sexta-feira, 3 de janeiro de 2020

José Hermano Saraiva, uma personalidade controversa

Meu artigo de opinião publicado hoje no "Diário as Beiras":

“Haverá cartilha para as nossas opiniões históricas?” (Eça de Queiroz):

Anos atrás, num meu texto tive a ousadia de considerar José Hermano Saraiva, meu antigo professor de história no ensino liceal, historiador. Logo caiu sobre mim “o Carmo o e a Trindade”!

Para um libertar de uma nódoa que corria o risco de se espalhar como gordura em fato acabado de estrear, procurei em fontes fidedignas o significado da palavra historiador. Assim: 1) “Historiador é aquele que faz pesquisa, que escreve acerca de história” ( “Grande Enciclopédia Luso-Brasileira”) ; 2) “Que ou aquele que se especializou em ou que escreve acerca da história” (“Dicionário Houaiss da Língua Portuguesa”).

Indultado da acusação de ignorante, parti afoito para a consulta de alguns dados biográficos de José Hermano Saraiva, tendo-me deparado com sete Orações Académicas, proferidas depois de1976, ou seja sem serem escoradas no seu cargo de Ministro da Educação do Estado Novo, editadas pela Academia de Ciências de Lisboa de que é membro.

Das instituições culturais a que pertenceu nomeio os nomes da Academia de Ciências, da Academia Portuguesa de História (de que é académico de mérito) , da Academia da Marinha e do Instituto Histórico e Geográfico de São Paulo ( Brasil). Desobrigo-me, como tal, por ser muito extenso o seu acervo, de enumerar as várias obras de que é autor, enumerando, apenas,  os três volumes da “História de Portugal” e o programa televisivo na RTP.

Em 2012, na Assembleia da República foi votado m voto de pesar pela morte de José Hermano Saraiva tendo votado a favor o PP, PSD, CDS e PS e contra o PCP, os Verdes e o Bloco de Esquerda. Muito recentemente, no passado dia 2 deste mês, foi José Hermano Saraiva, cumpridos os 100 anos do seu falecimento, homenageado na Fundação Calouste Gulbenkian.

Segundo notícia dos jornais, no  discurso, proferido na ocasião,  o  Chefe de Estado, Marcelo Rebelo de Sousa , enunciou  ter ele conquistado “um lugar privilegiado no coração fiel de milhares ou milhões de portugueses” devido ao afecto  e que, por isso, não teve apenas popularidade, teve e mereceu celebridade”. Marcelo referiu-se, ainda, aqueles que “dele nunca gostaram”, que nunca compreenderam que “aquele homem era muito mais do que inteligência, brilho, curiosidade permanente, enciclopedismo raríssimo, inventiva e poder da palavra”.

No ano de 2005, quando o Professor José Hermano Saraiva foi vilipendiado numa notícia de jornal , solidarizei-me com ele tendo recebido uma carta sua de agradecimento, escrita com evidente desilusão, aqui e ali polvilhada  de fina ironia, de que transcrevo um breve excerto: “Recebi a sua carta com o recorte do jornal. Agradeço-lhe muito as palavras tão amigas que usa a meu respeito. Não sabia do artigo do Dr. Acácio Barradas mas não me surpreende. Conheço a pessoa e sei que não fez aquilo por mal. É incapaz de fazer melhor. Fiquei particularmente enternecido com a recordação dos tempos da minha juventude em que, com tanto entusiasmo, tentava iniciar os meus jovens amigos na inteligência da História”.

É esta, portanto, uma singelíssima homenagem de um seu antigo aluno de um  país em que uns tantos renegados, depois de 25 de Abril, diziam ter aceitado elevados cargos durante o Estado Novo para minarem as estruturas fascistas (agora que estruturas minam eles?).

Ainda que aceites, como lacaios de novos  senhores da política portuguesa actual,  devem ter constantemente  em mente que “o traidor é sempre odiado”, como escreveu Miguel de Cervantes.

