sábado, 2 de julho de 2016

SALAZAR: "NÃO BATE A BOTA COM A PERDIGOTA"

“Tudo seus avessos tem”.
Sá de Miranda

Acabo de ler o artigo “Fala o pobre”, da autoria da escritora Helia Correia, em que se debruça sobre o período da história do Estado Novo e do respectivo Ministro da Presidência: António de Oliveira Salazar.
Desse artigo, respigo::

“Antes de 25 de Abril de 1974 nem sequer nos achávamos na cauda da Europa: estávamos sim, nos subterrâneos sem a ver. De vez em quando, alguém a alcançava, fugindo à variadas instâncias de Polícia que iam mudando o nome mas não a crueldade. Assim, fugiram os judeus, fugiram sábios, académicos médicos, cientistas que, entre, entre os altos espíritos  da Europa,  tomaram com justiça os seus lugares. Escritores respiraram o ar fresco das grandes literaturas românticas, realistas, e trouxeram de volta requintes e ideias. Em Paris onde tudo sucedia, poetas e pintores pousavam as malas. A Europa era o ‘lá fora’ e era tudo.
Veio o salazarismo e esmagou com os pés, durante 50 anos, todas as nucas que tentassem levantar-se. Não eram pés calçados em botas cujo estrondo levava o horror aos próprios buracos das toupeiras. O inquisidor usava sapatinhos de padre ou de funcionário das finanças que eram discretos na aproximação. Pensava tanto no agrado da Igreja como na salvação do seu regime. Não tinha suficiente teoria mas também não sentia a falta dela. Ao longo desse tempo prosseguiu a viagem clandestina para a Europa” (Público, 01/07/2016).

De entre as personalidades que “fugiram às variadas instâncias da polícia” (Helia Correia), vivendo um longo período de exílio no estrangeiro em oposição ao Estado Novo, destaca-se, sem dúvida, um antigo militante do Partido Comunistas Português, António José Saraiva, segundo Eduardo Lourenço, “uma referência-chave da cultura portuguesa", que numa  entrevista, referindo-se a Salazar, declarou:

“Desde sempre senti uma certa admiração por Salazar. Ela vinha, primeiramente, dos seus escritos, que têm grande categoria e que são a melhor exposição doutrinal (que eu conheço) da chamada direita. E vinha também da sua atitude de dignidade, muito própria de camponês. No fundo, admirava-lhe isso. Mas não concordava com a ditadura que ele impunha, com a censura, com a repressão. Foi isto que me levou à incompatibilidade, a partir dos 22 anos”. E prosseguia o entrevistado: “O Salazarismo é uma tentativa empírica de resolver o problema português, o problema da identidade nacional e da continuidade histórica. Mas não podia sobreviver, Reconheço, porém, que o progresso económico nesse período foi notável: quando dizem que Salazar era exclusivamente um financeiro, isso é errado. As grandes obras públicas que então se fizeram em Portugal – o país está cheia delas, desde o Parque de Monsanto ao Hospital de Santa Maria e à ponte sobre o Tejo. E o mesmo em relação às infra-estruturas: foi sob o salazarismo, de acordo com o Plano de 1936, que se fez a electrificação sistemática do país. E quando o Salazar fez consagrar na Constituição de 1933 o princípio do equilíbrio orçamental, estava simplesmente a defender algo que hoje vemos ser elementar: que o país não pode endividar-se, da mesma forma que um homem pobre não o pode fazer. Só os ricos podem ter dívidas!”

Questionado se ao lerem as suas declarações não dirão "o António José Saraiva converteu-se ao salazarismo”, respondeu:

“Não, não! De forma alguma. Tenho de resistir a essa tentação! Apenas reconheço que, quando se fizer uma História de Portugal e nela forem destacadas cinco ou seis homens representativos de ‘uma vontade portuguesa de ser’ um deles será Salazar. E será também um exemplo dos exemplos de dignidade, Repare no ‘pessoal’ de agora!” (O País, 11/02/1982).

Toda a tese tem antítese, caberá ao leitor, despido de preconceitos, fazer a respectiva síntese. Sei que é difícil, a fazer fé em versos de António Gedeão: “Onde Sancho vê moinhos / D. Quixote vê gigantes. / Vê moinhos? São moinhos. / Vê gigantes? São gigantes. (António Gedeão).

5 comentários:

  1. "despido de preconceitos". Aqui está a grande dificuldade: não me parece possível fazer um reset ao cérebro.

