quinta-feira, 9 de dezembro de 2021

ELIZABETH KOLBERT E O CÉU BRANCO


Meu artigo no I de hoje:

Toda a gente sabe que o céu é azul. A expressão «céu branco» que surge em Sob um Céu Branco. A Natureza do Futuro, o mais recente título da norte-americana Elizabeth Kolbert (n. 1961), jornalista dos quadros da revista The New Yorker, é estranha, mas explica-se facilmente. Num planeta ameaçado pelo aquecimento global foram propostas algumas soluções de geoengenharia global que parecem ficção científica. Uma delas, desistindo de limitar as emissões de dióxido de carbono, que são em larga medida responsáveis pelo agravamento do efeito de estufa, consiste em espalhar pela atmosfera quantidades consideráveis de aerossóis, que, ao diminuírem a radiação solar que chega à Terra, baixariam a temperatura desta. Um problema lateral seria que o céu, em vez de azul, passaria a ser branco. As últimas palavras do livro são precisamente as do título: «Seria um clima sem precedentes, onde a carpa-prateada tremeluz sob um céu branco».

Kolbert, que é hoje uma das vedetas do jornalismo mundial, tem, desde há vários anos, centrado as suas atenções em questões ambientais. Ela gosta de usar o termo «Antropoceno», ainda não consagrado cientificamente, mas que já se generalizou para designar a nova era geológica, dominada pelo impacto das marcas humanas.

Sob um Céu Branco, saído em Portugal na Elsinore, é o seu quarto livro. Os primeiros dois, não traduzidos entre nós, foram: The Prophet of Love and Other Tales of Power and Deceit (Bloomsbury, 2004), sobre alguns políticos de Nova Iorque, e Field Notes from a Catastrophe: Man, Nature, and Climate Change (idem, 2006), sobre as alterações climáticas. Mas o grande sucesso veio com o terceiro livro, A Sexta Extinção (Elsinore, 2019), que recebeu o prémio Pulitzer para a melhor obra de não-ficção de 2015. O Pulitzer é um dos maiores prémios atribuídos anualmente nos Estados Unidos a obras de jornalismo, literatura, não-ficção e música. Para ver em que galeria entrou o livro de Kolbert, enuncio os títulos relacionados com ciência que foram galardoados e publicados entre nós: Os Dragões do Éden, de Carl Sagan (Gradiva, 1991); Gödel, Escher, Bach, de Douglas Hofstadter (idem, 2000); Armas, Germes e Aço, de Jared Diamond (Relógio d’Água, 2002); O Bico do Tentilhão, de Jonathan Weiner (Caminho, 2006); O Imperador de Todos os Males, de Siddhartta Mukherjee (Bertrand, 2012); e A Grande Mudança, de Stephen Greenblatt (Clube do Autor, 2012). É pena que o naturalista Edward O. Wilson, o único cientista que ganhou dois Pulitzers, não tenha publicadas em português nenhuma das obras pelas quais foi premiado, embora tenha várias outras.

Eram, portanto, elevadas as expectativas em torno do novo título de Kolbert. E ela soube estar à altura delas. Se o livro anterior era sobre a dramática perda da biodiversidade a que estamos a assistir (a autora estima que antes do final deste século arriscamos perder entre 20 e 50 por cento das espécies vivas) depois de terem ocorrido, antes do aparecimento dos humanos, cinco extinções em massa, o livro mais recente é sobre a continuada acção humana sobre a Natureza. A questão é: até que ponto será o mundo natural ainda natural? Para lhe responder, a autora, uma grande repórter que, para escrever esta obra, visitou alguns dos sítios mais extraordinários do planeta, começa por notar que a Natureza tem estado sujeita à intervenção humana desde há muito.

No primeiro («Rio abaixo») dos três capítulos que constituem o livro (o resto é agradecimentos, notas e créditos), Kolbert começa por descrever a sua descida de barco ao longo de um canal que foi construído no final do século XIX para desviar o trajecto do Rio Chicago para que ele não entrasse no Lago Michigan. Ao completarem-se esses trabalhos estabeleceu-se uma ligação entre a bacia hidrográfica dos Grandes Lagos e a outra grande bacia, a do rio Mississipi, alterando seriamente vários ecossistemas. Apesar de bem intencionado, o controlo da Natureza por vezes correu mal: por exemplo, introduziram-se espécies invasoras, como carpas oriundas da China, que rapidamente proliferaram, com impacto no ambiente. Uma marca do controlo humano que a autora descreve é a das barreiras eléctricas que foram construídas pelo Corpo de Engenheiros dos Estados Unidos para impedir as carpas, matando-as, de passar num certo sítio do canal artificial. Indo mais para Sul, a autora voou sobre a foz do Mississipi, não muito longe de Nova Orleães (cidade que conheço bem, pois vivi lá um ano, antes do furacão Katrina), para confirmar in loco o que já sabia: boa parte do estado da Louisiana está abaixo do nível do mar, só sendo habitável graças a um complexo sistema de diques e bombagens. No litoral do Golfo do México são permanentemente perdidas terras para o mar. O delta do rio é tudo menos um sistema natural, pois resulta da permanente luta entre a Natureza e o homem, uma luta que tem originado enormes alterações dos ecossistemas.

Eis como Kolbert vê a Natureza alterada: «É costume dizer-se que a Natureza – ou, pelo menos, o conhecimento de Natureza – está emaranhado na cultura. Até ter existido qualquer coisa que lhe pudesse ser contraposta (a tecnologia, a arte, a consciência), havia apenas a "Natureza", e, por isso, a categoria não tinha grande utilidade. Talvez seja também verdade que, quando a "Natureza" foi inventada, a cultura estava já nela intrincada. Há 20 mil anos, os lobos foram domesticados. O resultado foi uma nova espécie (ou, segundo alguns, uma subespécie), bem como duas novas categorias: o ‘domesticado’ e o "selvagem". Com a domesticação do trigo, há cerca de 10 mil anos, o mundo vegetal dividiu-se. Algumas plantas tornaram-se "colheitas" e outras "daninhas". No admirável mundo novo do Antropoceno, as divisões não param de se multiplicar.»

No Génesis 1.26 está escrito que o Criador atribuiu ao homem o domínio da Terra: «Deus disse: ’Façamos o ser humano à nossa imagem, à nossa semelhança, para que domine sobre os peixes do mar, sobre as aves do céu, sobre os animais domésticos e sobre todos os répteis que rastejam pela terra’». De certo modo temos cumprido esse desígnio, mudando radicalmente a paisagem, destruindo espécies e criando novas. A Natureza deixou, há muito, de ser natural. Kolbert cita Edward O. Wilson: «Não somos como deuses. Não somos ainda sencientes ou inteligentes o suficiente para sermos o que quer que seja.»

No segundo capítulo, «Rumo à Natureza», Kolbert descreve uma caverna no deserto do Nevada, não muito longe de Las Vegas, onde vive uma colónia de pequenos peixes azuis que só existem aí. São muito poucos – não mais que poucas centenas - estando ameaçados de extinção. Têm corrido vários perigos, como quando baixou o nível da água (que está à temperatura de 33 ºC) devido à irrigação de uma propriedade próxima. Houve um litígio, que foi a tribunal, entre os destruidores e os salvadores dos peixinhos. As autoridades têm feito tudo para preservar a colónia, desde o reforço da alimentação no seu habitat natural até à sua deposição noutros habitats, incluindo uma caverna artificial que é uma réplica fiel da verdadeira e cuja construção custou cerca de cinco milhões de dólares. No mesmo capítulo, a autora vai primeiro ao Havai e depois à Austrália para ver o que está a ser feito para defender a Grande Barreira de Coral das múltiplas ameaças que pairam sobre ela. Não é só a barreira que é frágil, também os humanos o são: A cientista que ajudava a autora morre rapidamente quando lhe aparece um tumor no cérebro. Kolbert procura outros cientistas, visitando, na Austrália, um laboratório biológico de alta segurança e inteirando-se sobre o CRISPR, uma nova técnica de edição genética, que poderá ajudar a salvar os corais. Entre os personagens que encontra há um com aspecto de «cientista louco»: um biofísico de cabeleira loura, piercings e tatuagens cuja empresa oferece serviços de design genético. Ele próprio, embora sem sucesso, tentou desactivar um dos seus genes para ficar com uns bíceps maiores…

No último capítulo («Nas Nuvens»), Kolbert descreve a sua viagem à Islândia para saber como se «petrifica» o dióxido de carbono. Ela tinha recorrido a um serviço de uma empresa de emissões negativas de dióxido de carbono, que retira este gás do ar injectando-o na crusta terrestre. Esta é outra possibilidade de geoengenharia para controlar o aquecimento global, em alternativa ou complemento ao espalhamento de aerossóis no ar. Ainda é muito cara. A autora queria ir a mais sítios, mas as suas excursões foram subitamente interrompidas pela erupção da COVID.

