segunda-feira, 26 de julho de 2010

Ainda a Polémica sobre o Historiador José Hermano Saraiva


“Pois a opinião impõe-se como as posturas da Câmara Municipal? Pois haverá cartilha para as nossas opiniões históricas?” (Eça de Queiroz, 1845-1900).

De um anónimo, recebi um comentário ao meu post de ontem, “José Hermano Saraiva ‘versus’ José Saramago”, que, no essencial, dizia: “José Hermano Saraiva é tanto historiador como eu sou padre ou médico”. E apresentava, como razão, os factos de a historiografia só ter dado os primeiros vagidos em Portugal depois de 25 de Abril e de José Hermano Saraiva ser um pobre diabo, ou mesmo um enjeitado dessa ciência.

Com a isenção de não ser atingido nos meus brios profissionais de historiador, que não sou, “nem padre ou médico”, naquele meu post tive José Hermano Saraiva como historiador. Atrevimento o meu. Imperdoável atrevimento o meu, repito! Para me libertar de uma nódoa que podia alastrar como gordura em fato novo, nada como procurar em fontes fidedignas o significado da palavra historiador. Assim: 1) “Historiador aquele que faz pesquisa, que escreve acerca da história” (“Grande Enciclopédia Portuguesa-Brasileira”, tomo III, p.297); 2) “Que ou aquele que se especializou em ou que escreve sobre história” (“Dicionário Houaiss da Língua Portuguesa”, p. 4.428).

Indultado da acusação de não ser conhecedor do uso de simples palavras correntes (por não ler os dicionários com a avidez com que os jovens e as jovens de tempos idos devoravam os livros de Emílio Salgari ou de Corin Tellado?), parti mais afoito para a consulta de alguns dados biográficos de José Hermano Saraiva sem ser o das histórias contadas por qualquer avô a seus netos em noites de inverno aquecidas pelas lareiras. Deparei-me com sete Orações Académicas, proferidas depois de 1976, ou seja, sem serem escoradas por um cargo ministerial, editadas pela Academia de Ciências de Lisboa da qual é membro. E já que falo de instituições culturais a que pertence, acrescento os nomes da Academia Portuguesa de História, da Academia da Marinha e Instituto Histórico e Geográfico de São Paulo (Brasil). Desobrigo-me, por ter como desnecessário ou mesmo fastidioso para o leitor, de enumerar as várias obras de que é autor, como, por exemplo, os três volumes da ”História de Portugal” (1981).

Tendo enviado ao Prof. José Hermano Saraiva o meu artigo de opinião saído no Diário de Coimbra e transcrito neste blogue com o título (intencionalmente) polémico, “José Hermano Saraiva ‘versus’ José Saramago”, recebi em tempos uma carta sua que publiquei, devidamente autorizado, no meu livro “O Leito de Procusta – crónicas sobre o sistema educativo” (edição do SNPL, 2005, p. 103). Transcrevo-a integralmente como prova de uma missiva escrita com uma evidente desilusão, mas polvilhada, aqui e ali, de fina ironia:

“Meu querido e antigo aluno,

Recebi a sua carta com o recorte do jornal Diário de Coimbra. Agradeço-lhe muito as palavras tão amigas que usa a meu respeito. Não sabia do artigo do Dr. Acácio Barradas, mas não me surpreende. Conheço a pessoa e sei que não fez aquilo por mal. É incapaz de fazer melhor. Fiquei particularmente enternecido com a recordação dos tempos da minha juventude em que com tanto entusiasmo tentava iniciar os meu jovens amigos na inteligência da História.

Quero ainda dizer-lhe que concordo inteiramente com o seu “P.S.”*. Como advogado defendi muitas dezenas de presos políticos no Tribunal Plenário de Lisboa. A discordância vi-a na frase “não haver machado que corte a raiz ao pensamento”. Infelizmente há. As fogueiras da Inquisição ainda hoje fazem sentir o seu efeito exterminador, e a prova é que em 1974 as cinzas reacenderam-se e provocaram um novo “auto de fé”. Passados 30 anos ainda há quem ache isso bem.

Não julgue que estou com isto a censurar os pontos de vista do meu colega Dr. Acácio Barradas. Desde os astrónomos gregos, sabemos que o mundo é redondo e que o círculo tem 360 graus. Os meus antípodas têm tanto direito de pensar como eu.

Envia-lhe um abraço comovido e de grande amizade o seu amigo de sempre.

Lisboa,29 de Setembro de 2005.

José Hermano Saraiva”.

*Transcrevo o referido “post scriptum”: “Para evitar especulações de deturpações de intenções, desde já, declaro que abomino qualquer tipo de prisões por motivos políticos desde que não atentem contra a vida de pessoas inocentes ou de mordaça de regimes totalitários à liberdade de expressão que acaba por não vingar porque, nos versos de Carlos de Oliveira, “não há machado que corte a raiz ao pensamento” (in “O Historiador José Hermano Saraiva").

Bem sei que António Lobo Antunes, um simples exemplo, não foi galardoado com o Prémio Nobel da Literatura. Isso impede-me (ou a alguém com dois dedos de testa) de o considerar um escritor? De igual modo, independentemente, do muito ou pouco valor de historiador de José Hermano Saraiva (que algumas pessoas ousam pôr em causa, no direito que têm a uma opinião própria), deve impedir-me de o ter como historiador? Esta é uma questão menor, porque se trata de opiniões meramente pessoais, repito. E as opiniões valem o que valem, mas ,como diria Antero, como em tudo na vida, deve prevalecer o “soberaníssimo bom senso”.

domingo, 25 de julho de 2010

A tragédia da Matemática no básico

Depoimento que prestei ao "Jornal de Leiria" e publicado no último número sobre os resultados dos exames e Matemática do 9.º ano:

Salta à vista que o ensino da Matemática é um dos maiores problemas nacionais. Os péssimos resultados dos exames do final do ensino básico são apenas um dos indicadores do desprezo pela Matemática que reina entre nós. O Ministério da Educação, que devia estar na primeira linha da defesa da Matemática, pouco ou nada tem feito na área. Pior: procura até esconder o seu falhanço. Os resultados do Plano de Matemática são aqueles que se vêem. Onde estão os relatórios com as conclusões? A tragédia será ainda maior se os responsáveis não forem mudados.

O NEGÓCIO DAS PULSEIRAS QUÂNTICAS

Entrevista que dei ao "Correio da Manhã" sobre "pulseiras quânticas" e da qual foi publicado hoje um breve excerto:

CM- Várias pulseiras como a Power-Body, a Power-Balance ou a Infinite estão a ser comercializadas como uma forma simples e eficaz de restituir ao corpo humano equilíbrio, flexibilidade e resistência através de hologramas quânticos, cuja frequência terá influência no bem-estar pessoal. Todas estas marcas fazem referência a supostos estudos científicos que testam os seus benefícios, embora não citem nenhum. Pergunto-lhe se é possível que estas pulseiras tenham algum efeito no bem-estar, se são capazes de equilibrar a nossa energia e porquê?

CF- Não, não é possível que haja um efeito objectivo. A expressão "equilibrar a energia" não significa rigorosamente nada. É absurda. Quando muito funcionará como a astrologia: quem quiser acredita, mesmo que não haja qualquer base científica. Devo acrescentar que quem faz pretensões extraordinárias de um produto é que tem de fazer a prova dessas pretensões. Têm de provar os efeitos e não dizer qualquer coisa e ficar à espera que alguém prove o contrário. Ora até hoje não existe nenhuma prova de efeitos dessas pulseiras. É tudo treta. Não há nenhum fundamento científico. "Ionização negativa", "frequências naturais emitidas por hologramas", etc. tudo isso são fantasias. É banha da cobra!

CM- O que significa energia quântica?

CF- Aqui não significa nada. Não se devia usar sequer a expressão. Só há quatro formas de energia, ligadas às quatro forças fundamentais que se conhecem: gravítica, electromagnética. energia nuclear forte, e energia nuclear fraca. Na teoria quântica - teoria que nos permite entender os constituintes fundamentais da matéria - podem entrar os três últimos tipos de força (até agora não há uma teoria quântica da gravidade que seja consensual). Mas nada disto tem a ver com pulseiras...

CM- Existe algum estudo que corrobore esta suposta tecnologia presente nas pulseiras?

CF- Não, nenhum que eu conheça.

CM- Tenho conhecimento de um estudo realizado pela Universidade Politécnica de Madrid que, ao estudar a possível influência da pulseira Power Balance no equilíbrio das pessoas, concluiu que estas não tinham qualquer efeito. Existem mais estudos neste sentido?

