de dificuldade mínimo), mas está mais preocupada em acabar o cigarro. À quinta questão (qual é a capital dos Estados Unidos?), começa a atrapalhar-se. “Estados Unidos...? A esta hora é muita mau”, queixa-se. Não são 7h, são 13h30, e os colegas começam a sair para o almoço. Mas Ana parece ter acordado há 10 minutos, suspeita que a própria confirma.
A partir daí, é sempre a cair.
Não sabe quem escreveu O Evangelho Segundo Jesus Cristo, quem fundou a Microsoft, quem é Maria João Pires nem que instrumento toca. E não parece preocupada. Afinal, acabou de acordar.
“Não dei isso no 12.º ano”, “Cinema não é comigo”, “Não me dou bem com a literatura” – na arte de justificar a ignorância, os estudantes universitários inquiridos pela SÁBADO têm nota máxima. “Se perguntasse alguma coisa de psicologia, agora cultura geral...”, diz Janine Pinto, optando pela desculpa número um.
– Quem pintou o tecto da Capela Sistina?
– Ai, agora... Tudo o que tem a ver com capelas e igrejas não sei (desculpa número dois dos universitários).
– E quem escreveu O Evangelho Segundo Jesus Cristo?
– Eh pá! Coisas com Jesus Cristo?! Sou fraca em religião ... (desculpa número três).
E se é que isto serve de desculpa, aqui vai a número quatro: Janine, tal como muitos outros inquiridos, não está num curso de Teologia, nem de Artes.
Mas Bruno Marques, 18 anos, no 1.º ano de Ciências da Cultura na Faculdade de Letras, escorrega num tema que deveria dominar.
– Quem é Manoel de Oliveira?
– Já ouvi falar, mas não sei quem é.
– Estás em Ciências da Cultura. Dás Cinema?
– Sim, algumas coisinhas, mas não sei...
Pedro Besugo, 18 anos, estreante no curso de Turismo da Lusófona, admite não saber qual é a capital de Itália. Perante a insistência da SÁBADO (“Então estás a tirar Turismo e não sabes?”), responde: “Será Florença?” Não é. Como também não é Veneza, nem Milão ou Nápoles, como outros responderam.
Não saber quem pintou a Capela Sistina ou Mona Lisa (um aluno responde Miguel Arcanjo; outro Leonardo di Caprio) é igualmente grave. Talvez não tanto como pensar que África é um país da América do Sul ou não fazer ideia do que é um alpendre. Mas Cátia Palhinhas, do reality show Casa dos Segredos2, autora destas e de outras respostas, que põem o público a rir, não frequenta o ensino superior – é auxiliar de acção médica e está a tirar o 12.º ano à noite no programa Novas Oportunidades.
Aos 22 anos, sonha tornar-se “conhecida e vencer na televisão”. Por isso, não está nada preocupada em saber qual o maior mamífero do mundo – “É o dinossauro!”, disse há umas semanas.
Há universitários que respondem “mamute” à mesma questão. Catarina, 20 anos, aluna de Psicologia do ISPA, fica na dúvida: “É o elefante. É o mamute. É o elefante. Acho que é o elefante. O elefante é de África e o mamute da Antárctida”."
Ver http://www.sabado.pt/Multimedia/Videos/Vox-Pop/VoxPop--A-ignorancia-dos-nossos-universitarios.aspx
Prefácio a "Casamentos e outros desencontros" de Jorge Buescu

Em primeiríssima mão, o meu prefácio a "Casamentos e outros Desencontros", de Jorge Buescu, que acaba de ser publicado:
Em 5 de Setembro de 1984 fui orador convidado no 2.º Encontro Juvenil de Ciência, organizado pela Associação Juvenil de Ciência na Faculdade de Ciências da Universidade do Porto. Tinha, nas vésperas do Natal de 1982, regressado da Alemanha, com um doutoramento na bagagem e foi uma das minhas primeiras palestras de divulgação científica. O 1.º Encontro tinha sido em 1983 em Lisboa e a série haveria de continuar com grande sucesso até hoje, sob a égide da Associação Juvenil de Ciência, constituída quatro anos depois do primeiro encontro.
Quem me tinha convidado? Quem me apresentou ao jovem público, julgo que na altura sem me conhecer de lado nenhum, no Encontro do Porto? Foi um rapazinho que na altura prometia. Ele tinha, então, vinte anos, frequentava o Curso de Física da Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa e dedicava-se com visível entusiasmo a várias actividades de divulgação científica, incluindo, além do associativismo juvenil, a redacção de um jornal de estudantes de Física (deu-me um exemplar que ainda guardo).
