segunda-feira, 20 de março de 2017

O AVÔ E OS NETOS FALAM DE GEOLOGIA


O meu próximo livro, da Âncora Editora, com ilustrações de Francisco Bilou, estará disponível a partir de 1 de Junho, Dia da Criança, na Feira do Livro de Lisboa. 


Embora o título sugira uma obra destinada a juvenis, "O AVÔ E OS NETOS FALAM DE GEOLOGIA", escrito em estilo de diálogo, foi concebido a pensar nos Professores que ensinam Geologia nas nossas Escolas, nos seus alunos e, ainda, na generalidade dos leitores interessados em descobrir a maravilhosa história do nosso Planeta.

Esta realização nasceu da experiência que mantive e continuo a manter, proferindo lições por todo o país e em todos os níveis, do Básico ao Secundário e, até, nos Jardins-Escolas.

Sem perda de rigor científico, criei e aprendi a usar o discurso pedagógico mais adequado a cada um destes níveis. E é esse discurso que coloco aqui à disposição dos leitores.

É minha convicção e sempre o afirmei, falando ou escrevendo, que o professor tem de saber muito mais do que o estampado, tantas vezes acriticmente, no "livro adoptado". Tem de ter um complemento cultural sobre as matérias do programa oficial.

Isto para dizer que neste livro, a pensar nos professores, há muita informação que extravasa o dito programa, além de que revela maneiras praticas de expor determinadas matérias que a experiência me ensinou.

Como apoio destas conversas, o docente pode contar e deve contar com o manancial de belíssimas imagens fixas em livros e na net e em vídeos da National Geographic e no Youtube

