domingo, 7 de setembro de 2014

PEDRAS DISTO, DAQUILO E DE MAIS ALGUMA COISA (3)

(Texto em continuação de dois que podem ser encontrados aqui).


Diamantes 
Conhecidas de um tempo antigo, em que, como se disse atrás, não se distinguiam os minerais das rochas, as pedras preciosas (diamante, safira, rubi, esmeralda e a pérola) e as que, comparativa e popularmente, se designavam por pedras semipreciosas (turmalinas, granadas, ametista, topázio e muitíssimas outras), são hoje, todas elas, referidas por pedras preciosas ou gemas. Gema é um termo que, na Antiguidade latina, Plínio, o Velho (23-79 d.C.) usou no mesmo sentido e que Camões lhe alude, no canto VII dos Lusíadas, sendo, ao que se julga, a primeira vez que, entre nós, a palavra foi usada neste contexto.

No domínio gemológico são várias as expressões comerciais.

A pedra-da-lua é uma variedade de adulária, cujo brilho característico ou (adularescência), em tons de branco, é devido a interferências da luz causadas pela geminação própria deste feldspato potássico.
A pedra-do-sol é uma variedade de oligoclase (plagioclase) com aventurescência, nome do efeito óptico de reflexão provocado, nesta pedra, por inúmeras e pequenas inclusões de mica.

A pedra-canela é uma hessonite, uma variedade de grossulária (granada) de cor laranja.

Pedra-do-céu e pedra-das-estrelas são dois nomes comerciais da aventurina, uma variedade de quartzito com inclusões de minúsculas palhetas de fuchsite (uma mica que lhe confere cor verde) ou de hematite, responsável pela variedade vermelhada. Tal profusão é a causa da citada aventurescência, característica destas pedras.

A pedra de aspargus é uma variedade de apatite fibrosa, verde, oriunda da província de Múrcia (Espanha), usada na manufactura de objectos decorativos.

A pedra-paisagem refere a generalidade de materiais gemológicos (certas variedades de ágata, mármore e arenito fino) cuja textura lembra uma paisagem.

A pedra-zebra é uma rocha bandada, branca e negra, essencialmente composta por anfíbola e feldspato, procedente do Arizona (EUA);é ainda, uma outra rocha, igualmente bandada, vermelho-escura e branca, essencialmente composta por quartzo, sericite (mica) e hematite procedente de Kimberley, na África do Sul.

No jargão gemológico, todas estas gemas são consideradas pedras naturais ou pedras genuínas, dado que resultam de processos geológicos ou biológicos naturais, sem qualquer intervenção do Homem. Para alguns, são ainda pedras finas. Estas expressões sinónimas abarcam as chamadas pedras duras, designação dada à rochas e aos minerais usados no talhe de objectos decorativos. Dizem-se naturais para as distinguir das pedras artificiais e das pedras sintéticas, obtidas em laboratório e industrialmente.

As artificiais são produtos cristalinos, sem correspondente natural, ou seja, cujas composição química e estrutura não se sobrepõem às das gemas naturais conhecidas. São exemplos de pedras artificiais a “granada de gadolínio e gálio” (GGG) e a “granada de ítrio e alumínio” (YAG). As sintéticas são, igualmente, produtos artificiais, mas com a mesma composição química e a mesma estrutura das gemas naturais correspondentes.

É hoje comum o fabrico, entre outras, de diamantes, esmeraldas, rubis e safiras. Ainda no jargão gemológico, fala-se de pedras tratadas, expressão genérica que qualifica quaisquer gemas sujeitas a melhoramento da sua aparência, via de regra, em termos de cor, transparência, brilho e textura. Os gemólogos usam ainda a expressão pedras de cor com que distinguem todas as gemas, com excepção dos diamantes e dos materiais orgânicos.

No domínio da mineralogia ainda se fala de pedra-ume, como sinónimo de alúmen, o sulfato duplo de alumínio e potássio, de fórmula KAl(SO4)2. Dizia-se pedra-íman para referir a magnetite, o óxido de ferro (Fe3O4), com propriedades magnéticas e pedra infernal continua a ser o nome popular do nitrato de prata (AgNo3), usado como cauterizador na eliminação de verrugas e outras tumorações da pele.

Entre os navegadores, ao tempo dos descobrimentos, friccionavam-se as agulhas de ferro com magnetite, para as tornar magnéticas, operação conhecida por "cevar", razão pela qual este mineral tinha o nome de pedra de cevar e era tido por amuleto de boa sorte e pedra de cura de algumas mazelas. No domínio da Pré-história, pedra lascada é a antiga expressão alusiva ao Paleolítico, relacionada com o tipo de indústria lítica iniciada há cerca de 2,5 milhões de anos por lascagem de sílex e outras pedras com fractura conchoidal.

Na mesma nomenclatura, pedra polida aludia ao Neolítico, surgido há pouco mais de 10 000 anos. Esta outra relaciona-se com um tipo de indústria lítica, no qual a pedra era desgastada por abrasão e polida. Paleolítico e Neolítico são as duas idades que integram a chamada Idade da Pedra, a que se seguiu, entre 6000 e 2500 anos a. C., a Idade dos Metais.

Muitos dos achados pré-históricos eram referidos ente as populações portuguesas com pedras de raio ou pedras de trovão e eram colocadas sobre o telhado ou dentro de casa para as defender dos raios durante as trovoadas. Às peças mais pequenas, como pontas de seta e buris, davam o nome de pedra de corisco. As mesmas expressões foram usadas para designar os meteoritos, num tempo em que se desconhecia a origem destas pedras do espaço.

Em termos de saúde humana, o dentista designa por tártaro a popular pedra nos dentes e os médicos falam de litíases biliar e renal quando se referem às enfermidades vulgarmente conhecidas por pedras no fígado e pedras no rim.

Nos cafés e restaurantes põem-se pedras de gelo nos whiskys e nos refrigerantes e, anos atrás, foi costume usar pedras de açúcar, em “quadradinhos”, como adoçante.

Pedra de isqueiro é uma liga de ferro-cério, que solta faíscas quando atritada e pedra de linho é o peso de oito arráteis (um arrátel corresponde a 0,459 kg) de linho espadelado, isto é, batido em cima de um cortiço com uma espadela (espécie de cutelo largo de madeira), de modo a eliminar tudo o que não seja a fibra desejada.

Pedra de tropeço, em sentido real é a pedra do caminho que nos pode fazer cair e, em sentido figurado, é o obstáculo que nos dificulta ou impede a concretização de um projecto ou de uma obra.

Na Igreja Católica a pedra de ara, colocada no centro do altar, serve de base à patena e ao cálice da celebração, a que se juntavam relíquias dos mártires. Pedra do lar era a parte do chão da lareira da cozinha onde se fazia o lume, se cozinhava e em torno da qual se convivia em família e pedra argueireira, hoje uma memória, era uma minúscula pedrinha muito polida, com a qual se procurava retirar um cisco do olho, de entre a córnea e a pálpebra.

Pedra a pedra ou com pedra sobre pedra se edifica uma muralha, ou, em sentido figurado, qualquer obra material ou do intelecto, construída por junção sucessivas dos seus elementos constituintes.

Diz-se pedra assente uma qualquer decisão tomada, põe-se uma pedra sobre o assunto que se pretende esquecer, atira a primeira pedra aquele que pretende dar inicio ao que quer que seja e lança uma pedra no charco aquele que pretende denunciar uma situação menos correcta. Pode-se ser firme como uma pedra ou insensível como uma pedra.

Tem uma pedra no sapato aquele que sofre de um qualquer incómodo ou que tem um problema por resolver, dorme como uma pedra o justo, que tem a consciência tranquila e fala com sete pedras na mão quem tem educação ou motivos para isso.

Sopa de pedra é a história do frade que deu origem à conhecida e apreciada confecção culinária sediada em Almeirim.

Pelos jardins deste nosso país, são muitos os reformados ainda capazes de serem úteis à sociedade, mas que perdem o tempo “comendo” e “perdendo” pedras no tabuleiro das damas ou acertando as pintas das pedras do dominó, enquanto em suas casas, as mulheres, trabalhadoras que nunca gozaram férias e nunca se reformam, de pedras só conhecem a pedra de sabão sempre em uso no tanque da roupa, a pedra-lioz do lava-loiça, as do chão da cozinha e as dos degraus das escadas que varrem e lavam todos os dias.
Galopim de Carvalho

O educador errado

Sobre o desdém com que o ministro da Educação e Ciência (MEC) tratou os professores aflitos que se dirigiram ao Centro de Emprego no início do ano lectivo, dada a falta de notícias do MEC,  trancrevo o artigo de opinião de Fernando Sobral no "Jornal de Negócios" de 4/9/2014:

Nuno Crato é ministro no tempo e no lugar errado. É o ministro errado. A sua felicidade teria sido suprema se tivesse o poder durante a Revolução Cultural chinesa. Aí poderia ter-se tornado o pequeno ou médio educador de todo um povo. Sem o perigo de alguém levantar a voz contra a sua clarividência. Lamentavelmente materializou no penoso Ministério da Educação. 

