sábado, 20 de agosto de 2016

TOP500 DOS SUPERCOMPUTADORES


Em Junho passado foi anunciada a nova lista dos maiores supercomputadores do mundo. A China já tinha o 1.º lugar com o Tianhe2, que rendia 33,86 petaflops, Agora houve uma entrada directa para o primeiro lugar doutro supercomputador chinês, o Sunway TaihuLight, que consegue 93,01 Teraflops, ficando o Tianhe2 relegado para 2.º lugar. Os 4 lugares seguintes mantêm-se: são ocupador por dois supercomputadores americanos, o Titan e o Sequoia, um japonês, o K-computer, outro americano, o Mira. Um outro sistema americano, o Trinity, entra para o 7.º lugar relegando o sistema suíço Piz Daint para o 8.º lugar. Os 9.º e 10.º lugar são novos, o sistema alemão Hazel Hen e o sistema saudita Shaheen II. Por fabricantes, a Cray ganha no top10 por ter 5 sistemas. Segue-se a IBM com 3,  a TRCPC e a NUDT (as duas chinesas) e a Fujitsu (japonesa) com um cada uma. Eis a lista: 

 Rank / Site /System / Cores Rmax (TFlop/s) / Rpeak (TFlop/s) / Power (kW)

1 National Supercomputing Center in Wuxi China / Sunway TaihuLight - Sunway MPP, Sunway SW26010 260C 1.45GHz, Sunway NRCPC /10,649,600 / 93,014.6 / 125,435.9 / 15,371

2 National Super Computer Center in Guangzhou China / Tianhe-2 (MilkyWay-2) - TH-IVB-FEP Cluster, Intel Xeon E5-2692 12C 2.200GHz, TH Express-2, Intel Xeon Phi 31S1P NUDT  / 3,120,000 / 33,862.7 / 54,902.4 / 17,808

3 DOE/SC/Oak Ridge National Laboratory United States / Titan - Cray XK7 , Opteron 6274 16C 2.200GHz, Cray Gemini interconnect, NVIDIA K20x Cray Inc. / 560,640 / 17,590.0 / 27,112.5 / 8,209

4 DOE/NNSA/LLNL United States Sequoia - BlueGene/Q, Power BQC 16C 1.60 GHz, Custom IBM/1,572,864 / 17,173.2 / 20,132.7 / 7,890

5 RIKEN Advanced Institute for Computational Science (AICS) Japan / K computer, SPARC64 VIIIfx 2.0GHz, Tofu interconnect Fujitsu /705,024/ 10,510.0 /11,280.4 / 12,660

6 DOE/SC/Argonne National Laboratory United States / Mira - BlueGene/Q, Power BQC 16C 1.60GHz, Custom IBM / 786,432 / 8,586.6 / 10,066.3 / 3,945

7 DOE/NNSA/LANL/SNL United States /Trinity - Cray XC40, Xeon E5-2698v3 16C 2.3GHz, Aries interconnect Cray Inc./ 301,056 /8,100.9 / 11,078.9 / -

8 Swiss National Supercomputing Centre (CSCS) Switzerland / Piz Daint - Cray XC30, Xeon E5-2670 8C 2.600GHz, Aries interconnect , NVIDIA K20x Cray Inc. / 115,984 / 6,271.0 7,788.9 / 2,325

9 HLRS - Höchstleistungsrechenzentrum Stuttgart Germany / Hazel Hen - Cray XC40, Xeon E5-2680v3 12C 2.5GHz, Aries interconnect Cray Inc. /185,088 / 5,640.2 / 7,403.5/ -

10 King Abdullah University of Science and Technology Saudi Arabia / Shaheen II - Cray XC40, Xeon E5-2698v3 16C 2.3 GHz, Aries interconnect Cray Inc., / 196,608, /5,537,0, /7,235,2, /2,834

na imagem o n.º 1, o Sunway TaihuLight, que tem mais de dez milhões de processadores.

quinta-feira, 18 de agosto de 2016

"A educação deu-me cabeça para pensar"

"Naquela época, quando éramos crianças, corríamos descalças quase oito quilómetros para ir à escola (...) Em África acreditamos que a escola é fundamental para conseguir uma vida melhor. O meu pai não ficou satisfeito quando comecei com os dardos, a treinar e a competir, porque ele queria que eu continuasse a estudar. A educação é muito importante. Deu-me cabeça para pensar."
Julius Yego, nascido e criado no interior do Quénia, quis aprender a lançar dardos. E conseguiu-o, primeiro sozinho, depois com a ajuda de amigos. Via na internet como faziam os seus heróis e praticava. Não teve treinador, nem equipa de apoio. Teve paus, determinação e informação.

