sexta-feira, 7 de novembro de 2014

TOP TEN DOS POSTS MAIS VISTOS DE SEMPRE: EUROPEAN SCIENCE FOUNDATION DESTACADA EM 1.º LUGAR

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Portugal entre os 10 países europeus com pior desempenho na Educação

Notícia da TVI24:

Portugal caiu para o grupo dos dez países europeus com pior classificação na área da Educação, mas manteve em 2013 o 27.º lugar no Índice global de Prosperidade que avalia 142 países, divulgado este domingo.

De acordo com a Lusa, Portugal desceu de 33.º em 2012 para 47.º lugar no ano passado em Educação, estando agora abaixo de países como a Mongólia, Montenegro, Emirados Árabes Unidos ou Rússia.
Apenas 77% dos portugueses estão satisfeitos com a qualidade da Educação e acreditam que as crianças estão a aprender na escola, o valor mais baixo de sempre…


http://www.tvi24.iol.pt/sociedade/indice/portugal-entre-os-10-paises-europeus-com-pior-desempenho-na-educacao

O que falta a Portugal?



Viriato Soromenho Marques cita Antero de Quental na 1.ª das Novas Conferências do Casino com Eduardo Lourenço e Annabela Rita na mesa.

António Nóvoa: "Nunca tivemos uma política educativa tão extremista"

Entrevista de António Nóvoa ao Jornal de Negócios: aqui.

O senhor Justo pode e manda

Artigo de Luís Osório no jornal I sobre a recusa de uma sala da Faculdade de Direito de Coimbra para um debate sobre ideologias:
  
O senhor Justo é apenas uma triste metáfora de um género de homens

O caso de censura na Faculdade de Direito de Coimbra é a prova de que estamos pior do que imaginávamos. Proibir um debate entre Rui Tavares e Pedro Mexia por não desejar abrir as portas a conversas ideológicas é uma vergonha e um embaraço. Tendo em conta que a crise académica de 1969 ali nasceu, muito pelo protagonismo de Alberto Martins e Osvaldo Castro, com as consequências que se conhecem para o marcelismo; tendo em conta que ali se formaram homens e mulheres que combateram pela democracia e contra a democracia, pela República e a favor da monarquia, pela guerra colonial e contra a guerra colonial, pela Europa e contra a Europa, pelo PREC e contra o PREC; tendo em conta tudo isto, é surreal que o senhor António Santos Justo, um obscuro director com uma vontade desgraçada de ser maior do que é, tenha resolvido sair do anonimato para, com estrondo, dizer das suas saudades em relação a outro filho da distinta faculdade: António Oliveira Salazar.

Proibir um debate por ser ideológico é regressar a um tempo em que discutir ideias com mais de três pessoas era subversivo. Mas achar que pode fazêlo, numa faculdade onde o confronto de ideias e a tolerância são ainda mais vitais para a saúde da democracia, é um sinal ainda mais preocupante. Porque se o faz é por achar que o pode fazer. Por achar que as portas da faculdade não se podem abrir para sujeitos radicais ali discutirem política, discutirem ideias que sejam contrárias, à direita ou à esquerda, ao poder dominante, à ortodoxia que o senhor director julga ser a predominante. O senhor Justo é apenas uma metáfora de um género de homens que encontramos em todos os regimes, subserviente em relação aos poderes, quaisquer que eles sejam – por isso mesmo avesso a discussões ideológicas e a ruído de fundo. O que seria deste homem se fosse director com alunos como Mário Soares, Durão Barroso ou Jorge Sampaio? Os três, de uma maneira ou de outra, agitaram as paredes da Faculdade de Direito de Lisboa e lutaram por um regime diferente da verdade que era adquirida pelo statu quo. O que seria de toda esta gente se tivesse conhecido o senhor Justo? E o que seria em Coimbra de Vital Moreira, Gomes Canotilho, Rui Alarcão ou Alberto Martins?

A democracia está doente. Ligada a uma máquina. E perto da máquina estão homens que por sua vontade a desligariam de vez. É preciso cortar o mal pela raiz. Não é admissível, em nome de um regime pelo qual tantos arriscaram a vida, “o pior regime à excepção de todos os outros”, admitir que existam pessoas como o director da Faculdade de Direito de Coimbra. Uma verdadeira vergonha no dia em que foi condecorado Durão Barroso e um mês antes de Soares completar 90 anos.


Jornal I, 2014.11.04

quinta-feira, 6 de novembro de 2014

Alunos portugueses têm das mais pesadas cargas horárias no 1.º ciclo

Artigo da jornalista Maria João Lopes no Público sobre um estudo que indicia tempo a mais (designadamente Matemática) no 1.º ciclo do básico: 

 A língua materna ocupa uma percentagem menor no currículo dos quatro primeiros anos do que a generalidade dos países.

 Os alunos portugueses têm, actualmente, mais ou menos tempo de aulas do que há uns anos? Esta foi uma das questões que levaram quatro investigadoras a analisar a evolução da carga horária em Portugal. A conclusão é a de que há “uma tendência para uma certa diminuição desde 1989 até ao presente”. Ainda assim, Portugal continua a ser um dos países que têm mais carga horária no 1.º ciclo, diz a investigadora Maria Isabel Festas. Nos primeiros quatro anos, os alunos somam 3744 horas de aulas.

 O estudo, da Fundação Francisco Manuel dos Santos, chama-se Os tempos na escola – Estudo comparativo da carga horária em Portugal e noutros países e, além de Maria Isabel Festas, as autoras são Ana Maria Seixas, Armanda Matos, Patrícia Fernandes. As investigadoras destacam o facto de que a diminuição da carga horária que se tem registado ao longo dos tempos não ter incidido nos quatro primeiros anos de escolaridade, “período grandemente responsável pelo maior número de horas que Portugal apresenta” relativamente a outros países. As autoras analisaram as cargas horárias semanais, totais e de Português e de Matemática, dos 1.º, 2.º e 3.º ciclos do ensino básico.