Está a fazer agora o seu pequeno livro vermelho da educação. Depois dele sobrará o caos. O seu grande objectivo foi, desde o início, tomar os professores os alvos de todas as culpas do sistema. Não precisam de se confessar em público. O ministro humilha-os todos os anos, tornando a sua vida uma canga. O supremo momento de pequeno educador foi visível nas suas últimas declarações. "Qualquer pessoa tem 90 dias para se apresentar num centro de emprego, não precisa ir no primeiro dia em que suspeita que pode vir a ficar sem emprego". Sentado no seu confortável emprego, para Nuno Crato é irrelevante pedir o subsídio de desemprego hoje ou daqui a três meses, mesmo sabendo que este será pago a partir do dia em que é pedido. 

Como as colocações não foram conhecidas a 1 de Setembro, é compreensível o pânico. Mas essa sempre foi a política de Crato e do Governo: gerir no meio do caos que instala. Sabe-se qual é a política de Crato para destruir o ensino público (indo o privado pelo mesmo caminho). Para ele, o ensino não é um serviço público. Por isso deve ser ligeiramente regulado, seguindo o princípio da necessidade dos consumidores e da escolha dos estudantes. Assim as escolas providenciam um serviço e os estudantes são consumidores. A qualidade é determinada pela "satisfação" destes e dos seus pais. Ou seja, para ele, a educação não tem de ter um papel cultural para formar pessoas numa sociedade. E um produto económico, com um valor, e que se coloca no mercado em da "satisfação" do cliente. Assim sendo, para o pequeno educador, os professores são os últimos da cadeia 

Fernando Sobraql

sábado, 6 de setembro de 2014

Escolas - 1

Sabemos bem o que é a escola?
Sim, claro! Todos andámos pelo menos numa; levamos os filhos, os netos lá; já passámos por muitas e passámos a porta de algumas...
Alguns de nós entraram na escola e nunca mais de lá saíram: nelas está uma grande parte da sua vida.

É o meu caso.
E estudando eu, desde há muito, pedagogia, pensava ter uma ideia razoável do que é a escola.

Mas, percebi que a minha ideia era (ou é) menos do que razoável com a arte da fotografia, a que, recentemente, comecei a dar atenção.

Principiei por obras recentes.

A de Sebastião Salgado foi a primeira a que dei atenção.

Um livro saído em 2005 com setenta e três fotografias de Salgado e outros tantos textos de Cristovam Buarque. O título é O Berço da Desigualdade, a publicação é da Unesco/Fundação Santillana.

“Essas fotos refletem a esperança e a alegria das crianças de todas as culturas, em face do poder de transformação próprio da educação, e os textos que as acompanham contribuem para a necessária reflexão, que cada um de nós deve fazer a respeito da dimensão ética da educação em nosso mundo contemporâneo”, disse Koïchiro Matsuura, à altura Diretor-Geral da Unesco.

Não li ainda os textos, ficam para depois, mas vi as fotografias, uma agora, outra logo... e, sim, Matsuura tem razão: há nelas uma esperança e uma alegria, mas também uma atenção, um querer...

A escola pode não ter paredes, nem bancos, nem quadro, pode não haver papel; os alunos e os professores podem quase não ter roupa, mas estão ali... alunos e professores, nesse encontro que é, afinal, a escola.

A CRISE DO ENSINO EM PORTUGAL E NA SUÉCIA

"Fiquei aterrado: ensinar!" - Eça de Queiroz.

Começo por transcrever um pequeno excerto de um artigo publicado hoje:
Jonas Sjöstedt, líder do Partido da Esquerda da Suécia, e potencial parceiro de coligação num futuro governo de centro-esquerda,  resume a decepção da opinião pública sueca: ‘Os suecos acreditavam que a desregulação era a solução para tudo, da gestão dos caminhos-de-ferro à educação dos filhos, mas isso acabou. Há partes da nossa vida que o mercado não pode preencher’. E aponta o dedo às organizações com fins lucrativos, considerando-as responsáveis pela crise que se abateu sobre o país – a que os suecos chamam ‘o choque de Pisa’. «Não estão nisto por gostarem dos miúdos ou por estarem interessados na educação. Estão nisto porque querem fazer dinheiro rapidamente» (Diário Económico, 06/09/2012).
Este statu quo  torna actual um post por mim aqui publicado, intitulado:  “ENSINO OFICIAL, ENSINO CONVENCIONADO E ENSINO PRIVADO” (10/11/2012).Pela analogia entre as situações de crise do ensino privado na  Suécia e em Portugal (pago com o dinheiro dos contribuintes), sem mais delongas, transcrevo esse meu post, até porque, como escreveu Pitigrilli, “tudo deve ser discutido; sobre isso não há discussão possível”:

"Perante uma aparente apatia de escolas oficiais confrontadas com a acção concertada do ensino privado com contrato de associação (para o qual a lei estabelece condições que nem sempre são cumpridas), estão grande número daquelas escolas do país transformadas em verdadeiros elefantes brancos com instalações luxuosas carenciadas de alunos e com professores com horários zero que fazem pairar nuvens negras sobre o seu presente e futuro.

Mas será que se tornou tabu discutir esta temática com todos aqueles que o deviam fazer e o não fazem? Ou seja, uns tantos políticos, ou até mesmo, professores das actuais escolas secundárias oficiais parecem esquecidos do papel heróico e digno de personalidades que deram um estatuto de grande qualidade e honorabilidade a antigos liceus de que se tornaram herdeiros directos. Como, por exemplo, no caso do Liceu Pedro Nunes de Lisboa, professores como Rómulo de Carvalho e alunos como o actual Ministro da Educação, Nuno Crato [perante a má prestação ministerial de Nuno Crato, abro um parêntesis para me referir, apenas ao seu perfil científico], e tantas outras e ilustres personalidades nele docentes ou cursadas, difíceis de nomear pelo seu elevado número, pontificam em numerosos aspectos científicos, culturais  e artísticos da sociedade portuguesa.

Apesar deste statu quo, ainda há escolas oficiais que tudo fazem para sobreviver à tona de água da verdadeira mediocridade que infestou o ensino em Portugal. Casos de sucesso dos ensinos oficial, privado e convencionado minimizam essa mediocridade. Como mero exemplo, ditado pela posição de destaque ocupada no ranking nacional de escolas oficiais em função da média das notas de exames nacionais do 12.º ano, o caso da Escola Secundária Infanta D. Maria, de Coimbra. Sem esquecer, e muito menos desconsiderar, outras escolas das margens do Mondego, ou de outras partes do território nacional, sob a tutela directa do Estado.

Tomando para mim uma citação de Edgar Morin, faço o seguinte apelo: “Peço que me ataquem frontalmente, me julguem pelas minhas ideias e não por aquilo que queriam que fossem as minhas ideias”. Isto é, a minha defesa em prol das escolas oficiais não significa, de forma alguma, um ataque às escolas privadas convencionadas. A cada uma delas o seu papel específico para não se tornarem as escolas públicas numa espécie de vazadouro de alunos que por elas optam como última escolha e não como eleição deliberada de tempos gloriosos na memória colectiva dos portugueses.

Mas grande parte desta polémica, que está longe de ter chegado ao fim, reduz-se a uma coisa tão simples como esta: dever ser o ensino privado com contrato de associação uma alternativa ao ensino público inexistente numa determinada área e não mera satisfação megalómana de carteiras familiares pouco abonadas que gostam de blasonar terem os filhos a estudar em colégios. Em plena época de grave crise económica, promover  uma situação de favor para com o ensino privado subsidiado, poderá ser uma forma de transformar o ensino privado sem apoios do Estado num barco em perigo de se afundar por, em nome da sua independência, dispensar quaisquer formas de subsídios. Salvo melhor opinião, reduzir esta questão ao binário ensino oficial/ensino privado convencionado poderá ter como consequência ferir de morte os colégios independentes dos dinheiros públicos. Alíás, estabelecimentos de ensino com uma longa e valorosa  tradição  no panorama do ensino nacional.

Contrariando um exagerado pessimismo da alma lusitana, de que receio me ter feito intérprete, Almada Negreiros deixou-nos lampejos de esperança: “Os dias terríveis são, afinal, as vésperas dos dias admiráveis”.


Mas que cheguem rapidamente esses dias admiráveis em benefício da sociedade portuguesa fustigada por ventos constantes de mudança do sistema educativo que em nada ajudam o equilíbrio emocional da sua juventude e prejudicam o seu rendimento escolar!"

Os factos são estes (e como se costuma dizer, contra factos não há argumentos). Cabe, todavia, ao leitor extrair da matéria factual as devida ilacções. Quanto ao Governo, deste extremo ocidental europeu, deve ser exigido que acabe com experiências em que os alunos são verdadeiras cobaias e os professores uma revivência dos escravos gregos ao serviço dos governantes de Roma. Ademais se, a exemplo da crítica mordaz de Oscar Wilde, essas experiências tomarem o nome que damos aos erros que cometemos!

