terça-feira, 23 de junho de 2026

OLHE LÁ, VOCÊ ...

Isaltina Martins e Maria Helena Damião

Num texto ainda recente com o título O 'Você' (ver aqui), Jorge Mangorrinha, pós-doutorado em Turismo, disserta sobre uma "epidemia silenciosa" que vê espalhar-se pelos hotéis portugueses: a “vocêite aguda”. E diz que os sintomas são fáceis de identificar.

"O cliente entra no hotel e, antes de pousar a mala, já ouve:
— Você tem reserva?”
Ainda não recuperou do impacto e já lhe perguntam:
— Você quer ajuda com as bagagens?
Chega ao quarto e toca o telefone:
— Você está satisfeito com o alojamento?
Desce para jantar:
— Você prefere água com ou sem gás?
E, na manhã seguinte, quando tenta escapar discretamente para a receção:
— Você já fez o check-out online?"

Estranha epidemia sobretudo porque nunca houve tantos cursos de Turismo. Talvez o problema venha mais detrás, da família:

"Durante décadas, ensinou-se às crianças que tratar alguém por “você” era a forma mais educada possível. O problema é que se esqueceu de explicar que a palavra, em Portugal, pode soar tão delicada como uma colher de sopa a raspar um quadro de ardósia. Cresceram gerações convencidas de que estavam a distribuir elegância verbal (...). A escola também colaborou. Ensinou análise sintática, orações subordinadas e a diferença entre predicativo do sujeito e complemento oblíquo. Mas raramente explicou o subtil ecossistema das formas de tratamento portuguesas. O aluno de Turismo ouve falar de números e métodos quantitativos, mas sai incapaz de perceber porque motivo um hóspede de oitenta anos franze o sobrolho quando lhe perguntam: 
— Você deseja mais café? 
Depois aparecem os diretores hoteleiros. Frequentam congressos internacionais, assistem a palestras sobre excelência, liderança transformacional, benchmarking, upselling, storytelling, networking e outras palavras terminadas em ing
Porém, quando chega o momento de formar equipas na arte do acolhimento, resolvem tudo com uma frase inspiradora. — Tratem os clientes com simpatia. E a simpatia, sem orientação, transforma-se num festival linguístico. 
Na receção, o funcionário esforça-se por ser cordial. — Você pode assinar aqui? 
No restaurante, o empregado procura ser prestável. — Você gostou do bacalhau? 
No bar, o barman tenta criar proximidade. — Você quer mais um gin? (...)
Ao fim de dois dias, o hóspede sente-se menos cliente e mais arguido num interrogatório particularmente educado. O mais extraordinário é que muitos profissionais desconhecem alternativas. Ignoram a elegância simples do verbo na terceira pessoa sem pronome: 
— Deseja ajuda com as malas? 
— Tem reserva? 
— Gostou da refeição? 
— Precisa de alguma coisa?
Frases que circulam suavemente, sem atritos, sem embaraços, sem aquele ruído social que faz o interlocutor perguntar-se se acabou de ser tratado por amigo íntimo, vizinho distante ou suspeito habitual. 

E porque é que trouxemos este texto para aqui se nada temos a ver com turismo? 

Porque, ao lê-lo, percebemos que a epidemia não se restringe a esse reduto, encontramo-la na universidade, em diversas formas:

Mais delicadas: — Professora, olhe lá, você...
Mais directas: — Depois você avisa-nos? 
Mais investidas: — O que é que você achou do meu trabalho? 

E a nossa impressão é que se alastra e agrava. Há uns anos, uma de nós ouvia o tal você de tempos a tempos, seguia-se a explicação: enfim, você... há outras formas de tratamento pessoal, no caso, na academia... Tendo passado a ouvi-lo quotidianamente, desistiu da explicação individual e tentou a explicação colectiva, com a devida integração nas "matérias". O insucesso é óbvio: os estudantes parecem entender, mas logo a seguir voltam, candidamente, ao rotineiro você.