Chamava-se Jorge Buescu. Em 2003, quando os papéis se inverteram e eu tive de o apresentar numa palestra para jovens na Universidade de Coimbra, no quadro do programa Despertar para a Ciência (a ideia tinha sido do Prof. Ramôa Ribeiro, que partiu há pouco da nossa companhia e de quem temos imensas saudades), contei em público a história do nosso primeiro encontro e disse que era para mim um privilégio ser eu agora a convidá-lo e a apresentá-lo, saldando, portanto, as nossas contas. Quando ele pegou no microfone e ligou o projector, fiquei na primeira fila da plateia, a desfrutar da maneira bem-humorada, mas, apesar disso, lógica, sistemática e exigente, com que ele prendia a atenção das mentes juvenis em problemas matemáticos que seriam intrincados se não fosse ele o orador. Ainda me lembro do tema – a frequência dos algarismos numa lista telefónica e a sua aplicação às declarações do IRS – embora já tenha esquecido todas as outras palestras a que assisti nesse ano.
O Professor Jorge Buescu é o autor deste livro. O jovem estudante era uma promessa que se tem cumprido ao longo dos anos e que se agora se cumpre de novo. Ele não é apenas muito bom a contar histórias de matemática para uma audiência escolar, também consegue pô-las escorreitas por escrito de modo a alargar o número dos seus alunos. Na comunicação oral e na comunicação escrita ele sabe, como poucos, combinar a informalidade e a formalidade. Parece, por vezes, que está em roda livre, mas a roda está bem presa: ele é um matemático que nunca se esquece do rigor que caracteriza a sua disciplina (na busca da perfeição, o Jorge derivou, na sua carreira, da Física para a Matemática...). Quem se encantou a ler O Mistério do Bilhete de Identidade e outras Histórias (2001), que conheceu várias edições, Da Falsificação dos Euros aos Pequenos Mundos (2003) e O Fim do Mundo Está Próximo? (2007), todos eles títulos da rica colecção Ciência Aberta da Gradiva, tem agora nas suas mãos Casamentos e outros Desencontros. Adivinho que as leitoras e os leitores se interessaram por este título não apenas pela sua originalidade (é o melhor, até agora, dos títulos do Jorge!), mas também pelo facto de conhecerem o peculiar estilo do autor e estarem ansiosos por o reencontrarem a vestir novos conteúdos matemáticos. Pois fiquem a saber desde já que as vossas expectativas não vão ser defraudadas. O Jorge continua o mesmo: sempre ávido de absorver a melhor matemática que se fez ou se faz pelo mundo fora, sempre eficaz a comunicá-la a toda a gente de uma maneira inimitável.
Este livro é do melhor Buescu, até porque a sua pena se foi apurando com o exercício mensal nas colunas da revista Ingenium da Ordem dos Engenheiros. Está amplamente demonstrado que foi uma grande ideia a do bastonário que o convidou. Dá até vontade de ser engenheiro só para poder receber, pontualmente, a revista e, com ela, as aguardadas “crónicas das fronteiras da Matemática”. Quem não for engenheiro terá de se contentar com as prosas matemáticas em formato de livro com o inconveniente do atraso, embora com a vantagem da sua reunião num só volume.
