sexta-feira, 4 de dezembro de 2009

A MAIOR EXPERIÊNCIA DO MUNDO


Minha crónica publicada no "Sol" de hoje (imagem do CERN):

A mensagem, vinda dos arredores de Genebra, na Suíça, chegou através do Twitter a todo o lado: “A new record. Both beams in LHC reach 1.18 TeV at 00:42 on 30 November.” Acabava de ser batido um recorde do mundo da Física, com a ultrapassagem do limite da energia de um teraelectrão-volt (1 TeV) por partícula para cada feixe de protões que circulam, em sentidos contrários, no Large Hadron Collider (LHC), em português Grande Colisionador de Hadrões, na European Organization for Nuclear Research (CERN). O recorde anterior pertencia ao Fermilab, perto de Chicago, nos Estados Unidos, e a nova marca significava um primeiro êxito para a maior experiência do mundo, depois do contratempo que foi a reparação de uma avaria ao longo de um ano.

O que significa a energia de 1 TeV? O prefixo tera vem do grego e significa monstro. Um tera é, de facto, um número monstruoso: um milhão de milhões, um número que se exprime pelo algarismo um seguido de doze zeros: 1 000 000 000 000. O electrão-volt (1 eV), uma unidade muito usada na Física, é a energia adquirida por um electrão quando submetido à tensão eléctrica de um volt. Trata-se de uma energia típica da Física Atómica, ao passo que o milhão de electrões-volt (um megaelectrão-volt ou 1 MeV) é uma energia típica da Física Nuclear. A energia que acaba de ser obtida na maior experiência do mundo, realizada com a maior máquina do mundo, só dificilmente pode ser imaginada: é cerca de um milhão de vezes maior do que a energia necessária para arrancar um protão de um núcleo atómico.

Mas a experiência realizada no sítio onde foram filmadas cenas de “Anjos e Demónios” ainda só vai no início. Planeia-se atingir em cada feixe – na experiência, há dois feixes de protões que chocam frontalmente, tendo já sido registadas as primeiras colisões – a fantástica energia de 7 TeV. O Natal e Ano Novo vão, no CERN, ser passados a trabalhar para que 2010 seja um grande ano para a ciência. No próximo ano saberemos mais sobre o Universo, tanto sobre a sua constituição como sobre a sua origem.

quinta-feira, 3 de dezembro de 2009

ENTREVISTA DE HANSEN SOBRE O AQUECIMENTO GLOBAL


Execrtos de entrevista publicada no "The Guardian" ontem, o climatologista James Hansen (na foto), director do Nasa Goddard Institute for Space Studies em New York, USA:

"The scientist who convinced the world to take notice of the looming danger of global warming says it would be better for the planet and for future generations if next week's Copenhagen climate change summit ended in collapse."

(...) "In Hansen's view, dealing with climate change allows no room for the compromises that rule the world of elected politics. "This is analagous to the issue of slavery faced by Abraham Lincoln or the issue of Nazism faced by Winston Churchill," he said. "On those kind of issues you cannot compromise. You can't say let's reduce slavery, let's find a compromise and reduce it 50% or reduce it 40%.

He added: "We don't have a leader who is able to grasp it and say what is really needed. Instead we are trying to continue business as usual."

(...) "Hansen has emerged as a leading campaigner against the coal industry, which produces more greenhouse gas emissions than any other fuel source.

He has become a fixture at campus demonstrations and last summer was arrested at a protest against mountaintop mining in West Virginia, where he called the Obama government's policies "half-assed".

He has irked some environmentalists by espousing a direct carbon tax on fuel use. Some see that as a distraction from rallying support in Congress for cap-and-trade legislation that is on the table.

He is scathing of that approach. "This is analagous to the indulgences that the Catholic church sold in the middle ages. The bishops collected lots of money and the sinners got redemption. Both parties liked that arrangement despite its absurdity. That is exactly what's happening," he said. "We've got the developed countries who want to continue more or less business as usual and then these developing countries who want money and that is what they can get through offsets [sold through the carbon markets]."

O ESTATUTO DA CARREIRA DOCENTE, A MINISTRA E OS SINDICATOS


“A primeira igualdade é a justiça” (John Kenneth Galbraith, 1908-2006)

Pelo que que tem sido largamente noticiado pela comunicação social, a actual ministra da Educação, Isabel Alçada (na foto), e os sindicatos dos professores encontram-se em negociações para a revisão do Estatuto da Carreira Docente, embora correndo o perigo dessas negociações se eternizarem. Ou mesmo se gorarem pelas ameaças constantes da Fenprof em abandonar a mesa das negociações, atrasando, com isso, as reformas necessárias num sector vital para o país, como sejam os desenvolvimentos social, cultural e económico da sua gente, que não pode estar ao sabor de um sindicalismo saudoso de épocas tumultuosas do passado.

Numa espécie de “casa roubada trancas à porta”, acaba de ser publicado um estudo sobre A Dimensão Económica da Literacia em Portugal, que nos diz que “o futuro económico de Portugal está em risco e um dos caminhos para encontrar uma solução que permita ao país ser mais competitivo passa pelo investimento na literacia” (Público, 3/12/2009).

Dadas as características habituais da luta laboral dos sindicatos docentes temo que o que se discute continue a ser uma questão de euros e de igualar desiguais numa hora em que o ministro da Economia, habitualmente respirando optimismo por todos os poros, nos adverte de que “o país vive um momento difícil que exige responsabilidades” (Jornal de Notícias, 2/12/2009).

Talvez por pessimismo, não tenho detectado nem grande nem pequena vontade em melhorar os caminhos tortuosos da educação. O sucessivos ministérios da Educação têm-se limitado em encarar os problemas pela rama, e em função das idiossincrasias dos seus titulares. Por outro lado, os sindicatos têm-se posicionado ao serviço de interesses da respectiva clientela que se compaginam em tornar o magistério numa massa igualitária em que os medíocres se acolhem à sombra daqueles que ainda ousam lutar por uma educação melhor e mais justa porque, para isso, queimaram as pestanas em noites insones de estudo.

Como escreveu António José Saraiva, uma referência incontornável da cultura portuguesa, “nestas condições a caça ao diploma tornou-se em Portugal generalizada e premente, consistindo em obter o acesso a um estatuto social privilegiado com o menor esforço possível”. Mas trata-se de um vício consentido pela tradição nacional, e perpetuado em nossos dias, que encontra raízes queirosianas no século XIX: “É assim que há muito tempo em Portugal são regidos os destinos políticos. Política de acaso, política de compadrio, política do expediente” (O Distrito de Évora, 1867).

Radica-se, portanto, em mim a dúvida se tudo não ficará na mesma, ou quase na mesma, por os mandantes dos legisladores se limitarem a dar-lhes orientações no sentido de limarem as rugosidades de textos ásperos que possam causar atritos laborais, procurando continuar um destino sem espinhos de professores e alunos, como se estivessem a fazer uma obra de que o país se deva orgulhar no futuro (com a sinceridade que a política não consente).