FTE, produtividade científica e quotas

Recebemos do Director da Faculdade de Ciências e Tecnologia da Universidade de  Coimbra este texto, onde se aponta o dedo a mais um ERRO monumental da FCT que, se houvesse seriedade, devia ter consequências numa reavaliação:

Não obstante os indícios que têm sido apresentados em contrário, a FCT tem mantido a posição de que não existem quotas no processo de avaliação. Se tal é correto, a decisão por parte dos painéis de excluir metade das unidades de investigação a concurso baseia-se estritamente numa avaliação de mérito absoluto, entendendo que estas não cumprem os critérios de qualidade mínimos que são exigíveis em atividade de investigação com nível internacional. Numa avaliação deste tipo é normal que assuma algum relevo a produtividade científica passada, normalizada em função da dimensão das unidades, o que permite apurar indicadores verdadeiramente comparativos com padrões internacionais. Embora tardiamente, após a avaliação preliminar por três referees e a subsequente fase de rebuttal, a FCT pareceu caminhar neste sentido ao disponibilizar um estudo bibliométrico encomendado à Elsevier. Neste estudo constava um fator de normalização designado por FTE (full time equivalent) researchers, a partir do qual eram calculados elementos relevantes como o número médio de publicações e de citações por investigador, com valores globais e por percentis função da qualidade das revistas.

Sendo o conceito de FTE intuitivo e óbvio, foi algo estranho verificar que o cálculo dos valores reportados pela FCT não era suscetível de ser reproduzido por engenharia inversa, sendo os valores superiores ao número de membros integrados mas não correspondendo à soma destes com colaboradores, bolseiros, estudantes de doutoramento ou de combinações de diferentes grupos. Na impossibilidade de compreender os valores de FTE, foram pedidos esclarecimentos à FCT, sem resposta imediata, tendo entretanto sido recebidos os resultados da fase seguinte da avaliação com a atribuição da classificação final harmonizada pelos painéis de avaliação. Estes painéis tiveram seguramente acesso ao estudo bibliométrico, pois em muitos casos nos relatórios das unidades são referidas as taxas de publicação e citação normalizadas resultantes daquele estudo (ainda que por vezes com discrepâncias incompreensíveis num processo que se pretende rigoroso). Na impossibilidade de compreender os dados, a generalidade das unidades não terá sequer comentado os valores de produção científica que lhe foram atribuídos no rebuttal à proposta de classificação harmonizada.

Em momento incerto, mas que tudo indica muito recente e posterior à atribuição das classificações harmonizadas e ao subsequente rebuttal das unidades (finais de agosto?), verifica-se que a FCT republicou no seu site o estudo bibliométrico da Elsevier com correção dos valores de FTE. Esta correção é igual em praticamente todas as unidades e consiste numa simples divisão dos valores anteriores por 2. Não sendo percetível a origem do erro na primeira versão do estudo, é certo que os novos valores são agora consonantes com o esperado – soma das percentagens de tempo dedicadas à unidade por cada um dos seus membros integrados. Esta correção, efetuada num momento já adiantado do processo de avaliação e certamente da responsabilidade da FCT e não da Elsevier, tem uma consequência dramática nos resultados do estudo bibliométrico, duplicando a produtividade per capita das unidades em fatores relevantes como o número de publicações e de citações!

Num processo de avaliação sem quotas, certamente que os valores de produtividade corrigidos são um elemento muito importante que deveria ser de novo reapreciado pelos painéis, uma vez que colocam a ciência portuguesa num patamar de mérito absoluto muito superior ao que foi tido em conta na avaliação anteriormente efetuada. Expectavelmente, decorrerá desta reapreciação uma subida generalizada das classificações das unidades e uma redução significativa da percentagem das que não tiveram acesso à segunda fase, sem prejuízo da necessidade de correção de casos específicos de manifesta subavaliação através de outros mecanismos.

Caso a FCT não entenda proceder a uma reapreciação da classificação de todas as unidades face a este erro agora detetado, podemos concluir que o considera irrelevante por afetar todas as unidades de igual forma, o que constitui indicador de que a avaliação é afinal de carácter meramente relativo entre as unidades a concurso e como tal estruturada por quotas definidas à partida.

Luís Neves

Diretor da FCTUC

sexta-feira, 5 de setembro de 2014

PEDRAS DISTO, DAQUILO E DE MAIS ALGUMA COISA (2)

Texto na continuação deste.

Pedra Furada, no lapiás de Maceira (Montelavar, Sintra)
Entre as pedras mais célebres destaca-se a Pedra de Roseta, um fragmento de uma estela (do grego stela, que significa pedra erguida) egípcia, na qual foram gravados três parágrafos com o mesmo texto (um decreto promulgado em 196 a.C., na cidade de Mênfis). O primeiro, na parte superior, usa os hieróglifos do Egipto antigo; o seguinte, a meio, utiliza a escrita egípcia tardia, ou seja, o demótico; e, por baixo deste, o último está gravado em grego antigo.

A pedra usada nesta relíquia é um ganodiorito, uma rocha afim do granito, encontrada em 1799, na cidade de Rashid (Roseta), no delta do Nilo. Tendo resistido ao tempo e às vicissitudes da história, permitiu decifrar os referidos hieróglifos e, a partir deles, conhecer boa parte de uma civilização milenária. Importante para os muçulmanos, a Pedra Negra é uma das relíquias mais sagradas do Islão. Para os seus seguidores, esta rocha escura, com cerca de 50 cm de diâmetro, exposta ao culto na Kaaba, em Meca, na Arábia, caiu do céu ao tempo de Adão e Eva.

Entre cristãos, o primeiro contacto do catecúmeno com a pedra tem lugar junto à pia baptismal, no geral esculpida em pedra, e no momento em que o celebrante lhe introduz uma pedrinha de sal na boca. Para as crianças da minha geração, a pedra de escrever era aquele pequeno rectângulo de ardósia emoldurado a madeira, na qual, com lápis de pedra, se aprendiam a escrever as primeiras letras e se faziam as primeiras contas e os primeiros bonecos. Da mesma rocha era o quadro-preto, na parede da sala de aula, frente aos alunos, e ser chamado à pedra pelo professor era, para muitos deles, uma dor de barriga. Com o progresso, esta expressão tende a sair da escola, mas perdura, em sentido figurado, como uma prestação de contas por algo de menos correcto que se tenha praticado.

Como topónimos ou designação de sítios com interesse geológico, geográfico, etnográfico ou outro, relacionados com a ideia de pedra, são exemplos Pedra Furada, localidade no concelho de Barcelos, e mais duas, com idêntico nome, no concelho de Sintra, uma na freguesia de Almargem do Bispo e outra na de Montelavar. Como geossítios de interesse pedagógico e turístico, destacam-se a Pedra Furada de Setúbal, a de Maceira (Montelavar, Sintra) e a situada na vizinhança da Lagoa de Óbidos, no extremo do concelho das Caldas da Rainha.

São caprichos da natureza, explicados pela erosão em diferentes afloramentos rochosos: um arenito ferruginoso do Pliocénico, na primeira, um calcário do Cretácico superior, na segunda, e um arenito argiloso do Cretácico inferior, na terceira, também conhecida por Penedo Furado. Há, ainda, merecedoras de destaque, a Pedra da Ursa e a Pedra da Anicha, dois afloramentos rochosos, emergentes das águas do mar, junto à costa, e explicados como residuais da erosão que, constantemente, faz recuar a falésia. A primeira pode ser descrita como um enorme espigão de calcário do Jurássico superior, na ponta do Cabo da Roca (maneira antiga de dizer rocha ou pedra), na imediata vizinhança da Praia da Ursa.

Mais a sul, frente ao Portinho da Arrábida, a segunda é um minúsculo ilhéu de calcário do Miocénico, constituindo uma reserva ecológica marinha característica de litorais catamórficos (rochosos) rodeada de um fundo de areia próprio de um litoral anamórfico, isto é, de praia arenosa. 

Com interesse paleontológico e/ou etnográfico, a desenvolver em textos separados, mais adiante, destacam-se: a Pedra da Mua, nome popular da grande laje de calcário do Jurássico superior com pegadas de dinossáurios saurópodes, no Cabo Espichel, cuja existência só foi cientificamente reconhecida em 1981. Causa de uma lenda vinda do século XIII, está na origem do santuário de Nossa Senhora do Cabo, ali erguido em meados do século XVIII.