HUMAN NATURE | Official HD Trailer (2019) | DOCUMENTARY | Film Threat Tr...

quinta-feira, 2 de janeiro de 2020

Nova revista sobre Educação em Ciências, Matemática e Tecnologia

A “APEduC Revista - Investigação e Práticas em Educação em Ciências, Matemática e Tecnologia” está a preparar o primeiro número a lançar em Abril de 2020.
A chamada de artigos para as secções 1 e 2 está a decorrer até 20 de janeiro de 2020. Os ficheiros de divulgação estão em anexo.
Aceitam-se artigos em português, espanhol ou inglês.
Para submissão e mais informações aceder a: https://apeducrevista.utad.pt/
Assim, peço-lhe que divulgue pelos seus contactos esta informação, podendo usar, para o efeito, os anexos.
Agradeço desde já a sua atenção.

J. Bernardino Lopes
Editor/Diretor da APEduC Revista

Os primórdios do ensino de História da Ciência na Faculdade de Ciências da Universidade de Coimbra

Outro artigo com co-autoria minha na revista História da Ciência e Ensino  da PUC-SP (Brasil):

 Os primórdios do ensino de História da Ciência na Faculdade de Ciências da Universidade de Coimbra

Gilberto Pereira Décio Martins Carlos Fiolhais Resumo A criação, em 1961, de um Centro de Estudos de Cartografia Antiga, anexo à Faculdade de Ciências e à Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra, foi um importante factor que conduziu à introdução na Universidade de Coimbra do ensino da História da Ciência, em particular da História da Ciência Portuguesa. Armando Cortesão, que liderava esse grupo de investigação, ministrou, desde o ano lectivo de 1961/62 até pelo menos 1975, um curso livre sobre história da cartografia. Foi a convite de Armando Cortesão que, em 1962, Reyer Hooykaas, professor de História da Ciência da Universidade Livre de Amesterdão, chegou a Coimbra para proferir duas palestras que, nas palavras de Luís de Albuquerque, o professor de Matemática de Coimbra que se notabilizou na História dos Descobrimentos, foram “memoráveis”. Hooykaas considerava que todo o cientista, pelo menos de um modo geral, deveria conhecer a história do desenvolvimento da sua própria ciência, “os seus avanços, conquistas e recuos”. Em 1963 e 1964 Hooykaas leccionou um curso livre intitulado “Introdução à História da Ciência”, que descreveu os feitos científico-técnicos alcançados pelos portugueses ao longo da expansão marítima iniciada no século XV. A reforma do ensino de 1964-65 introduziu oficialmente o ensino da História da Ciência na Faculdade de Ciências da Universidade de Coimbra. Tornava-se nessa altura evidente a necessidade desta disciplina para formar cientistas e professores.

 Palavras-chave: Universidade de Coimbra; Reyer Hooykaas; Armando Cortesão; Luís Albuquerque. 

Abstract

 The creation in 1960 of a Center for Ancient Cartography Studies associated with the Faculty of Sciences and the Faculty of Arts and Humanities, was a key factor which led to the modern introduction of the teaching of History of Sciences at the University of Coimbra, in particular History of Science in Portugal. Armando Cortesão, who was the head of this research group, was responsible for teaching a free course on ancient cartography every year (a course he taught since the school year of 1961/62 at least until 1975). Reyer Hooykaas, professor of History of Science at the Free University of Amsterdam, arrived in Coimbra in 1962 at the invitation of Armando Cortesão, to deliver two lectures that, in the words of Luís de Albuquerque, professor of Mathematics in Coimbra who became famous in the History of Portuguese Discoveries, were "memorable". Hooykaas considered that every scientist, at least in general, should know the history of the development of his own science, "its hopes, conquests and recoils". In 1963, 1964 and 1967, Hooykaas started teaching a free course entitled “Introduction to the History of Science”, where he described the scientific and technical achievements of the Portuguese during the maritime expansion which started in the 15th century. The teaching reform of 1964-65 introduced officially the teaching of the History of Science in the Faculty of Sciences of the University of Coimbra. By then it was clear the need for this new discipline to form scientists and teachers.

