sábado, 6 de fevereiro de 2010

CIÊNCIA E RELIGIÃO


A propósito do texto aqui publicado de Neil de Grasse Tyson, deixo aqui o texto da minha intervenção no ano passado na Reitoria da Universidade do Porto num debate sobre "Ciência e Religião" com D. Manuel Clemente, bispo do Porto. Neste texto, mais longo que o habitual, recupero algumas posições que já expus antes neste blogue, acrescentando naturalmente outras:

A ciência e a religião partem de necessidades diferentes do homem. A primeira trata do conhecimento do mundo natural (incluindo o próprio homem, pois o homem faz evidentemente parte do mundo), ao passo que a segunda trata da relação do homem com algo difícil de definir, com o chamado “transcendente”, do qual tomamos conhecimento através da “revelação” ou “graça”. Deus é um nome breve para o transcendente, que tem tido várias faces conforme as culturas. Aqui para nós, na minha, na nossa cultura, é o Deus da Igreja Católica.

Tanto ciência como religião são actividades humanas, pelo que têm obviamente o homem como denominador comum. A actividade científica é apenas uma de entre as várias actividades humanas. A actividade religiosa é uma outra. A arte é ainda outra. E há mais. Não se pode dizer que uma seja superior ou inferior às outras: são simplesmente diferentes, porque usam metodologias próprias e prosseguem objectivos distintos. Na minha opinião, podem e devem coexistir pacificamente, sendo até possível que ambas ganhem com a respectiva interacção. Cada uma não tem que ignorar ou excluir a outra, mas antes respeitar as suas especificidades e procurar enriquecer-se através do intercâmbio possível. Só se poderá compreender o homem se se olhar para tudo aquilo que ele faz.

A ciência é a descoberta do mundo, recorrendo à razão e à experimentação. Como uma das suas marcas profundas tem de estar pronta a corrigir os erros se houver evidência para eles, o que lhe assegura a capacidade de progressão ao longo dos tempos. A religião é um outro tipo de visão do mundo que não assenta na racionalidade – pelo menos uma racionalidade do mesmo tipo - e na experimentação, mas sim na fé, a fé que exige sempre uma descontinuidade, um “salto”... Baseia-se, em geral, em dogmas que têm uma tradição histórica profunda e que não podem ou que muito dificilmente podem ser revistos e muito menos descartados. Quando um cientista é dogmático não está decerto a ser científico. E quando um religioso está disposto a rever continuamente as verdades da sua religião, não está decerto a ser religioso.

Já se poderá ter depreendido que simpatizo com a tese do paleontólogo norte-americano Stephen Jay Gould que falou dos “dois magistérios que não se sobrepõem” no seu livro “Rocks of age. Science and Religion in the Fullness of Life.”

Contudo, quando se fala em ciência e e religião pensa-se normalmente em antagonismo. É bem conhecido o historial de conflito entre ciência e religião, nomeadamente quando se começou a compreender melhor a posição que o homem ocupa no mundo, quer o posicionamento espacial no vasto Universo do pequeno planeta que ele habita, quer o posicionamento temporal da vida humana no longo curso da história da vida. A tensão entre ciência e religião começou com o próprio início da ciência moderna quando o nascimento da astronomia, fundada na observação com o telescópio, pôs em causa cosmogonias antigas, nomeadamente o modelo cosmológico de Aristóteles e Ptolomeu, que a Igreja Católica sabiamente tinha conseguido conciliar com o texto bíblico ao longo da Idade Média. O episódio de Galileu Galilei (um homem profundamente crente e até bem relacionado com a hierarquia da Igreja Católica, que está sepultado na igreja de Santa Maria de la Fiore, em Florença) em 1633, quando ele se viu obrigado a abjurar das ideias de Copérnico, por elas contrariarem certos passos bíblicos, no Tribunal da Inquisição, é bem conhecido. Menos conhecido é o facto de o Papa João Paulo II ter de certo modo revogado a sentença contra Galileu, ao admitir, embora não de uma forma muito explícita, que se tratou de um erro. Esteve patente há pouco no Vaticano uma grande exposição de astronomia, que nos veio recordar que a criação da ciência moderna foi feita no quadro do pensamento cristão e católico.

Um parêntesis para falar que as observações astronómicas de Galileu foram confirmadas por sábios jesuítas, tendo um dos maiores jesuítas desse tempo Cristóvão Clavius, um admirador do nosso Pedro Nunes, sido muito simpático para com Galileu, embora nunca tivesse ido além do sistema de Aristóteles e Ptolomeu. Nem talvez houvesse na época – diga-se em sua defesa – evidência suficiente para abonar a tese de Copérnico, que a Igreja estava disposta a aceitar como uma mera hipótese.

Galileu, quando fez notar na sua famosa carta à Grande Duquesa Cristina que "a intenção do Espírito Santo é ensinar-nos como ir para o céu e não como o céu se move", estava a citar um alto dignitário da Igreja, o cardeal Baronius, bibliotecário do Vaticano e grande historiador da Igreja. As contradições entre a Bíblia e o conhecimento científico ocorreram várias vezes ao longo da história e foram, em geral, acomodadas pelos religiosos mais esclarecidos das várias épocas. Por exemplo, há passos no Antigo e no Novo Testamento que dizem ou parecem dizer que a Terra é plana, que levaram alguns antigos padres da Igreja a rejeitar o conhecimento grego de que a Terra era uma esfera. No entanto, cristãos cultos aceitaram a forma esférica da Terra muito antes das viagens de circumnavegação. Conforme comentou o Prémio Nobel da Física norte-americano Steven Weinberg: “Dante achou até que o interior da Terra esférica era um bom lugar para colocar os pecadores.”

Depois de Galileu veio Newton, que era também profundamente religioso, cristão mas não católico. Para ele não havia dúvidas que o Universo era obra divina e repetiu várias vezes, na sua obra, o nome de Deus. Ficou famosa a posterior frase do matemático Pierre Laplace a Napoleão em resposta à pergunta do imperador sobre a posição de Deus no seu sistema do mundo? ”Sir, não tive necessidade dessa hipótese”. É, porém, errado pensar que a concepção mecanicista de Newton dispensasse Deus, pois o próprio Newton pensava que seria necessária a intervenção localizada de Deus – o que podemos chamar milagres – para conservar a ordem do mundo, no que foi contraditado pelo matemático e filósofo alemão Gottfried Leibniz que defendia um Deus "preguiçoso", um Deus que estava a descansar depois dos dias da criação. Nesse tempo, como se vê, as discussões eram simultâneamente científicas e teológicas.

Mas o ponto mais alto da tensão entre ciência e religião, levantou-se no século XIX: foi a questão da evolução das espécies, incluindo a evolução da espécie humana, que foi compreendida pelo biólogo inglês Charles Darwin a meio do século XIX. Ao contrário do caso Galileu, o caso Darwin ainda de certo modo perdura... Darwin, que estudou Teologia em Cambridge, passou numa fase tardia da vida de anglicano a agnóstico (uma palavra que surgiu na época) e está sepultado na Abadia de Westminster em Londres. Na Origem das Espécies e nos seus livros seguintes, o sábio inglês fez duas coisas:

- Dispensou a criação especial de cada espécie, uma vez que elas são mutáveis, e evoluem umas das outras.

- Disse que o homem não tem um lugar especial fora da grande árvore da vida. É o resultado de milhões de anos de anos de evolução.

Actualmente não persistem dúvidas no seio da comunidade científica sobre a validade, no essencial, da teoria da evolução de Darwin. Não se trata de afirmações poéticas, mas sim da súmula dos resultados de numerosas observações e experiências e que a ciência estará disposta a rever mas apenas na hipótese de haver novas observações e experiências que digam o contrário. Hoje em dia não faz muito sentido falar de biólogos evolucionistas pois todos os biólogos são evolucionistas, tal como todos os astrónomos são galilaicos. Conforme disse um biólogo moderno: “Em biologia nada faz sentido a não ser à luz da evolução”. A teoria da evolução é um facto mais do que uma mera teoria, tal como a translação da Terra em volta do Sol é um facto e não uma teoria. Não se devia, por isso, sequer dizer “teoria”.

É curioso que um dos responsáveis pela comprovação da teoria da evolução foi, no século XIX, um monge agostiniano, o austríaco George Mendel, que, ao cultivar ervilhas no seu mosteiro, originou de uma forma quase-anónima a genética. E foi a genética que, ao longo do século XX, veio fornecer inúmeras provas à teoria da evolução.

Acontece que, em certos sítios da chamado Ocidente, nomeadamente nalguns estados dos Estados Unidos da América, a visão científica da vida em geral e do homem em particular, que vê todos os seres vivos como resultado de um conjunto de transformações lentas ocorridas ao longo de milhões e milhões de anos, é repudiada por contrariar o conteúdo do Génesis, segundo o qual Deus criou o mundo em apenas seis dias e, no final, fez o homem a partir do “pó da Terra”. Algumas pessoas pretendem que essa teoria criacionista seja ensinada nas aulas de ciências excluindo a teoria da evolução ou, quando muito, em pé de paridade com ela. Para essas pessoas existe um sério dilema entre ciência e religião que querem resolver em prejuízo da ciência. Têm dificuldades em conciliar o que se aprende nas aulas de ciências, resultado da observação e da experiência, com o que se aprende na catequese, assente na transmissão da palavra da Bíblia. A Igreja Católica – verdade seja dita – tem-se distinguido de algumas igrejas evangélicas que têm alimentado ideias baseadas literalmente na Bíblia, mostrando uma atitude mais aberta e receptiva à teoria da evolução.

Terá de haver oposição entre ciência e religião? Penso que não. Julgo – como já atrás disse - que não há uma incompatibilidade – nem de fundo nem de superfície - entre ciência e religião. Mas, para isso, como mostram os exemplos de Galileu e de Darwin, tem de se abandonar a ideia de que a Bíblia é ou possa ser um livro de ciência. O seu conteúdo não foi fornecido pelo método científico, tendo antes a ver com a crença na divindade alicerçada na tradição. O Génesis é um livro poético, escrito e reescrito por vários autores, que deve ser lido no respectivo contexto e não levado à letra. O criacionismo como disciplina científica não faz, por isso, o mínimo sentido.

Pode-se ser crente e ser cientista? Sim, pode. Muitos exemplos da história da ciência e da actualidade mostram que é pacífica a coexistência de ciência e religião. De uma forma apenas metafórica (não é uma afirmação científica!), direi que ocupam partes do cérebro diferentes. Não penso, por isso, que a crença religiosa de um cientista o limite, que lhe retire objectividade na ciência que faz. Um cientista sabe que, quando está num laboratório, não está numa igreja e que, quando está numa igreja, não está num laboratório. Claro que haverá sempre excepções que confirmarão esta regra...