Para tal, debruçaram-se sobre os tempos lectivos legalmente definidos em 1989, 2001, 2002, 2012 e 2013. No 1.º ciclo, em 1989, a carga era de 25 horas semanais. Em 2013 varia entre as 22 horas e 30 minutos e as mesmas 25 horas, o que leva as investigadoras a considerar que o 1.º ciclo foi “o único que manteve o mesmo número de horas ao longo do período analisado, apesar de, a partir de 2013, as escolas terem a possibilidade de reduzir um pouco a carga horária”. Em 1989, do 5.º ao 9.º ano, a carga oscilava entre 30 a 31 horas. Em 2013, entre 22 horas e 30 minutos e 25 horas e 30 minutos…
~
   http://www.publico.pt/sociedade/noticia/tempo-de-aulas-em-portugal-tem-vindo-a-diminuir-1675237 Público, 2014.11.05

UM COMEDIANTE NO PARLAMENTO



O ministro da Economia, o mesmo que acha que os cientistas portugueses estão longe das "empresas e da vida real", descobriu subitamente uma vocação de comediante, oferecendo-nos esta rábula no Parlamento. Receio que uma parte do estilo do ministro se tenha perdido na tradução em linguagem gestual.

ADENDA ESOTÉRICA CONFIRMA A EXISTÊNCIA DE QUOTAS NA AVALIAÇÃO DAS UNIDADES


A adenda ao contrato de avaliação das unidades de investigação foi hoje finalmente divulgada pela FCT. As misteriosas “adendas” foram mencionadas várias vezes por Nuno Crato e por Miguel Seabra argumentando que a quota de 50% estabelecida no contrato entre a FCT e a ESF seria, de algum modo, anulada por essas “adendas” que não se conheciam. Isso mesmo se lê numa mensagem que a FCT fez questão de enviar a milhares de investigadores no dia 30 de Julho de 2014 às 18h:
"Não é verdade que o contrato assinado entre a FCT e a European Science Foundation (ESF) exclua automaticamente metade das unidades da segunda fase da avaliação. O conteúdo do contrato reflete estimativas que marcam o ponto de partida para estabelecer os valores do contrato em função das despesas previstas e do trabalho envolvido em cada etapa. As estimativas descritas no contrato com a ESF têm em conta o cenário atual para as unidades (cerca de 30% com classificação Bom) e o que aconteceu no concurso de 2007 (em que cerca de 20% ficaram abaixo de Bom). Esta estimativa não significa que, na hipótese de se vir a registar uma desproporção entre essas estimativas e o volume de unidades a passar à segunda fase, não seriam revistos os custos e as condições do contrato. De facto, algumas estimativas feitas não se concretizaram e estamos a preparar adendas ao contrato com revisão e ajustamento dos valores relevantes.”
Passando à frente do facto de a direcção da FCT falar em “adendas” e agora apresentar uma “adenda”, essa em nada altera a quota de 50% imposta pelo contrato para a passagem das unidades de investigação à segunda fase da avaliação.

Acenar com "caixas negras" para explicar coisas que não se percebem não é um bom sinal para pessoas que são responsáveis pela política de ciência em Portugal. Ainda para mais quando essas caixas negras não têm lá dentro o que se diz. O que é que isto faz lembrar?

SUICÍDIO ASSISTIDO


Minha resposta publicada hoje no I à pergunta da jornalista Marta Reis a propósito do recente suicídio assistido no estado de Oregon, EUA:

Numa situação de doença terminal, gostaria de ter o direito a morrer? Porquê? Pensa que esta questão deveria ser objecto de um referendo em Portugal ou, pelo menos, ser mais debatida?

Gosto tanto de viver que costumo dizer que, se algum dia aparecer morto, investiguem bem que não fui eu. Isto é, a ideia de suicídio, assistido ou não, nunca me passou me cabeça. Numa situação de doença terminal, eventualmente com sofrimento atroz, como é que reagiria? Não sei, não consigo imaginar. Em abtracto, talvez gostasse de dispor da possibilidade de escolha, precisamente para aliviar o sofrimento, se não houvesse outros meios e julgo que hoje há vários meios. Um referendo para isso não sei, porque em Portugal esse meio de decisão não tem atraído as pessoas.  Mas debater a questão sim, sem dúvida, não deve ser nenhum tabu.  Em Portugal precisamos de mais discussão de questões éticas, essa e outras, que ultrapassam largamente a ciência.

Carlos Fiolhais

Na educação como na medicina...

Quando li no texto Ciência diluídade Carlos Fiolhais,
"Não deixa de ser irónico que os responsáveis directos pela diminuição drástica da ciência sejam todos médicos, tal como o Secretário de Estado Adjunto do Ministro da Saúde. É médica a Secretária de Estado da Ciência e Tecnologia, é médico o Presidente da Fundação para a Ciência e Tecnologia e é médico o Presidente do Conselho Nacional de Ciência e Tecnologia."
não pude deixar de pensar que, lamentavelmente, não é só no domínio da educação que a pseudo-ciência ganha terreno e legitimidade legal. Isso é tanto mais lamentável quando se percebe que a responsabilidade final cabe a pessoas encartadas na matéria.

A medicina, que apesar de muitas derivações, tem conseguido manter um estatuto científico, (presumo que) cede agora a pressões, a modas, ao que quer que seja.

A legitimação de práticas que não são medicina como medicina é uma derrota também para a educação, pois revela que, em termos de pensamento social, ao contrário de caminharmos para uma separação de águas, do que é científico e do que não é, caminhamos para a confusão.

