quinta-feira, 26 de novembro de 2009
Estudos do Século XX
O Director da Imprensa da Universidade de Coimbra, a Directora da revista Estudos do Século XX e a Directora do Teatro Académico de Gil Vicente/ Fundação Cultural da Universidade de Coimbra têm o prazer de convidar V. Ex.ª para o lançamento do n.º 9 da revista Estudos do Século XX.
A sessão terá lugar no dia 3 de Dezembro de 2009, pelas 17h30m, no foyer do TAGV, estando a apresentação a cargo do Doutor Fernando Catroga.
quarta-feira, 25 de novembro de 2009
Descobre o teu Céu! Apresentação Pública
26 de Novembro | 15h00-18h00
ENTRADA LIVRE
Veja aqui o livro editado no âmbito desta iniciativa.
Teatro no Museu
Depois do sucesso da iniciativa CIENTISTAS AO PALCO, iremos retomar a apresentação de duas das peças que foram concebidas expressamente para a Noite dos Investigadores, no passado dia 25 de Setembro.
21H30 | STUPID DESIGN | David Marçal
Trata-se de uma sátira às teorias do “desenho inteligente” (ou intelligent design) que procuram travestir o criacionismo como ciência. O espectáculo procura demonstrar que não é o formalismo e a complexidade de linguagem que tornam uma teoria cientifica. A base da ciência é a prova.
22h00 | NASCER DA EVOLUÇÃO | David Marçal e André Levi O espectáculo faz uma alusão implícita aos movimentos crescentes, eespecialmente nos EUA (felizmente ainda com uma expressão limitada em Portugal) que procuram fazer passar o Desenho Inteligente (a ideia de que a biodiversidade resulta de uma criação inteligente) como uma teoria científica. É também uma abordagem sobre a capacidade de as bactérias desenvolverem resistência aos antibióticos, e a importância da utilização responsável de antibióticos.
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Estas actividades fazem parte da Semana Cultura Científica no Museu da Ciência 2009. Consulte o Programa completo.
INFLUÊNCIA DO FUTURO?
- Holger B. Nielsen and Masao Ninomiya, "Search for Effect of Influence from Future in Large Hadron Collider", arXiv:0707.1919 (July 2007).
- Holger B. Nielsen and Masao Ninomiya, "Test of Influence from Future in Large Hadron Collider; A Proposal", arXiv:0802.2991 (February 2008)
- Holger B. Nielsen and Masao Ninomiya, "Search for effect of influence from future in Large Hadron Collider", International Journal of Modern Physics A (IJMPA) do Imperial College de Londres, Vol. 23, Issue: 6 (10 March 2008), pags. 919-932, DOI No: 10.1142/S0217751X08039682
- Holger B. Nielsen and Masao Ninomiya, "Card game restriction in LHC can only be successful!", arXiv:0910.0359 (October 2009)
O meu comentário foi:
Eu sei que foi Niels Bohr que disse em resposta a uma teoria maluca de um seu colega: "A sua teoria é maluca, mas não sei se a sua teoria é suficientemente maluca para ser verdade". Mas a teoria proposta por Nielsen e Ninomiya ultrapassa todas as marcas da maluquice... Parece-me tão extraordinariamente maluca, que não pode ser verdade, como seria se fosse apenas moderadamente maluca! Basicamente os autores dizem que a Natureza por qualquer razão "não gosta" de partículas de Higgs e para evitar ajuntamentos delas, há sinais enviados para o passado de modo a evitar que eles apareçam. Pretendem assim explicar o cancelamento do superacelerador americano no Texas e, mais recentemente, a avaria do LHC no CERN, na Suíça. Propõem que se lancem cartas - não sei se estão a pensar nas do Tarot - para decidir se a experiência se realiza ou não e, realizando-se, durante quanto tempo e com que intensidade. Deste modo poderia haver interrupção do hipotético nexo causal do futuro para o passado. Einstein disse um dia que "Deus é subtil, mas não malicioso", querendo com isso dizer que não é fácil, mas é possível descobrir a harmonia do mundo. Eu acrescentaria que, se Nielsen e Ninomiya tivessem razão, Deus seria malicioso. Os físicos não têm razão nenhuma para acreditar em influências do futuro (isto é, em violações ou reversões do princípio da causalidade).
