quarta-feira, 23 de maio de 2018

Parecer da Sociedade Portuguesa de Matemática relativo ao projecto de decreto‐lei que estabelece o currículo do ensino básico e secundário

Também a Sociedade Portuguesa de Matemática elaborou um parecer relativo ao projecto de decreto‐lei que “estabelece o currículo do ensino básico e secundário, os princípios orientadores da sua conceção, operacionalização e avaliação das aprendizagens". Transcrevo o essencial:
1. O projecto de decreto-lei que pretende estabelecer o Currículo dos Ensinos Básico e Secundário apresenta-se como sendo a conjugação de outros documentos cuja análise é indispensável a uma participação responsável na presente consulta. Entre aqueles, remete de forma fundamental para o documento Aprendizagens Essenciais de Matemática para o Ensino Básico e Secundário, tornado público pelo Ministério da Educação em agosto de 2017. 
2. Contudo, as Aprendizagens Essenciais de Matemática para o Ensino Básico e Secundário, apesar de se passarem a constituír como referência no ensino, encontram-se de há um ano para cá num estado de rascunho, nunca tendo sido submetidos a consulta pública ou a escrutínio por especialistas. Nas palavras do próprio Ministério da Educação, trata-se de um documento de trabalho inacabado (unicamente 4 dos 12 anos de escolaridade estão contemplados) a terminar durante o ano letivo 2017-18 (apesar de já ter sido aplicado no terreno num grande número de escolas do país).  
3. Do que já se conhece do mesmo alertou a SPM em Agosto de 2017 para o facto de este constituir um documento excessivamente vago e ineficaz como orientador do ensino, em particular por permitir interpretações que desvirtuam gravemente o Programa em vigor. Alertámos também para o perigo de as Aprendizagens Essenciais virem a comprometer seriamente o percurso escolar dos alunos envolvidos, provavelmente de forma irreversível, já que foram aplicados a alunos em início de ciclo (1º, 5º, 7º e 10º anos de escolaridade).  
4. Passados oito meses sobre a publicação das Aprendizagens Essenciais, o documento não sofreu qualquer alteração. Mantém-se assim em estado de rascunho, bem visível na forma apressada e descuidada como se encontra redigido, e na forma aparentemente aleatória com que apresenta os conteúdos matemáticos a tratar. As deficiências do documento vão desde afirmações excêntricas, como a preconização da utilização das noções de mínimo múltiplo comum e máximo divisor comum em “contextos matemáticos e não matemáticos”, a falhas graves, como o desaparecimento da multiplicação e divisão de números racionais ou a aparente antecipação de conteúdos complexos do 9.º ano (funções de proporcionalidade inversa) para o 7.º ano, nível em que os alunos não têm o conhecimento de conceitos e procedimentos base, nem tão pouco a respetiva consolidação, imprescindível ao entendimento de etapas sequentes. É também de assinalar uma desarticulação geral da Geometria, tema em que desaparece quase por completo a prática do raciocínio dedutivo. Na verdade, o documento sobrevaloriza objetivos relacionados com o desenvolvimento de capacidades na ausência de conteúdos que os suportem. Em relação às “aprendizagens” propriamente ditas, o documento é omisso e vazio de conhecimentos matemáticos efetivos, o que levará certamente a uma generalizada desorientação ao colocá-lo em prática. 