Um destes dias, uma estudante, simpática e de boa-vontade, foi confiada à outra de nós para realizar uma certa tarefa. Nas suas primeiras palavras constava o bendito você. Teve uma explicação individualizadíssima e completíssima. Resultou? Não! A estudante continua, sorridente, atenciosa, delicada, a usar o você.

Claro, a culpa é também de muitos de nós, que vamos objectando: 

— os tratamentos em português são muito complicados... 
— os ingleses não têm esse problema, é tudo "TU"... claro, o you serve para tudo...
— são as manias das doutorices... das diferenças sociais... agora é tudo mais igual...

E assim mostramos desconhecer ou não querer conhecer, a riqueza da nossa língua e as diferentes formas de tratamento que dependem da familiaridade, da intimidade, da confiança, do estatuto do nosso interlocutor, da relação com ele. 

Não tratamos do mesmo modo o nosso amigo e a pessoa desconhecida que encontramos na rua (seja essa pessoa quem for); um jovem ou uma pessoa mais idosa; os nossos amigos ou um professor, um empregado do bar, etc. 

Nesse tratamento, a maior parte das vezes, o você, ou qualquer uso pronominal, é perfeitamente desnecessário, o você não está ali a fazer nada... só a mostrar falta de cortesia, de educação linguística...

Deixar o você de parte não é "mania de superioridade", "complexo de inferioridade", ou tentativa de esbater diferenças sociais ou outras, trata-se de educação, de respeito, pelo mais velho, pelo superior hierárquico, pelo desconhecido...

Vivemos em Portugal, numa sociedade que tem normas, regras, às vezes subtis, para nos tratarmos uns aos outros, sendo que é na língua que encontramos a sua expressão. Falemos, então, português ou, pelo menos, tentemos...

4 comentários:

Anónimo disse...

Tenho 88 anos e sou com alguma frequência tratado por você o que me soa pessimamente ao ouvido. Há muitos anos quando nos tratavam inapropriadamente por você respondia-se "você é estrebaria". Mas a língua muda e se a grande maioria dos jovens vê no você uma forma delicada pode acontecer que dentro de uma geração assim. seja. Por outro lado, aproveita-se tudo para elogiar a nossa língua, esquecendo que o mesmo fazem todos os falantes de qualquer língua. Neste ponto, eu acho que não se trata de uma riqueza da língua mas de uma pobreza. Temos variadas maneiras de nos dirigirmos ao nosso interlocutor mas há casos em que nenhuma serve. Falta-nos uma palavra para esses casos.

Anónimo disse...

Pior é quando o professor é tratado pelo nome próprio por alunos e encarregados de deseducação:
Ó fulano, você isto é aquilo, com tentativas de “tu”, obrigando o professor a reeducar as biocriaturas de Deus.

Helena Damião disse...

Prezados Leitores, as subtilezas da língua vão-se diluindo e nos modos de tratamento pessoal também. Devemos perguntar se isso constitui uma mais-valia para as relações interpessoais. No meu entender, o essencial dessa diluição, é contra-producente para essas relações. Cordialmente, MHDamião

Anónimo disse...

Eu sou o tal anónimo de 88 anos.
De facto há pessoas que, ao atenderem-nos em balcões públicos, utilizam tantas vezes e em casos desnecessários o "você" que por vezes parece que querem propositadamente fazer figura de pouco delicados (para não utilizar outra palavra).
Mas reconheço que o tratamento depende da língua e dos hábitos e muda com o tempo. Pode ser que daqui a uma geração o "você" seja a expressão da mais pura delicadeza e respeito. De momento não é.
Mas noto que em castelhano é muito mais frequente o tratamento por tu do que em português. O mesmo em francês. Mais, o você em brasileiro não é equivalente ao você em português. Em inglês o you serve para tudo. Noutras línguas como será? Quantos tratamentos haverá e com que significados? Talvez o Profressor Marco Neves possa explicar. Sei que em japonês há mais maneiras de nos dirigirmos ao próximo do que em português, cada uma delas denotando a relação de intimidade ou respeito que se tem com o outro.
Para falar verdade apetece-me chamar malcriado a quem me trata por você. Mas tenho-me contido.

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