Rara curiosidade petrográfica, na área Metropolitana do Porto, digna de relevo como geossítio de interesse pedagógico e turístico, a pedra-parideira, no Geoparque de Arouca, é um granito do soco hercínico com nódulos lenticulares biotíticos; com interesse histórico, a Pedra de Alvidrar, situada entre as Praias da Adraga e da Ursa, no concelho de Sintra, é um enorme lajão calcário do Jurássico superior, bastante frequentado por pescadores; no Alentejo, cada uma com sua história, ligadas à vida da populações locais, a Pedra Alçada, em Santiago de Maior, no concelho do Alandroal, e a Pedra dos Namorados, em São Pedro do Corval, no concelho de Reguengos de Monsaraz, são dois importantes afloramentos graníticos; comuns no norte granítico de Portugal, as pedras bulideiras ou pedras baloiçantes, conhecidas em alguns locais por pedras cavaleiras ou pedras encavaladas, são grandes penedos arredondados que oscilam quando empurrados por mãos humanas; no Algarve , a Pedra Mourinha, exposta numa rua de Portimão, é um grande bloco alongado, de sienito nefelínico, com cerca de 20 toneladas, do tipo de um menhir tombado, proveniente da serra de Monchique. Ligada a uma lenda envolvendo uma princesa moura e um cavaleiro cristão, a sua localização a duas dezenas de quilómetros da origem, continua controversa. Imóvel de interesse público, desde 1946, a Pedra da audiência, no lugar de Quintão, em Avintes, é uma tosca mesa de granito ladeada por bancos da mesma pedra, ali colocada em 1742 para servir de local de julgamentos.

Algumas rochas com nomes consagrados no domínio petrográfico são designadas por expressões populares centradas na palavra pedra. Uma delas, a pedra-mármore deu visibilidade à cidade italiana de Carrara, na Toscana, e às nossas Estremoz e Vila Viçosa. Usada na estatuária e na construção civil, como pedra ornamental [1], é um calcário calcítico transformado por metamorfismo regional, cuja idade se admite compreendida entre 450 e 410 milhões de anos, entre o Ordovícico médio e o Devónico inferior. Na região alentejana que envolve estas duas localidades, o mármore de composição dolomítica é referido em termos populares por pedra-cascável. 

A pedra-de-Ançã é um calcário do Jurássico médio, com cerca de 174 milhões de anos, de cor clara, entre o amarelado e o branco azulado, de textura oolítica, sem veios, muito macia, originária da região de Ançã, no concelho de Cantanhede. A estrutura compacta e muito fina desta pedra facilita grandemente o trabalho de cantaria e escultura desde o tempo da ocupação romana. A sua utilização na arte escultórica ganhou relevo no portal da igreja de Santa Cruz, em Coimbra e no túmulo da Rainha Santa Isabel, no Convento de Santa Clara, a Nova, na mesma cidade. A sua grande qualidade como pedra trabalhável a ponteiro e a cinzel espalhou-se por Espanha e por vários países da Europa. 

Ainda como pedra ornamental, especialmente usada no fabrico ou na manufactura de objectos decorativos, a pedra-sabão é uma rocha metamórfica, muito refractária ao calor, essencialmente constituída por talco, com ocorrências conhecidas no Nordeste Transmontano. Conhecida entre os geólogos por esteatito é um material de baixíssima dureza (1, na escala de Mohs) e, por isso, muito brando, macio e de aspecto saponáceo, facílimo de esculpir. A sua resistência o calor é aproveitada no fabrico de fornos e lareiras.

Na região de Aveiro tem nome a pedra de Eirol, um arenito vermelho, argilo-ferruginoso do Triásico, com cerca de 220 milhões de anos. No léxico estratigráfico português corresponde ao arenito ou grés de Silves. Com ela se fizeram os rebolos de amolar ou afiar facas e ferramentas cortantes e com ela se construíram os castelos de Penela e de Silves. 

Em Mondim de Basto, pedra-amarela refere o granito hercínico de duas micas, de grão médio e grosseiro com tendência porfiróide, amarelecido pelos hidróxidos de ferro resultantes da alteração da biotite.

Muito diferente, a pedra-pomes é uma rocha vulcânica piroclástica, fruto de erupções explosivas violentas, formada por arrefecimento rápido de lava ácida, riolítica. Muito vesiculada, como uma espuma, flutua na água. Comum na ilha de São Miguel, nos Açores, ocorre associada às grandes Caldeiras das Sete Cidades, do Fogo e das Furnas. Nome antigo, pedra-pomes é sinónima de pomito, termo que radica no latim vulgar, pomice. Para os açorianos, pedra-fervente é a expressão pela qual designam os blocos de lava muito vesiculados e fumegantes, acabados de extrudir do fundo do mar, que sobem à superfície e aí flutuam por algum tempo.

As velhas pedras de afiar ou pedras de amolar, quer as de uso caseiro, quer os atrás referidos rebolos com que os carpinteiros, afiavam os ferros das plainas, os formões e os badames, eram arenitos de grão suficientemente homogéneo e fino. Eram ainda xistos argilosos e ardósias que, por terem uma granularidade finíssima (micrométrica), acabavam por dar o fio desejado às ferramentas. Permitia, ainda, aos sapateiros afiar facas e afilar sovelas.

O progresso trouxe-nos a trituração de minerais suficientemente duros, como o quartzo ou o corindo, para obtenção de granulados que, aglutinados, reproduzem, com vantagens, os produtos naturais do antigamente. Trouxe-nos, ainda, o carborundo, material sintético composto de carbureto de silício (SiC), que, igualmente triturado e aglutinado, integra muitos dos afiadores disponíveis no mercado. A pedra do sapateiro era e ainda é para os poucos que restam deste ofício artesanal, um calhau rolado de praia ou de rio, no geral, de quartzito, sobre o qual o aprendiz e, na falta deste, o oficial martelava a sola, depois de convenientemente demolhada.

Entre ourives e negociantes de metais preciosos, designa-se por pedra-de-toque certas rochas (e mais recentemente outros materiais artificiais) que têm a particularidade de serem inertes aos ácidos e suficientemente duras e escuras, como são o basalto, o lidito, ou pedra-da-Lídia, e o sílex negro. Riscando com uma técnica própria, ou fazendo a tocadura (como se diz na gíria dos ourives), da amostra sobre uma destas pedras, e usando padrões de pontas de metal como elementos visuais de comparação, pode testar-se a qualidade das ligas de ouro e identificar-se outros metais como a prata e a platina, usando, para o efeito, ácidos adequados.

Noutro domínio, a arte e a tecnologia de impressão, tiveram um notável avanço ao longo de século XIX com a descoberta, pelo Checo Aloysius Senefelder (1771-1834), da litogravura, Esta modalidade de impressão, caída em desuso, utiliza um calcário afanítico, de grão micrométrico, que se tornou conhecido por pedra litográfica, sobre a qual se escrevia ou desenhava com uma tinta gordurosa (cera, sabão e negro de fumo), a que se seguia o ataque da pedra com um ácido. Restando em relevo, os grafismos protegidos sob a tinta, permitiam a impressão.

Noutra actividade, a pedra moleira, utilizada no passado na feitura de mós para moer cereais, é uma rocha essencialmente siliciosa, no tipo da meuilière dos autores franceses. De uso igualmente antigo e pelo facto de incendiar a pólvora em mosquetes, pistolas e bacamartes, o sílex ou pederneira ficou conhecido por pedra-de-fogo. 

Nota:
[1] Pedra ornamental – Na gíria gemológica esta expressão é usada como sinónimo de pedra dura

Este texto continua aqui.
Galopim de Carvalho

AS MINHAS BACTÉRIAS SÃO DIFERENTES DAS TUAS

Artigo primeiramente publicado na imprensa regional.



Durante milhares de anos desconhecemos que estamos rodeados de bactérias, que também colonizam o nosso corpo. Só depois da invenção do microscópio e nos finais do século XVII é que a existência de seres microscópicos foi descoberta. O holândes Antonie van Leeuwenhoek terá sido o primeiro ser humano a observar microrganismos. Mas ele estava longe de entender a relação importante que mantemos com eles.

Vivem dentro de nós, na nossa pele, na nossa casa. São milhões e milhões de bactérias que nos acompanham desde que nascemos, que influenciam os nossos estados de saúde, de doença, o nosso humor e relações afectivas.

Esta convivência com seres microscópicos foi alvo de um estudo agora foi publicado num artigo na revista Science. No geral, o estudo mostra que cada um de nós vive rodeado por um conjunto de bactérias que é característico de cada um de nós. É como se para além da nossa própria identidade tivéssemos um conjunto de bactérias que nos é característico e que se move connosco. 

O estudo mostra que os locais onde passamos mais tempo, casa, trabalho, estão povoados por um conjunto de bactérias específico a cada um de nós. Se mudarmos de casa, as bactérias também mudam! O nosso local de trabalho está repleto de bactérias que estão em íntima relação connosco. Se mudarmos de trabalho as nossas bactérias acompanham-nos.

O artigo também mostra que partilhamos com os nossos familiares um conjunto de bactérias semelhante. Quanto mais próxima a relação mais idênticas são as espécies de bactérias que partilhamos. Há assim, pode dizer-se, um conjunto de bactérias que fazem parte da nossa família!
A relação entre nós e as nossas bactérias é importante e decisiva no tratamento e transmissão de doenças. O estudo sugere que uma alteração no ambiente bacteriano com que vivemos pode influenciar o nosso estado de saúde. Assim, a caracterização das bactérias que nos acompanham é importante para uma melhor compreensão e gestão da nossa saúde no século XXI.

Depois deste estudo abrem-se as portas para que num futuro próximo passemos a possuir uma espécie de boletim microbiano que nos identifica, o nosso próprio microbioma. Um retrato das nossas bactérias.