5. Assinala-se, também, que hoje o sistema educativo assenta em programas e metas concebidas em total alinhamento com as recomendações internacionais mais avançadas e também com programas de estudos internacionais tal como o TIMSS. É, pois, inconcebível que depois de Portugal ter realizado progressos significativos, comprovados pelos notáveis resultados alcançados no estudo TIMSS 2015, se substituam documentos curriculares com essas características por outros que não as cumprem. A SPM considera inaceitável que se pretenda que um conjunto de meia-dúzia de páginas, em grande parte desarticuladas e desconexas, se venha a sobrepor, já no próximo ano letivo e para todos os alunos do país, aos actuais Programa e Metas Curriculares de Matemática (e às centenas de páginas repletas de exemplos, explicações e considerações que os acompanham). Trocar a clareza e o rigor pelo vago e desarticulado constitui um claro sinal da desvalorização que este ME está a imprimir à transmissão articulada e estruturada do conhecimento.  
6. O projecto de decreto-lei visado nesta consulta pública, no seu todo, acentua essa desvalorização, 
a) ao modificar o currículo em vigor por outro em que se desinveste no conhecimento, reduzindo-o a um mínimo insuficiente para levar os alunos a patamares de autonomia na ação e no desenvolvimento do raciocínio; e ao colocar continuamente a tónica na prática, no aplicável e no concreto, limitando e comprometendo a aprendizagem de disciplinas como a matemática em que uma aquisição estruturada e sequencial permite agregar a realidade e a abstração matemática. 
b) ao secundarizar os conteúdos em prol dos processos que insistentemente estabelece como prioritários – abordagens multidisciplinares, aprendizagem por projetos –, assim como ao impor a ideia errada de que toda a aprendizagem deve necessariamente ser feita em contexto, limitando a autonomia e flexibilidade pedagógica dos professores na conveniente escolha da ação que melhor se adapta às especificidades que os alunos apresentam. 
c) ao obrigar as escolas a optarem por decisões em que se admita que se possa reduzir drasticamente a carga horária a Matemática. De facto é bem patente nas matrizes curriculares base do projeto que essa redução poderá atingir 20% dos tempos horários hoje balizados para a disciplina de Matemática. Este corte na carga lectiva sinaliza de forma factual o desinvestimento, por parte deste Ministério da Educação, na Matemática e da sua desvalorização da transmissão do conhecimento. 
7. Por todas estas razões, é para a SPM incompreensível que 
a) tenha sido aprovado em Conselho de Ministros e colocado à consulta pública um documento que pretende substituir uma estrutura legislativa articulada, que produziu resultados evidenciados pela comunidade nacional e internacional, por outra desarticulada que remete para documentos oficialmente inexistentes, com contornos que indiciam um claro retrocesso e desinvestimento no conhecimento e no ensino, e compromete uma avaliação robusta do sistema sobre o desempenho dos alunos. 
b) o Ministério da Educação tenha a pretensão que este se possa sobrepor, no próximo ano letivo e à escala nacional, aos Programas oficiais em vigor.  
8. Em suma, a SPM não pode deixar de lamentar veementemente e de forma pública este intempestivo e progressivo desmantelamento dos pilares em que se apoia a Escola portuguesa e dos progressos tão duramente conquistados pelos nossos alunos e respetivas famílias e escolas – num processo que, se não cessar com brevidade, trará consequências que levarão décadas a corrigir.