Em abono dessa posição, refiro os casos de sacerdotes que são também cientistas. A Igreja Católica possui um Observatório Astronómico, que é dirigido por um padre jesuíta, e no qual se faz trabalho científico moderno. Por outro lado, o pastor inglês John Polkhingorne é físico de altas energias (e também um conhecido divulgador de ciência). Para dar um exemplo não de um sacerdote, mas de um cristão fervoroso, na área da biologia, refiro o norte-americano Francis Collins, nomeado por Obama Presidente do NIH, a maior agência de investigação médica dos Estados Unidos.

Claro que há também muitos cientistas que não são crentes, como o já referido Weinberg ou o biólogo inglês Richard Dawkins, autor de O Relojoeiro Cego”, um livro notável que realça o papel do acaso no decurso da evolução, e do livro A Desilusão de Deus, um livro quanto a mim menos notável por empreender uma verdadeira “cruzada” contra a religião.

A história da ciência mostra que a fé e a falta dela se encontram distribuídas tanto por cientistas como por não-cientistas. A crença em Deus não pode ser encontrada no fundo de um telescópio ou de um microscópio, mas tem a ver com intrincados factores sociológicos e psicológicos. Encontrei uma estatística na Internet sobre a religião dos 100 cientistas mais influentes: a conclusão é que há 12% de católicos, contra 11% de ateus e 16% de judeus (não sei explicar este último número anormalmente grande...) Sendo os cientistas pessoas comuns antes de serem cientistas, é natural que neles se encontrem os mesmos fenómenos de crença ou de descrença que se encontram na sociedade em geral. Em particular, é natural que se encontrem nos cientistas as mesmas afiliações religiosas que se encontram na sociedade em que vivem (um outro Prémio Nobel da Física, o paquistanês Abdul Salam, era muçulmano).

Este tema dá pano para muitas mangas. Quando se quer enfatizar uma eventual oposição entre ciência e religião, encontramos cientistas a usar argumentos não-científicos e não-cientistas a ensaiarem argumentos científicos. Claro que a autoridade de um cientista na sua ciência não lhe confere particular autoridade num assunto não-científico. E julgo que o mesmo valerá para a teologia (confesso a minha grande ignorância a respeito da teologia). Noto apenas como curiosidade que alguns, poucos, cientistas se tornaram teólogos, mas há muito poucos teólogos que se tenham tornado cientistas.

Nos cientistas o caso do físico suíço e norte-americano de origem alemã Albert Einstein é algo especial pois ele, à maneira do filósofo holandês de origem portuguesa Bento Espinosa, substituía Deus pela “harmonia cósmica”. Em 1929, o rabino norte-americano de Nova Iorque colocou a Einstein por via telegráfica uma pergunta que procurava esclarecer a posição anti-relativista do arcebispo católico de Boston segundo o qual a “relatividade era uma especulação confusa, que produz a dúvida universal sobre Deus e a sua criação”. A resposta em menos de 50 palavras (o rabino tinha pré-pago a resposta com esse limite preciso!) ficou famosa:

”Acredito no Deus de Espinosa, que se revela na ordem harmoniosa daquilo que existe e não num Deus que se interesse pelo destino e pelos actos dos seres humanos”.

Já antes Einstein, que apesar da sua origem judaica nunca acreditou num Deus pessoal como o do Antigo Testamento, tinha respondido assim a alguém que lhe perguntou se era religioso:

“Sim, sou, pode dizer isso. Tente penetrar, com os seus recursos limitados, nos segredos da Natureza, e o senhor descobrirá que, por detrás de todas as concatenações discerníveis, resta algo de subtil, intangível e inexplicável. A veneração dessa força, que está além de tudo o que podemos compreender, é a minha religião. Nessa medida, sou realmente religioso”
.

Einstein colocou-se a si mesmo a questão da história do Universo e é com base na teoria dele que hoje formulamos a teoria do Big Bang, uma teoria de evolução cósmica. Pode-se perguntar: Quando se discutem (ou testam, como hoje acontece no LHC) os primeiros instantes do Universo há espaço para a ideia da intervenção divina na criação? Pode Deus ser encontrado no acelerador?

A ideia de que houve um Big Bang, isto é, o início do espaço-tempo, tem uma base lógico-empírica bastante sólida. Neste momento, não há sequer uma teoria alternativa que se revele consistente. Portanto, não é de modo nenhum uma ideia de base religiosa. O facto de essa ideia moderna coincidir, embora de uma maneira geral e algo vaga, com uma ideia bastante antiga da Igreja Católica, é sem dúvida interessante, mas não mais do que isso... A este respeito lembro que um dos autores da teoria do Big Bang foi o astrofísico belga Georges Lemaître, que era sacerdote católico. E acrescento que alguns altos dirigentes católicos se congratularam com o que chamaram a “base científica” da criação descrita na Bíblia. Mas lembro que, desde o tempo de Galileu, a Bíblia não é um livro de ciência... Os astrofísicos não trabalharam com base na Bíblia para agradar ao Papa ou a qualquer outro líder religioso. Olham com atenção para o céu com poderosos telescópios, instrumentos muito superiores aos que Galileu usou há 400 anos, e são hoje capazes de fazer experiências na Terra que recriam, por pequenos tempos e em pequenos espaços, as condições que terão existido por todo o lado no cosmos primitivo. As suas conclusões, por absoluta falta de informação, nada dizem sobre o que se terá passado antes do Big Bang (a pergunta sobre a causa deste é legítima, mas não pode ser respondida pela ciência!). Os astrofísicos não podem - nem aliás querem - provar a existência ou a inexistência de Deus. O astrofísico inglês Stephen Hawking e outros falam, de facto, de Deus, mas trata-se de uma imagem, uma imagem que eles sabem ter força e impacte. Essas imagens podem ser e são muitas vezes perigosas porque dão a entender que há uma mistura íntima entre ciência e religião quando, de facto, não há. Elas mostram apenas que alguns cientistas são uns bons comunicadores...

Prefiro fazer a ponte entre ciência e religião por outros lados:

1) Embora sem ser de tipo religioso, o cientista também tem crenças no seu trabalho. Um cientista tem de acreditar na sua hipótese. A grande diferença relativamente à fé religiosa é que o cientista tem de estar preparado para deixar de acreditar na sua hipótese se a observação ou a experiência não a confirmar. Há um grande lugar para a inspiração, para a imaginação e para a livre criatividade no trabalho científico. Por exemplo, só certos génios são capazes de certas hipóteses geniais. E nem eles sabem de onde lhe vêm essas intuições. Pode dizer-se até que há algo de irracional na racionalidade científica, embora as modernas neurociências tenham vindo a procurar esclarecer o modo como funciona o cérebro humano. Vai, com certeza, saber-se mais sobre ele e talvez se verifique que a criatividade em ciência não é lá muito diferente da criatividade artística - o cérebro encontra subitamente unidade em algo que parecia desunido. De repente, estabelece um sentido onde não parecia haver sentido nenhum. Faz-se luz onde estava escuro. O cérebro humano parece “feito” para procurar um sentido razoável das coisas. É racional. Mas convém acrescentar que o cérebro humano também parece “feito” para dar sentidos não razoáveis, também é irracional. Alberga tanto a racionalidade como a irracionalidade.

2) E aqui há uma outra ponte a fazer entre ciência e religião. O cérebro científico e religioso é o mesmo. Como funcionam essas capacidades e donde vêm? Na linha de Darwin, embora talvez extrapolando demasiado, há desenvolvimentos científicos recentes que atribuem à evolução humana a origem e desenvolvimento das religiões. Acreditar em Deus terá sido uma vantagem competitiva, tanto para um indivíduo como para o seu grupo. Isto é, a pertença a um grupo religioso terá sido um factor que ajudou à sobrevivência do indivíduo e do grupo. Esta ideia, expressa, por exemplo, pelo biólogo inglês Lewis Wolpert, não é consensual e está a fazer o seu caminho. Não sabemos ainda o suficiente, mas é curioso que o aparecimento e a afirmação do fenómeno religioso sejam hoje objecto de pesquisa científica. Não sei o que a Igreja tem a dizer sobre isso, mas suspeito que as ciências cognitivas sejam hoje o domínio controverso que outrora foi o lugar da astronomia e da biologia.

3) Há uma outra ponte final a fazer. Tem a ver com sobrevivência do planeta e do homem. E ela ficou bem expressa pelo astrofísico norte-americano Carl Sagan, um agnóstico que procurou alianças da ciência com a religião em benefício do homem e da Terra, em prol da sobrevivência de ambos. Ele achou que a paz era um valor que devia ser perseguido tanto pela ciência como pela religião. E que o amor era uma arma essencial para a paz. Disse, em defesa da tolerância: “Se um ser humano não concordar contigo, deixa-o viver em paz. Não vai encontrar outro igual em cem milhões de galáxias”.

Deixo a última palavra a Sagan tirando-a do seu livro As Variedades da Experiência Científica:

“Será que tentar perceber de alguma maneira o universo revela uma certa falta de humildade? Creio que é verdade que a humildade é a única resposta adequada perante o universo, mas não uma humildade que nos impeça de procurar descobrir a natureza do universo que estamos a admirar. Se procurarmos essa natureza, então o amor pode ser inspirado pela verdade, em vez de se basear na ignorância ou na auto-ilusão. Se existe um Deus criador, será que Ele ou Ela ou Isso ou seja qual for o pronome apropriado preferiria uma espécie de cepo embrutecido que o adorasse sem nada compreender? Ou preferiria que os seus devotos admirassem o universo real em toda a sua complexidade? Quanto a mim, parece-me a ciência é, pelo menos parcialmente, adoração informada. A minha crença mais profunda é que, se existe um deus vagamente do género tradicional, então a nossa curiosidade e inteligência provêm desse deus. Não saberíamos apreciar esses dons se reprimíssemos a nossa vontade de nos explorarmos a nós próprios e ao universo”.