Seria de esperar que nem se referisse à escola, afinal não foi lá que aprendeu a arte que o tornou campeão mundial e olímpico, mas não é assim. Julius Yego explica em quatro breves palavras a importância da educação formal: "Deu-me cabeça para pensar."

Jacint Verdaguer




Cheguei a alguns poetas através da leitura de ensaios de Claudio Magris, Josep Pla, Ryszard Kapuściński e Roberto Bolaño, todos eles com o gosto de viajar em comum. Foi assim com Vicente Huidobro, Mihai Eminescu, Ernesto Cardenal, Carlo Michelstaedter, Dino Campana, Ivan Drach, José Maria Valverde, Yéghiché Tcharents, Nezami, Jacint Verdaguer…
Em Al Cel, livro do poeta Jacint Verdaguer, dedicado em exclusivo à música das esferas celestes, encontrei o poema La Via Lactea, que, por entender pouco o catalão, deixo aqui o original.

La Via Lactea

¿Qes aqueix riu d'estreles

 que con anell guarnit de pedres fine

 cenyeix l'immensitat de l'hemisferi?
 Jo ho preguntí als mitolecs,
i un respongué:- Es un raig de llet de Juno
caigut mentres donava l pit a Hercules. -

Altre m digué que Faetó, al caure
de son carro de foc, un astre, eixint-se
de son camí ordinari,
socarrimà l'espai en sa carrera.
 
 
No gaire satisfet de la resposta,
ne demanava als filosops i astronoms.
Me respongué Aristotil: - Es un nuvol
de vapors secs que més amunt de l'eter
cabellera de flames arrossega.
-No! - digué un seu deixeble. - En el principi,
al començar lo sol els seus viatges
per la volta estelífera, son carro

deixâ en el firmament eixa rodera.
- Jo crec- digué Democrit
que es la claror dels astres que a miriades
en la blavor siderea s'acongesten
com sobre l Nil els platejats nenufars. -
Demaní son parer a Teofrastes,
i em respongué : - Això es la soldadura
ab que Déu encaixà ls dos hemisferis
que formen l'estrellada. Per l'escletxa
que deixa lo cosit, la llum de dintre
del firmament brolla i traspua a fòra.


Demaní l seu a un vell pastor de Nuria,
i em digué que es la via de Sant Jaume,
per on, a son exemple,
les animes sen pugen a la Gloria.
 
No sabia més lletra que ses cabres,
el vell pastor de Nuria,
més posí sa contesta lluminosa
damunt la d' Aristotil
i la de tots els savis de la Grecia.
 

No endereço http://bdh-rd.bne.es/viewer.vm?id=0000128416&page=1 pode se consultar a obra.

segunda-feira, 15 de agosto de 2016

A FÍSICA DE USAIN BOLT


Fiz declarações ao Observador sobre a performance de Usain Bolt, agora tricampeão olímpico dos 10 metros. Ler aqui.

O GRANDE ASIMOV


Tenho uma enorme admiração por Isaac Asimov, bioquímico norte-americano de origem russa  e escritor de ficção científica e de divulgação científica. Ele escreveu mais de 500 livros ao longo da sua vida, sendo por isso um dos escritores mais prolíficos de sempre. Eu sei que Corin Tellado e Enid Blyton estão nessa lista, mas Asimov é, na minha opinião, muito melhor. Asimov aliava quantidade e qualidade: nos seus textos de ficção científico, é um mestre do género, a par de Robert Heinlein e Arthur C. Clarke. E, nos seus escritos de divulgação científica, a sua claridade e simplicidade são difíceis de ultrapassar. Consta que, numa "corrida" de táxi em Nova Iorque, Asimov e Clarke fizeram um pacto: Asimov concordava que Clarke era o maior na ficção científica, ficando para si o segundo lugar, ao passo que que Clarke concordava que Asimov era o maior na escrita de ciência, ficando para si o segundo lugar. Este acordo de cavalheiros, que ficou conhecido por "Acordo de Park Avenue", foi sempre respeitado.

