terça-feira, 28 de fevereiro de 2017

Regresso ou rejeição do passado: a mesma ideologia na educação

Escreveu, em comentário, um dos nossos leitores.
"Gostava de ver estudos críticos e credíveis sobre a realidade da evolução do ensino em Portugal, em vez de opiniões, mais ou menos acaloradas, que só servem para dispersar a atenção e o interesse. Toda a gente diz que antigamente é que era bom, mas isso é falso. Se quiserem defender alguma comparação histórica, façam-no com dados e números, realidades, que nos permitam pensar em vez de fantasiar. Estamos todos interessados (ou antes, é do nosso interesse e é do interesse nacional e internacional) em saber se os alunos aprendiam mais e melhor, antes dos telemóveis, quaisquer que tenham sido as reformas. Ninguém parece focado no problema."
O problema que o Carlos Soares apresenta é, há muito, mesmo muito tempo, central nas "reformas" da educação escolar. Talvez seja, até, "o" eterno problema dessas "reformas".

E, como bem sugere: quem equaciona esse problema começa por apontar para o passado, considerando-o (em função do seu modo próprio de pensar) o inferno, de onde é preciso sair rapidamente, ou o paraíso perdido, ao qual é preciso regressar o mais depressa possível.

Mas, que passado está em causa? O nosso? O europeu? O desta década? O deste século? O da primeira metade do século passado? Ou da sua segunda metade? O do pré ou pós-Estado Novo? O da pré ou pós-República?

Qualquer discussão racional confronta-se com este "pormenor", mas também se confronta com outro de igual monta. O que comparamos? As finalidades da educação? Os conteúdos? Os métodos e os recursos? A avaliação? Tudo isto? Mais do que isto? Menos do que isto? E comparamos por referência a quê? O que é que, em educação, é considerado certo, de modo a poder ser assumido como bitola confiável?
(Não, não estou a adoptar uma atitude subjectivista e relativista, da qual sempre me tenho demarcado; estou simplesmente a dizer que os problemas em educação, como em medicina, como em ecologia, etc. ganham em ser abordados com profundidade e estratégia e não superficialmente e ao acaso).
Sem a preocupação de localizarmos esse passado, de definirmos o que comparamos nesse passado e sem um método, ficamos incapazes de formar uma opinião que não vá além do senso-muito-comum. Lamentavelmente, é o que, por sistema, acontece, tanto ao nível da comunicação social como da política,  como da prática, como da academia. É um fenómeno transversal porque, em educação, todos pensam que sabem e que podem...

Se conseguíssemos demarcar, concretamente, no passado da educação escolar um tempo e um espaço, e também um objecto - os conteúdos, por exemplo -, bem como o método e o instrumento apropriados, e, sobretudo, se abandonássemos os nossos preconceitos pseudo-pedagógicos, poderíamos, fazer comparações confiáveis.

Não existindo (pelo menos, por enquanto) uma máquina do tempo será de todo impossível fazer comparações entre aspectos concretos da educação escolar actual e passada? Não, não é: podemos, de facto, estudar esses aspectos e tirar conclusões, as quais não devem, no entanto, ir além dos dados.

Exemplifico com um trabalho de Maria Filomena Mónica intitulado Os filhos de Rousseau: ensaio sobre os exames, publicado em finais dos anos de 1990. Independentemente da polémica que, à altura, provocou (e que não interessa retomar), esta socióloga comparou exames nacionais em dois períodos, um pré e outro pós revolução de Abril, tendo verificado que os mais recentes eram mais simples, se quisermos, menos exigentes.

Significava isto uma defesa da educação escolar do antigo regime político? Não, disse Mónica claramente no livro e repetiu-o na televisão e nos jornais. Mas significava um alerta: em democracia, estávamos a baixar a exigência e não o devíamos fazer. Com todas as crianças e jovens na escola, o compromisso era ensiná-los por referência a padrões elevados.

Revisitar o possível no passado respeitante à educação formal, com a abordagem científica correcta, à margem de ideologias, é fundamental para se analisar o presente, mas sobretudo para se delinear o futuro. No passado encontramos o que de melhor e de pior conseguimos, como humanidade, construir, nessa dimensão da educação, e que, nessa medida, nos pode ajudar a direccioná-la.

Nem tudo nele é mau, nem tudo nele é bom, pelo menos em função do que hoje queremos para as novas gerações. Há muitas propostas de excelência, há muitas outras que, em circunstância alguma, devemos retomar. Não servem, pois, os discursos que parecem ser diferentes mas que, na sua essência, são iguais: de regresso ou de rejeição do passado.

7 comentários:

  1. Parte de uma premissa errada, que estamos a baixar o nível de exigência, ou seja, que era maior a exigência antigamente. Isso é errado. Basta comparar os conteúdos curriculares, a sua extensão, etc, coisa que se reflecte, por exemplo, na carga horária. Como tenho experiência do "antes" estou à vontade para falar. Posso também apresentar o meu exame da quarta classe em 1972 e comparar com qualquer teste do atual quarto ano. Continua-se a laborar num mito, Helena. Qualquer criança de dez anos sabe mais do que uma criança da mesma idade dessa altura, incluindo, sim, de matemática e ciência.

