domingo, 23 de janeiro de 2022

Divagações sobre o Tempo I

Vamos falar do tempo. 

Mas de que tempo?

Não da definição filosófica, procurada desde sempre, não da origem cosmológica do tempo, que, de acordo com Platão, nasceu quando os deuses estruturaram o Caos primitivo e deram uma ordem a todas as coisas.

Vamos falar do tempo comum, do tempo de todos os dias, da duração do tempo, do nosso tempo...

Pois não é do tempo que as pessoas falam, quando se encontram? “Está frio”, “Está calor”, “Já estamos no fim do mês”, “O tempo foge”...

O tempo... Essa “entidade” que nos consome, que passa a correr, que nós, por vezes, não sabemos aproveitar, que nos parece sempre curto...

O tempo da infância, o tempo da adolescência, o tempo da juventude, o tempo da vida activa, o tempo da reforma, o tempo do trabalho, o tempo do descanso!

E de infantes passamos a seniores, termo que agora entrou em moda, ainda que, quase sempre, mal pronunciado.

Dividindo o tempo da vida humana, inventou-se uma ordem, as três idades da vida, ainda que só ouçamos nomear assim a 3.ª.

Os romanos, os nossos mestres em quase tudo, tinham uma diferente divisão. Para eles o SENIOR era o mais velho, designação dada ao homem entre os 46 e os 60 anos. Porque, dos 60 aos 80 era o SENEX, o idoso, o ancião e, a partir dos 80 era já um homem de “provecta idade” aetate provectus (quer dizer avançado na idade).

Para a mulher a designação era diferente, estava relacionada com a sua missão na família.

O tempo!

Mas "Tempo perdido não se recupera" — diz o provérbio.

Que tempo este! Que tempos! Ouvimos dizer muitas vezes, lamentando as mudanças constantes, clamando que se perderam valores, que tudo está diferente, que tudo muda para pior.

"Novos tempos, novos costumes" — afirma o ditado, e já Camões se lamentava, também:


Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades,

Muda-se o ser, muda-se a confiança:

Todo o mundo é composto de mudança,

Tomando sempre novas qualidades.

 

Continuamente vemos novidades,

Diferentes em tudo da esperança:

Do mal ficam as mágoas na lembrança,

E do bem (se algum houve) as saudades.

 

O tempo cobre o chão de verde manto,

Que já coberto foi de neve fria,

E em mim converte em choro o doce canto.

 

E afora este mudar-se cada dia,

Outra mudança faz de mor espanto,

Que não se muda já como soía.

É a natureza que se renova, o Inverno dá lugar à Primavera, onde antes havia neve, surgem as flores e a verdura. Mas, para este poeta desanimado, a vida muda em sentido inverso, a mudança do tempo não traz aquilo que se espera, a alegria converte-se em tristeza, as mudanças já não se fazem do mesmo modo. É a passagem do tempo, é a passagem da vida.

Fernando Pessoa  — Ricardo Reis, imitando o poeta latino Horácio, fala, numa atitude epicurista, de um tempo presente que deve ser vivido sem pensar em mais nada. Aquele que põe os olhos no futuro nada vê, pois o futuro não existe ainda.  E se, neste fluir do tempo, caminhamos inexoravelmente para o fim, então aproveitemos o presente, o momento, a hora fugitiva:

Uns, com os olhos postos no passado,

Vêem o que não vêem; outros, fitos

Os mesmos olhos no futuro, vêem

O que não pode ver-se.

 

Porque tão longe ir pôr o que está perto —

A segurança nossa? Este é o dia,

Esta é a hora, este o momento, isto

É quem somos, e é tudo.

 

Perene flui a interminável hora

Que nos confessa nulos.  No mesmo hausto

Em que vivemos, morreremos. Colhe

O dia, porque és ele.

                                                                        Ricardo Reis

Colhe o dia — carpe diem...

É numa Ode de Horácio que esse conceito aparece:

                                                  Dum loquimur, fugerit invida

aetas:  carpe diem, quam minimum credula postero.

 

                        Enquanto falamos, já invejoso terá fugido o tempo;

colhe o dia, confiando o menos possível no amanhã.

Horácio, Odes, I, 11

Carpe diem!

Mas, será que sabemos fruir o tempo, o tempo que temos, o tempo que passamos uns com os outros, o tempo em que descansamos, o tempo em que passeamos?...

O mesmo Fernando Pessoa dizia, através de Alberto Caeiro, o poeta da natureza:

O tempo passa,

Não nos diz nada.

Envelhecemos. 

Saibamos, quase maliciosos,

Sentir-nos ir,

Tendo as crianças

Por nossas mestras

E os olhos cheios

De natureza...