A prosa de Kolbert é sóbria, mas extremamente eficaz. Ela leva-nos aos sítios onde esteve. A legibilidade do livro, que tem mapas e figuras elucidativas, é bastante ajudada pela excelente tradução de Eugénia Antunes. Remato com um resumo que a própria autora faz no final: «Este é um livro sobre pessoas que tentam resolver problemas criados por pessoas que tentavam resolver problemas. Enquanto o escrevia, falei com engenheiros e engenheiros genéticos, com biólogos e microbiólogos com cientistas atmosféricos e empreendedores atmosféricos. Sem excepção mostraram-se apaixonados pelo seu trabalho. Regra geral, contudo, o seu entusiasmo era contrabalançado pela dúvida. As barreiras eléctricas, as crevasses de betão, a caverna artificial, as nuvens sintéticas: estes projectos foram-me apresentados mais num espírito de tecno-fatalismo do que de tecno-optimismo.» A questão que logo ocorre é: quem controla os controladores da Natureza?

segunda-feira, 6 de dezembro de 2021

Carlos de Oliveira e a evolução sem seleção ao acaso embora acabe por ser pelo imprevisível que vamos

[Está a chegar ao fim o ano do centenário de Carlos de Oliveira (1921-1981) e há algum tempo que me interesso pelas relações dos seus livros com a química. Sobre os centenários já foi feita aqui a reflexão por Eugénio Lisboa. Eu vou debruçar-me sobre um aspecto curioso de um livro de Carlos Oliveira. No dia 17 de dezembro irei fazer uma palestra mais geral sobre Carlos de Oliveira e a Química na Escola Secundária de Cantanhede. Curiosamente, ao escrever lembrei-me de que o patrono da escola, o professor Lima de Faria, tem muitos trabalhos sobre a teoria da evolução, numa perspetiva diferente - sem seleção ao acaso - da que refiro abaixo. Isto está tudo ligado, mas aproveito para referir mais uma vez que a ciência avança mais com os desacordos do que com os dogmatismos.] 

Como é bem sabido, Carlos de Oliveira viveu bastantes anos na gândara, a qual serviu de inspiração a grande parte dos seus trabalhos. Com as suas imagens e textos deu uma forma especial a toda uma região, ao mesmo tempo que ele próprio se dizia “tatuado” por ela. Por outro lado, todo um conjunto de autores, especialmente locais, reclamam seguir os seus passos e foram claramente inspirados por ele.

Para um natural da gândara – e eu sou-o e acho que também fui tatuado por ela – é muito apelativo as várias referências a coisas que conhecemos ou que imaginamos e que vão variando com o tempo, muitas vezes por as vermos de formas diferente.

Não acho que haja domínios em que não se possa tocar. Claro que os domínios especializadas têm o seu lugar, e ainda bem pois há muitas coisas que só avançam ou têm lugar dessa forma, e há conhecimento técnico que não se adquire a ler de forma diletante e ocasional, mas há  coisas que são e devem ser de todos. Da mesma forma que devo aceitar que uma pessoa refira os “químicos” de forma muitas vezes ignorante em todos os sítios, por vezes fora do contexto, tenho de aceitar que um não-filósofo profissional filosofe ou um não-crítico critique, entre outras possibilidades. Acontece que, muitas vezes, não falamos sequer a mesma linguagem. Por exemplo, para uma pessoa da área das ciências “catalise” tem a ver com a aceleração de reações químicas, mas para uma pessoa das letras, com a forma como se constroem certas palavras.

Assim, tem de haver alguma tolerância aos não profissionais, ao mesmo tempo que se sabe quem é o quê. Uma pessoa pode opinar, saber coisas, contribuir para um ramo do conhecimento, sem o poder exercer. Por exemplo a medicina. Outra pessoa pode dizer coisas, saber outras e até contribuir muito sem ser, por exemplo, engenheiro. E aí por diante. Algumas vezes as contribuições mais ricas e úteis até vêm de pessoas de fora do ramo, mas as rotinas são realizadas por quem está todos as dias a trabalhar nesse assunto, muitas vezes em profissões que são reguladas e só podem ser exercidas por quem tem as qualificações.     

Carlos de Oliveira refazia muito. Por exemplo, embora a história e as personagens sejam as mesmas, a versão de 1948 dos “Pequenos Burgueses” é muito diferente da versão de 1987 que eu tenho. A obra original faz um conjunto com “Alcateia”, publicada em 1944, que ficou pelo caminho, mas foi recentemente reeditada (o que era imprevisível), mas não sei se na atual se nota tanto.  

Chamou-me a atenção da utilização da expressão “trigo-roxo” para combater uma praga de ratos. Julgo que a expressão terá começado a ser usada por as sementes com o veneno serem pintadas com um corante dessa cor. Generalizou-se para os venenos, que são dessa cor, ou têm esse nome na marca. O curioso é que só em 1948 (imprevisível coincidência) foi introduzida a varfarina para matar ratos. Trata-se de um anti-coagulante a que os roedores são muito sensíveis, mas também a nós e aos outros animais pode fazer mal, que tem como antídoto a vitamina-K1. Antes usava-se a estricnina e o fosforeto de alumínio. E anteriormente, o arsénio. Isto causava um grande número de acidentes e facilitava o suicídio e o crime e esses produtos deixaram de ser usados. De qualquer forma, fui ver a edição de 1948. Não tinha qualquer referência a “veneno” para os ratos. Notei outras coisas. Era uma versão muito diferente. Mas o aspeto do raticida que antes não existia e agora existe parece-me fundamental. A literatura mostra-nos o mundo e o pensamento do tempo em que foi escrita.   

É curioso que a imagem dos ratos seja também usada por Albert Camus na “Peste”, romance de 1947, agora muito lido devido às semelhanças que encontramos com os tempos que estamos a viver. Também ainda não estava disponível a varfarina, mas como disse Camus (cito de cor), a peste, e os ratos, não desaparecem totalmente, ficam escondidos.

Entretanto, começou a notar-se uma maior resistência à varfarina por parte dos ratos. Este fenómeno é comum e tem a ver com a seleção que é feita. Se o veneno mata os ratos mais sensíveis e se sobrevivem os mais resistentes, são estes que se vão reproduzir e passar as suas características aos descendentes. Este efeito é muitas vezes temido de forma exagerada e outras vezes esquecido, mas é sempre de tomar em conta. Em 1980 foi introduzida uma “super-vafarina”, a bromadiolona. Ora esta molécula é muito eficaz para os ratos, mas muito mais perigosa para os humanos. Acabou assim banida para o uso profissional, mas continua legal para os usos domésticos! Não sei há alguma moral nisto, mas Carlos de Oliveira, muito atento e curioso, talvez achasse graça.

"Não era para ser assim, mas o mundo mexeu-se [45 anos de] perambulação poética"


Texto de João Boavida, escrito para apresentação do mais recente livro de José António Franco. Não era para ser assim, mas o mundo mexeu-se [45 anos de] perambulação poética (Livros do Corvo, V. N. da Barquinha, 2021).

Esta obra, constituída pela reedição de poemas publicados anteriormente e por muitos mais, a maior parte ainda inédita, e sendo uma recolha de quarenta e cinco anos de atividade poética, mereceria uma visão mais alargada e competente que a minha. 

Seguramente que o autor e a obra merecem muito mais do que aquilo que eu possa dizer, mas como José António Franco continuará a produzir, porque um poeta verdadeiro nunca se aposenta, tomem as minhas palavras como uma breve apresentação, deixando, para outros, trabalhos mais aprofundados sobre a sua obra. Em primeiro lugar, permitam-me dizer que aprecio o trabalho poético de alguém que, ao longo duma vida, se entrega à sua paixão contra reveses e contrariedades, que terão sido muitos, e contra marés de indiferença, que também devem ter abundado. 

É admirável e estimulante este incessante esforço de oficina literária, que transforme a ideia súbita, a intuição, na palavra necessária, nessa mesma que produz o poema. E que, depois, sabe-se lá quando e onde, vai encontrar em alguém – sabe-se lá quem –  a ressonância requerida, a identificação redentora. Foi para isso que ele foi feito, embora o não tenha sido.

Quero dizer, mal do poeta que escreve para o leitor, pois nenhum verdadeiro escritor escreve para o leitor, mas, a partir do momento em que o poema é escrito, passa para um hipotético leitor, que, por sua vez, e sem o saber, procura nele aquilo que não sabe mas de que necessita. Necessidade que talvez só descubra no momento da consonância com o autor, nessa espécie de comunhão que, quando acontece, nos puxa, nos entusiasma e, de algum modo, nos redime. É um trabalho de palavras que se dispersam por uma vastidão onde vogam consciências que podem ser tocadas, quebrando o silêncio em que flutuavam. 

Portanto, nunca se deve escrever para o leitor, mas não se escreve senão para ele. Ora, isto requer uma cirurgia rigorosa, um esforço incessante e nunca terminado, mas que só por si compensa porque é a essência do ato criador. Encontrar o poema que antes se escondia por baixo da folha branca, como a escultura dentro da pedra, isto é, a partir da simples ideia, da breve intuição, é o mais estimulante da literatura, pois é aí que se esconde o específico literário, aquilo que distingue um bom dum mau escritor. 

É claro que o nosso tempo não está para estas minúcias e vagares, nem para semelhantes exigências, mas isso não preocupa o criador; lamenta-o, mas pouco lhe interessa porque a sua força interior exige-lhe um limite de perfeição que nunca cessa de procurar. E como sabe que sempre a arte sobreviveu a todas as formas de barbárie, continua, incessante e indiferente. Ora, este livro traduz esse trabalho oficinal, é dele uma boa imagem, quase um arquétipo.

