quarta-feira, 10 de setembro de 2014

CINCO CRENÇAS FALSAS SOBRE O CÉREBRO

Artigo primeiramente publicado na imprensa regional.



Nas últimas duas décadas assistimos a enormes avanços na nossa compreensão sobre o funcionamento do cérebro. Este avanço nas neurociências deve-se muito à implementação de várias técnicas de imagiologia cerebral, que produziram um grande volume de informação sobre a complexidade do funcionamento neuronal e com um detalhe impressionante. Mas, apesar do avanço na compreensão do cérebro e da divulgação do conhecimento adquirido, várias crenças falsas sobre este órgão, cerne da nossa inteligência, persistem no imaginário colectivo. Vejamos algumas delas.

1. Só usamos 10% do nosso cérebro?
É talvez a crença mais comum sobre o cérebro, tendo tido origem no princípio do século passado e sido bastante divulgada em diversas obras de literatura pseudocientífica e também no cinema. Todos os dados neurocientíficos que hoje possuímos, principalmente aqueles oriundos da imagiologia cerebral, a contrariam e indicam que nenhuma zona do cérebro permanece totalmente inactiva, nem sequer enquanto dormimos. De facto, até hoje, ainda não foi encontrada uma zona do cérebro à qual não esteja associada uma dada função e actividade. Para além disso, hoje sabemos que mesmo as tarefas cerebrais aparentemente mais simples, embora possam envolver mais uma dada zona cerebral, mobilizam a actividade de inúmeras outras numa complexidade de interacções espantosas. Por outro lado, o cérebro é o órgão que mais energia consome para o seu funcionamento. Gastar tanta energia para que 90% do cérebro não fizesse nada é algo que não faz sentido do ponto de vista evolutivo.

2. Dois cérebros num só
Enraizou-se a ideia de que os dois hemisférios cerebrais têm funções totalmente distintas, sendo um, o direito, mais intuitivo e artístico, e o outro, o esquerdo, mais analítico e racional. O que as neurociências têm verificado é que os dois hemisférios estão em permanente interacção, diálogo, quer estejamos a resolver um problema matemático, quer estejamos a tocar piano, por exemplo. Mais, existem inúmeros casos em que traumatismos cerebrais que afectam um dos hemisférios levam a que funções das zonas afectadas sejam transferidas para o outro hemisfério. Há pois uma grande plasticidade cerebral, uma grande conectividade e interacção entre os dois hemisférios, pelo que os dois estarão sempre de alguma forma activos independentemente da actividade em questão.

3. O tamanho do cérebro determina a inteligência
Para além da questão sobre o que é que consideramos ser a inteligência, está a crença de que somos tanto mais inteligentes quanto maior for o tamanho do nosso cérebro. A biologia mostra que existem muitos animais com cérebros maiores do que os dos seres humanos e que mais do que o tamanho per si, deve ser considerado a relação entre a massa cerebral e a massa total do corpo. E mesmo nessa relação os seres humanos não estão no topo. O que as neurociências têm demonstrado é que mais importante do que o tamanho, a quantidade e complexidade de ligações (sinapses) entre os neurónios (células do cérebro) é o que pode determinar sermos mais ou menos inteligentes. E, para além da genética que determina o tamanho, a complexidade daquelas interacções é condicionada pela aprendizagem e experiência de cada um de nós, independentemente da massa cerebral.

4. O cérebro está inactivo enquanto dormimos
O cérebro nunca descansa. A monitorização da actividade cerebral, por electroencefalogramas e pelas mais modernas imagiologias cerebrais, mostra que o cérebro está activo durante o sono. Aliás, sabemos hoje que o sono é extremamente importante para a manutenção da qualidade das ligações entre as células nervosas. Foi descoberto recentemente que durante o sono ocorrem processos de limpeza do espaço interneuronal, através de uma maior circulação do líquido encefalorraquidiano, o que promove a eliminação dos detritos resultantes da actividade em vigília. Para além disso, verifica-se que a consolidação das memórias ocorre mais intensamente durante o sono. Assim, enquanto dormimos o cérebro trata de arrumar a casa e preparar-se para o dia seguinte.

