sábado, 18 de maio de 2024

CELEBRANDO O QUINZE

 


Meu artigo no mais recente número do quinzenário cultural As Artes entre as Letras, que hoje celebra no Porto os seus 15 anos:

O número quinze tem significado religioso por ser o produto de dois números sagrados (3 x 5), que na matemática constituem o primeiro par de gémeos de números primos (primos separados por duas unidades). Se somarmos os cinco primeiros números naturais, 1 + 2 + 3 + 4 + 5, também obtemos 15.  É um número importante na ciência, para além da matemática: é o número atómico do fósforo, o elemento químico cujo nome significa luz brilhante, e é o número da galáxia M15, um dos agregados de estrelas mais notáveis da nossa galáxia.

Mas é também um número relevante na nossa vida. Nos Estados Unidos é a idade mínima para poder obter carta de condução. Na América latina, há a tradição da festa das quinceaneras, celebrando a transição para a maturidade. Em França é a idade mínima para o consentimento sexual. Na cultura judaica, é o número mínimo de casas para poder ter uma sinagoga. E várias datas festivas ocorrem no dia 15. Ainda nessa cultura, uma particularidade curiosa: o número não se escreve com 10 (yodh) e 5 (heh) porque a junção daria um dos nomes de Deus, escrevendo-se antes com 9 (teth)  e 6 (vav).

Quinze é um número que entra de várias formas na cultura. É o número de categorias na Ordem dos Templários. E é ainda o número de mortos num poema cantado por piratas na Ilha do Tesouro, de Robert Louis Stevenson («Fifteen me non the dead man’s chest»). E é o número de jogadores de uma equipa de rugby.

Mas, hoje e aqui, quinze é sobretudo o número de anos do magazine cultural As Artes entre as Letras.  É uma festa para todos, a começar na equipa que o faz com regularidade desde o primeiro número em Maio de 2009, encabeçada pela sempre jovem Nassalete Miranda, e a acabar no colaborador permanente e membro do Conselho Editorial desde a primeira hora que assina estas linhas. Como a revista é quinzenal, o número quinze está inscrito no seu calendário desde o início. Portanto, foram quinze anos, de quinze em quinze dias, com várias e boas leituras sobre os mais variados temas de filosofia, história e património, artes plásticas e arquitectura, literatura, música, teatro, cinema, ciência, educação, etc., com uma atenção especial dada à lusofonia e à região Norte. Assinados por uma plêiade de autores das nossas letras e artes, infelizmente alguns deles já falecidos.  É só fazer as contas para ver o número de exemplares acumulados cujo rico conteúdo se foi acumulando em nós. Falo por mim, mas arrisco pensar que este sentimento é partilhado por muitos outros autores: estamos bem mais ricos ao fim destes quinze anos. Estou grato ao Artes e a quem o tem feito.

Os quinze anos correram muito rápidos, porque é assim que corre o tempo. Lembro-me que 2009 foi o Ano Internacional da Astronomia, por determinação das nações Unidas, para comemorar os 400 anos das primeiras observações que Galileu fez com o telescópio. Mas, com o auxílio da Internet (que é um excelente auxiliar de memória), lembro-me de alguns feitos da ciência nesses anos.  A começar pelo espaço, a ESA, a agência espacial europeia, lançou em Maio duas missões de satélites que tiveram impressionante êxito, os telescópios espaciais Planck e Herschel, o primeiro de raios X e o segundo de infravermelhos. A NASA lançou a sonda Kepler, que detectou centenas de exoplanetas. Foi encontrada água no pólo Sul da Lua e um lago subterrâneo de água em Marte. O eclipse solar total mais longo do século XXI ocorreu na China e na Índia, os países mais populosos do planeta (foi, portanto, o mais visto de sempre). Já era bem visível o aquecimento global, com uma onda de calor na Austrália, tendo havido no final do ano uma Conferência Internacional das Nações Unidas sobre Alterações Climáticas em Copenhaga. Na informática a Microsoft lançou o Windows 7 e a Apple o Iphone 3GS (o Windows já vai no 11 e o Iphone no... 15). Foram feitas as primeiras transmissões de televisão de alta-definição.

Na política, o Prémio Nobel da Paz foi dado inesperadamente a Barack Obama, presidente dos Estados Unidos há relativamente pouco tempo. A Rússia e a Ucrânia estavam em disputa pelo gás natural. E o primeiro-ministro então eleito de Israel era… Benjamin Netanyahu.

Foi também um ano de algumas desgraças: caiu um avião francês (voo 447 da Air France do Rio de Janeiro para Paris) no meio do Atlântico (pouco antes tinha escapado, com uma aterragem forçada no Hudson, um avião norte-americano), houve um grande terramoto em Áquila, no centro de Itália. E houve a primeira pandemia do século XXI, a da gripe A (estava-se longe em 2009 de se imaginar a da COVID-19, dez anos depois).

Nas artes, o Nobel da literatura foi dado à alemã Herta Mueller. A Disney comprou a Marvel, a companhia dos super-heróis. E foi o ano da morte de Michael Jackson, provocando enorme comoção em todo o mundo.

Hoje, 15 anos depois, a ciência e a tecnologia progrediram; veja-se, por exemplo, o caso espantoso da inteligência artificial. Mas o mundo, continua convulso com disputas e desastres. Valem-nos, como sempre nos tem valido, as artes e as letras. O As Artes entre as Letras tem-nos valido nos últimos 15 anos. Que nos continue a valer por muitos anos!

Carlos Fiolhais

 

 

 

 

 

quarta-feira, 15 de maio de 2024

A FEALDADE DA LINGUAGEM DE ALGUNS ESPECIALISTAS

Como sugeri em vários apontamentos que tenho deixado neste blogue, vale muito a pena ler o que Jorge Larrosa escreve sobre o ensino e a formação de professores. Em mais um apontamento, recupero parte de uma entrevista que, em 2013, deu a Camila Ploennes (ver aqui).

Sobre a linguagem pseudo-educativa, a "linguagem dos especialistas", como diz...
"A minha mãe foi professora de creche por muitos anos. Hoje ela tem 82 anos. Ela tinha muito talento para contar histórias (...). Morávamos numa aldeia muito pequenininha do interior. Quando eu tinha 16 anos, migramos para a cidade e, então, minha mãe começou a trabalhar em uma escola que já estava altamente colonizada pela língua dos especialistas. Ela sentiu uma coisa muito particular: que a língua dela não estava autorizada, que não falava a língua dominante e então sentiu isso como uma humilhação. Porque ela não dominava a linguagem da psicologia, da psicologia cognitiva, das técnicas de avaliação (...). Então eu creio que ao reivindicar (...) o direito de o professor contar histórias, estou reivindicando um pouco a minha mãe. Porque ela tinha uma língua literária, porque era narrativa, mas ao mesmo tempo tinha a vontade de transmitir uma experiência, um conhecimento (...). E eu creio que essa língua está quase desaparecendo do campo educativo, então todo mundo tem de aprender a falar como os especialistas e isso é um problema, porque essa língua é feia."

