terça-feira, 26 de julho de 2016
HOJE À NOITE "TEATRO E CIÊNCIA" EM DEBATE NO CAFÉ SANTA CRUZ EM COIMBRA
As noites de verão estão óptimas, pois a canícula deixa de ser manifesta. Hoje, pelas 21 h, no antigo Café de Santa Cruz, mesmo ao lado da Igreja com o mesmo nome, na Baixa de Coimbra, haverá mais uma sessão de "Ciência ao Luar", com organização do Rómulo - Centro Ciência Viva da Universidade de Coimbra em parceria com aquele café e moderação minha.
O tema será "Teatro e Ciência" e à mesa do café na esplanada ao ar livre estarão Maria José Almeida, professora de Física da Universidade de Coimbra, investigadora em Física da Matéria Condensada e actriz do grupo de teatro Bonifrates, e Mário Montenegro, actor, encenador e director do grupo de teatro "Marionet" que se tem especializado na encenação e interpretação de peças de teatro científico. Depois da discussão sobre literatura e ciência, é a vez de discutir as pontes entre a ciência e o teatro.
O tema será "Teatro e Ciência" e à mesa do café na esplanada ao ar livre estarão Maria José Almeida, professora de Física da Universidade de Coimbra, investigadora em Física da Matéria Condensada e actriz do grupo de teatro Bonifrates, e Mário Montenegro, actor, encenador e director do grupo de teatro "Marionet" que se tem especializado na encenação e interpretação de peças de teatro científico. Depois da discussão sobre literatura e ciência, é a vez de discutir as pontes entre a ciência e o teatro.
Atractor recebe prémio
Informação recebida do Atractor:
No âmbito do Festival
Internacional MathLapse
Festival, organizado pelo Imaginary (um projecto do Mathematisches
Forschungsinstitut Oberwolfach) e que decorreu em Berlim a
22 de Julho, foram seleccionados, por um júri internacional,
os 5 melhores MathLapses* (sem nenhuma seriação entre esses 5).
Temos o prazer de informar que
o filme do Atractor Construções
de fio esticado: cónicas (https://www.youtube.com/watch?v=mldZ_7QwLvs)
foi considerado um desses 5 melhores.
Pode consultar outras 16 MathLapses no
canal youtube do Atractor (https://www.youtube.com/channel/UCymZYeiV6b-86ZpDM3_HspQ/videos)!
_________* MathLapse é um pequeno filme que ilustra uma ideia Matemática.
ATRACTOR
=============
Telefone/fax: 222008258
Endereço: Associação Atractor
Rua de Ceuta, 118 - 5º
4050-190 PORTO
Posição do SMESup sobre os contratos de investigadores
Informação recebida do SNESup:
O SNESup reuniu na passada sexta-feira, 22 de julho de 2016,
com o Ministro da Ciência, Tecnologia e Ensino Superior. Esta reunião
desenvolveu-se na sequência do pedido de negociação suplementar enviado pelo
SNESup com o objetivo de apresentar uma proposta para resolução dos conflitos
relativos ao Projeto de Decreto-Lei “Estimulo ao emprego
científico”.
Nas duas reuniões anteriores, o SNESup apresentou um conjunto de
propostas de alteração ao Projeto
de Decreto-Lei “Estimulo ao emprego científico” para valorizar e
dignificar o emprego científico e, em simultâneo para colmatar as necessidades
permanentes do Sistema Científico e Tecnológico
Nacional.
O SNESup opõe-se às propostas
defendidas pelo atual ministro, Professor Doutor Manuel Heitor,
que apresenta um projeto de diploma sobre Emprego Científico, que substitui o
programa Investigador FCT, envolve apenas 14% dos bolseiros de pós-doutoramento
e cuja norma acentua a precariedade, introduz escalões mais baixos de
remuneração e prepara-se também para consagrar profundos cortes no financiamento
direto ao trabalho científico.
Notem-se algumas questões no projeto de diploma proposto pelo
governo:
i) Mantém-se a figura do bolseiro de investigação para
investigadores doutorados;
ii) Possibilita-se que as instituições possam contratar
investigadores através de contratos a termo e a termo incerto;
iii) Permite que as contratações sejam efetuadas com um nível
de remuneração muito diversificado (a partir do índice 28) mas sempre inferiores
aos índices remuneratórios previstos no Estatuto da Carreira de Investigação
Científica, e nos termos a definir pela instituição que abre o
concurso;
iv) Não configura o acesso à carreira, nem aos investigadores
que vierem a ser contratados pelo presente regime nem aqueles que foram
contratados pelos programas anteriores (Ciência207/2008 e Investigador
FCT);
v) Revoga o Programa Investigador FCT que contrata
investigadores (5 anos) com mecanismos equiparados aos do Estatuto da Carreira
de Investigação;
vi) Abre a possibilidade dos atuais investigadores com bolsa
de Pós-doutoramento da FCT há mais de 3 anos poderem ser contratados através de
procedimentos concursais realizados pelas instituições em que os bolseiros
desempenham funções. A remuneração será obrigatoriamente pelo índice 28
(ordenado ilíquido de 1870,88 euros/mês) e os encargos resultantes da
contratação destes doutorados serão suportados pela FCT através de contrato a
realizar com as instituições de acolhimento dos bolseiros que vierem a ser
contratados.