A Matemática tem fama de mulher difícil. Mas ela não tem maneira de resistir ao Jorge Buescu, que no-la apresenta tal como ela verdadeiramente é e não como muitos supõem que ela seja. Ficamos todos a achá-la irresistível. A leitora ou leitor poderá seguir a ordem que quiser, que encontrará sempre, nos vários capítulos, a Matemática sob um ângulo provocante e atraente. Se seguir a ordem proposta pelo autor, ficará, antes de chegar ao texto que dá o título ao livro, a saber que matemática avançadíssima se faz hoje num blogue com participação livre à escala planetária, que um ramo inusitado da geometria pode ser usado para construir uma teoria da unificação das forças nos intervalos da prática do surf, que as geometrias não-euclidianas têm insuspeitas relações com o crochet, que as figuras fractais que pareciam uma brincadeira informática se tornaram úteis em matemática pura, que os fundadores do Google enriqueceram só porque inventaram um “truque” matemático para ordenar páginas da Web, que se pode esculpir um conjunto de Mandelbrot no espaço tridimensional, e que é conhecido com precisão matemática o ponto, numa sucessão de encontros românticos, onde se deve parar para casar. Só por esta preciosa informação a leitora ou leitor pode dar por bem empregue o dinheiro do livro, dada a avultada verba que poderá economizar. Chega então ao texto que dá o título do livro, onde o autor ensina o modo de organizar casamentos estáveis, uma outra informação preciosa, que é um verdadeiro bónus para quem está a ler pois o livro já estava pago com o capítulo anterior. Mas há mais. A obra continua com a exposição de um problema do século XIX que tem resistido às investidas dos maiores matemáticos (há uma margem para anotações...), com a indicação do sítio onde se deve localizar um armazém de modo a assegurar uma distribuição óptima a toda uma rede, com a revelação de que há semelhanças entre eleições e montanhas, com a fantástica notícia de que é possível chegar de derrota em derrota até à vitória final, com a descrição do que aconteceu à matemática do Japão após a expulsão dos Portugueses, com a comunicação de que as cidades têm inesperadas parecenças com os seres vivos, com a lição a um grupo de meninas tagarelas que pretendem optimizar a conversa entre si, e com a divulgação do modo como dois alunos de Matemática norte-americanos ganharam uma fortuna na lotaria. Esta seria uma novidade completa que valeria não apenas o preço deste livro, mas o preço de toda colecção Ciência Aberta ou quiçá da editora, não fora o caso de só ser possível em circunstâncias muito especiais, difíceis de encontrar na prática. Por último, o autor faz os leitores penetrarem num dos mais impenetráveis mistérios da economia moderna, que envolve muito mais dinheiro do que a lotaria: a origem da crise financeira internacional.
É muito graças a Jorge Buescu que a divulgação científica em Portugal não está em crise. Continua a dar extraordinários dividendos a quem a ouve ou lê. Em Setembro deste ano fui convidado a participar na 29.ª edição do Encontro Juvenil de Ciência, realizado em Castelo Branco, e pude verificar mais uma vez o interesse que os jovens nutrem pela ciência. O Jorge, que também tinha sido convidado, consegue redobrar esse interesse. Um jornal local titulou ao noticiar o Encontro: “Não é possível desligar os cérebros”. Atenção, cara leitora ou leitor que está a começar a ler o livro: não vai ser possível, nas próximas páginas, desligar o seu cérebro.
"A vida plena é a vida do equilíbrio difícil"
Por ocasião de recente visita do nosso Presidente da República aos Estados Unidos da América, foram entrevistados vários empresários portugueses bem sucedidos. Um dos mais bem sucedidos, senhor de uma enorme fortuna, começou assim: “Se alguns têm prioridades que não seja o trabalho...” e continuou, afirmando a ideia de que esses alguns não vão a lado nenhum.Deu-me que pensar: na vida – nos poucos, pouquíssimos, anos que temos de vida –, a nossa prioridade absoluta deverá ser o trabalho? O trabalho que se faz para ganhar dinheiro?
As pessoas são muito diversas e talvez, o trabalho, só o trabalho, nada mais do que o trabalho, faça felizes algumas delas. Nada tenho a opor, só tenho de aceitar isso como uma opção… de vida.
Outras pessoas haverá que, trabalhando, não circunscrevem a sua vida ao trabalho, por assumiram opções igualmente legítimas: apreciar o dolce fare niente, dedicar-se à família, aos estudos, embrenhar-se nisto e naquilo.
Se pensarmos no assunto, além destas, encontraremos, obviamente, muitas outras opções de vida, até aquelas em que o trabalho está excluído.
O que eu pretendo dizer é que querer-se que toda a gente assuma a mesma opção para a sua própria vida, sem ter em conta uma margem de livre arbítrio é, no mínimo, questionável. E mais questionável será não se tendo a certeza dessa opção de vida cumprir o desígnio do humano.
Pode o leitor argumentar que estamos face à mera opinião dum empresário que usa o seu exemplo pessoal como bandeira de discurso. Não é assim: a sua voz é uma voz que se ouve cada vez mais alto.
E tanto assim é que, passados dois ou três dias, ouvi mais um eco dessa voz. Era de um político, também português, que, justificando o aumento de tempo de trabalho e a redução de salários afirmava, sem denotar qualquer dúvida ou incerteza: “Temos de competir a nível mundial”. Se passarmos, como me pareceu estar implícito, dos níveis nacional, europeu e ocidental para o “nível mundial” teremos de incluir a China, por exemplo, onde os desígnios da vida são... o que são.