 

Aproveitar o presente, o momento que passa, com a inocência da criança, fruindo  as coisas simples, sabendo que envelhecemos, mas tendo a sabedoria de nos sentirmos sempre crianças, apreciando a natureza, deixando o tempo passar...

É o mesmo Caeiro que rejeita a ideia de tempo pois quer viver VENDO, ele para quem o sentido da Visão era o mais importante; ver apenas as coisas e vivê-las, assim, sem tempo...

Vive, dizes, no presente;

Vive só no presente.

 

Mas eu não quero o presente, quero a realidade;

Quero as coisas que existem, não o tempo que as mede.

O que é o presente?

É uma coisa relativa ao passado e ao futuro.

É uma coisa que existe em virtude de outras coisas existirem.

Eu quero só a realidade, as coisas sem presente.

 

Não quero incluir o tempo no meu esquema.

Não quero pensar nas coisas como presentes; quero pensar nelas como coisas.

Não quero separá-las de si-próprias, tratando-as por presentes.

 

Eu nem por reais as devia tratar.

Eu não as devia tratar por nada.

 

Eu devia vê-las, apenas vê-las;

Vê-las até não poder pensar nelas,

Vê-las sem tempo, nem espaço,

Ver podendo dispensar tudo menos o que se vê.

É esta a ciência de ver, que não é nenhuma.

 

Como é difícil, por vezes, viver a poesia do tempo!

Saibamos, nestes tempos difíceis que atravessamos, viver o tempo presente, usufruir de cada dia sem azedume, procurando sempre o lado mais positivo da vida.

Isaltina Martins

sexta-feira, 21 de janeiro de 2022

À LA RECHERCHE DU TEMPS PERDU

 Novo poema de Eugénio Lisboa:

 

Amores, amizades, descobertas,

a terra, o mar, o sol, as lindas pretas,

o mundo todo de portas abertas,

a leitura e o sondar doces gretas…

 

A promessa de enormes promessas,

o mar a sugerir mundos remotos,

grandes saberes e aventuras possessas,

os mundos fruídos e os ignotos!

 

Que grande era o mundo que se via

e maior o que ainda não havia!

Viver sabia a novo e era novo,

 

como a carícia e o beijo que rondava.

A todo o momento se acrescentava

ao antigo, um desejado renovo!


Eugénio Lisboa

 

 

Super propriedades das estrelas de neutrões | Ciência às Seis (on-line)

quarta-feira, 19 de janeiro de 2022

A História dos Paladares ou Saberes e Sabores

 


Meu artigo mais recente no As Artes entre as Letras:

Saiu no final de 2021, do prelo da Prime Books, o segundo volume da monumental trilogia História dos Paladares de Deana Barroqueira, escritora portuguesa nascida em 1945 na diáspora portuguesa nos Estados Unidos. A autora promete-nos um terceiro volume, que já está entregue na editora e deve sair ainda este ano. O primeira volume tem o título de Sedução, o segundo volume 2 designa-se, adequadamente, por Perdição e o terceiro volume chamar-se-á, felizmente, Redenção.

O primeiro volume, saído também em 2021, teve uma muito boa receção dos leitores e da crítica, que foi coroada pelo Prémio Internacional da Literatura Gastronómica, da Académie Internacional de la Gastronomie, em França. Soube entretanto que os dois volumes foram nomeados para os Gourmand World Cookbook Awards 2022 (os «óscares da Gastronomia»), nas categorias de História da Culinária e de Séries. É natural motivo de contentamento para aautora e para todos os seus ávidos leitores, entre os quais me incluo: as obras, quer ganhem ou não, entraram na lista dos 1% melhores livros do mundo do seu género, em 227 países. A gastronomia portuguesa (já que os livros se centram sobretudo na história da gastronomia portuguesa) está bem e recomenda-se.

Deana Barroqueiro escreve na linha de gastrónomos José Quitério e Alfredo Saramago, que nos regalaram com livros muito enriquecedores sobre o que comemos. Barroqueiro tem uma grande bagagem de cozinha e gastronomia e escreve bem: não só foi durante três décadas e meia professora de Literatura Portuguesa e Francesa como tem a mão treinada por um conjunto de obras que conquistou leitores: começou com livros infantis como Uraçá: O índio branco (Livros Horizonte, 2002), continuou com livros inspirados na Bíblia como Contos Eróticos do Velho Testamento, com prefácio de Maria Teresa Horta (Livros Horizonte, 2003; reedição: Planeta Manuscrito, 2018), traduzido em Espanha, Itália e Brasil; e estendeu-se por volumosos romances históricos que se baseiam na história portuguesa, em particular nos períodos da Expansão Marítima e da União Ibérica: O Navegador da Passagem: A história de um descobridor de mundos que o mundo ignorou (Porto Editora, 2008); O Espião de D. João II: Na demanda dos segredos do Oriente e do misterioso Reino do Preste João (Ésquilo, 2009; reedição: Casa das Letras, 2015); O Corsário dos Sete Mares: Fernão Mendes Pinto (Casa das Letras, 2012); D. Sebastião e o Vidente: Um romance de conspiração, mistério e revelação (Porto Editora, 2006; reedição: Casa das Letras, 2016), que recebeu o Prémio Máxima de Literatura 2007 - Prémio especial do júri, e se tornou um best-seller; e 1640. O poeta, a professa, o prosador, o pregador (Casa das Letras, 2017). A autor ganhou, pelo seu estudo e divulgação da cultura portuguesa no espaço da lusofonia, o Prémio Femina 2021.