De todos estes elementos, só a primeira parte do expresso na
alínea vi) corresponde à indicação de transformação de bolsas em contratos.
Trata-se do “Artigo 23.º Norma transitória” e aplica-se apenas ao ano de 2016,
segundo uma forma convoluta dependente da vontade de algumas instituições.
Ora, tal como vimos na reação dos diversos agentes e
organizações, o ponto convergente encontra-se na conversão das bolsas em
contratos de trabalho, garantindo uma verdadeira dignificação do emprego
científico.
Na reunião de sexta-feira, o SNESup centrou a sua atenção no
Artigo 23.º Norma transitória, apresentando um conjunto
de propostas capazes de gerar amplo consenso,
incluindo:
i) Até ao final de 2017, as instituições contratam sem outras
formalidades, todos os bolseiros doutorados que manifestem vontade nesse sentido
e que celebraram contratos de bolsa na sequência de concursos abertos ao abrigo
do Estatuto de Bolseiro de Investigação;
ii) Os encargos resultantes das contratações de doutorados,
ao abrigo do presente artigo, para o desempenho de funções que estivessem a ser
exercidas por bolseiros ou investigadores financiados diretamente pela FCT são
suportados por esta através de contrato a realizar com a instituição de
acolhimento do bolseiro ou investigador, a qual passará a instituição
contratante ao abrigo do presente decreto-lei.
Esta proposta foi por nós
apresentada com o cálculo preliminar do seu impacto financeiro, que demonstra a
sua completa possibilidade. Pelos nossos cálculos, a transformação de 1000
bolseiros de Pós-doutoramento em 1000 contratos de trabalho (pelo índice 28 como
indicado no projeto de Decreto-Lei) tem apenas um investimento líquido do estado
de 2,54 milhões de Euros. Com o fim do programa InvestigadorFCT o Estado não irá
gastar 8,31 milhões de euros por ano. A possibilidade da conversão de todas as
bolsas não possui, como se vê, qualquer questão
financeira.
Note-se ainda que os investigadores contratados pelo programa
InvestigadorFCT, que não fossem Investigador Principal de um projeto financiado
pela FCT, tinham acesso a 50 000 de financiamento (projeto) para iniciar a sua
atividade. Logo, os 250 investigadores/ano que não são agora contratados pelo
programa Investigador FCT poderiam ter acesso 12,5 milhões de euros em
projetos.
Devemos sublinhar que o Ministro Manuel Heitor não mostrou
interesse em discutir as nossas propostas, preferindo salientar os benefícios
das bolsas de pós-doutoramento desde que devidamente enquadradas num caracter de
formação e que a responsabilidade de contratação de investigadores é das
instituições do SCTN.
Para o SNESup:
1) O Estatuto de Bolseiro de Investigação deveria ser
restrita ao investigadores em formação (e.g. mestrado e
doutoramento);
2) O atual diploma sobre Emprego Científico apresentado pelo
senhor ministro institucionaliza a precariedade no SCTN e desprestigia os
investigadores, acentuando o desinvestimento em recursos humanos para ciência
iniciado pelo anterior governo de direita.
3) A flexibilização e precariezação do emprego científico é
uma opção política do atual governo e não o resultado de constrangimentos
orçamentais
4) A transformação de cerca de 300-400 bolseiros de
doutoramento financiados pela FCT em contratos de trabalho é a peneira com que
se pretendia tapar o sol da verdade.
5) A concretização do diploma do emprego científico
representa uma oportunidade perdida para a dignificação do
sistema.
Todo este processo permitiu que a própria comunidade olhasse
e compreendesse melhor a situação organizacional e financeira, demonstrando-se
que o problema não está nos recursos, mas sim no quadro
institucional.
O trabalho que o SNESup desenvolveu sobre esta matéria terá
continuidade num conjunto de ações que se encontram em programação. É
fundamental que se encontra uma verdadeira lei de dignificação do emprego
científico, que termine com o subemprego e caminhe para a estabilização de
vínculos enquadrados no ECIC. Esse é o forte desafio que abraçamos com toda a
nossa dedicação.