Sobre a função do professor e do contexto em que professor e alunos se encontram em virtude de um interesse pelo mundo, quando juntos constroem algo que é comum.

"O professor não é um mediador. Existe um invento muito prodigioso que é a sala de aula. Uma sala de porta fechada, onde se reúnem várias pessoas e um professor, juntos, de corpo presente. A sala de aula é um espaço tridimensional, onde as pessoas estão reunidas ao redor de algo que é uma matéria de estudo. Na escola, as pessoas não estão interessadas umas pelas outras, se estão ali é porque estão interessadas pela mesma coisa, que é pelo mundo, pela matéria de estudo. Então o que acontece quando a sala de aula tem tecnologia? Ela se converte em um “entorno de aprendizagem”, como se gosta de dizer agora. Esse caráter tridimensional desaparece e esse caráter “comunista” desaparece e cada um está conectado ao conhecimento de uma forma privada e particular. Mas aí a sala de aula desaparece e cada vez mais. Não é mais um espaço tridimensional, é um espaço bidimensional, como é a tela. Minha ideia é a de que cada vez mais nos relacionamos com o mundo por meio da tela, por meio do mundo bidimensional, que não tem profundidade. Quando a sala de aula se converte em um centro de conexões, esse lugar onde cada um se conecta com algo, essa dimensão do que havia de comunitário desaparece. Eu não sou contra as tecnologias, mas me parece que as tecnologias são interessantes e educativas se usadas para construir o que é comum. E se são usadas como maneiras particulares e privadas de relacionar-se com o conhecimento já não são educativas, são outra coisa (...)."
"Uma aula é construir uma conversação sobre algo comum. E uma conversação pode ser construída com vários elementos: com textos, com tecnologia, com artes, com o que for. Mas o importante é que tudo isso construa algo comum e não algo particular de cada um. E aí creio que não é uma questão de tecnologia; se é tecnologia ou não. Tem a ver com a individualização. A educação no mundo moderno vai a favor de um individualismo, da separação das pessoas. Então as tecnologias unem as pessoas ou as separam? Unem as pessoas porque as conectam e as separam, porque cada um está com seu computador, com seu facebook, com sua televisão. Unem e separam ao mesmo tempo. Então as tecnologias são educativas quando unem e não quando separam (...)."

segunda-feira, 13 de maio de 2024

EGAS MONIZ 150 ANOS CELEBRADOS EM AVANCA

PORTUGAL MEDIEVAL


 

NOVIDADES DA GRADIVA

 

Novidades Gradiva Maio 2024 | Já disponível: "Subtil é o senhor", de Abraham Pais. De €25,00 por €22,50.

VENCEDOR DO NATIONAL BOOK AWARD NONFICTION

VENCEDOR DO SCIENCE WRITING AWARD 
 

Desde a morte de Albert Einstein em 1955, foram muitos os livros dedicados ao homem e ao cientista, bem como à teoria que criou.

Abraham Pais, o reputado físico norte-americano que privou com Albert Einstein durante vários anos, oferece-nos, neste seu livro, um guia sobre a vida e o pensamento do mais célebre cientista do século XX e talvez de sempre. Recorrendo a numerosos escritos inéditos e a relatos pessoais, a sua narrativa ilumina a figura do homem e do pensador com um rigor e uma vivacidade notáveis, tornando este seu livro a melhor biografia intelectual de Einstein. Escrita com um conhecimento íntimo incomparável da vida e do pensamento de Einstein, esta nova edição de Subtil é o Senhor irá encantar e inspirar leitores fascinados pelo homem cujas ideias revolucionárias definiram a física moderna.

Nova edição com prefácio de Roger Penrose (Prémio Nobel de Física de 2020) e um texto de apresentação de Vítor Cardoso (Professor Bohr, Instituto Niels Bohr, e Professor Distinto do IST - Instituto Superior Técnico)

Já disponível: "Entre a Mentira e a Ironia", de Umberto Eco. De €12,50 por €11,25.

Mais do que uma reflexão literária ou semiótica sobre a mentira e a ironia, este pequeno livro de Umberto Eco reúne quatro ensaios sobre os usos e abusos da linguagem.

Apesar de aparentemente não terem muito em comum, as figuras que habitam estes textos do célebre semiólogo italiano - Cagliostro, Alessandro Manzoni, Achille Campanile e Hugo Pratt -, proporcionam uma reflexão sobre a linguagem e a sua capacidade de ironizar, mentir, desfigurar ou subverter o sentido das palavras.
 

«Umberto Eco mudou a nossa visão dos livros: essenciais, pequenos, frágeis, por vezes perigosos, quase sempre salvadores.Um mestre que nos ensinou a entrelaçar a sabedoria e o jogo com o seu estilo sagaz e lúdico, com a sua surpreendente inventividade e lucidez certeira.»

 

Irene Vallejo

Já disponível: "O Médio Oriente e o Ocidente", de Bernard Lewis. De €15,50 por €13,95.

As consequências do choque entre o Islão e a modernidade.

A perda da liderança civilizacional pelos muçulmanos e o seu afastamento da modernidade são factos centrais no quadro da história universal dos últimos quinhentos anos e permanecem entre os principais factores por detrás de conflitos internacionais e disputas diplomáticas.

O que correu mal?

Inquestionavelmente uma questão pertinente. Frequentemente, os muçulmanos parecem manifestar o sentimento de que a história os traiu, e não há tema relativamente ao qual a contribuição deste clássico historiador Bernard Lewis possa revestir-se de maior importância, tanto mais que o assunto surge contaminado por comprometimentos ideológicos, discursos facciosos e pelos constrangimentos do politicamente correcto.

Muitos evitaram a questão por todo o tipo de razões erradas. O que ainda nos faz mais devedores da contribuição dado por Bernard Lewis. Ninguém como ele identificou melhor a linguagem e as motivações dos protagonistas, o que fez dele uma das vozes mais credíveis e objectivas na análise da relação histórica entre o Médio Oriente e a Europa.

Nova edição com prefácio de Bruno Cardoso Reis (historiador)

Já disponível: "Tenho os Olhos a Florir", de Marta Pais Oliveira. De €14,90 por €13,41.

