Segunda parte do muitíssimo esclarecedor artigo de André Carmo, recentemente publicado no Maio, jornal online (aqui). A primeira parte pode ser encontrada aqui.
Isaltina Martins e Maria Helena Damião Num texto ainda recente com o título O 'Você' (ver aqui ), Jorge Mangorrinha, pós-doutorado ...
18 comentários:
Bem, o disparate deste sr. André Carmo é, como de costume, o excesso próprio dos que deturpam para mostrarem ter razão. Evidentemente que o 'sonho molhado' dele André Carmo seria uma IA ao serviço do povo, segundo critérios que iria buscar a Cuba ou à Venezuela ou à Bielorússia: uma IA que identificasse e punisse todos os crimes dos burgueses liberais e dos capitalistas açambarcadores, e educasse a juventude nos princípios morais de Estado definidos pelo Grande Líder. Isso é que seria a boa IA. Lamento ter de o informar que a IA real do mundo real das pessoas reais do povo real e dos tecno-empresários reais, servirá para DIMINUIR a carga de trabalho (em esforço e em tempo) de modo a que um mesmo trabalhador possa produzir muito mais em menos tempo com a ajuda robótica. Aumentará a riqueza disponível para distribuir, aos mesmos trabalhadores, que não irão para casa estafados de bolso meio vazio, mas mais bem dispostos , com tempo livre, e bolso mais cheio.
Onde leu esse senhor o disparate de "substituir toda a força de trabalho humana por IA"? Não leu. Foi o seu cérebro zinho pequenino e bem lavado que produziu. Essa é a explicação do "resultado colectivo absolutamente irracional" : é que foi criação dele André Carmo. Então para que o reproduzir? Que texto mais irrelevante.
Tememos as máquinas porque vivemos num sistema em que quem não trabalha não vive e em que quem tem capital vive sem trabalhar. Não tememos ser substituídos, tememos ser descartados.
O capitalismo criou mecanismos que permitem que o capital produza capital sem trabalho humano. O capitalista contemporâneo não é o trabalhador do capital, é o proprietário de um mecanismo automático de extração. Não precisa de controlar os meios de produção, basta-lhe controlar os meios de valorização.
O capitalismo moderno é uma forma económica ideológica que se apresenta como natural, mas é uma construção histórica que se legitima através de narrativas de liberdade, eficiência e progresso.
Porém, enquanto a forma económica natural organiza a vida, a forma económica ideológica organiza a obediência. E a cidadania moderna é uma cidadania laboral.
O trabalho é hoje o último mecanismo de inclusão num sistema que ameaça deixar de precisar de trabalhadores. E há muita propaganda do “privilégio de trabalhar”, que serve para legitimar a exclusão crescente.
Quanto menos o trabalho é necessário, mais é glorificado para que a desigualdade continue a parecer justa. Mas o trabalho só se tornou “bom” quando passou a ser útil ao capital.
No sistema que já não precisa de trabalhadores, o trabalho é apresentado como privilégio, oportunidade, sorte. Assim, quem trabalha sente‑se incluído e quem não trabalha sente‑se culpado, porque o trabalho tornou‑se o último certificado de relevância social. Mas a vida boa sempre foi a vida liberta do trabalho. E a automação, a tecnologia e a produtividade já permitiriam isso se a forma económica não transformasse a libertação em exclusão.
O que não bate certo é isto: a tecnologia liberta trabalho, mas o sistema não liberta os trabalhadores. Se a tecnologia permite libertar as pessoas, porque é que o sistema prefere mantê-las ocupadas?
A resposta parece ser porque o trabalho é um instrumento de ordenamento e de ordem social.
A humanidade sempre sonhou com libertar-se do trabalho e agora dizem-lhe que isso é mau.
É uma inversão ideológica completa. A verdade, não obstante, é simples: é melhor que as máquinas façam o trabalho, desde que a sociedade se organize para que todos beneficiem disso.
O que está errado não é a ideia de libertação do trabalho. O que está errado é o sistema que transforma libertação em exclusão.
O problema central é que a modernidade não tem uma justificação laica para a existência humana sem trabalho, por isso inventa ocupações fictícias para legitimar rendimentos e dar uma aparência de mérito a um rendimento que, na verdade, é apenas um mecanismo de distribuição.
As religiões resolveram isto ao declarar a vida como valor intrínseco, mas à custa de filiação e submissão.
A modernidade libertou-se da religião, mas ficou sem fundamento para dizer: “podes viver porque existes, e isso basta”.
O drama moderno é este: libertou-se de Deus, mas não se libertou da necessidade de justificar a existência.
O que a sociedade moderna não tolera não é a ausência de trabalho, é a ausência de subordinação.
Judeus e ciganos foram perseguidos não por “diferença cultural”, mas por autonomia estrutural face ao Estado e ao capital.
A modernidade não sabe lidar com formas de vida que escapam à lógica do emprego, da fixação territorial e da administração burocrática.
O preço da autonomia é a discriminação porque a forma económica dominante exige subordinação para funcionar.