Saudações
académicas e sindicais
A
Direção do SNESup
14 de
julho de 2016
segunda-feira, 25 de julho de 2016
LIVROS PARA O VERÃO
Minha crónica na última revista "As artes entre as letras":
De há muito que venho defendendo
que o “Verão”, que alguns chamam a “silly season”, não tem necessariamente de
ser um tempo morto para os miolos. Assim como não se deixa o corpo sem
alimento, também não me parece sensato deixar o espírito sem alimento ou com
mau alimento (como a chamada literatura “light”, que cobre os escaparates e as
montras das livrarias). No Verão, quando os horários são mais relaxados e o
ambiente eventualmente muda, é o tempo para pôr as leituras em dia, mesmo
leituras mais exigentes que foram por falta de tempo postergadas.
Venho propor como leituras de Verão
seis livros de divulgação científica publicados recentemente em Portugal, três
de autores portugueses e três traduções do inglês. Não são leituras pesadas,
mas também não são livros para consumir rapidamente. São livros para desfrutar
com tranquilidade, para que regressemos de férias com mentes mais abertas. A
ordem é a do apelido do autor.
- Jorge Dias de Deus, “Ciência
Cosmológica”, Gradiva, 2016
Este n.º 215 da colecção “Ciência
Aberta” da Gradiva (o último) traz como subtítulo três interrogações
fundamentais do ser humano: “De onde vimos? Onde estamos? Para onde
vamos?”. Estas são quase as mesmas
interrogações que dão título a um quadro do pintor Paul Gauguin, uma grande
obra, inspirada no Taiti, realizada em 1897 rapidamente numa situação de grande
angústia pessoal (no final Gauguin tentou suicidar-se). Tentando explicar como
a humanidade tem progredido nas respostas a estas magnas questões, o físico
Dias de Deus, autor de outros livros da colecção “Ciência Aberta”, apresenta uma história da ciência cosmológica desde a Antiguidade
(quando ela se confundia com o filosofia e a mitologia) até aos nossos dias
(quando, fundada na matemática e na observação, ganhou uma forte base empírica).
É um relato, escrito com com rigor mas
acessível, da evolução nosso conhecimento do cosmos, das histórias antigas dos
deuses até à teoria do Big Bang.
- Jordan Ellenberg, “Como não
errar”, Marcador, 2016.
O autor é um matemático
norte-americano, professor na Universidade de Wiscosin-Madison, que escreve
sobre a sua disciplina para a grande imprensa norte-americana. Ellenberg
comunica a sua paixão pela matemática de uma forma assaz cativante, num texto
onde as histórias concretas e o humor ingredientes fundamentais. O subtítulo transmite a intenção do autor: “O
poder do pensamento matemático no dia a dia”. A matemática não é uma disciplina
afastada da realidade, como alguns pensam,
mas sim uma maneira de olhar para a realidade, que nos pode ajudar no
nosso permanente confronto com ela: De posse de matemática é mais difícil
deixar-mo-nos enganar.
- Walter Lewin (com Warren
Goldstein), “A Paixão da Física”, Gradiva, 2016.
O autor principal é um físico
norte-americano, professor jubilado do famoso MIT de Boston, que, para além de
uma carreira no estudo dos raios X que nos chegam do espaço exterior, ficou
mundialmente conhecido pelas suas aulas divertidas, que ganharam uma audiência
mundial graças ao Youtube. Como mostra a capa e o leitor poderá verificar
facilmente na Internet, para exemplificar as leis do pêndulo, o Prof. Lewin faz
ele próprio de badalo do pêndulo, pendurando-se num grande cabo e balançando-de
diante dos seus alunos. O livro conta a história da sua vida (é comovente a sua
fuga aos nazis na nativa Holanda) e conduz o leitor por uma “viagem pelos
prodígios da física”, que vão do arco-íris cujas cores nos encantam aos buracos
negros que perturbam a nossa mente.
- Leonard Mlodinow, “De Primatas
a Astronautas”, Marcador, 2016.
Se o livro de Lewin é recomendado
por Bill Gates, este é recomendado por Stephen Hawking, que foi parceiro do
autor, na autoria de dois outros livros publicados pela Gradiva na “Ciência
Aberta”: “O Grande Desígnio” e “Brevíssima História do Tempo”. Mlodinow, físico
e escritor norte-americano descendente como Lewin de judeus perseguidos pelo
nazismo, é ainda autor de obras traduzidas em português como “Subliminar”
(Marcador, sobre processos mentais), “O Passeio do Bêbado” (Bizâncio, sobre o
acaso) e “Guerra entre Dois Mundos” (Estrela Polar, diálogo sobre
espiritualidade com Deepak Chopra). O seu livro mais recente é um excelente
resumo da história da civilização, enfatizando o papel da ciência e da técnica.