O céu desta história está pintado por um bando voador que nem sempre se deixa apanhar - ou domesticar. Mas um dia alguém exige que se capture um pequenino e raro manual de instruções de como fazer um herbário. Aí começa uma grande confusão. Como se resiste a uma imaginação encolhida? Como se ergue um olhar curioso que sabe que conhecer é cuidar, e cuidar é amar?
 

«Este é um daqueles livros que voam e, mais importante, cumprem a promessa do seu título: fazer os olhos florir.»

AFONSO CRUZ

O conservadorismo no Estado Novo como entrave ao progresso da ciência

Conservadorismo, subfinanciamento e opressão a investigadores entre principais causas da estagnação da Ciência durante o regime. Investimento científico nas colónias usado em prol da consolidação do império em África, explica investigador da NOVA-FCSH. 

 - Por Joana Almeida, Guilherme Borges e Ana Cardoso 

Artigo do jornal A CABRA, da Associação Académica de Coimbra, comemorativo dos 50 anos do 25 de Abril, para o qual prestei declarações:

Durante a Ditadura, o clima de opressão e instabilidade que se vivia era universal em todas as áreas da sociedade, pelo que a Ciência não era exceção. Este foi um período marcado pelo princípio manifestado por António de Oliveira Salazar, que assentava na ideologia estabelecida: “estamos orgulhosamente sós”. A expressão foi usada em 1965 num discurso sobre a Guerra Colonial e a situação geopolítica do país, mas também pode ser aplicada ao contexto do progresso científico no Estado Novo. 

Por todo o mundo assistia-se a uma grande evolução científica, em que países competiam pelo desenvolvimento e conquista de novas tecnologias, explica Carlos Fiolhais, físico e antigo professor da Universidade de Coimbra (UC). Por outro lado, Portugal não acompanhou este avanço e abraçou um conservadorismo que pretendia manter uma economia "ligada à terra”, destaca. 

O cientista explica que não foi uma época “amiga da Ciência nem dos cientistas” no país. “O mundo sabia que a Ciência era poderosa, mas o Estado português não percebeu isso, estava isolado devido à Guerra Colonial”, esclarece. Carlos Fiolhais refere ainda que, apesar de se ensinar e praticar Ciência, o investimento sempre foi insuficiente quando comparado com as demais nações da Europa. As entidades responsáveis pela política científica - a Junta de Educação Nacional, que depois passa a Instituto para a Alta Cultura - atribuíam um “apoio muito tímido” ao desenvolvimento científico, o que causou um “subfinanciamento crónico” no setor, reflete Tiago Brandão, investigador integrado da Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade NOVA de Lisboa (NOVA FCSH). Carlos Fiolhais acrescenta que, em 1964, a estimativa de investimento na Ciência e tecnologia abrangeu apenas 0,1% do PIB português. 

Por outro lado, começaram a surgir os primeiros apoios de privados, em especial vindos do estrangeiro, como aconteceu com a Fundação Calouste Gulbenkian, em 1956, refere o investigador da NOVA FCSH. “Este instituto foi como um oásis onde foi possível proteger algumas individualidades que não comungavam da ideologia do regime”, expõe. As contribuições dos privados, promovidas por meio de bolsas, permitiram combater o baixo financiamento do Governo, levando à criação de «ilhas de progresso e de abertura», conclui.

A maior parte do avanço científico que existiu durante este período nasceu com a finalidade de ser aplicado nas colónias, em particular através de investigações para melhor rentabilizar os seus recursos naturais, como explica Carlos Fiolhais. Segundo Tiago Brandão, a ocupação efetiva dos territórios em África “sempre foi muito difícil”. Assim, na década de 1930 surge “uma retórica da ocupação científica do Ultramar", utilizando a “Ciência como parte do projeto político de controlo das colónias”, explicita. Destaca ainda a geologia, por exemplo, que foi usada para “conhecer os recursos naturais e desenvolver a indústria extrativista”. 

Contudo, quando foi descoberto petróleo em Angola, Salazar teria ficado “assustado”, considera Carlos Fiolhais. Este acontecimento era sinónimo de progresso e transformações sociais, o oposto dos ideais defendidos pelo regime, elucida o físico. O Estado Novo encarava a modernização como “perigosa”, pois a industrialização “levaria ao aparecimento dos operários, o que resultaria em movimentos sindicais, que culminariam no comunismo, o grande inimigo do regime”, argumenta o antigo professor da UC. 

Com o objetivo de aumentar a sua popularidade, a Ditadura usou como propaganda a revista mensal “Portugal Colonial". Isabel Duarte, docente na Universidade do Porto, foi uma das autoras do artigo “Discurso científico e ideologia na revista do Estado Novo, Portugal Colonial”. Na publicação dissertou sobre o uso da Ciência para fins propagandísticos, especialmente no contexto colonial do regime salazarista. De acordo com a autora, um dos objetivos dos textos era “pôr o conhecimento especializado ao serviço do império colonial”. 

A revista continha artigos sobre agricultura, economia, comércio e indústria, assim como textos “claramente ideológicos”, ressalta a professora. A “Portugal Colonial” era a favor da Ditadura e “muito elogiosa”, utilizando a Ciência “ao serviço da construção da ideologia do Estado Novo e para legitimar o regime”, refere. Isabel Duarte assevera o contraste com a atualidade: “ao contrário do que acontece hoje na Ciência, a revista era expressa com superlativos e muita adjetivação”. Assim, existia uma “presença ostensiva por parte dos seus autores, que se aproximava mais de um discurso de manifesto do que científico”, adiciona. 

Carlos Fiolhais aponta que as várias áreas científicas eram tratadas de formas diferentes nesta época. De acordo com o antigo docente, o regime usava a Ciência aplicada para fazer propaganda. “O Estado Novo, mais do que recorrer à Ciência como propaganda, usava obras e infraestrutura, como é o exemplo de alguns edifícios da UC, que imitam os da Itália fascista”, explica. A Ponte 25 de Abril chamava-se “Ponte Salazar” em homenagem ao ditador que a inaugurou, exemplifica. xxx Durante esta época, vários investigadores e professores foram alvo de perseguição pelo regime, outro obstáculo que impediu o desenvolvimento científico e tecnológico. Em 1947 foi redigido um decreto no qual o presidente do Conselho de Ministros ordenou a demissão de 21 professores da Universidade de Lisboa. Marieta da Silveira, assistente do professor Aurélio Marques da Silva, afastado da cátedra da Faculdade de Ciências de Lisboa, garante que os professores demitidos não tinham qualquer atividade política. “No Laboratório de Física só se falava de política esporadicamente, na hora do lanche, e só para comentar alguma notícia que saía nos jornais”, explica em entrevista ao Expresso. 

