quinta-feira, 7 de junho de 2018

Escola sem telemóveis

No campo da educação formal as decisões mais razoáveis são, aparentemente, as mais difíceis de tomar. E quando isso acontece, pela sua estranheza, são notícia nacional e, mesmo, internacional. É o caso da proibição do uso do telemóvel na escola. França foi um país pioneiro nesta matéria, logo esteve (ver aqui) e está hoje nos noticiários e nos jornais (pelo menos) da Europa.

Depois de o Presidente da República a ter apontado, o Ministro da Educação bateu-se por ela, levou-a à Assembleia Nacional e hoje foi traduzida em letra de lei: a partir de Setembro de 2018 nem alunos nem professores podem ter telemóveis, tanto nas aulas como nos espaços exteriores, e isto é válido para todos os níveis de ensino, incluindo o superior. Haverá excepções para casos especiais.

As razões do Ministro da Educação (cito a notícia do jornal Público) afiguram-se-me perfeitamente válidas: evitar a distracção na sala de aula e fazer face a problemas de comportamento entre alunos. São, na verdade, dois problemas de que os professores se queixam reiteradamente no nosso país.

É claro que o Ministro tem a contestação dos partidos da oposição e do sindicato de professores. A estas duas entidades hão-de associar-se outras: empresas de tecnologia, pais/encarregados de educação, investigadores que advogam a aprendizagem com este equipamento...

Ao que parece, mais ou menos como cá, cada escola pode prever (nos seus regulamentos) regras para o uso dos telemóveis, mas a complicação que isso causa e o tempo faz gastar (recolha e devolução, queixas de pais, prevaricação dos alunos, etc.) faz com que a desistência ou o aligeiramento do controle seja uma tentação quando não uma realidade. Talvez, por isso, o dito Ministro se tenha batido pela necessidade de "uma base legal muito mais forte".

É preocupante ler esta declaração pois os directores, professores e outros educadores deveriam (poder) assegurar que os alunos se focalizam na aprendizagem e que vão adquirindo um comportamento socialmente aceitável, mas as várias pressões de que são alvo têm o seu efeito. Assim, talvez esta legislação seja, para já, um mal menor, uma via para recuperar a atenção/concentração que o trabalho escolar requer e a convivência.

9 comentários:

  1. É preciso ser objectivo, prático e inteligente. Nenhum mal viria ao mundo se regras fossem impostas, a começar pelo bombardeamento wi-fi dentro da sala de aula. Só um idiota poderá convencer-se que nenhuma consequência tem sob a actividade do cérebro e a aprendizagem, isto para lá de toda a distracção associada. Porque será que um país como a Suíça afastou das escolas o wireless, e tudo passou a cabo? E não é caso único, o caso francês é hipócrita, pois em vez de afastar a causa, afasta a distracção.

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  2. É uma tendência a chegar:

    Why One School In Surrey Is Banning Mobile Phones
    https://www.youtube.com/watch?v=giyW9dRuw0c

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  3. Para além do exposto, sabemos que a esmagadora maioria das crianças ou adolescentes utiliza o telemóvel para fins pessoais não didáticos, muitas vezes, gravando, filmando e fotografando ilicitamente pessoas, espaços e situações, não ficando garantido o direito à imagem ou à privacidade dos visados. Já assistimos a vários exemplos desses abusos nos meios de comunicação social...
    Dificilmente se vigiam movimentos escondidos de acesso ao telemóvel em turmas enormes como as nossas, a não ser que, diariamente, se verifiquem mochilas, retirando, desligando e concentrando todos os telemóveis num qualquer sítio previamente definido. Não é funcional e perde-se tempo de aula.
    Concordo com a abolição total de objetos passíveis de distração e de difícil controlo que em nada contribuem para o processo de ensino/aprendizagem.
    A escola está aberta. Existem telefones, emails, suportes de informação escrita e horários de atendimento personalizado que poderão ser utilizados em caso de necessidade de contacto, urgente ou não.
    Exceção: caso o professor queira invocar os telemóveis para fins didáticos, deve informar os E.E. dessa intenção, controlando devidamente as movimentações com os mesmos, assumindo a inteira responsabilidade por qualquer situação que ocorra na data definida para o efeito.

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  4. A Suiça é um país do primeiro mundo. Eu arrisquei comprar um canivete "Made in China" e acabei por cortar a mão, porque o pequeno artefacto desengouçou-se todo logo na primeira utilização. Hoje, só uso canivetes que comprei em Berna, na própria Suiça!.
    Portugal devia afastar o wireless do interior das escolas. Como os pais e os professores já não têm mão nos rapazes, a proibição dos telemóveis tem de ser imposta pelo Estado, de outro modo as fotos e filmagens proibidas pelo regulamento interno, como quando o explicador a quilómetros de distância responde ao seu explicando enviando-lhe as imagens do teste totalmente resolvido, vão ser cada vez mais frequentes acentuando o caráter selvagem do ambiente escolar com uma profusão avassaladora de mensagens eletromagnéticas altamente perturbadoras do regular funcionamento do processo de ensino/ aprendizagem. Convém recordar que em muitas escolas públicas dos Estados Unidos da América a segurança já é reforçada com a presença permanente de agentes de autoridade.

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  5. A Escola é um reflexo directo da sociedade. Tal como o A090, toda a gente sabe o que deve ser feito. O bom-senso deve ser restaurado sobre todo o fascínio e húbris.

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  6. Fala-se muito de distracção, mas o problema é muito mais grave. Na verdade o que estamos a criar é uma geração (tóxico)dependente, sempre à espera do próximo chuto de dopamina, que nem cão de Pavlov. Toda a estrutura cerebral, gestão e produção de neurotransmissores sai prejudicada. Hoje temos uma sociedade onde os profissionais da área nada mandam na área. Professores que não podem ensinar, médicos que não podem tratar, etc.

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  7. As microondas usadas na telecomunicação são um risco já certo, as seguradoras já tornaram isso claro, lavando as mãos de todas as responsabilidades:

    Telecom and Insurance Companies Warn of Liability and Risk
    Cell Phones Wireless Companies Warn Shareholders About Future Financial Risks From Electromagnetic Radiation
    https://ehtrust.org/key-issues/cell-phoneswireless/telecom-insurance-companies-warn-liability-risk-go-key-issues/

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  8. Errata: onde se lê "desengouçar" deve ler-se "desengonçar".
    As desculpas que peço, à cabeça, a todos os filólogos da nossa praça, estendem-se, naturalmente, ao conjunto mais alargado que constitui o povo português! Se eu tivesse poderes de administrador do blogue, completaria a minha boa ação corrigindo o erro no corpo do texto do comentário inicial!
    Obrigado a todos!

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  9. Prezado Leitor Anónimo, das 10h41 certamente, por inabilidade informática não sou capaz de emendar o seu erro de ortografia. Mas ele ficou bem emendado na mensagem que teve a amabilidade de nos enviar.
    MHDamião

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