O que eu disse não pode ser interpretado como revelador de uma atitude de cientismo, como é frequente ser interpretado. Reconheço à arte, à religião, à filosofia... a mesma dignidade que reconheço à ciência. Trata-se de formas de conhecimento de que precisamos, mas é preciso percebermos as especificidades e regras de raciocínio de cada uma delas.

Atitude de cientismo denota, sim, quem estando noutra área que não a científica reivindica entrar nela à força e contra todos os argumentos.

quarta-feira, 5 de novembro de 2014

CIÊNCIA DILUÍDA




Minha crónica no Público de hoje:

O Diário da República é uma fonte permanente de surpresas. Foi há pouco nele publicada uma portaria (n.º 207-C/2014), que confere, com as assinaturas do Secretário de Estado Adjunto do Ministro da Saúde e do Secretário de Estado do Ensino Superior, legitimidade terapêutica à homeopatia. Julgava eu que a Saúde e o Ensino Superior tinham outros problemas prementes para resolver, mas aqueles governantes não encontraram nada mais urgente do que conferir respeitabilidade legal a uma pseudo-ciência, isto é, a uma actividade que se faz passar por ciência sem o ser.

O que é a homeopatia? A mais disparatada das assim chamadas medicinas alternativas. A portaria esclarece que os “princípios teóricos” da homeopatia integram a “lei da semelhança” e a “teoria da dose mínima infinitesimal”. A primeira diz que uma doença se cura com o próprio elemento que a causa (à luz dessa lei uma dor de dentes talvez possa ser tratada com rebuçados e caramelos). E a segunda diz que o medicamento a administrar deve estar em dose tão fraca, tão fraca, que não reste praticamente nada da substância activa, o que se consegue com numerosas diluições sucessivas (uma gota de caramelo líquido teria de ser diluída numa quantidade de água equivalente a uma extensa albufeira). Mas, perguntará o leitor com o mínimo de cultura científica, como é que menos pode ser mais, como é que uma dose radicalmente diminuta pode ter algum efeito fisiológico? Pois tem inteira razão ao pensar que, após um tão grande enxaguamento, não restará quase nada do que colocou no início (a probabilidade de encontrar uma só molécula de interesse no fim é inferior à que o leitor tem de levar com um meteorito na cabeça), mas os homeopatas defendem, contra toda a evidência, que a água guarda uma espécie de memória da substância inicial. Os medicamentos homeopáticos são feitos a partir de estranhíssimos princípios activos, alguns potencialmente perigosos para a saúde, mas os danos são evitados uma vez que, após as ditas diluições, no fim não resta deles praticamente nada.

Este escriba, na companhia do bioquímico David Marçal, não hesitou em tomar, no lançamento do seu livro comum onde discutiram a homeopatia (Pipocas com telemóvel e outras histórias de pseudociência, Gradiva, 2012), uma embalagem inteira de um remédio homeopático. Tamanha sobredose seria de uma enorme insensatez caso se tratasse de um medicamento normal. Mas, como os comprimidos que tomaram não passavam de um preparado de água e açúcar, os experimentadores ficaram exactamente na mesma. Que continuam ambos vivos prova-o não só esta crónica mas também a recente publicação de um livro de Marçal (Pseudociência, Fundação Francisco Manuel dos Santos). O que não ficou na mesma foi a sua carteira pois tiveram de dispender, numa farmácia normal e em regime de venda livre, mais de duas dezenas de euros pela caixinha das pílulas mágicas.

Em Portugal e no mundo todos os dias se vendem e consomem inúmeras embalagens desse tipo. Terá o seu conteúdo algum efeito na saúde, já que o efeito na carteira é apreciável? De facto tem, mas não é significativo: trata-se do chamado efeito placebo, que consiste na percepção, subjectiva e transitória, de melhoras por parte de um paciente porque sabe que está a ser tratado. Os medicamentos convencionais têm de passar por um processo demorado de homologação, destinado a provar que o seu efeito é superior ao placebo. Os medicamentos homeopáticos não são submetidos a tais exigências, o que se percebe pois chumbariam em todos os exames desse tipo.

Um governo que regulamenta a homeopatia, limitando a sua prática a quem conheça as supostas “bases teóricas” da actividade, está a justificar o injustificável. Está a validar uma das pseudo-ciências mais grosseiras. O argumento que os governantes podem invocar de que a homeopatria é uma prática socialmente difundida não colhe, uma vez que, por esse raciocínio, teriam de regulamentar a bruxaria, o mau-olhado e todos os videntes que deixam recados nos pára-brisas das nossas viaturas.

O governo que tão bem trata a homeopatia e outras pseudo-ciências é o mesmo que está a atacar a ciência ao pretender desactivar metade dos institutos e laboratórios de investigação nacionais. Para quê, pensará ele, termos ciência se já há pseudo-ciência? Não deixa de ser irónico que os responsáveis directos pela diminuição drástica da ciência sejam todos médicos, tal como o Secretário de Estado Adjunto do Ministro da Saúde. É médica a Secretária de Estado da Ciência e Tecnologia, é médico o Presidente da Fundação para a Ciência e Tecnologia e é médico o Presidente do Conselho Nacional de Ciência e Tecnologia. Acreditarão eles nos princípios da homeopatia? Julgarão eles que com menos ciência o país fica melhor? E que quanto mais diluída for melhor será? Se acreditam, estão, como os homeopatas, perfeitamente enganados. 