António Piedade   

HELP! THIS GOVERNMENT IS TRYING TO KILL SCIENCE IN PORTUGAL


I am Manuel Pereira dos Santos, Full professor of Physics at the University of Évora, Portugal, and also vice-president of a teacher’s and professor’s union, representing this sector of higher education and research at the Education International.
In Portugal we have a very serious situation on research and science, because this government decided to cut the funding both to the researchers and the research centres:
  • The number of the researcher’s contracts or grants has been reduced this year to about one third of the previous ones (and these are all precarious researchers);
  • The number of research centres that will receive funding next year will be reduced to one half of the total.
Scientific research in Portugal was greatly developed during the last 20 years, bringing our level from the bottom of European research to the average, or even above, in some aspects. This improvement produced a new highly qualified generation of researchers, and had also the participation of many foreign researchers that came to work in Portuguese laboratories. That’s all this reality that is being destroyed during the last 3 years by this government.
The last attack on science and research was carried in the following way: even if, for the last 17 years, all the research centres have been regularly evaluated by international teams (including a visit to the centres and a discussion with the researchers), this time FCT (our science funding agency) decided to contract ESF (European Science Foundation)for this job, and the outcome was a disaster:
  • 50% of the centres have not been approved for funding, or will receive small amounts, covering only administrative costs;
  • This 50% percentage of cuts is the same for all subjects, and so this has nothing to do with quality assessments, but with previous orders;
  • Many centres, previously assessed with “excellent” or “very good” in 2010, having raised their scientific productivity since, are now evaluated “good” or less, and will have no funds.
There are also some “strange aspects to notice:
  • ESF, that will change the name to EUROPE SCIENCE next September, will have Miguel Seabra (our President of FCT, who decided the contract for this job) as its next President since then... and apparently he sees “no conflict of interests” on this!
  • ESF has no previous experience on the evaluation of a national scientific system;
  • The referee’s panel is quite short, many evaluated subjects had no specialists in this panel, and the curricula of many referees is not relevant on their subject... and then the number of basic mistakes is very big;
  • None of the centres that will have no funds next year has been visited, they have been refused based only on written documents;
  • The outcome of the evaluation is a huge concentration of the viable research centres within the bigger institutions, and a shortage of research on fundamental science;
  • Nothing in all this process is transparent or clear.
WE NEED YOUR HELP, AS COLLEAGUES FROM THE INTERNATIONAL SCIENTIFIC COMMUNITY:
We must inform everyone of this “attempt of murder of science” in Portugal, and the misapplication of national and European funds.
SEND US PROTEST AND SOLIDARITY MESSAGES TO THE FOLLOWING E-MAIL ADDRESS:

mpsantos@fct.unl.pt


THANKS, COLLEAGUES!

Manuel Pereira dos Santos
(Full professor)
Physics department-ECT-University of Évora,
and
Cefitec-FCT/UNL

quinta-feira, 4 de setembro de 2014

A sopa de pedra e a ASAE

Há dias, tomei conhecimento, através da televisão, qua a ASAE proibiu o uso da pedra na terrina que leva à mesa a saborosa e suculenta sopa da dita, que se faz, e bem, em Almeirim.

Terá esta autoridade as suas razões, que eu desconheço. Mas tendo em conta a natureza da pedra ali usada – um seixo de quartzito – não vejo qual o motivo da proibição. Praticamente inerte, do ponto de vista químico, à semelhança do vidro, de que, à falta de areia, é matéria-prima, esta pedra não representa qualquer risco para a saúde.

Outro tanto não se pode dizer do vidrado da loiça de barro vermelho que ainda vai à mesa em alguns restaurantes.

Por outro lado, o quartzito é bem mais tenaz do que a faiança, a porcelana ou o vidro, não havendo risco de quebrar e produzir esquírolas lesivas da integridade física dos clientes.

Pondo de parte a falta de bom senso, por vezes, demonstrada por esta polícia zeladora da nossa segurança alimentar e económica, e este caso da proibição do uso da pedra afigura-se-me como isso mesmo, temos de reconhecer o seu importantíssimo papel num país ainda longe de pôr fim aos mixordeiros, vendedores de “banha da cobra”, “chico-espertos”, corruptos e quejandos.

São muitos, entre portugueses e estrangeiros, os que conhecem a sopa de pedra, que tem em Almeirim o seu mais conhecido centro de divulgação. São ainda muitos os que relacionam esta tão falada especialidade com a bela história do frade que, de panelinha de barro meia de água, numa mão, e um seixo rolado, na outra, bateu à porta de uma quintaneira e, habilmente, de pedido em pedido, foi conseguindo angariar para o cozinhado tudo o que uma suculenta e saborosa sopa deve ter, do naco de toucinho à couve, passando pelo chouriço, pelo alho, pela cebola e pelas batatas, sem esquecer a pitada de sal.

São conhecidas versões afins em velhas histórias populares europeias. Envolvem viajantes famintos, chegados a uma dada localidade e, dependendo das respectivas culturas, a pedra é substituída por um botão, um pedaço de madeira, ou qualquer outro objecto. Na tradição portuguesa, o viajante é, como se disse, um frade e a história evoca-se hoje em Almeirim onde vários restaurantes servem esta aprimorada e nutritiva confecção.

A mais divulgada das sopas de pedra que se fazem nesta cidade ribatejana não é a de história do nosso sabido frade. É muito mais rica. Para além da água e do seixo rolado, leva toucinho entremeado, orelha de porco, chouriço de carne e de sangue, feijão encarnado, lombarda, alho, cebola e batata e é bem apaladada com louro, coentros, sal e pimenta.

Como quaisquer cursos de água, no seu trabalho normal, os múltiplos tributários que integram a enorme bacia do Tejo, em Portugal e em Espanha, canalizaram no grande rio todos os materiais detríticos, entre blocos, seixos, areia e uma poeira fina essencialmente argilosa, resultantes da meteorização e erosão dos terrenos atravessados, maioritariamente formados por xistos, granitos, e quartzitos. Dada a fragilidade mecânica dos xistos, a erosão pulveriza-os e transporta-os a caminho do mar. O granito tende a desagregar-se e a fornecer areias, predominantemente de quartzo, e a dita poeira argilosa, resultante da alteração dos feldspatos, poeira que, convém lembrar, faz a lama dos caminhos, em dias de chuva, e o pó, em tempos de estio. Apenas o quartzito, a mais dura das rochas, reúne características físicas e químicas, susceptíveis de gerar fragmentos de pedra resistentes ao transporte de centenas e, até, milhares de quilómetros, boleando-se por rolamento durante o percurso. São, pois, de quartzito a imensa maioria dos seixos das grandes planuras aluviais ribatejanas, os mesmos que se encontram no fundo da terrina que, em Almeirim, ia à mesa com a tão falada sopa.

- Mas, afinal, o que é o quartzito? – Perguntou-me um estudante da Escola Superior de Educação de Santarém, de serviço às mesas, a ganhar uns tostões em tempo de férias, a quem eu acabara de explicar a origem da pedra que ele, em jeito de brincadeira e delicadamente, colocara no meu prato.

- Precisamos recuar aí uns 500 milhões de anos, a um período da era paleozóica, que tem o nome de Ordovícico. – Comecei a explicação que achei por bem prestar a este meu interlocutor. - Nesse tempo existiu aqui um oceano muito anterior ao Atlântico, que os geólogos baptizaram de Rheic, com as suas plataformas continentais na transição para as terras emersas. Como acontece nos dias de hoje, os continentes despejavam no mar, através dos rios de então, os detritos da erosão que os ia arrasando.

- Até aqui, tudo bem. E o quartzito, como é que aparece? – Insistiu o jovem.

- Por razões meramente dinâmicas e à semelhança do que podemos observar nos dias de hoje, os detritos maiores, ou seja, o blocos e os seixos ou calhaus, ficam maioritariamente em terra, ao longo dos rios, como aqui, nesta região e em muitas outras.

- Isso eu sei. – Alegrou-se o rapaz.

- Continuando, - prossegui - as areias, predominantemente de quartzo, atingem o litoral, acumulam-se nas praias e cobrem as plataformas continentais. Julgo que sabes que o quartzo é dióxido de silício, praticamente o mesmo material de que é feito este copo que tenho à minha frente.

- Isso eu sei. Já visitei uma fábrica na Marinha Grande e foi lá que aprendi que quase tudo o que é vidro é feito de areia, dos copos e garrafas às vidraças de janelas, portas e grandes montras.

- Óptimo. – Exclamei. - Passemos, então, adiante. Os materiais argilosos, por serem muito finos, permanecem mais tempo em suspensão nas águas e acabam por se depositar nos taludes oceânicos a caminho dos grandes fundos.

- Mas ainda não chegámos aos quartzitos. – Impacientava-se o rapaz.

- Calma. Vamos devagar. Quando este antigo oceano se fechou, num processo que se iniciou há aproximadamente 375 milhões de anos e que durou mais de 50 milhões, conhecido por orogenia Hercínica ou Varisca, os sedimentos nele acumulados, uma vez sujeitos a temperaturas e pressões elevadas, sofreram transformações e enrugamentos, dando nascimento a uma grande cadeia de montanhas, hoje parcialmente arrasada pela erosão, de que a Península Ibérica é uma pequena parte.