5. Cérebro masculino e cérebro feminino
É um assunto muito vulgar atribuir ao cérebro capacidades diferentes consoante o sexo. Contudo, e apesar das diferenças anatómicas e hormonais que distinguem o homem da mulher, não se encontrou até hoje nenhuma diferença distintiva na fisiologia e metabolismo do cérebro nos dois sexos. Há uma ligeira diferença de tamanhos mas, como já se disse, o tamanho não implica imediatamente uma função diferente. Contudo, devemos dizer que os neurocientistas estão apenas agora a começar a compreender como é que a complexa actividade neuronal dá origem aos fenómenos psicológicos que determinam a nossa inteligência e personalidade. Mas a diferença do corpo consoante o sexo não encontra imediata diferença no cérebro que fundamente a adjectivação de género.


António Piedade

A PEGADA DE CARBONO DE UM COPO DE LEITE


Artigo publicado na Revista da Associação de Produtores de Leite pelo Prof. Arnaldo Dias da Silva e que transcrevemos com a devida vénia: 

As vacas leiteiras são animais encantadores sobretudo se vistas a ruminar nas pastagens verdes. Passam nessa actividade cerca de oito horas por dia, remastigando o alimento que volta à boca vindo da grande câmara de fermentação que é o rumen.  Chama-se a este fenómeno regurgitação. Ao mesmo tempo expelem baforadas de gases pelas narinas.  Depois de feita a (re)mastigação e bem ensalivado os alimentos, este bolo volta ao rumen – é deglutido – com um tamanho de partícula menor. 

A diminuição do tamanho é imprescindível para o processo de digestão especialmente no rumen por fermentação microbiana. Nos gases expelidos, assume particular relevância o metano pela importante contribuição que pode ter o efeito de estufa.

 Para situarmos correctamente esta questão – isto é, para atribuirmos às vacas apenas o que justamente lhes deve ser atribuído - importa dizer mais qualquer coisa. Nos diferentes processos de produção de bens e serviços que o homem tem ao seu serviço à superfície da Terra, são lançados para a atmosfera milhares de toneladas de gases com igual potencial ou potencial superior de efeito de estufa do que o “arroto” das vacas leiteiras. Para o comprovar, basta consultar os mais recentes Relatórios da FAO sobre o assunto. Vale a pena referir pelo enorme volume que assume o metano produzido nas turfeiras e na cultura do arroz. Os gases ricos em metano podem ficar retidos na atmosfera em quantidade mais elevada do que o habitual, agravando então o tal efeito de estufa. 

Quero lembrar, no entanto, que este efeito sempre existiu. Sem ele a temperatura média à superfície do planeta Terra seria cerca de 33º Celsius e a vida, tal como a conhecemos hoje, seria impossível à superfície do nosso planeta. 

 As vacas leiteiras em 2014 terão maior responsabilidade nos riscos de aquecimento global do planeta Terra do que as vacas de outrora? Podemos hoje tentar responder a esta interessante questão.

Em 1927 o Anuário Agrícola dos EUA era ilustrado na capa com uma bonita vaca Ayrshire pastando calmamente ao lado de um ribeiro, uma imagem verdadeiramente idílica. J. C, McDowell escrevia então – cito, traduzindo Capper e outros (2008):  

“Quando a população deste país aumentar para 200 000 000 habitantes será facilmente possível oferecer-lhe a quantidade adicional de produtos lácteos não aumentando o número de vacas mas tendo melhores vacas... A produção média de leite nos EUA é de cerca de 4000 libras por ano. Se houver um aumento de 150 libras por ano, em 45 anos duplicaremos a produção por vaca. Então o mesmo número de vacas que temos hoje, dará, à mesma taxa de consumo de leite e produtos lácteos, para um número consideravelmente maior  que 200 000 000  pessoas.” 

Na altura em que McDowell escreveu este texto (1927) a produção média de leite por vaca era apenas de 4100 libras; 80 anos depois (2007), a produção média anual foi de 20 044 libras de leite, de acordo com os serviços oficiais norte-americanos. Significa isto que a “profecia” de McDowell pecou por defeito! 

É muito importante perceber se tal sucesso se ficou a dever à aplicação persistente de programas de melhoramento genético dos animais introduzindo variáveis que o tempo ia aconselhando, a programas de controlo sanitário e de resistência às doenças, ou a melhorias na alimentação, nos sistemas alimentares e no controlo ambiental e do bem estar.