MEMBROS PORTUGUESES DA ROYAL SOCIETY OF LONDON


Na sequência do meu post anterior, eis a lista dos 25 membros portugueses da Royal Society,RS (segundo os Arquivos da RS e o artigo de Rómulo de Carvalho, "Portugal nas "Philosophical Transactions" nos séculos XVII e XVIII", Revista Filosófica, nº 11, Coimbra, 1956):

Nome / (Datas Nascimento-Morte) / Data eleição para a RS / Actividade profissional
  1. Cunha, António Álvares da (1626-1690), 9/4/1668, Arquivistae Diplomata
  2. Faria, José de (? – 1703), 30/11/1682, Diplomata
  3. Sequeira Samuda, Isaac de (1696-1730?), 27/6/1723, Médico
  4. Galvão, António de Castelo Branco (? – 1730), 15/4/1725, Diplomata
  5. Carbone, João Baptista (1694-1750), 6/11/1729, Astrónomo
  6. Castro Sarmento, Jacob de (1691-2?-1762), 5/2/1730, Médico
  7. Mendonça Corte-Real, Diogo de (1658 - 1736), 5/2/1736, Diplomata
  8. Azevedo Coutinho, Marco António de (1688-1750), 6/05/1736, Diplomata
  9. Menezes, Francisco Xavier de, Conde da Ericeira (1673-1743), 2/11/1738, Político
  10. Carvalho e Melo, Sebastião José de, Marquês de Pombal (1699-1785), 15/5/1740, Diplomata
  11. Portugal, Bento de Moura (1702-1766), 05/2/1741, Físico e engenheiro
  12. Mateus de Saraiva (?-1765?), 21-04-1743, Médico
  13. Andrade Encerrabodes, António Freire de (1699-1783) 04/5/1749, Diplomata
  14. Barbosa, João Mendes Sachetti Barbosa (1714- 1773-4?), 10/5/1750, Médico
  15. Silveira, Joaquim José Fidalgo da (171? - ?), 31/10/1751, Diplomata
  16. Chevalier, João Baptista (1722-1801), 23/5/1754, Astrónomo
  17. Melo e Castro, Martinho de (1716-1795), 21/04/1757, Diplomata
  18. Bragança, D. João Carlos de, 2º Duque de Lafões (1719-1806), 17/11/1757
  19. Almeida, Teodoro de (1722-1804), 09/03/1758, Físico
  20. Pereira, Jacob Rodrigues (1715-1780), 24/01/1760, Professor de surdos-mudos
  21. Magalhães, João Jacinto de Magalhães (1722-1790), 21/4/1774 Físico
  22. Sousa Coutinho, Luiz Pinto de, Visconde de Balsemão (1735-1804), 19/04/1787 Político
  23. Freire, Cipriano Ribeiro (1749-1824) 31/3/1791, Diplomata
  24. Serra, José Correia da (1750-1823), 3/03/1796, Naturalista e diplomata
  25. Stockler, Francisco de Borja Garção (1759-1829), 1/04/1819, Matemático
Na imagem, o Marquês de Pombal segundo Menez, no metro de Lisboa.

(lista actualizada em 12/9/2011)

sexta-feira, 5 de fevereiro de 2010

PORTUGAL E A ROYAL SOCIETY


Minha crónica no semanário "Sol" de hoje (revista "Tabu"):

Este ano, a Royal Society de Londres, a Academia das Ciências do Reino Unido e a mais antiga academia do seu género ainda em actividade, está a comemorar os seus 350 anos. Com efeito, foi em 28 de Novembro de 1660 que uma dúzia de sábios decidiram fundar um “colégio para promover a aprendizagem físico-matemática experimental”, reconhecido dois anos depois pelo rei Carlos II (o marido de Catarina de Bragança).

Logo em 1668 era eleito o primeiro membro português, António Álvares da Cunha, guarda-mor da Torre do Tombo e pai de D. Luís da Cunha, que haveria de ser embaixador em Londres no tempo do rei D. João V. Ao longo dos séculos XVII e XVIII os livros de assentos da Royal Society incluem 22 nomes portugueses. O 10.º foi o Marquês de Pombal, que, tal como D. Luís da Cunha, foi embaixador português na capital britânica. Decerto que a sua entrada como fellow, em 1740, foi mais uma gentileza diplomática do que o reconhecimento do mérito científico do nosso futuro primeiro-ministro. Já o mesmo não se pode dizer do português eleito no ano seguinte: Bento de Moura Portugal, um dos nossos maiores físicos e engenheiros (foi comparado a Newton por um sábio alemão da época: "depois do grande Newton em Inglaterra só Bento de Moura em Portugal”).

Moura Portugal, apesar de irmanado ao Marquês nos anais da Royal Society, foi uma das numerosas vítimas do regime pombalino. Acusado por carta anónima de nutrir simpatia pelos Távoras, acabou por falecer, no forte da Junqueira, em 1760, ao fim de dez anos de cativeiro em condições miseráveis, que o levaram à loucura e até a uma tentativa de suicídio. De nada lhe valeram os notáveis serviços que prestou à coroa, nomeadamente na área das obras hidráulicas. Nem a invenção de uma “máquina simples de fogo”, um tipo de máquina a vapor, que foi demonstrada em Belém perante a família real em 1742 e divulgada mais tarde ao mundo científico pelo engenheiro inglês John Smeaton, o “pai” da engenharia civil, precisamente nas Philosophical Transactions, a revista da Royal Society.

Na sua minúscula cela nos cárceres da Junqueira, onde também padeceram os Távoras, Moura Portugal ainda conseguiu papel, pena e tinta improvisados (o papel era pardo e untado, a pena um osso de galinha e a tinta um preparado de ferrugem) para escrever secretamente algumas notas que haveriam de sair postumamente, 61 anos mais tarde, num livro intitulado “Inventos e varios planos de melhoramento para este Reino”. Que o melhoramento do Reino foi difícil, devido entre outras causas à falta de cientistas e de outros livres pensadores, é mostrado pelo facto de, ao longo dos séculos XIX e XX, só ter sido acrescentado mais um nome português ao livro de fellows da Royal Society!

quinta-feira, 4 de fevereiro de 2010

GUERRAS SANTAS 2

Segunda e última parte do texto de Neil de Grasse Tyson inserto no livro "Morte pelo Buraco Negro e Outros Embaraços Cósmicos" (Gradiva, 2010):

"VISTO QUE OS CIENTISTAS OSTENTAM níveis tão elevados de cepticismo, algumas pessoas poderão ficar surpreendidas por saber que os cientistas atribuem as suas maiores recompensas e elogios àqueles que, de facto, descobrem falhas em paradigmas estabelecidos. Essas mesmas recompensas também vão para aqueles que criam novas formas de compreender o universo. Quase todos os cientistas famosos, escolham o vosso favorito, tiveram este tipo de elogios ao longo das suas vidas. Este caminho profissional para o sucesso está nas antípodas daquilo que existe em quase todas as outras organizações humanas — sobretudo a religião.

Nada disto significa que o mundo não contenha cientistas religiosos. Numa sondagem recente acerca de crenças religiosas em profissionais de matemática e ciências (Larson e Witham, 1998), 65 por cento dos matemáticos (a percentagem mais elevada) declararam ser religiosos, tal como 22 por cento dos físicos e astrónomos (a percentagem mais reduzida). A média nacional entre todos os cientistas é de cerca de 40 por cento, e ficou essencialmente inalterada durante o século passado. Para referência, cerca de 90 por cento do público americano afirmam ser religiosos (uma das percentagens mais elevadas na sociedade ocidental), de forma que, ou as pessoas não-religiosas se sentem atraídas para estudos em ciência, ou estudar ciência nos faz menos religiosos.

Mas então e aqueles cientistas que são religiosos? Os investigadores de sucesso não obtém a sua ciência das suas crenças religiosas. Por outro lado, os métodos da ciência não têm actualmente nada a contribuir para a ética, a moral, a beleza, o amor, o ódio ou a estética. Esses são elementos vitais da vida civilizada e centrais para as preocupações de quase todas as religiões. Isto significa que, para muitos cientistas, não há conflito de interesses.

Como em breve veremos em detalhe, quando os cientistas falam de Deus geralmente invocam-no nas fronteiras do conhecimento, regiões onde deveremos ser o mais humildes possível e onde o nosso maravilhamento é máximo.

É possível cansarmo-nos desse maravilhamento?

No século XIII, Afonso, o Sábio (Afonso X), o rei de Espanha, que era também um académico importante, sentia alguma frustração relativamente à complexidade dos epiciclos de Ptolomeu, necessários para explicar um universo geocêntrico. Sendo menos humilde do que outros que também investigavam as fronteiras do conhecimento, Afonso disse uma vez: «Tivesse eu estado presente na criação, teria dado algumas dicas úteis para um ordenamento melhor do universo.» (Carlyle 2004, liv. II, cap. X).

Completamente de acordo com as frustrações do Rei Afonso com o universo, Albert Einstein escreveu, numa carta a um colega, que «Se Deus criou o mundo, de certeza que a sua preocupação principal não foi tornar a sua compreensão fácil para nós» (1954). Quando Einstein não conseguiu entender a razão pela qual um universo determinista pudesse requerer os formalismos probabilistas da mecânica quântica, ele disse que «É difícil conseguir dar uma espreitadela às cartas de Deus. Mas que Ele quisesse jogar aos dados com o mundo... é algo em que não consigo acreditar por um momento que seja» (Frank 2002, p. 208). Quando mostraram a Einstein um resultado experimental que, se estivesse correcto, teria derrubado a sua nova teoria da gravidade, Einstein comentou que «O Senhor é subtil, mas não é malicioso» (Frank 2002, p. 285). O físico dinamarquês Niels Bohr, contemporâneo de Einstein, finalmente fartou-se dos comentários de Einstein acerca de Deus e disse que Einstein deveria parar de dizer a Deus o que ele tinha de fazer! (Gleick 1999)

Hoje em dia ouve-se um ou outro astrofísico original (talvez um em cem) a invocar Deus em público quando lhe perguntam de onde é que todas as nossas leis da física vieram, ou o que é que havia antes do big bang. Tal como temos vindo a antecipar, essas perguntas englobam a fronteira moderna das descobertas cósmicas e, de momento, transcendem as respostas que os dados e as teorias de que dispomos nos podem dar. Já existem algumas ideias promissoras, como por exemplo a cosmologia inflacionária e a teoria das cordas.

Essas ideias poderão, em última análise, acabar por dar-nos as respostas a essas perguntas, empurrando para ainda mais longe o limite do nosso deslumbramento. As minhas opiniões pessoais são completamente pragmáticas e ecoam parcialmente as de Galileu, a quem é atribuída a responsabilidade de ter dito, durante o seu julgamento, que «A Bíblia diz-nos como ir para o Céu, não como os céus funcionam» (Drake 1957, p. 186). Galileu disse mais ainda, numa carta para a grã-duquesa da Toscânia: «Em minha opinião, Deus escreveu dois livros. O primeiro livro é a Bíblia, onde os seres humanos podem descobrir as respostas para as suas questões acerca de valores e de moral. O segundo livro de Deus é o livro da natureza, que nos permite usar observações e experiências para responder às nossas próprias questões acerca do universo» (Drake 1957, p. 173).