Carlos Fiolhais destaca que “muitas destas pessoas tiveram de se exilar, tendo só regressado a Portugal após o 25 de Abril”. A título de exemplo, apresentou o caso de Mário Silva, cientista português que, após ter sido depurado, para se conseguir sustentar, teve de vender equipamentos da Philips. Ainda assim, explica que as perseguições que existiram neste período “não eram científicas, mas políticas”.

Por sua vez, Tiago Brandão aponta que os cientistas foram oprimidos devido à sua “liberdade intelectual e liberdade de expressão”, que constituíam uma ameaça aos princípios ideológicos do regime salazarista. Por este motivo, de acordo com o investigador, Salazar censurou a introdução da Sociologia na Academia Portuguesa, o que “revela como as Ciências humanas e sociais apresentavam um perigo para o regime”. 

“A Ciência precisa tanto de liberdade como um cidadão necessita de pão para a boca: é preciso poder pensar e escrever livremente, passar fronteiras com papéis e com instrumentos”, argumenta Carlos Fiolhais. Desta forma, o físico assevera que a “área científica não tinha um cenário ideal para florescer no país”. Conclui ao sublinhar que o insuficiente desenvolvimento científico não se devia apenas à falta de

segunda-feira, 6 de maio de 2024

NOVOS CLÁSSICOS DIGITALIA

Os Classica Digitalia têm o gosto de anunciar 2 novas publicações com chancela editorial da Imprensa da Universidade de Coimbra. Os volumes dos Classica Digitalia são editados em formato tradicional de papel e também na biblioteca digital, em Acesso Aberto.

NOVIDADES EDITORIAIS

 

Série “Autores Gregos e Latinos” [textos]

 

Maria de Fátima Silva, Eurípides. Fragmentos. Vol. I. Tradução do grego, com estudo introdutório e comentário (Coimbra, Imprensa da Universidade de Coimbra, 2024). 319 p.

DOI: https://doi.org/10.14195/978-989-26-2552-2

  

[Este volume apresenta uma primeira tradução comentada em língua portuguesa da produção de Eurípides chegada até nós em forma fragmentária. A consideração deste material não só amplia, de modo significativo, a produção conhecida do poeta, como permite uma interpretação mais sólida das peças conservadas, tida em conta a atividade global do autor. Neste, que é ainda o primeiro volume dada a grande quantidade de fragmentos conservados de Eurípides, estão incluídos – seguindo a ordem alfabética do grego – os títulos seguintes: Egeu, Éolo, Alexandre, Alcméon, Alcmena, Álope, Andrómeda, Antígona, Antíope, Arquelau, Auge, Autólico I e II, Belerofonte, Busíris, Dánae, Díctis.]


- Reina Marisol Troca Pereira: Álcifron, Epístolas - Inconfidências de um ilustre desconhecidoTradução do grego, com estudo introdutório e comentário (Coimbra, Imprensa da Universidade de Coimbra, 2024). 239 p. 

DOI: https://doi.org/10.14195/978-989-26-2550-8

  

[Disponibiliza-se a tradução de 123 ‘cartas’ em prosa ática atribuídas a Álcifron. De datação, naturalidade e atividade ignotas, o autor reparte por 4 grupos sociais — designadamente rústicos, pescadores, parasitas e cortesãs — a ficção epistolar conservada de modo disperso em múltiplos manuscritos, todos tardios, face à conceção. Numa linguagem elegante, expõem-se através de um rol de figurantes ora masculinos ora femininos, ora de nome reconhecido ora não afamados, sob pretenso laço intimista de estima, alvitres de cariz didático, enredando realidade e fantasia, motivos típicos de uma Segunda Sofística. Assim, um rol de elementos de tradição cultural helénica de índole religiosa, heortonímia, toponímia, costumes, vícios, virtudes, filosofia, afetos, comportamentos.]

_______________________________________________
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Classicadigitalia_pt@uc.pt
http://ml.ci.uc.pt/mailman/listinfo/classicadigitalia_pt

PAULO NUNO - Transdisciplinaridade

domingo, 5 de maio de 2024

FÁBULA BEM DISPOSTA

Se uma vez um rei bateu na mãe,
pra ficar com um terreno chamado,
depois, Portugal, que mal tem
que um russo teimoso tenha queimado

o terreno de um vizinho? Francamente!
O vizinho andou a provocar,
querendo ter uma vida diferente,
sem pedir para o russo autorizar!

Logo o russo, senhor do seu nariz,
o atacou com blindados, com mísseis,
com drones e tudo quanto quis,

porque estas coisas são muito fáceis
de obter, cortando na paparoca
e também na dispensável pipoca!
                                                                    Eugénio Lisboa

terça-feira, 30 de abril de 2024

EMPIRISMO NO PENSAMENTO DE ARISTÓTELES E NO DE ROGER BACON, MUITOS SÉCULOS DEPOIS.

Por A. Galopim de Carvalho
 
Se, numa aula de filosofia, o professor começar por dizer que a palavra empirismo tem raiz no grego empeirikós e que significa experiência, está praticamente tudo explicado. Assim, um tema que quem não sabe julga difícil de abarcar, torna-se tão simples como uma conversa em torno da cozinha, por exemplo. Empirismo, na filosofia de Aristóteles, é, pois, a linha de pensamento segundo a qual todo o conhecimento deve ser baseado na observação do mundo e não na intuição ou na fé. 
 
"Não existe nada na mente que não tenha passado pelos sentidos", afirmou este que foi o fundador do Liceu de Atenas, no século IV a. C. Esta linha opõe-se ao Inatismo de Platão, conhecido como corrente do pensamento que acredita e defende que o conhecimento de um indivíduo é uma característica que nasce com ele ou, dizendo por outras palavras, que lhe é inato. Não obstante ter sido seu discípulo, Aristóteles contrariou esta concepção do mestre. 

Quase 17 centúrias depois, o inglês Roger Bacon (1214-1294), filósofo e alquimista, alargou o pensamento de Aristóteles introduzindo a variante experimental, no sentido de trabalho de laboratório. 
 
O Empirismo deste frade inglês, conhecido como "Doctor Mirabilis" (Doutor Admirável em latim), alude, entre outras, às experiências que, séculos depois, continuam a ser feitas nos laboratórios do presente, estando, portanto, na base do método experimental. É hoje um dado assente que só os resultados experimentais permitem a indução em ciência. 
 
Base ou fundamento do método científico, o Empirismo ensina que todas as hipóteses e teorias devem ser testadas por dados experimentais.