- Luís Moniz Pereira, “A Máquina
Iluminada, Cognição e Computação”, Fronteira do Caos, 2016
O autor, professor jubilado da
Universidade Nova de Lisboa distinguido com vários prémios, é um dos maiores
especialistas portugueses sobre inteligência artificial. Este livro é uma sua reflexão para o grande
público sobre cognição e computação, quer dizer sobre a possibilidade de os
computadores poderem imitar os humanos conseguindo aquilo que se chama
“conhecer”. Questões que nos inquietam neste mundo inundado por computadores e
robots sobre a “consciência” artificial ou mesmo a “ética” artificial são abordadas por Moniz Pereira. Até onde
poderão ir as máquinas que criámos? Poderão um dia as criaturas escapar ao criador?
- Natália Bebiano da Providência,
“A Matemática e os seus Labirintos”, Gradiva,
2016.
Professora de Matemática da
Universidade de Coimbra, historiadora de ciência e autora de vários livros de
ficção, Natália Bebiano, ensaia nesta obra uma excursão diversificada com
numerosos exemplos (com ilustrações numa edição em bom papel graficamente muito
atraente) pela estética da matemática: Começa com questões da literatura (a
matemática em Fernando Pessoa e em Jorge Luís Borges e a aversão à matemática
de José Saramago e de Gabriel Garcia Marques), passa para o diálogo entre a
matemática e as artes visuais, a íntima relação entre a matemática e a música e
fecha com o contacto entre a matemática, em particular a lógica, com a
filosofia. Uma delícia para a os olhos e para a mente!
Boas leituras estivais!
domingo, 24 de julho de 2016
Ainda o livro sobre Montaigne: introdução do autor
As pessoas estariam na praia, estendidas na areia, ou então preparando‑se para almoçar, bebericando um aperitivo, e ouviriam conversar sobre Montaigne na rádio. Quando Philippe Val me pediu para falar sobre os Ensaios* na antena da France Inter, diariamente durante alguns minutos, no Verão, a ideia pareceu‑me tão absurda, e o desafio tão arriscado, que nem me atrevi a escapar‑lhe.
Em primeiro lugar, reduzir Montaigne a excertos era absolutamente o contrário de tudo quanto aprendera à luz das concepções reinantes nos tempos em que era estudante. Nessa época, atacava‑se a moral tradicional exposta em Ensaios sob a forma de sentenças e exaltava‑se o regresso ao texto na sua complexidade e nas suas contradições. Quem ousasse trinchar Montaigne e servi‑lo aos nacos seria imediatamente declarado minus habens, atirado para o caixote do lixo da história como se fora um avatar de Pierre Charron, autor de um Tratado da Sabedoria, construído com máximas copiadas dos Ensaios. Desafiar essa interdição, ou encontrar maneira de a contornar, era uma provocação tentadora.
Em seguida, seleccionar cerca de quarenta passagens de algumas linhas para as glosar em poucos minutos, ilustrando nelas, ao mesmo tempo, tanto a espessura histórica como o alcance actual, o desafio parecia‑me insustentável. Deveria escolher as páginas ao acaso, como Santo Agostinho folheando a Bíblia? Pedir a uma mão inocente que as escolhesse a dedo? Ou cruzar a galope os grandes temas da obra? Dar uma ideia aproximada da sua riqueza e da sua diversidade? Ou contentar‑me apenas em destacar alguns dos meus fragmentos preferidos, sem preocupação de unidade nem de ser exaustivo? Fiz um pouco de tudo, sem ordem nem método.
Por fim, ocupar a antena à hora de Lucien Jeunesse**, a quem devo a melhor parte da minha cultura da adolescência, era uma oferta irrecusável.
Antoine Compagnon
* O texto é o da edição de 1595 na versão do «Livre de poche», col. «La Pochothèque» (Librairie générale française, 2001), sob a direcção de Jean Céard. (N. do A.)
** Animador de rádio, cantor, actor (1918‑2008). Durante trinta anos, até
Um Verão com Montaigne - prefácio de João Lobo Antunes
Transcrevemos o prefácio deste livrinho acabado de sair, por amabilidade da editora:
Há muitos anos que Montaigne me acompanha e o seu Ensaios é o livro que levaria para a mítica ilha deserta. Logo no início adverte que irá falar de si e que isso poderia ser maçador para o leitor. Avisou que escrevia com simplicidade, porque falava para o papel como falava à primeira pessoa que encontrasse na rua.
A verdade, porém, é que falando de si falava também de cada um de nós, porque «cada homem contém a forma inteira da condição humana». Trata ainda das coisas simples do quotidiano, dos hábitos, dos vícios, do amor e da guerra, da medicina (que despreza) e das pessoas, da amizade e da morte. Em tudo reconhece a variedade da nossa natureza, que define como «ondulante e diversa». De tudo procura extrair uma lição e diz que da experiência que tem de si próprio colheria o suficiente para o fazer sábio se fosse um bom aluno. Ao mesmo tempo, é impossível captar a dimensão plena da sua obra, mesmo com leituras repetidas, porque os Ensaios são um milagre de mutabilidade.