Eu limito-me a seguir aquilo que resulta. E aquilo que resulta é o cepticismo salutar que está incorporado no método científico. Acreditem quando lhes digo que se a Bíblia se tivesse revelado uma fonte riquíssima de respostas científicas e de compreensão do universo, nós estaríamos a miná-la diariamente para fazermos descobertas cósmicas. Contudo, o meu vocabulário de inspiração científica sobrepõe-se imenso ao dos entusiastas da religião. Eu, como outros, sinto-me humilde na presença dos objectos e dos fenómenos do nosso universo. E vêem-me lágrimas aos olhos devido à admiração que sinto pelo seu esplendor. Mas faço-o sabendo e aceitando que, se eu propuser um Deus que conceda a sua graça ao nosso vale de desconhecimento, pode bem chegar o dia em que, devido ao poder dos avanços da ciência, já não sobrem vales nenhuns."

Neil deGrasse Tyson

GUERRAS SANTAS 1

Sobre um tema que tem sido muito debatido neste blogue - ciência e religião - eis, por amabilidade da Gradiva, em pré-publicação um texto de um dos mais conhecidos cientistas e divulgadores de ciência norte-americanos Neil deGrasse Tyson (em baixo, na figura), que ainda não tinha nenhum livro traduzido entre nós antes daquela editora agora publicar "Morte pelo Buraco Negro e Outros Embaraços Cósmicos" (a sair a 22 de Fevereiro). Este é, em duas partes, o Cap. 41 de um grande livro, cuja última parte é toda ela dedicada ao tema de "Deus e a ciência".

"Em quase todas as palestras públicas que dou acerca do universo, tento sempre reservar tempo suficiente no fim para perguntas. A sequência de temas é previsível. Primeiro, as perguntas dizem directamente respeito à palestra. Depois migram para assuntos astrofísicos sexy, como os buracos negros, os quasares e o big bang. Se me sobra tempo suficiente depois de responder a todas estas perguntas, e se a palestra for na América, eventualmente o assunto vai chegar a Deus. Há questões frequentes como, por exemplo «Os cientistas acreditam em Deus?», «Você acredita em Deus?», «Os seus estudos fazem de si mais ou menos religioso?»

Os editores acabaram por descobrir que se pode fazer uma carrada de dinheiro com Deus, sobretudo quando o autor é um cientista e quando o título do livro inclui uma justaposição de temas científicos e religiosos. Vários destes livros foram muito bem-sucedidos, como por exemplo Deus e os Astrónomos, de Robert Jastrow, A Partícula de Deus, de Leon M. Lederman, A Física da Imortalidade: A Cosmologia Moderna, Deus e a Ressurreição dos Mortos, de Frank J. Tipler, e os dois livros de Paul Davies, Deus e a Nova Física e A Mente de Deus. Cada um destes autores é um físico ou astrofísico conceituado e, embora os livros não sejam estritamente religiosos, encorajam o leitor a trazer Deus para conversas acerca de astrofísica. Até o falecido Stephen Jay Gould, um buldogue darwiniano e agnóstico devoto, se juntou ao desfile de títulos com o seu livro Rock of Ages: Science and Religion in the Fullness of Life. O sucesso financeiro destas publicações indica que se ganha mais dólares com o público americano se se for um cientista que fala abertamente de Deus.

Depois da publicação da Física da Imortalidade, que sugeria que as leis da física poderiam permitir que nós e as nossas almas poderíamos continuar a existir muito depois de termos morrido, a digressão literária do livro de Tipler incluiu imensas palestras muito bem pagas para grupos religiosos protestantes. Esta subindústria lucrativa floresceu ainda mais nos últimos anos, graças aos esforços efectuados pelo riquíssimo fundador do fundo de investimentos Templeton, Sir John Templeton, para encontrar pontos de ligação entre a ciência e a religião e tentar conciliá-las. Além de patrocinar workshops e conferências acerca deste assunto, a Fundação Templeton procura cientistas bem conhecidos e com visões favoráveis à religião, para lhes atribuir um prémio anual cujo valor monetário é superior ao do prémio Nobel.

Que não haja qualquer dúvida de que não existe qualquer terreno comum entre a ciência e a religião, tal como elas são hoje em dia praticadas. Como foi exaustivamente documentado no tomo do século XIX Uma História da Guerra da Ciência contra a Teologia na Cristandade pelo historiador, e outrora presidente da Universidade de Cornell, Andrew D. White, a história revela-nos uma longa relação de antagonismo entre a religião e a ciência, história essa dependente de quem controlava a sociedade em cada altura. As afirmações da ciência baseiam-se na verificação experimental, enquanto as afirmações da religião se baseiam na fé. Estas são duas abordagens do conhecimento irreconciliáveis, o que assegura uma eternidade de debates sempre que os dois campos se encontram. Tendo dito isso, é provavelmente boa ideia manter os dois lados a falar um com o outro, como se faz nas negociações de reféns.

Este cisma não aconteceu por falta de tentativas prévias de aproximar ambos os lados. Grandes mentes científicas, desde Cláudio Ptolomeu no século II até Isaac Newton no século XVII, investiram os seus intelectos formidáveis em tentativas de deduzir a natureza do universo a partir de afirmações e filosofias contidas em escritos religiosos. De facto, por altura da sua morte, Newton tinha escrito mais palavras acerca de Deus e de religião do que acerca das leis da física, incluindo tentativas fúteis de invocar a cronologia bíblica para compreender e prever eventos no mundo natural. Se algum destes esforços tivesse sido bem sucedidos, hoje em dia a ciência e a religião seriam essencialmente indistinguíveis.

A razão de isso não ter acontecido é fácil de explicar. Até hoje, ainda não vi nenhuma previsão bem-sucedida acerca do mundo físico que tenha sido inferida ou extrapolada do conteúdo de um qualquer documento religioso. De facto, posso até fazer uma afirmação mais forte. De todas as vezes que as pessoas tentaram fazer previsões precisas acerca do mundo físico usando documentos religiosos, elas têm-se enganado de forma clamorosa. Por previsão entendo uma afirmação precisa acerca do comportamento não-testado de objectos ou de fenómenos no mundo natural, registada antes de esse acontecimento ocorrer. Quando o modelo só prevê uma coisa depois de ela ter acontecido, fez uma «pós-visão», não uma previsão. As pósvisões são a pedra basilar da maior parte dos mitos de criação e também, claro está, das Just So Stories de Rudyard Kipling, em que explicações de fenómenos quotidianos explicam aquilo que já é sabido. No negócio científico, contudo, cem pós-visões não chegam a valer sequer uma única previsão bem-sucedida.

NO TOPO DA LISTA de previsões religiosas estão as afirmações perenes de que o mundo irá acabar, nenhuma das quais se verificou. Como exercício, é razoavelmente inócuo. Mas outras afirmações e previsões chegaram a impedir, ou até mesmo a inverter, o progresso da ciência. O melhor exemplo é o julgamento de Galileu (que leva o meu voto para o julgamento do milénio) onde ele mostrou que o universo era fundamentalmente diferente das opiniões dominantes da Igreja Católica. No entanto, para ser justo para com a Inquisição, é preciso dizer que um universo centrado na Terra fazia carradas de sentido do ponto de vista observacional. Com mais um enorme complemento de epiciclos para explicar os movimentos peculiares dos planetas contra as estrelas de fundo, o bom e velho modelo centrado na Terra não entrava em conflito com nenhumas observações conhecidas. Isto continuou a ser verdade muito depois de Copérnico ter proposto o seu modelo de um universo centrado no Sol, um século antes. O modelo geocêntrico também se enquadrava perfeitamente com os ensinamentos da Igreja Católica e com as interpretações prevalecentes da Bíblia, onde a Terra é inequivocamente criada antes do Sol e da Lua, como é descrito nos primeiros versos do Génesis. Se foram criados antes, está bom de ver que têm de estar no centro de todo o movimento. Onde mais poderiam estar? Mais ainda, era suposto que os próprios Sol e Lua fossem orbes lisas. Porque que é que uma divindade perfeita e omnisciente iria criar outra coisa qualquer?

É claro que tudo isto mudou com a invenção do telescópio e as observações dos céus que Galileu fez. O novo aparelho óptico revelou aspectos do cosmos que entravam em conflito directo com as concepções que as pessoas tinham de um universo divino centrado na Terra e livre de imperfeições: a superfície da Lua era acidentada e rochosa; a superfície do Sol tinha manchas que se moviam ao longo da sua superfície; Júpiter tinha luas próprias que orbitavam em torno de Júpiter e não da Terra; e Vénus tinha fases, tal como a Lua. Devido às suas descobertas radicais, que abalaram a cristandade — e por se ter armado em idiota pomposo a este respeito —, Galileu foi julgado, declarado culpado de heresia e sentenciado a prisão domiciliária. Isto foi uma punição ligeira quando se considera aquilo que sucedeu ao monge Giordano Bruno. Umas quantas décadas mais cedo, Bruno tinha sido declarado culpado de heresia e queimado vivo, por ter sugerido que a Terra poderia não ser o único local do universo que albergava vida.

Não quero sugerir que cientistas competentes, seguindo o método científico de forma perfeita, não se tenham enganado de forma clamorosa. É claro que sim. A maior parte das afirmações científicas feitas acerca de assuntos nos limites da investigação irá, em última análise, revelar-se errada, devido sobretudo a dados maus ou incompletos e, por vezes, a erros. Mas o método científico, que nos permite fazer expedições até ao fundo de becos sem saída intelectuais, também promove ideias, modelos e teorias com poder de previsão que podem estar espectacularmente correctos. Não há nenhum outro ramo na história do pensamento humano que tenha sido tão bem-sucedido em descodificar os comos e porquês do universo.