- Isso estudei eu no meu 10.º ano. – Adiantou-se, ele.

- Exacto. – Confirmei e acrescentei. - Por exemplo, consoante a intensidade dessas transformações, os materiais argilosos deram origem a xistos, filádios, micaxistos, gnaisses e, no caso de terem atingido temperaturas que os levaram à fusão, deram nascimento a um magma que, por arrefecimento, gerou o granito. Neste mesmo processo, os calcários foram transformados em mármore.

- Quer dizer que os xistos e os granitos do Alentejo, das Beiras e do norte do país fazem parte dessa história?!

- É isso mesmo! E os mármores de Estremoz, Vila Viçosa, também.

- E os quartzitos? – Insistiu, curioso, o simpático rapaz.

- É muito simples. Disse a concluir. - As areias acumuladas nas plataformas continentais desse antigo oceano, uma vez sujeitas ao referido processo orogénico, foram compactadas e os respectivos grãos recristalizaram, dando origem a uma rocha de grande inércia química, muito coesa, bastante dura e, por tudo isso, resistente à erosão. E aí tens como nasceu o quartzito. Na paisagem portuguesa, são muitos os relevos suportados por quartzitos. São os chamados relevos de dureza. Geralmente alongados, formam cristas, sendo responsáveis por muitas das nossas serras, como as do Buçaco, Marofa, Penha Garcia e outras. Se os quiseres ver na origem tens de ir, por exemplo, às Portas de Ródão, na Serra da Talhada. Até pode ser de lá que veio o seixo que temos aqui à nossa frente.

Galopim de Carvalho

AQUILO QUE COMEMOS INFLUENCIA AS ALTERAÇÕES CLIMÁTICAS

Artigo primeiramente publicado na imprensa regional.



Dietas mais saudáveis e a redução dos desperdícios alimentares são parte de uma combinação de soluções necessárias para assegurar comida para todos e evitar desastrosas mudanças climáticas, segundo uma equipa de cientistas da Universidade de Cambridge.

Em 2050 existirão 9,6 mil milhões de humanos no planeta Terra. A disponibilidade de alimentos para alimentar esses milões de pessoas é um assunto actual e de preocupação global. O que será necessário fazer a nível agrícola e pecuário para responder às necessidades alimentares futuras?

Num artigo publicado recentemente na revista Nature Climate Change, investigadores da Universidade de Cambridge efectuam uma simulação que tenta responder àquela questão, mas mais sobre a perspectiva que envolve as mudanças climáticas resultantes do impacto da tendência actual e futura da dieta humana.

Segundo este novo estudo, a crescente ocidentalização das dietas da maior parte dos países de todo o mundo, em que se verifica um aumento desmedido no consumo de carnes e de alimentos muito processados, terá como impacto um aumento muito superior ao até agora estimado para a emissão de gases com efeito de estufa em 2050.

Os autores do artigo sublinham a necessidade de urgentemente repensarmos cuidadosamente o que comemos e impacto ambiental disso. O crescimento exponencial da população mundial associado à mudança dos gostos alimentares para uma dieta farta em carnes, exige um aumento considerável na produção agrícola, muito para além do que o agora é possível. Para satisfazer os novos apetites de uma população crescente é necessária mais terra cultivável, para criar mais pastagens, o que implica o aumento da desflorestação.

Segundo os autores deste estudo, se se mantiver a actual tendência alimentar, por volta de 2050 a extensão de terras cultiváveis ter-se-á expandido para mais de 42% e o uso de fertilizantes químicos aumentará acentuadamente em cerca de 45 % em relação aos níveis de 2009. E cerca de 10 % das florestas virgens do mundo desaparecerão nos próximos 35 anos.

Se assim se continuar, quando os nossos filhos forem adultos o mundo terá um clima diferente, com mais catástrofes ambientais, com uma maior perda de biodiversidade, com uma menor qualidade de vida para os então 9,6 mil milhões de habitantes humanos neste planeta, o único que conhecemos onde existe vida.

Para responder às necessidades alimentares baseadas no consumo de carne, uma acentuada actividade pecuária aumentará perigosamente os níveis de metano emitido para a atmosfera. Este gás é dez vezes mais potente a causar efeito de estufa do que o dióxido de carbono.

Todos os aspectos mencionados resultarão num aumento de 80% na previsão da emissão de gases com efeito de estufa em 2050, segundo os cientistas deste estudo, o que é muito superior ao estimado só para as emissões resultantes da actividade económica global. Aliás, estas terão de ser somadas àquelas, o que não agoira nada de bom para o ambiente.

Os autores também chamam a atenção para as consequências nefastas sobre o ambiente causadas pelo sempre excessivo desperdício alimentar verificado nos países desenvolvidos. Estes desperdícios, para além serem em si um mal social, obrigam a um gasto energético necessário ao seu tratamento o que também aumenta a emissão de gases com efeito de estufa.




Uma dieta mais equilibrada

É imperativo que encontremos formas de alcançar uma segurança alimentar sem expandir as culturas e as terras de pastagem. A produção de alimentos é um factor causador de perda de biodiversidade e um grande contribuinte para as alterações climáticas e poluição, pelo que as nossas escolhas alimentares são de um extrema importância e têm consequências não negligenciáveis”, diz Bojana Bajzelj da Universidade de Cambridge e primeiro autor do estudo.

No artigo, os cientistas apresentam uma composição para a dieta que consideram adequada para evitar as consequências da actual tendência alimentar. Sugerem uma dieta equilibrada composta por duas porções de 85g de carne vermelha e cinco ovos por semana, assim como uma porção de carne de aves por dia. “Não se trata de uma proposta para uma dieta vegetariana, mas sim para uma dieta que inclua carne em quantidades adequadas para uma dieta considerada mais saudável”, diz Keith Richards um outro autor do estudo.

Diminuir os desperdícios alimentares e moderar o nosso consumo de carne numa dieta mais equilibrada é assim considerado essencial para que possamos diminuir o impacto da dieta global sobre as alterações climáticas.

Pense pois no que come, não só para manter um bom estado de saúde, mas também para construir um futuro melhor em termos ambientais.

António Piedade 

O ABATE DE METADE DA CIÊNCIA PORTUGUESA

Crónica primeiramente publicada na imprensa regional.


Os países que se querem desenvolvidos precisam de ciência e da tecnologia que nela assenta. Em regra, quanto mais desenvolvido é um país, maior e mais produtivo é o seu sistema de ciência e tecnologia. Sem ciência e tecnologia actualizados ficamos completamente desprevenidos. Basta olhar para um caso recente como o da epidemia do Ébola, que só se resolve com ciência e tecnologia. Sem investigação própria ou com investigação própria muito reduzida, Portugal em caso de necessidade séria, ficaria na mesma situação que a Serra Leoa e a Libéria, dependendo da ajuda internacional para saber como lidar com o vírus. Sem ciência nem saberíamos sequer que a grave doença se deve a um vírus e talvez sacrificássemos galinhas pretas na esperança que a epidemia passasse.

Um país não se torna mais desenvolvido, antes pelo contrário, deitando fora metade do seu sistema de ciência e tecnologia. Mas é isso mesmo o que está a acontecer, empobrecendo-nos a todos, num processo cheio de fragilidades. Em finais de Junho foram anunciados os resultados da “avaliação” (entre aspas pois de avaliação só tem o nome) promovida pela Fundação para a Ciência e Tecnologia (FCT), a agência portuguesa que financia a investigação nacional, a todas as unidades de investigação científica. Ergueu-se logo uma enorme vaga de protestos, uma vez que os resultados eram maus demais para serem verdade: metade das unidades nacionais onde se faz pesquisa tinham sido liquidadas ou quase, pois não lhes seria atribuído qualquer financiamento ou ser-lhe-ia apenas atribuído um financiamento tão ridículo que não chegaria para sequer assegurar a sobrevivência.

Vistas bem as coisas, os resultados eram maus porque o método de “avaliação” era mau. Descobriu-se que havia uma quota escondida no contrato entre a FCT e a European Science Foundation (ESF), a quem tinha sido encomendada a “avaliação”: 50 por cento dos centros eram, à partida, para serem extintos na prática, de acordo com a teoria de um investigador, António Coutinho, que falou da necessidade de uma “poda”, pretendendo dizer que o sistema científico português tinha crescido demais, sendo preciso cortar muitos ramos. Estava equivocado, pois ainda estávamos aquém da média europeia apesar de um grande crescimento recente que bem nos pode orgulhar. Mas a sua teoria resultou num erro enorme. A “poda” realizada pela FCT/ESF não foi, de facto, uma “poda”, pois, aceitando a comparação dos centros de pesquisa com árvores, limita-se a abater à machadada, cortando o tronco, e um pouco ao acaso, metade das árvores do pomar, mesmo algumas que estavam a dar muito bons frutos. Apurou-se ainda, uma vez conhecidos os “avaliadores” da ESF e as classificações por eles atribuídas, que as regras do processo tinham sido modificadas a meio do percurso, diminuindo o número de avaliadores. Em resultado, em muitos casos as notas foram efectivamente dadas por um grupo muito restrito de não especialistas, que emitiam meros palpites.