Ambas as declarações me fizerem lembrar de Agostinho da Silva, um apologista do ócio, apesar de muito ter trabalhado deste e do outro lado do Atlântico. No Dia Mundial da Filosofia não me parece descabido convocar as palavras dum filósofo como alavanca para pensarmos nas opções de vida neste (ainda) início de século).
“Uma das coisas que nos oprime na personalidade é o facto de termos de exercer no mundo uma profissão, de termos de ter um trabalho. Então por mais que cultivemos as nossas vocações, na realidade pomos muita coisa de parte porque a complexidade do mundo não dá tempo para o homem ser, por exemplo, ao mesmo tempo um grande médico e um grande engenheiro, embora num ou noutro ponto possa ter uma ideia da engenharia ou ser um engenheiro com uma ideia de medicina, mas como profissão, como aplicação total das suas forças, não é possível. Então o segredo para nós podermos desenvolver a nossa personalidade vai ser o de ver de que maneira vamos abolir no mundo a obrigação do trabalho, de que maneira vamos organizar as coisas de modo que as coisas materiais, digamos, as máquinas, trabalhem para nós. Ora, para construir as máquinas, só podemos fazê-lo sob o imprevisível. Nunca ninguém enamorado do imprevisível conseguiu construir uma máquina.Referência completa: Agostinho da Silva (1994). Vida conversável. Lisboa: Assírio e Alvim, pp. 37-38.
Então foi preciso que a Humanidade vivesse completamente no domínio do previsível e no qual, provavelmente vai ter de continuar ainda algum tempo, anos ou séculos, não sabemos, para que realmente a máquina chegue à sua máxima elaboração, cujo fim, será o de nunca nos oprimir, em que só tenham de trabalhar com ela os homens que lhe tenham amor, homens que estejam apaixonados pela máquina; ao passo que hoje a maior parte das pessoas trabalha com ódio à máquina e por isso é que tanta gente tem medo das invenções técnicas, porque tem medo que elas venham a ser opressoras da Humanidade (…)
A vida plena é a vida do equilíbrio difícil. A vida do equilíbrio fácil é aquela que leva hoje quase toda a gente no mundo, mas em que as pessoas na maior parte das vezes estão tristes. Há milhares de médicos que vivem da depressão das pessoas, e esses milhares vivem de uma coisa que grande parte da sociedade explora, que são os meios de deprimir as pessoas."
Bases da Energia Nuclear

O físico, especialista em energia nuclear, Eduardo Martinho tem um blogue muito pedagógico sobre o modo como se aproveita a energia nuclear. Os interessados em saber mais sobre esse assunto têm toda a vantagem em clicar aqui.
Dúvida Metódica
Sara Raposo e Carlos Pires são dois professores de filosofia da Escola Secundária de Pinheiro e Rosa, em Faro. Criaram e mantêm um blogue de extraordinária qualidade que tem por designação Dúvida Metódica.Aí exercem, sobretudo com os seus alunos, a nobre tarefa de pensar e de levar a pensar.
No Dia Mundial da Filosofia, que hoje se comemora, é justo que o De Rerum Natura destaque este propósito que, não sendo exclusivo da Filosofia, nela revela toda a sua essência e esplendor.
Para assinalar este dia, entenderam os referidos professores realizar um debate online: a ideia é, em vez de falar da Filosofia, filosofar.
Pode o leitor participar nesse debate clicando aqui.
“DARWIN AOS TIROS”
Recensão de João Lourenço Monteiro, efectuada no âmbito do projecto "Ciência na Imprensa Regional -Ciência Viva, sobre o mais recente livro de Carlos Fiolhais e David Marçal,"Darwin aos Tiros", editado pela Gradiva.
"Foi muito recentemente publicado o livro de divulgação científica “Darwin aos Tiros e outras Histórias de Ciência”, da autoria do professor de Física da Universidade de Coimbra Carlos Fiolhais e do Bioquímico David Marçal.
Se o leitor é um ávido curioso pela Ciência e pela História, então vai encontrar aqui o melhor dos dois mundos, desvendando os segredos da História de várias disciplinas como a Matemática, a Astronomia, a Física, a Química, a Geologia, a Biologia, a Medicina e ainda um alerta para as pseudociências. As pseudociências são crenças que se pretendem valorizar alegando basear-se em factos científicos, mas que na realidade não têm qualquer apoio por parte da ciência, sendo os exemplos mais conhecidos a astrologia ou a homeopatia.