Não acredito, portanto, que se aproveite uma ocasião soberana como esta para se acabar com a guerra entre meio-irmãos, filhos do mesmo pai - o ensino superior - e de mães diferentes - a universidade e a escola politécnica -, destinados à docência dos diversos níveis do ensino não superior, criando, assim, um ambiente desconfortável quer para uns quer para outros , embora com o beneplácito de sindicatos com clientelas que beneficiam deste “statu quo igualitário.

Seria fácil resolver este problema atribuindo às escolas superiores de educação a formação de educadores de infância e professores dos 1.º e 2.º ciclos do ensino básico e concedendo aos alunos saídos das faculdades os ensinos do 3.º ciclo do básico e do secundário Mas bem sei que uma mudança neste sentido daria azo ao choradinho do elitismo como se a defesa das elites não fosse coisa boa e justa pela chamada que faz ao escol intelectual da sociedade capaz de impulsionar o desenvolvimento de um país mergulhado na “apagada e vil tristeza” de ser, em muitos aspectos, uma das lanternas vermelhas da União Europeia.

Ora é aqui que começam os trabalhos para a ministra da Educação ao dizer "estar empenhada na criação de um sistema de avaliação de professores que recompense o esforço e a qualidade” (Diário Económico, 26/11/2009). Espero bem que, uma vez mais, se não cumpra o aforisma de que “de boas intenções está o inferno cheio”. Aliás, tenho dificuldade em compreender como é que os “teóricos” da educação se eternizam nos lugares de cúpula sindical, sem viverem na carne os problemas dos professores (que se sentem ultrapassados por medíocres acarinhados pelo poder político e pelo próprio ambiente escolar ou porque pertencem ao mesmo partido ou por outras causas que tanto têm desprestigiado o ensino público, quando comparado com um ensino privado que não contemporiza com a mediocridade).

A propósito, ou mesmo a despropósito, concedo: como foram avaliados os dinossauros do dirigismo sindical que chegaram ao topo da carreira docente afastados das escolas e da função docente? Entretanto, professores bem mais credenciados academicamente e de grande experiência pedagógica marcaram e marcam passo num acesso congelado a escalões mais altos da carreira docente a que têm direito de facto e de jure. Quanto mais tempo estará este país preso ao atavismo de ver uma meritocracia substituída pela mediocracia em que “o pensamento representa um capital inútil e um fardo embaraçoso para jornadear pelo caminho da vida” (Manuel Laranjeira, O Norte, 1908)?

Para tanto seria necessário retirar a razão que assiste a Albert Hirschman: “Sempre que se propõe uma reforma, é verdade que, primeiro, a reforma não vai alterar em nada o que já existe, segundo que a reforma vai produzir efeitos exactamente contrários aos que pretende ter, e, terceiro, que a reforma vai prejudicar o que havia de positivo na reforma anterior”. Acontece, porém, que o caso é bem mas grave. O Estatuto da Carreira Docente, com as alterações que lhe têm sido feitas, criou um Frankenstein de “cadáveres adiados” (Fernando Pessoa) que, paradoxalmente, lhe serviram de sopro de vida licenciosa que se deseja perpetuada, embora se jure a pés juntos o contrário.

E o pior disto tudo é que os seus nefastos efeitos só se virão a projectar no futuro, deixando atrás de si uma geração de cobaias de pedagogias em que se fazem experiências, como, se, por vezes, estas não fossem "o nome que damos aos erros que cometemos", como escreveu Oscar Wilde. Com os computadores Magalhães a inundarem as nossas escolas, colocados nas mãos ávidas de alunos de tenra idade, corre-se o risco de os seus cérebros em formação se automatizarem, como acontece na própria adultícia na opinião de Erich Fromm: “O perigo do passado era que os homens se tornassem escravos; o perigo do futuro é que os homens se tornem autómatos”.

Receio mesmo que estejamos a entrar na época do “tecnolês”, em analogia com o “eduquês”. O futuro o dirá, mas poderemos ter, nos dias vindouros, consciência tranquila pelos erros que andamos hoje a cometer?

Nota: Inseri neste texto excertos de um comentário meu em resposta a um outro de Manuel Nunes de Castro, sobre o post “Nuno Crato, a Escola e as Novas Tecnologias” (1/12/2009).

Porque é que os cientistas estrangeiros ficam em Portugal?

Excerto de um artigo do i:

Fazer ciência em Portugal. Moscas, surf e boa comida
Gostam de praia e estranham tantos coffee breaks.



"Sabemos que há países que estão à frente de Portugal em termos científicos. Mas eu quis um equilíbrio entre trabalhar bem e viver bem. Aqui a comida é muito boa, as mulheres são muito giras."

(...)

"É com a mesma graça que o japonês Masayoshi Murakami, 32 anos, sabe dizer "Bairro Alto", lugar de eleição em Lisboa. Veio há um ano e meio para Portugal quando o líder do laboratório onde estava, em Nova Iorque, aceitou trabalho no programa de neurociências da Fundação Champalimaud, instalado no IGC. Estuda os mecanismos básicos por detrás das decisões impulsivas. Rendeu--se às praias e ao facto de não ter de pagar 5 euros por uma cerveja, como fazia em Tóquio."

Texto completo aqui.

O MENSAGEIRO DAS ESTRELAS


Por incrível que seja, nesta data em que se comemoram os 400 das primeiras observações astronómicas de Galileu realizadas com o telescópio, não há edição portuguesa disponível de "O Mensageiro das Estrelas" ("Sidereus Nuncius"), o livrinho que o sábio italiano publicou, em latim, em 1610 para anunciar as suas descobertas.

Sei que o nosso grande historiador de ciência Henrique Leitão prepara uma edição a sair no próximo ano, mas até lá foi uma boa surpresas encontrar na última edição da edição brasileira da "Scientific American" distribuída em Portugal, uma reedição da tradução em português publicada em 1987 pelo Museu de Astronomia e Ciências Afins do Brasil, com tradução, introdução e notas de Carlos Ziller Camenietzki. Só foi mudado o título da edição de 1987, que era "A Mensagem das Estrelas" para "O Mensageiro das Estrelas".

Deixo aqui o título completo do encantador livrinho, onde se descrevem os movimentos das luas mais próximas de Júpiter:

"O MENSAGEIRO DAS ESTRELAS, desvendando grandes e muito admiráveis espetáculos, e convidando à sua contemplação a todos, especialmente aos filósofos e astrônomos, tais como foram observados por GALILEU GALILEI, Nobre Florentino, professor de Matemática na Universidade de Pádua, como auxílio de um ÓCULO ASTRONÓMICO, há pouco inventado por ele, na superfície da Lua, em inumeráveis Estrelas Fixas, na Via Láctea, em nebulosas e sobretudo em QUATRO PLANETAS, que giram com admirável rapidez em torno de JÚPITER em diferentes distâncias e períodos, os quais ninguém conhecia antes do Autor havê-las descoberto recentemente, e que decidiu denominar ASTROS MEDÍCIOS".