Chamada a atenção da FCT e do ministro da Ciência e Tecnologia Nuno Crato – e todos chamaram a atenção, investigadores, sociedades científicas, grandes laboratórios e instituições, reitores de Universidades, directores de Politécnicos, dirigentes de associações que reúnem os investigadores – a resposta foi praticamente nenhuma. A FCT e o ministro permaneceram cegos, mudos e surdos perante a acumulação de provas de que o processo tinha sido mal conduzido e que o país, no fim desse processo, ia ficar mais pobre do que estava. Para eles tudo estava bem. Para eles vivemos no melhor dos mundos. Mas os milhares de investigadores espalhados pelo país e os milhões de cidadãos que pagam a ciência com os seus impostos, esperando vir a viver melhor, não pensam o mesmo. Para o governo tudo pode estar bem, mas para o país e para nós, infelizmente, tudo está pior.


Carlos Fiolhais

quarta-feira, 3 de setembro de 2014

UMA AVALIAÇÃO DESTRUIDORA


Minha crónica no "Público" de hoje:

Quando em Junho passado foram anunciados os resultados da “avaliação” (entre aspas pois de avaliação só tem o nome) promovida pela Fundação para a Ciência e Tecnologia (FCT) a todas as unidades de investigação científica levantou-se uma enorme onda de protestos. Os resultados eram inacreditáveis porque o método era inacreditável. Descobriu-se que havia uma quota escondida no contrato entre a FCT (ordenante) e a European Science Foundation (executante): 50 por cento dos centros eram à partida para abater, de acordo com uma teoria que foi anunciada como sendo uma “poda” (está visto que nada sabem da poda, ninguém poda um pomar abatendo pela raiz metade das árvores ricas em frutos). Descobriu-se também, conhecidos os avaliadores e as classificações por eles atribuídas, que as regras da FCT tinham sido alteradas por ela própria a meio do processo, diminuindo drasticamente o número de avaliadores, o que fez com que haja em muitos casos notas dadas, de um modo necessariamente arbitrário, por não especialistas.

Os investigadores, habituados à competência e ao rigor, não aceitam esta bambochata, que vai causar uma razia sem precedentes num sistema que tão boas provas tem dado até agora, estando num caminho ascensional para a média europeia. O Conselho de Laboratórios Associados, que reúne mais de 2500 cientistas dos maiores e melhores laboratórios, pronunciou-se contra. As Sociedades Portuguesas de Física, Química, Matemática e Filosofia pronunciaram-se contra. A Comissão Nacional de Matemática, que integra todos os centros desta área, pronunciou-se contra. Os Reitores pronunciaram-se contra. O Reitor da Universidade de Lisboa, de longe a maior do país e também a melhor a avaliar pelo último ranking de Xangai, foi particularmente demolidor. Os sindicatos dos professores e investigadores pronunciaram-se contra. A associação nacional de bolseiros pronunciou-se contra. Até os próprios Conselhos Científicos da FCT se revelaram críticos.

Todos estarão contra esta “avaliação”? Não. O imunologista jubilado António Coutinho, pai assumido da “teoria da poda”, revelou-se num artigo do Expresso a favor, afirmando entre outros dislates que muitos professores universitários tinham era de ensinar, abandonando a investigação, que não estaria ao alcance deles mas sim e apenas de grandes mentes. Só há um pequeno problema: ele não é inteiramente isento, pois, além de mentor do abate, é o coordenador do Conselho Nacional de Ciência e Tecnologia, órgão presidido por Pedro Passos Coelho e, portanto, comprometido com a política do governo.

O processo continua a decorrer e a causar estragos na reputação do país: a revista Physics Today da Sociedade Americana de Física acaba de dedicar, facto inédito, duas páginas à maior crise da ciência portuguesa. E na comunidade científica: por exemplo, Paulo Veríssimo, um professor sénior de Informática da Universidade de Lisboa, de um centro chumbado, fartou-se e fez as malas para emigrar, tal como alguns bons jogadores de futebol no fim do período de transferências. Para montar o seu grupo a Universidade do Luxemburgo dá-lhe cinco milhões de euros, quase tanto como os seis milhões que a FCT quer atribuir como “bodo aos pobres”, uma esmola piedosa, para dividir pelos 154 centros condenados.

Além de Coutinho ninguém mais acredita em Miguel Seabra, Presidente da FCT, ou em Nuno Crato, que, como disse o jornalista Nicolau Santos do Expresso, pode ficar conhecido como “science killer”. Executar sumariamente metade dos centros de investigação é algo que nunca pensei que ele fosse capaz. A nossa ciência estava a crescer, mas “fogo amigo” está a dizimar metade das tropas. O pretexto de que nem todos são excelentes é ridículo: há algum país onde todos o possam ser? Essa é aliás a característica da excelência, só alguns o podem ser, mas para o serem precisam de outros. Chamar medíocres aos que não são excelentes, como faz Coutinho, denota uma visão distorcida do mundo.

Os países precisam de ciência e da tecnologia para se desenvolverem. Portugal precisa de aproveitar bem os recursos que tem nesta área. Como país pequeno precisa de aproveitar da forma mais eficiente os seus recursos humanos. Para isso é necessário proceder a uma distribuição inteligente do financiamento, vendo onde é que o investimento de um euro terá o maior retorno. Ao concentrar praticamente todo o financiamento em apenas metade das unidades de investigação, o retorno pode revelar-se bem inferior ao que seria obtido investindo também nalgumas das outras unidades, cujo trabalho meritório está à vista. Um país não se torna mais desenvolvido deitando fora metade da sua ciência e tecnologia, desprezando anos de investimento feito com o dinheiro dos contribuintes, ainda por cima por um processo repleto de irregularidades. Não seria mais útil, para nos tornarmos mais desenvolvidos, deitar fora metade do governo?

terça-feira, 2 de setembro de 2014

COMENTÁRIO DE UM LEITOR SOBRE COUTINHO E CRATO

Os comentários dos nossos leitores,a favor ou contra aquilo que é escrito, são uma parte importante deste blogue. Destacamos um comentário  do nosso leitor  Ildefonso Dias em26 de Agosto de 2014 a este post:

O drama neste país é a quantidade, eu diria inesgotável, de indivíduos “sabichões” como Mariano Gago e António Coutinho que não sabendo "da poda" tem no entanto o atrevimento e o descaramento de se intrometerem e condicionarem os destinos do país, condenando-o à menoridade mental. Foi isso que o primeiro fez retirando a investigação às universidades. É isso que o segundo continuará a fazer ao não devolver a investigação às universidades. Deixo esta transcrição do Professor Sebastião e Silva, que já em 1968 chamava a atenção da necessidade do professor universitário ser também ele um investigador (entrevista publicada pelo jornal A Capital).

“A incompreensão dos leigos relativamente ao problema do professor universitário estriba-se em particular neste facto: para eles, o catedrático ( ou lente: etimologicamente “aquele que lê”) é ainda aquela figura veneranda que sabe muito e fala como um livro aberto, repetindo, sem nunca se enganar, o que os sábios inventaram em países e tempos remotos. Não é de admirar, portanto, que mesmo pessoas inteligentes e bem intencionadas continuem a sustentar que para ser professor universitário não é preciso ser investigador. Eu não digo que num período transitório, não seja necessário ( e é ) admitir realisticamente a existência de professores que, dadas as condições do meio, não puderam realizar se como investigadores, mas que conseguem, excepcionalmente, ser bons pedagogos. Porém, de futuro, a posição terá de ser muito diferente, pelo menos no que se refere aos cursos de carácter científico: se não se exigir ao professor, como mínimo, o hábito e o espírito de pesquisa, reveladores de um contacto permanente com o movimento científico internacional – mesmo que os resultados pessoais não sejam brilhantes – então o País será irremediavelmente condenado à situação de menoridade mental, com todas as consequências deploráveis que daí podem deduzir - se a priori.

Um dos argumentos que são invocados com mais frequência contra o princípio de que os professores devem ser investigadores é o do que a grande maioria dos alunos não irão ser investigadores. Certamente que não! Mas é preciso não esquecer em que época vivemos: a evolução rapidíssima da técnica e da ciência exige que todos adquiram um certo espírito de pesquisa, ou seja: maleabilidade intelectual, senso crítico, imaginação criadora, espírito de iniciativa, capacidade de adaptação. E quem poderá, em última análise, transmitir esse espírito de pesquisa aos jovens portugueses, se nem sequer os professores universitários forem providos de tal espírito?”

António Coutinho diz ainda “Ser docente-investigador mediano ou medíocre não é melhor do que ser “apenas” um excelente docente.”

Que retrato de horizontes diminutos e de extrema ignorância emana da figura de António Coutinho quando lhe sobrepomos as palavras sabias do Professor Sebastião e Silva.