Diferente do conhecimento científico (baseado em factos verificáveis e comprovados pela experimentação), o conhecimento empírico, no sentido que hoje vulgarmente se lhe dá, é o que se adquire na nossa vivência diária, aprendendo superficial e acriticamente, através dos sentidos, fazendo, errando e corrigindo. É, em suma, o da experiência pessoal. Não obstante não ser considerado de nível científico, o conhecimento empírico, nesta óptica, foi a base de toda a sabedoria que, ao longo de séculos, conduziu a humanidade até o surgimento da ciência e continua a conduzir todos os milhões de homens e mulheres que, vivendo à margem da ciência, beneficiam de tudo o que ela produziu e produz em termos de tecnologia.

No caso da culinária, por exemplo, o conhecimento é essencialmente empírico, não devendo, todavia, esquecer-se que os electrodomésticos e outros equipamentos ao dispor, assentam em conhecimentos verdadeiramente científicos e que, cada vez mais, a ciência, nomeadamente a bioquímica, tem vindo a introduzir ensinamentos importantes no que respeita a dieta alimentar.

Na imagem: Roger Bacon no seu laboratório. Pintura de Ernest Board (1877-1934) 
 
A. Galopim de Carvalho

segunda-feira, 29 de abril de 2024

O FÍSICO PRODIGIOSO

 


Cap. 43 do livro  "Bibliotecas. Uma maratona de pessoas e livros", de Abílio Guimarães, publicado pela Entrefolhos, que vou apresentar no próximo sábado em Oliveira de Azeméis. É uma bela obra, onde se descrevem 50 bibliotecas privadas que o autor visitou, entre os quais a minha:

Carlos Manuel Baptista Fiolhais
25 de Agosto de 2023 / 6ª feira / 11h 15
Rua do Pinheiro / Coimbra

Até que no tempo cesse anónimo o ténue sopro que ao tempo dou.
Rui Knopfli

12.06.56 / 67 anos / Físico (doutorado em Física Teórica), cientista, difusor de ciência e professor catedrático; criou o "Rómulo" - Centro de Ciência Viva da Universidade de Coimbra  (UC) e foi director da Biblioteca Geral da UC.

Enquanto o ouvia num podcast e tomava umas notas a dado passo escrevi: Humildade. Chega a minha mulher  e também se encanta: Parece uma pessoa humilde. Para quem diz que rir é um modo de nos curarmos e que a vida é uma caixinha de surpresas, ser autor de um artigo com mais de 25 000 citações e ter quase uma centena de livros publicados é como me disse o meu filho: Nem acreditas!

Se é verdade que as páginas de um livro não são todas iguais - numas quase adormecemos, noutras o arroubo é tremendo - também os dias das nossas vidas gozam de favores desiguais. O de hoje, desde o prévio afã até à sua feliz consumação, pertence à última espécie e estender-se-á sem nenhum estorvo que o deslustre pelo perene tapete da memória. Apalavrada a lábia para a esplanada do Café Mainça, assim foi. O dicionário afiança mainça como mão-cheia, punhado, porção de coisas que a mão pode apanhar de uma só vez, e eu logo ali soube do apuro que iria ser rabiscar as minhas apostilhas à justa medida da sua fala.

Tenho a paixão dos livros. Não se apraz com menos: Sou viciado em livros e muitas vezes compro por impulso. Criou a sua biblioteca desde a adolescência, baseado no capital que advinha dos prémios (de desenho, alguns) que recebia desde a primária. De uma família humilde - a mãe era de Selhariz, Vidago; o pai, de Sedielos, Régua - e não sendo o livro o objecto de maior uso lá em casa, foi em contramaré que o pai, militar da GNR, lhe deixou As Minhas Memórias, o resumo de uma vida em meia dúzia de páginas. Admite que nesse legítimo desejo de assegurar a memória resulte uma certa forma de sobrevivência. Não sente o culto do livro, o do conhecimento sim. Edições antigas e caras não cultivo. O que lá está é que interessa, não é tanto o aspecto. O livro é apenas um suporte. Ao longo da vida foi deixando muitos para trás, ao Centro de Ciência Viva legou 10 000 e mesmo assim ainda estima reunir uns 50 000. Ao invés, por razão das suas relações e notoriedade dão-me sacos de livros. Cedo emigrou. Viveu em Copenhaga, Nova Orleães  e Bilbau, mas foi antes,  em Frankfurt, na Alemanha, onde aos 26 anos se doutorou, que pôde atestar o quanto a biblioteca é um modo de medir a mentalidade dos povos. Abjurando o bafio português, a Universidade Goethe, avessa a qualquer limite à requisição, era um local de porta aberta que hoje acolhe uns 15 milhões de volumes. Procuramos o infinito nos livros, essa liberdade que eu tenho nos livros e não encontro na vida real, a verdade que não somos e queremos. Que me perdoem os demais leitores, mas este, por tão alto, não haveria de se abreviar na dose da página regular - e já agora, concisa, por forjada na ideia de que se posso dizer uma coisa em poucas palavras para quê escrever muitas - até aqui ajustada. E rogo ao texto que continue.

Entra (entramos) pela casa dentro e é o espanto: o prazer estava logo ali, hiante, à nossa frente. Fiadas de lombadas coloridas em poses variadas e - não tão poucas - de trama com os espaços mais escusos. Tudo o que não há, decerto aqui se achará. Ensaios, romances, o terramoto de 1755, a história do Brasil, as invasões francesas, a obra de José Mattoso, as religiões. Até soa obscena qualquer listagem deixando tantos de fora. Num espaço contíguo que lhe serve de escritório o assombro sobrepuja o de antes, com estantes em dupla fiada, e sem mais onde se quedarem, carradas de livros em ânsias por uma migalha de vazio que ainda por aqui perdure. Parece muito confuso, mas eu sei onde está tudo. Numa mesa espera-o uma pilha com alguns que por estes dias lhe ofereceram. Enquanto fala, desembrulhando assuntos atrás de assuntos, sempre os mais inesperados, abre um maço do correio que lhe traz nova remessa. Nenhuma peia ou limite deve servir para acobardar o saber. Não há limites para o saber. A noção de portugalidade e o que é isso de ser português interessa- -o. A literatura à volta dos estrangeiros que vêm para cá - Portugal visto por olhos estrangeiros é muito mais bonitoe dos portugueses que vão para fora. Livros sobre os livros e a leitura. Tudo o que tenha o tempo e o futuro por mote.