A Cozinha é um Laboratório


Informação recebida da editora Fonte da palavra sobre um livro que acaba de sair:

Título: A Cozinha é um Laboratório
Autor: Margarida Guerreiro e Paulina Mata
Prefácio: Maria de Lurdes Modesto
Preço: 14,00 €

Com este livro gostaríamos de mostrar às pessoas que cozinham que a maior parte das directivas culinárias que têm recebido ao longo da vida têm uma razão – mas que também as há que não têm razão alguma. É importante questioná-las, tentar compreendê-las... As alterações que os alimentos sofrem durante os processos culinários têm justificações de base científica que a maior parte das pessoas desconhece. Daí que cada passo duma receita possa ser compreendido à luz de conhecimento científico. A cozinha é mesmo um laboratório! Compreender o que se passa quando preparamos um belo bife grelhado, com ovo a cavalo e acompanhado de batatas fritas pode não trazer grandes melhorias no resultado final, mas dá, por certo, algum prazer intelectual e faz-nos entender que as tais instruções são o resultado de um trabalho baseado no método da tentativa e erro levado cabo ao longo de anos e anos. Certamente já lhe disseram que a curiosidade matou o gato. Não vá nessa... Não tenha medo! Vamos decifrar conjuntamente alguns dos enigmas culinários que nos têm perseguido.

"Ciência da Treta" é hoje em Coimbra


Informação recebida do Centro Ciência Viva Rómulo de Carvalho, em Coimbra:

Café, Livros e Ciência

«Ciência da Treta« de Ben Goldacre (Bizâncio, 2009)
5ª feira, 3 Dezembro ‘09 l 18h00 - 19h00
Centro Ciência Viva Rómulo de Carvalho, Edifício do Departamento de Física, Rua Larga, Coimbra

Numa parceria entre o Centro Ciência Viva Rómulo de Carvalho, o Museu da Ciência e a Fábrica Centro Ciência Viva de Aveiro surgiu Café, Livros e Ciência, projecto de comunicação de ciência com o objectivo principal de promover a leitura de livros de ciência junto do público em geral. Este evento acontece num ambiente informal, onde o café acompanha os livros.

Carlos Fiolhais e Jorge Buescu apresentam-nos «Ciência da Treta» de Ben Goldacre, livro galardoado pela Real Sociedade Inglesa como finalista do prémio para o melhor livro de ciência de 2008. "Ciência da Treta" apresenta-nos algumas ferramentas para desmontar falsas informações, abusivamente transmitidas sobre produtos ou terapêuticas milagrosas.

quarta-feira, 2 de dezembro de 2009

Alterações climáticas e a teoria da conspiração


Não percebo muito (e se calhar assumido desta maneira já é um eufemismo) de questões climáticas. Sou licenciado em química e depois disso dediquei-me essencialmente a estudar proteínas. Poderia falar com uma certa segurança sobre as chuvas ácidas, do ciclo do carbono (que é removido da atmosfera pelas plantas com a ajuda de um fotão, vai habitar açúcares que nos dão energia ou hidrocarbonetos do petróleo que movem os nossos carros, e volta novamente à atmosfera por via do metabolismo celular ou da queima). Não está ao meu alcance opinar sobre modelos computacionais, métodos e tratamentos de dados das questões climáticas. A única coisa que tenho para formar uma opinião sobre as alterações climáticas é um espírito crítico, para reconhecer argumentos de autoridade que me pareçam válidos. Com base nisso penso que o aquecimento global causado pelo homem é uma realidade. Vou tentar explicar porquê.

1. Existe consenso na comunidade científica sobre esta questão. Segundo um estudo publicado pela historiadora de ciência Naomi Oreskes na Science em 2004, dos mais de 900 artigos publicados entre 1993 e 2003 sobre alterações climáticas nenhum refutava a ideia de que a Terra está a aquecer por causa da actividade humana. Não conheço nenhuma contestação com a mesma validade (publicada numa revista científica com arbitragem pelos pares) a este estudo e este consenso foi revalidado no relatório do IPCC de 2007. A haver contestação ao aquecimento global por causas humanas, ele não é publicado em revistas científicas.

2. A serem falsas as conclusões de que o planeta está a aquecer por causa das emissões de dióxido de carbono com origem na actividade humana teria que haver uma conspiração com dimensões mirabolantes. Envolveria uma miríade de institutos de investigação e organizações meteorológicas, editores de revistas científicas, assim como um grande número de investigadores (nomeadamente alguns portugueses, como Filipe Duarte Santos). Uma tal convergência, mesmo contando com um efeito rebanho que faria dos cientistas que estudam o clima uma multidão de adolescentes a seguir uma banda da heavy metal, parece-me improvável. Faz lembrar um pouco a música do Rui Veloso Não há estrelas no céu: "parece que o mundo inteiro se uniu para me tramar".

3. Essa conspiração extraordinária envolveria cientistas que nunca se conheceram, de várias gerações, como Arrhenius (que em 1894 começou a estudar a relação entre a quantidade de CO2 na atmosfera e a temperatura do ar) e Charles Keeling (que a partir de 1958 iniciou as medições da concentração de CO2 atmosférico de forma rigorosa), por exemplo. O conhecimento que temos do efeito do dióxido de carbono na atmosfera tem vindo a ser amadurecido e depurado.

4. Várias hipóteses foram levantadas para explicar a evolução do clima no último século. Desde a influência dos raios cósmicos, ciclo solar, variações da elipse da órbita da Terra. Todas essas coisas são estudadas e o seu contributo avaliado. Por exemplo, decorre no CERN um importante projecto chamado CLOUD que procura estudar a influência dos raios cósmicos na formação de nuvens. Mesmo considerando todas estes factores, os cientistas que publicam artigos científicos sobre o assunto continuam a achar que as emissões de dióxido de carbono humanas têm uma contribuição importante.

5. A haver uma conspiração, penso que seria mais provável do lado contrário: ou seja a indústria e governos dos países mais poluidores e poderosos tentarem ofuscar os resultados que apontam no sentido de que as emissões de gases de efeito de estufa com origem humana são responsáveis pelo aquecimento global. E isto acontece. Veja-se a posição da administração Bush ou os incentivos monetários da Exxon Mobil Oil para quem encontrasse erros no relatório do IPCC.

6. Não penso de modo nenhum que o nosso conhecimento das questões climáticas não possa evoluir. Mas, segundo o conhecimento científico actual, o planeta está aquecer e as emissões de gases de efeito de estufa com origem humana têm um contributo importante para que isso aconteça.

Braille, 200 anos


Informação recebida do Museu da Ciência da Universidade de Coimbra:

3 a 13 de Dezembro

O dia 3 de Dezembro é, desde 1998, o "Dia Internacional das Pessoas com Deficiência".
Trata-se de uma data comemorativa internacional promovida pelas Nações Unidas, com o objectivo de promover uma maior compreensão dos assuntos relacionados com a deficiência. Para assinalar esta data, que ocorre no ano em que se celebram os 200 anos do nascimento de Louis Braille (1809-1852), o Museu da Ciência promove diversas iniciativas numa semana dedicada às pessoas invisuais, seus familiares, professores e educadores, mas também ao público em geral.

3 de Dezembro | 15h00

APRESENTAÇÃO DE UM TRADUTOR DE TEXTO COM ANOTAÇÕES MATEMÁTICAS PARA BRAILLE TÉCNICO
Miguel Filgueiras, Universidade do Porto

No intuito de facilitar a produção de textos em Braille por parte de quem não conhece essa notação foi desenvolvido um programa que traduz textos com anotações matemáticas para Braille. Nesta sessão serão descritos o modo de usar o programa, as suas limitações e possíveis melhorias a introduzir.