Montaigne escreveu que qualquer tentativa de resumir um livro é tola, e isso decerto se aplica à sua obra. Mas, ao longo dos séculos, muitos estudiosos têm extraído, deste tesouro inesgotável, pérolas de ternura, humor, afecto, impaciência, desdém ou fúria, e dessa forma partilham com o leitor a sua «apropriação» da obra.
O livro de Antoine Compagnon cumpre, com uma erudição simples, esse propósito. Montaigne escreve: «Viver é o meu ofício e a minha arte.» Ambos pulsam livremente neste volume, que para quem não conhece a obra é uma deliciosa introdução a um clássico da cultura ocidental, nunca ultrapassado e sempre contemporâneo.
João Lobo Antunes
Astronomia à beira do Mondego
Sessão de observação astronómica em Coimbra no âmbito do Ciência Viva no Verão organizado pelo Rómulo- Centro Ciência Viva da Universidade de Coimbra. Um dia nos Estados Unidos pediram-me um dólar para espreitar, na rua, as luas de Júpiter. Eu dei-o e vi-as. Em Coimbra no final de uma tarde e início de uma noite de Verão eu e muita gente vimo-las à borla. Assim como vimos a Lua (na foto final, apanhada no telemóvel).
O Prof. Quintanilha falou no Rómulo em Coimbra sobre melhoramento humano
Poucos deputados em qualquer parlamento Mundo falam como Alexandre Quintanilha sobre as oportunidades e riscos da moderna biologia. O Rómulo encheu-se há dias para o ouvir e as perguntas não acabavam...
O Prof. Lima de Faria falou em Cantanhede sobre genética
Lima de Faria é um cientista português emigrado há muitos anos na Suécia (é cidadão sueco desde 1954). Veio há dias á sua terra natal falar, na Biblioteca Municipal de Genética, Um agrupamento de escolas em Cantanhede tem o seu nome. Apesar da sua idade (nasceu em 1921) deu uma interessantíssima palestra sobre a história da genética, incluindo as suas contribuições, nem sempre ortodoxas (veja-se o título de um seu livro "Evolução sem Selecção"), e o muito que ainda está por descobrir.
Em Manchester, terra de Rutherford e Turing
Estive recentemente em Manchester por ocasião do LUSo2016, a reunião do PARSUK, a associação dos cientistas portugueses no Reino Unido. Na Universidade de Manchester, as fotos junto ao edifício de Rutherford - foi em Manchester, em 1913, que Rutherford descobriu o núcleo atómico - e ao edifício de Turing - foi ainda em Manchester onde ele ajudou a desenvolver a moderna computação.
Ciência Viva a bordo do "Basófias" no Mondego
O astrónomo deu há dias uma palestra a bordo do "Basófias" sobre instrumentos de navegação astronómica, com uma parte prática: um dos exercícios consistia em descobrir do meio do rio a latitude de Coimbra apontando apenas para a estrela polar. Encheu e no dia 29 volta a haver.
FALTA DE ACORDO COM SNESUP SOBRE CONTRATOS
Do sítio de notícias do Sapo:
O Sindicato Nacional do Ensino Superior (SNESup) não chegou a acordo com o Governo sobre os diplomas do emprego científico e do período transitório para conclusão de doutoramentos, por não se ter encontrado "uma solução de dignificação".
Em comunicado enviado hoje, o SNESup, que esteve reunido com o ministro da Ciência Tecnologia e Ensino Superior, para discutir os diplomas do emprego científico e do regime transitório para os docentes do ensino politécnico, considerou que "considera que não se conseguiu uma solução de dignificação para a ciência e ensino superior".
"O ministério sustentou a proposta, que tinha apresentado, o que significa uma degradação do emprego científico, de forma intencional, ou não, e de um programa de flexibilização do emprego científico, que foi envolvido em algo que se saberia que recolhia consenso (a conversão do subemprego das bolsas para contratos de trabalho). A flexibilização é um mecanismo que surgiu como vontade de agradar a alguns, aumentando a volatilidade do emprego científico e subjugando a autonomia dos demais. A distância negocial tornou-se inultrapassável", declara-se no comunicado.
O SNESup diz que os contratos propostos pelo Governo "possuem bases com condições muito piores do que no programa Investigador FCT (Fundação para a Ciência e Tecnologia)", e abrangem "apenas 14% dos bolseiros doutorados".
O sindicato apresentou propostas para que todos os bolseiros de pós-doutoramento sejam integrados na carreira científica.