O PASSADO NA VOZ DE "OUTROS"


DEBATES SOBRE CIÊNCIAS: O PASSADO NA VOZ DE "OUTROS"

5 de novembro pelas 14.30, no Anfiteatro do Museu da CiênciaCarlos Fiolhais (Físico), A. Gomes Martins (Engenheiro Electrotécnico); João André (Filósofo) e Paulo Gama Mota (Biólogo/Antropólogo em debate moderado por Clara Almeida Santos - Doutorada em Ciências da Comunicação e Vice-Reitora da UC, 
Jorge de Alarcão é em Portugal o fundador de uma nova forma de investigar o passado; e, também, o pensador sobre "a escrita do tempo e sua verdade".
Tomamos os 80 anos de Jorge Alarcão para repor, outra vez, o Passado em Cena e reflectir em torno da utilidade do seu conhecimento.
Chamamos ao debate investigadores de outras áreas científicas, para ouvirmos de sua voz o que pensam sobre a investigação e os usos das coisas pretéritas e da dinâmica das sociedades.
Organização: Instituto de Arqueologia; Centro de Estudos em Arqueologia Artes e  Ciências do Património e Departamento de História; Estudos Europeus, Arqueologia e Artes

David Marçal dá uma entrevista ao "Observador" sobre o seu último livro

Ver http://observador.pt/2014/10/30/pseudociencia-mascara-se-de-ciencia-mas-sem-provas/

SOBRE O ENSINO DA LEITURA

Lançamanto do livro de João Lopes e colaboradores no Instituto Camões em Lisboa (edição da Fundação Francisco Manuel dos Santos).

MERKEL E PORTUGAL


A chanceler alemã Angela Merkel afirmou que Portugal tem "demasiados licenciados", no que pode ser entendido como uma crítica ao desenvolvimento da educação terciária em Portugal.. Essa afirmação é um perfeito disparate, pois o nosso país está muito abaixo da taxa europeia de população com uma licenciatura. Vamos ver como é que Nuno Crato, ministro da Educação e Ciência, reage. E mesmo Pedro Passos Coelho, que é o homólogo português da Senhora Merkel. Quanto a mim já deviam ter falado e cada minuto que passa estão a perder uma boa ocasião para falarem.

PS) Tarde, mas pelo menos Crato já reagiu: aqui. Mas, apesar de ter corrigido o disparate merkeliano, acrescentou um disparate sobre o Orçamento. Gabou-se das verbas para a ciência. Sobre isso devia der guardado de Conrado um prudente silêncio. Alguém que se prepara para mandar fechar metade dos institutos e laboratórios nacionais tem de ter algum tento na língua quando fala das verbas para a ciência.

SABER EDUCAR

Neste link pode ser visto o programa Especial Informação da RTP1 de 3 de Novembro intitulado "Saber Educar", onde participei:

http://www.rtp.pt/play/p1672/e171198/rtp1

terça-feira, 4 de novembro de 2014

"Vai morrer... daqui a..."

A ciência é uma coisa, a tecnologia é outra outra. Confundi-las, além de conceptualmente errado, acarreta consequências devastadoras para as pessoas, para o mundo...

O saber é a essência da ciência; a aplicação é a essência da tecnologia. Nem tudo o que sabemos por via da ciência tem aplicação tecnológica, ou não a tem num determinado momento. Aí não se pode ver qualquer problema pois à ciência, antes de se lhe reconhecer valor instrumental, tem de se lhe reconhecer valor intrínseco, valor próprio, valor em si.

Esta afirmação da "ciência pura" não serve, evidentemente, para negar as suas potenciais implicações. Na verdade, há muita coisa que sabemos por via da ciência que nos permite investir em aplicações perfeitamente justificáveis, melhorar a nossa vida é uma delas.

Mas não é tudo (antes fosse): há, nesta relação entre ciência e tecnologia, uma zona sombria. Penso que vivemos tempos em que essa zona se tornou particularmente sombria. Os subsídios, as bolsas, os prémios vão sobretudo para os frutos imediatos que se podem arrancar da ciência, para a tecnologia. O reconhecimento e o financiamento dos institutos/universidades/laboratórios passa por aquilo que produzem em termos tecnológicos, a imprensa é chamada e dá grande destaque sem fazer enquadramento ou reflexão, a sociedade fica reconfortada por ver que os dinheiros foram transformados em... maravilhas.

E que maravilhas são mostradas todos os dias (não falo do que não é mostrado, produzido em laboratórios reservados)! Fico-me só por alguns exemplos de programas de computador de que tenho falado neste blogue: para fazer a leitura da expressão facial de quem anda às compras, para fazer os trabalhos de casa pelos alunos, para substituir professores e poupar dinheiro que devia ser destinado à educação... Tudo, já se vê, acompanhado de um marketing notável, o qual, além de impedir as pessoas de pensarem no que estão a usar ou a serem sujeitas, faz com que elas desejem fortemente usar ou serem sujeitas.

O que disse neste último parágrafo quase perde sentido, parece inócuo, à vista de uma aplicação de que tive conhecimento na passada semana. Trata-se de uma aplicação que se diz capaz de determinar o momento da morte de quem quer saber o momento da sua morte. A publicidade destaca que, através de métodos estatísticos avançados, consegue-se determinar, não o momento aproximado, mas sim o "momento exacto" (aqui e aqui).

Se está no mercado é porque se vai vender... e muito. Isso deveria deixar pelo menos alguns de nós preocupados. Ou já estamos tão adormecidos que achamos tudo normal?

DOMÍNIOS MORFOSSEDIMENTARES DE TRANSIÇÃO NA INTERFACE TERRA–MAR (1)

Delta do Ganges
Introdução

Entidades morfossedimentares [1] por excelência, deltas, estuários e lagunas são, na grande maioria, formas e ambientes químicos, hidrodinâmicos e ecológicos situados na fronteira ou na transição dos meios continental e marinho. Neles se fazem sentir, simultaneamente, as acções químicas, físicas (sobretudo dinâmicas) e biológicas destes dois meios.