Eu percebo que aquilo que António Coutinho diz é muito sério e tem serias implicações no futuro do País, por isso deixo aqui um pedido de esclarecimento público ao senhor Ministro Nuno Crato que é: Ou o senhor Ministro Nuno Crato se identifica com as palavras do Professor Sebastião e Silva ou se identifica com as do Professor António Coutinho. Não há duas escolhas.

Se concorda com Sebastião e Silva deve de imediato demitir António Coutinho. De outra forma o senhor Professor Nuno Crato ficará para a história como uma personagem vulgar no campo da investigação cientifica e no da pedagogia entre outros valores. 

PEDRAS DISTO, DAQUILO E DE MAIS ALGUMA COISA (1)

Pedra de Armas dos Pereiras, na casa de Bertiandos, Ponte de Lima
O conceito de pedra e o conhecimento relacionado com esta realidade física percorreram uma caminhada tão longa quanto a do Homo sapiens, de que temos testemunhos na Pré-história e variadíssimos relatos escritos ao longo da História.

No Livro das Pedras, de Aristóteles (384-322 a. C.), que se julga não ser da autoria deste filósofo, mas sim uma compilação das suas ideias feita por um anónimo, provavelmente um árabe posterior ao século IX, distinguem-se gemas, metais, sais e pedras comuns, e disserta-se sobre a influência dos astros, em geral, e do Sol, em particular, no nascimento destes objectos naturais. A sua visão sobre as ”influências celestiais” defendia que, sob o efeito dos raios solares, certas exalações se escapavam para a atmosfera.

Destas, as chamadas “exalações secas”, associadas às trovoadas, condensavam e caíam sobre a Terra, sob as formas de chuva de pedra (granizo) e de meteoritos. Segundo a mesma visão, havia outras exalações susceptíveis de gerar pedras, incluindo nesta designação os materiais a que hoje damos os nomes de rochas, minerais e fósseis (estes, até muito tarde, referidos por “petrificados”) surgidos e desenvolvidos à superfície e no subsolo, por efeito de “virtudes petrificantes” originárias do céu e dos diversos corpos celestes, nomeadamente os planetas e as estrelas, entre as quais o Sol tinha papel de destaque.

Um seu discípulo, Teofrasto (372-287 a. C.) descreveu como pedras, entre outras, o basalto, o ofito, o pórfiro, o xisto e o mármore, indicando ainda as suas utilizações práticas na indústria e na arte. Na Idade Média, numa época em que ainda se não fazia a distinção entre rochas, minerais e fósseis, uma das primeiras abordagens ao estudo das pedras é atribuída a Ibn Sina (980-1037), mais conhecido por Avicena que, na classificação que concebeu para estes materiais, os incluiu na classe a que deu o nome de “pedras e terras”, na qual, as pedras eram os materiais coesos, sendo as terras os incoesos e desagregáveis, como o cascalho, a areia, o saibro, barro e outros.

As pedras sempre fizeram e fazem parte da vida das gentes, como elementos substantivos de entidades ou situações comuns, quer reais, quer virtuais. A sua importância vem de muito longe e, entre outras evidências, destaca-se o nome que Jesus deu ao apóstolo Simão, dizendo: tu é Pedro (pedra) e sobre ti edificarei a minha Igreja.

A sua importância evidencia-se, ainda, nas expressões pedra basilar, pedra angular ou pedra fundamental, três formas de referir a base, o suporte ou o fundamento de uma ideia, de uma doutrina. É também o marco inicial ou a primeira pedra de uma construção, que é habitual lançar em cerimónia adequada.

As pedras estão em todo o lado, a começar pela capa rochosa que envolve os planetas telúricos (do latim Tellus, a deusa romana mãe da Terra) a que os geólogos chamam litosfera (do grego lythós, pedra). Estão nos asteroides, nos núcleos dos cometas e podemos vê-las nos meteoritos e, através de fotografias, nas superfície da Lua e de Marte.

Bem perto de nós, temo-las em grande quantidade e podemos tocar-lhes, nas montanhas, nas arribas do litoral e nos seixos das praias e dos rios. Pisamo-las nas calçadas e pavimentos, nos degraus que subimos e descemos, no cascalho, na gravilha e no pó de pedra que suportam o asfalto das rodovias, e nos balastros sobre que assentam chulipas e carris dos caminhos de ferro. Em tosco, ergueram muros e paredes, quer de pedra solta (no brasil diz-se pedra seca ou pedra insossa) quer de alvenaria, unidas com argamassas, quer, ainda, como pedra britada ou brita, no betão dos dias de hoje.

Vemo-las nas antigas cantarias, como pedra aparelhada ou pedra lavrada a picão, maço, ponteiro e bujarda, ou nas modernas construções, serrada, polida ou despolida, com recurso a máquinas e ferramentas diamantadas. Resistem às vagas, como molhes e paredões, protegendo portos, praias e alguns troços do litoral, e resistiram ao tempo, como menhires e outros megálitos (antas, cromeleques), velhos de mais de 5000 anos. Fortificaram os castros da Idade do Ferro, ergueram castelos e catedrais ao longo da História e foram e são as principais matérias-primas das múltiplas e variadas indústrias inerentes à sociedade humana.

Na tradição europeia medieval, a pedra de armas é um brasão respeitando as leis da heráldica, identificador de personalidades singulares, famílias, corporações, cidades, regiões e nações, embutido na parede exterior da propriedade, sobre a porta principal ou num qualquer local considerado mais visível. Nesta época e antes do aparecimento das bombardas que, sob a força da pólvora, lançavam pelouros de pedra (bolas de granito ou de calcário com 10 a 20 cm de diâmetro), foram usadas as chamadas pedras de arremesso, projectadas por catapultas contra muralhas e outras fortificações. Por muitos anos, neste período da história da Europa, os alquimistas procuraram a pedra filosofal, ou seja, a pedra da sabedoria que, em árabe, se diz al quimia. A expressão simboliza um saber notável, na época, onde, entre outros conhecimentos, radicam a química e a mineralogia.

Para muitos desse tempo, esta pedra era a esperança de transmutar os metais ditos inferiores em ouro e de obter o elixir da longa vida. Para muitos portugueses do presente, pedra filosofal é o poema que toda a gente ouviu e, felizmente, ainda ouve na voz melodiosa de Manuel Freire, mas que muitos desconhecem ser obra de um excelente Professor de Física e sábio divulgador de ciência, Rómulo de Carvalho, de seu nome de baptismo, e, ao mesmo tempo, grande poeta com o pseudónimo de António Gedeão.

Na mesma época, falava-se de pedra de bezoar, nome de uma concreção gerada nos sistemas digestivos e urinários de certos animais como as cabras, formadas por acumulação de pelos, fibras e outros materiais ingeridos. Atribuía-se-lhes poderes extraordinários, em especial, como antídoto contra os venenos. O nome deriva do árabe bãnzar (antídoto). A pedra de Goa era um bezoar artificial preparado nos séculos XVII e XVIII pelos boticários jesuítas do Convento de São Paulo, naquela antiga colónia portuguesa. Preparada segundo uma receita secreta, dizia-se que continha na sua composição, argila, lodo, conchas, âmbar, almíscar, resina, pó de dente de narval, pedras preciosas e ópio. Um exemplar intacto, com o respectivo cálice de prata, pode ser visitado no Museu da Farmácia, em Lisboa.

(Este texto continua aqui)
Galopim de Carvalho

Não se pode implodir o Ministério?


Leio aqui no Público mais notícias sobre a incompetência do Ministério da Educação e Ciência (MEC). É tão incompetente na Educação como o é na Ciência. Ano após ano revela-se incapaz de preparar um ano lectivo com um mínimo de organização. Muitos professores ainda não sabem para onde vão. Toca-me, em particular, a desesperança dos professores contratados, que para o MEC não passam de "carne para canhão", nas filas matinais dos centros de desemprego. O ministro Nuno Crato rodeou-se de gente absolutamente incompetente que o tornou a ele, por osmose, também incompetente. Continua a querer fazer tudo a partir do "bunker" da 5 de Outubro, posto de comando central de um sistema pesado e monstruoso, em vez de mudar o sistema como tinha anunciado. Tenho uma sugestão, que me parece boa, embora não seja original: Não se pode implodir o Ministério?

Europe beware: half of your research centers could be shut down


Miguel Seabra is the new president of Science Europe. Portuguese scientists know him quite well. Under his leadership, the Portuguese Foundation for Science and Technology (FCT) decided to shut down half of the Portuguese research units. These cuts, described to the media as a "pruning", were disguised as an "evaluation process", commissioned to the European Science Foundation (ESF). The 50% cut off, defined by contract between FCT and ESF, implied that many research units had their classifications artificially lowered to meet this quota, in a faulty evaluation. If this is the new standard for science in Europe, maybe European scientists should start getting themselves ready for further "pruning" processes. 

UM CAMINHO CURRICULAR PARA A FORMAÇÃO HUMANISTA?

Entenda-se este texto não como um elogio acrítico a uma nova escola de iniciativa privada, mas como uma reflexão acerca da estrutura curricu...