 Arnaldo Dias da Silva

terça-feira, 9 de setembro de 2014

Entradas em Ciências Agrárias

Post recebido de Arnaldo Dias da Silva:

Junto mostro o balanço da 1.ª fase de colocações respeitantes  ao ensino superior agrário.   Envio primeiro sob a forma de dois QUADROS. Depois farei comentários. Uma vez que a questão é  muito grave ou mesmo calamitosa, penso que serão bem-vindos desde já comentários a estes quadros.

QUADRO 1 - Cursos de licenciatura (1º ciclo de estudos) e número de lugares oferecidos  e procurados (com base na internet e nos jornais de 8 de Setembro de 2014) - Ensino Politécnico      

ESA
Designação dos cursos segundo as ESA
              oferecidos na internet
Oferta
  Procura
Beja
Agronomia
Ciências e Tecnologia  dos Alimentos                  
.Engenharia  Alimentar
       45
       23
       23
         2
         0
         0
Bragança
. Biologia e Biotecnologia
. Ciência e Tecnologia Alimentares
. Ciência Florestal e Recursos Florestais
. Enfermagem Veterinária
. Engenharia Agronómica
. Engenharia Alimentar
. Engenharia Biotecnológica
. Engenharia do Ambiente
. Engenharia Florestal
. Engenharia Zootécnica
. Fitofarmácia e Plantas Medicinais
. Paisagismo
       35
       36
         0
       25
       45
         0
         0
       36
         0
       23
       25
          1
          0
          0
          7
          1
          0
          0
          0
          0
          1
          0

Castelo Branco
. Agronomia
. Nutrição Humana e Qualidade Alimentar
. Engenharia Biológica e Alimentar
. Enfermagem Veterinária
. Engenharia Agronómica (apenas mestrado)
. Engenharia Zootécnica (apenas mestrado)
. Gestão Recursos Hídricos (apenas mestrado)
. Sistemas de Informação Geográfica e
                                 Gestão do Território
        24
        36
        23
        27
           3
           4
           0
         12
Coimbra
. Agricultura Biológica
. Biotecnologia
. Ciências Florestais e Recursos Naturais
. Ecoturismo
. Engenharia Agro-Pecuária
. Tecnologia Alimentar
. Tecnologia e Gestão Ambiental
          32
          41
          34
            0
          34
          42
          45
            5
          41
            4
            0
            1
            3
            9
Elvas
. Agronomia
. Agronomia (ramo Espaços Verdes)
. Enfermagem .Veterinária
. Equinicultura


Ponte de Lima
. Agronomia
. Biotecnologia                                               
. Ciências e Tecnologias do Ambiente
. Enfermagem Veterinária
           25
           22
           25
           25
             5
           22
             2
           25
Santarém
. Agronomia
. Agronomia (pós-laboral)
. Engenharia Agronómica (pós-laboral)
. Engenharia Alimentar
. Engenharia da Produção Animal
. Engenharia do Ambiente
. Engenharia do Ambiente (pós-laboral)
. Produção Animal
. Nutrição Humana de Qualidade Alimentar
           45
           33
              0
              0
              0
           30
             0
           42
           41
          14
            0   
            0
            0
            0
            0
            0
            4
            3
Viseu
. Enfermagem Veterinária
. Engenharia Agronómica
. Ciência e Tecnologia Animal
. Qualidade Alimentar e Nutrição
          45
          24
          25
          25
          25
            0
            2
            9

Total  ensino politécnico   Oferta=1051        Procura=205, ou seja, 19,5%.

Na mesma data (8.09.2014) as 8 ESA ofereciam, no seu conjunto 45 cursos de mestrado ou estudos superiores do 2.º ciclo. Não apurei se estão, todos ou em parte, em funcionamento, nem quantos alunos os frequentam ou acabaram com aproveitamento.

QUADRO 2 – O mesmo que o QUADRO 1, mas agora referente ao Ensino Universitário

Universidade dos Açores
. Medicina Veterinária (Preparatórios)
. Ciências Agrárias
            13
            20
           13
             4 
Universidade do Algarve
. Arquitectura Paisagista
. Agronomia (pós-laboral)
.          25
           20
             9
             4
Universidade de Évora
. Arquitectura Paisagista
. Agronomia
. Ciência e Tecnologia Animal
. Medicina Veterinária
           23
           37
           35
          50
             8
           29
           35
           50
Universidade de Lisboa
ISA
. Arquitectura Paisagista
. Engenharia Florestal e dos Recursos - Naturais
. Engenharia Agronómica
. Engenharia Alimentar
. Engenharia Zootécnica
. Engenharia do Ambiente
           25
           20
        
           45
           45
           35
           25

           11
             3

           45
           13
           24
           16
Universidade do Porto
. Arquitectura Paisagista
. Medicina Veterinária
           23
           60
           23
           60
UTAD
. Arquitectura Paisagista
. Ciências Florestais
. Engenharia Agronómica
. Engenharia Zootécnica
. Enologia
. Medicina Veterinária
           26
           21
           32
           28
           37
          82     
           13
             3
             7
            13
            22
            82


Total  Ensino Universitário     Oferta=727            Procura=488, ou seja, 66,2%.