Parecer do Conselho de Escolas relativo ao projecto de decreto‐lei que estabelece o currículo do ensino básico e secundário

Por solicitação do Ministro da Educação, o Conselho das Escolas elaborou um parecer relativo ao projecto de decreto‐lei que “estabelece o currículo do ensino básico e secundário, os princípios orientadores da sua conceção, operacionalização e avaliação das aprendizagens". Tal normativo substituirá o Decreto‐Lei n.º 139/2012, de 5 de Julho, que vai fazer quatro anos de vigência.

Nesse parecer, aprovado em 10 de Maio, e em síntese, o Conselho das Escolas esclarece a sua posição em oito pontos:
1. O novo modelo de organização e gestão curricular não assegura às Escolas a autonomia e as possibilidades de flexibilidade do currículo que se anunciam. Tal como tem acontecido nas últimas décadas, as iniciativas de flexibilidade e autonomia das Escolas continuarão a  depender, em muito, dos recursos disponíveis e das normas que  regulam a sua gestão. As Escolas continuarão manietadas e dependentes dos meios que outros, momento a momento, decidirem conceder‐lhes.  
2. Para as Escolas ganharem a autonomia e a flexibilidade curricular, referidas ao longo de todo o projeto em apreciação, não seria necessário proceder a uma revisão curricular, nem sequer a uma  alteração legislativa, bastaria um ato administrativo que permitisse às  Escolas criarem os “domínios de autonomia curricular” e gerirem 25% do currículo, como aliás aconteceu com a publicação do Despacho n.º 5908/2017, de 5 de julho (PAFC). 
3. Na verdade, o atual quadro legislativo (Decreto‐Lei n.º 139/2012), as suas disposições de organização e gestão curricular e as matrizes  curriculares em vigor não impedem que as Escolas possam gerir o currículo com a flexibilidade  que agora se preconiza, tal como não impediram que, em 2017/2018, mais de duzentas Escolas o pudessem fazer. 
4. As Escolas nunca poderão almejar a qualquer reforço da respetiva autonomia curricular sem o concomitante reforço de autonomia administrativa e de gestão de recursos humanos, materiais e financeiros. 
5. As matrizes curriculares do ensino básico prescrevem um acréscimo de novas componentes/disciplinas, de que resultará uma maior e  desnecessária fragmentação do currículo. Desnecessária, note‐se, porque as aprendizagens a realizar nestas novas disciplinas poderiam  concretizar‐se nas que existem atualmente, nomeadamente no Apoio  ao Estudo, na Oferta de Escola e na Oferta Complementar, sem necessidade de introduzir tal segmentação. 
6. A redução da burocracia, a necessária clareza conceptual das  normas de organização curricular, o respeito pelas Escolas e a defesa  da sua autonomia  aconselham a supressão do articulado da Secção II (art.º 18.º a 22.º). 
7. Este projeto de revisão curricular decalca as matrizes, muitas das normas e dos mecanismos previstos no Despacho n.º 5908/2017, de 5 de julho (PAFC), que está a ser aplicado num significativo número  de Escolas do país. O Conselho das Escolas entende que a eventual generalização de uma revisão curricular que tem como base o PAFC, nunca deverá ocorrer sem que o regime experimental deste projeto esteja devidamente concluído e, consequentemente, tenha sido  avaliado o seu impacto.  
8. Contrariamente ao PAFC ‐ cujo valor enquanto mecanismo de  reforço da flexibilidade e da autonomia curricular, reside, precisamente, no facto de ser um projeto de adesão voluntária e, em alguns casos, entusiasta de muitas Escolas ‐ o projeto curricular em  apreciação será, ab initio, a expressão contrária do que se advoga, uma vez que interfere em muitas áreas e decisões tomadas no âmbito da autonomia e dos Projetos Educativos em curso, sem que se vislumbre qualquer necessidade ou benefício para o sistema educativo.

A ADSE CRITICADA PELA ASSOCIAÇÃO 30 DE JULHO


Meu artigo de opinião publicado hoje no "Diário as Beiras":
“Morre o bicho, acaba-se a peçonha” (provérbio popular).