E ainda disse mais:
1) Pesem embora os méritos dos autores (o próprio Einstein também disse disparates, nomeadamente a princípio julgou que não havia Big Bang) julgo que só excepcionalmente artigos deste género podem ver a luz do dia numa revista com avaliação por pares. Eles aparecem com maior frequência em arquivos electrónicos porque é porque fácil propor em qualquer coisa e ainda é mais fácil publicar essa qualquer coisa na Net. Há até um novo jornal científico na Net, obviamente sem avaliação, que se intitula "Jornal de Artigos Recusados". O "peer review" é fundamental para o avanço da ciência e aqui não há ou, se o há, é muito rudimentar. Esse método é a maneira, como Carl Sagan disse, que temos de manter o cérebro aberto, sem que os "miolos nos caiam cá para fora".
2) O acelerador LHC do CERN vai funcionar ainda este ano. Claro que posso falhar esta previsão, mas parece-me uma previsão bem fundamentada, pois está muita gente a trabalhar com afinco para que assim seja. Agora brinco: Queira o futuro amontoado de Higgs ou não!
A MAIOR EXPERIÊNCIA DO MUNDO JÁ COMEÇOU

Terça-feira é dia das páginas de ciência no "New York Times". O jornalista e escritor Dennis Overbye relata nessas páginas que na segunda-feira, 23 de Novembro, se deram as primeiras colisões no acelerador LHC no CERN, perto de Genebra, na Suíça: ler aqui.
Pedro Nunes. Em busca das suas origens

Informação recebida da Editora Colibri:
"Pedro Nunes. Em busca das suas origens", de Maria Teresa Lopes Pereira
A dimensão do homem e do cientista do Renascimento é o objecto central deste livro. Acompanhou-se o seu brilhante percurso, procurando seguir-se, atentamente, a carreira deste matemático, criador do nónio, não só a nível nacional, mas também nos amplos ecos em países europeus, onde as obras de Pedro Nunes foram muito conhecidas e citadas pelos seus pares. Estudou-se também a comunidade judaica e cristã-nova de Alcácer, na qual mergulham as raízes familiares do grande cosmógrafo. Trata-se de um itinerário de vida fascinante que se espera venha a ter tanto interesse para o leitor como para quem o desvendou nas páginas deste livro.
Colaboração com Câmara Municipal de Alcácer do Sal
Preço: 15,75 €
ISBN: 978-972-772--845-9
ACTIVIDADES EXPERIMENTAIS PARA O PRIMEIRO CICLO

Informação recebida da editora Areal:
ACTIVIDADES EXPERIMENTAIS PARA O PRIMEIRO CICLO: UM GUIA PRÀTICO PARA PROFESSORES E PAIS", de Sandra Lopes Simões da Costa
Numa sociedade que se caracteriza, cada vez mais, pela valorização do conhecimento científico, o Ensino Experimental assume um papel de primordial importância, designadamente na formação das crianças que frequentam o 1.º Ciclo do Ensino Básico (CEB). Os resultados obtidos por Portugal no mais recente estudo do Programme for International Student Assessment (PISA-2006) mostram que os alunos portugueses revelam uma preparação muito deficiente na área de Ciências. Nesse sentido, urge começar a ensinar Ciências mais cedo.
A presente obra acabada de sair, da professora de Ci~encias Físico-Químicas Sandra Costa, pretende ser uma resposta às principais dificuldades dos professores, apresentando um conjunto diversificado de actividades experimentais destinadas aos alunos que frequentam o 1.º CEB. Como suporte das actividades, propõe-se um kit composto por materiais comuns pouco dispendiosos, de fácil obtenção e manipulação. Todas as actividades apresentam um enquadramento teórico e metodológico das diferentes temáticas que constituem o Programa de Estudo do Meio, do 1.º CEB, reunindo também um conjunto de propostas que pode servir de apoio aos professores/pais, e algumas questões para os alunos, na forma de fichas de acompanhamento.
As actividades experimentais propostas, com uma explicação clara para professores e pais e orientadas para os alunos do 1.º CEB, constituem um apoio à prática lectiva dos professores do 1.º Ciclo, no âmbito do Ensino Experimental.
O livro baseia-se numa tesse de mestrado realizada na Universidade de Coimbra sob a orientação de Constança Providência e Carlos Fiolhais.
ISBN13: 978-989-647-086-9
terça-feira, 24 de novembro de 2009
Estudar as datas na escola ajuda a compreender a identidade do país

O sociólogo, escritor e jornalista Francesco Alberoni (na foto) publicou a 2 de Novembro no Corriere della Sera uma crítica ao ensino italiano, cuja versão portuguesa saiu no dia 10 de Novembro no jornal "I". Vale a pena republicá-lo aqui:
"Nos últimos 40 anos, os pedagogos quase destruíram as bases do pensamento racional e os fundamentos da nossa civilização. E fizeram-no com a ajuda de uma única decisão: eliminando as datas, acabando com a obrigatoriedade de apresentar os factos por ordem cronológica. Agora é normal ouvir dizer que Manzoni viveu no século XVI. Não há razões para espanto porque na escola já não se ensinam os acontecimentos pela respectiva ordem temporal, dizendo, por exemplo, que Alexandre Magno viveu antes de César, que, por sua vez, viveu antes de Carlos Magno, e só depois vem Dante e, em seguida, Cristóvão Colombo.