De vez em quando, a ciência é acusada de ser uma actividade dogmática ou teimosa. As pessoas fazem esse tipo de acusações frequentemente, quando vêem cientistas a desvalorizar com rapidez coisas como a astrologia, o paranormal, avistamentos do Pé Grande e outras áreas de interesse humano que falham sempre testes experimentais bem controlados, ou que não possuem qualquer tipo de indícios fiáveis. Mas não se sintam ofendidos. Os cientistas aplicam este mesmo tipo de cepticismo a quaisquer afirmações que apareçam nas revistas de publicação científica. Os padrões são idênticos. Reparem naquilo que sucedeu quando os químicos do Utah B. Stanley Pons e Martin Fleischmann declararam, numa conferência de imprensa, que tinham criado fusão nuclear «fria» na sua bancada de laboratório. Os cientistas actuaram rápida e cepticamente. Poucos dias depois da conferência de imprensa, era já claro que ninguém conseguia reproduzir os resultados de fusão fria que Pons e Fleischmann defendiam. O seu trabalho foi descartado de forma sumária. Ocorrem histórias semelhantes praticamente todos os dias (tirando as conferências de imprensa) para quase todas as afirmações científicas novas. Aquelas que tendem a ser conhecidas são só as que poderiam afectar a economia."

Neil deGrasseTyson
(continua)

Urbano Tavares Rodrigues




Urbano Tavares Rodrigues (87 anos) ao iOnline: O meu filho António "tem um cabelo cor de mel e aqueles olhos verdes", "é a minha obra-prima".

"Disse numa entrevista, há cerca de três anos, que esperava tranquilamente pela morte. Mantém essa paz?

Não, nada disso. Agora inquieta-me o meu filho [António, de quatro anos]. Penso em como lhe vou fazer falta, não sei como vai ser a vida dele sem mim. Claro que a minha mulher tem possibilidades de o sustentar, mas a vida dele sem mim assusta-me. Tive uma filha com a Maria Judite de Carvalho, dei-lhe muito carinho mas não é a mesma coisa. Agora tenho mais tempo para o ver crescer, é uma coisa impressionante: inteligentíssimo, com uma série de talentos e curiosidades. Gosta de desenhar, tem uma grande sensibilidade artística ao mesmo tempo que é óptimo a jogar à bola. Faz puzzles que eu não consigo fazer. Desmonta brinquedos, mas também estraga.

Preocupa-o como o seu filho o vai recordar?

Tenho um texto escrito já há um tempo que se chama "Meu António Querido, quando fizeres dez anos vais ler estas palavras". Ocupa uma folha e explica quem eu fui, como eu gostava que ele me visse e como eu gostava que ele fosse. Para já está tudo bem, excepto que eu sou benfiquista e ele não."

Excelente entrevista de um escritor de que gosto muito:
http://www.ionline.pt/conteudo/45136-deixo-um-texto-ao-meu-filho-explicar-quem-fui

HUMOR: Manual da empregabilidade

(texto do baú do Inimigo Público, ainda numa lógica pré bolonhesa)

Como justificar que está à procura do primeiro emprego aos 25 anos sem revelar que é licenciado

O desemprego entre licenciados subiu 22,5% no último ano, enquanto o desemprego entre a população com o ensino secundário baixou 3,9%. O Inimigo deixa-lhe algumas estratégias para justificar os anos que esteve na faculdade, numa entrevista de emprego.

1. Eu estive na faculdade, mas não estudei nada. Fazia parte da tuna e apenas fiz a cadeira de Inglês I. Depois houve uma reformulação do curso e Inglês I deixou de fazer parte da minha licenciatura. Nessa altura tive que dizer aos meus pais que afinal não estava quase a tornar-me engenheiro de minas. Isso foi ontem.

2. Dos 18 aos 23 anos estive agarrado ao cavalo. Vivia numa tenda no Intendente e cravava trocos na 24 de Julho. Uma vez tentei estacionar um daqueles eléctricos grandes.

3. Estive preso preventivamente pela prática de promoção de aborto clandestino. Dediquei-me essencialmente ao culturismo.

4. Recebi uma herança e passei cinco anos sem trabalhar. Durante o dia dormia e à noite ia para os copos. Depois voltava ao principio.

5. Tive uma grande paixão pelo circo e percorri o país todo em rotundas. No Natal é que era.

6. Fui raptado pela CIA e levado para uma prisão no Norte de África, onde fui interrogado por métodos desumanos. Mas nunca disse nada. Sexta-feira libertaram-me numa estrada de terra batida na transilvânia, mandei o meu currículo e aqui estou.

Carta de motivação

O meu interesse na industria dos (pôr aqui o nome do sector) pode-se resumir numa palavra: recibos verdes. Pessoalmente não gosto de actividades de lazer e procuro um sentido para a vida numa empresa à qual me dedicar, nomeadamente através da luta armada. Laboralmente falando eu vejo-me como uma gueixa, existo para servir a organização em que estou inserido. A nível de remuneração o que mais valorizo são palavras de apreço e incentivo e ocasionalmente uma palmada no rabo. Defino-me como uma pessoa humilde que não anda por aí armada aos cucos a dizer “ah, eu é que sei, isto é assim, há que cumprir a lei, não sei quê”.

Modelo de CV para garantir a empregabilidade

Habilitassões: ao nível do 10º primeiro ano, incompleto

Línguas: Português, Espanhol, Brasileiro

Qualificações: Curso Avançado de Astrologia do Centro Andrómeda, licença de condução de velocípedes.

Competências: utilização de agrafador e fitacola, atendimento de telefones de várias redes, recebimento de faxes, idas ao banco e prática de fotocopiadora

Experiência profissional (por ordem crunológica inverça):
Dispensador Semafórico de Imprensa Gratuita – 2006 a 2007
Pai Natal – Natais 2006 e 2007
Agente de marketing directo ao transeunte (Rua Augusta) – 2004 a 2005
Técnico de embrulho – Natais 2003, 2004 e 2005
Coelho – Páscoa 2003.
Piloto gastronómico (Telepizza) – 2002

Prémios e distinções:
Melhor desenho do dia da árvore (dia da árvore, 1989)

Cores preferidas: azul e castanho.

Outros: Redacção de SMS com ambos os dois polegares

Obies: ver televisão e ver cinema e ver filmes.

PROJECTO DEGÓIS DE CURRÍCULA


Informação recebida do projecto DeGóis - Fundação de Ciência e Tecnologia (na figura Damião de Góis):

A plataforma DeGóis de curricula científicos http://www.degois.pt/ deu mais um passo na sua consolidação como plataforma de suporte à informação curricular da comunidade científica nacional com a possibilidade de utilização do CV DeGóis nos concursos da FCT iniciada em 2009.

No ano de 2009 a Plataforma DeGóis teve um grande desenvolvimento junta das instituições, algumas das quais tem promovido estratégias internas de adesão conseguindo grande mobilização dos seus investigadores. Outras instituições irão promover iniciativas nesse sentido proximamente. Contamos, como complemento das iniciativas das instituições, com a participação activa das faculdades/escolas, dos departamento e dos centro de investigação na mobilização dos seus investigadores e caso necessário poderão contar com a nossa ajuda para o desenvolvimento de estratégias locais.

Actualmente já há:

- 7800 investigadores registados cujos CV já ultrapassam as 20.000 visualizações mensais;

- 47 instituições aderentes (universidades, institutos politécnicos e institutos de investigação) mais 4 em fase de adesão;
- mais de 120.000 referências científicas registadas;
- mais de 51.000 referências técnicas registadas;
- mais de 800 referências artísticas/culturais registadas;
- mais de 85 patentes registadas.

Já disponibilizámos nas últimas semanas, às instituições que o solicitaram, uma ferramenta que permitirá a todas instituições e respectivas unidades orgânicas (universidades, politécnicos, faculdades, escolas, departamentos e centros de investigação) ter acesso à informação dos seus investigadores para efeitos de gestão e acompanhamento da produção científica e técnica dos seus membros e para produção automática de relatórios de produção científica.

Também já está disponível a integração do DeGóis com o RCAAP http://www.rcaap.pt/ e respectivos repositórios institucionais, num trabalho conjunto entre as equipas das duas plataformas. Esta integração permite que depósitos efectuados nos repositórios institucionais enviem automaticamente a informação para os CV dos investigadores e vice-versa.

Mas a aposta mais importante de 2010 será na qualidade da informação registada nos CV e a adesão generalizada dos investigadores, para isso gostaríamos de poder contar com a colaboração de todos os investigadores na actualização permanente do seu CV e na mobilização dos investigadores ainda não aderentes.

A criação e actualização do CV é feita em http://curriculum.degois.pt/, caso não se recorde dos dados de autenticação poderá usar a respectiva opção para os recuperar, o sistema envia-os automaticamente para o e-mail registado no CV. Para pesquisar CV use a opção “Visualizar curriculum” em http://www.degois.pt.

Caso seja responsável por uma unidade orgânica de uma instituição aderente (universidade, instituto, centro, faculdade, escola, departamento, etc) pode solicitar-nos uma conta para acesso à área institucional onde poderá ter acesso à produção dos investigadores dessa unidade em forma de relatório.

Documentos de apoio:

Manual de básico de utilização: https://curriculum.degois.pt/Downloader?tp=UERG&fn=SGVscC9HdWlhUHJlZW5jaGltZW50b0NWLnBkZg==&title=Guia de Preenchimento do CV

Áreas de conhecimento (FOS 2007) http://www.degois.pt/FOS2007PlatDegois.pdf

Leonel Santos
(Projecto DeGóis – Fundação para a Ciência e a Tecnologia)

Lançamento da Babel


Convite recebido da Babel (clicar para ver melhor).

"Uma coroa na testa da cidade”: a Biblioteca Geral, passado e futuro


Meu prefácio ao recente livro, ricamente ilustrado, "Tesouros da Biblioteca Geral da Universidade de Coimbra" (Imprensa da Universidade de Coimbra, com coordenação de A. E. Maia do Amaral):

A biblioteca, qualquer biblioteca mas principalmente uma grande biblioteca, é um mundo, um cosmos. O físico Carl Sagan, no seu livro Cosmos, num capítulo significativamente intitulado “A persistência da memória”, escreveu: “Os livros permitem-nos viajar através do tempo, beber na própria fonte o saber dos nossos antepassados. A biblioteca põe-nos em contacto com as concepções e o saber, a custo extraídos da natureza, das maiores mentes até agora existentes, com os melhores professores, provindos de todo o planeta e de toda a nossa história, para nos instruírem sem nos fatigarmos e para nos inspirarem a dar a nossa contribuição ao saber colectivo da espécie humana.”