Existe uma tipologia coerente de formas de vida não subordinadas, tradicionais e inovadoras. Todas vivem dentro da jurisdição, mas escapam à forma económica dominante. Os dignitários fazem o mesmo, mas com proteção institucional.
Se pensarmos que a insubordinação difusa é uma força de erosão do controlo totalitário, então a esperança não está na revolução, mas na incapacidade crescente do sistema para disciplinar os irrelevantes.
O capitalismo já não precisa de todos, precisa apenas de alguns e de muitos silenciosos. O capitalismo industrial produzia bens, o tecnológico produz dependência, o financeiro produz poder. A desigualdade não é falha do sistema, é o seu mecanismo de funcionamento.
As formas económicas naturais servem a comunidade, as ideológicas servem o poder. O capitalismo contemporâneo produz irrelevância, excedentários e perda de voz política. O industrial encolhe, o tecnológico monopoliza, o financeiro domina. A desigualdade cresce porque o sistema é desenhado para concentrar capital, não para distribuí-lo.
E a estatização falha porque o Estado é uma forma de autoridade, não uma forma de emancipação.
A solução não é o Estado controlar o capital, é a sociedade controlar o Estado e o capital.
A alternativa é democratizar os meios de valorização: propriedade social, não estatal, automação como bem comum, redistribuição automática, Estado como árbitro, não como proprietário.
O futuro não é capitalismo privado nem capitalismo de Estado, é pós‑capitalismo democrático, em que o Estado controla os meios de valorização, mas a sociedade não pode deixar de controlar o Estado, sob pena de este ser capturado. E aí é que está o problema.
Mas o medo de um controlo totalitário sobre a maioria dos humanos não deve existir porque esse controlo é estruturalmente impossível. E não é por bondade, mas por inviabilidade sistémica. A exclusão total é auto-destrutiva. O capitalismo não pode matar a galinha dos ovos de ouro que é a maioria de que depende.
Este é o ponto decisivo que quase ninguém formula: um capitalismo totalitário deixa de ser capitalismo e torna-se esclavagismo ou feudalismo.
O capitalismo precisa de liberdade suficiente para funcionar e de subordinação suficiente para extrair valor, mas não pode maximizar ambas.
E é sabido que as formas de vida insubordinadas sabotam estruturalmente qualquer tentativa de controlo total. E os dignitários do sistema fazem o mesmo, aproveitando, aliás, a proteção institucional.
A esperança está na impossibilidade estrutural do totalitarismo económico, não na bondade do sistema, porque o capitalismo depende dos que explora e teme os que não consegue explorar.
Estamos a ser encaminhados para a insubordinação difusa como força histórica do século XXI. Não é rebelião, nem protesto, nem desobediência civil, mas é algo mais profundo e mais difícil de controlar. É a recusa silenciosa, fragmentada, pragmática e quotidiana de se submeter integralmente à forma económica dominante.
É uma insubordinação sem bandeira, sem programa, sem ideologia e, por isso mesmo, impossível de reprimir.
De resto, a insubordinação é a única prática comum entre os de cima e os de baixo. Quando a elite e a base partilham a mesma prática de escapar, o sistema perde a capacidade de disciplinar.
O século XXI não será definido por revoluções, mas pela erosão silenciosa da forma económica e da forma política através da insubordinação difusa. E isto é imparável, porque nasce da própria estrutura do capitalismo tardio.
O século XXI será o século da ingovernabilidade suave, não por excesso de força, mas por falta de subordinação, que torna impossível qualquer controlo totalitário.
A esperança não está na revolução, mas na impossibilidade estrutural de impedir a dignidade da maioria.
A liberdade é cara mas a falta de liberdade é insustentável.
Talvez mais simples:
As máquinas trabalhariam sob direcção dos humanos, tal como hoje um carro anda mas quem conduz é um humano. E quem consumiria? Os humanos. As máquinas trabalharem sob a direcção dos humanos significa quer estes teriam algum trabalho embora mais agradável. E que só se produziria o que fosse necessário. Provavelmente a noção de lucro extinguir-se-ia. Mas conseguir isso não parece fácil neste momento.
No pretérito dia 7 de junho, Patrícia Akester, no Público, Entre Delfos e o algoritmo:
"A IA não infere apenas padrões: predefine caminhos e condiciona a decisão antes de ela se formar."
"A profecia cumpre-se por via algorítmica: a previsão da mediania produz a mediania prevista."
"Os instrumentos vigentes protegem dados, arquivos, perfis (o que já é). Falta salvaguardar devidamente o espaço onde a vontade se forma (o que ainda não é)."
"Sem essa protecção, o sujeito que habita uma suposta democracia será, em silêncio, substituído pela previsão que dele se fez."
https://www.publico.pt/2026/06/07/ciencia/opiniao/delfos-algoritmo-2176898?&_gl=1*14bgyh2*_up*MQ..*_ga*MjE0NTM3NTkyMy4xNzgwODQ0ODg1*_ga_X1FCL58HX2*czE3ODA4NDQ4ODUkbzEkZzAkdDE3ODA4NDQ4ODUkajYwJGwwJGgw
Caro Rui Ferreira,
Obrigado por mais esta achega. Tal como a AI "predefine caminhos e condiciona a decisão". náo vamos deixar-nos predefinir e condicionar por opiniões que podem ser enviesadas. Patrícia Akester merece-me consideração pela posição que tem assumido face à invasão russa da Ucrânia, já em relação ao Irão está farta de dizer asneiras.