É de assinalar que muitos poemas produzidos em quase meio século de atividade foram deixados de fora, o que indicia bem essa exigência de que falei, e, por outro lado, dá-nos ideia desta produção poética no seu todo. E, já agora, deixem-me dizer-lhes que este título – Não era para ser assim, mas o mundo mexeu-se – é um achado, e só por si vale um poema. 

Quem, de nós, ao fim de quarenta e cinco anos, não pensa que quase tudo podia ter sido doutro modo, que teria sido melhor doutra maneira? Face às ideias que na juventude tantas vezes nos incendeiam, e às ambições que acalentamos, quem haverá que não pense que deveria ter sido diferente? Mas, como sabemos, a vida vai acontecendo, e para acontecer vai optando, vai tomando caminhos, porque é sempre preciso tomar alguns. 

E então pensamos que poderiam ter sido outros, ou melhor, que não puderam ser outros melhores porque o mundo, ao mexer-se, escapou-nos das mãos. Mas, mesmo que não se tivesse mexido, não iríamos mais tarde sentir o mesmo, mas ao contrário, isto é, que o mundo se devia ter mexido para agora nos encontrar noutro ponto e a sentir saudades deste em que estamos? É um jogo de espelhos que o tempo produz, é a nossa situação dramática e irrepetível, e como não é só o mundo, porque tudo muda e se cruza constantemente – ideias, pessoas, lugares, acontecimentos – não estava pensado ser assim, mas foi.

Não estou certo de ter interpretado bem, mas se o não consegui será talvez porque, entre o começo da explicação e este momento de dúvida, o mundo mexeu-se, mesmo que pouco. Note-se, porém, que compete ao artista dar, dessa constante transformação dupla e interativa, desse incessante drama particular, a superação salvadora. 

A arte tem a capacidade de ir ao encontro do que de mais fundo e potencial habita em nós, e que desconhecemos, ou nos escapa, mas que está à espera. Quem o não sentiu ao ouvir certas músicas, ao ouvir certos poemas bem recitados?

A poesia de José António Franco consegue uma síntese entre a exuberância, já longe dos nossos poetas novecentistas, (mas relativamente perto, parece-me, de um Álvaro de Campos, de um Ruy Belo, embora com diferentes fulgurações), e uma poesia excessivamente despojada que tem predominado nas últimas décadas. 

Tem aquela sábia medida entre o espontâneo do sentimento ou ideia, que emergem do nada, e a contensão ou rigor formal que lhe dão a precisa dimensão poética. É a poesia de quem sabe do ofício mas não está para se sujeitar às regras duma escola. Ele mesmo o disse em entrevista a que a introdução faz referência: «prezei sempre demais a minha liberdade para subordinar antecipadamente aquilo que faço aos cânones de qualquer escola».

Acho que fez muito bem, mal da literatura que anda a correr atrás de modas ou à procura de quem a proteja. É certo que ser livre relativamente a escolas (o querer sê-lo em termos de atitude e de método) tem os seus perigos, mas é esse o preço a pagar pela originalidade. Pode até confundir o leitor mais desprevenido, pelo afastamento em relação a determinadas frequências de onda, mas como essas frequências, embora algo dessintonizadas, não deixam de ser moduladas, no fim é a própria qualidade dos poemas que nos obriga a entrar nessa força particular.

A poesia de José António Franco é sensual e cheia de ímpeto, muitas vezes lírica, mas nunca caindo num lirismo palavroso e solto, mas antes sempre controlado, quase secreto, sobretudo nas primeiras obras. Contudo, como já assinalei, não cai naquela secura e despojamento excessivos em que o verso, à custa de querer ser mais intenso, acaba quase por não sair do silêncio; se bem que o silêncio, em música, e a ausência de luz (mesmo extrema) nos filmes, desempenham (ou podem desempenhar) a sua função. Mas a poesia precisa de cor e de sonoridade, e esta tem-nas, a ambas, e com intensidade. 

A sua a poesia, como, na introdução, António Pedro Pita refere, «oscila entre os poemas curtíssimos, e outros em que o lirismo não consegue conter-se, dando prova de uma pluralidade de recursos textuais». Mas mesmo nos liricamente mais exuberantes é sempre uma exuberância trabalhada, e encontrando aí grande parte da sua originalidade.

É, por outro lado, uma poesia que vai à procura do real, mas de um real que embora ande debaixo dos olhos não se reduz a isso; o real quotidiano é um ponto de partida, um sinal do possível, de todos os possíveis que ele faz surgir com abordagens inesperadas, e onde comoção, crítica e desencanto se fundem de múltiplos modos. Poesia feita de emergências às vezes subtis, outras violentas, veementes, escondendo significados à espera de desenlace, como diz em (Paisagem sem noite, p. 65): 
«sobre a pele o mistério
paisagem de palavras inarticuláveis
renovando o silêncio luminoso da novíssima
imagem».
Neste sentido, Pedro Pita considera que tanto a sua poesia como a sua prosa «mergulham na convicção da potencialidade do real, isto e, na imanência ao real das várias figuras do irreal». Esta frase, escrita a pensar nesse livro tão inesperado e perturbante como é Histórias e morais, pode dizer-se, de certo modo, de alguma da sua poesia, sobretudo a dos primeiros anos. 

De passagem diga-se que é um livro notável, este, das Histórias e morais, onde a imaginação desdobra, contorce e multiplica o real num rosário infindável de inconsequências consequentes e de insignificantes significados; que, de resto, podem, a cada instante, ser ou não ser.

A poesia de José António Franco parte de uma ideia, uma intuição, depois os versos vão-se sucedendo numa espécie de associação livre em que, no entanto, se procura a palavra certa para o instante do que se quer dizer. Cada verso encontra o seu momento, cria o seu espaço, produz um enquadramento mediante uma imagem, aquela que, naquele momento, apareceu, onde tudo se concentra, mas como que vindo detrás explodir à sua frente. Cada poema cria o seu mundo particular, o seu âmbito, mas deixando muitas portas por onde o leitor pode entrar; é, digamos, convidado a entrar. Cada poema é assim um jogo aberto pelo poeta para cada um de nós, mas construindo sempre o poema na base de múltiplos rigores, os de cada instante, apanhados em pontas, mas abrindo para a imensidade, do «dia claro / [do] equilíbrio substancial …» como diz em Cantigas de maldizer, p. 87.

É assim uma poesia de espaços adivinhados, entreabertos, mas dando para vastidões, donde regressa no verso seguinte porque está preso a ele pela própria construção do poema. E embora possa não parecer, solicita-o, para de novo encontrar uma fresta e se libertar em imagens e imaginações. Os poemas saltam assim entre figurações e ideias por onde perpassa muito do que à poesia pertence – e sempre pertenceu – mas que se esconde da vulgaridade por uma espécie de pudor poético que é também constitutivo da sua originalidade. 

De vez em quando a contemplação apanha o poeta desprevenido, distrai-se um instante, mas logo se tenta libertar do enlace entrando pelos sinais que ela está a libertar: 
«o mar está estranho hoje
redondo e silencioso como desejo de navegar
o luar acende-me cada vértebra do infinito
lá está a porta
para que quero agora a perfeição»
(Memórias de outra voz, p. 130). 
Ou seja, olhando o mar, várias fímbrias retinem em todo ele e, por fim, «para que quero eu a perfeição», se tenho isto, para que a quero eu? Será assim? Não sei, porque os poemas fogem-nos, obrigam-nos a saltos no desconhecido, estão sempre abertos a muitos ventos, embora o poeta os vá controlando à sua maneira. Não se podendo dizer que é um poeta lírico, de vez em quando, em pequenos instantes, parece ceder, embora logo se desvie, se esconda. Mas com apontamentos breves produz profundos efeitos. Reparem nesta passagem de Paisagem sem noite, p. 67: 
«dói o tempo como nas tardes de outono
palavra em ruína sob a penumbra
de um sossego vertiginoso
no entanto acontece a alegria
um ciclo completo 
paisagem sem noite». 
Ou então:
«elevam-se os sons pelas colinas como ribeiros de fumos coloridos
e as nuvens musicais que ali aconteciam ficaram poisadas em distração. 
Sem poder resistir chovi
por todo o lado o meu corpo
floresceu como uma memória por acontecer»
(Celebração do fogo, II, p. 221). 
São curtas contemplações que se projetam de fora para dentro, aberturas, por sua vez, para o mistério que, de dentro, se abre, provocando assintonias entre o que o poeta intui e o que pretende seja intuído, fugindo assim ao ponto de partida e produzindo uma desarmonia harmónica, que nos toca, e que só a poesia consegue alcançar. A sua poética é «um prodígio íntimo de intranquilidade», como ele diz em Paisagem sem noite, (p. 66). Mas oiçamos toda a estrofe para não pensarmos que é vaidade do poeta:
«em cada cristal a evanescência essencial
prodígio íntimo da intranquilidade
sem nostalgia as nuvens
figuras vertiginosas da diferença».
É curioso que estes cristais têm um valor autónomo, são evanescências essenciais e, portanto, de algum modo, cada um vale por si, mas, simultaneamente, funcionam na estrutura do poema; uma estrutura aberta, como se deixasse a cada leitor a tarefa de o completar, ou, a partir dela, produzir uma outra qualquer, que, dir-se-ia, já lá está, invisível, à espera. E cada um é tentado a construir o seu poema a partir daquele. O que talvez perturbe o leitor, mas, pergunto, não será justamente aqui que reside uma das grandezas da poesia? 