"Trata-se de uma proposta que vai ao encontro de posições anunciadas por múltiplos agentes de organizações científicas e académicas, que tinham, também, já rejeitado as propostas do ministério", acrescenta o comunicado.
Sobre o regime transitório para os professores do ensino politécnico concluírem os seus doutoramentos, o sindicato rejeitou a proposta da tutela e apresentou uma "que procura materializar a correção de vários problemas".
O ministro do Ensino Superior, Manuel Heitor, tinha adiantado no parlamento, na passada semana, que iria propor nas reuniões com os sindicatos o prolongamento do período transitório por mais um ano.
O regime transitório foi criado com o objetivo de dar aos professores do ensino superior condições especiais para a conclusão dos doutoramentos e a obtenção do título de especialista, exigido desde o início do ano letivo de 2015-2016, como condição para lecionar neste nível de ensino.
Entre as condições previstas no programa estavam a isenção do pagamento de propinas e dispensa da obrigatoriedade de dar aulas, mas sindicatos e professores acusaram as instituições de não terem cumprido a lei e de terem negado aos docentes abrangidos pelo programa do regime transitório a possibilidade de concluírem e defenderem os doutoramentos.
IMA // MAG
Lusa/fim
Prefácio de "Sobre a Desigualdade" de Harry Frankfurt (Gradiva)
Nos últimos tempos, a questão em torno do crescimento da desigualdade económica na nossa sociedade tem sido bastante debatida — em parte, devido ao estímulo causado pela publicação da investigação do economista francês Thomas Piketty [1]. O fosso que separa os recursos económicos dos que detêm mais dinheiro daqueles que possuem menos tem vindo a aumentar com rapidez. Este crescimento tem sido visto por muitas pessoas como deplorável.
Na verdade, não resta qualquer dúvida de que os mais ricos gozam de vantagens competitivas significativas, muitas vezes censuráveis, relativamente àqueles com menor riqueza. Como é óbvio, isso é mais flagrante na esfera do consumo. Mais importante ainda é a forma como se evidencia no que diz respeito à influência social e política. Os mais ricos encontram‑se na posição de usufruírem de um maior peso na definição dos nossos códigos sociais e de conduta do que os mais pobres, assim como na determinação da qualidade e trajectória da vida política.
No entanto, apesar de a desigualdade económica ser indesejada, tal não se deve ao facto de ser moralmente questionável. Nesta acepção, não é moralmente questionável. É deveras indesejável no sentido em que é acompanhada de uma tendência quase irresistível de gerar desigualdades inaceitáveis de outros tipos. Estas, que por vezes chegam ao ponto de pôr em causa a integridade do nosso compromisso para com a democracia, devem ser, naturalmente, controladas e evitadas à luz de leis, regulamentos e normas judiciais apropriados, assim como através de vigilância activa.
Creio ser muito importante esclarecer estas questões. Reconhecer a inocência moral inerente à desigualdade económica conduz à ideia de que é errado apoiar o igualitarismo económico enquanto ideal moral autêntico. Além disso, ajuda a reconhecer a razão pela qual deverá ser perigoso ver a igualdade económica, em si mesma, como um objectivo moral importante.
A primeira parte deste livro é dedicada à análise do igualitarismo económico. Conclui que, de um ponto de vista moral, a igualdade económica não é assim tão relevante e os nossos ideais morais e políticos devem estar mais focados em assegurar que as pessoas têm o suficiente. Na segunda parte, irei explorar uma via segundo a qual a igualdade económica poderá ter, de facto, alguma importância moral.
Harry Frankfurt
1 Ver Thomas Piketty, Capital in the Twenty‑First Century (Cambridge, MA: Harvard University Press, 2014) [O Capital no Séc. XXI, Temas e Debates, 2014.]
Aeroporto Cristiano Ronaldo?
Rui Pinto num comentário ao meu post anterior colocou o problema. Não faz qualquer sentido chamar Aeroporto Cristiano Ronaldo ao aeroporto da Madeira. Fazê-lo não passa de um acto de populismo. Por que não aeroporto Gago Coutinho?
quinta-feira, 21 de julho de 2016
PORQUE JAMAIS SABEREMOS
O número de Julho da revista francesa "Science et Vie" tem um trabalho de fundo sobre os limites da ciência. Há coisas que nunca saberemos, apesar dos nossos esforços, porque há limites observacionais, cognitivos, conceptuais ou lógicos. A revista elenca 10 grandes limites da ciência, pelo menos no estado actual dos nossos conhecimentos.
1- Nunca saberemos o que o outro sente.
Será que o/a outro/a nos ama? Nunca poderemos saber o que realmente vai na cabeça das pessoas. Alguns instrumentos podem revelar imagens cerebrais, mas não poderemos ter acesso às sensações subjectivas de outra pessoa.