Se o primeiro volume da trilogia, que me surpreendeu, tinha 486 páginas, o segundo volume só fica um pouco atrás, com 396 páginas. Tem, tal como o primeiro, muitas receitas antigas: a capa informa que são 211. Como diz a autora numa carta aos leitores: «Ao volume de Perdição, interessa a culinária como conceito estético e, sobretudo, a gastronomia, enquanto ramo do saber relevado á categoria das arte, portanto, produto de civilização. Através de uma profunda pesquisa individual de artigos e livres antigos e contemporâneos, procurei explorar o lado simbólico, ideológico e artístico da alimentação, condimentando-o com o sal e a pimenta das minhas memórias, emoções e paixões.» E, mais adiante: «A História dos Paladares é uma encruzilhada, ou melhor um labirinto de sabores e saberes onde temi perder-me a cada canto, a cada nicho - cozinha regional tradicional, nacional, internacional, oriental, étnica, gastronómica, molecular ou de desconstrução (…) pela densidade da informação recolhida». A autora tece uma malha, ajudada pelo grafismo, onde nos podemos prazerosamente perder, seja com histórias, seja com informações úteis, seja com receitas. Pode-se começar em qualquer lado e andar para a frente ou para trás….

O livro está dividido em sete capítulos, cada um deles definido por três palavras: I- Memoriais. Editados. Impressos. II- Aprimorados. Civilizadores. Progressistas. III- faustosos. Pantagruélicos. Opulentos. IV- Encobertos. Prodigiosos. Virulentos. V- Sacralizados. Sacrílegos. Bentos. VI- Ocultistas. Necromânticos. Antropofágicos. E, finalmente, VII- Freiráticos. Conventuais. Pecaminosos. No capítulo I a autora transporta-nos aos banquetes romanos e traz-nos o primeiro livro de cozinha português, No capítulo II, fala-nos do grande chef francês Auguste Escoffier e a da cozinheira Rosa Maria (um pseudónimo, que talvez seja de um homem), autora no século XX da Cozinheira das Cozinheiras que a mãe da autora levou e trouxe da América (pelo meio, podemos aprender «um remédio pera as mulheres que casarem pareçam donzelas»). No capítulo III ficamos a saber como foi a primeira boda da dinastia de Avis e o que se comia na corte do Preste João das Índias. No capítulo IV, aprendemos os sabores de São Tomé e os sabores de Macau. No capítulo V conhecemos como é que Santo Inácio de Loyola comprou uma viagem com biscoitos e como é a culinária sagrada de comida-de-santo no Brasil. No capítulo VI ficamos arrepiados com cenas de canibalismo e com as greves da fome que Isabel do Carmo fez quando esteve presa em Custóias. No capítulo VII, por último, surgem uma história fantástica do Convento de Odivelas, onde João V costumava ir, e a deliciosa receita dos pastéis do convento de Tentúgal. Estas são apenas algumas pormenores de um quadro muito rico apresentado em Perdição. Com uma lista bibliográfica muito completa e um receituário no final, só faltou um índice, para nos ajudar a encontrar qualquer nome ou iguaria. Mas tanto fez a autora que só lhe podemos estar gratos por este pantagruélico livro.

Ficamos, cheios de água na boca, a aguardar pelo terceiro volume. Depois da Sedução e Perdição, precisamos ansiosamente de Redenção.

 

 

 

DESAFIOS DA CIÊNCIA EM 2022


MEU MAIS RECENTE ARTIGO NA CIÊNCIA NA IMPRENSA REGIONAL:

Em ciência, para cada questão respondida, abrem-se logo outras que pedem resposta. Entramos no ano de 2022 com várias questões por responder. E temos esperança de que, se não forem respondidas neste ano, sê-lo-ão nos seguintes. O sábio português Garcia da Orta afirmou, no século XVI, que «o que não sabemos hoje, amanhã saberemos».