Porém, nem só de lirismo escondido se constrói a poesia de José António Franco, também de sarcasmos, como são as Cantigas de maldizer (1988), e em muitos outros poemas. Embora não se possa considerar um poeta de combate, como diríamos dos neorrealistas, por exemplo, sente-se frequentemente a sua consciência crítica em relação a múltiplas situações. São em geral versos curtos, aforismos em que muito do que se diz e pensa correntemente é decomposto, desmembrado a partir de uma desconstrução que vem de fora: 
«olha sabes que
ou melhor
já ouviste dizer que
e aquilo de
não
talvez não
então deixa» 
(Ibid., p. 78). 
Outros exemplos, entre muitos: 
«Ó da gávea quem vem lá
é alma de defunto com traje de pregador
arreia a vela e afunda o barco
dentro de água a surdez te salvará» 
(Paisagem sem noite, p. 67). 
Há certos versos que, em si, dizem tudo, como este: 
«vestidos restolhavam entre as gravatas» 
(Cantigas de maldizer, p. 81), 
ou 
«se o sol se esquece da tarefa
que será dos iluminados» 
(Ibid., p. 89). 
«ó senhor arranjo as nozes
levais-me os dentes
se tenho os dentes
tirais-me as nozes
para a próxima começo eu
o jogo» 
(Ibid. p. 86). 
E ainda estas, muito breves: 
«justiça
conheço sim senhor
lá em casa não usamos outra coisa»(Ibid., 86), 
ou esta: 
«é verdade que o mundo mantém a fervura
mas está a acabar-se o gás»
(Ibid., p. 93). 
Às vezes perpassa pelo poema um certo surrealismo, ou antes, uma impertinência, mas que, simultaneamente, parece superar a condição humana com um encolher de ombros:
«andava a morte pastando em segredo
veio o fiscal e disse pagas tu os teus impostos
e diz ela não que nunca me deito cedo 
e ele responde tu que levas a vida e corrompes os rostos 
tens de pagar
ao que a morte responde ó filho vai-te matar»
(Cantigas de maldizer, p.81). 
Muitas vezes os versos são interrogativos mas não aparece no texto o sinal de interrogação (à moda das Histórias e morais). Ou seja, cabe ao leitor o uso do verso, a flutuação possível. Por outro lado, nem sempre a sequência entre os versos corresponde à estrutura da frase, isto é, a estrutura quebrada obriga o leitor a recuperar processos poéticos em suspenso (perspetivas, imagens) sugeridas ou meramente possíveis. Cada verso retine e fica a soar por si. O verso não é um discurso (embora seja) mas é mais uma corda que, ao retinir, dispara em vários sentidos, embora se possam encadear em discurso, mas isso fica quase sempre para o leitor. A paisagem é sempre fugaz mas plena, sempre apanhada em pontas:
«dia claro
equilíbrio substancial
deslumbrado instante
ressoando na minuciosa auréola de cada vértice/ fumegante…»
(Cantigas de maldizer, p.87).
Ou então: 
«evadem-se o corpo e as sílabas
fica a densidade luminosa de um espaço
sem vestígios»
(Ibid. p. 90), 
como se o vazio prolongasse o poema. Ou então é um cansaço contemplativo e doce: 
«vai o mundo caindo dentro de mim
e eu sem espaço sequer para a alma
que desumana banalidade faz do homem uma roca
sem mão nem linho»
(Paisagem sem noite, p. 67). 
Outro aspeto curioso nesta poesia são as frequentes sugestões filosóficas: 
«…longe o vulto magnífico do que poderia ter sido
surgir como nada tivesse acontecido» 
(Celebrações do fogo, III, p. 207); 
«queria que o tempo fosse só de vez em quando», tinha dito antes, em Paisagem sem noite, (p. 69), o que não é uma filosofia mas será um bom começo. Já antes, em Pedra fecunda, (p. 51) exclamara: 
«ai o tempo o tempo
serei tempo um dia
e um deus esquecido por entre mim». 
Ou então: 
«ainda agora foi agora e o tempo já me percorre por dentro como a memória do
que ainda não aconteceu. 
Existo lentamente; experimento o prodigioso sentimento (azul) de ser o que já foi
futuro antes de passar por mim»
(Celebração do fogo, III, p. 223).
Em Cantigas de maldizer, p. 92, fala n‘
«…a angústia de pensar o que é 
que não é mas passa a ser
qualquer dia será um grande dia
tanta coisa por fazer».
O poema cria o ser a partir do não-ser, mas nós somos solicitados porque tudo é mais sugerido que dito, e é a partir dele que se desdobram e repercutem os versos uns nos outros: 
«poesia é este nada
que nem consigo segurar entre mãos», 
mas onde o ser de cada instante é o imediato não ser. O ser produz o não ser, como se sente no poema
“vertigem”: 
«uma porta 
se a abro perco-me
uma flor
se a colho morre
uma palavra
se a digo perde-se
uma janela
se a abro asfixio
uma pedra
se a toco muda (…)
um rosto
se o vejo desaparece», etc. 
(Ibid., p.77). 
Parecem anúncios de uma metafísica possível à procura duma resposta que ninguém tem, mas, curiosamente, como que contemplando o tempo, entidade que é, afinal, o maior de todos os mistérios. Por isso, segreda: 
«não digas nada
o tempo arde»
(Memória de outra voz, p.126) 
(…), e termina o poema repetindo: 
«não digas nada
o tempo arde
intacto e total».
E é que arde mesmo! Entre o conteúdo e o contexto há uma permanente interação, o ser do poema constrói-se entre cá e lá, mediante sentidos que se vestem de imagens constituindo pequenos universos por onde o poeta se expande. Atentemos nesta estrofe do “poema imperfeito:
«a terra revolve-se sem remédio
às badaladas inevitáveis
da torre da noite
ali mesmo por baixo do luar
baço como latido de cão
misteriosos como o voo negro
dos morcegos» 
(p. 170). 
Outra estrofe: 
«ah como eu admiro esta alquimia 
convulsiva
sem vento nem maldade 
o fel da alma
tolha o olhar
morto por ser manhã
a geografia da verdade» 
(Celebração do fogo, II, p.171). 
Em José António Franco a palavra, para além do fonema, é quase sempre uma realidade ontológica, ou seja, organiza, só por si, a realidade (um ente, uma razão de ser), isto é, as múltiplas realidades possíveis do poema. Cada palavra é fabricada para poder valer por si e fulgurar num verso. E digo que é fabricada porque parece saída das mãos do artífice para encaixar naquele lugar. Mas isto não é logo visível, nem sequer é sempre, mas fica a ressoar e recupera, no fim, o seu lugar e função: 
«a palavra
agonia e vertigem
ventre efémero do gesto imortal» 
(Memória de outra luz, p.143); 
ou: 
«catedral de silêncio a palavra arde
juncando o vento
de eternidade dissonante»
(Celebração do fogo, V, p. 301). 
E ainda, em Celebração do fogo, I, (p. 163):
«perceber o cheiro das palavras 
em cada pétala renascer
o rosto desigual de cada momento 
marginal a voz da mão suave
suspende o orvalho sobre 
os lábios da manhã 
o tempo é feito devagar». 
Mas deixa sempre múltiplas interpretações e sentidos à espera, porque: 
«o universo não é perfeito 
há evidências por anunciar»
(Memória de outra luz, p. 140), 
isto é, obriga-nos a saltos porque cada verso convoca uma imagem, um sentimento, que abre e continua sempre abrindo. Às vezes são cáusticos, Porque 
«…só o poema escarpado e rigoroso
será fulminante e universal»
(Ibid. 125). 
Ou melhor, é-o com frequência, mas nem sempre de modo evidente, como nesse longo poema de que só cito dois versos por me parecerem reveladores: 
«sei que a cobardia vai ao cabeleireiro e faz operações plásticas no aborrecimento
sepulcral dos altares dos feitiços modernos»
(Celebração do fogo, III, p. 217). 
Outras vezes são melancólicos:
«transforma-se o dia estrada fora
o sol reverdece entre pedras
e deuses fascinados»
(Memória de outra luz, p.125). 
Por vezes é uma evocativa e amarga revolta:
«olá avô lindo nessa farda de ir morrer
no retrato que o meu olhar sumiu
oiço a tua voz
embalando histórias na trincheira
por entre metralha e sangue
e a glória improvisada
de um caixão de pinho 
a tua harmónica ainda me fala de La Lys 
na dissonância da morte ao alcance 
de um olhar incrédulo e inconformado 
debaixo de uma poalha de lama e desespero 
Depois cala-se / e eu volto a ouvir-te confessar 
que todas as guerras são fracassos …» 
(Celebração do fogo, III, p. 206). 
Outras vezes é um certo desencanto face a uma beleza por abrir (Celebração do fogo, II, p. 185):
«homens-pássaros florescem nos livros como 
ornatos inteiros de catedrais por ler
maldições e sorrisos a retalho
gestos esgotados pelo chão
as ruas
escaldam e há restos de hortelã
nas sopas das avós silenciosas
sobre a paciênciarezando»
É uma estrofe triste, desalentada, em que todas as imagens entram por vias diferentes e vão levantar tesouros escondidos, memórias,
«restos de hortelã
nas sopas das avós silenciosas»; 
coisas a que ninguém liga, porque, embora convocando todos os possíveis, a 
«poesia é este nada
que nem consigo segurar entre as mãos» 
Talvez rio, p. 97). 
 A partir das “celebrações do fogo” os poemas começam a crescer até serem torrenciais, mas o método e a força ativa que subjazem à feitura mantêm-se idênticos. São poemas de uma imaginação transbordante, uma imagética fulgurante e contínua, que não se cansa, que incessantemente desdobra imagens, cada uma delas pressupondo mundos de que parte e construindo outros que se erguem súbitos a nossos olhos, como se cada palavra desencadeasse possíveis dinâmicas criativas que o poeta respira, como um tónus, e expira, como uma libertação, para recuperar mais adiante, ou tomar outras, num processo que não para, porque, como diz em Celebração do fogo, II, (p. 189): 
«…o poema é o meu desequilíbrio 
a força que me faz cair quando me
levanto …».
Por isso se tornam absorventes, intensos, vastos, exuberantes, torrenciais até, mas também mais rítmicos, com repetições que marcam a cadência de uma ideia, de uma obsessão e servindo-se, por vezes, de um «desmembramento sintático», de uma «pesquisa fonética» numa indiferença de género e de número, e uma «experimentação da resistência das palavras como “materiais”», como diz António Pedro Pita, que vão ao encontro dessa veemência larvar que os produz. São, em certos casos, sujeitos a um refrão dinamizador e rítmico, por exemplo “a capital do tempo…” “a capital do tempo…”, “a capital do tempo…”; “se te dissessem…,” “se te dissessem…,”; “ao raiar do dia…” “ao raiar do dia”…, “alguém que”, etc…

