domingo, 18 de outubro de 2026

O "HOMEM COMUM" E O "CIDADÃO"

Acabo de ler um texto de Rui Bebiano, historiador e professor, publicado no jornal As Beiras de hoje, que vejo de grande interesse para se perceber, entre outras coisas, o sentido de "cidadania" que falta na Educação para a cidadania, tal como consta no currículo da escolaridade obrigatória. O seu título é O poder sombrio do “homem comum”. Tomo a liberdade de reproduzir as passagens mais relevantes no que respeita a esse interesse.

"Foram (...) os ideais do liberalismo político, do romantismo, do marxismo e do pensamento libertário, associados ao crescimento dos direitos do trabalho, ao alargamento da classe média, à emergência do Estado-Providência e da educação pública, e à afirmação do intelectual como agente da mudança, a dar consistência a sociedades onde saber, pensar, ler, escrever ou criar passaram a ser reconhecidos como fatores decisivos do progresso social, agora acessíveis a um volume crescente de pessoas (...).

A partir dos anos noventa esse panorama começou a alterar-se rapidamente (...) com a afirmação de uma era pautada pelo individualismo e pelo egoísmo associada à expansão da economia neoliberal, apresentada como etapa definitiva da evolução da humanidade. Continuou com a mercantilização consumista e a naturalização da desigualdade social. E culminou com a afirmação, imposta pela nova extrema-direita populista, de um interesse geral pautado pela valorização das emoções mais básicas, pelo destaque dado à ignorância como «direito» e por um primarismo comunicacional que hipervaloriza o comportamento instintivo e a linguagem do ódio, desdenhando o saber como motor do progresso humano.

Neste processo tem lugar central a afirmação, potenciada pelas redes sociais, da figura do «homem comum» (...). Este representa o sujeito-padrão, anónimo, moldado pelas rotinas do trabalho, pela hierarquia, pela insciência e pela tirania do hábito, esse «sistema de disposições duráveis» do qual falou Pierre Bourdieu. O que não se distingue por uma qualidade peculiar, nem pela prática regular da cidadania, mas por uma «mediania» ancorada no simples e no banal. É em seu nome que ousam falar os líderes populistas, incentivando junto dele, com a intervenção da informação manipulada, a desconfiança e o ódio perante quem está «acima» apenas porque sabe mais ou tem algum poder.

Este padrão de «homem comum» não é o cidadão que se bate pela igualdade e pelos seus direitos, mas aquele que adota o nível mais baixo de exigência, formação, intelecto, gosto ou moralidade, capaz de se juntar a muitos outros sob um projeto político que não entende na plenitude, mas reconhece como «seu» e jamais questiona. Um padrão que configura um enorme recuo da consciência política, da sensibilidade e da cultura, contra o qual é imperativo erguer uma forte mobilização cívica. Só desta forma será possível impedir a instalação da animosidade contra «o outro» e contra o saber (...)".

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O "HOMEM COMUM" E O "CIDADÃO"

Acabo de ler um texto de  Rui Bebiano, historiador e professor, publicado no jornal As Beiras de hoje,   que vejo de  grande interesse para ...