 Keywords: University of Coimbra; Reyer Hooykaas, Armando Cortesão; Luís Albuquerque.

 Texto completo tm pdf: https://revistas.pucsp.br/hcensino/article/view/44904/30818

Manuel dos Reis e a Astronomia em Portugal de 1930 a 1970

Meu mais recente artigo saído na revista da PUC - SP "História da Ciência e Ensino":

Manuel dos Reis e a Astronomia em Portugal de 1930 a 1970

Jorge Cardoso, Décio Martins, Helmuth Malonek, Carlos Fiolhais


Resumo
Descreve-se a evolução do Observatório Astronómico da Universidade de Coimbra de 1930 a 1970, destacando- se o exercício das funções de diretor por Manuel dos Reis (1900-1992), de 1934 a 1970. Fonte primordial é o espólio documental de Manuel dos Reis à guarda do Arquivo da Universidade de Coimbra, que inclui programas, lições, problemas, exames, estudos e notas, e outros manuscritos sobre História da Astronomia, Astronomia (Geral, Mecânica, Esférica e Geodésica), Astronomia Medieval, e Astronomia Náutica dos Descobrimentos. Engloba ainda listas bibliográficas, rascunhos das comunicações e discursos sobre Astronomia Náutica proferidos na Academia das Ciências de Lisboa. Apresenta-se, em particular, um documento datilografado, inédito, provavelmente da década de 30, com o título “Reorganização do ensino da Astronomia e da investigação astronómica”, onde Reis, após descrever brevemente a história da Astronomia, refere a Astrofísica como o “novo capítulo da Astronomia”, e reflete sobre o ensino e investigação da Astronomia, e sobre o funcionamento dos Observatórios Astronómicos de Coimbra e de Lisboa (Tapada da Ajuda), e do Observatório Meteorológico do Porto (Serra do Pilar).
Palavras-chave: História da Astronomia em Portugal; Astrofísica, Observatório Astronómico da Universidade de Coimbra.
Abstract
The evolution of the Astronomical Observatory of the University of Coimbra from 1930 to 1970 is described, highlighting Manuel dos Reis (1900-1992) role as director from 1934 to 1970. Main source is the collection of Manuel dos Reis documentation in the Archive of the University of Coimbra, which includes programs, lessons, problems, exams, studies and notes and other manuscripts on the History of Astronomy, Astronomy (General, Mechanical, Spherical and Geodesical), Medieval Astronomy, Nautical Astronomy of the Portuguese Discoveries. It also includes lists of bibliographical references, minutes of communications and speeches on Nautical Astronomy delivered at the Academy of Sciences of Lisbon. A typewritten, unpublished document, with the title "Reorganization of the teaching of astronomy and astronomical investigation”, probabbly from the 1930s, is presented. Reis, after a brief description of the history of Astronomy, describes Astrophysics as the "new chapter of Astronomy", reflects on the teaching and research on Astronomy, and on the operation of the Astronomical Observatories of Coimbra and Lisbon (Tapada da Ajuda), and the Meteorological Observatory of OPorto (Serra do Pilar).
Keywords: History of Astronomy in Portugal; Astrophysics; Astronomical Observatory of the University of Coimbra.

Texto completo em pdf aqui:

Lista actualizada de 50 cientistas Portugueses ordenados pelo índice K

Reproduzo aqui a lista de Fernando Pacheco-Torgal de cientistas portugueses com um índice K (Scopus) maior do que 50 (assinalei os 4 da Univ. Coimbra):


Atento o post sobre uma recente lista de 50 cientistas estrangeiros https://pacheco-torgal.blogspot.com/2019/12/indice-k-dos-50-cientistas-mais.html onde é mencionada uma lista Portuguesa que foi feita há um ano atrás pelo presente se apresenta abaixo uma actualização da referida lista onde se acrescentaram alguns nomes para perfazer o total de 50.  (...)
  