CF- Não conheço esse estudo. A referência é muito vaga. Quais são os autores? Onde foi publicado? É possível que haja outros estudos, pois estuda-se qualquer assunto. Este assunto a mim não me interessa, a não ser do ponto de vista de cultura científica. Interessa-me o que ele mostra sobre a falta de cultura científica, algo mais do domínio da sociologia da ciência do que da ciência propriamente dita.

CM- Estas pulseiras têm algum efeito, positivo ou negativo?

CF- Não, nem positivo, nem negativo. Só fazem mal à carteira pois são caras. Um holograma é uma coisa inócua e uma tira de silicone também. Se se identificar algo que se possa medir de forma objectiva, o que me parece difícil (bem-estar é uma noção vaga) funciona o efeito placebo: sabe-se das ciências da saúde que algumas pessoas acreditam que vão ser curadas e curam, mesmo quando estão a tomar algo sem efeito nenhum.

CM- Que conselhos daria às pessoas que já têm estas pulseiras ou que estão a equacionar adquiri-las?

CF- Às que já têm nenhuns, já foram enganadas e só espero que não o voltem a ser. Às que não têm que pensem bem se querem contribuir para lucros de comerciantes sem escrúpulos. Mas cada um é livre, claro.

CM- O facto de, por exemplo, se atribuir a criação da pulseira a um cientistas da NASA é apenas um pretexto para captar a atenção e tentar vender uma imagem de credibilidade?

CF- Claro que é apenas um pretexto! Mas que cientistas da NASA? Há milhares de cientistas da NASA! E onde está, na NASA, a recomendação das pulseiras?

CM- Há várias pessoas que afirmam ter melhorado os seus rendimentos desportivos ou o seu bem-estar graças ao uso destas pulseiras. Esse facto poderá estar relacionado com o efeito placebo?

CF- Sim, pode. Esse efeito é bem conhecido. E as pessoas dizem muita coisa.

CM- Podemos comparar estas pulseiras com as famosas Tucson?

CF- As Tucson não serão assim tão famosas, porque eu não me lembro delas. Mas não sou especialista em pulseiras. Sou apenas um físico que leu uns disparates sobre pulseiras com "hologramas quânticos" que emitem "frequências naturais" que ajudam o "campo electromagnético do corpo". Isto é uma confusão de palavras que, embora isoladas possa, nalguns casos, fazer sentido, no seu conjunto não fazem sentido nenhum.

CM - A pulseira Infinite, através de um site (aqui) refere um suposto estudo que comprova os seus benefícios. Este estudo é fidedigno?

CF- Não, não é. Nem é fidedigno nem é sequer estudo. É mais um dos muitos disparates de pseudociência, isto é, algo que se faz passar por ciência para ganhar credibilidade, mas está nos antípodas da ciência. O sítio que indicou contém aliás um chorrilho de asneiras. São tantas que é difícil dizer qual é a mais grave. É a ignorância científica ao mais alto grau. Porquê perder tempo com isso?

José Hermano Saraiva "versus" José Saramago

"Temos como futuro o esquecimento" - José Luis Borges.

Num comentário ao post “Uma carta de Eugénio Lisboa enviada à direcção da ‘Árvore’ ” (24/07/2010)”, foi escrito por um anónimo: "A obra literária de Saramago (sem discutir, sequer, o seu valor) não deve ser divorciada dos seus deveres de cidadão" diz alguém acima. Mas já se deve divorciar no caso de José Hermano Saraiva que merece todas as homenagens por ser um bom comunicador!! Vá a gente entender a mente humana”.

Por ser eu o autor deste breve texto, embora não sentindo a necessidade de me sujeitar a uma sessão de psicanálise, nem sequer estar para aí virado, para desvendar o que me vai na mente, basta-me esclarecer a minha posição. E, para isso, nada melhor do que transcrever um artigo de opinião que escrevi no Diário de Coimbra, em 4 de Agosto de 2005, intitulado “O Historiador José Hermano Saraiva”:

“Os desvairados impropérios dirigidos ao Prof. José Hermano Saraiva pelo senhor Acácio Barradas, nas colunas de 'Cartas ao Director' (Público, 26/Julho/2005), espelham bem a sentença de Buffon: “O estilo é o próprio homem!”. E toda essa raiva , porquê? Pelo frisson que lhe parece ter causado a reportagem, datada de 24/Julho/2005, da autoria do jornalista do Público, Adelino Gomes, com o testemunho de personalidades (de entre elas, José Hermano Saraiva) dos mais variados espectros políticos sobre a ordem do falecido Prof. Rui Grácio, à época secretário de Estado de Orientação Pedagógica, para que fossem destruídos pelo fogo livros de índole “fascista” (ao tempo, revolucionários houve que tiveram os Lusíadas nesse rol) que fazem parte de um espólio secular de um país em que o mau uso da liberdade passou a ser desculpa para todos os desmandos.

Num momento pouco agradável de uma vida vítima de torpeza, apraz-me a oportunidade que me é dada de dizer que, em fins da década de 40, tive a honra de ser aluno de liceu do Prof. José Hermano Saraiva. E dele me recordo a dar as aulas da disciplina de História com o mesmo entusiasmo e aplauso que desperta na legião de pessoas que o escutam e o vêem nos seus programas televisivos por se tratar de um pedagogo que em nada se assemelha aos 'pedabobos' a quem os ventos da revolução trouxeram uma mudança radical nas suas 'convicções políticas anteriores', e que pululam por esse Portugal fora arrastando-o para o lugar de lanterna vermelha em estudos comparativos sobre Educação, relativamente a outros países europeus! E que bem ele utilizava a pedagogia de fazer para aprender: quando das matérias referentes aos descobrimentos, passava como trabalho de casa, a feitura de mapas a eles referentes bem como a construção – em madeira de balsa talhada a canivete e as velas em pano com a Cruz de Cristo pintadas - das caravelas de antanho, sendo atribuídas classificações que contavam para a nota de fim de período.

Ma a minha discordância maior reside a montante do ataque que lhe é desferido na supracitada carta, e que eu abomino com todas as minhas forças, na vã tentativa de apoucar os sagrados laços de família, pela evocação despudorada do nome de seu irmão, António José Saraiva (1917-1993), segundo Acácio Barradas, aqui com verdade, 'um dos portugueses mais perseguidos por questões políticas durante o regime do Estado Novo'. Vejamos o que, a este propósito, escreve Maria Ana Sequeira de Medeiros, nos seus dados biográficos: 'Expulso do ensino superior em 1943, na sequência de um processo disciplinar motivado por um desentendimento com Vitorino Nemésio, António José Saraiva ingressou no ensino liceal' ('António José Saraiva e Óscar Lopes: Correspondência', Gradiva, 2005).

A deturpação dos motivos desta expulsão logo é aproveitada por certa esquerda – que transforma deuses em demónios e demónios em deuses, a seu bel-prazer e ao sabor das suas conveniências – para lhe atribuir um cariz político. Sejamos honestos: reporta-se esta referência feita a António José Saraiva só a parte da vida de uma proeminente figura do mundo da Cultura. E a outra? Quando, 'verbis gratia', com a sabedoria, a reflexão e os desenganos que a idade traz à vida, denuncia os crimes cometidos pela ex-União Soviética nas estepes geladas da Sibéria? Ou, ainda, quando se manifesta contra a forma como se processou a 'descolonização exemplar em que os militares de Abril deixaram as colónias como pardais, largando armas e calçado, abandonado os portugueses e africanos que confiaram neles?'

Por último, esta é uma sentida e singela homenagem (que muito peca por tardia) de um antigo aluno que lamenta que a condição de octogenário do seu antigo professor, que dedicou grande parte de uma vida ao estudo e divulgação escrita e oral da historiografia – 'não só pelo achado de documentos novos , mas também pelo surto de ideias fecundas', como defendeu António Sérgio - , e à sua divulgação popular lhe não permita já a destreza física para dar umas boas bengaladas nos costados de quem bem as merecia por pôr em causa, como fez, o estatuto profissional de historiador de José Hermano Saraiva!”

Quer se queira ou não, há duas coisas que distinguem estes dois "josés": um, José Saramago, foi laureado com o Prémio Nobel, outro, José Hermano Saraiva, não; José Hermano Saraiva, que conste, e muito menos que se documente, não saneou professores quando ministro "com a faca e o queijo na mão", José Saramago (1975), na direcção do “Diário de Notícias”, saneou 30 jornalistas com a seguinte justificação: “Quem não está com a Revolução, é melhor não estar no Diário de Notícias”.