Li no “Público” (12/05/2018), em chamada de 1.ª página, que o “Ex-presidente fez nomeações depois de sair da ADSE”.
Na respectiva página 23, está impresso: “O conselho directivo da ADSE, cujo presidente Carlos Liberato Baptista está demissionário, aprovou na quinta-feira a nomeação de 16 dirigentes dos novos departamentos e divisões do instituto que gere o sistema de assistência na doença da doença da função pública”.
Felizmente, porque ainda há gente neste Portugal, como diria Camilo, sem curvar a cerviz a vizires, não cedendo a artifícios legais, quais piruetas que tentam justificar o injustificável, transcrevo dessa mesma notícia: “A chamada de atenção para as nomeações de dirigentes intermédios por parte do presidente demissionário partiu da Associação 30 de Julho (criada por um grupo de benificiários da ADSE), considerando que elas ‘visam condicionar’ a acção do futuro presidente”. Isto é, em contradita com o provérbio popular, em epígrafe, porque nem sempre que um dirigente se demite acaba a sua peçonha.
Acresce o facto do presidente demissionário da ADSE não pode ser tido como simples menino de coro por uma auditoria do Tribunal de Contas ter noticiado  que o Governo está a financiar o Orçamento de Estado à custa da ADSE por os funcionários públicos estarem a pagar mais  228 milhões  do que seria necessário (“Expresso”, 17/07/2015), contrastando esta  situação com a notícia publicada, três anos passados: “ADSE gastou mais 40 euros por beneficiário em 2017. Despesa com cuidados de saúde disparam e ameaçam  contas do sistema” (“Público”, 10/05/2018). Será que a culpa dos responsáveis por este “statu quo” morre solteira?
Entretanto, não posso deixar de estranhar o silêncio do Bloco de Esquerda, do Partido Comunista e dos Verdes (penitencio-me se me demonstrarem que estou a ser injusto!)  por uma medida do Partido Socialista de desprezo pela velhice que mereceu de Arnaldo Gama o queixume: “ Para isto é que eu vivi! Malditos anos! Maldita velhice!” Essa medida, enviou  familiares de beneficiários da ADSE para uma espécie de antecâmara da morte: um Serviço Nacional de Saúde, a rebentar pelas costuras, que não podia, e muito menos devia, ser sobrecarregado com a chegada de novos “clientes”, até recentemente, beneficiando dos serviços da ADSE. 
Muitos deles, no ocaso da vida, padecendo de doenças  inerentes à sua idade que os obriga a ficarem para sempre amarrados a uma cadeira de rodas, sem ‘lobbies’ ou escritórios de advogados que os represente (Bagão Félix)  e, essencialmente, sem o traquejo de doentes que têm sido assistidos a vida toda   pelo  Serviço Nacional de Saúde, “et pour cause”, com o hábito enraizado de se desenrascarem (passe o plebeísmo de caserna!).
Doentes, chutados de supetão da ADSE, normalmente, sem terem familiares que os possam acompanhar às consultas hospitalares, por se encontrarem em horas de  serviço, são coagidos a aceitarem o facto de serem  tidos como trapos velhos de que umas tantas crianças de antigamente faziam bolas de futebol de rua por as magras bolsas de seus pais não lhes permitirem a compra de bolas de couro.
Séculos atrás, interrogava Eça: “Pode exigir-se que haja um Dante em cada paróquia e exigir que os Voltaires nasçam com a profusão dos tortulhos?” Claro que não! Mas deve-se exigir, isso sim!, que os cidadãos, com responsabilidades na direcção da “res publica”, não tenham falta de competência que deslustre e, muito menos, ausência de ética que desonre!

"RECORDANDO RICHARD FEYNMAN EM PORTUGAL" COM MÁRIO PINHEIRO (IST)

O VOCABULÁRIO PARA A EDUCAÇÃO ESCOLAR PROPOSTO PELA OCDE

Em continuação de texto publicado aqui.


Na página 7 do documento da OCDE intitulado The future of education and skills. Education 2030 - afinal, o guia para a educação formal a um nível global - explica-se que a estruturação da nova aprendizagem, que se pretende obter num futuro próximo, implicou um trabalho conjunto de diversos parceiros, no que respeita, nomeadamente, ao apuramento e sistematização de "competências transformadoras", as quais se traduzem em construtos.

Para que os professores e os directores os incorporem nos currículos que elaboram ao nível da escola, é facultada, em anexo (Anexo 2), uma lista, que se diz não ser exaustiva. Reproduzo abaixo essa lista traduzida, notando o sentido que pode ter cada palavra/expressão bem como o seu conjunto.


