domingo, 24 de julho de 2016

Um Verão com Montaigne - prefácio de João Lobo Antunes


Transcrevemos o prefácio deste livrinho acabado de sair, por amabilidade da editora:

Há muitos anos que Montaigne me acompanha e o seu Ensaios é o livro que levaria para a mítica ilha deserta. Logo no início adverte que irá falar de si e que isso poderia ser maçador para o leitor. Avisou que escrevia com simplicidade, porque falava para o papel como falava à primeira pessoa que encontrasse na rua.

A verdade, porém, é que falando de si falava também de cada um de nós, porque «cada homem contém a forma inteira da condição humana». Trata ainda das coisas simples do quotidiano, dos hábitos, dos vícios, do amor e da guerra, da medicina (que despreza) e das pessoas, da amizade e da morte. Em tudo reconhece a variedade da nossa natureza, que define como «ondulante e diversa». De tudo procura extrair uma lição e diz que da experiência que tem de si próprio colheria o suficiente para o fazer sábio se fosse um bom aluno. Ao mesmo tempo, é impossível captar a dimensão plena da sua obra, mesmo com leituras repetidas, porque os Ensaios são um milagre de mutabilidade.

Montaigne escreveu que qualquer tentativa de resumir um livro é tola, e isso decerto se aplica à sua obra. Mas, ao longo dos séculos, muitos estudiosos têm extraído, deste tesouro inesgotável, pérolas de ternura, humor, afecto, impaciência, desdém ou fúria, e dessa forma partilham com o leitor a sua «apropriação» da obra.

O livro de Antoine Compagnon cumpre, com uma erudição simples, esse propósito. Montaigne escreve: «Viver é o meu ofício e a minha arte.» Ambos pulsam livremente neste volume, que para quem não conhece a obra é uma deliciosa introdução a um clássico da cultura ocidental, nunca ultrapassado e sempre contemporâneo.

João Lobo Antunes


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