Total Ensino Superior             Oferta=1778       Procura=693, ou seja 39,0%.
           
  

CHUMBADO CÁ DENTRO, CONTRATADO LÁ FORA


Depois de ter chamado a atenção para a "fuga de cérebro" corporizada por Paulo Veríssimo, Professor de Informática da Universidade de Lisboa, na minha última crónica no Público, o Expresso noticiou-a e, na segunda feira passada, o Público entrevistou esse cientista chumbado pela FCT. Destaco passo da entrevista, que mostra o descompasso da FCT com os padrões internacionais da investigação científica:

"Quantos concorreram para a bolsa da FNR [a FCT do Luxemburgo]?

Estas propostas não têm uma chamada formal. Foi um convite após um longo processo e só depois disso é que a FNR viu com bons olhos uma candidatura à bolsa. No fundo, foi um convite para submeter a candidatura. Houve uma boa meia-dúzia de candidaturas, mas a minha proposta foi aprovada. Soube formalmente da decisão no fim de Junho.

Foi precisamente nessa altura que soube também que o seu laboratório em Portugal tinha sido “chumbado” na avaliação em curso pela FCT.

É irónico, não é? Enquanto no Luxemburgo as pessoas acreditaram em mim e vão-me dar cinco milhões para gastar, fui confrontado em Portugal com o chumbo do laboratório LaSIGE, do qual fui director e fundador – um laboratório reconhecido e considerado pelos seus pares como um dos melhores. Não se percebe porquê, porque as próprias métricas da FCT colocam o nosso laboratório nos lugares cimeiros da excelência. O LaSIGE deverá receber, nos próximos cinco anos, 7500 euros por ano para suportar a actividade dia a dia de mais de 120 investigadores. A manter-se esta decisão (ainda estão as audiências prévias em apreciação), isto corresponde obviamente a uma intenção de fecho do LaSIGE por parte da FCT. Mas não é por eu me ir embora que deixa de haver investigação nesta área em Portugal. O meu grupo é muito forte, e ficam em Portugal pessoas muito boas que continuam a trabalhar. E eu espero vir a colaborar com elas no futuro.

Por que decidiu submeter a sua proposta ao PEARL? 

 Foram-se passando tantas coisas más em Portugal... Comecei a sentir que o Governo estava a fazer coisas absolutamente loucas, não tenho outra palavra para as designar. E a dada altura, telefonei a um amigo da Universidade do Luxemburgo a dizer que iria considerar uma candidatura ao PEARL.

 Os avaliadores perguntaram-lhe por que queria sair de Portugal. O que respondeu? 

Respondi-lhes a verdade. Disse que em Portugal ia ser quase impossível uma pessoa montar projectos grandes. Não só porque não houvesse dinheiro, mas porque não há disposição, as pessoas estão umas contra as outras, não querem facilitar as coisas. E acho que eles perceberam. A fundação deu-me o montante máximo, o que não é sempre o caso (...)"

AS REFORMAS DA CAIXA GERAL DE APOSENTAÇÕES E DA SEGURANÇA SOCIAL


Meu artigo saído hoje no Público:

“Outrora a velhice era uma dignidade; hoje, ela é um peso”.
(François  Chateaubriand, 1768-1848)

Sempre que se fala de reformas, sejam elas da Caixa Geral de Aposentaçõe ou da Segurança Social, não se pode divorciar este status quo  das actuais deduções para efeitos de IRS que vieram dar expressão a nuvens que se acastelavam no horizonte de um país em que parte dessa factura viria a recair sobre os reformados, uns tantos, em idade avançada e achacados pela doença que geralmente  lhe subjaz.
Reporto-me às deduções em IRS, em vigor até 2011, em que os portugueses puderam deduzir, sem qualquer limite, 30% em despesas de saúde. Nos dias de hoje, os doentes apenas podem deduzir 10% destas despesas até um ridículo valor máximo de 838,44 euros anuais (grosso modo, 167 contos anuais e 14 contos mensais em moeda antiga). Ou seja, em Portugal, a condição de velho e doente crónico com "pesares que os ralam na aridez e na secura da sua desconsolada velhice" (Garrett), passou a ser tida, não como uma desgraça mas como  coisa supérflua de quem desfruta férias em luxuosas estâncias balneares.