O que existe traduzido em português é uma pálida sombra do que ele escreveu em inglês. Encontrei na Wook cerca de 20 livros dele e no catálogo da Biblioteca Nacional há cerca de 60. Portanto, uma insignificância comparada com o total...

Quando vejo livros de Asimov, por vezes em saldos, não resisto, apesar de já ter bastantes. Acontece-me comprar livros que já tinha e dou-os com todo o gosto ao Rómulo - Centro Ciência Viva da Universidade de Coimbra. Foi o que aconteceu agora com De todo o lado, publicado em 2004 na colecção "Vida e Cultura" da Livros do Brasil, que encontrei na Feira do Livro da Figueira da Foz. Reli alguns capítulos desta compilação de sábias crónicas de ciência publicadas numa revista de ficção científica.

Nem todas as crónicas são de ciência, pois Asimov conseguia escrever sobre qualquer assunto. Ou quase: consta que terá escrito sobre todas as categorias da classificação decimal universal das bibliotecas, excepto filosofia (apesar de ser ateu, escreveu sobre religião, incluindo um guia para leitura da Bíblia, um livro que ele conhecia muito bem).

Na última parte do livro, intitulada modestamente Algo extra, Asimov inclui a crónica  "Um poeta sagrado", na qual discorre sobre o efeito social da poesia, um tema também caro a Rómulo de Carvalho. Na introdução, o autor confessa a sua incerteza quanto à sua abordagem do assunto, até por causa da sua dificuldade perante alguma poesia moderna, mas a crónica revelou-se um êxito, tendo gerado mais comentários do que qualquer outra da série (e foram muitas). Asimov chama, no seu texto, a atenção para o facto de por vezes poemas que literariamente não são conseguidos terem conseguido um efeito social extraordinário ao deixarem uma memória indelével. Parte de uma citação de Horácio:
"Muitos homens corajosos viveram antes de Agamémnon, mas todos estão soterrados na noite eterna, sem lágrimas derramadas por eles, desconhecidos, porque lhes falta um poeta sagrado." 
Pois houve depois de Agamémnon muitos heróis a quem não faltaram poetas. Asimov dá vários exemplos da historia americana, incluindo a origem do hino nacional, que temos ouvido muito durante os Jogos Olímpicos do Rio. Uma agradável leitura de Verão. Se virem, o Asimov não o deixem escapar.

domingo, 14 de agosto de 2016

Que fazer com o Islão?


"Um intelectual é tão frequentemente um imbecil que devíamos sempre, 
à partida, tê-lo como tal, até que tenha provado o contrário”
Georges Bernanos


