terça-feira, 7 de março de 2017

Dois perfis: um nítido — o dos duques de Urbino no século XV (versão della Francesca, c. 1465-72); um esquivo — o dos alunos para o século XXI (versão Ministério da Educação, 2017)




Há poucos dias escrevi aqui uma prosa ímpia dirigida aos ventos (Bóreas, Austro, Euro e Zéfiro, se faz favor), a cascar nos Deuses. A prosa pouco mais do que refletiu o meu mau-humor desse dia após a leitura dos «perfis», mas deve, a não ser opaca, e para ser honrada, refletir mais qualquer coisa.
Ora então, vão uns efeitos de espelho:
Uma leitura, mesmo superficial, das conclusões dos «perfis», deixa-nos contentes. Que querem os Deuses dos nossos meninos, ao fim dos 12 anos de escola pública?
·     Boas prestações no domínio do conhecimento e utilização das linguagens, entendendo e exprimindo aquilo que lhes ocorre.
·     Boas prestações na área da aquisição, organização e transmissão de informação.
·     Boas prestações na área do raciocínio abstrato, da escolha de estratégias de atuação, da resolução de problemas, da triagem e da decisão em situações reais.
·     Boas prestações na área da avaliação crítica da realidade, e da invenção de novas realidades.
·     Boas prestações na área da relação com o grupo, com o outro, da interação e da colaboração.
·     Boas prestações na área da relação objetiva, crítica e criativa consigo mesmo, e do impulso positivo de aperfeiçoamento pessoal.
·     Boas prestações na área da autopreservação, e da saúde e bem-estar da comunidade, envolvendo perspetivas de longo prazo.
·     Boas prestações na área da consciência estética e da participação e da fruição da arte e da cultura.
·     Boas prestações na área da consciência tecnológica, com conhecimentos e capacidades de escolha no que envolve a técnica e a ciência.
·     Boas prestações na área da motricidade.
Tudo isto expresso em competências.
Os Deuses querem, portanto — jovens que sejam como eles: como o senhor Ministro, os senhores Secretários de Estado, os senhores Diretores Gerais; como os distintos membros da equipa autora do estudo. Como os Deuses.
Que propõem para se chegar lá? Onze páginas — mais coisa, menos coisa. Até dá para decorar. Enfim: decorar, não, que é feio!
O quê, em concreto? Bom… Hmmmm…
Por exemplo (não quero esticar-me) fazendo, objetivamente, o quê, para ter alunos informados e curiosos em escolas silenciosas onde, sobretudo, se trabalha? Hmm?
Por exemplo (ainda não quero esticar-me) fazendo, objetivamente, o quê, para ter pais informados e curiosos que, idealmente, preparam os filhos para o caderninho de encargos dos «perfis» e, depois, acompanham? Hmm?
Por exemplo (nem pensar em esticar-me) fazendo, objetivamente, o quê, para — por exemplo — ter escolas de turno único, e currículos que não ultrapassem um número de horas semanais razoável (falo em menos de 30)? Hmm?
Os Deuses esticaram-se? Outra vez? Pois: esticarem-se é próprio dos Deuses. Tem a ver com o Infinito.
Qual é o prazo, e para fazer o quê? A capa é ambígua: século XXI mas, por outro lado, 2017. É para fazer tudo este ano, ou temos até ao fim do século? Convém pensar que boa parte do programa dos Deuses gregos ainda não foi cumprido. Começamos com atraso, a menos que marimbemos nos Gregos e façamos cá a nossa coisa.
Sabe que mais, Leitor?: grande perfil, o do Federico da Montefeltro! Que inveja!
António Mouzinho

(ideólogo(?) aposentado(!))

4 comentários:

  1. É fácil uma pessoa esticar-se quando se reforma...

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  2. É bem possível que o humor (inteligente, porque isto é muito sério), ainda seja a melhor forma de denunciar estas políticas, atendendo ao perfil das pessoas que tomaram conta do Ministério da Educação...

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  3. não se enerve :) ponham filosofia e literatura no programa e metade dos requisitos está resolvida , depois amanhem qualquer coisa de ginástica e nutrição e enquanto fazem exercicios , o nutricionista pode usar novas tecnologias para ensinar que o "alimento é o teu medicamento" ( lá está , filosofia:) ) num ecrã. simplifiquem , agreguem , não stressem.

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    1. Ainda mesmo que Ramalho tenha farpeado um exagerado intelectualismo no ensino do seu tempo (escreveu ele: “E francamente devo dizer que levantar trinta quilos em cada pulso, trepar a um quarto andar por uma corda, saltar a pés juntos um fosso com dois metros de largura, me parece, como relação ao domínio do homem sobre o mundo exterior, uma cousa tão importante, pelo menos, como fazer a análise gramatical e a análise lógica de uma oração de Cícero”), não sei se servirá para alguma coisa, mas seja como for eu gostaria de a ajudar a compreender o desacerto que subjaz ao seu comentário: “depois amanhem qualquer coisa de ginástica” (sic.).

      Isto por :

      1.Ser Portugal vice-campeão europeu de obesidade juvenil ( e aqui, além da ginástica, entra em jogo os princípios de uma nutrição saudável).
      2.Um parecer da Organização Mundial de Saúde (OMS) aconselhar, no mínimo, três horas de Educação Física Escolar.

      Em nossos dias, Iona Campagnolo, antiga ministra de Estado de "Fitness" (que à míngua de melhor, se pode traduzir por aptidão física) e do Desporto do Canadá, no decurso da década 70 do século passado, há quatro décadas, portanto, defendia o seguinte princípio: "Despendem-se neste país milhões de dólares com a assistência médica e nós sabemos que 40% destas despesas resultam totalmente inúteis. Vamos gastar parte desse dinheiro na motivação das pessoas para que participem em qualquer actividade física”.

      Ou seja – só suprimindo a legitimidade, suprimindo a vergonha, suprimindo o interesse do próprio país, suprimindo tudo, enfim, poderá ser compreendida uma situação que ponha em risco a saúde dos nossos jovens, diminuindo um minuto que seja às horas destinadas à educação física nos horários escolares levando, por via disso, ao desalento secular de Eça: “(…) não temos a ginástica como ela se faz em França …não temos nada capaz de dar a um rapaz um bocado de fibra, temos só a tourada…Tirem a tourada, e não ficam senão badamecos derreados de espinha, a melarem-se pelo Chiado!”

      Só é de temer que apareça “um amigo, ou uma amiga, da onça” que ponha em causa os benefícios da marcha e da corrida como meio de aumentar a longevidade com o argumento de que a preguiçosa tartaruga gigante das Ilhas Galápagos vive entre 100-200 anos e o pachorrento elefante de 100 a 120 primaveras, vidas bem mais longas que a de qualquer atleta, mesmo sem a utilização de matérias dopantes que conduzem a um envelhecimento precoce e a uma morte prematura. Mas há sempre o recurso ao argumento do comediante Groucho Marx: “Estes são os meus princípios, e se não gostarem deles…bem, tenho outros!”

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