MATERIAIS INTERACTIVOS DE MATEMÁTICA PARA INVISUAIS
Manuel Arala Chaves e Ana Cristina Oliveira, Associação Atractor

A Associação Atractor - Matemática Interactiva planeou e construiu materiais interactivos de matemática para serem utilizados por alunos invisuais nas escolas e também por visitantes invisuais de exposições de matemática e adaptou outros, já existentes para alunos de visão normal. Entre estes últimos, referimos alguns jogos frequentemente usados no Ensino Básico / Secundário, como o Jogo do 24 ou dominós de fracções e de geometria - que foram adaptados, por forma a poderem ser usados simultaneamente por alunos invisuais e alunos não invisuais.
Foi ainda criado material que permite veicular ideias sobre os diferentes tipos de simetria (translações, rotações, reflexões, ...) e sobre a sua utilização na classificação dos frisos e padrões.

10 de Dezembro | 17h00

APRENDER A EDUCAR CÃES-GUIAS PARA CEGOS
Filipa Paiva, Associação Beira Aguieira de Apoio ao Deficiente Visual

Um cão-guia para cegos é geralmente um labrador de raça retriever, educado durante dois anos para conduzir o seu dono em segurança nas suas deslocações. Ele evita que o seu dono choque com obstáculos, ajuda-o a encontrar a entrada dos locais onde pretende dirigir-se, procura um multibanco ou um telefone público, encontra a passadeira para peões e até impede que pise poças de água e excrementos de outros animais. Nesta sessão, que conta com a presença de um cão guia, vamos aprender como se faz a sua educação e como cada um de nós pode participar directamente nessa formação.

13 de Dezembro | 11h00

DESCOBRE COMO É VER COM AS MÃOS
Manuel Arala Chaves e Ana Cristina Oliveira, Associação Atractor
Ana Cristina Abreu, Luís Barata e Lucília Vicente, Apoio Técnico-Pedagógico a Estudantes Deficientes (ATPED)

Já alguma vez tentaste identificar um objecto apenas pelo tacto, sem usares a visão? Será que consegues distinguir só pelo toque um quadrado de um triângulo, um hexágono de um octógono, um ovo de uma esfera? E será que consegues distinguir só pelo tacto uma esferográfica de uma pen-drive, um baton de uma caneta de feltro? Uma pinha de um búzio? E será que consegues identificar padrões e simetrias se não puderes olhar para eles? Sabes o que é o alfabeto braille? Sabes como se escreve o teu nome em braille? Nesta sessão serão ainda apresentados diversos materiais didácticos e jogos matemáticos que podem ser usados simultaneamente por visuais como invisuais.

Sessão integrada no Programa
Ciência em Família

3 a 13 de Dezembro

VER COM AS MÃOS - OBJECTOS DE HISTÓRIA NATURAL

Vem identificar objectos de história natural pelo tacto e descobre a relação que existe entre eles. Se souberes Braille a tarefa vai ser facilitada pois cada objecto tem uma legenda em relevo e um curto texto em Braille.


Os novos descobrimentos: Moon, Mars and beyond

Alguns vídeos que mostram simulações sobre os novos lançadores da NASA, bem como dos novos veículos espaciais.

Objectivo: Moon, Mars and beyond.









:-)

terça-feira, 1 de dezembro de 2009

HEGEL SOBRE O PAPEL DA ESCOLA


Temos falado aqui repetidas vezes do papel da escola. Ao ler os "Discursos sobre Educação" do filósofo alemão G. W. F. Hegel (Edições Cotovia, 1994, tradução e introdução de Maria Ermelinda Trindade Fernandes) achei que valia a pena deixar aqui um passo do discurso de encerramento do ano lectivo do Gymnasium (Liceu) de Nuremberga que Hegel, na qualidade de Reitor, proferiu a 2 de Setembro de 1811 (a gravura mostra Hegel a dar uma lição):
"A vida na família, isto é, aquela que antecede a vida na escola, é uma relação pessoal, uma relação do sentimento, do amor, da fé e da confiança naturais; não é o laço de uma coisa, mas o laço natural do sangue; a criança aqui vale porque é criança; experimenta, sem o merecer, o amor dos pais, assim como tem de suportar a sua cólera, sem ter qualquer direito contra esta. Em contrapartida, no mundo, o homem vale por aquilo que realiza; só tem valor na medida em que o merece. Pouco lhe advém do amor ou por causa do amor; aqui vale a coisa, não o sentimento e a pessoa particular. O mundo constitui um ser comum, independente do que é subjectivo; o homem vale aí segundo a sua habilidade e utilidade para uma das suas esferas, tanto mais quanto ela se desfez da particularidade e se formou no sentido de um ser e um agir universais.

A escola é portanto a esfera mediadora que faz passar o homem do círculo familiar para o mundo, das relações naturais do sentimento e da inclinação para o elemento da coisa. Isto é, na escola começa a actividade da criança a receber, no essencial e de forma radical, um significado sério, na medida em que deixa de estar ao critério do arbítrio e do acaso, do prazer e da inclinação do momento; aprende a determinar o seu agir segundo uma finalidade e segundo regras; cessa de valer pela sua pessoa imediata e começa a valer por aquilo que realiza, a conquistar para si um mérito. Na família, a criança tem de agir correctamente no sentido da obediência pessoal e do amor; na escola tem de se comportar segundo o sentido do dever e de uma lei, por causa de uma ordem meramente formal, fazer isto e abster-se daquilo que de outro modo poderia bem ser permitido ao singular. Ao ser ensinado em comunidade com muitos, aprende a atender aos outros, a ter confiança em outros homens que de início lhe são estranhos, a ganhar confiança em si mesmo ma sua relação com eles, e, deste modo, a iniciar-se na formação e na prática das virtudes sociais."

O escândalo do Climategate e a conferência de Copenhaga.


Reproduzimos, com a devida autorização e agradecimento ao autor, o artigo publicado ontem no Expresso online pelo Prof. Delgado Domingos, reconhecida autoridade nacional em Climatologia e Engenharia do Ambiente, sobre o escândalo Climategate:

"O escândalo do 'Climategate' e a Conferência de Copenhaga

O caso Climategate, onde se manipularam dados para provar o aquecimento global, é um dos maiores escândalos científicos da História, pelo modo como afecta a credibilidade pública da comunidade científica e sobretudo pelas suas implicações económicas e políticas.

Passaram há pouco 42 anos sobre um dos maiores desastres de origem climática em Portugal: as inundações de 1967 em Lisboa. Centenas de mortes e centenas de milhões de prejuízos materiais. Será que este desastre se deveu às emissões de CO2eq (CO2 equivalente) ou ao aquecimento global? Claro que não!

Aliás, na altura, a imprensa internacional explorava os receios de uma nova idade do gelo devido ao arrefecimento global que se verificava.

Em 1967, a probabilidade de ocorrência da precipitação que provocou o desastre em Lisboa era conhecida. Uma precipitação com características análogas pode repetir-se amanhã e as suas consequências só serão menores se as necessárias medidas de prevenção forem entretanto tomadas (e nem todas o foram!).