De gostos diversificados, fala de tudo com um amor e um gosto sem par. E tanto se atreve a escrever livros infantis, como toma a direcção da vasta Obras Pioneiras da Cultura Portuguesa e da original História Global de Portugal ou até - e di-lo com grato orgulho - se lança na aventura de compor, aliado a um fotógrafo amigo também físico, um livro muito bonito sobre a Biblioteca Joanina, de que foi director sete anos. Há autores polémicos de que eu gosto e fala de Maria Filomena Mónica, Vasco Pulido Valente e António José Saraiva. Tem tudo do Eduardo Lourenço. Quanto ao facto surpreendente de alguém da ciência ter uma tão ingente paixão por livros aponta Oppenheimer, o "pai" da bomba atómica, que por nutrir um enorme gosto por línguas se aventurou a aprender sânscrito, quando não precisava nada disso para a sua vida profissional. O saber tem asas e constrói pontes, até com a física. Alegra-se em transmitir conhecimento, e divulgar ciência é favor de que não prescinde. Para além dos livros, escreve em jornais, tem podcasts e é figura comum na TV..

O tempo nunca é problema; se a pessoa quiser fazer, faz. Como lê rápido avia vários ao mesmo tempo, pois claro! Dicionários, citações e obras de referência, tem-nas perto da sua secretária e ao alcance da mão esquerda. Sobre a ideia de que está tudo na net é uma ilusão, e há pessoas que descobrem o mundo através dos livros. Sabiam que Fiolhais é um lugar? Se tirarmos Pessoa, que se vê por aqui em distintas e fartas moradas, a poesia, por ser algo de mais íntimo, acolhe-a no quarto. Nas costas da porta do seu escritório o aviso é claro: A bibliofilia é o resultado de um amor à ciência e à beleza. A descida ao piso inferior arrima mais cimento para o pasmo. Acede que procura uma certa ordem no arranjo dos temas, mas nem sempre vence. A filosofia, os clássicos, cartazes, livros de viagens, revistas, a banda desenhada (o Loustal todo) e há mesmo um cantinho (O Diabo da Biblioteca) em que o Eros ganha a palma. Camilo, Agustina, tudo do Umberto Eco todo, música, fotografia, arte, cinema, livros acerca de Portugal (um país maravilhoso) e outros até sobre o simples acto de passear. Adoro pechinchas! Também aqui deixo nota do seu arquivo pessoal com a correspondência de 40 anos, mas há que refrear o engulho da nomeação. A casa respira livros - são os livros - porque uma coisa sem animação (anima) não interessa. Neles moram o espírito crítico e a inquietação.

Não acredita na vida para além da morte e sobre o tempo: Ninguém sabe o que é, mas existe. O tempo é mudança e joga-se em duas partes: a permanência e a temporalidade. Sem renovação não se pode pensar nele. Sexo sem morte não funciona. Morrem pessoas todos os dias e o tempo continua. Vê nessa cadeia uma vida para lá da nossa - pode ser que a imortalidade assim se concretize - e isso dá-lhe conforto. morte pode ser uma benção. É belo pensar que se cada um de nós tiver feito alguma coisa terá contribuído para o tempo. Ele é maior do que nós. E depois há os livros com o mágico poder de conservar o fio da memória. O pai deixou-lhe seis páginas. Ele multiplicou-as. De Física Divertida, da Gradiva, o seu livro inicial, que desde 1991 vendeu mais de 20 000 exemplares, passando pelos três que sem prosápias me ofereceu, serão à volta de 70 os que - sozinho ou em co-autoria - já deixou escritos. Capítulos, prefácios e posfácios que aqui e ali vai, a pedido, alinhavando serão mais de 200. Quer dizer, eu não morro. Enquanto isso, agracia Montaigne e toma a leitura como uma forma de felicidade: Não faço nada sem alegria.


Abílio Guimarães

SOBRE A ESTAÇÃO ELEVATÓRIA DE COIMBRA


Introdução

Coimbra, sede de uma das mais antigas universidades portuguesas e uma das mais antigas do mundo, é uma cidade extraordinariamente rica em história e cultura.  Sobressai o papel que teve na produção e difusão de livros. Foi em Coimbra que funcionou a maior biblioteca medieval português, no Mosteiro de Santa Cruz,  é em Coimbra que está a segunda biblioteca portuguesa, a Biblioteca Geral da Universidade de Coimbra, com mais de 500 anos, que inclui a  Biblioteca Joanina, demandada por numerosos visitantes por ser considerada uma das mais belas do mundo, e uma das mais antigas e maiores bibliotecas municipais do país, foi em Coimbra que funcionaram  editores e livreiros antigos e de nomeada (João Barreira, Imprensa da Universidade de Coimbra, Atlântida, Coimbra Editora e, na actualidade, a Almedina), foi em Coimbra que se editaram famosas revistas literárias e científicas (O Instituto, Presença, etc.), e foi também nessa cidade que nasceram ou viveram grandes escritores, tanto na poesia como na prosa (no primeiro grupo Sá de Miranda, Camilo Pessanha, Eugénio de Castro, João José Cochofel, Fernando Assis Pacheco, Teolinda Gersão, Inês Pedrosa, Nuno Camarneiro, etc. e no segundo Luís de Camões?,  Pedro da Fonseca, Almeida Garrett, Antero de Quental, Eça de Queirós, António Nobre, Mário de Sá Carneiro, José Régio, Carlos de Oliveira, Fernando Namora, Miguel Torga, Joaquim Namorado, Eugénio de Andrade, Eduardo Lourenço, Virgílio Ferreira, Manuel Alegre, etc.).

E, no entanto, Coimbra está ainda a dever a si própria uma maior afirmação nacional e internacional no domínio dos livros. Por exemplo, apesar de existirem dois depósitos legais, os edifícios das suas bibliotecas são antigos, não havendo ajudas do governo central, para pensar no seu restauro ou refundação. Parece pertinente que se envidem esforços de aumento e valorização dos espólios existentes na cidade e de dinamização da vida cultural do concelho.

Um bom exemplo recente do papel das bibliotecas de proximidade que existem nalgumas cidades europeias é a a Biblioteca Gabriel Garcia Márquez, inaugurada em 2022, a 40.º biblioteca da rede municipal de Barcelona, ganhou em Agosto de 2023 o prémio para a Biblioteca pública do Ano pela Federação Internacional de Associações e Instituições de Bibliotecas (IFLA). O prédio reúne um pátio, um auditório, um estúdio de rádio e salas de leitura.

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Lisboa planeia duas novas bibliotecas municipais: a Biblioteca António Lobo Antunes com a Biblioteca Alberto Mangel com o espólios dos escritores. Está a ser considerada pela Câmara de Lisboa, sob proposta do historiador Rui Tavares, uma grande biblioteca moderna internacional dedicada a Eduardo Lourenço, que tem uma boa parte do seu espólio em Coimbra, onde ele se formou e ensinou. Outras cidades estão a renovar as suas bibliotecas, como a histórica Biblioteca Pública do Porto, com projecto de Souto Moura.  De facto, as bibliotecas podem servir para criar e reforçar centralidades, projectar as cidades e elevar os seus residentes e visitantes.