Algumas descobertas são inesperadas. Mas outras são o resultado de cuidadosos planeamentos e prolongados esforços. Ofereço aqui uma lista de desafios da ciência nos quais, pelo que está planeado, haverá avanços a curto prazo. Privilegiei as descobertas da Física ou relacionadas e dentro destas, por serem mais mediáticas, as que têm a ver com o espaço. Mas a biomedicina é um vasto campo onde vai continuar a haver progressos tremendos.


A NASA vai encher-nos de notícias. O telescópio espacial James Webb, da NASA e da ESA, o maior de sempre, começará a enviar as suas imagens do Universo em Junho próximo. O telescópio, que já abriu completamente, está em rota para a sua posição em órbita solar. Será descoberta a luz das primeiras estrelas e serão descobertos novos exoplanetas, com boa probabilidade alguns deles parecidos com a Terra. Em 24 de Setembro, culminará a missão da NASA Double Asteroide Redirecion Test: uma sonda foi planeada para embater num pequeno asteróide, para nos ensinar sobre a possibilidade de desviar um asteróide da sua trajectória, se acaso viermos a descobrir um a aproximar-se perigosamente da Terra. A NASA vai ainda, em breve, testar um novo foguetão, o Space Launch System, que colocará num voo a nave Oríon, não tripulada, preparando o regresso de astronautas na Lua a partir de 2025. Embora seja mais tecnologia que ciência, os operadores privados americanos continuarão a desenvolver as suas actividades no espaço, como a SpaceX de Elon Musk, que testará o seu novo foguetão Starship.


Em Setembro partirá para Marte a missão europeia ExoMars 2022, da ESA, em colaboração com a Rússia, que colocará um rover a Marte, baptizado de Rosalind Franklin, em honra da pioneira da bioquímica, que vai fazer companhia ao americano Preseverance (com o helicóptero Ingenuity) e ao chinês Zhurong. O objectivo é detectar vida passada em Marte.


Na astrofísica, grande novidade será a entrada em funcionamento, no Chile, do Observatório Vera Rubin, que vai «varrer» o espaço como nunca antes foi feito. Por outro lado, depois de uma pausa para melhorias, a colaboração LIGO - Virgo entre os Estados Unidos e a Europa, para detectar ondas gravitacionais retomou recentemente a actividade: o seu fim é registar novas colisões de buracos negros ou estrelas de neutrões. Para além do James Webb, haverá mais novidades sobre exoplanetas. Acaba de ser anunciado um com a forma de uma bola de râguebi. Há cada vez mais evidências de luas de exoplanetas. E há indícios de planetas fora da nossa galáxia, que aguardam confirmação.


No CERN, na Suíça, o Large Hadron Collider, depois de três anos de paragem técnica e de um atraso causado pela pandemia, voltará, a partir de Maio, a operar, a maior energia. Para além de mais medidas da partícula de Higgs, os físicos de partículas procuram novas partículas. Uma grande descoberta seria a detecção de algo que pudesse explicar a matéria negra, um misterioso constituinte do Universo. Existem várias experiências específicas para procura de matéria negra e, em Maio, haverá no Dubai uma conferência internacional sobre o tema.


Mas há muito mais ciência para além do espaço e das partículas. Dou apenas alguns exemplos:


- Não sabemos bem o futuro da COVID-19, mas sabemos que as vacinas foram um enorme êxito. Alguns especialistas esperam que a pandemia se transforme em endemia, com um número baixo de vítimas. Deve haver melhorias nas vacinas e nos antivirais. É muito provável que as novas vacinas, baseadas na genómica, encontrem outras áreas de aplicação.


- Neste ano sairá o 6.º relatório do IPCC, o Painel Internacional para as Mudanças Climáticas, que são o maior desafio da Humanidade nas próximas décadas. As conclusões da COP26 em Glasgow poderiam ter sido mais assertivas, mas segue-se a COP27, que terá lugar no Egipto em Novembro de 2022. Os avanços em energias alternativas continuam.


- A descoberta do ano de 2021, segundo a revista Science, foi um trabalho sobre os modos de enrolamento de proteínas realizada por um poderoso sistema de inteligência artificial (IA), que abre a porta ao fabrico de novos fármacos. A IA estará cada vez mais não só na ciência como nas nossas vidas e cada vez mais vai será necessária a consideração de aspectos éticos.


- Na área da computação quântica, tem sido reclamada a «supremacia quântica», o ponto em que os computadores quânticos ultrapassam os convencionais. Várias empresas, como a IBM e a Google, estão a competir nesse domínio. Mas há também avanços chineses, um país que já ultrapassou os Estados Unidos em número de artigos científicos. Haverá em Julho próximo uma conferência internacional sobre computação quântica em Lisboa.


Desejo um 2022 cheio de descobertas!