‒ Adaptação / Flexibilidade / Ajustamento / Agilidade
‒ Compaixão
‒ Resolução de conflitos
‒ Criatividade / Pensamento criativo / Pensamento inventivo
‒ Pensamento crítico
‒ Curiosidade
‒ Empatia
‒ Envolvimento / Competências de comunicação /Competências de colaboração
‒ Igualdade / Equidade
‒ Mentalidade global
‒ Orientação e finalização por objectivos (por exemplo, determinação, persistência)
‒ Gratidão
‒ Desenvolvimento mental
‒ Esperança
‒ Dignidade humana
‒ Identidade / Identidade espiritual
‒ Integridade
‒ Justiça
‒ Habilidades manuais para a tecnologia da informação e da comunicação (relacionadas com estratégias de aprendizagem)
‒ Habilidades manuais para as artes e ofícios, música e educação física necessárias no futuro
‒ Metacognição (incluindo habilidades de aprender a aprender)
‒ Atenção plena ("mindfulness)
‒ Motivação (por exemplo, para aprender, para contribuir para a sociedade)
‒ Mentalidade aberta (em relação aos outros, a novas ideias e experiences)
‒ Adopção de uma perspectiva e flexibilidade cognitiva
‒ Pro-actividade
‒ Resolução de problemas
‒ Propósito
‒ Pensamento reflexivo / Avaliação / Monitorização
‒ Resiliência / Resistência ao stress
‒ Respeito (por si mesmo, pelos outros, incluindo a diversidade cultural)
‒ Responsabilidade (incluindo o "locus de controlo")
‒ Gestão de riscos
‒ Auto-consciência / Auto-regulação / Auto-controlo
‒ Auto-eficácia / Auto-orientação positiva
‒ Confiança (em si, nos outros, nas instituições)

MANIFESTO PELA CIÊNCIA EM PORTUGAL

Link para o Manifesto pela Ciência em Portugal 2018 que subscrevi:

http://cienciaportugal.org/manifesto2018/

DISCURSO MEU E DE JOSÉ EDUARDO FRANCO POR OCASIÃO DO RECEBIMENTO DO PRÉMIO JOSÉ MARIANO GAGO


Cabe-me agradecer, em meu nome e do José Eduardo Franco, o Prémio José Mariano Gago de divulgação científica, distinção que nos concedeu a Sociedade Portuguesa d Autores –   SPA e que muito nos honra. São vários os motivos que concorrem para a nossa honra: em primeiro lugar, o prémio ter o nome de José Mariano Gago, nosso saudoso Amigo, homem de ciência e de cultura e grande construtor do edifício da ciência em Portugal. O dia do seu aniversário, 16 de Maio, celebrado há pouco é o Dia do Cientista Português, mas também é, curiosamente, o Dia Internacional da Luz, por determinação da UNESCO. Coincidência adequada: Mariano Gago fez luz sobre um país que estava em parte escurecido! Em segundo lugar, o facto de se tratar da primeira edição do prémio, em boa hora instituída pela SPA para que a ciência seja uma parte mais visível da cultura. Em terceiro lugar, porque o Prémio é entregue no Dia do Autor Português, no 93.º aniversário da SPA. A pluralidade e riqueza de autores aqui presentes, alguns deles justamente distinguidos, reflecte bem a imensa variedade e virtuosidade da cultura nacional. Estamos orgulhosos de estar na Vossa companhia.

A Obra que o júri decidiu premiar não é uma, é um conjunto de 30 volumes, dos quais só saíram 8 até à data: “Obras Pioneiras da Cultura Portuguesa”, saídas sob a égide das Universidades de Coimbra e Aberta e com vários apoios e patrocínios.. Reúne um conjunto selecionado de obras nos mais variados ramos da cultura e do saber que, escritas de raiz na língua portuguesa, inauguraram esses ramos entre nós. São, em 30 volumes, cerca de 80 obras, de praticamente outros tantos autores que vão do século XII ao século XIX. Hoje é o dia deles, não só o dia dos autores actuais mas também o dia dos autores pretéritos sem os quais os actuais não podiam ter feito obra. Como disse o Padre António Vieira:

“Pigmeus nos reconhecemos em comparação daqueles gigantes que olharam antes de nós para as mesmas Escrituras. Eles sem nós viram muito mais do que nós pudéramos ver sem eles, mas nós, como viemos depois deles e sobre eles, pelo benefício do tempo vemos hoje o que eles viram, e um pouco mais. O último degrau da escada não é maior que os outros, antes pode ser menor; mas basta ser o último e estar em cima dos demais, para que dele se possa alcançar o que dos outros se não alcançava.”
in História do Futuro, Obras Completas, Tomo III, Vol I,  Lisboa, CL, 2014, p. 147