As palavras de Sagan evocam as do filósofo e matemático René Descartes: “A leitura de todos os livros bons é como uma conversa com as pessoas mais sérias dos séculos passados que deles foram autores.” Pois as bibliotecas são esses sítios únicos e extraordinários onde, para nosso enriquecimento, podemos conversar em qualquer altura com pessoas que desconhecemos mas das quais podemos ficar amigos. Elas encerram verdadeiros tesouros por várias razões: porque os bons amigos são tesouros valiosos, que devemos saber guardar; e porque a voz deles se faz ouvir através de conjuntos de folhas manuscritas ou impressas, que são muitas vezes objectos eles próprios valiosos, quer pela antiguidade quer pela arte que exibem.

A Biblioteca Geral da Universidade de Coimbra guarda tesouros que nos trazem a memória de cinco séculos do tempo português e universal. Permanece algo nebulosa a sua origem, mas decerto desde que há Estudo Geral em Portugal que há um sítio para os livros necessários ao estudo (o rei D. Dinis assinou a bula que funda a universidade portuguesa a 1 de Março de 1290). A origem da biblioteca da universidade pode ser datada no ano de 1512, pelo que em breve deverão ser comemorados os quinhentos anos da biblioteca (nessa altura ainda não era geral). Em 1545 já existia biblioteca pois o cronista da Índia Fernão Lopes de Castanheda foi nomeado “guarda do cartório e da livraria” da Universidade de Coimbra. Ele pertence, portanto, à galeria dos grandes professores bibliotecários que foram, depois dele André, de Avelar, no século XVII, António Ribeiro dos Santos, no século XVIII, Augusto Simões de Castro, no século XIX, e, para nomear alguns nomes do século XX, Joaquim de Carvalho, João da Providência e Costa, Damião Peres, Lopes de Almeida, Guilherme Braga da Cruz, Luís de Albuquerque e Aníbal Pinto de Castro.

De início existiu apenas uma biblioteca, mas em breve, com a multiplicação dos espaços de ensino, das disciplinas e também das obras, as bibliotecas da Universidade de Coimbra cresceram e multiplicaram-se. Hoje são mais de oitenta, embora unidas numa rede, gerida pelo Serviço Integrado de Bibliotecas da Universidade de Coimbra, que se quer cada vez mais coerente. Porém, embora de início não tivesse esse nome, nunca deixou de existir uma biblioteca central ou geral, que funcionou no Paço das Escolas. A partir de 1728, ela passou a funcionar na Casa da Livraria que o rei D. João V mandou erguer ao lado do Paço. Hoje essa Casa é a Biblioteca Joanina, verdadeiro ex-líbris da universidade, bem visível no alto da colina universitária (uma “coroa na testa da cidade” [1]) e que é visitada anualmente por milhares de pessoas de todo o mundo. Com o crescimento e evolução da universidade, a Biblioteca Geral passou no século XX para um edifício do Estado Novo, concluído em 1956, agora do lado de fora do Pátio das Escolas, mas de arquitectura não menos monumental. Apesar do seu maior tamanho, esse edifício está hoje próximo da saturação, impondo-se a ocupação de outra casa, com acrescida funcionalidade. Se a Biblioteca Geral, com mais de um milhão de volumes, é a segunda biblioteca nacional, ela e o conjunto das restantes bibliotecas de Coimbra, com o total de cerca de dois milhões de volumes, formam uma das maiores bibliotecas do país, rivalizando com a Biblioteca Nacional de Portugal, em Lisboa.

Este livro mostra alguns dos muitos tesouros que a Biblioteca Geral alberga. Outros podiam ser encontrados quer na Biblioteca Geral quer nas bibliotecas das várias faculdades, departamentos e institutos. É obrigatório referir a colecção de três mil e quinhentos manuscritos, que por sua própria natureza são únicos e onde pontua a colecção de manuscritos autógrafos de Almeida Garrett, os livros do fundo antigo guardados em parte na casa-forte, entre os quais sobressai uma Bíblia da escola de Gutenberg e uma primeira edição d’Os Lusíadas, a secção de música, que engloba boa parte dos tesouros musicais do Mosteiro de Santa Cruz (como é sabido, o bibliotecário Alexandre Herculano levou para o Porto a maior parte da famosa Livraria de Santa Cruz). É de referir a Sala do Visconde, com a colecção de folhetos raros do tempo da Restauração, a Sala Oliveira Martins, com o espólio bibliográfico do historiador e escritor da “geração de 70” e a Sala de São Pedro, na qual a rica colecção de livros do Colégio de São Pedro (hoje edifício da Reitoria e da Faculdade de Direito) se conserva nas suas estantes de origem e onde tantas e tão notáveis exposições já se realizaram. Mas deve-se ainda referir as colecções doadas por notáveis benfeitores, como os ex-directores Lopes de Almeida e Luís de Albuquerque. E colecções ainda por tratar como a Biblioteca do Instituto de Coimbra, uma academia que teve origem no Colégio de São Paulo Apóstolo, sito no espaço onde hoje é a Biblioteca Geral.

Beneficiária dos favores reais e do Depósito Legal desde os tempos da República, hoje na Biblioteca Geral pode o leitor encontrar de tudo, entre monografias e todo o tipo de publicações periódicas. Uma pequena parte desse vasto espólio é produção própria pois a biblioteca, fechada a imprensa da universidade no tempo do Estado Novo, foi ela própria uma grande editora, publicando entre outras séries a Acta Universitas Conimbrigensis, a Revista da Universidade de Coimbra e o Boletim Bibliográfico da Universidade de Coimbra.

Trata-se de uma biblioteca pública, que tem as suas portas abertas de manhã à noite não só aos estudantes, docentes e investigadores, mas também aos cidadãos em geral, que queiram fazer amigos nos livros que a biblioteca conserva. A biblioteca de hoje — e ainda mais a do futuro — é digital. Com as novas tecnologias da informação e da comunicação deram-se nos últimos anos passos decisivos para construir a biblioteca moderna. O catálogo passou a ser comum a todas as bibliotecas universitárias de Coimbra, estando acessível na Internet. Também passou a ser comum o regulamento de empréstimo das obras e o regulamento de empréstimo interbibliotecas. Criou-se uma Biblioteca Digital da Universidade de Coimbra, em colaboração estreita e profícua com outras bibliotecas da rede universitária. As modernas tecnologias são, de resto, a melhor aliada do livro antigo: com a digitalização e a afixação em rede, elas permitem uma melhor memória dos escritos que os antepassados nos deixaram. Criou-se também um repositório das teses e produção científica da Universidade de Coimbra, chamada Estudo Geral e que é verdadeiramente geral por estar acessível a todos através da Internet. As mesmas tecnologias são também aliadas do livro moderno: permite que muitos livros modernos sejam puramente virtuais, tornando-se por isso mais acessíveis. A Internet é a moderna Biblioteca de Babel, a biblioteca prodigiosa que Jorge Luís Borges tão bem descreveu. Não tem paredes, sendo transparente de qualquer sítio do mundo. Oferece a informação de uma maneira rápida e cómoda. O novo não é de modo nenhum inimigo do velho, antes o valoriza e complementa.

De tudo isto se dá conta pormenorizada neste livro, através dos textos de António Filipe Pimentel, sobre a arquitectura e a arte dos dois edifícios, António Eugénio Maia do Amaral sobre as bibliotecas eruditas e espólios literários e científicos, num capítulo, e marcas bibliográficas, noutro capítulo de Saul Gomes sobre os manuscritos iluminados, Maria da Graça Pericão sobre a tipografia quatrocentista e quinhentista, Flávio Pinho sobre os documentos musicais, de Iuliana Gonçalves, sobre a imprensa periódica portuguesa, de Alexandre Ramires sobre a fotografia antiga, e de mim próprio sobre o Instituto de Coimbra e sobre a rede de bibliotecas da universidade. O livro valeria, porém, muito menos sem a arte do fotógrafo Paulo Mendes, que, com grande cuidado e rigor, fixou aspectos e obras de uma maneira que será por vezes surpreendente. E seria impossível sem a competente coordenação de António Eugénio Maia do Amaral, Director Adjunto da Biblioteca. E sem o cuidado trabalho de edição numa primeira fase da INAPA e depois da Imprensa da Universidade de Coimbra, dirigida por João Gouveia Monteiro. A todos o muito obrigado da Biblioteca da Universidade por esta valiosa colaboração.

Carl Sagan acrescentou à frase citada no início: “As bibliotecas públicas dependem de contribuições voluntárias. Considero que a saúde da nossa civilização, a profundidade da percepção que temos das bases de apoio à nossa cultura e o nosso cuidado relativamente ao futuro podem ser medidos pelo tipo de apoio que damos às nossas bibliotecas”. Espero que com esta bela edição os tesouros da Biblioteca Geral fiquem conhecidos de todos. Espero que esses tesouros possam ser desfrutados por quem se queira tornar amigo deles. Os livros e documentos estão na biblioteca ou na Internet, prontos a fazer novos amigos. E espero que a Biblioteca Geral mereça maior apoio por parte de todos, para bem da nossa civilização e da nossa cultura.

NOTA:
[1] - A expressão consta na inscrição sobre a porta de entrada da Biblioteca Joanina: HANC AUGUSTA DEDIT LIBRIS COLLIMBRIA SEDEM, UT CAPUT EXORNET BIBLIOTHECA SUUM, que se pode traduzir “tal sede Coimbra Augusta deu aos livros, que a biblioteca lhe coroa a testa (cabeça, ou fronte)”.

quarta-feira, 3 de fevereiro de 2010

A importância de ser electrão em Aveiro

Informação recebida da Fábrica Ciência Viva de Aveiro:

CAFÉ, LIVROS e CIÊNCIA

A Importância de Ser Electrão - O átomo e as suas ligações: um olhar sobre a evolução da Química

José Lopes da Silva e Palmira Ferreira da Silva

5ª feira 04 Fevereiro ’10 l 18h00

Café, Livros e Ciência
acontece desta vez na Fábrica CCVA com José Lopes da Silva e Palmira Ferreira da Silva que apresentam “A Importância de Ser Electrão - O átomo e as suas ligações: um olhar sobre a evolução da Química”, um livro aliciante para quem não tem formação específica em Química (ou Física), mas também para os que querem recordar pormenores que se foram esbatendo na sua memória, ao longo do tempo, ou que gostam de estar informados sobre o estado actual do conhecimento e as perspectivas de futuro.

Num ambiente informal, onde o café acompanha os livros, Café, Livros e Ciência acontece na primeira quinta-feira de cada mês para promover a leitura de ciência junto do público em geral, numa parceria entre a Fábrica CCV Aveiro, o CCV Rómulo de Carvalho de Coimbra e o Museu da Ciência também de Coimbra. Os eventos têm uma cobertura multimédia disponibilizada no sítio internet de cada parceiro, bem como no CVTV.

local Fábrica Centro Ciência Viva de Aveiro
contactos 234 427 053 ou fabrica.cienciaviva@ua.pt
entrada livre

A distinção entre o bom e o mau professor

Os bons acabam felizes, os maus infelizes. Isso é o que se chama ficção” (Oscar Wilde, 1854-1900).

