Trata-se de uma Carta aberta dirigida ao actual Ministro da Educação, mas podia ser dirigida a outros que o precederam. De facto, o alinhamento partidário que representam, independentemente de qual seja, vê-se subjugado às "orientações"/recomendações" de poderosas organizações supranacionais, como a Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Económico, a quem interessa a produção de "capital humano. Isto na escola pública, já se vê!
Eis as passagens que, tendo em conta o meu estudo, vejo como mais relevantes. Tomei a liberdade de mudar o título e de colocar destaques.
A promiscuidade entre o poder político e o poder económico é, na verdade, uma realidade inquestionável e um factor flagrante de corrupção.
A alteração, por exemplo, dos programas de Português, em 2003, teve como alvo prioritário a Literatura, ameaça consumada não só em Portugal, que foi aluno obediente, mas em muitos outros países. Professores franceses, belgas, espanhóis, italianos, alemães e brasileiros, entre outros, insurgiram-se igualmente contra o facto de se pretender esvaziar a Literatura dos seus autores de referência, transformando-se a “arte da palavra” em “mais um tipo de texto”, a par de uma receita culinária, uma acta, um rótulo, uma notícia ou um convite. Com esse esvaziamento, a primazia foi dada, do 1.º ao 12.º anos, ao texto funcional, de interpretação chã e paupérrimo em vocabulário, tendo sido também a escrita substituída largamente por cruzes.
O adorno principal da “inovação”, transformado em moda “pedagógica”, apelidou-se de “lúdico”, e tudo, em uníssono, tem vindo, ao longo dos anos, a apatetar os alunos e a diminuir a sua capacidade interpretativa e o seu domínio da língua, aspectos que se intensificaram com o endeusamento da tecnologia e o respectivo excesso de estímulos.
Para a implementação deste programa, muito contestado, contou o ministério com a estreita cumplicidade da Associação de Professores de Português e da Associação de Professores de Linguística (...).
Sem dúvida que a Escola deixou de instruir!... E os seus “peritos”, sr. ministro, continuam a decidir…"
10 comentários:
Mais do que o poder político ou o poder económico, a IA está a provocar uma revolução no campo da educação.A IA "sabe" fazer redações e cálculos aritméticos da primária, resolver exercícios e problemas de matemática e de ciência físico-químicas do básico e secundário, analisar textos de, línguas sejam de português, inglês, alemão, etc, fazer resumos da matéria, sejam de geografia, história, educação para a cidadania, biologia, etc...
Já sei que me vão dizer que a educação não é só a instrução de antigamente. Só os professores e os educadores de infância licenciados, como humanos que são, podem educar verdadeiramente e tanto melhor educarão quanto menos instruídos forem. Resumindo, na escola inclusiva atual os professores começam a ser vistos como um mal necesssário, sendo que a instrução do futuro próximo será provida pelos robots com inteligência artificial e a educação por monitores humanos. Atualmente, encontramo-nos numa fase de transição, não só na educação, mas também na política e na economia, caraterizada por um grande confusão em Portugal e no mundo.
Caro Leitor, a tentação de substituir os professores antecede o surgimento da IAGen, sempre que surge uma tecnologia a que se veja utilidade "pedagógica", ela desponta. Contudo, esta nova tecnologia, pela "plasticidade" que parece ter, redobra a tentação.
E, sim, tem razão: os professores começam a ser vistos como um mal necessário. Mas não são apenas eles, todos os profissionais, incluindo os políticos, estarão em risco de extinção. Está-lhes reservado um papel de supervisores, de monitores, algo assim.
Cordialmente,
MHDamião
Que se me permita ser anónimo discordante do Primeiro Anónimo. Sinto-me triste por quem considera pouco instruídos os professores atuais, mais triste ainda por considerar meros licenciados pouco confiáveis.
Creio que o 1.° Anónimo estará pouco informado, até começando pelo desconhecimento do sistema educativo português atual, a primária é coisa do antanho, atualmente é o 1.° Ciclo do Ensino Básico. Desconhece também o estudo que indica os professores portugueses como os pedagogicamente mais bem preparados na Europa. Desconhece também que o ser humano aprende mais rapidamente com alguém humano, de carne e osso, e não com androides (sugeria a leitura da vasta bibliografia sobre o assunto). Desconhece o 1.° Anónimo ainda que os nossos licenciados, mestres e doutores conseguem proezas pelo mundo fora. O sarcasmo desqualificante não onera, sinceramente, o 1.° Anónimo. Subscrevo-me como professor do ensino básico e secundário, licenciado, pós graduado e mestre, como a esmagadora maioria dos meus colegas.
Scuola Primaria.
Fico contente por ficar a saber que o sarcasmo desqualificante não me onera.