Em vez de aumentar, na medida do possível, as reformas da Segurança Social, sob o pretexto de uma medida de duvidosa justiça social, pretende o actual Governo aproximar estas reformas com as da Caixa Geral de Depósitos, aumentando aquelas à custa destas no incumprimento de regras previamente estabelecidas para com os aposentados da função pública que contratualizaram com o Estado, na altura pessoa de bem, as repectivas condições.

Acresce que o recente chumbo do Tribunal Constitucional sobre os cortes anunciados para as pensões de aposentação leva à procura de soluções por outros meios. Assim, "o Governo não apresentará mais propostas para uma reforma global das pensões, mas não afasta retomar cortes temporários. A CES poderá estar de volta em 2015. Tribunal Constitucional deixou a porta aberta, dizem constitucionalistas" (Jornal de Negócios, 19/08/2014).

Costuma dizer-se que “de Espanha nem bom vento nem bom casamento”. Este aforisma não encontra expressão quando se cotejam os maus ventos que varrem este extremo ocidental da Europa com os bons ventos da política governamental espanhola. Assim, aquando da apresentação do Orçamento de Estado-2013, referindo-se aos pensionistas, em declarações à TVE o primeiro-ministro espanhol fez a seguinte declaração:
“A primeira prioridade é tratar os pensionistas da melhor maneira possível. A minha primeira instrução ao ministro das Finanças é a de que as pessoas que não devem ser prejudicadas são os pensionistas. No Orçamento de Estado deste ano só há dois sectores que sobem: os juro da dívida e as pensões. Não tenho nenhum interesse e se há algo em que não tocarei são as pensões, o pensionista é a pessoa mais indefesa, que tem a situação mais difícil, porque não pode ir procurar outro posto de trabalho aos 75 ou 80 anos, tendo uma situação muito mais difícil.”
Em Portugal, relativamente, menos sacrificados com os cortes de pensão são os aposentados de elevados cargos políticos ou de reformas chorudas. Os outros, "a gentinha", se para além de reformados sofrerem de doenças crónicas ou outras que façam perigar a própria vida são, por vezes, coagidos, por carência económica, a não poderem comprar todos os medicamentos receitados por médicos.

Ou seja, com uma certa dose de cinismo, o doente de fracos cabedais  corre perigo de vida com vantagem para a fazenda pública por ser uma pensão a menos a ser paga pelo erário público, justificando, assim, más consciências preocupadas em desanuviar os cofres do Estado com pagamento de reformas e despreocupadas com a administração dolosa de determinado sistema bancário nacional cobrindo os seus prejuízos com aumento de impostos de reformados, ainda que velhos e doentes,  em execrável desumanidade social e, até,  uma certa  estupidez ao não ter em linha de conta essa situação. Reformados que pela sua grande expressão numérica são potencialmente capazes de influenciar drasticamente os resultados eleitorais. Facto só compreendido, tarde e a más horas e em proximidade de eleições, pelo PSD ao procurar um aliado no PS que, inteligentemente, declinou esta espécie de convite envenenado.

Por ter feito referência, no parágrafo anterior, "à administração dolosa de determinado sistema bancário nacional", exemplifico com  três casos: o BPN,  "com um prejuízo para o Estado que pode atingir 5,8 milhões de euros" (PÚBLICO, 12/06/2012); o Banco Espírito Santo, com prejuízos  ainda não apurados na sua verdadeira dimensão; e o Montepio Geral "em que o Banco de Portugal tem em curso uma inspecção forense, o que indicia que há fortes suspeitas de ilícitos criminais cometidos no quadro da actividade desenvolvida pela instituição mutualista" (PÚBLICO, 16/08/2014).