Introdução
Naquele Verão, era quase sempre com o Sol a descer para lá do Oceano, que o avô falava das muitas coisas que haviam preenchido o seu mundo como geólogo e professor de geologia. Sob o alpendre coberto de hera, no pequeno terraço anexo à casa, uma grande mesa com tampo de ardósia, onde se podia escrever com giz, e algumas cadeiras eram o centro preferido para estas conversas com os três netos.
Liberta a mesa de tudo o que servira o jantar, o Domingos e os gémeos Francisca e Mateus, rodeando o avô, tinham nos olhos o brilho da curiosidade. Mais velho, o Domingos, terminara o 7.º ano de escolaridade. O Mateus e a Francisca tinham concluído o 6.º.
O tempo de férias era agora todo deles, com praia pela manhã, jogos e leituras, dentro de casa, nas horas mais quentes da tarde e aquele apetecido convívio ao fim do dia, que os conduzia a maravilhosas viagens e aventuras. Embalados nas palavras do avô, “caminhavam” sobre rochedos em altas montanhas, “corriam” no solo fofo das estepes e pradarias, “pisavam” o chão áspero e duro dos vales secos e gélidos da Antárctida, “respiravam” a humidade quente e perfumada da floresta amazónica, “mergulhavam” nas profundezas do oceano e “nadavam” nas águas tropicais, límpidas e mornas, por entre corais e peixinhos de todas as cores.
Ouvindo as histórias que o avô contava, “subiam” ao topo de vulcões jorrando lavas incandescentes ou projectando nuvens imensas de cinza, “escorregavam” nas dunas escaldantes no deserto do Sahara ou “percorriam” grutas repletas de cristais e imaginavam-se entre dinossáurios e muitos outros animais desaparecidos. Encorajado pelo interesse e pela atenção dos netos, o avô não parava de falar. Paisagens que percorrera, profundas minas a que descera, museus que visitara, grandes figuras que conhecera e episódios que vivera ou presenciara eram condimentados com ensinamentos nos domínios em que trabalhara e que, ao mesmo tempo, estivessem entre as matérias constantes dos programas escolares destes três elementos do seu pequeno e interessado auditório. E era tudo tão agradável e entusiasmante.
Ouvir o avô era como ver um filme ao lado de alguém que explicava e tornava fácil o que parecia difícil de entender. A cada passo, as novas palavras necessárias ao discurso iam sendo descodificadas, “traduzidas por miúdos”, como dizia o avô, ganhando significado. 
Como exemplo demonstrativo do estilo adoptado, mostra-se aqui dois dos 33 capítulos do livro .
É PRECISO DESCODIFICAR AS PALAVRAS 
A tarde estivera particularmente quente e foi ainda no final do jantar, servido na mesa do terraço, enquanto saboreava o gelado trazido do supermercado, que a Francisca perguntou ao avô qual seria o assunto da primeira das conversas prometidas, a terem lugar ali, à semelhança do que acontecera nas férias de verão do ano anterior. Seriam, certamente, mais uma daquelas lições, dadas num jeito de contar histórias, que dava gosto ouvir.
- Nas conversas que vamos ter este ano, - começou o avô - acho que vou começar com algumas reflexões sobre as palavras que irão ouvir, muitas delas novas e sem significado, se não forem convenientemente explicadas.
- Diga avô. Adiantou-se o Mateus.
- Vamos, então, começar pelo significado das palavras. Todos se acordo?
- Sim, avô. – Disseram, quase ao mesmo tempo, a Francisca e o Mateus.
- E eu também. – Disse, logo a seguir, o Domingos.
- Uma grande verdade que eu aprendi em quarenta anos de professor e muitos mais como divulgador de ciência a todos os níveis, é que «o discurso do professor tem de ser simples, sem perda de rigor, apelativo e, sempre que possível, agradável». Só assim o aluno ou quem o escuta ou lê tem gosto em aprender e aprende.
- É como faz o avô. A gente aprende logo. Quase que não precisa estudar. – Disse este neto.
- Todas as actividades, sejam elas quais forem, das mais simples às mais complicadas, precisam de palavras para dar nomes a todas as ferramentas ou utensílios de que se servem e a tudo o que nelas se faz ou produz. Por exemplo, os cozinheiros servem-se de facas, tachos e panelas, fritam, cozem e assam. Os alfaiates e as costureiras mexem em tesouras, agulhas, linhas e botões, fazem casacos e vestidos e falam de lã, algodão, seda e linho. Todos eles usam palavras que toda a gente conhece, mas também usam outras que nós nem pensamos que existem. Passa-se o mesmo com os médicos, os economistas, os juristas e todos os cientistas e técnicos dos mais variados ramos. Também eles falam de nomes do dia-a-dia de toda a gente, mas atiram-nos à cara muitos outros que só eles e muito poucos entendem. Em suma e simplificando, tudo o que se pensa ou faz e tudo em que se mexe tem um nome. Com a geologia é a mesma coisa. Além das palavras vulgares esta ciência que estuda a Terra criou as suas próprias palavras.
- É mesmo isso. – Interrompeu o neto mais velho. - Quando o avô ou a minha professora falam de coisas da geologia, aparecem sempre palavras novas.
- Os cientistas estão sempre a descobrir coisas novas e, assim têm de criar neologismos. Aqui têm os meus netos, uma palavra que vem mesmo a calhar. Neologismo é o nome que se dá a uma palavra criada de novo e que foi feita a partir dos elementos gregos, neo, que quer dizer novo, e logos, que significa estudo, conhecimento.
- Então, temos de aprender grego? – Perguntou o Mateus com ar de alguma preocupação.