Razão bastante para eu não precisar de separar a obra de José Hermano Saraiva (sem discutir, sequer, o seu valor) dos seus deveres de cidadão que se não compagina com o oportunismo de renegar um passado para se juntar aos detentores de um novo poder, como sucedeu com tantos figurões que andam para aí travestidos de progressistas e que muito gostariam de ver ressuscitado "o lápis azul" dos coronéis da Censura do Estado Novo.

Eugénio Lisboa e a Fonte Luminosa

Em resposta a um comentário de Luís Neves, ao post de Eugénio Lisboa, “Uma carta de Eugénio Lisboa enviada à direcção da 'Árvore'” (23/07/2010), recebemos este texto que ora se publica:

Ter ou não ter estado na Fonte Luminosa

“O Sr. Luís Neves tem todo o direito de não saber quem sou do mesmo modo que eu não sei quem ele é. Só sei o que dizem as palavras que ele escreve. E o que essas dizem é que lhe fazem muita impressão as pessoas que se associaram a Mário Soares na Fonte Luminosa para travarem a vinda para Portugal dos Torquemadas que vinham substituir os do Estado Novo. Cada um gosta do que gosta. Não vou perder tempo - nem seria elegante - a inventariar aqui os meus conhecidos créditos anti-fascistas. Mas é importante esclarecer uma coisa: para mim, mas não para o Sr. Neves, todas as perseguições ao pensamento livre são igualmente más. Nessa medida, Saramago era tão mau ou pior do que António Ferro - porque este, mau como era, ainda tinha aquele teor de má consciência que o levava a tentar dialogar com os adversários. Saramago pertencia ao grupo dos energúmenos de boa consciência - podia demitir, punir e castigar porque tinha a "história" a seu favor... Quanto à Fonte Luminosa, não estive lá porque não vivia em Portugal. Não tenho portanto a honra de poder dizer aos meus netos:"Eu estive lá". O outro prazer teria sido o de ter estado lá e não ter visto o Sr. Neves. Não se pode ter tudo...

Eugénio Lisboa”

P.S.: “Esta de se não poder criticar a conduta de Saramago, só porque ele morreu - é de cabo de esquadra. Por esta via, a história não poderia escrever-se, a não ser que fosse sistematicamente encomiástica. Por exemplo, não se poderia criticar os esclavagistas porque já estão mortos e seria deselegante... Os censores arranjam sempre as razões mais nobres para a repressão. Salazar e Staline liam pela mesma cartilha. Há fascistas que o são sem saberem. Ou sabem-no mas fingem que não sabem. Saramago, em 1975, cometeu um acto fascista e não há muito tempo disse não estar arrependido: hoje, faria o mesmo. Merece dar o nome a uma rua? Para as pessoas que dão valor ao civismo - NÃO!”

Na imagem: Fonte Luminosa de Lisboa

sábado, 24 de julho de 2010

A Democracia das "Gandas Oportunidades"

“Não existe cómico fora do que é propriamente humano”” (Henri Bergson, 1859-1941).

Acabo de ver no “You Tube” um sketch (e porque estamos a falar de Novas Oportunidades, traduzo: paródia em português), com o sugestivo título” Gandas Oportunidades”.

Depois de o ver e de me rir tanto ou mais que nos filmes mexicanos do actor humorístico Cantinflas da minha juventude, em que ele representava várias profissões – mágico, bombeiro, deputado, etc. -, quando deveria ter chorado copiosamente pelo estado inditoso da educação portuguesa, espero que seja cumprida a crítica mordaz de Eça: "O riso é a mais antiga e ainda mais terrível forma de crítica. Passe-se sete vezes uma gargalhada em volta de uma instituição, e a instituição alui-se".

Valter Lemos a jogar em casa, uma casa em que foi professor da Escola Superior de Educação local, fez um discurso mirífico em Castelo Branco em que enalteceu as Novas Oportunidades como sendo “o sonho da vida dos diplomados”, sem se referir ao pesadelo para o país de “mais de 400 mil terem recebido diplomas” que atestam, em meia dúzia de meses, uma espécie de milagre de multiplicação de diplomas, de equivalências ao 12.º ano do ensino secundário. E, desta forma, cometeu a injustiça de não reconhecer o facto do respectivo ensino secundário regular ser um dos poucos baluartes da exigência do nosso decadente sistema de ensino oficial em que no próprio ensino superior “há por aí muitos cursos da treta”, na opinião do ex-bastonário da Ordem dos Engenheiros, Fernando Santo ("Revista Sábado", 15 a 21 de Abril de 2010).

Para que o leitor possa apreciar devidamente, transcrevo um descarnado naco de prosa do discurso de Valter Lemos, actual secretário de Estado do Emprego e da Formação Profissional, em que, talvez, por falta de um Secretariado Nacional de Informação do tempo do Estado Novo, aquando da atribuição de diplomas de Novas Oportunidades albicastrenses, se desfez em elogios ao governo, a si próprio e à obra de ambos. Para esta figura de Estado, quiçá por desconhecimento da máxima latina de que “laus in ore proprio vilescit” (e porque continuamos nas Novas Oportunidades, aqui se traduz: “louvor, em boca própria, perde todo o valor”), as Novas Oportunidades são “uma grande aposta do Governo, cuja prioridade tem sido a qualificação dos portugueses”. Ainda, segundo ele, elas “têm sido um grande instrumento nesse sentido” (“Jornal Reconquista”, Castelo Branco, 22 de Julho de2010).

Faço votos de que dos escombros das Novas Oportunidades (aluída pelas gargalhadas das “Gandas Oportunidades”) não ressuscite um novo Valter Lemos que depois de ter passado do Ministério da Educação, onde se desunhou em loas à educação da juventude portuguesa, transitou para o Ministério do Emprego e da Formação Profissional, onde passou a enaltecer com maior vigor, em cerimónias públicas de grande pompa e circunstância que se sucedem pelo país fora, as vantagens das Novas Oportunidades, escamoteando o desemprego que elas possam trazer a competentes operários transformando-os em diplomados com o 12.º ano que perderam “um saber de experiência feito” para adquirirem um saber de ignorância feito atestado por licenciaturas conducentes ao desemprego ou a ganharem num dia o que um operário especializado, que trabalhe por conta própria, ganha em menos de uma hora.

Hoje, sinceramente, não me apetece voltar a abordar com seriedade as Novas Oportunidades. Mas para que o meu silêncio não possa ser tido como cúmplice nesta desastrosa situação de dar a todos os portugueses o diploma do 12-º ano ou uma licenciatura tão bem caracterizada neste sketch, o que seria uma ignomiosa deserção da minha parte, limito-me a transcrever um pequeno extracto de um recente post, que publiquei neste blogue, titulado “A Caixa de Pandora das Novas Oportunidades" (09/07/2010), em que estabeleci o confronto entre um ensino exigente e um outro deslocando-se em carris de facilitismo:

“Vivemos num país a duas velocidades. Uns viajam em comboios a vapor, com incomodidades pelo caminho e paragens em vários apeadeiros; outros na comodidade do TGV que os transporta, à velocidade de um raio, rumo à obtenção de diplomas dos vários graus de ensino. O TGV é representado pelos exemplos das "Novas Oportunidades" para maiores de 18 anos e do "Acesso ao Ensino Superior para Maiores de 23 anos", com o respectivo e escandaloso facilitismo. Como é óbvio, quem faz o seu percurso escolar regular viaja em comboios do século XIX. Claro que, com isto, não estou contra as “Novas Oportunidades” ou acesso ao ensino superior, dependente da data de nascimento escarrapachada no B.I, de quem, por motivos vários, se viu obrigado a desistir dos respectivos estudos, mas... desde que esta forma de obtenção de diplomas se não torne num bodo aos pobres para quem não quer estudar com os sacrifícios que isso acarreta”.

No século XIX, escreveu Ramalho Ortigão, dirigindo-se ao Ministro do Reino, “ o estado em que se encontra em Portugal a instrução secundária leva-me a dirigir a V. Ex.ª o seguinte aviso: Se a instrução secundária não for imediatamente reformada, este ramo do ensino público acabará dentro de poucos anos”. Para além da diminuição da natalidade, hoje, há o risco acrecentado de muitas escolas do ensino secundário oficial da III República, fecharem os portões por falta de alunos que reconhecem que depois de cumprido um 9.º ano em que é dificílimo reprovar e facílimo passar, há a possibilidade de se arranjar um emprego de faz-de-conta para ter acesso às Novas Oportunidades. “Et voilà!”, passados escassos meses o diploma do 12.º ano cai do céu aos trambolhões. Outra via será esperar pelos 23 anos para fazer um simulacro de prova de acesso ao ensino superior.