Obs: 
HCR- 2019 Web of Science Highly Cited Researcher; 
SHCS- 2019 Scopus Highly Cited Researcher (Stanford ranking)

Autor
Afiliação
Área
Scopus
K-index
Nuno Peres  - SHCS
Universidade do Minho
Física
389
Miguel B. Araújo- SHCS
CSIC
Ciências biológicas
267
Carlos Fiolhais
Univ. de Coimbra
Física
264
Rui Reis- SHCS
Universidade do Minho
Engenharia de Tecidos
251
Miguel Seabra- SHCS
Universidade Nova
Ciências biomédicas
253
João Rocha- SHCS
Universidade de Aveiro
Química Eng Q.
232
Paula Moreira- SHCS
Univ. de Coimbra
Ciências biomédicas
231
João Mano - SHCS
Universidade de Aveiro
Engenharia de Tecidos
227
Fátima Carneiro- SHCS
Universidade do Porto
Ciências biomédicas
217
M. Sobrinho Simões- SHCS
Universidade do Porto
Ciências biomédicas
207
Mário Figueiredo- SHCS
Universidade de Lisboa
Engenharia Comput.
205
Helena Freitas
Univ. de Coimbra
Ciências biológicas
197
Maria A. Carrondo
Universidade Nova
Engenharia Química
173
Elvira Fortunato- SHCS
Universidade Nova
Ciência Eng Mat
171
Alexandre Quintanilha
Universidade do Porto
Ciências biomédicas
170
José A.Teixeira - HCR 
Univ. do Minho
Biotecnologia
150
António Amorim
Universidade do Porto
Ciências biomédicas
149
João Coutinho- SHCS
Universidade de Aveiro
Química Eng Q.
147
Bioucas-Dias -HCR 
Universidade de Lisboa
Engenharia Comput.
142
Isabel Sá-Correia- SHCS
Universidade de Lisboa
Ciências biológicas
136
Verónica Bermudez
UTAD
Ciência Eng Mat
122
Madalena Alves
Universidade do Minho
Biotecnologia
116
Adelino Canário
UALG
Ciências biológicas
115
António Vicente -HCR 
Univ. do Minho
Biotecnologia
110
Isabel Ferreira -HCR 
Politéc. Bragança
Bioquímica
108
Tenreiro Machado -HCR 
Universidade do Porto
Eng Elect
107
Fátima Montemor
Universidade de Lisboa
Química Eng Q.
107
Pedro Santa-Clara
Universidade Nova
Economia
100
Luís Pereira- SHCS
Universidade de Lisboa
Agronomia
91
José Mata
Universidade Nova
Economia
87
Pedro Areias -HCR 
Univ. de Lisboa
Eng Mecânica
84
Paulo Fernandes- SHCS
UTAD
Eng florestal
79
Miguel Cerqueira -HCR 
Univ. do Minho
Biotecnologia
77
Nuno Crato
Universidade de Lisboa
Matemática
77
F.Pacheco-Torgal
Univ. do Minho
Engenharia Civil
76
Pedro Portugal
Universidade Nova
Economia
76
José Tribolet
Universidade de Lisboa
Engenharia Comput.
75
Jorge Lopes de Brito- SHCS
Univ. de Lisboa
Engenharia Civil
72
Paulo B. Lourenço- SHCS
Univ. do Minho
Engenharia Civil
70
Boaventura Sousa Santos- SHCS
Univ. de Coimbra
Sociologia
68
Paulo J. Oliveira- SHCS
UBI
Eng Electromec.
58
Paulo Leitão
Politéc. Bragança
Eng. Electr
57
Delfim Torres -HCR 
Universidade de Aveiro
Matemática
56
Sebastião Feyo Azevedo
 Universidade do Porto
Química Eng Q.
55



2020 New Year Concert Vienna * Neujahrskonzert Wien * Concert Nouvel An ...



No minuto 1,39.44 contradanças de Beethoven.

Flashmob Nürnberg 2014 - Ode an die Freude

O ANO BEETHOVEN


Na Viena, onde se tocou mais um concerto de Ano Novo, e no mundo este é o ano Beethoven. Meu artigo no Público de hoje (primeira parte aqui apenas, o artigo total é restrito a assinantes):

 Se 2019 foi o ano de Leonardo da Vinci (500 anos da morte), 2020 é o ano de Ludwig van Beethoven (250 anos do nascimento), o génio musical alemão nascido em Bona, que viveu a maior parte da vida em Viena.