Deltas e estuários representam, em geral, duas situações opostas na dialéctica que, na foz de muitos rios, se estabelece entre a sedimentação e a erosão. Se domina a sedimentação da carga sólida carreada pelo rio, forma-se o delta, que cresce enquanto se mantiverem tais condições. Se, pelo contrário, a descarga do rio em material terrígeno for deficitária, e/ou se a energia do mar for suficiente para remobilizar e evacuar esses sedimentos, prevalece o estuário. Neste caso, uma parte mais ou menos alargada do seu troço vestibular abre-se ao mar, que passa a exercer aí algumas das acções que lhe são próprias.

Esta é a visão simplista, mais divulgada. A realidade é bem mais complexa. Muitas vezes formam-se estruturas deltaicas na extremidade interior dos estuários, situação por demais evidente nos mouchões [2] no Tejo e nas morraceiras no Minho e no Mondego. Parte da carga sólida do Tejo tem-se acumulado a montante do seu amplo estuário, formando um delta interior. Outro exemplo de situações que escapam ao modelo clássico, estereotipado, de delta, encontra-se na foz do Guadiana, que forma um delta a jusante do estuário.

Deltas e estuários sofrem as influências:
- do clima, na medida em que este afecta, sobretudo, o caudal e a carga sólida dos rios;
- da bacia de alimentação, em especial da morfologia (expressa na topografia) e da natureza geológica, nos seus aspectos litológicos e estruturais;
- do fundo marinho adjacente [3], com relevância para a sua forma, dimensão e batimetria; e
- de outros elementos forçadores, como salinidade, correntes de maré, ritmo, energia e orientação das ondas [4], eventual subsidência, tectónica, e história geológica recente, em especial a decorrente do glacioeustatismo [5] nos últimos tempos do Quaternário.

Deltas

Umas vezes, porque a agitação do mar é fraca e outras, porque é muita a carga que os rios transportam, os deltas são sempre a expressão do balanço positivo da sedimentação fluvial sobre a erosão na desembocadura (ou na sua vizinhança) dos respectivos rios. Rios como o Tamisa ou o Douro não formam deltas porque a energia das vagas e das marés lhes dispersam toda a carga sólida que debitam [6].

Por outras palavras, pode dizer-se que nos deltas predomina a influência fluvial, com ganho da terra sobre o mar, que não consegue evacuar ou dispersar os sedimentos que o rio para ali transporta. Neste caso formam-se mosaicos, mais ou menos complexos, de baixios e ilhas muito planas e rebaixadas (mouchões) em resultado da deposição dos sedimentos descarregados pelo rio e separadas entre si por canais. A maré e a ondulação, dois factores hidrodinâmicos actuantes na maioria dos litorais, não são condição fundamental à construção dos deltas. Têm, porém, papel determinante na dinâmica destes sistemas e, consequentemente, na sua morfologia.

Forma grosso modo triangular do Delta do Nilo
Neste aspecto tem particular relevância a maré, pela acção dos respectivos fluxo e refluxo, ao longo dos canais do delta. Os deltas marítimos com marés são os mais frequentes, os de maior dimensão e, também, os mais complexos. Mas há, não o esqueçamos, deltas em mares sem marés, do mesmo modo que os há nos lagos. Acumulados na plataforma continental, os deltas marinhos são edifícios progradantes [7] sobre o mar.

Independentemente do regime de maré e da agitação marítima, do enquadramento geográfico e climático, a condição essencial à formação de um delta é a existência de um sistema fluvial associado a uma bacia de drenagem externa suficientemente importante e fornecedora de volumosa carga sólida.

A forma triangular do conjunto de mouchões na desembocadura do Nilo levou Heródoto, filósofo grego do século V a.C., a dar-lhe o nome da quarta letra (Δ) do alfabeto helénico, de forma triangular bem conhecida.

O termo delta acabou por ser adoptado pelos geógrafos, mesmo para os que não tenham essa configuração, com é o caso do delta do Mississipi.
                                        Delta do Mississipi
NOTAS:

[1] - Em que a morfologia e a sedimentação são causa e consequência uma da outra.
[2] - Do castelhano mojón. Nome dado às “ilhas” de acumulação aluvionar, não só na foz, como em qualquer ponto do curso do rio. Correspondem-lhe as morraceiras no Minho e no Mondego.
[3] - Em geral, marinho, mais raramente, lacustre.
[4] - Massas de água com movimentos de elevação e de abaixamento que se deslocam, as mais visíveis, por acção do vento, mas também por efeito de correntes de diversas origens. O nome radica no latim unda. Com, praticamente, o mesmo sentido usa-se o termo vaga, oriunda do escandinavo antigo vaag, através do francês vague.
[5] - Variações do nível do mar induzidas pela formação e fusão dos glaciares. Uma glaciação determina uma regressão marinha e, pelo contrário, uma deglaciação determina uma transgressão marinha.
[6] - Esta situação no Douro, e em muitos outros grandes rios, já se verificava antes da implantação das barragens hidroeléctricas. Acentuou-se ainda mais com esta intervenção humana que, ao interromper o curso natural do transporte de inertes pelo rio, quase anulou a descarga de sedimentos de fundo (grosseiros) na foz.
[7] - Os geólogos e os geógrafos adoptaram o verbo progradar para referir o avanço de um corpo sedimentar numa dada direcção, por sucessivos recobrimentos da sua frente, que é, por natureza, mergulhante. As dunas, ao avançarem, progradam; são corpos progradantes, isto é, sujeitos a progradação. Estão nestas condições os leques de dejecção, os deltas e a vertente continental, no limite entre a plataforma continental e o domínio oceânico profundo.

Este texto continua.
A. Galopim de Carvalho

segunda-feira, 3 de novembro de 2014

A Fórmula “mais ou menos certa”

Texto que recebemos do leitor Fernando J. Pires Caldeira, professor aposentado do ensino secundário, e que muito agradecemos.