2- Nunca saberemos se 1+1=2
De uma maneira simplificada, o teorema de Goedel diz-nos que não podemos estar seguros que as demonstrações matemáticas não levem a contradições. Este é um limite da lógica. E é devido a ele que a revista recorre ao pitoresco subtítulo...
3- Não saberemos nunca onde estarão os planetas daqui a 60 milhões de anos.
As leis da mecânica celeste são conhecidas. Mas a não-linearidade das forças aliada à falta de precisão das condições iniciais impedem-nos previsões seguras a longo prazo. Por outras palavras: o nosso sistema solar é caótico. Aplica-se também a ele uma metáfora da meteorologia: o abanar de uma borboleta no Brasil pode causar um tufão na China.
4- Não conheceremos nunca o antepassado universal.
De acordo com a teoria de Darwin, a vida é uma árvore. Pelo que poderíamos, em princípio, tentar conhecer o LUCA, Last universal common ancestor, o vértice da árvore, que viveu há cerca de 3,5 mil milhões de anos. Mas modernamente pensamos que o nosso antepassado último pode não ser um só indivíduo, mas uma comunidade de seres minúsculos. Assim não haveria um só vértice...
5- Não compreenderemos nunca o que passa o nosso entendimento
Mesmo os melhores sistemas de inteligência artificial só são capazes... daquilo que são capazes. O mesmo se passa com o nosso cérebro, limitado pela sua história evolutiva e pela sua estrutura. A questão que se coloca é se as máquinas não poderão um dia ultrapassar a nossa limitada capacidade cognitiva.
6- Não saberemos nunca em que universo vivemos
Vivemos num universo é certo, Mas uma parte dele é-nos fisicamente inacessível, só vemos o interior de uma "bolha", pelo que só podemos imaginar como será o resto. E poderá haver universos paralelos...
7- Não saberemos nunca o que é um electrão
É extraordinariamente pequeno e tem simetria esférica. os físicos imaginam que é pontual, mas pode não ser. Ao fim e ao cabo uma partícula física não tem de ser um ponto matemático. E alguns filósofos da ciência avisam que não podemos aceder á realidade em si, mas apenas a modelos dela.
8- Não conheceremos nunca o genoma do Tyranosaurus Rex.
Já sequenciámos o homem de Neanderthal e avançou-se na sequenciação do mamute. E os dinossauros? O ADN degrada-se e, mesmo a a -5 graus Celsius, desfaz-se em seis milhões de anos. Ora os dinossauros desapareceram há 66 milhões de anos. Não há hipóteses...
9- Nunca saberemos porquê
A ciência trata do como, mas tem dificuldades com os porquês, em especial os porquês últimos. Haverá sempre uma infinidade de porquês, mesmo que alguns primeiros porquês sejam respondidos porque a explicação de algumas entidades remete para outras.
10- Nunca saberemos se vivemos no interior ou no exterior da Terra
Parece estúpida a frase. Pois não é evidente que vivemos no exterior da Terra? Mas podemos imaginar uma inversão geométrica: tudo o que se encontra na superfície da Terra muda de orientação: em vez de apontar para fora, aponta para dentro? A pergunta é imediata: mas como é que todo um Universo pode caber dentro de uma bola com 6400 km de raio? Bem, a geometria explica que nesse neste caso os astros teriam de ser muito mais pequenos, tendo o Sol, um raio de 1,3 m e sendo as estrelas longínquas microscópicas. Esta visão obrigaria a mudar as leis da física. O melhor argumento que exclui esta visão invertida é o da "navalha de Occam": a física seria horrivelmente mais complicada.
H+a aqui muito material parav reflexão. Mas, se me é permitido, discordo da "Science et Vie" no último item: sabemos que vivenmos no exterior da Terra. A revista precisava de uma lista de dez...
H+a aqui muito material parav reflexão. Mas, se me é permitido, discordo da "Science et Vie" no último item: sabemos que vivenmos no exterior da Terra. A revista precisava de uma lista de dez...
CAMINHOS DA MINEALOGIA (2)
Segundo texto de uma série da autoria do Professor Galopim de Carvalho
(Acesso ao primeiro aqui).
Os minerais na Antiguidade
É com Teofrasto (372 – 287) que surge o primeiro tratado de mineralogia – As Pedras. A este discípulo de Aristóteles se deve a primeira classificação mineralógica, tendo por base as respectivas utilidades como minérios, pedras preciosas e pigmentos, tendo descrito vários tipos de minerais, sobretudo gemas, e algumas rochas.
Houve, no entanto, um longo caminho percorrido, no domínio do conhecimento das substâncias, das suas natureza e constituição, cujos primórdios se perdem nas civilizações mais antigas.