Cordialmente,
Anónimo n.° 1
Bom dia Helena Damião. Mas que espécie de indignação pode causar uma leitura deste tipo perante um fenómeno que é observável há décadas? Convidou-me para me implicar num colóquio cuja organização lhe caberia, através da Faculdade de Psicologia da UC, conversámos duas vezes sentadas na esplanada dessa mesma faculdade, mas nunca deu sequência posteriormente ao meu concreto envolvimento; aliás, um mutismo que eu, além de nunca ter compreendido, me causou (porque foi um dos muitos mutismos com que fui contemplada) um desgaste emocional profundo. Lembro-me de a ter ouvido numa discussão decorrida no CEIS20, a propósito precisamente dos males detectáveis na escola pública, em que a sua intervenção assinalava, e destacava, a impreparação dos jovens e o seu generalizado desinteresse pela escola (perfazem cerca de 12 anos de distância). Nessa ocasião apresentei-lhe um caso muito bonito com que me deparei quando exerci a docência, de uma aluna (do 8º ano de escolaridade, remetida a mais de 20 anos de distância) cuja escrita me enternecia e fazia com que chorasse sempre que lia os seus testes e trabalhos, e mais porque essa menina se confrontava com uma doença rara e, por isso mesmo, permanecia numa condição existencial bastante delicada. Perguntou-me nesse momento se não tinha guardado esses testemunhos? Respondi-lhe que não, que de facto nunca pedi autorização à aluna para guardar esses documentos. Mas sabe que o seu testemunho, ou seja, a presença luminosa desta jovem, ficou de tal forma gravado na minha memória e alimentou o meu ânimo que o verti numa escrita a que chamei ACORDA OS ANJOS? E sabe o que me aconteceu depois? Aconteceu que houve uma descaracterização, uma adulteração, uma apropriação: e tudo isto até bem perto, ou no seio, em termos territoriais, da sua cidade, de Coimbra. Aliás, fui convidada para proferir uma palestra no Rómulo de Carvalho sobre Leonardo da Vinci à qual o seu director não compareceu, nem sequer teve a delicadeza de me dirigir uma mensagem de agradecimento. E mais: no final dessa palestra concedi em falar com um aluno da UC que escrevia para o jornal A CABRA, e verifiquei depois que o artigo publicado nesse jornal e assinado pelo jovem adulterou a minha mensagem: o jovem MENTIU - EU NÃO DISSE O QUE ELE ESCREVEU. Portanto, é justo que interrogue, seguindo a reflexão que agora aqui partilha: seria esse um dos alunos já apatetados? E, se sim: como é que a UC lhe deu cobertura, no ano de 2019? Cláudia Ferreira
Portanto, Helena Damião, estando, como está, preocupada com a promiscuidade entre o poder económico e o poder político, e de como ela se reflecte na educação ao ponto de apatetar os alunos, deixo-lhe algumas pistas para um caminho possível de ser seguido pela UC. Primeiro: é necessário fazer uma revisão do "SUJEITO" e da sua construção. Segundo: para que se pondere a construção de uma SUBJECTIVIDADE aberta e actuante é imprescindível reflectir na questão do CORPO (mormente na sua dispersão moderna através do método anátomo-clínico/patológico, que, como Michel Foucault mostrou, se responsabilizou por determinar o nascimento das ciências sociais e humanas. Sobre esta questão mantenho uma proposta em que venho reflectindo depois do que pensei e escrevi na tese de doutoramento, e que defendi na UC; essa proposta supera o relativismo letal, agora, a que conduziu Foucault. Pelo que observo, no entanto, e vem espelhado nas mensagens públicas dos canais da UC, parece haver uma preocupação, quanto ao CORPO, que não contempla um horizonte crítico do ponto de vista filosófico). Terceiro: o conhecimento que nasce nas universidades, perfilando-se a partir de uma obviamente necessária 'teoria' que conceba essa SUBJECTIVIDADE aberta e actuante, não poderia ser, nem instrumental (porque assimilável automaticamente pelo "poder económico"), nem estar ao serviço de uma concepção estrita de Homem (porque aqui, como calcula, seria automaticamente capturado pelo "poder político"). Cláudia Ferreira
Entretanto, Helena Damião, aquilo em que tenho reflectido e que lhe menciono na mensagem anterior - SUJEITO e CORPO, tem subjacente uma também avaliação das condições de EXPERIÊNCIA, como são, sobretudo, determinadas pela CIÊNCIA, e que actualmente são as que preferencialmente caucionam a garantia de Mundo. Não se tratando de atacar a Ciência (de forma nenhuma!!!), no entanto, penso que deve perceber-se algo muito importante: ninguém nasce cientista, aliás, como ninguém nasce carpinteiro, ou professor, ou psicólogo. Tive a oportunidade de ouvir o dr. Carlos Fiolhais a falar (neste caso, numa intervenção disponível no YouTube em que conversa com Afonso Cruz) sobre a ligação entre a Ciência e a Arte de forma bastante irascível e até desagradável; penso que seria interessante ele deter-se de forma mais consistente nessa ligação. Cláudia Ferreira
O dr. Carlos Fiolhais, director do Rómulo de Carvalho e presente neste fórum em que a Helena Damião escreve, NUNCA DIALOGOU COMIGO; o que se apresentaria como pelo menos provável tendo em conta que fui convidada para apresentar uma visão nesse centro, e realmente estive lá, e falei para uma sala, naquele caso, cheia. Como é que um CIENTISTA que, além de ocupar um lugar cimeiro na sua cátedra universitária, se apresenta como divulgador nato, e supõe-se responsável quanto à sua intenção pessoal, mas sem dúvida com impacto mediático, NUNCA demonstrou curiosidade (uma qualidade que é inata a um cientista) para conhecer e conversar com uma pessoa que se implicou também na repercussão da imagem de um Centro de Ciência que ele tutela? Cláudia Ferreira
Boa tarde cara Helena Damião. Peço que encare a rudeza com que expus, tanto os factos, como as ideias, de forma benevolente. Peter Sloterdijk tem um livro que em português vem com a data de 2008, "Tens de Mudar de Vida", onde expõe também muito clara e detalhadamente o que a aflige - a corrosão do ensino - que aí é perspectivada, aliás, a nível europeu. Os meus cumprimentos, Cláudia Ferreira
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