Em plena Ditadura de Ignorância, em que se pretende confundir a escolorização de um país com a ilusão de um povo, caminha Portugal, a passos largos, para apresentar estatisticamente a maior percentagem de diplomados com o 12.º ano e de licenciados no espaço da Comunidade Europeia. Ou seja, ao contrário dos genéricos de certos filmes, neste sketch do “You Tube”, qualquer semelhança com a realidade não é pura ficção. É a realidade, ela mesma!

Nacionalmasoquismo: a propósito de alguns comentários

Novo texto de João Boavida na sequência de um anterior publicado aqui.

Face a alguns comentários ao texto Nacionalmasoquismo, a propósito de um poema de Jorge de Sena, sinto necessidade de fazer certos esclarecimentos e algumas achegas.

É evidente que seria uma honra, hoje, para qualquer universidade portuguesa, ter tido Jorge de Sena entre os seus professores. E a Universidade de Coimbra certamente que se orgulharia muito disso. Como qualquer outra, repito. Não estou por dentro dos episódios que fizeram com que uma proposta de contratação pela Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa tenha fracassado. Ou melhor, sei alguma coisa, e até de um ou outro nome (de quem, em princípio, não seria de esperar tal atitude) que eventualmente terá estado na origem desse impedimento. Mas o que sei, de facto, é pouco. Também não sei por que razão não se concretizou, mais tarde, em 74 ou 75, uma proposta de contratação, para a Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra, da responsabilidade, suponho, do professor Victor Matos, da mesma Faculdade (o poeta Victor Matos e Sá). Também não conheço as razões desse falhanço, talvez fosse já tarde demais para reparar o erro, ou a Sena, nessa altura, já não interessasse. Se alguém conhecer os factos e achar por bem vir esclarecer esta assunto, eu, pessoalmente, agradeceria, e por certo todos nós.

Lamento que não se tenha conseguido a sua contratação e penso que foi lamentável para a cultura portuguesa. Dito isto, voltemos a Jorge de Sena. Homem invulgar a muitos níveis e que nos deixa uma obra impressionante e fortíssima, de valências raramente conciliáveis numa só pessoa – investigação, cultura, erudição, e criação original. Mas que, talvez por se sentir superior e não ser reconhecido, sem deixar de perceber como a sua própria grandeza incomodava e tornava invejosos muitos dos seus confrades, o levava por vezes a ser agressivo e até injusto.

Tudo agora se lhe desculpa, mas muitos não lho desculparam então. O poema das Dedicácias aqui referido parece-me o espelho de uma necessidade de ataque sem objecto digno disso, e de, portanto, alguma incoerência, mesmo que a poesia não cuide dela nem interesse para o seu valor. Mas o facto não impede que possamos descobrir a dita injustiça eventual pressuposta e sobre ela falar. De facto, dizer de alguém que é culto, inteligente, viajado, versado em Hegel e fenomenologia, mas que não se salva por andar na Rua da Sofia, tem algo de inaceitável, sobretudo quando se sabe que a Rua da Sofia foi única na Europa do seu tempo, e pelo que foi e pretendeu ser, pelo que poderia ter sido e, portanto, pelo que ainda poderá vir a ser, é, pelo menos, inadequado.

E, sendo assim, qualquer um – e eu também - tem o direito de comentar o escrito de Jorge de Sena; por muito que o admire, como admiro. Tudo se lhe desculpa, porque o talento tudo redime; mas eu posso anotar o facto, levantar um pequeno porém, ou não? Quanto a Coimbra e à catedrazeca a que se refere um comentário, o caso tem mais que se lhe diga porque a realidade é sempre mais complexa que a nossa raiva.

Jorge de Sena sempre lamentou, no fundo, que nenhuma universidade portuguesa o tivesse acolhido. Era um dos seus ressentimentos, pelo menos a princípio, antes da sua instalação definitiva nos EUA. É claro que ter uma cátedra numa universidade americana dispensa uma cátedra em qualquer universidade portuguesa. Isto em princípio, porque na América há universidades e universidades.

Mas, para além disso, é de notar que o que parece evidente hoje não era há quarenta e tal anos. Não podemos esquecer a perspectiva de itinerário pessoal que estas coisas têm, e em Jorge de Sena tiveram de modo quase épico, nem ignorar a época em que estas coisas aconteceram, ou podiam ter acontecido as que não chegaram a acontecer. Pensar assim é pensar num Jorge de Sena abstracto, e esquecê-lo enquanto emigrante intelectual à procura de uma cátedra no Brasil, com um rancho de filhos para sustentar, e com o trabalho constante, titânico, assombroso para construir uma obra, imensa, variada e profunda, e com provas académicas e concursos pelo meio, e obrigações e urgências e prazos, tal como cá, e tudo isto por entre dificuldades de toda a ordem e trabalhos e viagens e doenças e faltas de dinheiro.

É comovente ler as cartas a Sofia de Melo Andresen, já aqui referidas, e perceber a sua mágoa e o seu orgulho ferido, e como a Universidade Portuguesa (e nem especialmente a de Coimbra, note-se; Coimbra tentou remediar o mal, tanto quanto sei) perdeu uma excelente ocasião de se valorizar e de valorizar a cultura portuguesa, cá dentro. Portugal, sabe-se, é frequentemente ingrato e injusto com os seus melhores filhos, e com ele foi-o sem dúvida, e todos perdemos com isso.

Embora Sena, por todas estas razões que até se compreendem, tenha criado muitos anticorpos, que se voltaram contra ele, enquanto vivo. Somos, diz-se também, um povo onde abundam os mesquinhos e os invejosos e o reconhecimento post mortem é o nosso forte. Mais uma vez assim foi.

Finalmente, a oportunidade que alguns sentem de dizer mal de Coimbra é um case study que merecia investigação.

Não se diz nada sobre Coimbra que umas tantas almas não reajam com um imediato e automático reflexo de Pavlov constituído por umas tantas ideias feitas e uns adjectivos que, por si só, reflectem afinal mais o sujeito que os usa que o objecto a que se referem. É bom começar a mudar de discurso porque se arriscam cada vez mais a gritar para um comboio que, ao passar, absorve, com o fragor, todos os berros, até os mais raivosos.

sexta-feira, 23 de julho de 2010

Uma carta de Eugénio Lisboa enviada à direcção da "ÁRVORE"

Devidamente autorizado pelo seu autor, publico uma polémica carta, de fino recorte literário, do académico e ensaísta Eugénio Lisboa, com a data de 21 de Julho de 2010, dirigida à direcção da ÁRVORE (Cooperativa de Actividade Artística CRL), por esta instituição se mostrar indignada por a Autarquia da Cidade Invicta se ter recusado a atribuir o nome de José Saramago a uma das sua ruas. É este o teor da referida carta:

"Exmo. Sr., ocorre-me perguntar que outras grandes figuras nacionais - e não só escritores - não tiveram, até agora, direito ao seu nome dado a uma rua do Porto. Porque será tão imperativo e urgente dar o nome de José Saramago a uma rua do Porto? Ele não foi já suficientemente homenageado? Acrescento: tenho a tendência a ver no Porto a cidade que simboliza a Liberdade. E tenho bons motivos para isso. E tenho igual tendência para ver em Saramago o homem que, em 1975, personificou a perseguição à liberdade de pensamento. Estas coisas não são para esquecer. E não há Prémio Nobel que as lave. O embasbacamento nacional com um prémio que tem contemplado hordas de medíocres e deixado de fora inúmeros gigantes (Tolstoi, Ibsen, Valéry, Drummond de Andrade, Manuel Bandeira, Eugénio de Andrade, Tennessee Williams, Virginia Woolf, D. H. Lawrence, Paul Claudel, Jorge Luis Borges, René Char,etc, etc.) apenas ilustra o nosso provincianismo cultural. A mim, confesso que me não afecta de maior a recusa da Câmara do Porto. Ou antes, incomodar-me-ia muito ver a cidade da Liberdade homenagear quem tão abominavelmente a traíu. Nessa altura, pessoas como Vergílio Ferreira, Natália Correia ou Eduardo Lourenço souberam resistir à força avassaladora dos opressores, entre os quais se encontrava proeminentemente, Saramago.
Agradecia desse a estas minhas palavras a divulgação que pretendem dar aos que apoiam a vossa moção.
Com os melhores cumprimentos,
Eugénio Lisboa"

HUMOR: Protões mais pequenos, à semelhança de cornetos e pernas de pau

Quem não se lembra dos gelados enormes quando era criança e da desilusão de pedir o mesmo gelado passados alguns anos e verificar que este já não é maior do que a nossa cabeça? Uma experiência com a qual certamente todos os leitores se identificam. Sucedeu o mesmo com uma equipa de cientistas internacional, liderada por Randolf Pohl do Instituto Max Planck na Alemanha (em Português, Instituto Super-Maxi). Quando a equipa de Pohl começou a estudar protões no ano 2000, estes pareciam enormes. Passados dez anos, a sensação que fica é que estão mais pequenos: "nas minhas memórias de infância os protões têm para aí 0,8768 fentometros de raio. No ano passado voltei a pedir um protão num acelerador de partículas, e era 4% mais pequeno. A partir daí nunca mais quis olhar para constante de Rydberg".