O derradeiro comentário (15.º) de um anónimo ao meu post “Estatuto da Carreira Docente: remendos novos em pano velho” levantou o velho problema da distinção entre o bom e o mau professor.

Nem de propósito, numa longa e interessante entrevista (Público, 01/02/2010), Jaime Carvalho e Silva, professor da Universidade de Coimbra, recentemente nomeado secretário-geral da Comissão Internacional para a Instrução da Matemática, entre outros assuntos de relevo, tece considerações sobre o que entende ser um bom professor de Matemática quando escreve que “sabe muita Matemática, sabe comunicar, tem uma caixa de ferramentas pedagógicas para usar em diferentes situações, trabalha com os colegas, vai a encontro de formações; sabe o que se passa na sua cidade, no país, no mundo”.

Sem nada ter a ver com a burocrática avaliação da ex-ministra Maria de Lurdes Rodrigues ao transformar os professores em mangas-de-alpaca a preencherem rimas de fichas de avaliação, na véspera desse mesmo dia, redigi e publiquei um comentário em resposta à pergunta formulada por outro anónimo (comentário 14.º): “Como é que se distingue um professor medíocre de um professor não medíocre? Alguém sabe?”

“Por acreditar naqueles que procuram a verdade e desconfiar daqueles que a encontram”, como escreveu André Gide, limitei-me a dar uma resposta condicionada pelo espaço de um simples comentário, e que passo a transcrever: “Quanto à maneira de proceder à avaliação dos docentes, eu excluo à partida que seja feita, exclusivamente, pelos próprios pares que hoje são avaliadores e amanhã poderão vir a ser avaliados por aqueles que avaliaram criando entre eles uma cumplicidade que não garante a necessária isenção. Portanto, apenas uma pequena e muito modesta achega: o professor medíocre é aquele que falta por sistema, que não mantém a disciplina na sala de aula, cuja aprendizagem dos alunos não sofre evolução favorável, cujos conhecimentos científico, pedagógico e de cultura geral são deficientes, que se relaciona mal com os colegas e restante pessoal da escola, etc”.

Mais uma vez, o 15.º comentário, citado no início deste meu post, veio demonstrar que a resposta à pergunta “o que é um bom professor?” não se esgota em soluções fáceis pelo facto de estarmos a lidar com pessoas (docentes e discentes) e respectivas idiossincrasias no complexo fenómeno da educação e da instrução. Embora o ideal seja o entrosamento entre ambas, aqui corremos o risco de entrar num outro labirinto de difícil saída que é o de estabelecer fronteiras bem delimitadas entre uma coisa e outra, porque se pode inclusivamente educar sem instruir e vice-versa. A propósito de teorias sobre educação, ocorre-me citar um pedagogo que dizia com uma certa desilusão: “Dantes tinha seis teorias sobre educação e nenhum filho, hoje tenho seis filhos e nenhuma teoria!” Ou seja, nem sempre a teoria anda de braço dado com a prática e vice-versa.

No ponto 1 do 15.º comentário, referido logo no início deste post, é evocado o conceito de benchmarking, ou seja a busca na indústria de um melhor rendimento inspirado em situações similares bem sucedidas. Mas, neste caso específico, não estamos em presença da complexidade inerente à avaliação dos docentes. Mas isto não significa, de forma alguma, que desistamos de encontrar um processo capaz de distinguir o bom do mau professor para evitar a injustiça de os igualar porque, como escreveu Camilo, “o despotismo da igualdade é o mais insuportável e o mais feroz dos despotismo, porque tem a sua origem na vontade dos impotentes, dos estúpidos, dos insignificantes”.

No ponto 2 são referidos vários condicionalismos que interferem na indisciplina do aluno (e aqui estamos ambos do mesmo lado da barricada no que se refere à vergonhosa permissividade do actual estatuto do aluno) e na sua boa ou deficiente aprendizagem e apresentados um rol de situações sócio-económicas que influenciam o êxito ou fracasso do processo educativo com responsabilidades repartidas entre quem ensina e quem aprende. Dando de barato a validade desses condicionalismos, somente, um reparo: como se compreende que um mesmo aluno numa mesma turma tenha comportamento cognitivo e afectivo bem diferenciado relativamente aos professores a e b? Não dependerá parte substancial destes comportamentos na acção desenvolvida por ambos os docentes em circunstâncias idênticas?

No ponto 3 é dito não serem as faltas e o mau relacionamento entre as personagens intervenientes no processo educativo problemas das escolas nem dos professores. Eu atrevo-me a pensar de forma diferente: as faltas dos alunos e dos professores reflectem-se forçosamente nas aprendizagens. O mau relacionamento entre alunos ou entre estes e os respectivos professores, ou, ainda mesmo, unicamente entre os professores, impedem, igualmente, um desejável clima de paz, concórdia e mesmo de empatia intramuros escolares.

No ponto 4 não podia estar mais de acordo quando escreve que “o Governo (a que eu acrescentaria certas políticas sindicais e os lóbis das Ciências da Educação que parecem nutrir, como diria Ortega y Gasset, “ódio aos melhores”) não quer valorizar os conhecimentos científicos, pedagógicos e de cultura geral”. E tanto assim é que, no acesso à docência, faz letra morta destes conhecimentos. E, mesmo quando pretende fazer algo no sentido de inverter este statu quo, logo surge o coro sindical a dizer que todas as formações para a docência devem ser havidas em plano de igualdade fazendo crédito no aval estatal. Ou seja, aquela ratificação estatal de complementos de licenciatura obtidos em meia dúzia de meses ou de licenciaturas em universidades privadas que o ministro Mariano Gago se viu coagido a mandar encerrar, pressionado pelo escândalo público então desencadeado.

A própria triagem que nesse sentido era feita pelas antigas ordens profissionais foi interditada permitindo, por outro lado, a criação de novas ordens profissionais que metem no mesmo saco diplomas que vão de um simples curso secundário a licenciaturas de prestígio. E, desta forma, o Estado se fez monarca absoluto do reino da mediocridade atribuindo idêntico estatuto a licenciaturas universitárias para o ensino de uma única matéria curricular dos 2.º ciclo dos ensinos básico e/ou secundário e a licenciaturas de escolas superiores de educação destinadas ao magistério simultâneo de duas disciplinas do 2.º ciclo do ensino básico.

Os dados estão lançados pelas mãos de um jogador amador, as minhas. Conveniente seria que especialistas nesta matéria lançassem simples lampejos ou as luzes dos holofotes sobre um tema que se mantém na penumbra dos que tiram altos dividendos desta situação dizendo ser difícil fazer a destrinça entre os bons e os maus professores. Tornando simples o que é complexo, os sindicatos querem transmitir para a opinião pública que não há maus professores. Apenas, professores mais ou menos bons!

Bondade que não serve os desígnios de um ensino de qualidade que o país merece e a sociedade portuguesa deve exigir. Só através de uma séria avaliação dos professores se poderá pôr cobro a um sistema educativo suportado pela iniquidade de igualar desiguais como se, em legado deixado por Victor Hugo, “a primeira igualdade não fosse a justiça”.

Vidas a Descobrir - Mulheres Cientistas


Informação recebida da Associação Viver a Ciência:

A Associação Viver a Ciência e a Livraria Ler Devagar têm o prazer de a/o convidar para a inauguração da exposição de fotografia «Vidas a Descobrir – Mulheres Cientistas do Mundo Lusófono», agendada para o dia 4 de Fevereiro, às 19h, na Ler Devagar, Lx Factory, em Lisboa.

As fotografias apresentadas fazem parte do livro que dá nome à exposição e foram captadas em 2007 e 2008 por Joana Barros e pelo premiado fotógrafo brasileiro Juliano Gouveia, na Guiné-Bissau e no estado brasileiro do Piauí, respectivamente.

terça-feira, 2 de fevereiro de 2010

RAUL PROENÇA E A LIBERDADE DE IMPRENSA



"Chama-se liberdade de imprensa o direito exclusivo que têm certos potentados ou certos malfeitores, graças à sua fortuna ou às suas chantagens, de influir na opinião do país. O problema não está, evidentemente, em impedir a liberdade desses homens, mas em pôr a imprensa ao alcance de todos, de maneira que os argentários não continuem a possuir o monopólio da opinião" (in "Seara Nova", 1928).

OBAMA NÃO QUER A LUA

Ler aqui no Astro.pt o comentário, bem informado, de Carlos Oliveira sobre o cancelamento que Barack Obama fez dos planos para o regresso à Lua.

"FALTA-NOS A OCEÂNIA"

Trancrevo do "Público on-line" a notícia da colocação da primeira pedra do novo Museu dos Coches (ver aqui), que muita gente considera uma obra sumptuária:
"Coincidindo com os 100 dias do Governo Sócrates, [a cerimónia da 1.º pedra do novo Museu dos Coches] serviu sobretudo para lançar uma obra que, disse o primeiro-ministro, é um "sinal claro de investimento numa área cultural e museológica", um "investimento na arquitectura" ("sempre tive a mania de que percebia alguma coisa de arquitectura", confessou) e um sinal de que "Lisboa não desiste da sua ambição cosmopolita e universal".

Mendes da Rocha, também presente, reforçou a ideia de que o museu será elevado do chão, criando por baixo um espaço de passagem, para "não ser um transtorno no passeio a pé". António Costa, presidente da Câmara Municipal de Lisboa - que se tinha oposto a um silo automóvel junto ao rio, previsto no projecto inicial e do qual Mendes da Rocha acabou por abdicar - não poupou elogios ao arquitecto brasileiro. E sublinhou que este projecto faz parte do objectivo de ter obras de arquitectos dos cinco continentes na zona ribeirinha. "Falta-nos a Oceânia", disse. "Arranjaremos um projecto para convidar um arquitecto da Oceânia", prometeu-lhe Sócrates de seguida."
Fica registado: O primeiro-ministro português, não contente com a inutilidade do novo Museu dos Coches, pré-anunciou um projecto, decerto também inútil, de um arquitecto da Oceânia. Assim vai a cultura entre nós...

A DÍVIDA PÚBLICA - ONTEM COMO HOJE



Em cima O Século Cómico n.º 1131, 18.08.1919 e em baixo Ilustração Portuguesa n.º 703, 11.08.1919.