O trabalho de edição, que é publicada pelo Círculo de Leitores – muito obrigado ao Círculo pelo seu excelente trabalho, que está em curso - só é possível graças a um enorme esforço interdisciplinar, a cargo de uma vasta equipa interdisciplinar de cerca de 170 investigadores de meia centena de centros de investigação. O prémio é, claro, também deles. E porque o trabalho é colectivo, eu e o José Eduardo Franco decidimos que o valor do prémio fosse entregue ao projecto das “Obras Pioneiras”, de modo a que alguns jovens autores possam ver retribuído de forma justa o seu trabalho. A SPA torna-se assim mecenas da obra, juntando-se a outros como a Fundação Gulbenkian, sem os quais as “Obras Pioneiras” não poderiam ter surgido.

Ciência é cultura, como as “Obras Pioneiras” mostram. Os primeiros versos impressos de Camões vieram à estampa num livro de ciência em português de 1563: “Colóquio dos Simples” de Garcia da Orta,  precisamente uma das “Obras Pioneiras”. Camões canta O fruto daquela Orta onde florescem/ Plantas novas, que os doutos não conhecem,” mostrando que onde cresce a ciência cresce também a arte. Há que divulgar ciência e arte juntas, pois as duas são faces do grande mundo da cultura.

Muito obrigado!
Lisboa, 22 /Maio/2018

terça-feira, 22 de maio de 2018

"A MORTE DA PRIVACIDADE"

Encontrei um artigo intitulado "A morte da privacidade", escrito por Alex Preston e publicado no The Guardian (online), há quase quatro anos. Mantendo a sua actualidade e profundidade de análise, merece ser lido.