1. Não há dois Islāos. Está tudo no mesmo, a face tolerante e a intolerante, guerreira e sanguinária. Há um só Islão, que os muçulmanos — e só eles, não “nós”, não o “outro” têm de libertar do que contém de obscurantista, obsoleto e intolerável.
Ignorarmos ou fingir que a tragédia do Islão e dos muçulmanos não é marcada por essa dimensão religiosa só contribui para adiar a consciência e prolongar a passividade relativamente a uma realidade que os muçulmanos têm de enfrentar.
Se o Islão não contivesse essa dimensão de intolerância, violência e guerra santa, não era possível a fanatização em massa a que se assiste. É essa dimensão de um Islão desde sempre refém de poderes e ambições políticas, que que seja usado por líderes, bem esclarecidos e pragmáticos esses, com projectos políticos coerentes e historicamente sustentados. Um desses projectos sempre recorrente é o sonho fantasmático do regresso ao califado. É à luz dessa ambição e desse projecto que se pode compreender toda o quadro da guerra na Síria, no Iraque e na Líbia conduzida pelo Exército Islâmico e a atracção de tantos combatentes às suas hostes.
Não é, pois, por se sentirem humilhados e ofendidos pelo Ocidente que se radicalizam e matam, cómoda ideia feita do politicamente correcto, que evita aos intelectuais ocidentais afirmar o que é evidente e aos políticos enfrentar eficazmente o nazismo islamita: o factor religião é autónomo e determinante, só ele pode explicar o fanatismo dos que se entregam ao autossacrifício.
É pelo Islão que matam e morrem. Só por uma promessa transcendente se mata e se morre assim, neste caso pela crença obscena num deus odioso e absurdo. Ossama Bin Laden: “Nós amamos a morte mais do que vós, ocidentais, amais a vida”.
Induzida pelo marxismo, cimentou-se no Ocidente a visão da religião como um epifenómeno, uma manifestação superestrutural nāo determinante. Por isso o desaparecimento ou a desvalorização nas Universidades dos estudos sobre as religiões. Como observou alguém com argúcia, “laicizou-se a religião e teologizou-se a política”.
Ora, a dimensão religiosa, deliberadamente ignorada pelas elites académicas e pelos políticos, é um factor determinante e explicativo essencial da tragédia do Islão, que alastra ao Ocidente e ao Mundo, começando a explodir dentro das nossas fronteiras. A incompreensão desse factor bloqueia nos vários países do Ocidente a contenção e intervenção eficazes no terreno e junto das comunidades emigrantes.
2. No passado e no presente, milhares e milhares de muçulmanos morreram e morrem por viverem, por quererem viver, uma fé, um Islão pacífico e tolerante.
Esses muçulmanos foram e são o primeiro alvo do ódio, do projecto e ambições políticas desse Islão integrista que tem devastado os países do Médio Oriente e da África.
Hoje como ao longo da História, inúmeros intelectuais islâmicos, nos vários países do Médio Oriente, foram assassinados e são perseguidos por combaterem por um Islão iluminado, livre desse passado original, um Islão que nāo divida o mundo entre crentes e não crentes, que conviva com as outras religiões, que permita o progresso e o desenvolvimento das sociedades muçulmanas.
Sāo esses combatentes que o Ocidente tem de apoiar. Apoiar em vez de enfraquecer, como, afinal, fazem (também entre nós) muitos intelectuais, quando tentam, depois de cada atentado sanguinário num país europeu, culpabilizar-nos a nós próprios pela tragédia, quase pedindo desculpa aos assassinos, que pintam como vitimas do passado colonial ou das nossas sociedades desintegradoras. “Como se se tratasse de terrorismo social”. Todos os indicadores desmentem essa explicação sociológica.
3. Os muçulmanos têm dois problemas a enfrentar.
Um é reforma do Islāo, enfrentarem o que no Islāo o torna uma ameaça para todo o mundo e vencer os que estāo a levá-la a todas as latitudes, parando o pavor e a repulsa global crescentes, humanamente compreensíveis, por esta religião.
O outro é compatibilizar o Islāo reformado, extirpado da intolerância, inspiração e guia, mas não lei civil, com a modernização e o desenvolvimento. Enquanto este último desafio não for vencido, o outro não será ganho, mantendo-se o circulo vicioso — social-político-religioso — que está na origem e tem determinado o beco sem saída da tragédia das sociedades islâmicas do Médio Oriente e da África. A Turquia progrediu e desenvolveu-se porque se laicisou…
4. “Que fazer com os muçulmanos?” (a frase é de Sarkozy num outro contexto) Um grande intelectual árabe, Kamel Daoud, combatente de um Islão iluminado perseguido pelo poder religioso no seu país, a Argélia, na coluna que assina na revista liberal Le Point, prolongava esta pergunta para terminar com uma formulação arrepiante: que fazer com o Islāo, que fazer com os islâmicos, que fazer com o outro, que fazer… de mim e dos meus?