Esta pedagogia foi importada dos Estados Unidos, um país sem história que tenta anular as raízes históricas dos seus habitantes para que se tornem cidadãos norte-americanos. Aplicá-la a Itália, produto de uma estratificação histórica com três mil anos, e ao resto da Europa, que tem raízes culturais gregas, romano e judaico-cristãs, é equivalente a destruir-lhes a identidade. Ao contrário de nós, as civilizações islâmica e chinesa estudam obstinadamente a sua história, para se conhecerem melhor e se reforçarem.
Perder a capacidade de ordenar cronologicamente os acontecimentos significa igualmente perder a identidade pessoal. Quando perguntamos a alguém "Quem és?", essa pessoa conta-nos o que fez e o que faz nesse momento. Quando procuramos trabalho, apresentamos o nosso currículo. Quando nos apaixonamos, contamos a nossa vida à pessoa que amamos. Hoje vemos muita gente que já não sabe ordenar aquilo que viveu e vê o passado apenas como uma sucessão caótica de acontecimentos.
A desordem no pensamento reflecte-se na língua. A escola já não ensina gramática, análise cronológica ou consecutio temporum. Há quem não distinga o passado próximo do passado remoto, quem não perceba a lógica do conjuntivo e do condicional e alguns confundem até o presente com o futuro. É a desagregação mental, a demência.
Cara ministra Gelmini, peço-lhe que me dê ouvidos e afaste todos os pedagogos desta corrente nefasta. E depois, por favor, obrigue todos os professores a fazerem um curso de História com datas e um curso de Gramática. Finalmente, mande instalar em todas as salas de aula um grande cartaz horizontal onde estão assinalados, por ordem cronológica, todos os episódios significativos da história, para que os nossos jovens possam habituar-se à sucessão temporal. Uma muleta para o cérebro."
Francesco Alberoni
DIA DA CULTURA CIENTÍFICA - PEDRA FILOSOFAL
DARWIN CANTADO NA RUA
Philadelphia street performer Brett Keyser brings evolution to the people.
segunda-feira, 23 de novembro de 2009
Darwin Origem das Espécies - 1859
Comemoram-se hoje 150 anos sobre a publicação de uma das mais originais e influentes obras científicas.Escrevi há algum tempo um texto para o catálogo da exposição do Museu da Ciência, 'Darwin 150/200', de que reproduzo aqui uma parte, como forma de comemoração da publicação da 'Origem das Espécies'. E começo com o final.
“There is a grandeur in this view of life, with its several powers , having been originally breathed into a few forms or into one; and that whilst this planet has gone cycling on according to the fixed law of gravity, from so simple a beginning endless forms most beautiful and most wonderful have been, and are being, evolved.”
“Há uma grandeza nesta visão da vida, com os seus vários poderes originalmente soprados em algumas formas, ou em apenas uma; e enquanto este planeta foi girando na sua órbita, obedecendo à lei fixa da gravidade, intermináveis formas, belas a admiráveis, a partir de um começo tão simples, evoluíram e continuam a evoluir.”
É com esta frase que termina a mais importante e influente obra da Darwin, a “Origem das espécies”. A frase exprime um sentido de maravilhamento pela notável obra da Natureza e pela aparente simplicidade de mecanismo que tornou tudo isso possível. Darwin sublinha que esta visão da vida é uma visão grandiosa de como formas tão simples podem ter dado origem a sistemas tão complexos como as que podemos encontrar num ecossistema de floresta tropical.
“A Origem das Espécies por meio de selecção natural, ou a preservação das raças favorecidas na luta pela vida” é um livro com um título demasiado longo para ser vendável. Contudo, os mil duzentos e cinquenta exemplares da primeira edição, publicada a 24 de Novembro de 1859, esgotaram no primeiro dia. E havia boas razões para isso: o livro era polémico, propunha uma revolução na perspectiva como encarávamos a natureza viva que nos rodeia, abria o caminho para uma perspectiva radicalmente nova sobre as nossas origens e evolução e revelou ser um dos mais importantes livros de sempre. Nele, Darwin sustenta que as espécies evoluíram, não foram criadas, como se pensava então, e propõe o mecanismo de selecção natural para explicar essa evolução e as adaptações dos organismos.