Catástrofe de Nova Orleães não foi causada pelo aquecimento global

O que se passou com a destruição de Nova Orleães pelo furacão Katrina foi análogo: as consequências de um furacão com aquelas características eram bem conhecidas, e as imprescindíveis obras de reparação e reforço das protecções foram insistentemente pedidas mas sistematicamente adiadas.

A catástrofe não teve nada que ver com emissões de CO2eq ou aquecimento global. As tragédias climáticas no Bangladesh não são provocadas por emissões de CO2eq, aquecimento global ou subida do nível do mar, mas sim pelas inundações resultantes do assoreamento dos rios originado pela erosão que as extensíssimas desflorestações a montante agravaram e pelo crescente aumento do número de habitantes e construções em leito de cheia.

Segundo a ONU, mais de mil milhões de pessoas estão actualmente ameaçadas pela fome ou subnutrição, e agita-se o fantasma do seu aumento ou das suas migrações massivas se não forem combatidas as emissões de CO2eq para reduzir o aquecimento global.

A situação dramática e escandalosa destes milhões de seres humanos não tem nada a ver com as emissões de CO2eq, nem com o aumento oficial de 0,8 ºC na temperatura média global nos últimos 150 anos.

Temperaturas não aumentam desde 1998

Aliás, apesar de as emissões de CO2eq terem aumentado acima do cenário mais pessimista do Painel Intergovernamental para as Alterações Climáticas (IPCC) da ONU, desde 1998 que a temperatura global não aumenta.

Os exemplos anteriores poderiam continuar mas a conclusão seria sempre a mesma: as consequências catastróficas de fenómenos climáticos são evidentes e têm aumentado devido a acções humanas.

O que sucedeu em 1967 em Lisboa e se repete cada vez mais agravado por esse mundo fora não é devido a emissões de CO2eq ou alegado aquecimento global.

É devido simplesmente ao facto de fenómenos climáticos naturais, que sempre existiram, terem efeitos cada vez mais catastróficos porque as acções humanas sobre o território criaram as condições para isso ao desflorestarem as cabeceiras de rios (que agravaram o seu assoreamento e as consequentes inundações), ao aumentarem os riscos de deslizamento das encostas (porque eliminaram a vegetação que as estabilizava), ao construírem cada vez mais em leitos de cheia, e ao provocarem alterações cada vez mais extensas e profundas no uso do solo.

Os efeitos das alterações no uso do solo são cada vez mais evidentes nas alterações climáticas locais e nos seus reflexos globais.

Sendo evidente que a variabilidade natural do clima sempre existiu e que as acções humanas têm vindo a agravar os seus efeitos, a subversão conceptual que a União Europeia liderou, reduzindo tudo, ou quase tudo, às consequências do aquecimento global provocado por emissões de CO2eq é muito grave e, em última instância, contrária aos louváveis ideais que afirma defender e que suscitam o apoio das organizações ambientalistas e de multidões de bem intencionados.

Um dos maiores escândalos científicos da História

É neste contexto que rebenta o escândalo do chamado Climategate. Em termos da comunidade científica, o Climategate é um dos maiores escândalos científicos da História, não só pelo modo como afecta a credibilidade pública da comunidade científica mas sobretudo pelas implicações económicas e políticas de que se reveste.

De facto, nunca existiram tantas declarações, tantos tratados, tantos protocolos e tão gigantescos fluxos financeiros tendo como único fundamento a credibilidade e o suposto consenso da comunidade científica expresso nos Summary for Policy Makers (SPM) do IPCC.

Esse fundamento desapareceu, mas os interesses envolvidos (políticos, económicos, financeiros e industriais) são de tal monta e a percepção pública da fraude científica é tão lenta que a ficção criada pela UE ainda se irá manter durante muito tempo.

O Climagate consistiu na divulgação, através da Internet, de um conjunto de ficheiros, que incluem programas de computador e emails trocados entre alguns dos principais autores dos relatórios do IPCC, de entre os quais assumem particular relevo os de Phil Jones, director do Climate Research Unit (CRU) da Universidade de East Anglia e Hadley Centre (Reino Unido), de autores do notório hockeystick e instituições responsáveis pelas bases de dados climáticos, como o National Climate Data Center (NCDC) e o Goddard Institute for Space Studies (GISS) dos EUA, consideradas de referência pelo IPCC.

O hockeystick é o termo usado entre os cientistas para designar o gráfico em forma de stick de hóquei que representa a evolução das temperaturas do hemisfério norte nos últimos mil anos, e que foi criado por um grupo de cientistas norte-americanos em 1998.

Manipulação de dados

Os referidos ficheiros encontravam-se num servidor do CRU e a sua autenticidade não foi até agora contestada. Aliás, muitos deles apenas confirmam o que há muito se suspeitava acerca da manipulação/fabricação de dados pelo grupo.

Todavia, muito do que era suspeito e atribuível a erro humano surge agora como intencional e destinado a manter a "verdade" (do IPCC) de que houve um aquecimento anormal e acelerado desde o início da revolução industrial devido à emissões de CO2eq.

Esta "verdade" é incompatível com o Período Quente Medieval (em que as temperaturas foram iguais ou superiores às actuais apesar de não existirem emissões de CO2eq) e a Pequena Idade do Gelo que se seguiu. É também incompatível com o não aquecimento que se verifica desde 1998. Esconder ou suprimir estas constatações foram objectivos centrais da fraude científica agora conhecida.

Silenciar os cientistas críticos

Em termos científicos, o que os emails revelam são os esforços concertados dos seus autores, junto de editores de revistas prestigiadas, para não acolher publicações que pusessem em causa as suas teses ou os dados utilizados pelo grupo, recorrendo mesmo a ameaças de substituição de editores ou de boicote à revista que não se submetesse aos seus desígnios.

Propuseram-se mesmo alterar as regras de aceitação das publicações para consideração nos Relatórios do IPCC de modo a suprimir as críticas fundamentadas às suas conclusões. Em resumo, procuraram subverter, em seu benefício, toda a ética científica da prova, da contraprova e de replicação de resultados que está no cerne do método científico, controlando o próprio processo da revisão por pares.

Em conjunto, conseguiram impedir que fossem publicados a maioria dos dados e conclusões que pusessem em causa e com fundamento o seu dogma do aquecimento global devido às emissões de CO2eq.

O Climategate provocou já uma invulgar reacção internacional, como uma simples pesquisa no Google imediatamente revela (mais de 10.600.000 referências menos de uma semana depois da sua revelação).

No intenso debate internacional em curso e que irá certamente continuar por muitos meses/anos, surgiram já todos os habituais argumentos de ilegalidade no acesso aos documentos; de idiossincrasias próprias de cientistas-estrelas que se sentiram incomodados; citações fora de contexto, etc.

Em meu entender, o mais revelador e incontestável nos ficheiros divulgados nem são os emails, apesar do que mostram quanto ao carácter e a honestidade intelectual dos cientistas intervenientes, mas sim os programas de computador para tratar os registos climáticos que utilizaram para justificar as conclusões que defendem.