O resumo é este:
O Google sabe o que você procura, o Facebook sabe o que você gosta. A partilha é a norma e o sigilo é desrespeitado. Quais são as consequências psicológicas e culturais do fim da privacidade?
Eis algumas ideias fortes:
Chegámos ao fim da privacidade, as nossas vidas privadas, ao contrário das vidas privadas dos nossos avós, passaram para o domínio da vergonha e do segredo. 
Através das muitas pequenas concessões que fomos fazendo, destruímos direitos e privilégios pelos quais gerações anteriores lutaram, minando, assim, as bases da nossa personalidade. 
Chegámos a um ponto em que a maioria de nós aceita que as interacções sociais, financeiras e, até, sexuais tenham lugar na internet e que alguém, em algum lugar, assista. Na verdade, tudo o que fazemos aí é impulsionado por fórmulas matemáticas complexas, que são invisíveis e misteriosas. 
Quando tomamos alguma consciência disto, sentimos uma nova forma de inquietação: estamos a ser investigados, processados e manipulados por uma inteligência artificial que tem por trás a inteligência humana.
Um exemplo é o projecto DRIP (Retenção de Dados e Investigações) no Reino Unido, que obriga as empresas que recolhem informações dos seus clientes a rete-las e armazená-las, podendo a polícia e o governo solicitá-las.  
Em geral, a começamos por observar horrorizados este tipo de iniciativas, mas depressa passamos ao cinismo, pois temos ideia de que qualquer protesto da nossa parte será inútil. 
Devemos perguntar: qual é o impacto pessoal e psicológico dessa perda de privacidade? Que protecção legal é oferecida a quem deseja defendê-la? Talvez seja, porém, tarde demais para fazer tal pergunta, pois chegámos a um momento em que o nosso quotidiano ultrapassou a ficção, ultrapassou as distopias, ultrapassou o "e, se...". 
Recordemos, Yevgeny Zamyatin que concebeu, no seu romance We, de 1921um "one state", uma sociedade transparente sem privacidade. Seguem-se Orwell, Huxley, Bradbury, Atwood e outros que elegeram a usurpação da privacidade como um dos principais "ingredientes" do futuro totalitário. O romance The Circlede Dave Eggers publicado em 2013, pinta o retrato de uma América sem privacidade: um império, assente na internet, pesquisa e controla a vida de todos, confiando na adesão ao seu lema: "segredos são mentiras, compartilhar é cuidar e privacidade é roubo". A heroína acaba por se desintegrar sob a pressão do escrutínio, tornando-se uma das hordas obedientes e sem rosto. Um outro romance recente - Meatspace, de Nikesh Shukla, publicado em 2014 - que explora a fusão das esferas do privado e do público, começa com as seguintes palavras da personagem principal, um escritor solitário cuja única ligação ao mundo é a internet: "a primeira e última coisa que faço todos os dias é ver o que estranhos estão dizendo sobre mim". 
O nosso pensamento social, vai no sentido de julgar como suspeita qualquer coisa que se mantenha longe do olhar público, de modo que, pelo menos alguns de nós, não querendo ser vistos como suspeitos, aceitam "partilhar" o que é privado.
Mas talvez haja uma razão mais importante que nos leva a ceder a essa "partilha", que não sejamos propriamente, como alguns defendem, dóceis  ou ignorantes, incapazes de ver a complexa teia de interesses - sobretudo comerciais - que nos enredam; talvez seja porque entendemos perfeitamente a transacção que está em jogo. Ou seja, queremos manter a internet gratuita e sabemos que as empresas ganham dinheiro com algo que estamos dispostos a dar em troca, a nossa privacidade. Trocamos a privacidade pela riqueza de informações que a internet nos oferece, pela conveniência das compras on-line, pela aldeia global dos media. 
Essa troca leva-nos a aceitar o efeito normalizador da vigilância. Há uma auto-verificação do nosso comportamento quando sabemos que estamos a ser vigiados. É o "panóptico" de Jeremy Bentham, o modelo para as prisões onde um só guarda pode observar uma prisão inteira, não importava se está ou não a observar, a mera possibilidade de estar é suficiente para garantir o cumprimento da norma. 
É neste ponto que nos encontramos, sob uma vigilância que pode parecer benigna, mas que denota um poder sombrio e controlador sobre todos. 
A mensagem subliminar que passa é que se queremos mesmo manter algo privado, devemos tratá-lo como um segredo, mas de um modo semelhante ao que a personagem do livro "1984", Winston Smith, fez: "Se quiser manter um segredo, deve escondê-lo de si mesmo ". 
Aqui reside o maior risco de invasão da privacidade, desvalorizado por aqueles que aceitam alegremente os tentáculos da corporação  empresas-media-estados. Don DeLillo, no seu livro de 2010, Point Omega, diz: "você precisa saber de coisas sobre si que os outros não sabem. É o que ninguém sabe sobre você que permite que você se conheça". 
Negando o acesso ao nosso mundo interior, desistimos daquilo que nos eleva acima da mera sobrevivência, daquilo que nos torna humanos. 
Josh Cohen explica por que precisamos de privacidade na nossa vida: "precisamente porque a privacidade garante que nunca somos totalmente conhecidos pelos outros ou por nós mesmos, a privacidade constitui um abrigo para a liberdade, a imaginação, a curiosidade e a auto-reflexão. Portanto, defender o eu privado é defender a própria possibilidade de vida criativa e significativa".

segunda-feira, 21 de maio de 2018

CLÁSSICA DIGITALIA: LIVROS EM ACESSO ABERTO

Informação recebuda da Imprensa da Universidae de Coimbra:

Os Classica Digitalia têm o gosto de anunciar 2 novas publicações, com chancela editorial da Imprensa da Universidade de Coimbra.

Todos os volumes dos Classica Digitalia são editados em formato tradicional de papel e também na biblioteca digital, em acesso aberto.

Além do usual circuito de distribuição da IUC, a versão impressa das novas publicações encontra-se disponível em todas as lojas Amazon.