A revolução darwiniana é umas das mais importantes revoluções científicas, a par da revolução coperniciana. A biologia é hoje inteligível graças ao pensamento de Darwin. Como afirmou um grande evolucionista, Theodozius Dobzhansky, nada em biologia faz sentido sem ser à luz da evolução. O facto de as espécies terem evoluído a partir de um pequeno número de formas surgidas na Terra há mais de três mil milhões de anos, é actualmente incontroverso e documentado por uma imensidão de evidências. A mais forte delas é a própria informação genética, o código genético, que codifica e define cada espécie de organismos. Espécies mais próximas têm um código mais parecido. A história evolutiva pode ser contada a partir do código genético, apesar de este só ter sido compreendido há menos de 50 anos.
Um outro aspecto completamente revolucionário nas ideias de Darwin, e que deriva do primeiro, é a conclusão de que a nossa espécie resulta deste processo evolutivo, tendo evoluído de primatas que viveram no passado; nós partilhamos esses antepassados com outros primatas vivos como os chimpanzés ou os gorilas. A teoria evolutiva de Darwin forneceu a primeira explicação científica para a origem da nossa espécie. Hoje, milhares de fósseis documentam e confirmam a impressionante teorização de Darwin.
Qualquer destes princípios bastaria para colocar Darwin no centro dos maiores cientistas de sempre. Contudo, a sua actividade científica e o seu pensamento compreendem outros contributos muito importantes, como o primeiro tratado comparativo do comportamento animal e humano, como é “A expressão das emoções nos animais e no Homem”, ou ainda uma explicação para os estranhos ornamentos dos machos de muitas espécies de aves e de peixes.
A grandeza desta visão da vida
De acordo com a teoria de evolução formulada por Darwin, as espécies não são imutáveis, antes evoluem lentamente ao longo do tempo. O processo de evolução é também um processo de diversificação, pelo que as várias formas de vida na Terra - árvores, escaravelhos, ou baleias - descendem de antepassados comuns a todas. Segundo a teoria de evolução, a fina e detalhada adaptação de cada organismo a formas específicas de vida resulta de um processo adaptativo guiado pela selecção natural e não resulta de qualquer inspiração divina. Darwin não questionou a existência de uma entidade divina, mas sim a sua intervenção no processo de diversificação da vida, negando a origem separada de todas as espécies e propondo uma origem comum. A revolução molecular do final do século XX veio trazer a prova definitiva da justeza das suas ideias. Todas as espécies, das bactérias aos fungos ou aos seres humanos, possuem um mesmo mecanismo de conservação e transmissão de informação. Quanto mais próximas evolutivamente são duas espécies mais semelhante é o seu DNA, o que permite fazer uma cartografia de reconstituição da história da vida na Terra exclusivamente a partir da informação genética. O livro da vida é uma espécie de registo da evolução dos últimos três mil milhões de anos.
O MATEMÁTICO DISFARÇADO
Já havia o "Economista Disfarçado". Agora saiu o livro "O Matemático Disfarçado", de Edward B. Burger e Michael Starbir (Academia do Livro), sem ligação com o primeiro a não ser na semelhança do título. Publicamos o prefácio de Nuno Crato a esse livro:"O livro que o leitor tem entre mãos vai conduzi-lo através de uma aventura maravilhosa. Vai levá-lo a vários tópicos matemáticos — alguns modernos, outros antigos, mas todos eles profundos. E vai seduzi-lo página a página com a simplicidade de exposição, com o humor e com o inesperado de muitas conclusões. Esta aparente contradição — matérias profundas, exposição simples — é resolvida pelos autores com grande mestria, a mestria que é apanágio dos bons divulgadores. O conhecimento profundo da matéria transforma-se num texto simples, de narrativa inspirada.
Ao leitor cabe fazer o caminho inverso se a isso estiver motivado: transformar estes aperitivos da cultura matemática num conhecimento mais sólido. As pistas estão aí, o caminho está entreaberto. Muitos estudantes assim farão. Os meios modernos de procura na Internet, as bibliotecas e, sobretudo, os professores, estão prontos para os ajudar. Mas a outros leitores pode bastar o que vão ler. Ficam enriquecido culturalmente, ficam a perceber um pouco melhor a importância da matemática no mundo moderno — que mais se pode querer de um livro?