Depois de um pedido de desculpas de Nuno Crato perante a Assembleia da República por erro grosseiro na fórmula que deveria ordenar milhares de docentes na Bolsa de Contratação de Escola, de serem conhecidas as opiniões sobre o assunto de especialistas e matemáticos de renome, como o Professor Jorge Buescu, e após animados debates na blogosfera sobre qual deveria ser a fórmula correcta, a Direcção Geral da Administração Escolar (DGAE), em Nota Informativa datada de 13 de Outubro de 2014, divulgou finalmente a “sua” fórmula.

O objectivo dessa fórmula é a ordenação, de acordo com a lei, dos opositores a cada uma das vagas que surjam através do processo designado por Contratação de Escola. Nestes concursos, de modo diferente do concurso nacional de professores, onde os professores são ordenados apenas com base na graduação profissional, a legislação determina que a graduação profissional (GP) e a avaliação curricular (AC) deverão ter neste processo igual peso (50%) na seriação dos candidatos.

O problema, aparentemente fácil de resolver, da transposição da lei para uma fórmula, nas palavras de Jorge Buescu, “matematicamente correcta”, surgiu, recordo, do facto de a graduação profissional e a avaliação curricular não estarem na mesma escala. Em termos gerais, explicou (PÚBLICO de 29/9), que sendo estes elementos de avaliação medidos em escalas diferentes – a escala relativa à graduação profissional é aberta (porque não tem limite superior definido à partida) e a da avaliação curricular é fechada –, a solução teria de passar primeiro por uma “harmonização” ou conversão de escalas antes de se proceder à ponderação pretendida (50% para cada uma, neste caso).

A GP é calculada a partir da nota de curso (mais os anos de serviço e eventuais bonificações pelas avaliações de desempenho), e embora, na sua origem, seja medida numa escala de 0 a 20, não pode nunca ser inferior a 10 (nota mínima de conclusão de qualquer curso), podendo no entanto ser superior a 20 devido principalmente aos anos de serviço. Por seu lado, a AC, embora possa ser medida em percentagem segue a “lógica académica”, isto é, também não pode ser inferior a 10 (50%) – uma AC inferior a 10 (mais exactamente 9,5), só pode significar que o candidato não tem perfil para o lugar a que se candidata –, mas tem sempre como limite superior 100%, ou seja, 20 valores. O problema resume-se assim, para cada vaga a concurso, à conversão da escala da GP (de 10, valor mínimo, a um X, máximo), numa escala linear de 10 a 20 (a mesma da AC), mantendo a proporcionalidade. Só depois desta conversão se poderá então calcular a nota de candidatura que permite a seriação dos candidatos para cada vaga, através da seguinte fórmula:

Nota para seriação = 0,5 x GPconvertida + 0,5xAC (1)

A AC quando medida em percentagem é facilmente convertida na escala de 10 (mínimo) a 20 (máximo) dividindo o valor por cinco. A dificuldade maior é a conversão da GP original nessa mesma escala.

Na “Nota Informativa” referida a DGAE informa que a “graduação profissional e avaliação curricular deverão ser convertidos numa escala de 0 a 20”, devendo para tal “ser aplicada a seguinte fórmula, com o objectivo de se proceder à ordenação, com o valor resultante arredondado às milésimas”:

Nota para seriação = 0,5x[(GP-Min)x20/ (Max-Min)] + 0,5x(AC+20/100) (2)

onde:

GP – valor da graduação profissional do candidato;
AC – pontuação atribuída ao candidato nas respostas aos critérios da avaliação curricular;
Max – valor máximo de GP da lista dos candidatos ao horário;
Min – 0 (zero).

A opção pelo valor mínimo “zero” para a GP não é explicada, apesar de a GP na prática nunca poder ter um valor inferior a 10 valores. O mesmo sucede aliás, como já referi, para a AC, mas neste caso o mínimo não é “puxado” para zero, desigualdade de tratamento que também não é explicada.

Uma maneira simples de verificarmos se esta fórmula respeita a lei (50% para cada componente), é recorrermos aos chamados “casos limite”. Por exemplo, suponhamos dois candidatos a uma vaga em que um (A) tem a nota máxima de GP (p. ex. 30) e a nota mínima na AC (50%), e que o outro (B) está nos limites opostos (GP mínima, 10, e AC máxima, 100%). Se ambas as componentes têm igual peso, estando na mesma escala, será lógico que os candidatos tenham igual classificação final. No entanto, a aplicação da fórmula referida dá uma classificação final de 15 para o candidato A e de 13,333 para o candidato B.

A fórmula (2) da DGAE está pois, na minha opinião, errada. A demonstração teórica desse facto não é contudo fácil sem recurso a formalismos e uma linguagem mais técnica, mas penso que isso também pode ser conseguido recorrendo a um exemplo prático, a alguma redundância explicativa propositada e a gráficos que simulem as situações.

Suponhamos o caso concreto de uma vaga em que o candidato com maior graduação profissional tem GP = 30. Teremos então a situação mostrada na Figura1: as notas da GP de todos os candidatos a essa vaga variarão necessariamente entre 10 e 30, pelo que estarão sobre a linha azul, enquanto as notas da AC (entre 10 e 20) dos mesmos candidatos estarão sobre a linha rosa.

Figura 1
Uma vez que para garantir a ponderação de 0,5 (50%) para cada componente da fórmula (1), ambas as componentes em causa (GP e AC) deverão estar na mesma escala (de 10 a 20), em termos gráficos isso significa que a escala da GP (linha azul) deverá ser convertida numa outra linha coincidente com a linha rosa (AC), mantendo a proporcionalidade. Para isso, os novos valores da GP (GP convertida) deverão ser obtidos não pela primeira parcela da fórmula (2) da DGAE, isto é, 

GPconvertida = (GP-GPMin)x20/ (GPMax-GPMin) (3)

com GPMin = 0, 

mas sim através da seguinte fórmula:

GPconvertida = GPMin + (GP- GPMin) x (20-GPMin)/(GPMax – GPMin) (4)

onde:

GPMax = 30 (neste caso concreto);
GPMin = 10 (sempre).