 Beethoven, depois de uma curta estada em Viena em 1786-1787, onde terá tocado para Mozart (o mais provável é ser uma lenda, embora o círculo de Beethoven visse nele um novo Mozart), fixou-se na capital austríaca em 1792, onde veio a falecer em 1827, com 56 anos. O conde Waldstein, um patrono do jovem Beethoven em Bona, escreveu, quando ele partiu, que “pela sua incessante diligência receberia o espírito de Mozart das mãos de Haydn”. A música de Mozart influenciou decerto Beethoven, apesar de o eventual reencontro se ter tornado impossível pela morte prematura de Mozart em 1791. Em Viena, o compositor alemão foi discípulo de Franz Joseph Haydn, uma relação combinada em Bona quando Haydn aí parou, ao regressar de Londres, que seria interrompida por uma crítica mais severa do mestre, embora nunca se tenham quebrado os laços de estima entre os dois. Para perceber melhor a assim chamada “Trindade Vienense” (Haydn-Mozart-Beethoven) falta acrescentar que Haydn e Mozart foram grandes amigos (irmãos maçónicos, tratavam-se por tu apesar da diferença de idades: Haydn era 24 anos mais velho) e se influenciaram mutuamente do ponto de vista musical. (...)

https://www.publico.pt/2020/01/02/culturaipsilon/opiniao/ano-beethoven-1898941

quarta-feira, 1 de janeiro de 2020

Em jeito de balanço de fim-de-ano

“Cada cavadela cada minhoca” (provérbio).

No fim de cada ano é uso as casas comerciais fecharem as portas para fazerem o balanço do ano que finda.

Por os assuntos relacionados com o sector da saúde assumirem o deve e haver dos balanços comerciais, resolvi, por falta de dados actualizados reproduzir parte de um artigo por mim escrito neste blogue em 27 de Outubro de 2018, intitulado “A Comunicação Social em Democracia”. Isto porque “ a história, como defendeu Paul Ricoeur, é uma mediação entre o passado e o presente num círculo hermenêutico.” Assim, passo a citar o “Expresso” (10/07/2015): “A ADSE financiava o Orçamento do Estado por os funcionários públicos estarem a pagar mais 228 milões do que seria necessário’”.

Corriam então os ventos de feição para a ADSE que viraram repentinamente para um verdadeiro vendaval por as receitas não cobrirem as despesas como noticiava três anos depois  o “Público” (10/05/72018): “A ADSE gastou mais 40 euros por beneficiário em 2017. As despesas com os cuidados de saúde dispararam e ameaçam as contas do sistema’. Ou seja, passou-se do estado de graça a estado de desgraça! E isto é de tal maneira escandaloso por os beneficiários da ADSE terem passado a descontar quantias mensais cada vez maiores.

Em face disto, ao tentar solucionar o problema de despesas excessivas o Governo Socialista acionou  o Decreto-Lei n.º 118/83, de 25  de Fevereiro, em banho-maria anos a fio, passando a excluir de cônjuges beneficiários idosos até então usufruindo dessa condição por passarem a usufruir de míseras reformas que mal chegam para tratar um dente cariado enquanto certos indivíduos abençoados por se “sentarem de cócoras em São Bento” (Eça) só não usam dentes de ouro por ser sinal de novo-riquismo que convém esconder para se julgar que beneficiaram de berço rendilhado de nascença.

Quanto à moralidade da retroatividade desta legislação cito o que postulou Augusto Santos Silva, figura de proa do Partido Socialista e da sua governação: “A não retroatividade das leis é o que distingue a civilização da barbárie”. Assumida, hoje, e por esta mesma personagem, essa barbárie por quem a condenou ontem só pode ser encontrado fundamento no facto “da política não ser moral ocupando-se sempre do que é oportuno”, como sentenciou Henry Thoreau.