Mas os poemas mais curtos, sejam líricos, sejam políticos, sejam sociais, restringem a sua atenção, despojam-se, tornam-se, a meu ver, mais apolíneos, ao passo que os poemas mais longos, seguindo a cadência e uma espécie de furor imagético que é do autor a marca, poderemos dizer que são mais dionisíacos. 
 
Em suma, a poesia de José António Franco é uma poesia intensa, forte, que não cede a facilidades nem a efeitos fáceis, que é feita a partir de um esforço sobre os materiais, procurando tirar deles o máximo, fazendo ressoar cada palavra, porque, como diz em Memória de outra voz (p. 148) 
«sagrado [é] o lugar das palavras», 
criando tensões em cada verso, por vezes cortes que vão contra o que a cadência talvez aconselhasse, mas que são feitos para que o efeito seja ainda mais vivo, mais fundo, que não flui como nas poesias cantantes porque é o contrário disso que se pretende, mesmo que, outras vezes, confesse: 
«quero dizer a deliciosa lentidão das coisas
e tu
percorrendo-me
como delírios de mar» 
(Ibid., p. 124). 
Há, para terminar, três aspetos que gostaria de referir ainda. Um, diz respeito ao trabalho de educação, para a poesia e pela poesia, a que José António Franco dedicou uma boa parte da sua tarefa pedagógica e da sua vida. Embora não esteja presente nesta obra, quero render a minha homenagem ao autor por este livro e por tudo o que ele representa. É bem a imagem do seu amor pela poesia e da consciência que a educação poética pode e deve ter.

Todos conhecem A poesia como estratégia (1998), e o trabalho notável durante anos levado a cabo em muitas escolas e com inúmeros alunos. O livro traduz, por um lado, a angústia do professor de português que vê a incapacidade e a insensibilidade dos alunos para acederem a esse bem inestimável que é a poesia; por outro, a esperança de poder levar muitos a alcançar esse patamar, mediante uma atividade de sensibilização e de exercitação; e é, ainda, revelador do entusiasmo de ver como, afinal, os jovens podem ser tocados pela poesia e usufruí-la, para seu engrandecimento humano e cultural.

Uma palavra para o trabalho discreto, cuidadoso e competente de António Pedro Pita, enquanto organizador, prefaciador e autor das “notas complementares”, que têm a arte, de, em poucas páginas, nos darem um relato completo, sucinto e esclarecedor, do itinerário poético de José António Franco, e uma notícia de toda a sua obra publicada: títulos, editoras, publicações periódicas, datas, intervenientes e outras circunstâncias interessantes que informam e esclarecem. 

Também neste aspeto os 45 anos de atividade poética de José António Franco merecem esta obra. Um último aspeto tem que ver com este livro enquanto objeto. Sei que são os autores que escrevem os textos, mas o livro em si é um objeto que é feito por outros, e onde devem ser tomados em conta inúmeros fatores de ciência, de sensibilidade e de bom senso, para que resulte num produto digno, e não um objeto desamorável e que desvalorize o conteúdo, como frequentemente acontece. O amor pelos livros passa também, e muito, por isto. 

Este que aqui temos é um belo exemplar e fica bem na comemoração de quarenta e cinco anos de poesia de José António Franco. 

Parabéns a todos os que o tornaram possível. Bem hajam pela vossa atenção complacente. 
 
Coimbra, 4 de Dezembro de 2021
João Boavida

O AMOR PELOS LIVROS


Meu artigo no jornal "Mil Folhas" da Biblioteca da Faculdade de Economia da Universidade de Coimbra:

Escrevo em casa rodeado pelos meus livros. As paredes do escritório estão todas forradas de livros que se alinham em duas, por vezes três filas. Quando algum deles me chama   abro-o com carinho e dou-lhe a atenção que merece, procurando o que ele tem para me dizer. Quando me demoro num deles, fico invadido pela sensação de que, mesmo liberto do serviço das aulas, nunca os conseguirei ler todos, nem sequer abri-los a todos e ler um bocadinho. E como eu gostava de os conhecer a todos, até porque estão, por um motivo ou por outro, perto de mim…

Foi o escritor e artista José de Almada Negreiros que escreveu em Invenção do Dia Claro (1921): “Entrei numa livraria. Pus-me a contar os livros que há para ler e os anos que terei de vida. Não chegam! Não duro nem para metade da livraria! Deve haver certamente outras maneiras de uma pessoa se salvar, senão… estou perdido.” Eu não vou durar nem para um quarto da minha “livraria”, que quero doar para que um dia, quando eu já não durar, seja pública. Confesso que sou bibliófilo, aquele que não só colecciona como ama os livros. Os meus não são livros muito antigos, mas espero que um dia venham a ser antigos, uma vez que os livros são “máquinas do tempo”, quebram as barreiras do tempo.

O bibliófilo José Pina Martins, que reuniu uma notável colecção de livros do Renascimento, escreveu uma frase que tenho no interior da porta do meu escritório: “Para se merecer ser bibliófilo não basta formar uma biblioteca com milhares de livros encadernados antigos e modernos num espaço interior esplendidamente decorado. A bibliofilia é o resultado de um amor à beleza e à ciência. Diremos mesmo que, mais do que o resultado de um acto de amor da beleza e da ciência, se identifica com esse acto.”

A beleza e a ciência parecem dois aspectos separados da nossa relação com o mundo, mas, como bem mostra a indagação que Almada Negreiros fez dos cânones do belo usando a linguagem matemática, eles sobrepõem-se em muitos casos. Como escreveu em Ode a uma Urna Grega  (1819) o poeta inglês John Keats: “A beleza é a verdade, a verdade – e isto é tudo/ o que sabemos na Terra, e tudo o que precisamos de saber.” Um século depois, o matemático francês, Henri Poincaré acrescentou no livro Ciência e Método (1920): “O cientista não estuda a natureza porque tal é útil; estuda-a porque tem prazer nisso e tem prazer nisso porque ela é bela. Se a natureza não fosse bela, não valeria a pena conhecê-la nem a vida valeria a pena ser vivida.”

Numa parte da minha biblioteca tenho livros sobre beleza e noutra livros sobre ciência. Mas há uma estante com livros que versam a relação íntima, por vezes mesmo de identidade, entre beleza e ciência. Já muitos espíritos brilhantes, ao longo dos séculos, exploraram o paralelismo entre beleza e ciência e, quando os escuto através dos livros que nos deixaram, sinto que sou herdeiro de uma mensagem antiga de que devo fazer eco para que o futuro oiça. Já a passei nalguns dos meus livros (os livros que eu próprio escrevi estão na estante mesmo por detrás do lugar de onde escrevo, sendo por isso seu primeiro guardião) e espero que alguém a tenha já captado. Se ainda não aconteceu, espero que um dia alguém a venha a ler, porque os livros são muito pacientes, podem esperar muito tempo pelos seus leitores.