 

 

segunda-feira, 17 de janeiro de 2022

SOBRE O ARGUMENTO DE AUTORIDADE – II

 Eugénio Lisboa insiste - e muito bem - sobre a questão do argumento da autoridade:



Aristóteles poderia ter evitado o

erro de pensar que as mulheres

têm menos dentes do que os

homens, pelo simples expediente

de pedir à Sra. Aristóteles que

abrisse a boca.

 

Bertrand Russell

 

Cada frase que eu pronuncio deve

ser interpretada, não como uma

afirmação, mas como uma pergunta.

Niels Bohr

 

Volto ao tema da pouca validade do argumento de autoridade, porque penso que a atracção irresistível que ele tem para muitos, de várias áreas da vida intelectual, deve ser insistentemente combatida e desacreditada. A obtusidade e o amor às crenças duradouras têm a carapaça dura e resistem ao embate do argumento mais vigoroso. Mais: alguns até pensam que o recurso a este frágil argumento – a autoridade - não se verifica em todos os países do planeta, havendo algum território abençoadamente imune a este atropelo da lógica… Roubando ao romance negro americano uma fórmula feliz, eu responderia a esta última convicção: you believe that, you believe anything.


Volto também a isto, não tanto pelo amor à argumentação, mas antes pelo gosto de uma conversa civilizada e, sendo possível, esclarecedora e estimulante. A este propósito, lembraria que o acerado e genial prosador, Jonathan Swift, o criador de As Viagens de Gulliver, disse algures que argumentar é a pior forma de conversar, e eu estou muito de acordo com ele. Vamos então conversar, procurando eu contar-vos umas histórias elucidativas e deixando, no possível, algumas pistas saudáveis e desopilantes.


É muito curioso serem os que mais reagem a quem tenta demolir a falácia da “autoridade”, a ela se dizendo imunes, os que mais sistematicamente a ela recorrem, para “provarem” o seu ponto de vista. Ora, insisto, invocar a autoridade intelectual de alguém, como sustentação válida de um ponto de vista qualquer, é uma das mais preguiçosas e nefastas cobardias intelectuais que conheço. É recusar o único caminho decente para chegar a uma verdade boa mas, mesmo assim, provisória: pensar, investigar, escrutinar, iluminar, com luz nova, convicções muitas vezes sem outro fundamento que não seja a sua antiguidade, em suma, olhar com intrepidez e frescura o que se tem na frente, sem cuidar do que disse Aristóteles ou Ptolomeu ou Newton ou Einstein, porque até estes se enganaram e segui-los cegamente é o mais seguro caminho para o erro. 


Ser céptico, ser humilde, gostar mais de fazer perguntas do que de dar respostas, não temer – e até gostar – de abandonar uma hipótese de trabalho, que já serviu, por outra que agora parece servir melhor, não se agarrar, em suma, nem à autoridade dos outros nem à sua própria – é assim que se faz avançar o conhecimento. As duas capitosas epígrafes que estão à cabeça deste texto dizem isso mesmo: a primeira, do lógico matemático, Bertrand Russell, diz-nos, em resumo: deixa lá o Aristóteles e conta mas é os dentes da tua mulher ou da tua irmã; a outra, vinda de um dos maiores cientistas do século XX, o dinamarquês Niels Bohr, dá-nos este legado de humildade criadora: não afirmo, pergunto, não se agarrem pois ao que digo, investiguem pelos vossos próprios meios, talvez eu não esteja certo ou completamente certo e, se eu próprio duvido de mim, por que haviam Vocês de tomar-me como autoridade?  As humildes e sábias propostas de Russell e Bohr são talvez a forma mais curta e eficaz de nos ensinar a não respeitarmos, cegamente, argumentos de “autoridade” intelectual.


 Depois, basta olhar em volta e escrutinar o decurso dos séculos, para fazermos um opulento inventário das “bêtises” proferidas por homens eminentes. Os disparates que proferiram não os tornam menos eminentes, mas recomendam-nos cautela, quando se trate de querermos segui-los obedientemente. Quem imaginaria, por exemplo, que o grande Flaubert, em carta à sua amiga e admirada George Sand, poderia escrever esta enormidade: “Quanto ao bom povo, a instrução pública e obrigatória daria cabo dele”? E quem poderia supor que Ernest Renan, talvez o homem mais sábio do século XIX, seria capaz de proferir este pantagruélico disparate: “Quem sabe se o infinito real é tão vasto como se supõe?” Cuidado: o erro e, mesmo, o mais inconcebível disparate pode ser – e tem sido – proferido pelas criaturas mais eminentes, debaixo do sol. Eu atrever-me-ia, até, a corrigir Descartes, quando este diz que o bom senso é a coisa mais bem distribuída do mundo: proponho, antes, que o erro é que é a mercadoria mais bem distribuída do mundo. O grande poeta Victor Hugo – que Gide, relutantemente, considerava o maior poeta que a França jamais teve – dizia, de Racine, grande dramaturgo e sublime poeta, esta coisa espantosa: “É um homem de segunda ordem.” Recebeu, em contrapartida, este mimo, de Proudhon, sobre as suas Les Orientales: “É preciso mais génio para ser remador no Ródano do que para fazer as Orientales”. Ou este outro mimo, da autoria do considerável escritor Barbey D’Aurévilly, ainda hoje adaptado ao cinema em França: “Em Victor Hugo, o talento é sobretudo o estilo… por aí, ele escapa ao triste destino de não ser mais do que um imitador de Eugène Sue.” 