Resumindo e concluindo, tal como em fronteiras gaulesas de idos séculos, no dealbar deste novo milénio, "neste jardim à beira-mar plantado" com cardos de injustiça, a velhice continua a ser um peso em vez de ser uma dignidade. Este portanto, o panorama social de um país em que a crise europeia serve de álibi para, como sói dizer-se, ser-se forte para com os velhos e doentes e fraco para com os detentores de grandes fortunas em fuga aos impostos por declarações falsas ou “esquecidas” pelos declarantes. Exagero meu? Como escreveu Eça, "exageração era pintar a cobra e depois pôr-lhe quatro pernas!”

Tomaz De Figueiredo (1902-1970)

Tomaz de Figueiredo é mais conhecido pelos seus romances, sobretudo “A Toca do Lobo”. Todavia, o labor deste escritor não se esgotou na prosa. A poesia que escreveu é de Poeta-Homem, o que no tempo que corre é uma raridade.


O poeta não esconde a sua passagem pelo manicómio, esse «Reino do Silêncio, do Não-Mundo», esse reino em que o homem é «réu»; não esconde o seu coração e a visão fugaz da amada: «E a amar sem amor eu me dedico»; não esconde as consequências da dor de amar: «e para todo o sempre fiquei triste» e «Ó morte vem depressa tardas tanto»; não esconde o ódio ao Estado Novo e ao país abúlico: «Piolhoso país em que nasci!» e «Arre, ladrões, bandidos, salafrários!»; não esconde a sua afeição à monarquia, nem a sua alma inquieta: «Jamais a paz./ Sempre agulhas na vista./ Aqui jaz/ Um artista.».
Apocalipse de São Tomás:


Fig 1: Espectro de emissão e espectro de absorção do sódio



Desagregou-se o núcleo dum cometa,
esfacelou-se em cores, abriu o leque vário

dos ardentes metais e arroja lá do ossário
dos astros findos radiações em seta.

Desagrega-se em dor e arde um núcleo de alma,
expande-se em perfumes coloridos.
O sonho em lume torce-se em gemidos,
em leque de pavão se irradia e espalma.

O sódio do cometa arde amarelo,
duas riscas de luz, frechas desesperadas,
que silvam a gritar no branco das ossadas
como vergões de sádico flagelo.

Na alma perdida, o amor perdido chora,
o amor que quer amar e bate em negro muro.
Embalde pede luz o frio amor escuro
que vê de crepes o luzir da aurora.


Topázio:
















– Pedra da cor de luz das tardes mansas,
da moribunda lividez do Outono,
que à lividez ajuntas do abandono
Tons de âmbar e de mel de flavas tranças

ora me dás a sugestão das esperanças
em nimbos de oiro que ardem no meu sono,
ora cingindo em teu cruel quimono
bailo do tédio as amarelas danças.
Na transparência do teu brilho lendo,
o teu segredo abafa-me em revolta:
quanto mais claro, menos o entendo.
Os meus anseios de Infinito, abrase-os
o fogo de rubis, não lhes dá solta
a bandeira de peste dos topázios.

O garrote da ministra das Finanças às Universidades e Politécnicos


Entre os "professores" da "Universidade de Verão" do PSD, um evento que de universidade só tem o nome que se destina à alegre confraternização de "jotinhas" (jovens que querem ser políticos do PSD quando forem grandes), esteve a ministra das Finanças Maria Luís Albuquerque. A sua experiência docente é muito reduzida: deu umas aulas na Universidade Lusíada, a escola onde se licenciou e não tem qualquer doutoramento, o que significa que muito dificilmente poderia ensinar numa universidade pública portuguesa. Não sei se algum dia publicou algum artigo científico. E não se pode dizer que os seus alunos tenham estudado e aprendido muito: um deles foi Pedro Passos Coelho, que terminou o curso aos 37 anos, e cujos conhecimentos de Finanças e Economia são o que se sabe.

Pois a senhora ministra, que mentiu aos portugueses no caso do Banco Espírito Santo dizendo que não há dinheiros públicos envolvidos (a troika emprestou a quem? E a CGD, parte do Fundo de Resolução, não é um banco público?), tentou explicar aos jovens candidatos a políticos e alunos daquela "Universidade" o continuado garrote às Universidades e aos Institutos Politécnicos:

Relatou o Expresso on-line:
""Se é possível evitar cortes no ensino superior? Não, nem no ensino superior, nem no resto", afirmou a ministra das Finanças, Maria Luís Albuquerque, em resposta a perguntas dos alunos da Universidade de Verão do PSD, que decorre em Castelo de Vide até domingo. 
Sublinhando que "o ensino superior, como todas as outras áreas, vive num país que tem fortíssimas restrições de recursos e deve adaptar-se", a ministra notou que tal não lhe tira importância. Aliás, acrescentou, o facto de ser ensino superior dá-lhe uma responsabilidade acrescida porque se está a falar das elites do país, que "devem ser os primeiros a compreender as dificuldades e a estar do lado de quem as quer resolver". 