Guardo bem a minha biblioteca (os livros escritos por mim e, muitos mais, os escritos pelos outros) para que o acto de amor aos livros, que é – Pina Martins dixit – um acto de amor à beleza e à ciência, seja não só meu, mas um dia também de outros. O papel da biblioteca é ser um repositório de beleza e de ciência, para salvação, ou pelo menos consolação, das gerações tanto actuais como vindouras. Um dia deram-me a guardar a Biblioteca Joanina da Universidade de Coimbra, uma das mais belas do mundo (ela é, no seu conjunto, um símbolo magnífico da relação entre beleza e ciência). Se algum dia chegar às portas do céu, poderei invocar em favor da minha entrada nele que guardei livros valiosos. E, se, como diz Jorge Luís Borges, o paraíso for “uma espécie de biblioteca” estou certo de que o bibliotecário S. Pedro me deixará entrar. No caso de ele hesitar, poderei explicar-lhe, que além da Biblioteca Joanina, guardei as outras coleções da Biblioteca Geral da Universidade de Coimbra, entre as quais a Biblioteca do Colégio de Pedro, no “Edifício Novo”, tutelada por uma estátua do santo. E guardei, embora de forma indirecta, tidas as Bibliotecas da Universidade de Coimbra, incluindo a excelente Biblioteca de Economia, ao criar o Serviço Integrado de Bibliotecas da Universidade de Coimbra.

E acrescentei uma biblioteca nova à Universidade de Coimbra, o Rómulo, cujo patrono é o poeta e professor de Físico-Química Rómulo de Carvalho. Foi aí que um dia pude receber o poeta e teólogo José Tolentino Mendonça, muito antes de ele saber que iria dirigir a Biblioteca do Vaticano, outra das mais belas do mundo. E espero aí receber um dia o historiador e bibliófilo José Pacheco Pereira, o feliz possuidor da maior biblioteca privada em Portugal, que já tive o gosto de visitar. A biblioteca é o lugar-comum de todos os que procuram a beleza e a ciência.

Não sou, muito longe disso, o primeiro a fazer o elogio da biblioteca. Um dos meus autores preferidos, o astrofísico e comunicador de ciência Carl Sagan, escreveu em Cosmos (1980) de forma lapidar: “A biblioteca põe-nos em contacto com as concepções e o saber, a custo extraídos da natureza, das maiores mentes até agora existentes, com os melhores professores, provindos de todo o planeta e de toda a nossa história, para nos instruírem sem nos fatigarem e para nos inspirarem a dar a nossa contribuição ao saber coletivo da espécie humana. As bibliotecas públicas dependem de contribuições voluntárias. Considero que a saúde da nossa civilização, a profundidade da percepção que temos das bases de apoio da nossa cultura e o nosso cuidado relativamente ao futuro podem ser medidos pelo tipo de apoio que damos às nossas bibliotecas.”

quinta-feira, 2 de dezembro de 2021

HOMENAGEM A NUNO FERRAND NO DIA DO RÓMULO EM COIMBRA


 Minha alocução no Dia do Rómulo, 24 de de Novembro, no RÓMULO,  na Universidade de Coimbra, na homenagem a Nuno Ferrand, biólogo e divulgador de ciência.

Sejam bem vindos a esta casa de cultura científica. O RÓMULO - Centro Ciência Viva da Universidade de Coimbra abriu as suas portas no dia de 24 de Novembro de 2008, dia de aniversario de Rómulo de Carvalho, no edifício do Departamento de Física daquela Universidade. Hoje assinalam-se, portanto, os treze anos de funcionamento contínuo e em crescimento constante como centro de difusão da cultura científica na sociedade. Obrigado a todos os que o tornaram possível a  enorme ascensão do RÓMULO, em particular à Manuela, à Helena, à Joana e à Maria João, que trabalham aqui todos os dias, Muito obrigado ao Instituto de Investigação Interdisciplinar, III, aqui representado pela sua Directora e Vice-Reitora Prof.ª Dr.ª Cláudia Cavadas, onde o RÒMULO está integrado. 

 A Biblioteca do RÓMULO passou dos cerca de 3000 títulos iniciais para cerca de 40 000, sendo hoje, graças a importantes doações, a maior e mais notável colecção de livros, revistas, CD e DVD sobre  cultura científica, contemplando os mais variados tópicos da múltipla relação entre ciência e sociedade. Essa  colecção está à disposição de todos os interessados. O RÓMULO é vosso! 

 O RÓMULO, que integra com muita honra a rede de centros Ciência Viva espalhados pelo país, tem sido palco de numerosas actividades de divulgação da cultura científica e o seu labor, apesar dos tempos de pandemia, tem-se mantido muito viva, dirigindo-se a vários públicos, incluindo uma ampla colaboração com escolas de todo o tipo. Destaco a parceria da Universidade de Coimbra, no quadro da Escola Ciência Viva, com o município de Cantanhede, uma iniciativa consolidada que está a decorrer esta semana, tal como nas anteriores e vai decorrer nas próximas. 

Abriu hoje a exposição Posters com Ciência, uma exposição que resultou de uma colaboração entre o Centro Ciência Viva do Lousal - Mina de Ciência e o artista gráfico Edgar Ascensão e que propõe, cruzar o olhar único da arte com as grandes conquistas da ciência. Neste trabalho, para cada filme foi escolhido um acontecimento científico, contemporâneo com a mesma data, ao longo de sete décadas, mostrando o modo como a arte pode imitar a realidade e vice-versa. Desde O Marciano, passando por Parque Jurássico até A Guerra das Estrelas, são cerca de 25 filmes que contam uma história ímpar do conhecimento e desenvolvimento tecnológico. Cada poster, é uma visão acrescida ao mundo da sétima arte. Edgar Ascensão, licenciado em Artes da Imagem e repórter de imagem na SIC, encontrou no desenho de posters alternativos um modo de exprimir o seu amor pelo cinema. Tem um blogue e uma plataforma online onde publica os seus trabalhos, muitos dos quais já com reconhecimento mundial. 

Hoje, e porque o dia 24 de Novembro é o dia de Darwin -  o seu livro a Origem das Espécies foi publicado em 24 de Novembro de 1859, em Londres, pretendemos homenagear  um naturalista notável, o professor Nuno Miguel Ferrand, da Universidade do Porto. Ele é hoje o nosso convidado especial, indo brindar-nos com uma palestra intitulada “Reflexões de um Naturalista na era da genómica.” Depois, com um magusto no intervalo, terá lugar a palestra “Desenhar no Escuro” pelo artista António Jorge Gonçalves a que se seguirá o debate “Ciência e Arte”, moderado por mim próprio. 

O Professor Doutor Nuno Miguel dos Santos Ferrand de Almeida (Ferrand de Almeida é aliás um nome bem conhecidos em Coimbra, de académicos ilustres) é Coordenador Científico do CIBIO-Inbio,  Centro de Investigação em Biodiversidade e Recursos Genéticos, situado em Vairão, perto do Porto. ´É Professor Catedrático do Departamento de Biologia da Faculdade de Ciências da Universidade do Porto, onde lecciona genética e evolução. Ferrand interessa-se por biologia evolutiva, particularmente por padrões de diversidade genética de populações naturais, ecologia, conservação, domesticação e especiação. Tem desenvolvido numerosos projectos de investigação nestas áreas utilizando o coelho como principal espécie modelo. Ele já aqui nos encantou uma vez com a história dos coelhos de Porto Santo, sobre a qual ele poderá contar mais, porque como todas as boas histórias de ciência esta é uma história em evolução. Também estudou a evolução de muitas espécies de anfíbios e répteis na Península Ibérica e no Norte da África. Alcançou há pouco tempo o maior financiamento da investigação portuguesa, num concurso europeu: no total são quase cem milhões de euros. Esse financiamento permitirá dar escala internacional à investigação sobre biodiversidae e genómica que se faz em Portugal.

Ferrand publicou mais de 150 artigos, nomeadamente na Science, Nature Genetics, Molecular Biology and Evolution, PloS Genetics, Evolution, Biological Journal of the Linnean Society, Genetics, Molecular Ecology, Molecular Phylogenetics, e Evolution Heredity. Repare-se que h´+a aqui títulos de primeira linha, como a Science e a Nature. É autor de três livros e de onze capítulos de livros, e editor de quatro. É o Director do Programa de Doutoramento em Biodiversidade, Genética e Evolução organizado pelas Universidades do Porto e de Lisboa, financiado pela FCT. Orientou 19 teses de doutoramento, 21 teses de mestrado e 15 pós-doutorados. Actualmente, orienta 4 alunos de doutoramento e 11 pós-doutorandos. 

Mas quero também enfatizar o seu trabalho como Director do Museu de História Natural e Ciências da Universidade do Porto, onde tem liderado uma profunda reestruturação para a criação de um novo museu focado numa filosofia museográfica inovadora. Organizou aí várias exposições, incluindo a a muito concorrida «Evolução de Darwin», que tive a oportunidade de apreciar aquando da inauguração. Depois disso gostei sempre de volta à Casa Andresen, onde a par de uma mostra permanente onde se cruzam ciência e arte de um modo muito original, há sempre novidades, desde exposições da National Geographic até palestras e concertos. Louvo, em particular, a colecção de livros que tem feito sair, alguns deles do famoso naturalista britânico Desmond Morris. E louvo também o facto de ter conseguido trazer para Portugal a biblioteca e arquivo desse autor.  Neste momento, um dos projectos a que dedica mais atenção é a do pólo da Reitoria do Museu da Ciência da Universidade do Porto, que é um modelo de respeito pelo património e sua valorização. A Universidade de Coimbra bem pode aprender com exemplos como esse. E há ainda um belo projecto que valoriza o Aquário Dr. Augusto Nobre, na foz do Porto.