Na literatura, na ciência, na filosofia, os desconchavos circulam, são aceites, são acarinhados, são promovidos e até duram, intactos, durante séculos. De aí, que se deva ter extrema cautela, quando se trate de mostrar respeito à “autoridade”. Todos os grandes acrescentadores de conhecimento foram grandes desrespeitadores da autoridade, mesmo da autoridade de verdadeiros gigantes. O cientista inglês, Thomas Henry Huxley, iniciador de uma família de homens invulgares, na ciência, na literatura e no pensamento, avisava-nos, nesta fórmula vigorosa: “A ciência comete um suicídio, quando adopta um credo” (veja-se, entre muitos outros, o caso do charlatão Lysenko, na União Soviética: as suas trapalhices foram erigidas em dogma pelo ignorante Estaline). E o grande cientista Konrad Lorenz resumia, numa fórmula feliz, o que também foi o miolo das cogitações de Karl Popper, no seu seminal A Lógica do Pensamento Científico: “A verdade, em ciência, pode ser definida como a hipótese de trabalho melhor equipada para abrir caminho à hipótese seguinte e melhor.” Só os timoratos e débeis pensadores é que se agarram à sua “verdade”, que defendem com unhas e dentes, sempre com medo de uma nova hipótese de trabalho (não uma “verdade”), que venha destituir a sua. Os verdadeiros cientistas anseiam por essa nova hipótese, os falsos cientistas temem-na. O verdadeiro cientista quer andar para a frente, o falso quer ficar onde está.


Tenhamos, pois, em mente, que, mesmo os grandes se enganam: são mesmo esses que mais se enganam, porque mais se arriscam. O grande Alexandre Dumas disse, aludindo ao grande químico francês, Lavoisier, que tinha sido mandado por Marat para a guilhotina, que “a República não precisa de químicos”. E o grande Reformador da Igreja, Martinho Lutero, disse, dos judeus, isto que Hitler subscreveria, palavra por palavra: “Dever-se-ia ter arrasado as suas sinagogas, destruído as suas casas, confiscado os livros de orações, o Talmud e até os livros do Antigo Testamento, proibido que os Rabis ensinassem, obrigando-os a ganhar a vida por meio de trabalhos manuais penosos.” Antoine de Rivarol, o escrutinador e promotor da “universalidade da língua francesa” e o cunhador da inesquecível medalha: “A minha pátria é a língua francesa”, disse este mimo, falando da literatura inglesa: “A literatura inglesa não merece que lhe demos sequer uma olhadela”. O grande Bossuet, o maior orador da língua francesa, disse de sua justiça, sobre as mulheres: “Prova-se, pelas Escrituras, que as mulheres, que só têm como partilha o silêncio, não devem meter-se a ensinar.” E termino, por agora, este inventário de desconchavos, com este do grande Dostoiewsky: “Em país russo, não há imbecis; é o que nos distingue dos outros países.”


Em suma, caros leitores, o melhor é estarmos sempre preparados para só aceitarmos o que nos parecer que é aceitável e mandarmos para a sucata os ocasionais deslizes dos grandes, que admiramos e não deixaremos de admirar, só porque, de vez em quando, fizeram como Homero e dormitaram.

 

Eugénio Lisboa

 

CIÊNCIA, PSEUDOCIÊNCIA E DESINFORMAÇÃO

 Vai ter lugar no dia 17 de Janeiro pelas 18h a conferência Ciência, Pseudociência e Desinformação com David Marçal, comunicador e gestor de ciência e professor convidado na Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade NOVA de Lisboa, e Carlos Fiolhais, Professor Catedrático aposentado de Física da Universidade de Coimbra, ambos nomes incontornáveis da comunicação e divulgação de ciência em Portugal.


Esta é a segunda conferência do Ciclo Como Dialogar com quem não quer ouvir: para lá da polarização e da desinformação. O ciclo promove uma reflexão sobre temas como a confiança na ciência, a polarização política e a desinformação.