A IA só faz o que a deixam fazer, ou o que querem que ela faça. Dizer " A IA predefine e condiciona" é uma falácia: os que gerem a IA orientam-na para predefinir e condicionar, ou não.
A frase sobre "previsão da mediania" assenta como uma luva nos media, comentadores, sobre os planificadores humanos da geração relativista pós-moderna, sobre as normas tendenciosas da geração Woke. Estamos AGORA a sofrer as consequências, e não foi a IA, foram os humanos, tal como se diz que são os humanos e não a Natureza a causa das mudanças climáticas. Longe de mim querer uma IA sem regulação, quero-a e apertada; mas quero-a muito, e quero que traga uma mudança, quase uma mutação se possível, desta espécie humana que decai a olhos vistos.
O resto do texto de Akester são profecias que podem ser auto-realizadas se tudo correr mal, mas não mais do que, como sempre disse, as profecias de Velhos do Restelo. Nem me admira que a paparia vaticana esteja alarmada: vêem surgir um novo Galileu que lhes vai dar a volta ao dogma do deus pai criador e do humano sagrado.
Por todas as razões, vale mais uma IA que um milhão de papas, ayatollahs, gurus e patriarcas. Esses sim, precisavam de ser combatidos e derrotados por todas as Akesters, comigo podia ela contar.
Bom dia. A celeuma incendiada em torno da IA, actualmente, reveste-se, creio, de uma falta de discernimento muito grande. É pena. Cláudia Ferreira (Provavelmente mais à frente pode ser calibrada esta amálgama de visões e de temores; no entanto, temo que possam não sentar-se à mesma mesa os e as interlocutores/as que com justiça estariam convidado/as, pois têm sido legítimas
testemunhas)
O que será uma opinião não enviesada? Sem uma definição não sabemos do que estamos a falar.
Sem uma identificação não sabemos com quem estamos a falar.
" não sabemos com quem estamos a falar." Nem com identificação ou pseudónimo. Só sabemos a opinião. E a opinião é que importa. Para quê o número de contribuinte? Ou do cartão...
Já que estamos a falar de IA, copy-paste:
open AI
Uma opinião não enviesada (ou isenta) é uma avaliação formada exclusivamente com base em factos, evidências e lógica, sem ser influenciada por emoções, preconceitos, interesses pessoais ou ideias preconcebidas.
Grok
Unbiased opinion" means an impartial opinion — one that is fair, neutral, and not influenced by personal feelings, prejudices, loyalties, financial interests, or ideological preferences
Meta
"Opinião não enviesada" é um ponto de vista ou julgamento que não é distorcido por interesses pessoais, preferências, preconceitos ou pressões externas.
Parecem-me opiniões não enviesadas.
"formada exclusivamente com base em factos, evidências e lógica, sem ser influenciada por emoções, preconceitos, interesses pessoais ou ideias preconcebidas."
Ou seja, é uma coisa que não existe.
Exactamente!
Cavaco Silva uma vez disse (cito de cor): "duas pessoas que tenham o mesmo conhecimento sobre um assunto e que sejam ambas honestas, tiram as mesmas conclusões."
Pressupõe a definição acima de raciocínio não enviesado.Mas é falso. No fundo parece que se está a dizer que eu sou honesto nas minhas deduções, os outros não. Ora ninguém pensa sem emoções e sem pré-conceitos etc.
E contudo é assim mesmo que funciona a Ciência, e em geral a boa sabedoria. E sim, é difícil ser honesto nas deduções, a larga maioria não é, e tanto mais quanto mais se deixarem guiar por emoções e pre-conceitos. Quando se diz "a raça humana é só uma, não há raças humanas", está-se a ser honesto, informado e sem pre-conceitos. Idem, quando se diz "a exploração e uso de combustíveis fósseis é a maior causa das alterações climáticas". Honesto, informado e sem pre-conceitos.
"A IA não infere apenas padrões: predefine caminhos e condiciona a decisão antes de ela se formar" (Akester) : desonesto, mal informado e pre-conceituoso.
" E sim, é difícil ser honesto nas deduções, a larga maioria não é, e tanto mais quanto mais se deixarem guiar por emoções e pre-conceitos."
A larga maioria...Só uma pequena minoria é honesta. Está tudo dito.
E aqui está um exemplo de uma opinião não enviesada, estará?
Eu acho que uma opinião não enviesada não é opinião, é Teorema.
Teoremas não se debatem, opiniões sim.
Pelo contrário. Opiniões, não estou cá para debater, deixo isso para as mesas redondas futebolísticas; futebol é o que se debate neste país, em casa e no autocarro, no café e na praia, no escritório e na fila de espera, em 8 canais nacionais a toda a hora, na rádio e no telemóvel, aos berros. Quem quiser discutir 'Teoremas', estou cá, como o Teorema de Akester para a IA. Sem emoções, sem viés.
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