O Nuno sabe, tal como Rómulo-Gedeão, que «o sonho comanda a vida» e que «sempre que o homem sonha o mundo pula e avança». Conheço-o há muitos anos. Tendo trabalhado com ele no âmbito da Fundação Francisco Manuel dos Santos  (FFMS) conheço bem as suas capacidades do que podemos chamar   empreendedorismo científico. Pedi-lhe uma vez para organizar um projecto que produzisse  um relatório sobre o estado da ciência em Portugal ele, ao fim de algum tempo, completou um extraordinário trabalho, cujo resultado está à disposição de todos no site da FFMS. É o maior e melhor retrato até hoje realizado sobre a ciência em Portugal. Seria bom que os nossos gestores planeassem a nossa ciência com base em informação tão rica e pormenorizada como essa.

Eterno insatisfeito e sempre optimista e  generoso para com os outros, o Nuno tem sempre procurado fazer mais e melhor. Ainda há pouco tive conhecimento directo do seu projeto em Mértola com o estabelecimento de um novo polo científico num antigo silo cerealífero, bem no centro do  Parque Natural de Mértola, que será também de um novo espaço museológico e artístico. É uma iniciativa absolutamente notável que valorizara uma vila e uma região do interior profundo, que o poder central tem ignorado. Verifiquei, ao vivo, a sua alegria quando encontrava pássaros do qual sabia os nomes  e a sua ânsia quando procurava, no meio de um montado, a árvore mais bonita de Portugal. Sei que ele também tem outro projecto muito interessante em Arco de Valdevez, na Serra do Gerês. Assim os laboratórios do CIBIO cobrirão quer o norte atlântico quer o sul mediterrânico, tanto a grande pluviosidade como a grande seca.

Ele é também um cientista no mundo, uma espécie de David Attenborough português, só lhe faltando as câmaras de televisão atrás. Tem andado por África, sendo notável o seu trabalho de ajuda no campo da ciência  à comunidade de povos de língua portuguesa. Sendo o mundo  hoje global,  o Nuno tinha de ser cientista global. De facto, já andou com câmaras atrasos: o documentário «Viagens Filosóficas» passou na televisão e foi distribuído com o Público. Mas, na minha opinião, a televisão portuguesa poderia fazer muito mais pela ciência.

O RÓMULO - Centro Ciência Viva da Universidade de Coimbra presta hoje, no Dia Nacional da Cultura Científica, uma homenagem a um dos melhores cientistas portugueses e também a um dos nossos melhores comunicadores de ciência. Sei que ele tem recebido outras distinções, das quais a m ais recente é a de membro da Legião de Honra concedida pelo  governo francês, mas espero que o Nuno Ferrand aceite adicionar a essas esta modesta homenagem do RÓMULO, que mais não é do que  a expressão do nosso reconhecimento e do nosso afecto. 

Muito obrigado, Nuno, por todo o teu trabalho e pela tua presença hoje aqui no RÒMULO, no dia do Rómulo de Carvalho, para o partilhares connosco!

CENTENÁRIOS


Novo texto de Eugénio Lisboa (na foto Carlos de Oliveira, o grande escritor nascido há 100 anos):

Recordar: Do latim “re-cordis”.

voltar a passar pelo coração.

Eduardo Galeano

 

O que foi perdido pode, entretanto,

                                                                                                               viver na nossa memória.

Christopher Paolini, EREGON

 

Notámos já, neste mesmo espaço, a gulosa precipitação com que se está a começar a celebrar um centenário que só se consuma de aqui a um ano. Provincianamente, pomos os trunfos todos no cesto de um Prémio Nobel, idolatrando, deslumbrados, como selvagens, um ídolo com pés de barro: o galardão sueco, alvo de uma luta parola em que, durante anos, se engalfinharam dois escritores portugueses. Para gáudio e alimento de uma comunicação social que tanto alento tem dado à fofoquice, mesmo pacóvia.

Entretanto, ignorou-se quase por completo e, em muitos casos, por completo, centenários que passam neste ano quase findo, de figuras da nossa cultura, com notoriedade suficiente para serem lembradas, nem que fosse discretamente. A idade intelectualmente adulta de um povo mede-se também pela sua capacidade de não esquecer quem, com muita dignidade, contribuiu para acrescentar o nosso património cultural. As envergonhadamente discretíssimas sinalizações que tiveram lugar dentro dos muros de uma ou outra universidade nada têm que ver com uma chamada a público nos grandes periódicos de referência ou mesmo nas televisões. Lembrarei, por ordem cronológica, alguns nomes que teria sido bonito não esquecer, fugindo àquele jogo muito mundano e radical, que consiste em afirmar que, num século, só ficarão dois ou três nomes. É muito “chic” dizê-lo, mas até não costuma ser verdade. Como disse, num ou noutro caso, o nome aqui lembrado teve um aceno envergonhado e quase pedindo desculpa, mas o público, em geral, não deu por nada.

1) – MÁRIO BRAGA (1921 – 2016) – Foi Director-Geral da Secretaria de Estado da Comunicação Social, Membro do Conselho Consultivo das Bibliotecas Itinerantes da Fundação Gulbenkian. Foi dramaturgo e, sobretudo, um apreciadíssimo contista, autor, por exemplo, destas colectâneas: SERRANOS, QUATRO REIS, LIVRO DAS SOMBRAS, CORPO AUSENTE. Como Director-Geral da Secretaria de Estado da Comunicação social, fez, no início da nossa democracia, um porfiadíssimo trabalho, propiciando aos promotores da nossa diplomacia cultural, inestimáveis ferramentas.

2) – JORGE BORGES DE MACEDO (1921 – 1996) – Historiador e Professor, deixou vasta e importante bibliografia. Só alguns poucos títulos: A SITUAÇÃO ECONÓMICA NO TEMPO  DE POMBAL (1951); HISTÓRIA DIPLOMÁTICA PORTUGUESA. CONSTANTES E LINHAS DE FORÇA. ESTUDO DE GEOPOLÍTICA; OS LUSÍADAS E A HISTÓRA; CONSTANTES DA HISTÓRIA DE PORTUGAL.

3) – LEONEL NEVES (1921 – 1996) – Meteorologista e escritor, discretíssimo e não frequentador da feira literária, deixou-nos belíssimas adições ao nosso cânone lírico: JANELA ABERTA (1940); NATURAL DO ALGARVE (1968); ONTEM À NOITE (1989); MEMÓRIA DE TIMOR-LESTE (1990). Deixou também livros para crianças e para jovens. Como poeta, merece bem ser lembrado, pela autenticidade de uma fina sensibilidade veiculada por uma notável oficina poética.

4) AMÉRICO DA COSTA RAMALHO (1921 – 2013) – Grande humanista, distinguiu-se como latinista, helenista e lusitanista. Foi Professor Catedrático da Universidade de Coimbra. Deixou uma vasta e importante bibliografia, de que assinalamos apenas alguns títulos: ALGUNS ASPECTOS DO CÓMICO VICENTINO (1973); ESTUDOS SOBRE O SÉCULO XVI (1980); ALGUNS ASPECTOS DA LEITURA CAMONEANA DE VIRGÍLIO (1986); ESTUDOS SOBRE A ÉPOCA DO REBASCIMENTO (1987); PARA A FISTÓRIA DO HUMANISMO EM PORTUGAL (1988); CAMÕES   NO SEU TEMPO E NO NOSSO (1992); LATIM RENASCENTISTA EM PORTUGAL (1994).

5) VÍTOR DE SÁ (1921 – 2004) – Foi historiador, Professor universitário e activista político contra o Estado Novo, de formação marxista. Doutorou-se em Paris, na Sorbonne, em 1969, com uma tese sobre A CRISE DO LIBERALISMO E AS PRIMEIRAS MANIFESTAÇÕES DAS IDEIAS SOCIALISTAS.

6) ARQUIMESES DA SILVA SANTOS (1921 - 2019) – Figura importante do movimento neorrealista, formou-se em medicina, fez o curso de Ciências Pedagógicas e especializou-se em neuropsiquiatria infantil. Obras: POESIA: VOZ VELADA (1958); CANTOS CATIVOS (1967), ENSAIO CIENTÍFICO:  LE VOL CHEZ LE GARÇON: CONTRIBUTION À L’ÉTUDEDE LA DÉLINQUANCE JUVÉNILE, Paris (1963).

7) ANTUNES DA SILVA (1921 – 1997) – Nasceu e faleceu em Évora. Escritor neorrealista, deixou várias obras, entre as quais: VILA ADORMECIDA (1948); O APRENDIZ DE LADRÃO (1954); O AMIGO DAS TEMPESTADES (1958); SUÃO (1960); DIÁRIO I (1987); DIÁRIO II (1990).

8) ERNESTO DE SOUSA (1921 – 1988) - Fotógrafo, cineasta, crítico de arte, foi fundador do movimento cineclubista. Foi, com o filme DOM ROBERTO (1962), um dos fundadores do chamado NOVO CINEMA.

9) NEVES E SOUSA (1021 – 1995) – Poeta e pintor português, foi muito cedo viver para Angola, de onde só saiu para o Brasil, em 1975. A sua obra reflecte muito a temática africana, tendo-se tornado conhecidas as suas abundantes QUEIMADAS. POESIA: MOTIVOS ANGOLANOS (1946); MOHAMBA.