Ler mais aqui.

Pois para ela as instituições de ensino superior público, onde nunca houve roubos como houve no BPN ou no BES nem nada parecido com a construção de estádios de futebol inúteis com dinheiros públicos ou sequer com as trapalhadas da Parque Escolar, têm de continuar a encolher como tudo o resto, sofrendo na pele cortes sobre cortes até chegar ao osso, esquecendo que nelas reside a  esperança de futuro do país. Usa a palavra "adaptar-se" como eufemismo de morte lenta das instituições onde se cria e transmite saber. E apenas lhes reconhece o "dever" de "estar do lado de quem as quer resolver [as dificuldades]", isto é, os académicos têm, imagine-se, de concordar com os governantes.

A ministra não faz ideia nenhuma o que é e para que serve o ensino superior (a Universidade Lusíada não lhe serviu, nesse aspecto, para nada). Quer que as escolas superiores  vivam continuamente com orçamentos de miséria, vendo-se impedidas de cumprir a sua missão. E pensa que o papel das "elites", dos professores dessas escolas, é não o de estudar, discutir e criticar, mas sim o de concordar com a ministra.

Fala-se dela para futura líder do PSD e, portanto, candidata a primeiro-ministro. Só se for o princípio de Peter a funcionar.

segunda-feira, 8 de setembro de 2014

VERGONHA!


“O que finalmente mais sei sobre a moral e as obrigações devo ao futebol” (Albert Camus).

Ao ver os frontispícios  dos jornais  desportivos de hoje, deparei-me com os seguintes títulos:
- “Record”: “Vergonha”.
- “A Bola”: “A  maior vergonha de sempre da selecção”.
- “O Jogo”: “Miséria total”.

Malgré tout, Pepe, no fim do jogo Portugal-Albânia, declarou: “Ainda acredito em Paulo Bento. É o nosso treinador, acredito nele. Está a fazer um bom trabalho”. E Nani, mais comedido em  louvor a Paulo Bento, disse: “Não acho que o trabalho do treinador [Paulo Bento] esteja em causa, fomos superiores e foi pena termos sido surpreendidos”.

Ou seja, depois do tempo das balizas às costas evoluímos para a época da minha juventude em que a Selecção  Nacional ao perder copiosamente com outras selecções (estou a lembrar-me por exemplo da cabazada dos 10 a 0 sofridos perante a selecção de terras de Sua Majestade) merecia o simples conforto de termos ganhado moralmente!

Mas o mundo não pára e os tempos são outros! O prestígio internacional da nossa selecção, a diferença de quase amadorismo dos virtuosos  “5 violinos” do Sporting relativamente às verbas escandalosas auferidas pelos jogadores actuais,  a exigência de quem gasta fortunas na ida estrangeiro para apoiar a nossa selecção, os  bilhetes caros  de quem por cá se fica para assistir aos jogos da Selecção das Quinas em prejuízo, por vezes, do magro orçamento familiar,  tudo isto somado (e outras coisas  que ficaram por dizer) não se deve ficar pelo acenar de lenços brancos no Estádio de Aveiro.

E se, como sói dizer-se, a culpa não deve morrer solteira, com o despedimento encapotado, pela atribuição de  novas funções de menor relevo,  da equipa médica da selecção,  como quem despede uma mulher-a-dias paga à hora e sem contrato de trabalho!,  que serviu de inocente  bode expiatório  da culpa de terceiros que se ocultam na sombra do laissez faire, laissez passer, chegou a altura de ser exigida, sem paninhos quentes,  responsabilidades directas ao presidente da Federação  Portuguesa de Futebol e ao seu staff. E, no meio de tudo isto, sem compadrios ou simples "amiguismo",  demitir Paulo Bento, pese embora o ónus de desfalcar os cofres da Federação por um contrato feito dias antes do começo do Campeonato do Mundo sem fiador ou garantias de qualquer ordem.