David Marçal, no INIMIGO PÚBLICO

HUMOR: "GANDAS OPORTUNIDADES"

ALMA MATER DIGITAL


Minha crónica no semanário "Sol" de hoje:

Alma Mater é uma expressão latina que significa etimologicamente a “mãe que alimenta”. Serve, também, para referir a Universidade onde se estudou. Desde há poucos dias, a expressão passou também a ser o nome da biblioteca digital de fundo antigo da Universidade de Coimbra, a mais antiga das universidades portuguesas. Na Internet está acessível, à fácil disposição de todos os interessados, em http://almamater.uc.pt/ .

O leitor que aí clique encontrará cerca de 4000 documentos digitalizados na íntegra, num total de mais de meio milhão de imagens, que incluem livros, periódicos, manuscritos, mapas, fotografias, etc., anteriores a 1940, sobre os mais variados temas, uma vez que o fundo antigo em questão vai desde o Direito e as Letras até às Ciências e Tecnologias. Na área das ciências, poderão ser vistas, por exemplo, magníficas estampas de espécies vegetais portuguesas que constam do livro, publicado em Lisboa no ano de 1800, Phytographia Lusitaniae Selectior, de Félix de Avelar Brotero, lente de Botânica e Agricultura em Coimbra.

Como estamos em época de comemorações do centenário da implantação da República em Portugal, a Alma Mater contemplou essa efeméride. Assim, na secção República Digital, exibe, para consulta geral, numerosos documentos, alguns inéditos, do início do século passado. O leitor pode desfolhar as Observações meteorológicas, magnéticas e sísmicas feitas no Observatório Meteorológico de Coimbra no ano de 1909 e publicadas pela Imprensa da Universidade em 1910. O volume seguinte já está a ser digitalizado para divulgar o estado do tempo no dia 5 de Outubro de 1910...

Ou pode consultar o Boletim dos Hospitais da Universidade de Coimbra, publicado também pela Imprensa em 1931, onde se diz que a reforma de 1911 veio “transformar de forma mais absoluta e radical os serviços hospitalares”, ficando os referidos hospitais a ser “o mais completo campo experimental da ciência médico-cirúrgica”. As estatísticas das operações cirúrgicas feitas a partir de 1913 documentam isto mesmo: basta ver as extensivas listagens com método e processo, o tipo de anestesia e o resultado (“curado”, “melhorado”, “no mesmo estado” ou “falecido”). Não tem o nome dos operados, mas tem o nome dos operadores.

Ou pode ainda ler várias cartas de Afonso Costa, o primeiro-ministro da Primeira República, escritas do exílio após o golpe de Estado de 1926 a um outro exilado, Armando Cortesão, o engenheiro agrónomo (um dos primeiros estudiosos da genética entre nós) que se notabilizou como historiador dos Descobrimentos. Como se compreende, Salazar é aí referido de um modo muito pouco favorável. Na Alma Mater a história está à distância de um clique.

Imagem: estampa do livro de Brotero referido no texto.

HUMOR - INTELIGÊNCIA ARTIFICIAL 3

HUMOR: INTELIGÊNCIA ARTIFICIAL 2

HUMOR - INTELIGÊNCIA ARTIFICAL 1

quinta-feira, 22 de julho de 2010

“O que mais lhe irá acontecer?"

O que se passa no sistema educativo português faz-me lembrar, com mais frequência do que eu gostaria, certas novelas, em versão “foto” e, depois, em versão “tele”, produzidas segundo a fórmula “puxar ao sentimento”, que há umas três para quatro décadas se tornaram o tema principal de conversa da nação.

Essas telenovelas de tão longas e por nelas se introduzirem tantas reviravoltas, a fim de agradar a todos, facilmente passavam para o domínio do incompreensível. Ainda assim, as pessoas continuavam alegremente a vê-las e a falar delas apaixonadamente, apesar de, às tantas, já não saberem explicar como é que a história havia começado, nem a mudança do enredo, nem quem era quem, ao que tinha entrado e que destino teria. Isto, aliás, não importava muito porque o que interessava às pessoas o entretenimento.

Numa paródia a essas novelas, o actor Nicolau Breyner, como um sotaque abrasileirado, repetia no final de cada episódio: “o que mais lhe irá acontecer?”. Fala que hoje já não teria grande sentido porque, entretanto, quer gostemos do género ou não, temos de reconhecer que as histórias, os desempenhos, as técnicas melhoraram muitíssimo. Eu arricaria dizer: ao contrário do sistema educativo, onde a impressão de tudo se repetir, não se conseguindo sair do mesmo estado, é uma contante...

Este pensamento foi o que me ocorreu ao ler uma notícia sobre a (mais uma) revisão do Estatuto do Aluno do Ensino Básico e Secundário. Um pensamento nada edificante de quem, como eu, trabalha na área da Pedagogia, mas que outro pensamento se pode ter perante tanta instabilidade, tanta confusão, tanta opinião?

Lembram-se os leitores, sobretudo aqueles que fazem um esforço (é esta a palavra certa) para estarem a par das medidas para a educação, quantas versões desse Estatuto surgiram num passado próximo? Qual era o texto de cada uma? Que alterações sofreram, com que argumentos e defendidos por quem?

Eu que as li todas, e com intenção de estudo, dou a mão à palmatória: não me lembro. Até porque o Estatuto da Carreira Docente também sofreu alterações várias, o mesmo aconteceu com a Avaliação do Desempenho Docente, etc, etc, etc.

Pode até ser que as alterações agora introduzidas no Estatuto do Aluno estejam correctas, mas, entretanto, perdeu-se o sentido do todo: nem professores e outros educadores, nem pais/encarregados de educação, nem alunos, nem sociedade em geral, conhecem, neste momento, o seu conteúdo em pormenor sem terem dúvidas acerca do mesmo. E estamos a falar de uns milhões.

NOTA: Sobre as novas alterações introduzidas nesse Estatuto e algum debate que tem surgido nos jornais pode ler-se:
-
aqui e aqui artigos de Pedro Sousa Tavares, publicados no Diário de Notícias;
- aqui a notícia da Lusa, publicada no Público;
- aqui artigo de Graça Barbosa Ribeiro, publicado no Público.

quarta-feira, 21 de julho de 2010

Sobre a cultura científica


Parte de uma entrevista que dei a um estudante da Faculdade de Letras de Coimbra, que :

P- Que características definem o conceito de cultura científica em Portugal?

R- A ciência é universal e o conceito de “cultura científica” é o mesmo aqui e em qualquer parte do mundo: a expressão refere-se à parte da vasta cultura humana que tem a ver mais de perto com o empreendimento científico, que de uma forma muito resumida pode ser entendido como a aquisição de conhecimento sobre o mundo. Afirmar que a “ciência é parte da cultura” é ultrapassar a famosa questão das “duas culturas”, a literária e a científica, que C.P. Snow colocou em 1959. Não há duas culturas, mas uma só, sendo a ciência parte inalienável dela. A posse de cultura científica é hoje considerada uma condição de cidadania, isto é, de pertença à sociedade. Mas pergunta-me por Portugal. O nosso país caracteriza-se por uma cultura científica ainda pouco generalizada, resultado de um atraso no cultivo da ciência e na disseminação dela aos cidadãos. Precisamos de mais cultura científica de modo a evitar que, entre nós, muita gente pense que a ciência e a cultura estão divorciadas.

P- Quais os principais elementos que diferenciam a cultura cientifica de outras variantes da cultura?

R- Uma das marcas maiores da ciência é o reconhecimento do erro. Ora, se um resultado científico pode estar errado, julgo que nunca se poderá dizer o mesmo de uma obra de arte. Os critérios de validação da ciência – principalmente o uso do raciocínio lógico e a concordância com a observação ou a experiência - são decerto diferentes dos de outras actividades humanas. Apesar disso, outras áreas da cultura, por muito distintas que sejam da ciência, podem e devem cruzar-se com ela, para enriquecimento mútuo. As artes em geral, que a generalidade dos cidadãos associa mais rapidamente à cultura, constituem uma dessas áreas, abrangendo subáreas como a literatura, as artes plásticas, as artes de palco, etc. Cada vez mais se tem assistido à intersecção da cultura artística com a cultura científica: por exemplo, obras de arte buscam inspiração na ciência e a ciência reinvindica o uso de elementos ou critérios estéticos. Julgo que nessa aproximação não há qualquer risco de confusão ou sincretismo. Um cientista precisa de ter imaginação, mas a sua imaginação não pode ser tão livre como a do artista, tem de estar contida na “camisa de forças” que é a realidade.