Novo projecto cultural

Com vista ao enriquecimento cultural da cidade de Coimbra – a cidade de notáveis escritores, editores, livreiros e bibliotecários –, da região Centro e do país que é manifesta por parte da Câmara Municipal de Coimbra e como inequívoca manifestação de apoio à cultura por parte da empresa Águas de Coimbra EM, foi proposta  a instalação, com o nome de ESTAÇÃO ELEVATÓRIA DE COIMBRA (EEC). de um novo equipamento cultural na cidade de Coimbra – uma biblioteca que funcione como moderno centro cultural no denominado “Museu da Água,” situado no Parque Dr. Manuel Braga, em Coimbra, gerido pela empresa Águas de Coimbra EM. A biblioteca será alimentada na sua totalidade por uma minha doação à Câmara Municipal de Coimbra / Biblioteca Municipal  de cerca de 40.000 livros, periódicos (dos quais cerca de 30% estrangeiros) e itens audiovisuais (CD, DVD, etc.).

Essa doação será feita em parte num acto inicial (cerca de 4000 itens), sendo continuada em parcelas sucessivas, a última das quais, dos livros de sua autoria e de uso pessoal, sendo apenas consumada post-mortem. Ela será feita mediante assinatura de documento jurídico, preparado pela Câmara Municipal e a  aprovado pelo executico camarário.  No futuro, virá incluir os itens que o doador venha a adquirir ou a receber.  

A condição de doação é que todos os itens doados sejam devidamente catalogados de acordo com as normas bibliográficas correntes na Biblioteca Municipal de Coimbra e por esse meio no catálogo colectivo das bibliotecas portuguesas, com o registo «Biblioteca Carlos Fiolhais», ficando acessíveis livre e gratuitamente ao público, quer presencialmente quer por empréstimo interbibliotecas ou domiciliário. O regulamento de acesso será o mesmo da Biblioteca Municipal.

A EEC deve servir como sítio de actividades culturais (apresentações de livros, tertúlias, debates, workshops, pequenos shows ligados a livros, etc.), que o doador se propõe organizar, privilegiando a ligação entre as artes, as ciências e as tecnologias, de modo a diminuir o intervalo entre as “duas culturas”. Assim, tal significa que a EEC se constitui, na prática, como um pólo da Biblioteca Municipal de Coimbra, hoje com mais de cem anos (foi fundada em 1923), de cujos serviços o doador beneficiou em jovem quando ainda funcionavam no Claustro de Santa Cruz de Coimbra, contribuindo sobremaneira para a sua formação, e que assim pretende não só reconhecer como recompensar. Dadas as limitações físicas do espaço da EEC, fica previsto que uma parte do espólio possa ficar armazenado noutro sítio, desejavelmente próximo, sendo o respectivo acesso mais demorado.

Para concretizar o projecto espera-se que as Águas de Coimbra EM, detentora do espaço, e a Câmara Municipal de Coimbra, em estreita colaboração, assegurem, para além da adaptação do espaço a biblioteca/centro cultural com adequados projectos de arquitectura e engenharia (incluindo acesso livre a Internet e  boas condições de projecção de imagem e som), a manutenção abertura  permanente do espaço entre as 10h e as 18h dos dias úteis (para além de outras aberturas extraordinárias julgadas necessárias para alguns eventos), providenciando o apoio de funcionárias/os habilitados.

Sobre o conceito da EEC

“Estação elevatória” é o nome técnico da instalação que funcionou no Parque Dr. Manuel Braga entre 1922 e 1983, para recolha de água do rio Mondego e sua distribuição para consumo domiciliário. A Casa da EEC (inicialmente denominada “Casa do Rio”, para a distinguir da Casa das Águas da Rua da Alegria) foi erigida em 1922, mas já existiam recolhas de águas nesse sítio do rio desde 1889. No início dos anos de 1980 deixou de servir, dado não só o anquilosamento tecnológico como a sua substituição pela estação elevatória da Boavista, a montante do rio, e que permitia recolher águas com maior segurança ambiental e que ainda hoje funciona (ver José Amado Mendes, História do Abastecimento de Água a Coimbra, 2 vols., Águas de Coimbra e Museu da Água de Coimbra, Coimbra, 2009). Depois de um período de abandono, o espaço foi restaurado e ampliado por iniciativa da Câmara Municipal e dos Serviços de Águas e Saneamento da cidade de Coimbra (na altura SMASC) ao abrigo do programa Polis, mediante um projecto dos arquitectos Alberto Lage (Porto, 1969) e Paola Monzio (Bérgamo, 1969), que ganhou em 2001 o prémio do concurso Polis/ European para jovens arquitectos com o Centro de Monitorização e Interpretação Ambiental de Coimbra – Museu da Água. (que acrescentou um novo edifício ao edifício histórico) e um projecto de musealização do edifício da autoria do arquitecto João Mendes Ribeiro (Coimbra, 1960). O sítio de Arqueologia Industrial encontra-se hoje bem preservado, merecendo a sua qualidade e localização uma utilização renovada.

O “Museu da Água”, que serviu como Centro de Monitorização e Interpretação Ambiental relativo à água, foi inaugurado em 22 de Março de 2007 (Dia Internacional da Água), sendo presidente da Câmara Carlos Encarnação. Foram ali realizadas várias exposições (“Condomínio da Terra”, “Caminhando sobre a Água”, “Forma d’Águas,” etc.) e oficinas, com inúmeras presenças de público escolar, para além de conversas (de água e café, de água e chá, de água e doçaria tradicional e de água e chocolate), concursos, passeios de barco, concertos (no coreto muito próximo). Parte dessa actividade, interrompida por dificuldades várias, incluindo o facto de o edifício não oferecer condições para o funcionamento de um moderno museu, será reatada com a abertura da EEC. Será completamente preservado o espírito do lugar, o que desde logo se observa na escolha do nome da nova instituição cultural. Mas, tratando-se agora de um espaço cultural com serviço de biblioteca, há uma interpretação metafórica óbvia de “Estação elevatória”: a EEC será um espaço onde os cidadãos de todas as idades, origens e condições sociais se poderão “elevar,” alimentando-se de bens culturais no ambiente único do parque que ocupa uma parte do centro da cidade. Usando as mais modernas tecnologias, será também um sítio virtual, que disponibiliza informação e serviços à distância. Um dos espaços do piso superior poderá ser usado como estúdio para gravação de podcasts.