10) FRANCISCO JOSÉ TENREIRO (1921 – 1963) – Poeta e geógrafo. Foi aluno excepcional do Professor Orlando Ribeiro, que o estimulou a doutorar-se com uma dissertação sobre a Ilha de S. Tomé, de onde era original e onde veio a falecer. POESIA: ILHA DO NOME SANTO (1942); CORAÇÂO EM ÁFRICA (1962).

11) CARLOS DE OLIVEIRA (1921 – 1971) – Ligado inicialmente ao neorrealismo, este escritor notabilizou-se na poesia e na ficção. Nesta última, com o romance FINISTERRA (1978), desviar-se-ia determinadamente do protocolo neorrealista, visando, malavisadamente, um público universitário, mais interessado, frequentemente, em “estudar” obras do que em fruí-las. O romance é de uma opacidade visada, conseguida e desnecessária. Mas deixou um acervo de romances notáveis: CASA NA DUNA (1943); ALCATEIA (1944); PEQUENOS BURGUESES (1948); UMA ABELHA NA CHUVA (1953). POESIA: MÃE POBRE (1945); COLHEITA PERDIDA (1948); TERRA HARMONIOSA (1960); CANTATA (1960); MICROPAISAGEM (1968); SOBRE O OMBRO ESQUERDO (1968); ENTRE DUAS MEMÓRIAS (1971); PASTORAL (1977).

12) NATÁLIA NUNES (1921 – 2018) – Notável romancista, feminista e corajosa antifascista, esta lindíssima mulher foi casada com o poeta António Gedeão e deixou-nos, entre outras, as seguintes obras, nas áreas do memorialismo e da ficção: AUTOBIOGRAFIA DE UMA MULHER ROMÂNTICA (1955); A MOSCA VERDE E OUTROS CONTOS (1957); ASSEMBLEIA DE MULHERES (1964); O CASO ZULMIRA L. (1967); AS VELHAS SENHORAS E OUTROS CONTOS (1992).

Eugénio Lisboa

 

A floresta e a cultura


COMENTÁRIO DE: CARLOS FIOLHAIS EM FLORESTAS.PT

Quando penso em florestas, para além evidentemente de pensar em  ambiente e em saúde, penso também em cultura. Exponho aqui a  relação entre floresta e cultura. [AM2] .

 A relação entre a floresta e a cultura nem sempre é reconhecida, mas ela é inequívoca. Começo por recordar o astrofísico norte-americano Carl Sagan, um dos maiores divulgadores de ciência de sempre, que escreveu no capítulo “A Persistência da Memória" do seu livro Cosmos, publicado no original em 1982 (Gradiva, 2001): “O livro é feito de uma árvore. É um conjunto de partes lisas e flexíveis (ainda chamadas folhas) impressas em caracteres de pigmentação escura. Dá-se uma vista de olhos e ouve-se a voz de outra pessoa, talvez alguém que já tenha morrido há milhares de anos. Através dos milénios, o autor está a falar, clara e silenciosamente, dentro da nossa cabeça, directamente para nós. A escrita foi talvez a maior das invenções humanas, ligando as pessoas, cidadãos de épocas distantes que nunca se conheceram. Os livros quebram as cadeias do tempo, provam que os seres humanos são capazes de exercer magia.”

É, de facto, verdade: quando leio o Cosmos estou a ligar-me a um físico já falecido, oficial do meu ofício que deixou de o exercer. Mas a sua mensagem passou inteiramente para mim.


Quando penso em árvores, penso na possibilidade de delas surgirem livros e na capacidade prodigiosa que esse meio tem de ligar seres humanos de todos os tempos da história. Uma árvore dá, de facto,  mais do que um livro. Usando as ordens de grandeza de que os físicos tanto gostam corresponde a cerca de cem livros. Dez árvores dão uma edição de mil exemplares e mil árvores dão uma edição de dez mil exemplares: um best-seller entre nós, nos tempos que correm.

Poder-se-ia pensar que os livros – e o papel em geral, porque há também as revistas e os jornais, para não falar já nos cadernos onde gostamos de escrever – são inimigos das florestas e da Natureza. Nada de mais falso: em primeiro lugar, o papel não se faz a partir da Natureza selvagem, mas a partir de árvores que são plantadas precisamente com esse fim. O tempo médio de uma árvore antes de se converter em livro varia entre dez e vinte anos e essas plantações são permanentemente renovadas. Colhe-se e semeia-se logo a seguir. Além disso, os valores atrás indicados pecam por excesso uma vez que não incluem a recomendável reciclagem, que pode ser feita cerca de uma meia dúzia de vezes. A reciclagem, que tem obviamente custos, é mais viável nas revistas, nos jornais e no papel usado do que nos livros, os quais têm em geral leitores que os guardam.

Não falta quem pense que os livros electrónicos vieram para substituir os livros em papel, com vantagens ecológicas. Apesar do rápido avanço desse tipo de livros quando a sua comercialização se iniciou, ele cessou nos últimos anos: o Amazon Kindle, surgido em 2007, prometia uma revolução, mas, passados mais de dez anos, ela não aconteceu na medida do que se previa: os ebooks só constituem 20 por cento das vendas, continuando a grande maioria dos livros a ser em papel.

Os jovens usam constantemente o telemóvel não só para chamadas como também para participarem em redes sociais e para jogos, mas não para lerem livros. Os que os lêem, por exemplo as obras de J. K. Rowling e de John Green, ainda os lêem em papel. Estou convencido que esse formato nunca será substituído, uma vez que um livro é um objecto afectivo com o design perfeito para as funções que cumpre. Falta também provar que a renovação dos aparelhos electrónicos assegura aos ebooks a mesma duração que tem tido o livro em papel (vários séculos!) e ainda que a substituição do material eléctrico e electrónico não origina problemas ambientais.

Portugal tem uma impressionante mancha florestal com conhecidos problemas, que vão desde a ameaça pelos incêndios, que as mudanças climáticas favorecem, até às dificuldades de gestão associadas à repartição por inúmeros proprietários privados, muitos deles sem dar às terras a necessária atenção. As florestas de produção, apenas em parte para o fabrico de papel, têm entre nós um problema de imagem, porque muita gente, a maior parte residente nos centros urbanos, não conhece bem a realidade florestal, e também porque alguma gente não se apercebe da relação estreita entre as árvores, o papel, os livros e, em geral, a cultura.

Cultivar floretas é, portanto, ajudar a fazer cultura. A palavra “cultura”, do latim “culturae”, tem a ver com “tratar”, “cuidar”. “acarinhar”. Originalmente o conceito era tratar as plantas: desenvolver trabalhos agrícolas. Mas depois ele foi transferido para o cuidado com as pessoas: desenvolver capacidades intelectuais nos seres humanos desde a mais tenra idade. Parece-me claro não só que as duas aplicações do conceito são compatíveis – a origem é afinal comum  – , mas também que estão muito mais perto do que normalmente se julga. Não há cultura sem livros, não há livros sem papel e não há papel sem árvores.  A cultura e a silvicultura podem caminhar a par, sendo naturalmente preciso que a silvicultura seja sustentável. A chave será sempre plantar e cuidar.

A respeito do plantio de árvores, é curioso referir que uma das obras pioneiras em Portugal foi escrita pelo brasileiro José Bonifácio de Andrada e Silva: Memória sobre a necessidade e utilidade do plantio de novos bosques, particularmente os pinhais nos areais de beira-mar; e seu método de sementeira, costeação e administração (Tipografia da Academia Real das Ciências de Lisboa, 1815). Nesse livro, o professor da Universidade de Coimbra fala várias vezes da “economia da Natureza”, que é o significado de  “ecologia”, o   neologismo que o naturalista alemão Ernest Haeckel introduziria 51 anos depois. Haeckel nunca terá imaginado que a palavra que criou viria a ter tão ampla difusão.

Se sei estas coisas é porque elas estão nos livros. Volto a Carl Sagan, que um pouco mais adiante no mesmo capítulo de Cosmos, escreveu:

“Os livros permitem-nos viajar através do tempo, beber na própria fonte o saber dos nossos antepassados. A biblioteca põe-nos em contacto com as concepções e o saber, a custo extraídos da natureza, das maiores mentes até agora existentes, com os melhores professores, provindos de todo o planeta e de toda a nossa história, para nos instruírem sem nos fatigarem e para nos inspirarem a dar nossa contribuição ao saber colectivo da espécie humana. As bibliotecas públicas dependem de contribuições voluntárias. Considero que a saúde da nossa civilização, a profundidade da percepção que temos das bases de apoio à nossa cultura e o nosso cuidado relativamente ao futuro podem ser medidos pelo tipo de apoio que damos às nossas bibliotecas.”

Eu não diria melhor do que Sagan escreveu em papel e depois sofisticadas máquinas rotativas gravaram ainda em papel para, ficando nas bibliotecas, chegar até nós e aos séculos vindouros.

 


"UM INDIVÍDUO VULGAR"

“De repente as portas abrem-se e vemos um homem patético, simples, pequeno, igual a qualquer um, não tinha chifres, nada. E este homem tinha...