Não encontro outra razão para a facilidade, o à vontade, a energia e o desembaraço com que se deitam abaixo, se abatem árvores que não fazem mal a ninguém. E mais, que fazem bem a imensa gente sem pedir quase nada, ou mesmo nada, durante anos e anos, gerações e gerações. Às vezes séculos. E até milénios.
É fatal: não somos capazes de fazer obra de alguma envergadura - e às vezes de nenhuma - que não tenhamos que “limpar” antes o terreno levando à frente quantas árvores houver. Com frequência acabamos por não fazer lá nada, mas ao menos deixámos o terreno “limpo”. E a nossa obra fica por aí. Outras vezes tratamos tão mal as árvores, desprezamo-las de tal modo que elas entram em stress, dizem. Fazemos-lhe golpes irremediáveis para amores efémeros, furos definitivos para cartazes de um dia, garrotes assassinos para propaganda política inútil, e muitas outras ofensas por coisas de nada. Fazemos-lhe tantas que elas adoecem. Anos e anos a tratá-las sem cuidado, ou não as tratar, vidas inteiras sem pensar nelas, ou a brutalizá-las. E elas em silêncio. Segundo parece gemem, mas ninguém as ouve. Deviam responder na mesma moeda, mas não são capazes. E às tantas adoecem. E lá vem a ansiada necessidade de as abater. E então ficamos muito satisfeitos porque encontramos motivos suficientes para fazer aquilo que melhor fazemos, que é abater quem está indefeso.
Cortam-se em todo o lado, por muitas razões. Todas as razões são boas para o abatopata. Construir qualquer coisa é um bom motivo. Mas nem é preciso. Basta andar a arranjar uma casa, construir um armazém, uma garagem, até uma escola. Fazer uns acrescentos a uma escola respeitável, uns arranjos importantes, é certo, e logo se arranjam boas razões para abater uns tantos cedros. Com muitos anos e bom porte, belos, bem alinhados, embora desprezados. E que tinham dignidade. Por que razão uma obra de remodelação precisa do sangue sacrificial de árvores que não incomodavam as obras nem os que as faziam?