Na apresentação do livro, que teve lugar em Lisboa, o editor Guilherme Valente relatava um telefonema que havia recebido do professor Fiolhais, em que o lente afirmara que estava a preparar um novo livro que seria um tiro; qual não foi o espanto do editor quando recebeu um esboço do livro intitulado “Darwin aos Tiros”. Afinal o professor de Física, a brincar, falava a sério.
Importa esclarecer a origem do título: Charles Darwin foi um importante cientista britânico do século XIX, que realizou uma circum-navegação ao globo na qual aproveitou para estudar várias espécies da fauna e flora mundiais. Como a viagem demorou cinco anos e a tripulação não levava mantimentos suficientes, era necessário capturar algumas das espécies que iam encontrando, para servirem de alimento. Nessas situações, Darwin demonstrou que não era apenas um cientista curioso e atento, mas também um exímio caçador. E mais não revelo, para não estragar o prazer da descoberta.
De salientar que a ciência relatada no livro também teve origem em Portugal, com cientistas do calibre de Pedro Nunes, Amato Lusitano, Diogo de Carvalho Sampayo, Garcia de Orta, sem esquecer, como recordam os autores, o importante papel que tem tido a Universidade de Coimbra, formando ou acolhendo muitos dos notáveis aqui mencionados.
Neste livro, a História das Ciências é contada aos leitores em jeito de breves estórias, e com uma certa dose de sentido de humor, o que tornará a leitura desta obra, creio, bastante agradável. Nestes dias frios e chuvosos, em que nos vemos forçados a permanecer grande parte do tempo na clausura do nosso lar, este livro promete ser uma companhia prazenteira. Boas leituras."
João Lourenço Monteiro
Aprender uma segunda língua
Informação da Fundação Francisco Manuel dos Santos sobre mais uma Conferência de Educação, a última deste ano:
Conferência com participação de Carmen Muñoz, Luísa Araújo e Carlos Ceia.
A aprendizagem de uma segunda língua tem ocupado lugar de realce nos últimos anos no nosso país, tendo sido postas em prática medidas de promoção desta aprendizagem a partir de idades precoces.
Uma especialista espanhola explicará como se aprende uma língua diferente e quais os mecanismos cognitivos associados. Será abordado, por uma investigadora portuguesa, o modo como se ensina uma segunda língua na Europa e, mais especificamente, o que está a ser feito no nosso país, por um professor especialista em didáctica do português e línguas estrangeiras.
Algumas das questões em debate serão: quando deve começar a aprendizagem da segunda língua? A aprendizagem da segunda língua é salutar para o desenvolvimento cognitivo da criança? Quais os ganhos face a uma aprendizagem mais tardia? Aprender uma segunda língua prejudica ou auxilia o desenvolvimento da língua materna? As práticas europeias e portuguesas estão de acordo com o que sabemos?
Para mais informação contacte-nos em educacao@ffms.pt .
5 Dez 14h30
Faro, Grande Auditório da Universidade do Algarve
6 Dez 17h30
Lisboa, Torre do Tombo
Inscrições abertas
Entrada Livre mediante pré-inscrição
UM ESCÂNDALO DA MENTE

Deixo mais um pequeno extracto da peça "Cálculo" de Carl Djerassi que hoje à noite estreia no Museu da Ciência de Coimbra. Há uma peça dentro da peça e dois dramaturgos planeiam uma peça sobre um escândalo associado à invenção do cálculo disputado por Newton e Leibniz:
"CIBBER: Estou a ver. (Pausa). Necessitas da vingança para lancetar a pústula.
VANBRUGH: É um método eficiente.
CIBBER: Dependendo da escolha do instrumento. E qual é o teu, se posso perguntar?
VANBRUGH: Escrever uma peça, claro. Uma peça escandalosa.
CIBBER: E pôr-te assim à disposição de renovadas acusações de desvio moral?
VANBRUGH: Comecei como dramaturgo... fui insultado como dramaturgo... desejo acabar como dramaturgo... e vingar-me como tal.
CIBBER: Através de uma peça escandalosa?
VANBRUGH: Sim... mas sem sexo!
CIBBER: Um escândalo... sem sexo?
(Vanbrugh assente.)
CIBBER: Uma aventura ou duas, talvez?
VANBRUGH: Nada de aventuras!
CIBBER: Como pode então ser escandalosa?
VANBRUGH: Têm o sexo e o escândalo de estar sempre emparelhados?
CIBBER: Ajuda... especialmente no palco.
VANBRUGH: Colley, vou mostrar que o verdadeiro escândalo é o da mente."
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