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  2. Se um idiota conseguiu construir o Estado Novo e manter-se no poder e para além da sua morte, então é o Povo português que é idiota.

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    1. No respeito pela liberdade de expressão numa temática tão polémica como esta, contra o meu costume não responderei a qualquer comentário. O leitor é soberano, como se costuma dizer, e para estar "à la page", nesta altura do campeonato que exige um determinado "fair-play".

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  3. Conclusão sofismática e apelo à autoridade - o progresso económico de Portugal levou o país a atingir os níveis da Turquia -

    aliás, o únicos factos além das "grandes obras públicas" é que em 1970, cerca de 50% das casas onde viviam os portugueses não tinham esgotos nem electricidade, menos de metade nem sequer tinham água canalizada e apenas 32% (!) tinham acesso aos banheiros.

    5,3 casas em cada 10 em Portugal não tinham água em 1970.
    6,7 em cada 10 casas não tinham acesso a duche ou banheiro.

    O quê? Peraí... algo não bate certo aqui. 7 em 10 casas sem banheiro? As pessoas não podem tomar banho em casa? Isto não parece nada um país de um grande progresso económico, parece um país muito pobre. Paupérrimo, miserável.

    " Plano de 1936, que se fez a electrificação sistemática do país. " - Deve ser por isso que em 1970 mais de 900 mil casas em Portugal não tinham luz. 34 anos não bastaram...

    Deu para pontes, deu para o monsanto, deu para a guerra, mas não deu para banheiras e luz e esgotos?

    "que o país não pode endividar-se," - Não há nenhum país no mundo que não esteja endividado, faz parte do "sistema". Pensar o contrário é utópico.

    Isto de construir uma fábrica onde não há nada realmente leva o país a crescer 6%. O problema é que ao fim de 6 anos, a taxa ainda vai nos.. 36%.

    O facto de António José Saraiva "admirar" Salazar nada diz do Salazarismo e do Estado Novo, pior, diz tudo, diz muito sobre o culto à personalidade, assente em ideias muito concretas e repetidas vezes e vezes durante o ensino - a dignidade (a ideia do ditador bonzinho que pacificou o país) aliás própria do camponês (não há, portanto, camponeses indignos), tentativa de resolver o problema português, da identidade nacional (como se o liberalismo não tivesse também fabricado os seus heróis... daí a ideia do Estado "Novo"), progresso económico notável (não, houve uma mudança de sistema económico, do sector primário para o secundário, daí a questão da fábrica, do take-off), grandes obras públicas (grandes obras públicas sempre houve desde o liberalismo), vontade portuguesa de ser (não sei o que isso significa...), "ter dívidas da mesma forma que um homem pobre não o pode fazer. Só os ricos podem ter dívidas" (pois, os pobres não podem endividar-se a comprar uma banheira ou uma lâmpada, também não precisam disso para nada... que tomem banho no Mondego e já estão com sorte).

    Será que não se mantém o modo de pensar salazarista, a ideia do "corte"?

    É que, vejamos, caciques e gente indigna, corrupta, sempre existiram, ligados à política explodiram com o liberalismo.

    A ideia ridícula que durante meio século tudo foi "novo", "um mundo digno" sem muita ambição pessoal, "pacífico", "mole", "notável crescimento económico", "só os ricos se podem endividar", não passa de uma construção mental, o controle das massas, ser "pobre mas honrado", imitando no fundo o ditador.

    Salazar então era como devia ser o povo português: vigilante dos comportamentos sociais, auto-censório, pacífico mas punitivo em qualquer caso de desvios (politicamente, financeiramente, socialmente), honrado mesmo pobre porque trabalha e não se endivida, recebe o suficiente para manter uma família nuclear, etc.

    "Caindo" a novidade, a democracia "trouxe" de geração espontânea, a "porcaria" toda... como se ela já não estivesse viva. Foi magia, lá canta o outro.

    Engraçado que hoje em dia começa a ruir devagarinho um certo sistema corporativista, ainda muito presente, de grandes famílias "donas disto tudo", muito ligadas ao poder político... se calhar o "novo" criou um "antigo" que não nos deixa crescer.

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    1. A quem possa interessar:

      Em achega a este comentário, publiquei o post "Salazar, a Historia e Simples Opiniões" (05/Julho/2016), da autoria do académico Filipe Ribeiro de Meneses.

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