- Não. Basta que saibam o significado dos termos que entram na composição dos vocábulos próprios das disciplinas que têm de estudar. Uns vêm do grego, outros do latim.
- Vocábulos, Avô? – Interrompeu, de novo, o Mateus.
- Aí tens tu uma palavra tirada do latim vocabulu que quer dizer nome de uma coisa. Mesa, copo, lápis, areia, piscina, mar e todos os nomes que conheces e não conheces são vocábulos. Entre os vocábulos usados em geologia, por exemplo, há palavras que toda a gente conhece, como montanha, rocha, areia, erosão, mina, vulcão, e palavras só usadas pelos profissionais, como turbitito, gliptogénese, anatexia, piroclasto, orógeno, hialoclastito e muitíssimas outras, em número de centenas. São nomes que, de momento, nada vos dizem e que, a seu tempo, poderão vir a conhecer.
- E são essas que vamos aprender? – Perguntou o Domingos.
- Por agora nem todas, mas, mais tarde, certamente que sim. - Continuou o avô. - Eu costumo dizer que são palavras “caras” que é preciso “trocar por miúdos”. No século XVIII, quando as ciências começaram a ganhar importância, estudar e criar conhecimento era uma actividade, praticamente, só exercida no seio do clero, por padres e monges, e também por alguns representantes da nobreza. O latim e o grego faziam parte das disciplinas habituais no ensino a que, nesse tempo, só estas classes tinham acesso. O povo, dizia-se, não precisava estudar. Bastava-lhe a força dos braços e a habilidade das mãos. Estava-se muito longe de o ensino ser obrigatório para toda a gente.
- A cabeça do povo era só para pôr o chapéu ou o barrete.
- Entrou na conversa a avó, atenta à conversa. – O clero e a nobreza sabiam muito bem que os seus privilégios assentavam na ignorância do povo.
- E fiquem a saber - acrescentou a mãe das crianças, atenta a esta conversa - que, mesmo depois e por muito tempo, estudar era uma actividade só acessível aos homens. As mulheres não tinham essa possibilidade. Serviam para tudo menos para estudar. Estavam destinadas a serem boas esposas, boas mães e boas donas de casa. Ainda pouco na geração da avó, mas depois, felizmente, na minha, as raparigas já puderam estudar lado a lado com os rapazes.
- Era como ainda hoje em algumas sociedades dominadas por fundamentalistas religiosos, em que as raparigas estão proibidas de ir à escola. – Lembrou a avó.
 - Hoje, nas nossas escolas, - continuou a mãe das crianças - praticamente, ninguém estuda latim ou grego. Só na Universidade e, mesmo assim, são poucos os alunos que frequentam estas disciplinas. O latim que os romanos falavam já não se fala em parte nenhuma, nem em Itália. E o grego que se fala na Grécia já sofreu grandes alterações.
- Bom, mas continuemos. - Interrompeu o avô. - Os cientistas têm de dar nomes às coisas que vão descobrindo ou, por outras palavras, como já dissemos, têm de criar neologismos. E, respeitando a tradição, fazem-no a partir de nomes que vão buscar a essas duas línguas da Antiguidade. São palavras que, praticamente, só eles e os seus pares entendem.
- E geologia é outra dessas palavras, não é, avô? – Disse o Mateus. - Aí temos nós mais um bom exemplo para começar. – Continuou o avô.
- A palavra geologia foi feita juntando dois elementos também de origem grega, geo, que significa Terra, e logos, que quer dizer estudo, conhecimento. Geologia é hoje uma palavra conhecida de muita gente mas, no século XVIII, quando foi introduzida com o significado que lhe damos, só os mais eruditos a conheciam. Eruditos, Avô? Isso é outra palavra cara? – Perguntou o Mateus, a rir.
- É uma palavra que fomos buscar ao latim eruditu e que se aplicava a uma pessoa que sabia muito. E quem diz geologia diz muitas outras. Por exemplo, a palavra cassiterite, nome que foi dado ao mineral de estanho que podem ver aí na colecção que o Domingos começou a fazer, teve origem no grego, kassiteros, que significa estanho, e a que se acrescentou o elemento ite com que terminam os nomes da maioria dos minerais.
- A minha professora também explica as palavras mais esquisitas. - Disse o Domingos.
- À medida que formos falando de geologia – continuou o avô - iremos sempre explicando como nasceram as novas palavras que forem aparecendo, o que torna fácil tudo aquilo que parece difícil. Se souberem o significado dos elementos de que são feitos os nomes que forem aprendendo, eles passam a fazer uma parte sólida do vosso conhecimento.
- Diga mais palavras dessas. Avô. – Pediu a Francisca. - Digo só mais uma que iremos usar muitas vezes,
- Diga, avô. – Entusiasmou-se a neta.
- Litosfera, que é o nome que se dá à camada exterior da Terra, toda ela formada por rochas. Analisando esta palavra verificamos que, também ela, foi feita juntando dois nomes gregos: lithós que significa pedra ou rocha, e sphaira que, está-se mesmo a ver, quer dizer esfera.
- Assim, fica tudo mais fácil. Obrigado, avô.
- Por hoje já chega. Para terminar, vamos meter bem na cabeça que todos os vocábulos que ouvirmos ou lermos, à medida que formos avançando no nosso estudo, têm de ser explicados. Se não tivermos este cuidado, não passam de palavrões sem significado que decoramos para podermos responder no exame e que, depois, se esquecem para sempre. E agora vão brincar um bocadinho, antes de irem para a cama.  