P- Como qualifica o actual estado da cultura científica em Portugal?

R- Melhorou muito nos últimos anos, com o investimento enorme que houve na ciência e na sua difusão pública no último quarto de século. Mas o ponto de partida era muito baixo. Assim, há inquéritos internacionais recentes de sociologia da ciência que mostram que os portugueses têm na sua relação com a ciência dificuldades maiores do que as de outros povos europeus. Se muito foi feito, muito há ainda a fazer neste domínio.

P- O que acha que pode ser feito para melhorar a aprendizagem das ciências e a divulgação de cultura científica em Portugal?

R- O ensino da ciência deve ser feito em larga medida na escola e aí tem residido a nossa mais importante falha. O ensino formal da ciência, como é revelado por indicadores internos (resultados dos exames de disciplinas científicas) e por comparações internacionais (PISA e TIMMS), não tem revelado progressos satisfatórios. Ora essa situação não pode ser inteiramente colmatada por via do ensino informal da ciência que sempre se efectua quando há divulgação da cultura científica (através dos média, dos museus e centros de ciência, etc.). Arriscaria dizer que, nos últimos anos, progredimos mais no ensino informal do que no ensino formal da ciência, mas o progresso tanto de um modo como doutro não foi suficiente. Importa, por isso, enfrentar em particular o problema da ciência na escola, começando, na minha opinião, o mais cedo possível. O recurso à experimentação no ensino básico (e, antes disso, mesmo no jardim-escola) é uma via que nos falta percorrer de uma forma mais convicta e eficaz. Para isso, é mister formar mais adequadamente professores desse nível de ensino, melhorar currículos e fornecer bons materiais. Claro que, ao fazer isto na escola, tem de se continuar a fazer tudo aquilo o que já se faz fora da escola, como acontece nas actividades do Ciência Viva, e sempre que possível em coligação com a escola.

P- Qual é o papel do governo na divulgação do conhecimento e da cultura científica?

R- A causa da ciência e da cultura científica é uma causa pública. Diz, portanto, respeito ao governo no qual, em democracia, delegamos a organização da escola pública e dos meios públicos de promoção da cultura científica. Sem investimento público não podemos esperar que a ciência cresça e a cultura científica avance. É também para isso que pagamos os nossos impostos e participamos em eleições. Mas essa delegação não nos isenta das nossas responsabilidades. A causa da ciência diz respeito às empresas e outras instituições privadas, assim como, em geral, aos cidadãos, na medida dos seus saberes e possibilidades. Parte substancial do investimento em ciência e cultura científica deve ser não governamental. Nas sociedades mais avançadas as empresas e os cidadãos dispõem de amplo espaço de iniciativa e podem envidar esforços que se somam ao esforço dos governos. Apesar de alguma aproximação no passado mais recente, Portugal não alcançou ainda um estádio de desenvolvimento suficiente para que o investimento privado na ciência exceda largamente o público, como acontece por exemplo nos países do Norte da Europa.

P- Qual foi o impulso dado à cultura científica pelo programa Ciência Viva?

R- A Agência Ciência Viva tem concretizado vários projectos, que confluem todos eles na defesa e alargamento da cultura científica. Sem o Ciência Viva estaríamos muito piores. Foi uma das boas ideias que frutificaram entre nós nos últimos tempos e só espero que continue o bom trabalho que tem realizado. Em Coimbra, temos desde há pouco tempo o Centro Ciência Viva Rómulo de Carvalho a funcionar em pleno, em homenagem ao grande poeta e divulgador de ciência.

P- Qual foi o papel da “Física Divertida” no panorama nacional da divulgação científica?

R- “Física Divertida” é um livro que escrevi em 1991 e que teve uma sequela, há três anos, com “Nova Física Divertida”. Nesses livros apenas pretendi contar algumas histórias da física, clássica primeira e moderna depois, de uma maneira compreensível para um público alargado, na tradição de outros livros de divulgação científica. Se o consegui ou não, não sei. Não posso ser juiz em causa própria.

P- Acha que existe um público alvo para a cultura científica, ou assimilação desta é universal e acessível a todas as faixas etárias e classes sociais?

R- A cultura científica deve ser de todos. Em particular, é para todas as idades, e é tanto para pobres como para ricos. Claro que os mais jovens estão numa fase da vida mais particularmente susceptível à aprendizagem, na fase em que frequentam a escola. E claro que os pobres ficarão ainda mais pobres se, na escola e fora dela, não lhes for proporcionada a cultura científica. Deve haver uma atenção especial tanto para os mais jovens como para os mais pobres.

P- À luz do conhecimento cientifico hoje existente, e considerando que o progresso é imparável, quais são os limites impostos à ciência pela ética?

R- A ciência tem de ser acompanhada por consciência, isto é, não pode desenvolver-se sem a ética. Pode-se fazer muita coisa na investigação científica, mas nem tudo se deverá fazer. Os limites devem ser impostos não apenas pelos próprios cientistas, mas pela sociedade em geral. Esses limites têm de ser continuamente pensados e redefinidos.

P- Se alguém lhe dissesse que é possível alcançar a verdade absoluta que resposta daria?

R- É possível, de facto, alcançar o conhecimento, como mostra toda a história da ciência. Quanto à “verdade absoluta”, não sei o que é isso. A ciência é cumulativa, isto é, cada vez se sabe mais e o que se sabe de novo não prejudica tudo o que se sabe, mas apenas uma pequena parte. Como este processo tem sido contínuo, é difícil defender, em ciência, o conceito de “verdade absoluta”. Mas é perigoso cair na contingência e no relativismo: há conhecimentos que foram adquiridos e que não vão mudar, como, por exemplo, a Terra é o terceiro planeta mais distante do Sol, que o nosso corpo é feito de células, etc.

ALMA MATER: A UNIVERSIDADE MOSTRA OS SEUS TESOUROS


Alma Mater passou recentemente a ser uma nova “marca” no ciberespaço. No sítio http://almamater.uc.pt/ a Universidade de Coimbra disponibiliza desde o dia 14 de Julho a sua biblioteca digital de fundo antigo. Livros, periódicos, manuscritos, fotografias, mapas e outros documentos integram um vasto espólio que está agora à fácil disposição de todos os interessados.

Várias bibliotecas universitárias de Coimbra com fundo antigo contribuem para a Alma Mater: a da Faculdade de Direito, a da Faculdade de Letras, a Biblioteca de Botânica do Departamento de Ciências da Vida da Faculdade de Ciências e Tecnologia e a Biblioteca Geral.

A Biblioteca da Faculdade de Direito de Coimbra possui uma notável colecção de livro antigo, proveniente em grande parte da livraria do antigo Colégio de São Pedro (que, na sua maior parte, ficou na Biblioteca Geral). Privilegiaram-se na parte incluída na Alma Mater autores portugueses formados pela Universidade de Coimbra e outros que, formados no estrangeiro, foram chamados a Coimbra, como Manuel da Costa, que estudou leis em Salamanca e veio para Coimbra no tempo de D. João III. O Doutor Manuel da Costa, sob o nome alatinado de Emanuelis Costae, com o cognome de Lusitaniae Juriconsulti é o autor, entre outras obras, de um tratado jurídico que está em destaque no Alma Mater:In nonnullas leges et paragraphos commentarii”, publicado na cidade francesa de Lyon (em latim Lugduni) no ano de 1564 (D. João III, que mudou a Universidade de Coimbra de Lisboa para Coimbra em 1937, já tinha morrido sem descendência em 1557, sucedendo-lhe o neto D. Sebastião)

Do rico espólio da Biblioteca da Faculdade de Letras foi destacada na Alma Mater um dos vários manuscritos de João Baptista de Almeida Garrett: “Cancioneiro de romances, xacaras, soláos e outros vestígios da antiga poesia nacional, pela maior parte conservados na tradição oral dos povos. E agora primeiramente colligidos...começado 1824”, adquirido no leilão da livraria de Venâncio Deslandes. Não é suficientemente conhecido que os manuscritos autógrafos do grande autor romântico português se encontram à guarda da Universidade de Coimbra, repartidos pela Faculdade de Letras e pela Biblioteca Geral. Por este meio, o seu conteúdo fica, pelo menos em parte, à disposição de todos, enquanto os frágeis e preciosos originais são mais bem preservados.