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  2. Pedro:
    O que os alunos de hoje não sabem é dissertar sobre a utilidade da vaca para nós.
    Ai que saudades que eu tenho das redacções sobre a vaca.

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  3. Caro Leitor
    Penso que não entendeu o que escrevi. Talvez eu não me tenha explicado bem. O que eu pretendi afirmar é que, no plano da discussão pública, a impressão pessoal, a impressão de cada um, sobre a educação não tem qualquer relevância. Na verdade, esta discussão tem de ser feita a partir de dados objectivos, credíveis, derivados de um conhecimento que obtido além da nossa vivência.
    Eu também não disse que um aluno ou um grupo de alunos que estejam agora num determinado patamar de escolaridade sabem mais ou menos do que um aluno ou um grupo de alunos que tenham estado no mesmo patamar de escolaridade há algumas décadas ou há alguns séculos. Não disse nem podia ter dito, e isto por uma razão: não há possibilidade de ter os dois alunos ou os dois grupos em paralelo para os testar. A única coisa que podemos fazer é estudar, investigar a partir de documentos disponíveis, e depois tirar, com muito cuidado, conclusões.
    Cordialmente,
    MHD

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  4. Helena, a falta de um aprofundamento do tema não impediu o seu tom lamentoso e a sua conclusão de que "estamos a baixar a exigência". Portanto, já tirou as suas conclusões. Serão certamente necessários estudos, debates, etc, mas isso não impede certamente que cada um tire as suas conclusões, ou não serviriam de nada a nossa experiência de vida e o conhecimento que já adquirimos.
    Continuando, agora no português. São de uma pobreza constrangedora as redacções dos alunos da primária antigamente, comparados com a criatividade e imaginação das crianças de agora. Era a “vaca” do Manuel e era a primavera. Ai a primavera. E o desenho à vista dos copos e das jarras?

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  5. Caro Leitor Pedro
    Se voltar ao texto verá que eu disse que Maria Filomena Mónica disse. E não disse porque entendeu dizer; disse porque os dados aí a conduziram.
    E desculpe insistir: no plano em que as questões educativas (de carácter escolar) devem ser pensadas, recursos como as "experiências de vida" são irrelevantes. Na verdade, essas questões são demasiado sérias (pelas implicações que têm no desenvolvimento das crianças e jovens) para dependerem da perspectiva, certamente muito séria, de cada um.
    Cordialmente,
    MHD

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    1. Helena, desculpe-me insistir, mas manifestou uma opinião própria pessoal sobre isto, não se limitou a transcrever o que a MFM diz. De resto, faz muito bem. A MFM também deu a sua opinião. Não podemos estar à espera que saia o estudo definitivo e oficial sobre o assunto. Até aparecer, vou continuando a dar a minha perspectiva. É exactamente por achar o tema muito sério e por ter um filho em idade escolar, que dou a minha opinião. E eu continuo a achar que não se baixou a exigência; pelo contrário, o ensino anterior era muito mais medíocre do que o actual.
      Eu também conheço os testes a que se refere a MFM. Fi-los eu e conheço aqueles que fizeram os meus pais, bem como os manuais. São mediocres e confrangedores. De outra forma, não se compreenderia que fossemos tão desconhecedoras de ciência, que tivéssemos tão pouco espírito critico e curiosidade pelo conhecimento e fossemos, por isso, tão pouco propensos a seguir ciências (os que podiam…). Em contrapartida, éramos os que melhor sabiam quantos alqueires tem um quarteiro. O nosso conhecimento de história era, do mesmo modo, paroquial e distorcido e a nossa utilização da língua era rudimentar. Aquelas redacções fazem-nos rir.

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  6. Todos os que fizeram essas redacções (sobre a vaca e a Primavera, que se tinham alguma finalidade não era que aprendessem a dissertar... ), e puderam continuar a estudar, se rirão hoje se as voltarem a ler: eram ridículas e "primárias". Mas também achamos extraordinário quando nos lembramos que na 4ª classe se exigia contas de dividir, apenas comlápis e papel, "até à quinta casa" e que se soubesse usar o algoritmo da raiz quadrada. Mas vivíamos sob um regime que não tinha como um dos seus objectivos propriamente elevar o nível cultural do povo; apenas que fosse mais produtivo e manso. Mas mesmo assim, quando nos anos 60 e 70, com o início de alguma industrialização do país, que levou a grandes migrações para as periferias das grandes cidades, muitos jovens adultos puderam voltar a estudar, conseguiram fazê-lo graças a essa “preparação”. É claro que os cursos que lhes estavam destinados eram os das escolas técnicas, menos exigentes intelectualmente. Não estudavam línguas estrangeiras, a não ser de forma muito elementar, nem filosofia - a razão era simples: só os filhos das classes mais favorecidas precisavam dessa formação, mais exigente, para poderem exercer as funções de chefia e liderança que lhes estavam destinadas. Com as medidas que se preparam actualmente, tal como há alguns anos atrás, muitos jovens que obtenham o diploma do 9º e do 12º anos sem se sujeitarem a nunhum tipo de avaliação de conhecimentos credível, independentemente da complexidade e extensão dos programas, nunca conseguirão continuar os estudos - a não ser que a a falta de exigência continue a alargar e se estenda a todo o ensino superior.

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