No impacto das notícias assustadoras do dia, na torrente de fait diversque os média não param de despejar, no torvelinho deste tempo sem tempo para reflexão, esquece-se que este Islão com que o mundo se confronta, sendo fé, é também identidade – alma, cimento, substracto agregador que dá sentido à existência de milhões de seres humanos. O emaranhado confessional desliza para o identitário…
“O Islão interdita que se verta o sangue de outrem”, afirma o Cheikh Ahmed al-Tayeb, grande íman de Al-Azhar, a instituição mais antiga e respeitada do islão sunita. Como conjugar e digerir a contradição desta afirmação com as outras, igualmente apoiadas no Alcorão, que levam ao sacrifício e ao assassinato sanguinário, em nome da mesma religião, de milhares de vítimas*? Crimes ordenados por poderes religiosos que se apresentam com igual legitimidade, recorrendo a textos e ao exemplo de actos igualmente atribuídos ao Profeta? Como viver com esta contradição, como têm de viver com ela milhões de homens, mulheres e crianças crentes inocentes espalhados pelo planeta? Como convivem com o pavor e a animosidade crescentes, justificadíssimas, contra esta religião que tarda em civilizar-se?
5. Que fazer com os islamitas? Sigamos o texto de Kamel Daoud, que refere soluções diferentes conforme os países, mas sempre, explica, mantendo-se todas elas num círculo que arrasta o problema: em vez de atacar as causas que produzem os islamitas, as instâncias que os fabricam — as escolas, os media e as mesquitas — tenta-se erradicá-los depois. E porquê? Porque, diz Daoud, as reformas que deveriam ser implementadas para acabar com o aparecimento de extremistas, ameaçariam também esses regimes, levando a médio prazo à sua contestação e à sua queda.
Isto é, esse compromisso entre os regimes desses países e os clérigos conservadores e integristas cujo poder impede a reforma do Islão, imobiliza também a sociedade civil, condenando esses países à pobreza e ao atraso. Segundo Daoud é, por exemplo, o caso do Egipto.
E reencontramos assim o circulo vicioso, social-político-religioso, que parece fazer do Islāo um problema insolúvel, um drama interminável. “Que fazer com o Islão?”
6. A situação no Médio Oriente, interna e nas suas projeções externas, é um emaranhado de manifestações e determinações que tornam impossível a exposição e visão sistemáticas. Várias dessas manifestações e determinações exigem, para serem compreendidas (e enfrentadas) conhecimento e reflexão histórica laboriosos. Outras exigem conhecimento profundo da realidade religiosa, do seu cruzamento com a complexidade e a diversidade dos cenários políticos, com o entendimento do labirinto dos desígnios de poder, com a realidade social, a pobreza, o atraso educativo, o subdesenvolvimento endémico, aparentemente sem saída.
É esta dificuldade que explica a redundância dos textos da generalidade dos comentadores e a irrelevância da generalidade das interpretações. Explica também em grande medida, o desastre da intervenção dos países ocidentais. Posição e intervenção condicionadas também pelo jogo dos interesses económicos e estratégicos imediatos, mas também pelas visões deterministas e sociológicas explicativas que remetem para uma má consciência cujas razões os factos contrariam (nomeadamente a origem nacional e social dos terroristas e o seu nível educativo; e também a sua situação familiar). José Manuel Fernandes referia como “os nossos eleitos, os nossos políticos, não sabem o que fazer e ainda menos o que dizer, pois quase só proferem inanidades que nada adiantam”.
7. Numa entrevista que é um testamento político (Le Point, 23-6), Michel Rocard dizia que para dirigir uma sociedade é preciso compreendê-la, ora os políticos são uma categoria da população que fustigada pela falta de tempo e o fim da cultura na escola deixou de ler, “Nem serāo nem fim de semana tranquilo, sem um único momento para lerem e reflectirem, e a leitura é a chave da reflexão. (A reflexão só lhes revelaria, aliás, serem eles e os seus actos, em grande medida, os responsáveis pelos desastres…)
Não inventam, portanto, nada”. As eleições sucedem-se, mas nāo há projectos políticos transformadores.
Que fazer com as disfunções crescentes do nosso modelo político?
* Do mesmo modo que se conjugaram e foram sendo resolvidas, na História e também com muitos conflitos e sofrimento, muitas das contradições da Igreja cristã. Apesar do Cristianismo ter na sua origem a separação luminosa entre o que é de Deus e o que é de César, a palavra fundadora de Cristo de que o seu reino não é deste mundo. Como diz o Padre Anselmo Borges no seu último livro: «a Igreja e a Cúria Romana fizeram mais ateus que Marx, Nietzsche e Freud”.