Por sua vez, na Biblioteca de Botânica do Departamento de Ciências da Vida da Faculdade de Ciências e Tecnologia da Universidade de Coimbra conserva um conjunto de livros antigos, manuscritos e parte dos espólios dos cientistas botânicos Félix de Avelar Brotero, Júlio Henriques, Luís Carrisso, entre outros, que integram correspondência manuscrita, fotografias, desenhos, etc. A Alma Mater escolheu para destaque na sua inauguração a obra de Brotero Phytographia Lusitaniae selectior, seu novarum et aliarum minus cognitarum stirpium, quae in Lusitania sponte veniunt, descriptiones. Fascic. Ius.”, obra em latim publicada em Lisboa na Typographia Domus Chalcographicae, em 1800, que, relativamente à “Flora Lusitana” do mesmo autor, tem a vantagem de conter no fim belas estampas de espécies vegetais portuguesas.

A Biblioteca Geral da Universidade de Coimbra, pela variedade e riqueza do seu património bibliográfico e documental, é uma das maiores e melhores bibliotecas nacionais (ainda recentemente anunciou um acordo com a Biblioteca Nacional de Portugal que permite fornecer gratuitamente um cartão de leitor a todos os utentes daquela Biblioteca, que vai ter um encerramento temporário), não podia deixar de ser um outro grande contribuinte da Alma Mater. Em destaque, e para dar a ideia da dimensão internacional que aquela biblioteca também possui, foi colocado um precioso manuscrito de Leonardo Torriani, engenheiro militar italiano ao serviço do rei Filipe II de Espanha (Filipe I de Portugal) que foi engenheiro-mor do reino português, que descreve e representa a geografia e fortificações das ilhas das canárias e da ilha da Madeira: “Descrittione et historia del regno de l'isole Canarie gia dette le Fortvnate con il parere delle loro fortificationi (“Descrição e história do reino das ilhas Canárias, antes denominadas de 'As Afortunadas', com o parecer das suas fortificações”, datado de cerca de 1588 ou 1590). Inclui 66 desenhos aguarelados, de dimensões variadas, alguns dos quais em folhas desdobráveis, com mapas, paisagens, plantas e desenhos de fortalezas). Por vicissitudes da história esse manuscrito acabou por ficar em território nacional, mais precisamente em Coimbra, onde o seu filho foi professor, embora, como é evidente, a Espanha não desdenhasse a sua posse. Apesar de estar publicada uma edição bilingue (português e italiano) pela Cosmos Editora, com estudo e tradução de José Manuel Azevedo, que inclui uma reprodução integral e a cores das 66 plantas e desenhos, esse livro não é fácil de encontrar, pelo que o acesso na Internet da edição digital do manuscrito constitui um benefício quer para os historiadores quer para os simples curiosos.

Por último, a Alma Mater, gozando do patrocínio da Comissão Nacional para as Comemorações do Centenário da República, inclui uma subbiblioteca temática: a República Digital, construída a partir de fundos da Biblioteca Geral e da Biblioteca Municipal de Coimbra. Inclui uma colecção de manuscritos inéditos ou pouco conhecidos, correspondência inédita, fotografias do início do século passado, jornais, manifestos, revistas científicas e trabalhos universitários, que documentam as transformações políticas, sociais, científicas e artísticas, que a implantação da República causou em Portugal, em particular na cidade de Coimbra, como sejam:

- As “Memórias” e os álbuns de fotografias do Coronel Belisário Pimenta (um militar membro da Maçonaria, que fez um relato muito completo dos acontecimentos do tempo da Primeira República). As fotografias representam Belisário Pimenta, familiares e amigos e alguns tipos populares, estando também retratados vários aspectos da vida académica e militar e paisagens de Coimbra, Miranda do Corvo, Lousã, Foz de Arouce, Buçaco, Batalha, Peniche, Almourol e Lisboa.

- O fundo Armando Cortesão guardado durante décadas num cofre da Biblioteca Geral, que documenta a resistência a Salazar nos primeiros anos da Ditadura Militar e do estado Novo, incluindo cartas escritas do exílio pelo ex-primeiro-ministro Afonso Costa ao engenheiro agrónomo que ficou famoso como historiador da cartografia e dos descobrimentos portugueses. Esse fundo está a ser estudado por investigadores do Centro de Estudos Interdisciplinares do Século XX. com quem a Biblioteca Geral celebrou um acordo de cooperação.

- E os periódicos "Ultimato", "Resistência" e "Revolta", entre outros, cujos títulos são bem elucidativos sobre uma conturbada época da nossa história.

Na Alma Mater, vários séculos de história estão ao nosso alcance...
Na imagem: Café Lusitano, na Rua Ferreira Borges, em Coimbra, do álbum fotográfico de Belisário Pimenta.

terça-feira, 20 de julho de 2010

O nacionalmasoquismo

Novo texto de João Boavida, na sequência de outros sobre Jorge de Sena, já publicados no De Rerum Natura.

"Sabe de Hegel, de Sartre, de fenomenologia
mas andou na Rua da Sofia.

É inteligente, arguto, viajado
mas vive sempre com a aldeia ao lado.

Que há nestes portugueses que é como um sarro azedo,
um cheiro de vinagre ou carrascão de medo,
a que se agarram quais lapas ao Penedo

da Saudade? Não há filosofia
que salve quem andou na Rua da Sofia"

Este é um poema de Jorge de Sena, aparecido há pouco numas Dedicácias (Guerra e Paz) e “dedicado” a alguém de Coimbra. É muito interessante porque tem várias contradições, muito à moda de Sena, mordaz para tudo o que é português. Tal como todos nós.

Jorge de Sena, já o disse aqui, é um dos grandes vultos da literatura e da cultura do nosso século XX. Talento multiforme, riquíssimo, mas de verbo violento e ácido, algo truculento, às vezes mesmo caótico, apoiado numa energia imensa e numa capacidade intelectual fora do vulgar. É curioso que não tenha resistido a lançar a sua ferroada a Coimbra, servindo-se de alguém que «é inteligente, arguto e viajado», mas que, apesar disto, tem o grande defeito de viver «sempre com a aldeia ao lado». E mais, que «sabe de Hegel, de Sartre, de fenomenologia» mas, olha que azar, «andou na rua da Sofia». Nada a fazer, portanto.

Bem gostava de saber quem lhe teria inspirado o poema. Algum amigo, professor de filosofia – domínio que Sena expressamente admirava e lamentava não possuir, ele que tinha muitos talentos e que tanto gostava de os atirar à cara dos outros.

Mas, por que razão é que alguém, «arguto, culto e viajado» não se salva só porque tem a aldeia ao lado? Sena, que andou por várias cidades do mundo com livralhada e filharada às costas, à procura de uma cátedra de literatura portuguesa, não nos perdoava, pelos vistos, o vivermos (alguns) na Rua da Sofia, digamos assim. Mesmo que viajados e filhos de um povo que anda, e sempre andou, pelo mundo inteiro, esgravatando pela vida.

Talvez que o problema seja desse alguém ter a “sorte” de ter uma cátedra aqui, em Coimbra, e ele não (embora tenha estado perto disso, diga-se). Ou de ser versado em Hegel, fenomenologia e outras filosofias, coisa que ele admirava e invejava. Os humanos, mesmo os superiores, têm destes ressentimentos.

E por que não a filosofia na Rua da Sofia? Rua pensada para a cultura, cheia de colégios, que poderia servir de modelo a muitas cidades universitárias de hoje. E que só a falta de vista do Antigo Regime não transformou em prolongamento ideal da Universidade de Coimbra, no século XX. Libertando-a, é claro, dos acrescentos militares, administrativos, comerciais e outros que mais, que os séculos lhe foram pondo em cima. De qualquer modo, talvez nenhum lugar em Portugal se adequasse tanto, em filologia, ideia, história e arquitectura, à filosofia, como a Rua da Sofia.

Mas o problema de Sena poderá ser só, afinal, a necessidade de dizer mal de nós próprios, mesmo que, para isso, tenha que ser injusto atacando-nos no que de melhor temos. Há, em tudo isto, uma paranóia, que nós não vemos, mas que os estrangeiros descobrem logo, e consideram bastante estranha nos portugueses. E, já agora, que diria do grande Emanuel Kant, o maior filósofo da modernidade, que em toda a longa vida quase não saiu da sua cidadezinha de Könisberg?

Umas tantas falácias sobre uma Ordem dos Professores


“Nem tudo o que enfrentamos pode ser mudado; mas nada pode ser mudado se não for enfrentado” (James Baldwin, 1924-1987).