Nesse espírito, o doador seleccionará para a primeira entrega livros nas áreas de:

1.  - Água e ambiente (nos seus múltiplos aspectos e funções: física, química, biologia, ecologia, meteorologia e clima, engenharia civil / hidráulica, ciência e tecnologia dos mares, história de viagens marítimas, etc.), reforçando a relevância da água e do ambiente no futuro da Humanidade.

2.  -   Coimbra (história, literatura, arte, ciência, tecnologia, autores e personagens locais, etc.) e, mais em geral, região Centro, reforçando a ligação de Coimbra com a sua geografia.

3.   -   Livros e bibliotecas (arte e comércio livreiro, história do livro e das bibliotecas, editores e livreiros, bibliotecas, etc.), reforçando a centralidade desse tema na cidade de Coimbra (a cidade já foi candidata a Cidade Mundial do Livro).

A «marca de água» da EEC será sempre este triângulo harmonioso “água e ambiente-Coimbra-livros”, que poderá ressaltar no logotipo a criar, pelas Águas de Coimbra EM. O doador compromete-se a colaborar com outros serviços e equipamentos da Câmara no programa cultural do município que se ligue aos vértices deste triângulo.

No entanto, a biblioteca a doar é muito polifacetada abrangendo por exemplo boas colecções de literatura nacional e estrangeira (incluindo poesia), arte (pintura, mas também fotografia), banda desenhada, ciência e tecnologia, ensaio (temas dominantes: história da ciência, história de Portugal, prospectiva, portugalidade, emigração, religião (principalmente jesuítas, judaísmo e relações religião-ciência), biblioteconomia, educação, etc.). O número de periódicos nacionais e estrangeiros é muito significativo. A colecção de discos digitais com músicas (principalmente música clássica e jazz) e filmes (tanto ficção como documentários) é também ampla e variada.

NOVIDADES DA GRADIVA

 

Novidades Gradiva Abril de 2024 | Já disponível: "Dia", de Michael Cunningham. De €18,50 por €16,65.

5 de Abril de 2019

Num aconchegante prédio de Brooklyn, a aparente felicidade doméstica começa a ruir. Dan e Isabel, marido e mulher, têm uma relação desgastada já sem o fogo da paixão inicial. O irmão mais novo de Isabel, Robbie, desencadeia paixões dentro da própria família. Alma rebelde da estrutura familiar, a morar no sótão da casa da irmã, Robbie procura esquecer a ruptura com o seu mais recente namorado criando um perfil fantasioso nas redes sociais. Nathan, o filho do meio do casal, tem 10 anos e tenta dar os primeiros passos na sua independência, enquanto a sua irmã, Violet, de cinco anos, faz o possível por entender as subtilezas do mundo dos adultos.

 

5 de Abril de 2020

Quando o mundo entra em confinamento, o apartamento da família mais parece uma prisão. Violet tem medo de deixar as janelas abertas, obcecada com a segurança, enquanto Nathan boicota as regras impostas. Isabel e Dan trocam ataques velados e suspiros frustrados. Robbie está preso na Islândia, sozinho numa cabana na montanha, tendo por companhia os seus pensamentos, as suas leituras e… uma vida secreta no Instagram.

 

5 de Abril de 2021

Saída de uma crise, a família enfrenta uma realidade nova e muito diferente - com o que aprenderam, tentam identificar o que perderam e reflectem acerca do caminho a seguir.

Já disponível: "O Fim da Vergonha", de Vicente Valentim. De €13,00 por €11,70.

Nos últimos anos, os partidos de direita radical tornaram-se actores políticos centrais na maior parte dos países europeus. O que explica o aumento do sucesso eleitoral destes partidos? Se a mudança das ideias políticas é um processo particularmente lento, porque crescem eles tão depressa, parecendo vir «do nada»? A resposta, como argumenta Vicente Valentim neste seu primeiro livro, está no facto de grande parte das pessoas que expressam actualmente o seu apoio à direita radical já terem antecipadamente essas ideias em privado, não tendo até agora à-vontade para o manifestarem em público por causa da pressão social.

O FIM DA VERGONHA – Como a direita radical se normalizou de Vicente Valentim, doutorado em Ciência Política pelo Instituto Universitário Europeu, em Florença, resulta da adaptação para português do seu primeiro livro ­The Normalization of the Radical Right, que será publicado em inglês pela prestigiada editora Oxford University Press ainda em 2024.

Vencedor de vários prémios, nomeadamente o Prémio Jean Blondel, atribuído pelo European Consortium for Political Research para a melhor tese escrita na Europa no domínio da Ciência Política, o trabalho de doutoramento de Vicente Valentim é já considerado um texto de referência para todos os que pretendem compreender um dos mais relevantes fenómenos políticos da actualidade.

Já disponível: "Alix Senator, vol. 11: O Escravo de Khorsabad", de Jacques Martin, Valérie Mangin, Thierry Démarez. De €20,99 por €18,89.

Roma, ano 11 a. C. O imperador Augusto é todo­ ­poderoso. Alix tem mais de cinquenta anos e é senador. 

Regressando ao território do seu passado, Alix é raptado por um grande senhor parto. Para reacender a guerra com Roma, o governante precisa de ouro, na verdade, de muito ouro. Segundo acredita, Alix será a última pessoa a conhecer o esconderijo do tesouro perdido em Khorsabad, a cidade onde o gaulês foi escravizado no início das suas aventuras. Alix, com a ajuda de um companheiro que se parece com Enak, mais jovem, consegue escapar. Forçado a refugiar-se nas ruínas de Khorsabad, tornar-se-á ele o último escravo da cidade amaldiçoada?

Já disponível: "Como Governar um País", de Marco Túlio Cícero. De €12,50 por €11,25.

Marco Túlio Cícero, o maior estadista e orador de Roma, foi eleito para o mais importante cargo da República Romana numa altura em que o seu bem-amado país se encontrava ameaçado por políticos sedentos de poder, problemas económicos extremos, perturbações internacionais e partidos políticos que se recusavam a trabalhar juntos. Parece-vos familiar? As cartas, os discursos e os outros escritos deste autor estão repletos de sabedoria intemporal e revelam uma visão pragmática acerca do modo como resolver estes e outros problemas de liderança e política. 

Como Governar um País colige o melhor dos escritos de Cícero sobre o tema que lhe dá título e constitui um guia acessível e prático, baseado no bom senso, para políticos e cidadãos.

E SE VOLTÁSSEMOS À DOCIMOLOGIA, OU SEJA, À CIÊNCIA DOS EXAMES?

  Em texto que antes publiquei sobre a infindável tragicomédia em que se tornou a classificação dos exames nacionais, disse que ela não se d...