Guilherme Valente

No cinema os cientistas são loucos, maus ou perigosos

Rowang, o cientista do filme Metropólis

O meu artigo mais recente no Público:

Conheço muitos cientistas. Mas sei que a maior parte das pessoas se cruza com os cientistas principalmente na ficção. E desde há muito que o conhecimento inspira medo na literatura ocidental, sendo muitas vezes uma ponte entre o bem e o mal. A partir do século XX o cinema fez questão de usar o som, as cores, as animações gráficas e outras tecnologias tornadas possíveis pela ciência para construir uma imagem terrivelmente negativa dos cientistas.

Texto completo aqui.

O CÓDIGO DO ALQUIMISTA



Philip Kerr é um escritor britânico de 60 anos autor de vários thrillers que foram sucessos de vendas. Em Portugal estão publicados nove livros dele, a maior parte na Porto Editora e nas Edições Asa, tendo um (“Um Assassino entre os Filósofos”) aparecido na Presença.

Já tinha há algum tempo “O Código do Alquimistas. A vida privada de Isaac Newton”, saído nas Edições ASA em 2008 (o original, de título “Dark matter”,  é de 2002), mas só há pouco tive oportunidade de o ler. Como todos os thrillers lê-se rapidamente. É ficção histórica montada sobre o período da vida de Isaac Newton em que ele presidiu à Casa da Moeda britânica. O relato é de um seu assistente, um tal Christopher Ellis, de quem pouco se sabe. O autor, que leu a biografia de referência de Newton, da autoria de  Richard Westfall, efabula baseado no seu conhecimento do ambiente e dos factos da época: Newton é apresentado como uma espécie de Sherlock Holmes, uma mente brilhante que persegue implacavelmente os falsificadores de moeda. Parece-se com um policial. A  faceta de Newton como alquimista e  teólogo secretos não são esquecidas, embora Newton tivesse feito o máximo para a esconder em vida. Pouco há de ciência no livro, para além de algumas frases de Newton sobre a sua obra científica que são verdadeiras. thrillers do género. Há um código, difícil de decifrar, tal como é costume em livros do tipo "Código da Vinci" (não sou apreciador, confesso). O sistema de codificação em causa terá existido mesmo. E há muito sangue (as execuções de alguns bandidos eram um espectáculo tenebroso na Londres da época) e também algum sexo. Não, não é a pessoa de Newton que mostra essa faceta, apesar do título poder enganar.  Sobre este aspecto da vida privada sabe-se muito pouco: nunca casou e não se lhe conheceram namoradas.  O jovem Christopher apaixona-se por uma sobrinha de Newton de seu nome Catherine Barton (ou melhor meia sobrinha, porque é filha  de uma meia-irmã de Newton: a mãe de Newton casou em segundas núpcias uma vez que o pai de Newton, Isaac como ele, morreu antes de ele nascer). Mas, por razões religiosas – Christopher é ateu-, a ligação esvaiu-se tão depressa quanto começou. E o pobre enamorado acaba por descobrir, da pior maneira, que a sua amada era amante de Charles Montagu,  o conde de Halifax, um notável político e poeta britânico. Na realidade, ela poderá ter mesmo sido amante de Montagu, em casa de quem viveu, mas é falso o boato de que Newton terá sido favorecido profissionalmente graças aos encantos da sua meia-sobrinha (Voltaire, que gostava de conversar com miss Barton,  poderá ter sido o responsável pelo espalhamento do boato).  Certo é que miss Barton veio mais tarde a casar, depois de um namoro curto, com um outro político, John Conduit, em 1717, dez anos antes da morte de Newton (o funeral de Newton é narrado no livro). O casal Conduit está sepultado na Abadia de Westminster ao lado de Newton. O grande sábio, normalmente um homem áspero, tinha uma particular predilecção por miss Barton, uma rapariga de muito espírito, conforme aliás se pode perceber da leitura deste romance.

A Colecção Privada de Acácio Nobre


Patrícia Portela é uma das escritoras mais originais da geração pós 25 de Abril (nasceu em 1974), Distingue-.se na exploração de relações entre as artes (não apenas literárias, mas também performativas) e a ciência e a técnica. Escreveu, entre outros, Para Cima e não para Norte (2008) sobre um mundo bidimensional e Wasteband (2014) sobre uma viagem espacial, obras sem paralelo na literatura portuguesa contemporânea. Além de escritora, Portela é performer e alguns dos seus livros estão associados a experiências em palco. 