Aqui chegado seria conveniente  que os corifeus da ADSE informassem os cidadãos nacionais sobre o verdadeiro impacto desta medida de migalhas sobre o erário público  para ver se a respectiva malvadez foi recompensada suficientemente a ponto de dar lucros substanciais à ADSE ou se tratou de uma medida de contenção de despesas em poupar no farelo para gastar na farinha com a inscrição anunciada de novos beneficiários a viverem em união de facto. A minha crítica, nem por sombras pretende assumir carácter moralista, cifra-se, tão só e apenas, em expulsar antigos familiares em uniões de direito para as atribuir a uniões de facto!

Só em desculpa esfarrapada pode alegar o Governo estar preocupado com a decadência do Serviço Nacional de Saúde menina dos olhos do seu falecido criador, António Arnaut. Como nos adverte a voz do povo, não se pode servir dois senhores ao mesmo tempo e muito menos a três senhores simultaneamente. A saúde dos portugueses no SNS tem uma mão cheia de nada e outra vazia de tudo obrigando esta conquista de 25 de Abril  a sobreviver numa travessia circense de andar em cima do arame não pagando atempadamente a hospitais, a farmácias e a entidades convencionadas encontradas em cada escaninho de rua com construção de hospitais privados ao lado de hospitais estatais nos grandes centros urbanos. E, outrossim, em contractos com parcerias publico – privadas. Haja em vista a parceria, tida como exemplar, com o Hospital de Braga denunciada pelo Grupo Mello por ser havida como insustentável.

E cada vez que o Governo finge pretender emendar situações destas com a sua mão canhestra é bem pior a emenda que o soneto, contentando-se o Governo em sentar-se à mesa de cabeceira do SNS pondo-lhe na testa pachos de água fria na testa ou dando-lhe um comprimido de farinha para baixar a febre a um moribundo necessitado de extrema-unção, gastando por outro lado, fortunas na construção de seis novos hospitais com o custo fabuloso de mais 100 milhões de euros anunciado, em vésperas de eleições o que já estava anunciado anteriormente saindo-lhe o tiro pela culatra por fingir querer acabar com elefantes brancos com simples carabinas de matar pardais sem cuidar em manter, num mínimo decente, as actuais instalações hospitalares provendo-as de quadros médico, de enfermagem e de  funcionários administrativos  em quantidade e qualidade suficientes.

Aliás, a solução nem sequer é nova e muito menos inédita. No sector da Educação em Coimbra, em tempos socráticos, com uma população escolar em curva descendente foi construída uma escola com requintes de países nórdicos com instalação de aquecimento nas salas de aula, desligadas por faltar dinheiro para as manter em funcionamento.

Reporto-me à Escola do “Vale das Flores” enquanto o secular Liceu D. João III, rebaptizado de Escola Secundária de José Falcão, em cujas carteiras seculares se sentou tanta gente ilustre e lustrada das margens do Mondego, chove dentro do Ginásio, há corredores com azulejos partidos ou descolados, com os alunos a passam frio de rachar numa planificação dispare e disparatada, com escolas luxuosas e outras a funcionar em pré-fabricados situação que deixa muitas dúvidas sobre os fundamentos de seriedade que sustentam construções faraónicas num país com roupa interior esfarrapada e vestido por fora de smoking e sapatos pretos de polimento em festejos de fim-de-ano.

Prouvera eu, nesta transição de ano, não ter pensamentos pessimistas, ainda que devidamente fundamentados pelo “status quo” actual. Aliás um meu saudoso amigo, falecido há anos, dizia-me ser preferível um pessimista que se engana a ser um optimista que se engana. Comungo dessa opinião numa governação do Partido Socialista optimista até dizer basta!

CRISTIANISMO, HUMANISMO, POSITIVISMO E MARXISMO, PONTOS DE APROXIMAÇÃO E DE AFASTAMENTO

Texto do Professor A. Galopim de Carvalho O elitismo académico já teve o seu tempo. Agora é tempo de abordar “todos os saberes” “com toda a ...