Através desta fórmula, todos os valores da GP convertida ficarão, como se pretende, sobre a recta amarela, coincidente com a recta rosa correspondente aos valores da AC dos candidatos.

Por exemplo, para os limites (GP=10 e Gp=30), teremos:

Gp=10 —> GPconvertida = 10 + (10-10)x(20-10)/(30-10) = 10;
GP=30 —> GPconvertida = 10 + (30-10)x(20-10)/(30-10) = 20.

Todos os outros valores da GP convertida dos restantes candidatos estarão agora também na linha amarela da Figura 1, pelo que é finalmente possível aplicar a fórmula (1) para determinação da posição de cada candidato na seriação.

Contudo, se aplicarmos a fórmula divulgada pela DGAE a este exemplo:

GPconvertida = (GP-GPMin)x20/ (GPMax-GPMin) (4)

obteremos para a GP convertida a linha a amarelo, representada na Figura 2, que agora já não coincide com a linha que representa a AC, ou, dito de outro modo, tal como a linha azul também não está na mesma escala da AC.
Figura 2
Em resultado desta transformação, a GP deixou de ter um valor máximo indefinido (variável para cada caso), mas passa a ter o valor mínimo dependente do valor máximo, isto é, indefinido à partida. Em resumo, resolveu-se um problema, trocando-o por outro em tudo semelhante ao que se tinha no início: partindo de uma escala com limite superior indefinido, limita-se o valor máximo mas chega-se a uma nova escala agora com o limite inferior indefinido e, portanto, também diferente da escala da AC, ao contrário do que se pretendia.

De notar que, dado que o que interessa é a ordenação dos candidatos e não o valor absoluto obtido pelas fórmulas, em muitos casos as posições dos candidatos na seriação coincidem, independentemente de se usar a fórmula (4), da DGAE, ou a fórmula (3) que eu defendo ser a “matematicamente correcta”. No entanto isso nem sempre acontece. Por exemplo, no caso limite acima referido, se usarmos a fórmula (3) os candidatos ficarão realmente empatados, isto, é obterão ambos 15 valores na nota de seriação, depois de aplicada a fórmula (1), como seria lógico esperar.

Sendo assim, teremos de concluir que a fórmula da DGAE não é a “matematicamente correcta”, estando quando muito “mais ou menos certa”…
Fernando J. Pires Caldeira

Castanhas assadas, vinho tinto e duas lágrimas

Quando se passa dos 80, não é o minguar do horizonte de vida que mais atormenta. Há como que um cansaço do longo caminho andado que deseja o descanso e esse descanso, lá bem no fundo, só pode ser o sono eterno sem deuses, nem anjos, nem santos, como num dormir sem sonhos.

O que mais atormenta é ver partir os amigos e companheiros e olhar para os que resistem e saber que um dia destes nos iremos despedir deles, mais do que se formos nós a transpor essa passagem que todos temos como certa.

Do mês de Novembro detesto os fins de tarde que encurtam os dias em contraste com os tardios ocasos do verão que findou.

Detesto o Dia de Finados e os macabros crisântemos, de sinistro aroma, à porta dos cemitérios.

Mas gosto da marmelada fresca, das romãs cor de rubi e das castanhas assadas.

E gosto do São Martinho e da Feira Nacional do Cavalo que se faz na Golegã, não por estar por dentro da actividade equestre, mas por, em criança, ter convivido bastante e de muito perto com dois possantes e meigos percherons, o Pataludo e o Manjerico.

Durante anos festejei o São Martinho em família, com mais dois amigos, cujos nomes não interessa para a história, sempre os mesmos, em roda da mesa do jantar com muitas castanhas assadas e vinho tinto que nos vinha do Alentejo.

O serão prolongava-se até tarde e era quase sempre que, da minha janela, os via partir, cambaleando comedida e disfarçadamente, rua acima, rindo e fazendo, para trás, largos gestos de adeus.

Um belo dia, um deles partiu para sempre e nós, os que ficámos, fomos vê-lo baixar à terra em Portalegre. Não tardou muito tempo, partiu o outro e, desta vez, a despedida foi num cemitério de Lisboa, num dia cinzento e triste, já lá vão uns anos.

É claro que não deixei de comer castanhas assadas nesta quadra do ano, mas os serões de São Martinho não mais se repetiram.

Os portugueses, com excepção de uns tantos a quem as crises não afectam, andam cabisbaixos, muitos deles com graves problemas de desemprego e de outras dificuldades nas famílias, fragilizados por uma perspectiva de dias ainda piores e com a sensibilidade à flor da pele.

Talvez por isso, somado às razões com que dei início a esta crónica, quando, há dois ou três dias, a sós com os meus pensamentos, abri a primeira castanha ainda bem quente, saída do lume, vieram-me à memória estes dois amigos e, ao mesmo tempo, duas lágrimas grossas rolaram atrevidas, inundando a base das lentes dos óculos.

Ouvi-lhes as vozes, recordei os seus ditos e revi-os cambaleando, comedida e disfarçadamente, rua acima, gritando palavras amigas, rindo e fazendo, para trás, largos gestos de adeus.

A. Galopim de Carvalho

AVALIAÇÃO MAL CONDUZIDA?