Diga-se o que se disser, os programas executaram o que está nas suas instruções e não o que os seus autores agora vêem dizer que fizeram ou queriam fazer.

Dados climáticos até 1960 destruídos

Antecipando porventura o que agora sucedeu, os responsáveis pelos dados climáticos de referência arquivados no CRU, vieram publicamente confirmar que destruíram os dados das observações instrumentais até 1960 e que apenas retiveram o resultado dos tratamentos correctivos e estatísticos a que os submeteram.

Ou seja, tornaram impossível verificar se tais dados foram ou não intencionalmente manipulados para fabricar conclusões. Neste momento há provas documentais indirectas de que o fizeram pelo menos nalguns casos.

Existe ainda um efeito perverso na referida manipulação que resulta de os modelos climáticos utilizados para a previsão do futuro terem parâmetros baseados nas observações climáticas passadas, que agora estão sob suspeita.

Afecta também todas as calibrações de observações indirectas relativas a situações passadas em que não existiam registos termométricos.

Independentemente de tudo isto, o mais perturbador para os alarmistas é o facto de, contrariamente ao que os modelos utilizados pelo IPCC previam, não existir aquecimento global desde 1998, apesar do crescimento das emissões de CO2eq.

E se alguma coisa os ficheiros do Climagate revelam são os esforços feitos para que este facto não fosse do conhecimento público.

Comportamento escandaloso e intolerável

O comportamento escandaloso e intolerável de um grupo restrito de cientistas que atraiçoaram o que de melhor a Ciência tem só foi possível porque um grupo de políticos, sobretudo europeus, criou as condições para o tornar possível.

Isso ficou claro desde a criação do IPCC e torna-se evidente para quem estuda os relatórios-base do IPCC (WG1-Physical Science Basis) e os confronta com os SPM.

Todavia, seria profundamente injusto meter todos os cientistas no mesmo saco, pelo que é oportuno lembrar que se deve a inúmeros cientistas sérios e intelectualmente rigorosos uma luta persistente e perigosa contra os poderes estabelecidos, para que a ciência do IPCC fosse verificável e responsável.

Foram vilipendiados e acusados de estar ao serviço dos mais torpes interesses. Os documentos agora revelados mostram que estavam apenas ao serviço da Ciência e do rigor e honestidade dos métodos que fizeram a sua invejável reputação.

Seria também irresponsável agir como se as consequências da variabilidade climática e da utilização desbragada de combustíveis fósseis tivesse desaparecido com a revelação do escândalo. Muito pelo contrário.

Problemas ambientais de fundo devem ser atacados

Chame-se variabilidade climática ou alteração climática, os problemas de fundo da sustentabilidade ambiental permanecem e agravam-se pelo que devem ser atacados com determinação e realismo.

Se os esforços internacionais mobilizados para a Cimeira de Copenhaga conseguirem ultrapassar a obsessão do aquecimento/emissões (liderado pela União Europeia) para se concentrarem na eficiência energética, nas energias renováveis, na minimização dos efeitos das alterações nos usos do solo, no combate à desflorestação, à fome e aos efeitos da variabilidade climática, teremos uma grande vitória para o planeta se a equidade e a justiça social não forem esquecidas.

Ao que parece, as propostas da China e dos EUA vão neste sentido tendo a delicadeza suficiente para não humilhar a União Europeia. Esperemos que sim."

J. J. Delgado Domingues

NUNO CRATO, A ESCOLA E AS NOVAS TECNOLOGIAS

"Existe uma erótica do novo, o velho é sempre suspeito" (Roland Barthes, 1915-1980)

No passado dia 27 de Novembro publiquei um post intitulado “Para um debate sobre telemóveis na escola”, em cedência a um pedido formulado por Tiago Videira que justificava assim a sua solicitação: “Escrevi esta reflexão que gostaria de lançar como repto, provocação, ou ponto de partida para um debate neste sentido a ser lançado no vosso blogue, se assim for entendido como pertinente.”

Mereceu “esta reflexão, repto, provocação, ou ponto de partida”, 27 comentários, que dão conta da polémica suscitada, que ficou longe de se esgotar pese embora os argumentos pró e contra de dois dos comentadores, respectivamente, Adelina Moura e Fartinho da Silva.

Revisitando um post publicado há já algum tempo no Rerum sobre as novas tecnologias na escola, da autoria de Nuno Crato, autor que dispensa qualquer apresentação pelos valiosos contributos que tem dado às questões da educação, entendi ser do maior interesse trazer a terreiro a sua opinião, embora ela se refira, essencialmente, ao uso de computadores. Reproduzo-a aqui ipsis verbis:

"INOVAÇÃO

Há palavras tão gastas que perdem o seu significado. Uma delas é inovação. Parece que basta mudar para progredir. Mas há mudanças boas e mudanças más. Ou será que todas as inovações são boas?

Ontem à tarde estive numa reunião de discussão de programas de ensino. Um dos oradores explicava as suas ideias e repetia de minuto a minuto: «é um programa diferente», «é um programa inovador», «é um programa diferente», «é um programa inovador», «é diferente», «é inovador»...

Disse-o tantas vezes que um dos professores na sala o interrompeu e perguntou «Já percebemos que é diferente. Mas é melhor?» O orador ficou encavacado. Encavacadíssimo. Como se nunca tivesse pensado nesse problema insólito. Balbuciou umas justificações e passou à frente.

Hoje de manhã passei pela Rotunda da Boavista, no Porto, e fui surpreendido com um anúncio de uma escola de línguas. Uma larga faixa estendida no edifício afirmava, orgulhosa: «Aqui não há computadores»!

Curioso! Como se pode ter orgulho em não seguir a moda das novas tecnologias?! Lembrei-me de um laboratório de línguas que existiu durante uns tempos no meu liceu. Tínhamos de falar para um gravador, com uns auscultadores na cabeça, e ouvir a nossa própria voz, para depois corrigir a pronúncia. Na altura aprendia-se francês.

Foi um fracasso, porque se exagerou. Ninguém tinha paciência para ficar muito tempo sozinho às voltas com uns auscultadores e uns microfones. Ao fim de pouco tempo regressámos por completo ao ensino presencial, com uma professora, com diálogos, com leituras, com ditados, com redacções.

Está-se hoje a passar por uma fase semelhante. Há vantagens imensas no uso dos computadores, mas as novas tecnologias têm um papel que não deve ser exagerado. O filósofo pós-moderno Lyotard afirmou, triunfante, que os computadores iam acabar com o trabalho dos professores. Alguns filósofos, sobretudo dessa corrente delirantemente desligada do mundo, dizem qualquer coisa para serem inovadores. Felizmente, a realidade desmente-os. E na Boavista há uma escola que está orgulhosa de ter professores. Daqueles vivos, de carne e osso.

Encontrei depois um amigo e conversámos um pouco. Lembrei-me de um dos segredos da Nokia: os transformadores têm quase todos a mesma saída, de forma que um carregador de um telemóvel serve em outro da mesma marca. É uma ideia positiva. Inovar nos carregadores de telemóvel de cada vez que sai um modelo novo é um hábito desagradável de outros fabricantes.

Mas o meu amigo é filósofo. Retorquiu-me: «Sabes... quando a Nokia decide não inovar, está a ser inovadora.»