 Mais, ainda! “A maior vergonha de sempre da selecção” (“A Bola”) passou da esfera privada para a esfera pública do noticiário dos jornais desportivos (e não só!), exigindo ao secretário de Estado do Desporto que se pronuncie sobre estes factos e diga publicamente quais as medidas estatais que, porventura, estejam a ser tomadas para  fazer com que a Selecção Nacional torne a  honrar a bandeira verde-rubro.

A importância do respectivo cargo e a sua responsabilização não se podem ficar por assistir nos camarotes vips dos estádios  nacionais, ou dos cinco cantos do mundo, ao desenrolar de pugnas  do desporto-rei coroando de louros as cabeças vitoriosas e remetendo-se ao silêncio nas horas amargas da nossa vergonha colectiva!

EMPREGO, INOVAÇÃO E CIÊNCIA



Tem-se assistido a uma forte discussão pública e académica sobre as relações entre o emprego a inovação e a ciência. O enfoque analítico nas relações entre Ciência e Tecnologia e no emprego em áreas de ponta da economia e da ciência introduz nesta conferencia, aberta ao público, estes temas, pela sua atualidade e o debate social que sobre eles tem sido gerado.


Esta conferencia tem por objectivo discutir alguns dos principais resultados de dois projetos de investigação: "Desenvolvimento Científico e Inovação Empresarial" e "Redes de Inovação e Emprego Científico", ambos coordenado pelo CIES-IUL.

(Informação recebida do ISCTE; clicar para ver melhor o cartaz)

AS VISITAS DOS AVALIADORES DA ESF/FCT

A "avaliação" das unidades de investigação feita pela ESF às ordens da FCT continua sob o signo da ilegalidade.

Em muitas visitas só estão a aparecer três avaliadores, havendo casos em que nenhum deles (repito: nenhum deles) é especialista nos temas científicos investigados pela unidade "avaliada". Quer dizer, como repetidamente tem sido dito, esta não é uma "avaliação por pares", mas simplesmente um procedimento político-burocrático destinado a reduzir, de um modo bastante arbitrário, a investigação em Portugal. Na 1.ª fase foi para metade, na 2.ª fase logo se vê.

 Lembro que o que está escrito no regulamento relativo à 2.ª fase (página 15) é:

 "Each evaluation panel will be composed by 4 or 5 specialists of internationally recognized merit and competence. The constitution of the evaluation panels will take into consideration the number of applications for each scientific area, a good gender balance as well as a fair geographic and institutional distribution of evaluators. The composition of the evaluation panels will be published in the FCT website."

 É isto que não está a ser cumprido.

 Quanto a resultados de "audiências prévias" (repare-se no nome: "prévias") não há qualquer notícia. Entretanto os prejuízos sobre a reputação científica de numerosas unidades estão feitos. A novidade, que não poderá deixar de ser levada em conta no resultado dessas "audiências" é que a produtividade científica de todas as unidades passou para o dobro, pois a FCT corrigiu em Agosto um erro global de um factor de 2 nos ETI(Equivalentes a Tempo Inteiro). Isto é, a produtividade científica da unidades é o dobro do que os avaliadores afirmaram. A reputação da FCT se ja estava baixa com tantos erros e irregularidades baixou ainda mais.

Vista aérea do vulcão Bardarbunga, na Islândia



 Conforme comenta o vulcanólogo Victor Hugo Forjaz, várias ilhas dos Açores, nomeadamente S. Jorge, estiveram assim há 50.000 anos.



domingo, 7 de setembro de 2014

Minha entrevista à RUC sobre o Gabinete de Física da Universidade de Coimbra

Declarações que prestei à RUC - Rádio Universidade de Coimbra sobre o Gabinete de Física da Universidade de Coimbra:
http://www.ruc.pt/2014/09/01/antigo-gabinete-de-fisica-experimental-da-uc-distinguido-como-sitio-historico-europeu/
O Marquês de Pombal instalou o Gabinete, em 1772, inaugurando a ciência experimental na Universidade Portuguesa, e agora, em 2014, o governo de Passos Coelho quer encerrar na prática a investigação em Física em Coimbra. Não vai conseguir, claro.

Já estreou "Magia ao Luar" de Woody Allen

UM CAMINHO CURRICULAR PARA A FORMAÇÃO HUMANISTA?

Entenda-se este texto não como um elogio acrítico a uma nova escola de iniciativa privada, mas como uma reflexão acerca da estrutura curricu...