À SEMELHANÇA DE UMA CEREJA 
- Ó avô, - começou o Domingos, naquele fim de tarde, com o Sol a esconder-se no horizonte,
- Este ano, lá na escola, aprendemos que a Terra tem um núcleo, um manto e uma crosta. Como é que se pode saber isso se ninguém lá foi ao fundo?
- Ninguém foi nem ninguém poderá ir. – Respondeu o avô. - O calor lá bem no fundo é tanto que derrete o ferro e a pressão é tão forte que se lá pudéssemos chegar, como disse o teu pai, ficávamos mais pequeninos do que um caroço de azeitona.
- Ó avô, mas como é que a pressão faz as coisas mais pequeninas? – Perguntou a Francisca. - É muito simples, minha neta. A resposta é «Porque aperta». Pega num bocado de miolo de pão e aperta-o bem na tua mão e vê o que é que acontece.
- Já percebi, avô.
- Ó avô, explique lá isso do calor. A gente põe os pés aqui no chão e sente a pedra fria. Como é que está quente lá por baixo? – Perguntou, interessado, o Mateus.
- Primeiro vamos procurar saber como é que o nosso planeta é por dentro. - É como se fosse uma cereja, disse a minha professora. – Adiantou o irmão mais velho.
- Do que temos por baixo dos nossos pés, - começou o avô - só podemos ver e estudar, directamente, as rochas que escavamos nas minas e as que trazemos à superfície através de sondagens. Mas isso leva-nos a profundidades que não são nada quando comparadas com os mais de 6300 km de raio desta grande bola que é a Terra.
- Ó avô, nós já descemos a uma mina, mas eu não sei o que é uma sondagem. – Disse, de imediato, o Mateus.
- Foi em Loulé, na mina de sal. – Acrescentou a Francisca. - Fomos todos num elevador até lá abaixo.
- Uma sondagem em geologia, meu neto, é um furo no chão para se colherem as rochas em profundidade e as podermos estudar. Vou explicar-te, da maneira mais fácil de entender, o que é uma sondagem. Vai buscar uma maçã e o descaroçador com que se prepara para a assar no forno. A correr, o neto entrou em casa e saiu, instantes depois, com o solicitado. Atravessando o fruto com o dito utensílio, o avô retirou dele aquele rolinho do seu interior que contém as sementes.
- Estás a ver? – Disse o avô. – Este rolinho traz cá para fora e deixa ver a parte de dentro da maçã. Se fizeres o mesmo nesta floreira, tiras dois ou três centímetros da terra que está escondida. Uma sondagem faz o mesmo. Vai furando chão adentro e traz para a superfície amostras das rochas que vai atravessando.
- A minha professora mostrou um vídeo onde pudemos ver os homens a fazerem uma sondagem à procura de petróleo. - Comentou o Domingos.
- Sempre que se deseja construir uma barragem, uma ponte, um grande edifício ou qualquer outra obra suficientemente importante, é fundamental saber se o terreno que está por baixo, ou seja, se as rochas que lhe servem de suporte aguentam a respectiva sobrecarga. Nesse sentido fazem-se tantas sondagens quantas as julgadas necessárias. A procura de petróleo, de gás natural e de águas subterrâneas ou, ainda, outros estudos, não dispensam o uso de sondagens.
- A minha professora disse ainda que o mais fundo onde o homem já chegou é numa mina de ouro, na África do Sul, onde se pode descer até cerca de 4 quilómetros de profundidade, e que a sondagem mais profunda ultrapassa os 12 km.
- E disse muito bem, Domingos. Tiveste uma boa professora. Essa sondagem foi feita na Península de Kola, na Rússia, e o que, parecendo muito, face à dificuldade e ao tempo gasto a fazê-la, é muito pouco, pois trouxe para a superfície rochas só da parte mais superficial da crosta terrestre, cuja espessura média, como se devem lembrar, é da ordem dos 35 quilómetros. Mesmo esses quilómetros todos representam muito pouco quando comparados com os já referidos mais de 6300 km do raio da Terra.
- Mas podemos ir ainda mais fundo. Não é avô? – Disse o Domingos
- Podemos, sim senhor, através de rochas do manto trazidas cá para cima, dentro da lava de alguns vulcões. Mais adiante, quando falarmos do manto, voltaremos a este assunto.
- São os xenólitos, avô. – Apressou-se o neto a dizer. - Já lá iremos.
- Moderou o avô. – Mas fiquem a saber que podemos ir ainda mais fundo, não com rochas vindas dessas profundidades, mas com outros conhecimentos. Já temos hoje uma ideia muito razoável sobre o interior do nosso planeta, sobretudo com base no estudo dos sismos, ou seja, dos tremores de terra. Um tema sobre o qual falaremos um dia destes.
- Eu dei essa matéria lá na Escola, mas foi tudo muito à pressa. - Disse o Domingos.
- Mais tarde hão-de saber como e porquê, mas por agora basta que saibam que, com base nos registos dos sismos muito fortes, podemos saber que o nosso planeta tem um núcleo, rodeado por um capa esférica muito espessa, a que damos o nome de manto que, por sua vez, está rodeado por outra capa relativamente muito fininha que é a crosta.
- Ó avô, faz de conta que o caroço da cereja é o núcleo, aquilo que a gente come é o manto e que a pele é a crosta. – Insistiu o neto em dizer.
- Correcto. Essa é uma boa imagem para explicar a estrutura interna do nosso planeta e, já agora, Domingos, “aquilo que a gente come” chama-se polpa.
- Eu sabia, avô, mas saiu assim.
- Muito bem. – Pôs fim à conversa, o avô. – Hoje ficamos por aqui. O tempo é todo vosso até serem horas de deitar.
A. Galopim de Carvalho

1 comentário:

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