Palavras, palavras, palavras!"

Nuno Crato (in Expresso Online, adaptado pelo autor)

Reconciliar as crianças com a leitura

Sabendo-se que a leitura de qualidade tem uma importância fundamental ao nível das aprendizagens escolares e da própria formação da pessoa, diversos sistemas de ensino têm, nos últimos anos, investido na sua promoção.

Os discursos em torno do que se entende por "leitura de qualidade" e do "modo como se deve promover a leitura" não são, porém, sempre convergentes.

Para se pensar neste assunto, deixamos ao leitor do De Rerum Natura algumas opiniões de intelectuais, investigadores e professores que se têm debruçado sobre o assunto.

Começamos com um extracto de uma entrevista de Anne Rapin a Daniel Pennac (na imagem) professor e escritor francês empenhado em, como ele próprio afirma, "reconciliar as crianças com a leitura".

"Na sua obra sobre a leitura Como um Romance, o senhor promulga os dez direitos imprescindíveis do leitor, um dos quais é não ler, como meio de reconciliar alguns jovens com os livros?

Regra número um: não envergonhar os iletrados. Durante toda a minha vida trabalhei em ritmo de urgência nessa área. Tive contacto constantemente com crianças que estavam não apenas aborrecidas com a escrita, mas também socialmente ameaçadas. A leitura, além disso, é para elas algumas vezes ameaçada pela maneira como a escola a apresenta, que é puramente "médico-legal" e que funciona muito bem com "os que sabem ler", mas não com as crianças em dificuldade escolar. É urgente portanto reconciliar essas crianças com a leitura. Eu, pessoalmente, faço isso nas aulas, lendo em voz alta, falando-lhes de literatura, "contando-lhes histórias". Como um Romance tinha a função de apresentar a minha prática nessa área, sem a pretensão de transformá-la em "método". O problema das crianças que vivem nos inumeráveis círculos da periferia não é mais o facto de serem iletrados, nem é o de perderem o gosto pela leitura, mas o facto de nem mesmo dominarem a linguagem oral, por não terem a quem falar. A oralidade é a primeira coisa que se perde na periferia, onde os garotos são “encerrados” em blocos, onde se organizam necessariamente em bandos, onde a linguagem está reduzida a códigos de reconhecimento próprios ao bando, portanto à sua mais simples expressão (…).

A escola preenche então o seu papel de promover uma abertura?

Antes de mais nada, ela é obrigada a fazer o papel de promotora da reinserção social. O professor que chega até essas crianças deve, antes de as ensinar a ler e escrever, ensinar-lhes primeiro a se comportar, em segundo lugar a falar, ou seja a se comunicar, a levar em conta a presença de um interlocutor... Esse já é, por si só, um trabalho enorme que precede a simples transmissão de um saber.

A seu ver, o que seria necessário modificar em matéria de pedagogia e educação?

Não tenho uma posição teórica sobre essas questões, porque estou bem situado para saber que, seja qual for a opinião que tenhamos, existe sempre um momento, no dia 6 ou 7 de Setembro, no reinício do ano escolar, em que nos vemos sós diante de 35 indivíduos que vão constituir uma entidade realmente particular, diferente da classe ao lado e de todas as que tivemos antes. E dentro dessa entidade existem 35 individualidades que eu preciso obrigatoriamente de levar em consideração individualmente se quiser fazê-las progredir seja em que área for. A ginástica intelectual do professor consiste em criar uma dinâmica no interior desse grupo sem jamais negar qualquer uma das individualidades que a compõem; o que não faz parte do que se ensina aos professores, mas é a realidade quotidiana do seu trabalho. Porque, se eu nego um aluno como indivíduo, ou se, ao contrário, dou atenção demais a ele, o ambiente da turma ir-se-á desestabilizar. O professor deve portanto administrar, como se diz hoje, e de maneira instintiva, esse tipo de problema que não é, para falar a verdade, problema de ordem pedagógica, mas comportamental e afectivo. Se essas dimensões não forem levadas em consideração, se não nos ocuparmos dos "bons" alunos, a pedagogia vai-se tornar uma espécie de mecânica cega que alcança apenas 10% das crianças escolarizadas. Nós, professores, deveríamos poder dar provas de atenção real, de paciência, e também de uma certa gratuitidade nas nossas relações com os alunos. Talvez seja isso que eles chamam respeito.

Mas a transmissão dos conhecimentos na escola é cada vez menos desinteressada.

É verdade. Nós, professores, temos tendência, para nosso próprio conforto metodológico e para atingir os objectivos "rentáveis" que nos são determinados, a comportar-nos como usurários: é preciso que haja rendimento, e o mais rápido possível! Eu ensino-lhe uma lição hoje à tarde e você tem de a recitar amanhã. Isto, evidentemente, é necessário para criar nas crianças o hábito da regularidade no trabalho, mas é perfeitamente insuficiente para me dar a garantia de que essa lição será assimilada e que restará alguma coisa dela em dez anos. Da mesma forma, para fabricar verdadeiros leitores é preciso de vez em quando recorrer à informalidade. Por exemplo: na minha turma de 1.º ano do 2.º grau, das seis horas de francês por semana, eu reservava sistematicamente duas horas para falar da literatura em si mesmo, para ler romances com o entusiasmo de leitor. Fora do programa e sem qualquer exigência de restituição. De tanto ler, de relatar romances, de propor livros aos alunos e de os fazer circular na classe, no final do ano os 35 alunos tinham necessariamente encontrado um romance, um autor e, consequentemente, outros romances do mesmo autor, outros autores da mesma família literária, etc. Se raciocinarmos em termos objectivos, como professor de letras o meu objectivo é duplo: preparar os alunos para o baccalauréat (...) e, se me conseguir organizar, dedicar o meu tempo a fabricar leitores a longo prazo. Esperando, com isso, fabricar ao mesmo tempo homens e mulheres capazes de uma boa conversa e que saibam aproveitar para pensar um pouco por si próprios. Mas esse ensino só pode passar através do exemplo e da valorização de uma certa gratuitidade."

Mais da entrevista pode ser lido aqui.

segunda-feira, 30 de novembro de 2009

Connecting the DOTS

The confidence to make it happen.
The only way to do great work is to love what you do.
Stay hungry, stay foolish.



We are what we learn.



How can you encourage a child?
Use your imagination.



:-)

domingo, 29 de novembro de 2009

Biblioteca Digital Camões

Na Biblioteca Digital Camões pode o leitor encontrar e descarregar inúmeros livros em PDF, entre os quais a saudosa colecção Biblioteca Breve.

Os títulos são bastante úteis, sobretudo, para alunos e professores de literatura e cultura portuguesas, mas também para todos os que se interessem por livros.

"O ensino é em si uma caricatura"

Luísa Costa Gomes apresentou neste mês o seu novo romance, intitulado Ilusão (ou o que quiserem) que se centra na "relação entre a realidade, a ilusão e o realismo". Os principais personagens são uma professora e um actor. Sobre o ensino, pode ler-se na entrevista a Maria Leonor Nunes (Jornal de Letras de 18 de Novembro, páginas 14-16) o seguinte:

JL: No seu romance, faz um fresco acutilante e irresistível do ensino, das estratégias educativas, do chamado eduquês, assim como dos bastidores e trabalhos do teatro e da Cultura. E nada, nem ninguém parece ter escapatória. Teve consciência que é uma verdadeira provocação?