Com uma periodicidade mensal, as conferências têm lugar à segunda-feira ao final da tarde e são de acesso livre e gratuito, tendo lugar via Zoom e sendo transmitidas em direto no canal YouTube do Seminário de Jovens Cientistas em https://tinyurl.com/SJC-ACL

Para participar na sessão Zoom desta conferência é necessário registo prévio em https://forms.gle/nJ5ZPQQkocYjDWkCA 

O ciclo é uma iniciativa do Seminário de Jovens Cientistas (SJC) da Academia das Ciências de Lisboa em colaboração com o Instituto de Tecnologia Química e Biológica António Xavier, Universidade Nova de Lisboa (ITQB NOVA) e o Centro de Estudos Clássicos e Humanísticos, Universidade de Coimbra (CECH-UC)

Esta iniciativa terá como objetivo apresentar um conjunto de visões para analisar a forma como estes problemas estão interligados e promover estratégias para fomentar um diálogo construtivo.

Organização:
Seminário de Jovens Cientistas,
Academia das Ciências de Lisboa

Coordenação
Gonçalo Marcelo (SJC-ACL e CECH-UC)
Pedro Matos Pereira (SJC-ACL e ITQB NOVA)
Ana Sanchez (ITQB NOVA)

sábado, 15 de janeiro de 2022

EDUCAÇÃO: A LIBERDADE DE ESCOLHA OU INOVAR COM A SUCATA


Novo texto de Eugénio Lisboa: 

O Partido INICIATIVA LIBERAL tem vindo a propor, com linguagem bem penteada e louvável civilidade de maneiras, ideias mais do que um bocadinho perigosas e, por acaso, já bastante obsoletas. Uma dessas ideias é a estafada “liberdade de escolha” para os alunos que pretendam frequentar uma escola. A ideia já foi suficiente demolida, com argumentos decentes, pelos partidos que a não perfilham, em debates recentes. Pôr o Estado, em vez de investir na escola pública, como é sua obrigação, a financiar a escola privada, é, no mínimo, escandaloso. Por isso, venho aqui apenas contar uma história de proveito e exemplo.


Quando o Partido Conservador Britânico ganhou, em 1979,  as eleições legislativas, e Margaret Thatcher ascendeu ao lugar de Primeiro Ministro, com o seu projecto ultra-liberal, deu ao seu mentor político, Sir Keith Joseph, a pasta da Educação. Este, ideólogo extremista, apressou-se a propor a “liberdade de escolha”, com “vouchers” do Estado a pagarem o ensino privado – a ideia agora repescada pela IL. A reacção provocada no Partido Conservador, para não falar na do Partido Trabalhista, foi de tal ordem, que Margaret Thatcher não teve força para levar por diante o projecto acarinhado pelo seu ideólogo e que era também o seu. O projecto foi atirado para a sucata, da qual nunca ressuscitou, nos onze agitados anos do reinado de Thatcher.

 

Aparece agora, triunfalmente repescado pela IL, com ares de inovação prenhe de futuro, e apaparicado por comentadores aguerridos, em postura de estarem “para além da Thatcher”

 

É muito nosso hábito lusitano irmos buscar, tarde e a más horas, ao monte da sucata que outros produziram, as ideias saloias e perniciosas que eles acharam tóxicas, há bem quarenta anos atrás. 

 

A “liberdade de escolha” não passa de um truque mal disfarçado, para pôr o Estado a sustentar o ensino privado. Ora se este é assim tão bom e tão eficaz e competitivo, que aprenda a viver por si, sem recurso à inevitável teta que tanto acusa de ser incompetente e nefasta: isso mesmo, a teta do Estado.

 

A IL quer, em tempo incerto, de agonia, de susto e de crise profunda, acudir aos portugueses com uma selvagem anarquia de mercado que, mesmo assim, vampirize o pouco que o Estado tenha para dar. Esta destemida proposta deve ser devolvida ao local de onde nunca deveria ter saído: a cova da sucata do Partido Conservador Britânico.

Eugénio Lisboa

quarta-feira, 12 de janeiro de 2022

SOBRE O ARGUMENTO DE AUTORIDADE

 

Novo texto de Eugénio Lisboa

 

A verdade é filha do tempo,

não da autoridade.

Galileu Galilei

 

Quem discute, alegando autoridade,

não usa a inteligência mas sim a memória.