Dois comentários feitos ao meu último post Sindicatos Docentes ‘versus’ Ordem dos Professores (18/07/2010) – justificam o texto que ora publico.

Começo por me penalizar por a minha mensagem sobre a criação de uma Ordem dos Professores não ter sido suficientemente eloquente para suscitar um diálogo polémico entre os que defendem a sua criação e aqueles outros que estão contra a sua criação como se fosse uma espécie de blasfémia. Aliás, esta apatia não pode deixar de me espantar por saber que catorze ordens profissionais estão criadas e outras tantas forcejam por aparecer à luz do dia como, por exemplo, a dos assistentes sociais.

Do primeiro comentário, da autoria de José Batista da Ascenção, retenho e congratulo-me pelo libelo corajoso sobre a apatia da classe docente por um associativismo de declarado interesse público pela assunção da tomada em mãos dos professores da responsabilidade de actos próprios da profissão. Reza ele: “Agora divididos e rastejantes é que não vamos longe. Nem ninguém nos respeita, se nós próprios nos não respeitarmos. E respeitarmo-nos é (também) tomar consciência de que a nossa profissão é tão nobre e tão antiga que muitas outras recentemente surgidas não têm história, nem substância nem interesse que justifique qualquer ascendência (a que eu chamo parasitismo) sobre a nobre missão de ensinar”.

Do segundo comentário, de Lelé Batita, transcrevo: “Na linha do anterior comentador, defendo a dignificação da profissão docente. Se isso tiver de passar pela criação de uma Ordem, como existe noutras carreiras de formação superior, que venha ela. Sem prejuízo da existência de sindicatos”.

Ora, o facto de haver uma ordem profissional não invalida, de forma alguma, a existência e, muito menos, a necessidade de sindicatos porque as respectivas funções são de natureza diferente. Embora correndo o risco de me repetir, recordo que a própria Constituição Portuguesa salvaguarda, de forma inequívoca, o papel do sindicalismo português: “As associações públicas só podem ser constituídas para a satisfação de necessidades específicas, não podem exercer funções próprias das associações sindicais e têm organização interna baseada no respeito dos direitos dos seus membros e na formação democrática dos seus órgãos” (artigo 267.º, n.º 4).

A falácia mais usada sobre o impedimento para a criação de uma Ordem dos Professores tem como argumento, tão frágil como uma simples bola de sabão, a ignorância, lato sensu, sobre o conceito de profissão liberal que poucos contestam no caso dos médicos que trabalham, por exemplo, em exclusividade, em hospitais públicos ou clínicas privadas.

Como escreveu alguém, “é necessário elaborar uma ideia, antes de se intentar uma definição”. Sem dúvida que a doutrina de Lopes Cardoso, ex-bastonário da Ordem dos Advogados, ajudará a essa compreensão quando escreve:

“É necessário que, mesmo quando exercida em regime de contrato de trabalho, essa profissão [liberal] seja reconhecida socialmente como relevando de grande valor precisamente porque exigindo, pelo menos, uma independência técnica e deontológica incompatível com uma relação laboral de pleno sentido. Com efeito, como tem sido definido doutrinalmente, a noção jurídica de subordinação aparece no direito moderno como perfeitamente compatível com a independência técnica do assalariado. Ela significa apenas uma dependência na organização geral e administrativa do trabalho” (Cadernos de Economia, Publicações Técnico-Económicas, Ldª., ano II, Abril/Junho de 94).

Verifica-se assim, definidos que estão os contornos contemporâneos de profissão liberal, que ela já nada tem a ver com a distinção que na Roma Antiga se estabelecia entre profissões livres e servis. Porém, se se quiser continuar a comparar o actual professor, devidamente habilitado com uma antiga licenciatura universitária ou um actual mestrado para este nobre mister, como o antigo escravo grego ao serviço dos filhos dos patrícios romanos haverá razões para considerar a docência como uma profissão servil, logo não liberal!

E isto é tanto mais espantoso, e não menos injusto, por uns tantos licenciados de outras profissões de idêntica, ou até bem menor, exigência académica, serem senhores do seu destino e dos seus pares. Outros, escravos submissos, ou manifestantes sindicais na via pública, à vontade e arbitrariedades do Estado no recrutamento de docentes não reconhecidos e sancionados pela classe. A fazer fé em Erasmo, quando nos diz que “a principal esperança de uma Nação reside na educação apropriada da sua juventude”, este estado de coisas não poderá deixar de ter consequências desastrosas para a juventude portuguesa deficientemente formada e, ipso facto, correndo o sério risco de se tornar vítima inocente da verdadeira chaga social do desemprego numa sociedade cada vez mais globalizada e exigente por não pactuar com medidas do foro estatístico que pretendem transformar em êxito o verdadeiro fracasso de uma política educativa que devia envergonhar os seus responsáveis estatais por um ensino que não ensina e passa diplomas de pechisbeque.

E tudo isto, como escreveu o reputado académico e sociólogo António Barreto, em nome “de fazer entrar o maior número de estudantes, sem consideração pelo mérito; formar técnicos de medíocre qualidade, sem zelar pela qualidade das instituições; e transmitir à população a ideia de que o acesso à universidade é um direito de todos, tal como a protecção na velhice e na doença”. Nunca mais aprendemos!

ACORDO ENTRE AS BIBLIOTECAS DA UNIVERSIDADE DE COIMBRA E A BIBLIOTECA NACIONAL DE PORTUGAL


Informação recebida do Serviço Integrado de Bibliotecas da Universidade de Coimbra:

Bibliotecas da Universidade de Coimbra vão disponibilizar gratuitamente os seus serviços aos utentes da Biblioteca Nacional de Portugal durante o fecho da Sala de Leitura Geral.

A Biblioteca Geral (BGUC), associada à rede de Bibliotecas da Universidade de Coimbra, a pedido da Biblioteca Nacional de Portugal (BNP), com a qual desde sempre tem colaborado, vai passar a disponibilizar os seus serviços de forma mais alargada aos utentes da BNP, durante o período de fecho da Sala de Leitura Geral da BNP, de 15 de Novembro de 2010 a 31 de Agosto de 2011. Assim, os portadores de cartão de leitor da BNP terão direito gratuitamente a um cartão da rede de Bibliotecas da Universidade de Coimbra, que lhes permitirá não só o acesso à leitura presencial como o usufruto de outros serviços, como o empréstimo domiciliário, tanto da BGUC como das outras bibliotecas da rede.

A BGUC tem quase 500 anos de história, com uma longa tradição de abertura ao público (pelo menos desde 1559). Reparte-se por dois edifícios, sendo a Biblioteca Joanina, construída no início do século XVIII, pela sua riqueza arquitectónica e decorativa, Monumento Nacional. O edifício joanino alberga um riquíssimo conjunto bibliográfico constituído por obras impressas que vão do século XVI ao início do século XIX, que tem vindo a ser objecto de tratamento técnico informatizado.

A BGUC tem, desde há muito tempo, o benefício do Depósito Legal, e tem incorporado, ao longo dos anos, aquisições e doações várias, que lhe trouxeram um progressivo e vultuoso crescimento, tanto em monografias, como em periódicos, em manuscritos, iconografia, etc. Alberga bibliotecas pessoais notáveis como as de Oliveira Martins, Lopes de Almeida e Luís Albuquerque. Alguns dos mais valiosos fundos do país encontram-se à sua guarda, como uma primeira edição de “Os Lusíadas”, manuscritos originais de Almeida Garrett, as Tábuas do Roteiro da Índia de D. João de Castro, a música do Mosteiro de Santa Cruz, o espólio de Carolina Michaelis de Vasconcelos e do Instituto de Coimbra. No total, a BGUC possui mais de um milhão de volumes, dos quais cerca de um quarto são de fundo antigo. Desde 2008 que alargou ao público em geral o empréstimo domiciliário de obras publicadas depois de 1970.

A BGUC e as cerca de 70 bibliotecas da Universidade de Coimbra dispõem de um catálogo comum com acesso na Web e de um serviço de empréstimo comum, num trabalho coordenado pelo Serviço Integrado de Bibliotecas da Universidade de Coimbra (SIBUC). O número total de volumes da rede de bibliotecas excede os dois milhões, boa parte dos quais fundo antigo, estando actualmente cerca de 1,2 milhões no catálogo informático comum (existem catálogos mais antigos, em fase de reconversão). O mesmo serviço disponibiliza na Web a biblioteca de fundo antigo da Universidade “Alma Mater”, recentemente inaugurada com 4000 itens, e o repositório de produção científica corrente da Universidade de Coimbra “Estudo Geral”, com 7500 itens.

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