LCG: Sim, diverti-me imenso a escrevê-lo. Um amigo até me disse que tinha ido hostilizar os meus leitores, que são maioritariamente actores e professores de português. Evidentemente que não se trata de hostilizar. O ensino é em si uma caricatura. Quer em termos de competitividade, quer ao nível das relações com os alunos, do manancial de despachos e regras, das estratégias e os objectivos. Admiro os professores, a capacidade de todos os dias malharem na Língua Portuguesa, na Matemática, sem desfalecerem, voltando sempre à luta.

JL: As professoras do seu romance teriam por certo uma boa classificação em qualquer avaliação pela sua extraordinária persistência...

LCG: Não sei, não sei. Porque são muitos parâmetros de avaliação. Se calhar não chega ir morar para o pé dos alunos e levantar-se aos domingos para lhes dar um Bolicao.

Ainda sobre as virtudes na vida espiritual dos romanos...

"E se Roma atingiu tão rapidamente essa espécie de invulnerabilidade que a protege dos inimigos, é porque as tradições e os costumes lhe asseguram uma superioridade de facto sobre todos os outros homens: austeridade, disciplina, fidelidade aos compromissos, uma honestidade rígida fazem dela uma cidade única entre todas as outras."
Políbio

A leitura das obras romanas recomendam-nos a deificação de três virtudes sem as quais qualquer empresa colectiva perde a resiliência. Na verdade, parecemos tão acostumados a ver a falta de valores morais nos nossos dias, que nos esquecemos que a coesão de um qualquer grupo se deveria estabelecer numa vivência semelhante.

A forma como Roma se conseguiu impor, em pouco tempo, aos povos vizinhos, e a grandeza que a cidade alcançou foram motivo de espanto para outros povos que procuravam uma explicação para este crescimento.

Se lidas com atenção as obras de autores romanos, reconhecemos extraordinárias as exigências morais dos romanos. A devoção, devotio, à Pátria e à Urbe, encarregava-se de uma preocupação constante na edificação de modelos morais de conduta. O respeito que votavam à tradição e ao costume dos antepassados, mos maiorum, e o respeito pela religião, conduzia o cidadão a pautar-se por códigos rígidos que cumpria piamente e que o conduzia numa procura da excelência que se sustentava na sabedoria.

Os Romanos obedeciam a valores morais e políticos - alguns herdados dos Gregos, mas a maior parte especificamente seus - que o mundo moderno, consciente ou inconscientemente, adopta para os padrões de comportamento actual. Virtus, Pietas e Fides constituem a tríade fundamental que dominava a vida dos romanos (a vida familiar, a economia e a sociedade). A coragem e valentia própria do vir (homem), o respeito pelos deveres religiosos, cívicos ou familiares e fidelidade aos juramentos e compromissos, revestiam o ideal de Humanitas, o comportamento próprio do homem que se concentra no que lhe é intrínseco – a cultura intelectual, a bondade de carácter, a cortesia e o dever.

Estes valores eram-no na edificação do ser a nível individual, mas resultavam na integração social e cívica plena. Uma mensagem que o mundo moderno não pode esquecer.

Imagem: António Manuel da Fonseca, 1796-1890. Eneias Salvando seu Pai Anquises do Incêndio de Tróia (1855), óleo sobre tela 304 x 214 cm. Palácio Nacional de Mafra, Portugal

Sobre a virtude...

«Haverá filósofos que pretendem induzir-nos a dar grande valor à prudência, a praticarmos a virtude da coragem, a nos aplicarmos à justiça — se for possível — com maior empenho ainda do que às restantes virtudes. Pois bem: de nada servirão estes conselhos se nós ignorarmos o que é a virtude, se ela é una ou múltipla, se as virtudes são individualizadas ou interdependentes, se quem possui uma virtude possui também as restantes ou não, qual a diferença que existe entre elas.
Um operário não precisa de investigar qual a origem ou a utilidade do seu trabalho, tal como o bailarino o não tem que fazer quanto à arte da dança: os conhecimentos relativos a todas estas artes estão circunscritos a elas mesmas, porquanto elas não têm incidência sobre a totalidade da vida.

A virtude, porém, implica tanto o conhecimento dela própria como o de tudo o mais; para aprendermos a virtude temos de começar por aprender o que ela é. Uma acção não pode ser correcta se não for correcta a vontade, pois é desta que provém a acção. Também a vontade nunca será correcta se não for correcto o carácter, porquanto é deste que provém a vontade. Finalmente, o carácter não poderá atingir a perfeição se não compreender as leis que regem a totalidade da vida nem investigar qual o juízo correcto a fazer sobre cada coisa, em suma, se não aferir todas as coisas pela verdade.

A serenidade não é apanágio senão de quem alcançou um conhecimento imutável e infalível sobre o mundo: os demais tomam agora uma decisão, depois arrependem-se e permanecem indecisos sem saber se hão-de levar ou não até ao fim os seus propósitos. A causa que os faz andar assim à deriva é eles guiarem-se pelo mais falível dos critérios: a opinião comum! Se queres que a tua vontade permaneça a mesma, terás de só desejar a verdade. Ora, à verdade não podemos chegar sem conhecermos os princípios básicos da filosofia, os quais incidem sobre a totalidade da vida.

O bem e o mal, a moralidade e a imoralidade, a justiça e a injustiça, a piedade e a impiedade, as virtudes e o emprego das virtudes, a posse de bens úteis, a reputação e a dignidade, a saúde, a prestança física, a beleza, a acuidade dos sentidos — tudo isto exige da nossa parte uma correcta capacidade de avaliação.

Há que saber quanta e qual a importância a conceder aos meios de fortuna. Tu, efectivamente, laboras em erro ao atribuir a certas coisas maior valor do que o devido, e laboras tanto mais em erro quanto é certo que coisas consideradas entre nós como especialmente valiosas (riqueza, influência, poder) não valem, na realidade, sequer um sestércio.

Ora, a isto não poderás chegar se ignorares a proposição de base através da qual acedemos à determinação do valor respectivo de cada coisa. Assim como as folhas, isoladamente, não podem estar viçosas e precisam de ramos em que se sustentem e de que recebam a seiva, assim também todos esses preceitos, desamparados, murcham; as podas só medram se plantadas!»

In Cartas a Lucílio, Séneca.

Imagem: Jacques-Louis David (1748- 1825)

A Odisseia adaptada para jovens

Frederico Lourenço prossegue o seu intuito de divulgação dos clássicos com a adaptação da Odisseia para os leitores mais jovens.
Esta obra foi publicada pela Editora Cotovia, que tem promovido nos últimos anos traduções, por especialistas, de obras clássicas.

Reveja-se o catálogo aqui.

UM CAMINHO CURRICULAR PARA A FORMAÇÃO HUMANISTA?

Entenda-se este texto não como um elogio acrítico a uma nova escola de iniciativa privada, mas como uma reflexão acerca da estrutura curricu...