Leonardo da Vinci

 

É muito frequente, ao discutir-se um problema qualquer, um dos participantes, provavelmente com a melhor boa fé do mundo, tentar demolir o argumento do seu interlocutor, atirando para cima do debate com a opinião de uma “autorizada” e prestigiada figura que, nessa mesma área do conhecimento, parece abonar a sua própria opinião. É sempre uma tentação perseguir esse método aparentemente imbatível e demolidor. Será uma ardilosa artimanha, mas há muito que a lógica e o método científico moderno enviaram para a sucata este tipo de argumentação. Por muito tempo, ao longo de séculos, em vez de se observar e voltar a observar e se tentar verificar, contraditoriamente, um fenómeno qualquer, preferia-se consultar o parecer de uma antiga e muito venerada autoridade, como, por exemplo, Aristóteles, para este “certificar” uma falsa verdade. Foi preciso Galileu demonstrar, pelo método experimental, que corpos, de pesos diferentes, caem exactamente com a mesma aceleração, para se verificar que a asserção de Aristóteles, segundo a qual, eles cairiam com acelerações diferentes, estava errada e errada viveu inúmeros séculos. O argumento da autoridade ruiu estrondosamente e ainda hoje se ouve o barulho que isso fez. 


De resto, basta pensar um bocadinho. Se, sobre um mesmo assunto, duas autoridades igualmente prestigiadas tiverem opiniões opostas (acontece todos os dias), como escolher o parecer “autorizado”? Poderia dar inúmeros exemplos históricos, mas vou dar este. Em tempos, a muito prestigiada Universidade de Harvard, depois de um estudo prolongado e feito por grandes especialistas, concluiu que a pena de morte provocava uma diminuição da espécie de crime que essa pena contemplava. Mas acontece que um estudo semelhante da prestigiadíssima Universidade de Stanford chegou à conclusão diametralmente oposta. Os crentes no argumento de autoridade qual das duas conclusões aceitariam como boa? 


No campo da investigação científica, os exemplos abundam. Dois grande inventores e responsáveis por inúmeras patentes no campo da electricidade, Edison e Tesla, tinham certezas diametralmente opostas em algumas coisas. Por exemplo, Tesla, um engenheiro electrotécnico, deu enorme contribuição no campo do transporte de energia eléctrica por corrente alterna, entre outras muitas coisas que fez. Já Edison, o grande inventor com mais do que mil patentes registadas, tinha a “autorizada” opinião de que a corrente alterna não tinha qualquer futuro. Para desacreditar Tesla e, abusando da sua enorme influência junto dos políticos, convenceu que se executasse um preso condenado à morte, usando-se a corrente alterna. Os carrascos, pouco calhados no uso daquela corrente, permitiram que a tensão eléctrica caísse drasticamente, de tal modo que o condenado, em vez de uma morte rápida, foi sendo “fritado” lentamente, com enorme sofrimento e emitindo um pavoroso cheiro a carne grelhada, além dos gritos pavorosos que foi emitindo… Edison ficou contentíssimo com a repercussão que esta ignomínia teve na imprensa. Aqui está um clamoroso desmentido do valor argumento de autoridade. 


De resto, uma consulta minuciosa mostrar-nos-á as enormidades que os cientistas, ao longo dos tempos, têm dito uns dos outros. O Professor de Física J. Le Roux, da Universidade de Rennes, dizia, em 1923, este mimo sobre a Teoria da Relatividade de Einstein: “Não é uma doutrina científica, é, antes, uma espécie de misticismo bizarro, quase uma religião nova de que Einstein é o profeta (…)”. Lá se vai o argumento de autoridade… E não só na ciência. O maior crítico francês do século XIX, Sainte-Beuve, disse as maiores barbaridades sobre gigantes como Balzac, Stendhal e outros. Ferdinand Brunetière, egrégio Professor de Literatura da eminentíssima École Normale Supérieure, editor principal da Revue des Deux Mondes, membro da Academia Francesa, galardoado com a Legião de Honra e eminência da crítica e do ensaísmo francês, disse barbaridades sobre Baudelaire, o mesmo tendo feito o não menos eminente Émile Faguet. O físico e astrónomo francês, François Arago, que chegou a ser primeiro ministro, desaconselhava o uso dos caminhos de ferro, como meio de transporte, porque as pessoas se arriscavam a contrair “fluxões” e pleurisias… O grande Lumière, pioneiro do cinema mudo, em que foi singular criador, não antevia qualquer futuro para o cinema falado.


Para os teimosos utentes do argumento de autoridade, deixo-lhes aqui esta pérola do autor da Teoria da Relatividade: “Para me punir pelo meu desprezo pela autoridade, o destino fez de mim mesmo uma autoridade.”


Um esclarecimento final: o signatário deste artigo é muitas vezes acusado de recorrer muitas vezes a citações de outros autores. Ora faço-o, não como uma invocação de autoridade, mas como formulações mais perfeitas dos meus próprios pensamentos e sempre convencido de que tanto eu como eles podemos estar errados.


Eugénio Lisboa

 

 

"UM INDIVÍDUO VULGAR"

“De repente as portas abrem-se e vemos um homem patético, simples, pequeno, igual a qualquer um, não tinha chifres, nada. E este homem tinha...