Une phénoménologie intégrale de l'évolution

Informação recebida da Associação dos Amigos de Pierre Teilhard de Chardin em Portugal

«Teilhard de Chardin, une phénoménologie intégrale de l'évolution»

Conferência/debate pelo Prof. Donnadieu, Presidente da Association des Amis de Pierre Teilhard de Chardin, ainda no seguimento das comemorações do ano Darwin.

Realizar-se-á no Auditório da Igreja de S. João de Deus, Rua Brás Pacheco, n.º 4, à Praça de Londres, em Lisboa, no dia 6 de Fevereiro próximo, às 10.30h da manhã.

O Prof. Donnadieu é Ingénieur des Arts et Métiers, Doutor em Ciências Físicas, Mestre em Ciências e Teologia das religiões, Professor na École Cathédrale de Paris, ex-membro do Conseil Économique et Social, Director de Estudos no Institut Entreprise et Personnel, Professor Associado do IAE de Paris (Université Paris I) e Regente dos Cursos Teilhard de Chardin no Collège des Bernardins, Paris.

A ENTRADA É LIVRE

Encontro com escritor

Informação recebida do Instituto de Estudos Clássicos da Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra.

OS ERROS E A POLÍTICA


A política tem esta coisa profundamente acientífica de nunca se admitir um erro, mas sim de o tentar esconder o mais possível. Um exemplo português recente é-nos oferecido pelas declarações produzidas ontem pelo primeiro-ministro José Sócrates na Conferência do Diário Económico sobre o Orçamento de Estado:

"Decidimos aumentar o nosso défice não por descontrolo, mas para ajudar a economia, as empresas e as famílias", "O défice orçamental português aumentou por uma boa razão, para responder à crise" (...) "O facto de o Estado português ter decidido aumentar o seu défice foi para resolver os problemas e numa dimensão em linha com as outras economias. Não se elevou demasiado, mas sim em linha com a média dos países evoluídos e numa proporção aceitável".

Em contraste, o ministro das Finanças Teixeira dos Santos disse quase na mesma altura na Assembleia da República, na discussão do mesmo Orçamento do Estado:

“As previsões falharam redondamente em todo o lado e não foi porque houvesse intenção de enganar” (...) "Eu engano-me mas não engano” (...) "Não tenho pejo em reconhecer a minha quota parte de responsabilidade no perfil de estagnação e de crescente endividamento."

Um deles está simplesmente a ser mais político do que o outro.

Fonte: Citações do "Público" on-line. Foto de Daniel Rocha do "Público".

segunda-feira, 1 de fevereiro de 2010

HUMOR: Portugal mais próximo da meta de uma universidade por aluno


17 instituições de ensino superior por milhão de habitantes colocam o nosso país à frente de outros mais atrasados no que diz respeito ao ensino superior personalizado, como o Reino Unido (apenas 2,9 universidades por milhão de habitantes). As correspondentes 5000 denominações de cursos fazem também de Portugal uma das culturas mais ecléticas do mundo, sendo explorados todos os nichos de saber (mesmo os muito parecidos). Com a diminuição da taxa de natalidade e baixos níveis de escolaridade, a ideia é que no século XXI haja uma universidade e um curso por aluno, versando os seus interesses muito específicos. Por exemplo: Universidade João Alfredo, licenciatura em lazer na óptica do utilizador, para o aluno João Alfredo (númerus clausus: 1).

(Na imagem: representação artística de uma tuna unipessoal)

ACTIVIDADES EXPERIMENTAIS PARA O 1.º CICLO

Minha curta apresentação do livro de Sandra Costa intitulado "Actividades Experimentais para o Primeiro Ciclo" (Areal): aqui.

HUMOR - O TERRAMOTO DO HAITI E O AQUECIMENTO GLOBAL



Não é só Hugo Chávez que debita disparates sobre o recente terramoto no Haiti. Só à conta de humor, embora decerto involuntário, se podem levar as declarações de Danny Glover, actor, realizador de cinema e activista político norte-americano (fez de Presidente dos Estados Unidos no filme "2012" e de um velho com venda preta no filme "Blindness", baseado no romance de José Saramago "Ensaio sobre a Cegueira"):

"...the threat of what happens to Haiti is a threat that can happen anywhere in the Caribbean to these island nations... they're all in peril because of global warming... because of climate change... when we did what we did at the climate summit in Copenhagen, this is the response, this is what happens..."

O 31 DE JANEIRO VISTO EM 1916


Ontem passou mais um aniversário dos acontecimentos de 31 de Janeiro de 1891 na cidade do Porto. Essa revolta foi assim comentada na Ilustração Portuguesa n.º 519, 31.01.1916 (clicar para ver melhor). O texto é de Mário de Almeida, com ilustrações de Manuel Gustavo.

As Hormonas Incretinas e a Diabetes




Nova crónica do bioquímico António Piedade publicada n' "O Despertar":

A diabetes mellitus tipo 2, vulgarmente designada só por diabetes, é uma doença cardiometabólica complexa, caracterizada por um aumento de glicose (açúcar) no sangue, ou hiperglicemia, crónica. A glicose é o principal “combustível” para as células de todo o corpo. A sua concentração no sangue aumenta após uma refeição, devido à digestão dos alimentos, ou quando precisamos de um reforço de combustível celular, por exemplo durante esforço físico intenso ou durante uma situação de perigo como resposta normal do organismo para podermos agir, lutar ou fugir. A sua concentração no sangue diminui nos intervalos entre as refeições ou nos períodos de jejum prolongado. Mas quando a sua concentração no sangue está continuamente acima do normal, a glicose desencadeia processos patológicos, como sejam o aumento do risco cardiovascular, insuficiência renal, problemas visuais, entre outros.

A regulação fisiológica da glicemia é um processo complexo que não cabe explicar nesta crónica. Contudo, o papel da hormona insulina é indispensável. Produzida por células especializadas no pâncreas, a insulina funciona como uma chave possibilitando que a glicose seja assimilada pelas células. Na falta de insulina, ou se o receptor dela (fechadura) estiver ausente ou não funcional, a glicose não entra para as células permanecendo na corrente sanguínea. Por isso, a insulina foi e ainda é a principal personagem farmacêutica no tratamento da diabetes.

Recentemente, descobriu-se que a ocorrência de hormonas segregadas por células especializadas nos intestinos, conhecidas desde 1902 e rebaptizadas por La Barre, em 1932, como hormonas incretinas [1], desempenham um papel importante no desenvolvimento e progressão da diabetes [2].

Após a ingestão de alimentos, principalmente se forem ricos em hidratos de carbono (como os cereais), verifica-se, durante o trânsito intestinal e absorção dos nutrientes, a secreção para o sangue de duas hormonas incretinas: o peptídeo insulinotrópico glicose-dependente ou GIP (do inglês gastric inhibitory peptide), e o peptídeo tipo glucagina-1 ou GLP-1 (do inglês glucagon-like peptide-1).

Estas hormonas incretinas actuam sobre as células dos ilhéus de Langerhans pancreáticos, “avisando-as” de que o organismo recebeu glicose e que, por isso, é preciso segregar insulina para que aquela possa ser assimilada a nível celular.

Sabemos hoje que estas hormonas actuam de forma glicose-dependente, estimulando a secreção de insulina pelas células beta, e inibindo a secreção de glucagina (outra hormona relacionada com o controlo da glicemia) pelas células alfa, dos ilhéus de Langerhans pancreáticos [2,3].

Estes mensageiros bioquímicos, qual correio expresso, são eliminados da circulação ao fim de cerca dois minutos, por uma (ou um) enzima a eles especifica(o): a dipeptidil peptidase-4, ou DPP-4 [4]. Ou seja, os intestinos, em resposta à absorção de glicose, comunicam ao pâncreas, através das incretinas, a necessidade de mais insulina mas não durante muito tempo. E porquê? Porque uma produção continuada de insulina faria com que a concentração de glicose no sangue caísse para valores também perigosos: é sempre preciso um mínimo de glicose para o normal e continuado funcionamento das células. Sem glicose o organismo “desliga-se”.

Contudo, em situação patológica como a diabetes em que se verifica uma hiperglicemia continuada, seria conveniente manter as incretinas a circular durante mais tempo, de forma a estimular a secreção pancreática de insulina e diminuir a de glucagina. Isto seria naturalmente possível se a acção proteolítica da DPP-4 fosse inibida durante um período de tempo conveniente.

Este tipo de racionalização tem ocasionado, nos últimos anos, uma atenção crescente da indústria farmacêutica sobre as incretinas e levado ao desenvolvimento de novas farmacoterapias, de toma oral, que visam inibir a DPP-4 e assim manter as incretinas durante mais tempo em circulação sanguínea. Estudos clínicos recentes mostram, de facto, que esta estratégia terapêutica permite controlar a glicemia sem algumas das inconveniências da terapêutica baseada na injecção periódica de insulina e pode devolver mais qualidade de vida aos doentes diabéticos [5].

Referências:

(1) E. Zunz and J. La Barre, Contributions a l'etude des variations physiologiques de la secretion interne du pancreas. Relations entre les secretions externe et interne du pancreas, Arch. Int. Physiol. Biochim., 31 (1929) 20-44.

(2) J. Girard, The incretins: From the concept to their use in the treatment of type 2 diabetes. Part A: Incretins: Concept and physiological functions, Diabetes & Metabolism, 34 (2008) 550-559.Your browser may not support display of this image. doi:10.1016/j.diabet.2008.09.001

(3) R. Burcelin, M. Serino and C. Cabou, A role for the gut-to-brain GLP-1-dependent axis in the control of metabolism, Curr. Op. in Pharmacology, 9 (2009) 744-752. doi:10.1016/j.coph.2009.09.003

(4) D.J. Drucker and M.A. Nauck, The incretin system: glucagon-like peptide-1 receptor agonists and dipeptidyl peptidase-4 inhibitors in type 2 diabetes, Lancet, 368 (2006) 1696-1705. doi:10.1016/S0140-6736(06)69705-5

(5) L.L. Nielson, Incretin mimetics and DPP-IV inihibitors for the treatment of type 2 diabetes, Drug Discovery Today, Reviews, 10 (2005) 703–710 doi:10.1016/S1359-6446(05)03460-4

CONTINUE-SE COM A PLATAFORMIZAÇÃO DOS EXAMES NACIONAIS

Foi publicado o Relatório da Inspecção-Geral da Educação e Ciência, com o extenso título Averiguações às irregularidades dos Exames Nacionai...