Num artigo publicado no Expresso de sábado passado o Presidente do Instituto Superior Técnico, Arlindo Oliveira, diz que a "avaliação" da FCT às unidades de investigação foi "mal conduzida". Teria razão se se tratasse de uma avaliação normal, feita com o intuito de melhorar o sistema científico e tecnológico nacional. Mas se o intuito foi apenas a destruição de metade do sistema nacional a fim de, ilegitimamente, atribuir só a algumas (poucas) unidades meios que são devidos a muitas mais unidades, então ela foi, está a ser, de facto, "bem conduzida".

sábado, 1 de novembro de 2014

A privacidade nas cidades

Talvez não possamos voltar atrás, talvez não queiramos voltar atrás, talvez não nos interesse voltar atrás... Quem diz voltar atrás, pode dizer dar um passo em frente, pôr em causa, discutir, aceitar ou recusar, (re)ver limites...

Falo de privacidade, de reserva da vida privada e íntima, do direito de estar só... essa invenção que decorre de uma necessidade humana básica: se enveredarmos por uma abordagem histórica, e antropológica e etnográfica, percebemos que a privacidade, não obstante assumir diversas manifestações, tem marcado presença ao longo do tempo e em todas as culturas.

É certo que também tem sido uma constante a tentativa de a superar, de conhecer o "outro" (entendido como uma pessoa ou um grupo mais restrito ou mais alargado) no que lhe é mais reservado, de saber o que faz, diz ou pensa. E isto, sobretudo, como curisiosidade (quem é o outro, o que pode esconder...) e de controlo (prever os comportamentos do outro, conseguir informações que podem jogar a seu desfavor...).

Estas forças de sentido contrário obrigararam a regulação, social e legal, das fronteiras entre o público e o privado. Porém, na contemporaneidade, num quadro do pensamento pós-moderno que, qual capacete, usamos em todas as circunstâncias, qualquer regra é tornada subjectiva e relativa, passando a não valer nada. Acresce que, com os meios técnicos que conseguimos construir e que temos disponíveis, ao acesso de qualquer um, podemos observar tudo e todos a todo o momento. As únicas fronteiras são éticas e, essas, quem as reconhece "passa fome", palavras muitíssimo verdadeiras de uma famosa apresentadora de televisão portuguesa.

Nesta matéria, a técnica é mesmo muito rentável é, portanto, aplaudida: quem inventa artimanhas de captação do rasto, da identificação, da expressão de alguém é reconhecido, ganha prémios.

Fotografia (manipulada) de Gail Albert Halaba
É (só) a técnica, não a ética que interessa! (E, longe de mim, condenar a técnica, no seu sentido mais geral, mas a técnica sem a ética é cega!)

Isoldamente, uma ou outra voz desafia este princípio. Talvez não seja o suficiente, mas é sinal de que ele é interrogado.

Tive, agora, conhecimento da voz, em forma de arte, de Gail Albert Halaban (aqui). Para fazer notar a "falta de privacidade nas cidades", fotografou janelas de prédios de Nova Iorque e Paris e compôs imagens com pessoas do lado de dentro. O resultado, que o leitor pode apreciar aqui, não nos deveria deixar indiferentes.

Vampiros, zombies e bruxas



No Jardins de Cristais, Química e Literatura escrevi um pouco sobre as histórias de vampiros e de zombies. Saliento em particular o excerto seguinte:

Brian Stableford, biólogo e autor de ficção científica britânico, procurou, em O Império do Medo, de 1988, outra forma de apresentar o mito do vampiro, dando‐lhe verosimilhança científica e histórica. Neste livro, fantasia uma história alternativa em que uma aristocracia de vampiros imortais domina a terra. Estes não têm problemas com a luz, mas o aumento do seu número é muito limitado, embora continuem a precisar de sangue, mas apenas em pequenas quantidades. Com o desenrolar da história, que vai de 1623 e 1983, percebe‐se que se trata de uma doença benigna causada por um germe (mais tarde identificado como um vírus) que repara danos celulares e retarda os processos de envelhecimento celular. O sangue, modernamente substituído por comprimidos, é necessário porque alguns neurotransmissores importantes deixam de ser produzidos no corpo transformado, que entra em hibernação na sua falta.

No caso do mito dos zombies é também possível encontrar ligações químicas. Existe a teoria, mais ou menos confirmada, de que em determinados locais da América Central são usadas toxinas como a tetrodoxina que causa paralisia e outras drogas para fazer zombies através de vodu. Para o sucesso disso, concorre a credulidade das pessoas, mas não é totalmente descabido.
Mas acabei por não referir directamente a questão das bruxas e da química que lhes está associada. É notável a similitude das narrativas que nos chegaram sobre estas mulheres, e também homens, acusados de bruxaria. São em geral pessoas que têm bons conhecimentos empríricos sobre ervas com actividade biológica e que saberiam com certeza quais eram alucinogénicas. Estes conhecimentos eram provavelmente transmitidos como segredos e vários autores acreditam que a similitude das narrativas reside nas propriedades alucinogénicas das moléculas envolvidos. Numa sociedade opressiva para a mulher, possuir segredos sobre a cura e alívio de algumas doenças através das plantas e ter a possibilidade de se libertar das tarefas diárias através do voo numa vassoura, era arriscado mas compensador. Claro que o voo era uma alucinação, mas pareceria muito mais real com a ajuda de compostos como a atropina, a hioscimina e a escapolamina da beladona e figueira do diabo, por exemplo, e da batracotoxina obtida dos sapos, entre vários outros compostos obtidos de plantas e animais. Paralelamente, resistindo ao sofrimento insano causado pelos perseguidores de bruxas, foram sendo preservados conhecimentos importantes sobre plantas medicinais tais como a dedaleira que possui o glicosídeio digitoxina que é um estimulante cardíaco, a casca de salgueiro e choupo com salicina e tantas outras mezinhas ou poções que derem origem ou inspiraram um grande número de medicamentos modernos.

CONTINUE-SE COM A PLATAFORMIZAÇÃO DOS EXAMES NACIONAIS

Foi publicado o Relatório da Inspecção-Geral da Educação e Ciência, com o extenso título Averiguações às irregularidades dos Exames Nacionai...