Os quatro elementos primordiais ou princípios – ar, água, terra e fogo – impropriamente atribuídos a Aristóteles (384 - 322 a.C.), considerados na Grécia antiga com constituintes universais da matéria, são o culminar de uma concepção muito anterior, que se desenvolveu gradualmente até ser formulada em termos mais abrangentes por Empédocles, cerca de 450 a.C., como teoria dos quatro elementos ou das substâncias.
Sabemos hoje que o texto referido no lapidário de Aristóteles tem origem na Pérsia, em meados do século IX a.C., de autoria desconhecida. Nesta concepção do mundo coube a este que foi o fundador e mestre do Liceu de Atenas, o mérito de a divulgar e de lhe dar crédito tal que a fez singrar e resistir incólume por mais de dois mil anos.
Esta visão, dita aristotélica, teve a aceitação da Igreja Romana, que a adoptou e impôs, a ferro e fogo, no essencial do seu conteúdo, opondo-a tenazmente à teoria atómica, da escola de Mileto (séc. V a.C.).
Deve dizer-se que esta outra visão da matéria já tivera por parte dos hindus uma astuciosa antecipação, tendo sido os árabes que a fizeram renascer através das tradições dos autores gregos e latinos, reintroduzindo-a no saber renascentista europeu.
No que se refere aos latinos, Plínio, o Velho (23 - 79 d.C.), uma das vítimas da histórica erupção do Vesúvio, tem lugar de destaque através da sua História Natural, em 37 volumes. Nesta obra monumental o autor retoma Teofrasto e volta a falar de minérios, pigmentos, gemas e também de algumas rochas como o mármore e o basalto.
No historial da caminhada da mineralogia, há que dar o devido destaque à alquimia. Chegada através do Egipto, primeiro à Grécia, teve em Roma a protecção de Calígula (12 - 41 d.C.). Nesta escola árabe floresceu a Polypharmacia, actividade alquímica onde se queimava, sublimava, dissolvia e precipitava e que, de mistura com outros procedimentos fantasiosos (à luz do conhecimento actual) deram nascimento, não só à química como à mineralogia.
(Acesso ao primeiro aqui).
Os minerais na Antiguidade
É com Teofrasto (372 – 287) que surge o primeiro tratado de mineralogia – As Pedras. A este discípulo de Aristóteles se deve a primeira classificação mineralógica, tendo por base as respectivas utilidades como minérios, pedras preciosas e pigmentos, tendo descrito vários tipos de minerais, sobretudo gemas, e algumas rochas.
Houve, no entanto, um longo caminho percorrido, no domínio do conhecimento das substâncias, das suas natureza e constituição, cujos primórdios se perdem nas civilizações mais antigas.
Os quatro elementos primordiais ou princípios – ar, água, terra e fogo – impropriamente atribuídos a Aristóteles (384 - 322 a.C.), considerados na Grécia antiga com constituintes universais da matéria, são o culminar de uma concepção muito anterior, que se desenvolveu gradualmente até ser formulada em termos mais abrangentes por Empédocles, cerca de 450 a.C., como teoria dos quatro elementos ou das substâncias.
Sabemos hoje que o texto referido no lapidário de Aristóteles tem origem na Pérsia, em meados do século IX a.C., de autoria desconhecida. Nesta concepção do mundo coube a este que foi o fundador e mestre do Liceu de Atenas, o mérito de a divulgar e de lhe dar crédito tal que a fez singrar e resistir incólume por mais de dois mil anos.
Esta visão, dita aristotélica, teve a aceitação da Igreja Romana, que a adoptou e impôs, a ferro e fogo, no essencial do seu conteúdo, opondo-a tenazmente à teoria atómica, da escola de Mileto (séc. V a.C.).
Deve dizer-se que esta outra visão da matéria já tivera por parte dos hindus uma astuciosa antecipação, tendo sido os árabes que a fizeram renascer através das tradições dos autores gregos e latinos, reintroduzindo-a no saber renascentista europeu.
No que se refere aos latinos, Plínio, o Velho (23 - 79 d.C.), uma das vítimas da histórica erupção do Vesúvio, tem lugar de destaque através da sua História Natural, em 37 volumes. Nesta obra monumental o autor retoma Teofrasto e volta a falar de minérios, pigmentos, gemas e também de algumas rochas como o mármore e o basalto.
No historial da caminhada da mineralogia, há que dar o devido destaque à alquimia. Chegada através do Egipto, primeiro à Grécia, teve em Roma a protecção de Calígula (12 - 41 d.C.). Nesta escola árabe floresceu a Polypharmacia, actividade alquímica onde se queimava, sublimava, dissolvia e precipitava e que, de mistura com outros procedimentos fantasiosos (à luz do conhecimento actual) deram nascimento, não só à química como à mineralogia.
A. Galopim de Carvalho
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