Outros leitores ainda, os que ensinam matemática aos jovens do Ensino Básico ou Secundário, retirarão deste livro muitos exemplos e ideias para inspirar os seus estudantes. Quanto mais vivo for o ensino mais fácil será proceder à transmissão de conhecimentos, desde que o essencial não seja esquecido e desde que não se reduza a aprendizagem a uma colecção de exemplos desconexos. O ensino, sobretudo o da matemática, não é divulgação. Esta é episódica e aquele sistemático. Cabe ao professor integrar os exemplos e os desvios de rota na progressão coerente das matérias. O que se espera dos divulgadores é que forneçam bons exemplos. Para isso, pode-se confiar nos autores deste livro. São matemáticos profissionais, que conhecem profundamente a matéria de que falam, que medem cada palavra da sua exposição para não induzir o leitor em erro e que são capazes de conceber os melhores exemplos para explicar os conceitos aparentemente mais arcanos.
O livro começa da melhor maneira: com as coincidências. Explica que é muito provável encontrar, num grupo de algumas dezenas de pessoas, duas que façam anos no mesmo dia — é o célebre problema do aniversário — e dá vários exemplos matemáticos relacionados. Mas faz mais do que isso: através do cálculo das probabilidades mostra como coincidências enigmáticas e cuidadosamente recolhidas podem induzir mentes menos críticas a acreditar em milagres, na capacidade de prever o futuro ou em conspirações. Toda a primeira parte do livro é dedicada a problemas do acaso e da incerteza, problemas que muitas vezes são esquecidos nas obras de divulgação da matemática. Fala-se do caos e mostra-se como este conceito matemático pode ser enganador se indevidamente apropriado — e tem sido indevidamente apropriado — por muita especulação de inspiração filosófica pós-moderna. É bom saber-se do que se fala quando se usam metáforas provenientes da ciência.
Na segunda parte do livro, os autores discutem alguns problemas de números. Falam da criptografia moderna, explicando como as transacções monetárias e a transmissão de mensagens podem ser absolutamente seguras — a protecção dos números de cartões de crédito e de outra informação pessoal sensível não pode ser feita com base em receios ignorantes, convém ao cidadão informado perceber as bases da criptografia à sua disposição. Os autores dão depois exemplos de somas infinitas e constroem um dos melhores casos do livro: o de um baralho de cartas que se prolonga indefinidamente, para fora de uma mesa, sem cair.
Na terceira parte, os autores falam do número de ouro, de fractais, de nós e de anéis. Oferecem-nos de novo alguns exemplos magníficos — desta vez com papel dobrado e origamis. Revisitam exemplos clássicos da topologia, mas com figuras diferentes. de tal forma que mesmo matemáticos profissionais podem divertir-se a seguir a narrativa. Mas onde todos nos divertimos é a seguir exemplos contra-intuitivos. Uma das maravilhas da matemática é a capacidade de nos surpreender e de mostrar como a intuição nos engana. Em todas as áreas isso acontece, mas em probabilidades e topologia talvez as surpresas sejam mais susceptíveis de serem explicadas com um mínimo de recursos. Os autores usam sabiamente essa possibilidade. Depois das coincidências aparentemente inexplicáveis, é saboroso ver um anel a mudar de buraco ou alguém com os pés atados a virar as calças ao contrário.
Mostrar como as aparências nos enganam é uma das grandes virtudes educativas da matemática. O nosso conhecimento começa, muitas vezes, com a intuição. O grande matemático George Pólya insistiu sabiamente no uso de conjecturas no ensino. O que por vezes se esquece é que a intuição e as conjecturas dela resultantes tanto podem ter sucesso como ser enganadoras. Os jovens devem-se defrontar tanto com uns casos como com outros, e perceber que a intuição deve passar pelo crivo do raciocínio rigoroso. Nada mais instrutivo do que a surpresa do erro.
Finalmente, os autores abordam a quarta dimensão e o infinito — tópicos maravilhosos e muitas vezes descuidados dada a sua dificuldade técnica. Explicam como Dali pintou Cristo crucificado num hiper-cubo e como os perigos de ser picado por um mosquito crescem à medida que o universo tem mais dimensões. Mostram como é possível quantificar o infinito e como, sendo todos infinitos, há infinitos mais infinitos que outros. Ao chegar ao fim do livro o leitor não se sentirá defraudado. Ter-se-á divertido. Terá ganho umas boas horas da sua vida a lê-lo."
Nuno Crato
A Virtude

Cada visita aos Museus do Vaticano é não só um deleite para os sentidos, mas também uma viagem da alma. Ali encontramos materializada a arte e ali encontramos também o Homem e a lembrança de um deus, não podendo deixar de ficar perplexos com uma capacidade artística transcendente, revelada em cada parede, em cada friso, em cada tecto.
Em estágio para Copenhaga 0


UM CAMINHO CURRICULAR PARA A FORMAÇÃO HUMANISTA?
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