A Colecção Privada de Acácio Nobre (2016), saído na Caminho, é o seu último livro. É de difícil caracterização: talvez ficção histórica, mas cruza-se com ficção científica e ficção artística. A autora inventou um personagem, Acácio Nobre (1869?-1968: uma figura centenária ou quase!), e apresenta-o através de um meticuloso arquivo de documentos e objectos. Nobre é uma espécie de génio ignorado, inventor, designer de jogos geométricos e puzzles, pintor, artista de vanguarda e pedagogo (pugna pela introdução de Kindergartens em Portugal centrados no desenvolvimento dos talentos artísticos das crianças). A narrativa - que é, no fundo, uma biografia de Nobre -  assenta na descrição do espólio, entrecortado por explicativas notas de rodapé, a trasncrição do testemunho de uma  amante de Nobre, que integrou o selecto Clube de Amigos de Acácio Nobre, que tem o hábito de dizer três asneiras em cada duas palavras, e uma “cronologia acaciana”, que mostra o desenrolar do mundo ao longo da vida de Acácio (a maior parte são dados da Wikipédia, mas  há ficção em quase todos os anos: Acácio tem o condão de se intrometer na vida de artistas como Fernando Pessoa, Mário de Sá Carneiro, Sofia Delaunay, etc. A vida do artista é mirabolante, não havendo qualquer preocupação de verosimilhança: passa, por exemplo, a Segunda Guerra Mundial disfarçado de freira num convento belga e morre em Paris no Maio de 1968, convencido que está no meio de uma revolução libertadora em Portugal. A autora joga na ilusão entre o real e o virtual, mas o leitor desprevenido que pense que Acácio tenha alguma realidade depressa se desilude. 

Acácio Nobre, aqui resgatado do “esquecimento”, é apresentado como um visionário, um Steve Jobs lusitano muito antes do tempo. Leia-se, do espólio, a carta que ele escreve a 27 de Outubro de 1899 a João Franco, ministro e secretário de Estado do Reino:

 "Acredito que a arte e a ciência produzem mudanças fundamentais na sociedade e que, através de uma educação específica, poderemos construir um espaço onde surjam artistas e cientistas pioneiros que se unam para transformar um século. Sobre o que esta educação pode ser (e já está a ser!), relembro-lhe que um pouco por toda a Europa as tendas de efeitos óticos são cada vez mais populares e têm participado de forma indireta e preciosa na educação social e na revolução das ideias. Ai se a política ousasse, na figura de V. Excelência, aliar-se à arte e à ciência nesta vontade de dominar o abstrato... 

O entusiasmo declarado e oficial de Vossa Excelências pela próxima Exposição Universal dá-me mostras dessa possível união; aliás, aproveito para lhe dar a conhecer a minha primeira máquina para ver e sentir a 4 dimensões dedicada a David Brewster”. 

Esta, como outras obras da autora, foi primeiro apresentada em palco antes de surgir entre as capas de um livro, cheio de fotos a preto e branco de escritos e objectos do espólio, que incluem puzzles, um vídeojogo num osciloscópio antigo, microarte (arte para ser vista ao microscópio) e até uma peça de joalharia que seria um brinquedo sexual. A parafernália de objectos acacianos é tão delirante quanto a vida do ignorado Nobre, que partilha o nome com o pseudo-intelectual conselheiro inventado por Eça. 

Em resumo, um livro muito original e estimulante. Pode-se recolher nele muita indormação sobre as artes e as ciências no final do século XIX e início do século XX. Mas há algumas falhas na informações sobre factos reais, como quando se fala de uma “filha única” de Karl Marx (de facto, teve quatro), se diz que Roentgen descobriu a radiação electromagnética (descobriu os raios X), que a Fundação Gulbenkian foi criada em 1953 (foi-o em 1956), que a primeira emissão da RTP foi em 1957 (foi em 1956, embora ainda experimental), ou que o sincrotão de protões do CERN começou a funcionar em 1960 (começou em 1959). Ma isto são pormenores que não diminuem o interesse deste surpreendente livro.

UM CAMINHO CURRICULAR PARA A FORMAÇÃO HUMANISTA?

Entenda-se este texto não como um elogio acrítico a uma nova escola de iniciativa privada, mas como uma reflexão acerca da estrutura curricu...