NOVIDADES EDITORIAIS

Série “Scripta & Realia" [Estudos]

Carmen Soares (coord.), Biblioalimentaria. Alimentação, saúde e sociabilidade à mesa no acervo bibliográfico da Universidade de Coimbra (Coimbra, Imprensa da Universidade de Coimbra, 2018). 169 p.

[A presente obra resulta de uma exposição documental, intitulada BiblioAlimentaria. Tem por objetivo dar a conhecer parte do rico acervo documental e bibliográfico da Universidade de Coimbra, pertinente para os estudos sobre alimentação, nas suas vertentes de produção (agrícola e culinária), consumo (mesa e sociabilidade), comércio e indústria, administração, saúde e bem-estar. As obras constantes deste catálogo encontram-se agrupadas em cinco núcleos temáticos, destinados a evidenciar o discurso narrativo que suportou a exposição: 1. Memória Gastronómica; 2. Contabilidade e Administração; 3. Medicina e Farmacopeia; 4. Agricultura, Comércio e Indústria; 5. Sociabilidade e Etiqueta.]

Série “Varia" [Estudos]

Rogério Sousa, Gleaming Coffins: Iconography and Symbolism in Theban Coffin Decoration (21st Dynasty). Vol. I: The Sheltering Sky (Coimbra, Coimbra University Press, 2018). 281 p.

[This study is focused on the decoration of the so-called ‘yellow’ coffins crafted in Thebes from the final part of the 20th Dynasty to the beginning of the 22nd Dynasty (1295-945 BC). This is a critical period in the Egyptian History, witnessing to a situation of political unrest and severe economic scarcity affecting Egypt, the Near East, and the Mediterranean. And yet, there is no evidence for a decline in the production of these outstanding funerary artefacts. On the contrary, the corpus of ‘yellow’ coffins outnumbers the previous types of Egyptian anthropoid containers and stands out among the most complex and sophisticated objects ever crafted in the Ancient World.]

"OS RICOS" DE MARIA FILOMENA MÒNICA


FESTIVAL DE BANDA DESENHADA DE BEJA


CONVERSA SISTEMÁTICA

Conversa Sistemática
Rómulo - Centro de Ciência Viva da Universidade de Coimbra
24 de Maio de 2018 | 21h15
 
No momento em que nos preparamos para estrear o nosso novo espectáculo, O Limbo Empático, cuja temática parte e se enreda no conceito de sistemas, convidamos três especialistas, de áreas tão distintas como biologia, filosofia ou informática, para nos falarem sobre a sua perspectiva de sistema(s). Uma conversa onde seremos confrontados e convidados a reflectir sobre a multiplicidade e complexidade deste conceito.
 
Convidados
Paulo Marques, CTO e co-fundador da Feedzai
Performance
Excerto do espectáculo O Limbo Empático, com Carolina Santos, Filipe Eusébio e Sílvia Santos

O evento é gratuito e tem prevista a duração de 1h30
Localização do Rómulo - Centro de Ciência Viva da UC
A Conversa Sistemática é uma actividade complementar do novo espectáculo da Marionet, O Limbo Empático.

Na senda da exploração do conceito de sistemas, já iniciado no último espectáculo, A Glândula Secreta, a marionet vira-se agora para sistemas sociais, reflectindo sobre questões como a existência, a privacidade ou a empatia, num momento de avassaladoras mudanças nas relações e comunicação entre seres humanos.

Dia 29 e 30 de Maio, às 21h30, no TAGV

Uma viagem pela filosofia em 101 episódios


Da Crítica:


A TSF, pela mão segura de Carlos Vaz Marques, apresenta a minha tradução
de Nicholas Rescher, Uma Viagem pela Filosofia em 101 Episódios. 
Para ouvir, clique aqui

OLHE LÁ, VOCÊ ...

Isaltina Martins e Maria Helena Damião Num texto ainda recente com o título O 'Você' (ver aqui ), Jorge Mangorrinha, pós-doutorado ...